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domingo, 27 de março de 2011

25/50 'Crônicas Espíritas' por Frederico Figner




Meu caro padre Dubois:

            Então não bastou o discurso do bispo Strossmayer para mostrar-lhe que a infalibilidade papal é uma farsa decretada por uma pequena maioria no tal Concílio do Vaticano e continua a crer que, ainda que tais e tais papas tivessem sido vis criminosos, eram infalíveis na doutrina?
            Mas, então, não é público e notório que eles se anatematizaram mutuamente, que um revogava os decretos do outro e que ainda o papa Pio IX, como disse o bispo Strossmayer, revogou de antemão tudo o que não estivesse de acordo com as decisões do Concílio por ele presidido?
            E o papa Bento XV não beatificou Joana d’Arc depois de ter sido declarada herege pelo papa Eugênio IV e queimada na fogueira?
            Onde, pois, a infalibilidade doutrinal que o amigo, à força, quer sustentar? Onde está a sua razão?
            Diz o amigo que, para negar a infalibilidade dos papas chego a negar a infalibilidade dos apóstolos.
            Quando é que eu sustentei a infalibilidade dos apóstolos? Nunca o fiz, pois sei que eles eram homens falíveis, como toda a criatura que à carne é sujeita.
            Não negou Pedro a Jesus? Não admoestaram os apóstolos a Paulo por pregar o batismo de João em vez da circuncisão? (Atos, cap. 21) Não repreendeu Paulo a Pedro (Cefas), quando disse: “Porque antes que chegassem os que vinham de estar com Tiago, comia ele com os gentios; mas, depois que eles chegaram, subtraía-se e separava-se dos gentios, temendo ofender os que eram circuncidados. E os outros judeus consentiram na sua “dissimulação” de sorte que ainda Barnabé foi induzido por eles àquela “simulação”. “Mas quando eu vi que eles não andavam direitamente, segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas diante de todos: “se tu, sendo judeu, vives com os gentios e não com os judeus, por que obrigas os gentios a judaizar?”(Ep. aos Gálatas, 2:11-14)
            Não demonstram esses fatos a falibilidade dos apóstolos e especialmente de Pedro sobre quem a Igreja de Roma pretende estar edificada?
            Meu caro padre Dubois, creio que isto há de bastar para tirar a última pedra do seu alicerce; se, porém, ainda ficar de pé a sua teimosia, não serei eu que me esforçarei por lha tirar, mesmo porque, como já deve estar farto de saber, as minhas conversas com V. S. não são propriamente a V. S. destinadas, e sim aos que mais do que o amigo precisam e procuram a verdade para a tranquilidade do seu espírito.
            E já que falei de Paulo, indubitavelmente o mais arrojado dos apóstolos, escute o que ele disse aos anciãos da Igreja de Éfeso, e veja se o papa e o clero católico em geral assim procedem: “Não cobiceis prata, nem ouro. Nem vestido nenhum, como vós mesmos sabeis. Porque estas mãos me serviram para as coisas que me eram necessárias a mim e aos que estão comigo.
Em tudo vos tenho mostrado que, trabalhando todos desta maneira, convém receber os enfermos, e lembrar aquelas palavras do Senhor Jesus, porquanto ele mesmo disse: “Coisa mais bem-aventurada é dar que receber.” (Atos, 20:33-35)
            Paulo, diante dos anciãos da igreja, ensina que, como ele, quem não viveu à custa da religião e sim trabalhando com as suas mãos para ganhar o pão de cada dia, assim também devem eles proceder; e em contraposição, explorando a credulidade dos povos, prometendo bem aventuranças nas quais ele mesmo acredita e a prova é que os seus atos, a toda hora, desmentem a sua crença. E o amigo não observa nada disso em Belém.
            Agora, meu amigo, não queira confundir as narrações dos evangelistas com as epístolas dos apóstolos. O Evangelho é a palavra do Cristo e as epístolas são as cartas escritas por alguns dos apóstolos. Essas cartas contêm interpretações pessoais, que longe estão da verdade, mas que tinham a sua razão de ser naquela época.
            Devido a isso, nas minhas discussões nunca cito as “Epístolas”, e, se o faço, é porque se trata de assunto que só nelas consta e nos Atos dos Apóstolos.


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