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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A diversidade de vistas...



"A diversidade de vistas é frequente numa ciência nascente e o conservadorismo tem suas vantagens. Mudar radicalmente de opinião fora insensato. É preferível um desenvolvimento lento e seguro. Alguns, divisando claramente a verdade se sentem obrigados a abraça-la de todo coração e a todo risco. Outros preferem pesquisar mais profundamente os mistérios antes de neles penetrarem, com risco de tropeçar nos escolhos. Longe de mim a ideia de julgar qual dos métodos o melhor. Cada um deve traçar a sua linha de conduta e seguir o caminho que lhe pareça mais acertado."

         Oliver Lodge (Reformador (FEB) Fevereiro 1924).


A Festa dos Tabernáculos



                        A Festa dos Tabernáculos -  Jesus e Irmãos                                                      
7,1 Depois disto, Jesus percorria a Galiléea. Ele não queria deter-se na Judeia, porque procuravam tirar-Lhe a vida. 
7,2 Aproximava-se a festa dos judeus chamada dos Tabernáculos. 
7,3 Seus irmãos disseram-Lhe: -Parte daqui e vai para a Judeia, a fim de que também os Teus discípulos vejam as obras que fazes; 
7,4  Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes estas obras, revela-Te ao mundo! 
7,5  Com efeito, nem mesmo seus irmãos acreditavam nele. 
7,6  Disse-lhes Jesus: “ -Ainda não é chegado o Meu tempo, mas, o vosso tempo sempre está pronto, 
7,7  o mundo não vos pode odiar, mas odeia-Me porque Eu tenho o testemunho contra ele, que as suas obras são más; 
7,8  Subi vós para a festa. Quanto a Mim, Eu não irei, porque ainda não chegou o Meu tempo.” 
7,9  Dito isto, permaneceu na Galileia. 
7,10  Mas, quando os Seus irmãos tinham subido, então subiu também Ele à festa, não em público, mas desapercebidamente. 
7,11  Buscavam-No os judeus durante a festa e perguntavam: - Onde está Ele? 
7,12  E, na multidão, só se discutia a respeito dele. Uns diziam: - É homem de bem! Outros, porém, diziam: - Não é, Ele seduz o povo. 
7,13 Ninguém, contudo, ousava falar Dele livremente com medo dos Judeus.

         Para  Jo (7,6), -Jesus e seus Irmãos -  tomemos “Conduta Espírita”, de André Luiz:

Conduta Espírita perante o tempo...

            - Em nenhuma condição, malbaratar o tempo com polêmicas e conversações estéreis, ocupações fantasistas e demasiado divertimento. Desperdiçar  tempo é esbanjar patrimônio divino.
           - Autodisciplinar-se em todos os cometimentos a que se proponha, revestindo-se do necessário discernimento. Fazer muito nem sempre traduz fazer bem
           - Fugir de chorar o passado, esforçando-se por reparar toda ação correta. O passado é a raiz do presente, mas o presente é a raiz do futuro.  
           - Afastar aflições descabidas com referência ao porvir, executando honestamente os deveres que o mundo lhe designa no minuto que passa. O amanhã germinará das sementes do hoje.
           - Quando possível, plasmar as resoluções do bem no momento em que surjam, de vez que, posteriormente, o campo da experiência pode modificar-se inteiramente. Ajuda menos quem tarde serve. 
           - Ainda que assoberbado de realizações e tarefas, jamais descurar o bem que possa fazer em favor dos outros. Quando procuramos o bem, o próprio bem nos ensina a encontrar o tempo de auxiliar.”                   

A Festa dos Tabernáculos - Jesus  e Irmãos      

7,14 Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao templo e pôs-se a ensinar. 
7,15 Os judeus se admiravam e diziam: -Este homem não faz estudos. Donde vem, pois, este conhecimento das escrituras? 
7,16 Respondeu-lhes Jesus:“ -A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou; 
7,17  Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se a minha doutrina é de Deus, ou se falo de mim mesmo; 
7,18 Quem fala por sua própria autoridade, busca a própria glória, mas quem procura a glória de quem O enviou, é digno de fé e Nele não há impostura alguma; 
7,19  Acaso não foi Moisés quem vos deu a lei? No entanto, ninguém de vós cumpre a lei...
7,20  Por que procurais tirar-Me a vida?”  Respondeu o povo: -Tens um espírito mal! Quem procura tirar-Te a vida? 
7,21 Replicou Jesus: “ -Fiz uma só obra,  e  todos  vós  vos  maravilhais!  
7,22  Moisés vos deu a circuncisão (se  bem que não é de Moisés, mas dos Patriarcas) e até no sábado circuncidais um homem!  
7,23  Se um homem recebe a circuncisão em dia de sábado, e isso sem violar a lei de Moisés, por que vos indignais comigo, que tenho curado os homens em todo o  corpo, em dia de sábado?”
7,24 Não julgueis conforme a aparência, mas julgai conforme a justiça!”

            Seguimos com Roustaing:

            Para Jo (7,16-19), -A minha doutrina não é minha mas daquele que me enviou, O espanto dos judeus ao ouvirem os ensinos de Jesus e isto que disseram: Como sabe este homem as letras sagradas (As Escrituras) sem as ter estudado? devem prender-vos a atenção.

            Os Judeus, efetivamente estavam muito bem certos de que Jesus não estudara. Como então que sabia as Escrituras? Que Espírito, sofrendo a encarnação material humana, pode jamais, ou pode, saber as Escrituras, sem que as tenha estudado? A resposta de Jesus, evasiva segundo a letra, resolve a questão, desde que seja entendida segundo o espírito:

            “A minha doutrina (a doutrina que prego) não é minha, mas daquele que me enviou”. Atesta, dessa forma, que sabe tudo o que dizem as Escrituras, sem as ter estudado; que sabe tudo o que ensina, por estar em relação direta com aquele que o enviou; que a sua ciência e, por conseguinte, sua natureza e sua origem são extra-humanas, não lhe vêm dos homens.

            Concita os Judeus a refletirem sobre o que diz e ensina, reportando-se ao que o homem deve fazer, segundo a lei que Moisés lhe outorgou, para obrar de acordo coma vontade de Deus cumprindo essa lei. Concita-os a que, comparando, reconheçam que a sua doutrina é de origem divina; que ele é o órgão direto do Senhor; que não busca  a vaidade das glórias humanas, mas a glória daquele que o enviou; que suas palavras são palavras de justiça, de amor e de verdade; que ele é delas a personificação mesma.

            Moisés, diz o Mestre, vos deu a lei e, entretanto, nenhum de vós a cumpre. A lei estava no Decálogo, no amor a Deus acima de todas as coisas, no amor ao próximo como a si mesmo, proclamados no Levítico e no Deuteronômio. E, nenhum dos que o ouviam cumpria a lei.
           
            Para Jo (7,20-24) -Não julgueis pela aparência e sim pela reta justiça... Do ponto de vista do ensino que, proferindo-as, dava Jesus sobre o sábado e o modo de santificar-se esse dia, já vos foi explicado...

            A circuncisão era um uso seguido pelos patriarcas, mas, voluntariamente, como medida de precaução. Moisés a tornou obrigatória, fazendo de sua prática uma lei religiosa.

            Na acusação, que lhe lançavam, de ter violado o sábado, porque praticara uma boa obra, havia apenas aparência de respeito à lei. Para os Judeus havia aparência de violação, porque houvera ato e todo ato era proibido no sábado. Mas, a justiça reta forçosamente reconheceria não haver dia algum interdito à prática do bem e que, se algum houvesse, não poderia ser o dia consagrado ao Senhor.




      A Festa dos Tabernáculos - A Origem do Messias                        

7,25 Algumas das pessoas de Jerusalém diziam: -Não é Este Aquele quem procuram tirar a vida? 
7,26  Todavia, Ei-Lo que fala em público e não Lhe dizem coisa alguma. Porventura reconhecem, de fato, as autoridades que Ele é o Cristo? 
7,27 Mas Este nós sabemos de onde vem. Do Cristo, porém, quando vier, ninguém saberá donde seja. 
7,28  Enquanto ensinava no templo, Jesus exclamou: “ -Ah! Vós me conheceis e sabeis donde Eu sou! Entretanto, não vim de Mim mesmo, mas é verdadeiro Aquele que Me enviou, e vós não O conheceis... 
7,29  Eu O conheço, porque venho Dele e Ele me enviou.” 
7,30  Procuravam prendê-Lo, mas ninguém Lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a Sua hora.


         Para Jo (7,25-30), -A Origem do Messias - leiamos a  J.-B. Roustaing em “Os Quatro Evangelhos” - 4º Volume:

            “Tendes aqui mais um testemunho da origem de Jesus e do erro em que caíram os Judeus, atribuindo uma missão humana ao Messias que esperavam. Efetivamente, contavam eles que o Messias sairia da descendência de David. Logo, não deveriam esperar que surgisse no meio deles, humanamente, sem que se soubesse donde vinha. Entretanto, assim era.

            Por efeito das interpretações humanas a que dera lugar, a predição relativa ao Messias tivera como conseqüência, como resultado, a crença expressa nesta frase:

            Quando o Cristo vier, ninguém saberá donde ele é.” A contradição que assim se patenteia não existiria, desde que houvessem aplicado essa dedução à origem espiritual extra-humana, de Jesus, como de fato se aplica inteiramente.”

            Ainda Roustaing:

            Vv. 28 e 29: “Os judeus conheciam a Jesus do ponto de vista da aparência humana. Todos sabiam qual a sua residência material. Ignoravam, porém, que nada tendo de material a sua missão, imaterial era o seu princípio. Era imaterial relativamente aos homens, porque à sua encarnação nenhuma aplicação tiveram as leis de reprodução no planeta terreno. Este fato, contudo, não estava ao alcance dos homens daquela época e mesmo dos vossos contemporâneos será mal compreendido. (Ditado mediúnico em Dezembro de 1864).

            Pela sua natureza espiritual, só Jesus, entre os homens, podia conhecer aquele que o enviara. “Eu, disse ele, o conheço, porque dele nasci e porque ele me enviou.

            Desse modo aludia à sua natureza extra-humana, à sua essência espiritual de enviado, as quais lhe permitiram ter, durante todo o curso da sua missão terrena, consciência exata da sua posição espírita, do conhecimento, que possuía, de Deus e da relação direta em que com este se achava a acha.”

            Vv.30: “Não chegara ainda a hora do sacrifício. Por meio de ação magnética e por ato da sua vontade, Jesus atua sobre os que o cercam, afastando deles a ideia de o prenderem. Se já houvera chegado a hora, não se teria subtraído à perseguição dos que lhe queriam dar a morte. Conheceis a ação da vontade do magnetizador humano sobre o homem. Deveis avaliar perfeitamente qual fosse a de Jesus, que possuía no máximo grau o poder magnético.”




quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Luz no Lar



Luz no Lar
Scheilla (Espírito)
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Dezembro 1952

Se a tempestade nos devasta as plantações, não nos esqueçamos do Espaço Divino do Lar, onde o canteiro de nossa boa vontade na vinha do Senhor, deve e pode florir para a frutificação, a benefício de todos.

Organizemos o nosso agrupamento doméstico do Evangelho.

O Lar é o coração do organismo social. Em casa, começa nossa missão no mundo.

Entre as paredes do templo familiar, preparamo-nos para a vida com todos.

Seremos, lá fora, no grande campo da experiência pública, o prosseguimento daquilo que já somos na intimidade de nós mesmos.

Fujamos à frustração espiritual e busquemos no relicário doméstico o sublime cultivo dos nossos ideais com Jesus.

O Evangelho foi iniciado na Manjedoura e demorou-se na casa humilde e operosa de Nazaré, antes de espraiar-se pelo mundo.

Não há serviço da fé viva, sem aquiescência e concurso do coração.

Se possível, continuemos trabalhando sob a tormenta, removendo os espinheiros da discórdia ou transformando as pedras do mal em flores de compreensão, suportando, com heroísmo, o clima do sacrifício, mas se a ventania nos compele a pausas de repouso, não admitamos o bolor do desânimo nos serviços iniciados.

Sustentemos em casa a chama de nossa esperança, estudando a Revelação Divina, praticando a fraternidade e crescendo em amor e sabedoria, porque, segundo a promessa do Evangelho Redentor, “onde estiverem dois ou três corações reunidos em Seu Nome” ai estará Jesus, amparando-nos para a ascensão à Luz Celestial, hoje, amanhã e sempre.

Que é que morre?


Que é que morre?
por Alberto Veiga
Reformador (FEB) Novembro 1952
(Ext. de “A Tribuna” de Santos, 26-3-52)

“Jesus, porém, lhe disse: Segue-me, e deixa os mortos sepultar seus mortos.”  Mateus, 8:22.

“La mort est le soir d'un beau jour." - LA FONTAINE  

"Nada se perde na Natureza, nada morre realmente; a morte não é mais do que um simples acidente que apenas ataca a matéria na sua forma, jamais na sua essência."

Esse apotegma da Filosofia pode e deve ser, mais do que nunca, aplicado em nossa época, tão refratária já, e porventura cada vez mais, às desconsoladoras e insubsistentes demonstrações do materialismo puro.

Nada se perde realmente, visto que a morte não é o aniquilamento definitivo, a destruição total e irremediável do ser.

Para os que admitem alguma coisa mais do que o simples revestimento corpóreo, a morte é a cessação da vida material, a ausência do fluido biocósmico, que movimenta e vitaliza o organismo humano.

O corpo é um maquinismo cujas peças são movimentadas de um movimento qualquer; quando a força que impulsiona o aparelho deixa de existir, os movimentos cessam, e o maquinismo queda inerte.

Mas para onde vai essa força? Mistério dizem os que, esmagados sob o peso da evidência, não podem negar o fato. Não há mistério, dizemos nós, como não há mistério para os que veem que o homem não é exclusivamente essa posta de carne, essa massa de fibras, de nervos e ossos, sujeita às mais rudes contingências, perecível e putrescível, quer ela tenha no homem a beleza de um Apolo de Belvedere, quer tenha na mulher a formosura de uma Vênus de Milo.

Não há mistério no destino da força que anima a matéria. Esta volta ao grande laboratório químico da Natureza, onde passa por transformações sucessivas, desagrega-se, dilui-se, gaseifica-se, evapora-se, até regressar ao espaço intérmino, em que se armazena, enchendo tudo, o fluido universal; aquela, que é a essência espiritual, inacessível às transformações da matéria, remonta, solicitada pelas leis da afinidade e da atração, à região que lhe é própria, onde reconquista a liberdade plena, a imensidade sem termo e o campo do infinito, abrindo-se em torrentes de harmonia e de luz.
           
Que morre então?
           
A matéria ponderável transforma-se, o espírito imponderável voa às regiões siderais; apenas a forma desaparece para dar lugar a outra forma e assim sucessivamente, servindo aos fins que é chamada a cumprir nossos destinos da
Criação.

Nada morre, pois, no seio do infinito vivo, isto é, nada se extingue definitivamente - e os montões de astros que rolam nas órbitas elípticas são pátrias do infinito; ao lado da imortalidade da matéria, reina como soberana a imortalidade da alma; nas ondas etéreas do fluido biocósmico como esteira de luz o fluido biopsíquico.

A alma resplandece nas radiações da matéria, e a Universidade Suprema paira, majestosa, sobre o Universo.

Que morre então? Rotos os laços que prendem a alma ao corpo, este, privado do fluido que o animava, que promovia nele o movimento, a energia, a renovação, o crescimento, passa ao estado de massa inerte, insensível, repelente (rude lição à vaidade humana!): e experimenta, pouco depois, a desintegração celular, que o torna repulsivo à vista e insuportável ao olfato.

Apolo de Belvedere, ou Vênus de Milo, dentro de poucas horas são cadáveres asquerosos, dentro de poucos dias são massas desconjuntadas: beleza, vaidade, orgulho, encantos, seduções, tudo confunde, ali, naquela papa nauseante e informe.

O túmulo, essa goela da terra, encarcera e traga o corpo; mas no bojo da terra a operação química se faz, e a matéria, já transformada, demanda situações novas exigidas por seus novos estados. Que desapareceu? A forma, meramente..

Mas a bondade, a, inteligência, a caridade, o amor, o bem, todas as grandes virtudes morais que brilhavam naqueles olhos tão belos, que se desferiam daqueles lábios tão puros, não as absorveu a campa; eram atributos das almas que animaram esses corpos e com elas se foram, lá para bem longe, lá para muito em cima, onde continuam a brilhar, onde resplandecem, bafejadas pelo sopro de Deus nas infinitas irradiações da luz.

Resta, portanto, o espírito no gozo da imortalidade. Ora, o espírito é que determina a personalidade moral. As qualidades intrínsecas do indivíduo são reveladas pelas aquisições espirituais. O que a alma é, o homem é. Pela essência e não pelo frasco é que se conhece o perfume. Tirem a alma, e o corpo irá abismar-se na campa; tirem a essência e o frasco irá confundir-se no cisco. O corpo e o frasco são envoltórios materiais em que as duas essências se contêm: desaparecidas estas, aqueles se tornam inúteis, voltam, por desagregação e transformação, ao laboratório que os produziu.

Em estrofes belíssimas, consagrou o grande alexandrista lusitano o mesmo princípio:

Toda a alma, é clarão e todo o corpo é lama.
Quando a lama apodrece inda o clarão pontua;
Tirai o corpo e fica uma língua de chama...
Tira a alma e fica um fragmento de argila.

Que morre então? Experiências repetidas provam que a matéria integra-se e desintegra-se à vontade do operador; o segredo está na educação dessa vontade, fortalecida, é claro, pelo conhecimento das ciências.

A matéria atravessa a matéria, toma diversos estados, cabendo ao sábio professor de Química William Crookes a descoberta do estado radiante. Quantos são os graus da matéria? Conhecemos desde o granito ao fluido elétrico. O engenheiro polaco Rychonowslri surpreendeu em aparelhos de sua invenção um “eletróide”, que não é senão a matéria cósmica primitiva.

Já no século XVI, Paracelso, entregue a transcendentes cogitações científicas, havia descoberto no fundo dos seus alambiques o éter que Newton julgava existir no espaço, e que ele denominou luz astral; o Barão de Reichenbach, em meados do século passado, estudando com ardor o magnetismo animal, proclamava a existência da luz ódica, fazendo assim entrever na expressão de um pensador, os refinamentos infinitos da matéria intangível.

O mistério vai-se desvendando, o milagre reduz-se a fatos positivos. A Natureza, prudente e benévola, descerra aos poucos as espessas cortinas que ocultam o santuário dos arcanos.

A matéria é suscetível de diversas densidades. Que diferença vai de uma pedra a uma pétala de rosa? Que distância existe entre uma charrua que lavra os campos e a potência elétrica, cuja corrente dá volta ao globo em menos de um segundo?

Não estão ali diferenças extremas, pontos diametralmente opostos, graus diversíssimos de intensidade potencial'? Avancemos mais, penetremos ainda nos arcanos da vida supra sensível, cheguemos mais além dos recônditos da Natureza, e acharemos novos estados da matéria, acentuando o movimento, a energia, a irradiação e a vida.

Em nossos laboratórios já se conhecem os elementos da luz pelas revelações da análise espectral, já se liquefaz o ar, já se tenta solidificar a luz do Sol.

A Ciência descobre já na atmosfera elementos de nutrição - celeiro imenso que mantém a vida a legiões inumeráveis de seres e prepara-se para demonstrar que um dia o homem “pode viver de ar alimentício”.

Não prova isto que o segredo está em condensar o fluido para que os corpos apareçam?

Não prova, ainda, que o espaço incomensurável está cheio desse fluido, que vivifica tudo e anima a matéria em todas as suas manifestações?

E se a matéria não perece, visto que, transformada, volta ao repositório em que ela adquire os primitivos elementos de vitalização, como há de perecer o gênio, que determina fatos e explica leis, que subordina e dirige forças, que avança, resolutamente para o futuro e procura desvendar todos os segredos que a Natureza encerra?

E que é esse gênio senão a própria alma superiorizada pelo estudo, pela investigação e pela análise?

*

Desenganemo-nos. Nada perece, e nada morre, a não ser o revestimento, a forma invólucro carnal, em que o Espírito, encarcerado, se debate, luta, sofre, aperfeiçoa-se: morre a forma - essa carcaça - mas rebrilha a alma - esse gnomo de luz; e o que é essa existência do corpo - um sopro - perante a existência da alma
- a eternidade?

Mortos andamos nós, os vivos mortos na vida para ressurgir vivos na morte.

Compreende-se, assim, a observação do Grande Nazareno a um dos seus discípulos, recomendando-lhe que deixasse aos mortos a incumbência de sepultar seus mortos,

Cadáveres ambulantes, amarrados ao porto das paixões, arrastamos essa existência contingente e vária, acidentada e difícil, em que somos ludíbrio das próprias ambições que inflamamos.

Após a guerra dos interesses travada em nome do egoísmo, do orgulho e da vaidade - guerra em que os vencidos crescem e os vencedores rareiam -, exaustos sucumbimos, espantados de que a maior porção do nosso esforço houvesse sido consumida em preocupações estéreis e inglórias.

E, pois, se nada morre, se o homem apenas vale, afinal, por suas obras, que representa essa legião de seres inúteis que perambulam pela Terra, escravos de suas paixões e que se abismam no túmulo sem deixar de sua passagem uma recordação perene e boa?

Se tudo vive, se o homem, juiz de si mesmo, se revê nas próprias ações, que sentença devem proferir aqueles que transitaram pelo planeta deixando sulcos profundos de maldade e de ignorância?

*

Os mortos enterram os mortos. E, entre os que vivem, quantos morrem para a liberdade e para a luz? E, entre os que morrem, quantos vivem para a justiça e para o amor?

Desce para ajudar



Desce para ajudar
Agar por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1952

Fácil é buscar os recursos da subida, embora muitos se desencantem ao primeiro contato com o pedregulho da montanha íngreme... É sempre doce planejar a ascensão e amealhar recursos para a acidentada viagem.

Promessas, abraços, carinhos, são prazeres acessíveis a todos...

Entretanto, quão poucos se lembram de “descer para ajudar”! Quão raros os corações que aprendem a apagar temporariamente a colorida lanterna dos próprios sonhos, a fim de estenderem braços amigos aos que se debatem na sombra do vale ou no lodo escuro do pântano!

Todos sabem que há ignorância, dor e miséria, onde as trevas se aninham, mas dificilmente alguém se recorda de acender alguma claridade para os que, ainda, de muito longe, lhe seguem os passos.

- Não posso! - dizem uns.
- É pecado! - clamam outros.
- Sofrerei - afirmam diversos.
- Não devo - respondem muitos.

No entanto, Jesus desceu e amparou-nos; renunciou à sublimidade dos anjos e conviveu com os homens; obscureceu a própria refulgência divina e abraçou os pecadores e os transviados na senda terrestre.

Caridade! Caridade! Não estarás ao pé das chagas que agonizam, dos trapos que choram, dos gemidos que não têm voz? Não viverás pelos braços dos justos, amenizando os padecimentos dos que se projetaram no desfiladeiro da expiação ou no berço dos que renascem sob o temporal das lágrimas no abandono e na indigência?

É por isso que o Mestre, em nos buscando na Terra, fez-se o servidor de todos...
 
Se tens, pois, na realidade, um coração corajoso, saberás descer com Ele, ajudando e ensinando, levantando e servindo, à maneira do lírio puro que desabrocha no charco sem contaminar-se, convertendo o inferno das criaturas em paraíso do bem para a glorificação do Supremo Senhor.


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Tarefa Mediúnica



Tarefa Mediúnica
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1951

Mediunidade não é instrumento barato de mágica, com que os espíritos superiores adormeçam a mente dos amigos encarnados, utilizando-os em espetáculos indébitos para a curiosidade humana.

Realmente observamos companheiros que se confiam a entidades não aperfeiçoadas, embora inteligentes, efetuando o fascínio provisório de muitos, no setor das gratificações sentimentais menos construtivas, entretanto, aí temos o encantamento temporário e nada mais.

Tarefa mediúnica, no fundo, é consagração do trabalhador ao ministério do bem. O fenômeno, dentro dela, surge em último lugar, porque, antes de tudo, representa caridade operante, fé ativa e devotamento ao próximo.

Quem busca orientação para empresas dessa ordem, procure a companhia do Cristo que não vacilou em aceitar a cruz para servir, dentro do divino amor que lhe inflamava o coração.

Ser medianeiro das forças elevadas que governam a vida é sintonizar-se com a onda sublime do Evangelho da Redenção que instituiu o “amemo-nos uns nos outros”, como Jesus se dedicou a nós, em todos os dias da vida.

A prosperidade dos sentidos superiores da alma não reside no artificialismo dos fenômenos transitórios e sim na devoção com que o discípulo da verdade se honra em peregrinar com o Mestre do perdão e da humildade, da renúncia e da vida eterna, ajudando, sem exceção, os viajores do escabroso caminho terrestre.

Se pretendes, meu irmão, um título na mediunidade que manifesta no mundo as revelações do Senhor, não te fixes tão só na técnica fenomênica; rejubila-te com as oportunidades de servir, exprimindo boa vontade no socorro  a todos os necessitados da senda humana e, renovando os sofredores e os ignorantes, os perturbados e os tristes, sob o estandarte vivo de teu coração aberto para a Humanidade, abraça-os por tua própria família! Depois disso, guarda a convicção de que te movimentas para a frente e para o alto, porque Deus, o Compassivo Pai de todos nós, virá ao teu encontro, enchendo-te a jornada de esperança, alegria e luz.


terça-feira, 27 de agosto de 2019

Três respostas



Três Respostas
Editorial
Reformador (FEB) Março 1924

Durante o ministério público de Jesus, um homem pertencente, segundo Mateus, à classe preponderante dos escribas, achegando-se ao Senhor, lhe disse:

“Mestre, eu seguir-te-ei para onde quer que fores.”

Quem destarte formulou a promessa não estava em situação de lhe compreender o alcance, nem de sentir o peso das responsabilidades decorrentes.

           Iludia-se.

Os escribas, bem sabe o leitor, eram “doutores que ensinavam a lei de Moisés e a explicavam ao povo.”

Os discípulos de Jesus, por Ele chamados - espíritos descidos para acompanha-lo na missão terrena - eram gente simples, humilde e pobre, sem posição social.

Celso os denominou vagabundos e mendigos.

Ao fazer a espontânea promessa, que os evangelistas nos transmitiram, o presunçoso letrado de Israel supôs encontrar franco acolhimento.

Talvez visasse vantagens de ordem material.

O discipulado era sacrifício pessoal, dedicação e sofrimento.

Poderia aspira-lo o escriba, seguindo o exemplo do divino Mestre?

“As raposas tem seus covis e ninhos as aves do céu; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.”

Foi esta a resposta do Senhor que, na frase evangélica, “não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois Ele bem sabia por si mesmo o que havia no homem - ipse enim sciebat quid esset in homine. (João, II, 25.)

*

Outra pessoa, segundo Lucas, veio dizer a Jesus:  

“Eu, Senhor seguir-te-ei, mas dá licença que eu vá primeiro dispor dos bens que tenho em minha casa.”

Esse irmão preestabelece condições para, em tempo futuro, satisfazer o compromisso. Precisa dispor dos bens, liquidar os negócios. Pede adiamento. Qual o prazo para essa liquidação? Como seria levada a efeito?

Durante o período dilatório, manteria o pretendente a primitiva resolução?

Poderiam surgir imprevistas dificuldades e chegar o momento do regresso à vida espiritual.

Jesus sentenciou:

“Nenhum, que mete a sua mão no arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.”

Vamos transcrever, a propósito, o seguinte ditado inserido na grande obra de ROUSTAlNG:

“É preciso que as condições pessoais, egoísticas, não te façam olhar atrás e abandonar a obra que tens de executar. Começaste a caminhar para a frente, segue teu caminho, pois parar é recuar.” (1)

(1) Os Quatro Evangelhos (trad. de Guillon Ribeiro) vol. II, pag. 54.

*

Tem sido objeto de muitos e variados comentários a resposta de Jesus ao discípulo (na versão do primeiro Evangelho) o qual lhe pedira permissão para ir enterrar o pai:

“Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.”

A feição deste artigo não nos permite acompanhar os comentadores.

O leitor poderá verificar, com facilidade, as explicações perfeitamente harmônicas, de ALLAN KARDEC e ROUSTAING. (1)

(1) A. KARDEC- O Evang. Seg. o Espirit., cap. XXIII, ns. 7 e seg.; ROUSTAING “Obra e vol. cit. P. 50 e seg..

A lição de Jesus é toda espiritual.

Observemos, de passagem, que a lei mosaica vedava ao sumo pontífice assistir a enterro, embora fosse do pai ou da mãe. (Levítico, XXI, 11)

Aos nazarenos ou nazireus foi imposto o mesmo preceito. (Números, VI, 6, 7.)

*

Em Mateus, (VIII, 19-22) e Lucas (IX, 57-62) encontram-se os textos citados acima.

Invocando-os, pretendemos acentuar a concordância entre a lição evangélica e o ensino dos Espíritos, conforme costumamos fazer nesta coluna.

O espírita, obreiro da seara, deve compreender as suas responsabilidades de crente. Não lhe é lícito recuar. Cumpre-lhe, ao contrário, executar de boa vontade a tarefa a que se obrigou.

A fé lhe não foi imposta. Adquiriu-a pelo esforço próprio.

Adotando a doutrina com as suas normas diretoras, sabe os resultados provenientes dos desvios nesta existência e na outra post mortem.

A denominada morte é passagem para a vida real - Janua vita. A encarnação é descida do Espírito à matéria, onde fica encarcerado.

O Espiritismo vem assim explicar as palavras do Senhor, que de novo
esplendem pela voz dos seus mensageiros.

Seja-nos permitido encerrar este artigo com a lição de ALLAN KARDEC:

“A vida espiritual é a verdadeira, por ser a vida normal do Espírito. A existência terrestre é apenas transitória e passageira, espécie de morte, se a compararmos ao esplendor e atividade da vida espiritual.
O corpo não passa de grosseira veste, envolvendo momentaneamente o Espírito, qual cadeia que o prende ao solo terreno, e por cuja libertação sente-se feliz. O respeito que se tem pelos mortos não se liga à matéria, mas pela lembrança ao espírito ausente... Jesus ensinou aos homens, dizendo-lhes: Não vos inquieteis com o corpo, mas pensai antes no Espírito; ide ensinar o reino de Deus; ide dizer aos homens que a sua pátria não é a Terra, mas o céu, onde somente está a verdadeira vida.”