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domingo, 30 de setembro de 2012

Palestras Espirituais



Palestras
Espirituais
Médium: S. B. S. (Sylvio Brito Soares)


            Em todos os mundos que rodopiam pela vastidão do Espaço, a verdade, como não podia deixar de ser, é uma e única, e a sua essência: o Amor!

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            Desse enunciado o homem deve, por si mesmo, concluir que lhe é imprescindível cultivar o Amor, a fim de que possa melhor compreender a sabedoria divina e ser, amanhã, legítimo cidadão do Espaço!

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            Por mais incrível que pareça, o certo, porém, é que para o homem nem sempre fácil se apresenta a tarefa de amar em plena consonância com o Evangelho.

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            E dissemos - nem sempre fácil - porque, no mundo, multíplices são os interesses a reclamarem a atenção, a atormentarem o pensamento e a exigirem dos seus habitantes um grande dispêndio de atividade,

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            É lamentável, porém, que as preocupações decorrentes desses interesses mundanos se façam sentir;, numa percentagem tão ponderável e que levem o homem a se olvidar, quase por completo, do seu interesse maior, que é o aperfeiçoamento do espírito.

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            No momento em que os interesses de ordem física não mais se possam harmonizar com os da esfera espiritual, a vida do homem, embora não seja por ele pressentido, experimenta um desequilíbrio, que irá aumentando na razão inversa do desenvolvimento de suas preocupações econômicas, políticas e sociais; da sua tendência a certos atos e atitudes incompatíveis com a dignidade do espírito.

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            Não se disponha ele a lançar mão de processos rápidos e enérgicos para que o equilíbrio se restabeleça, e em breve os germens oriundos dessas forças em desarmonia proliferar-se-ão de maneira assustadora, com graves prejuízos para o organismo espiritual.

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            Razões, aparentemente conscienciosas, apresentam o homem desequilibrado, como justificativa do seu descaso pelas coisas do espírito.

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            Criou a mentalidade de que os reclamos espirituais deverão ser atendidos mais tarde, a fim de não desviarem a sua preciosa atenção, que precisa estar inteiramente voltada para a formação de um patrimônio financeiro, garantidor de futuro tranquilo.

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            Imensa é a cegueira humana!
            Saberá alguém qual o dia prefixado pela Providência para seu reingresso no plano da espiritualidade?

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            Como é confrangedor para nossos espíritos o contemplarmos, no denominado plano de subjetividade, esses mendigos de paz, que se arrastam nas sombras de suas próprias misérias, com o pensamento acorrentado ainda aos interesses que deixaram na Terra. Pobres grilhetas do mundo!

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            Homens! conciliai os vossos afazeres em busca do pão do corpo, sem jamais menosprezardes o cultivo do Evangelho para que as vossas almas não se tornem anêmicas, apáticas e tiritantes por se haverem distanciado do Sol do Amor de Deus!

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            Lembrai-vos - de que nem só dê pão vivem os homens!

Reformador (FEB) Outubro 1947


sábado, 29 de setembro de 2012

Revogação da Lei Antiga


Revogação
da Lei Antiga



por Ismael Gomes Braga

            A Lei antiga era a Justiça em toda a sua dureza, destinada a dominar um povo bárbaro e corrupto, saído da servidão no Egito; era toda de terror e impiedade; desconhecia amor e caridade. Vemos em Deuteronômio: A quem fizer isto, apedrejai-o até que morra. A quem fizer aquilo, queimai-o vivo. Em Levítico, 20 :12: "Se um homem tomar uma mulher e a mãe dela, maldade é: serão queimados com fogo, tanto ele quanto elas, para que não haja maldade no meio de vós".

            A inferioridade moral do homem não lhe permitiu notar que a Doutrina de Jesus revogou toda aquela legislação; por isso, na triste Idade Média, a Igreja de Roma reacendeu a fogueira estabelecida em Levítico dois milênios antes.

            Naquela antiga legislação moisaica, vinha a proibição de se falar aos Espíritos. Vemos em Levítico, 19 :31: "Não vos voltareis para os que consultam os mortos ... " Em Deuteronômio, 18: 10 e 11: "Não se achará contigo quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem o que consulte a espíritos ou a um espírito familiar, nem aquele que consulte aos mortos".

            À crueldade da antiga Lei de Moisés, Jesus opôs a Lei de amor e perdão, proibiu o julgamento: "Não julgueis, para que não sejais julgados." (Mat., 7:1.)

            Toda lei revoga as disposições em contrário de lei anterior. O Evangelho é revogação da Lei Civil de Moisés, e do Pentateuco só permaneceu a Lei de Deus. Só ao Decálogo, efetivamente, se reportam os Espíritos superiores em seus comentários à Lei antiga. Depois passam logo ao Evangelho como base da moral espírita.

            Se Jesus em sua pregação revogou a Lei Civil de Moisés, o ponto que mais nitidamente ficou revogado foi a proibição de conversar com os Espíritos, acima mencionada, porque ele mesmo conversou com Moisés e Elias, como vemos em Mat. 17:1 a 4: "Seis dias depois tomou Jesus consigo a Pedro e. aos irmãos, Tiago e João, e levou-os a sós a um alto monte. Foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o Sol, e as suas vestes tornaram-se "brancas como a luz. Eis que lhe apareceram Moisés e Elias falando com ele. Pedro disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tabernáculos: um para ti, outro para Moisés e outro para Elias."

            As pessoas que ousam aplicar a Lei antiga para proibir que os homens recebam instruções dos Espíritos superiores, abandonam a autoridade de Jesus e permanecem com Moisés; logo, não se devem dizer cristãs, mas simplesmente israelitas, porque são os israelitas que não aceitam a autoridade de Jesus em oposição a Moisés.

            A prática de consultar os Espíritos, para decidir assuntos materiais, era comum entre os judeus. Temos disso uma prova no episódio relatado no Primeiro Livro de Samuel. Os filisteus armaram-se contra os israelitas e o rei destes, Saul, que havia exterminado do seu reino todos os médiuns, deseja consultar o seu antigo conselheiro, Samuel, sobre o que deveria fazer; mas Samuel já era morto e só por intermédio de um médium poderia responder a Saul.

            Eis o relato como se acha na Bíblia:

            Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma mulher que consulte a um espírito familiar, para que eu vá consultá-la , Responderam-lhe os seus servos: Há em Endor uma mulher que consulta espírito familiar.

            "Saul disfarçou-se e, tomando outros vestidos, foi, acompanhado de dois homens, e chegaram de noite a casa da mulher. Ele disse: Adivinha-me pelo espírito familiar e faze-me, subir aquele que eu te disser: Respondeu-lhe a mulher: Eis que tu sabes o que fez Saul, como exterminou da terra os que consultam espíritos ou espírito familiar; porque me estás armando um laço à minha vida, para me fazeres morrer? Saul jurou-lhe por Jeová, dizendo: Pela vida de Jeová, nenhuma culpa te sobrevirá por causa disso. Perguntou-lhe a mulher: Quem te farei subir? Respondeu ele: Faze-me subir Samuel. Quando a mulher viu a Samuel, deu um grande
grito e disse a Saul: Porque me enganaste? pois tu és Saul. Respondeu-lhe o Rei: Não tenhas medo; que vês tu? Disse a mulher a Saul: Vejo um deus subindo da terra. Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? Respondeu ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa. Entendeu Saul que era Samuel, prostrou-se com o rosto em terra e fez-lhe uma reverência.

            "Disse Samuel a Saul: Porque me inquietaste, fazendo-me subir?

            "Respondeu Saul: Estou mui angustiado, porque os filisteus me fazem guerra, e Deus se tem afastado de mim, e não me responde mais, nem por profetas nem por sonhos. Por isso te chamei, para que me fizesses saber o que hei de fazer.

            "Disse Samuel: Para que me perguntas, visto que Jeová se tem afastado de ti e se fez teu inimigo? Jeová te fez, como pela minha boca te disse; Jeová rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a David... Amanhã tu e os teus filhos estareis comigo." (I Samuel, 28:7 a 17 e 19.)

            Saul morreu em 1055 antes do Cristo. Portanto esse relato é de uma manifestação mediúnica ocorrida há três mil e três anos e foi redigida primeiramente em hebraico, depois traduzida em outras línguas antigas e finalmente em todas as línguas modernas.

            Supunham que o Espírito se achava com o corpo na sepultura e que por isso subia da terra. Hoje sabemos que é o contrário, que ordinariamente o Espírito desce a nós e não sobe a nós, como diziam. Desfeito este pequeno engano, o relato é claro e sem dúvida o mais divulgado de quantos existam sobre o assunto, porque nenhum outro livro teve tantos leitores nestes milênios como a Bíblia. Se o Espiritismo, como Doutrina, é novo, os fenômenos são tão antigos quanto a humanidade e não há meios de negá-los ou ocultá-los.

            Ao cristão é de sumo interesse lembrar que Jesus revogou a Lei antiga e deu, ele mesmo, o exemplo de conversar com Espíritos superiores.

Reformador (FEB) Agosto 1948



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Avarento



O Avarento
Abel Gomes
por F. V. Lorenz


Reformador (FEB) Setembro 1946


            Passeando pela região do Crepúsculo, aqui no mundo astral, encontrei alguns Espíritos humanos chegados da minha Pátria.

            Entre eles havia um comerciante, desencarnado já há anos, mas que ainda só pensava em dinheiro, lucros e mercadorias.

            Quando o avistei, estava ele assentado a uma secretária, contando dinheiro; peças de ouro, papel-moeda, lá se achavam em sua frente, e sorridente ele as contava. Cumprimentei-o. Ele logo estremeceu e cobriu com um pano o seu tesouro e exclamou: "Retira-te! ou eu chamo o meu cão!" Estava pálido. "Não tenhas medo de mim", disse-lhe eu; "meu amigo, não me reconheces? eu sou o Abel".

            Respondeu-me: "Queres comprar alguma coisa? à vista? Emprestar eu não empresto."

            Não vi mercadorias nem armazém; só na imaginação ele as tinha.

            Perguntou-me ele: "Mas porque vieste aqui? Hoje não é dia de visitas."

            Soprou um vento, levantou-se o pano; e nem dinheiro, nem ouro reapareceram, só havia areia e folhas secas.

            O Espírito avarento se enraiveceu: "Restitui-me o meu dinheiro, já!" - exclamou ele ameaçando-me com uma arma.

            Eu sorri: "Teu dinheiro, meu amigo, era simples aparência inútil. Não vives na Terra; por isso o ouro e o cobre não te podem aqui valer, pois que aqui só valem boas ações, boa mente e bom coração".

            Mas o avarento não me entendeu, porque de repente pôs-se a correr para um lugar onde uma coisa parecia brilhar; e eu o ouvi murmurando: "Lá está o meu ouro!" Mas chegando ao lugar brilhante, só viu um pirilampo e ficou triste, porque não era o brilho vão do ouro.

            Desejei esclarecer-lhe seu estado, porém ele fugiu de mim e não quis ouvir-me. Voltei ao meu caminho, fazendo por ele uma prece a Deus.



62. "Doutrina e Prática do Espiritismo" por Leopoldo Cirne



62  ** *


            O pensamento que, por suas incessantes vibrações, constitui no homem uma espécie de fotografia instantânea de todos os seus movimentos físicos, é ao mesmo tempo, considerado em suas fontes mais remotas, o instrumento propulsor de todos os dinamismos do universo.

            Projetando constantemente em torno de nós os nossos pensamentos, vamos de sua mesma natureza impregnando o aura fluídico em que se envolve o espírito que somos. Simultaneamente com esta ação individual, restrita no que se refere ao homem, é pela emissão de correntes de pensamentos, harmônicos ou discordes com os emitidos ab aeterno pelo Divino Foco, que os espíritos de todas as categorias, consoante à sua elevação ou inferioridade, colaboram na execução dos desígnios divinos ou contra ela buscam se insurgir, daí resultando o que, não somente em mecânica, mas nas regiões abstratas da moral, denomina-se equilíbrio.

            E é porque no aura invisível do homem se estereotipam, pela irradiação do pensamento, as suas tendências más ou boas, os seus vícios ou virtudes - casulo terrível ou benéfico que, ao desencarnar, cada um consigo leva como irrecusáveis testemunhos de sua própria baixeza ou elevação - que para os desencarnados não podem haver dissimulações da parte dos humanos. Os nossos pensamentos são assim lidos pelos espíritos como se de fato escritos em páginas abertas.

            E aqui, por mais obscuro, inextricável mesmo, que ainda nos seja o mecanismo íntimo do pensamento, uma indagação se torna indispensável. Terá ele, como atributo do espírito, uma grafia própria, ou se exprimirá obrigatoriamente, por palavras, consoante à língua familiar ao indivíduo?

            A primeira hipótese é a que, a nosso ver, reúne as melhores condições de admissibilidade, não sendo possível de outro modo explicar a correspondência universal dos espíritos entre si, pelo menos dos que compõem a nossa humanidade, para os quais seria realmente uma deplorável singularidade que subsistisse, na vida livre do espaço, a barreira moral que para os homens representa ,a diversidade das línguas, obstáculo que é a um mais perfeito entendimento e aproximação, o que importa dizer, à íntima e consciente solidariedade que os há de, por fim, um dia vincular.

            Se os espíritos, com efeito, para entre si corresponder-se, tivessem que se exprimir em línguas diferentes, em lugar da graduação natural por ordem dos respectivos méritos, que lhes determina a hierarquia, haveria a torna-los de alguma sorte estranhos uns aos outros um acidente como esse, peculiar sem dúvida ao modo de viver terrestre, analítico por natureza, como tivemos ocasião de o assinalar, mas incompatível com a tendência para a síntese, a unificação, que caracteriza a vida no espaço.

            A língua, como tantas outras convenções humanas, é um resultado da diferenciação das raças. Mas como os espíritos não se dividem em raças, senão que pertencem a uma mesma e única família, no que se refere a distinções tudo se se reduzindo para eles a uma menor ou maior evolução, segue-se que para eles não haverá  - assim pelo menos o entendemos - mais que uma linguagem, o pensamento, menos ou mais rico sem dúvida em expressões, de um lado, e em possibilidade de percepção, do outro, conforme o menor ou maior grau de evolução atingido pelo espírito.

            Há um fato, no domínio da experimentação espírita - e nunca serão para desprezar os subsídios da observação - que vem documentar até um certo ponto esta tese da universalidade do pensamento como expressão mental, fato que pelos observadores inexpertos tem sido considerado, em certos casos, um elemento negativo da autenticidade do fenômeno. E vem a ser que o espírito de um indivíduo que pertencera a uma determinada nacionalidade, ao se manifestar por um médium de nacionalidade diferente, exprime-se não em sua própria língua, mas na do intermediário de que no momento se utiliza (1).

            (1) Dentre os mais notáveis ditados desse gênero, que conhecemos, se destacam os recebidos (não todos) pelo médium Fernando de Lacerda e transmitidos por espíritos, como os de Victor Hugo, Leon Tolstoi e outros pensadores, com a mesma originalidade e opulência de estilo que tinham como homens, o que representa um positivo sinal de identidade, sobretudo se se atender a que a amplitude das ideias expressas em português pelo médium e a que na terra era peculiar àqueles espíritos, quando aqui viviam, coincidem admiravelmente.

            Ver a obra desse médium, Do PAIZ DA LUZ, 3 Vols. publicados e também, no REFORMADOR de 3 de outubro de 1911, ditado de Leon Tolstoi intitulado "A ordem na vida."

            Como explicar esse fenômeno, senão admitindo que o pensamento é transmitido de espírito a espírito, isto é, do comunicante ao do médium, em sua forma originária, e por este elaborado e traduzido nas expressões verbais da língua que lhe é familiar? Se considerarmos que, na ocorrência de toda manifestação espírita, mediante a psicografia, a incorporação, vidência, audição, etc., o espírito do médium se acha mais ou menos exteriorizado e, assim, em condições de perceber diretamente a ação dos invisíveis, não haverá dificuldade em compreendermos o fenômeno.

            Restaria a explicar o processo, o mecanismo dessa transformação do pensamento, de sua feição peculiar em forma articulada. Isso, porém, como tantos outros fatos obscuros do domínio da psicologia, há de por muito tempo ainda permanecer ignorado.  

            O que se sabe - e experiências de fotografia, que se pode chamar transcendental, o tem demonstrado, permitindo registrar na placa as efluviações (= eflúvios) ódicas (do duplo etérico) do homem - é que o pensamento, força que de si mesmo é, se traduz por vibrações, variando de forma e de tonalidade conforme a natureza das impressões e emoções que, silenciosamente mesmo, exterioriza, chegando também a reproduzir a imagem de seres e objetos sobre que persistentemente incida.

             Assim, por exemplo, se o indivíduo se acha sob o domínio de uma emoção nobre e elevada, como na prece e em todos os transportes de amor e adoração, de que é suscetível o Ego divino, o pensamento se exterioriza em forma de imponentes e luminosas espirais, como de incenso, que se elevam para o alto. Se é um impulso de cólera ou de ódio, as suas vibrações se tonalizam por cambiantes rubras ou entenebrecidas, variando por extensa escala cromática, segundo a índole das paixões que exprimem, como por seu lado o tem podido atestar videntes adestrados.

            Pensando com energia e demoradamente num objeto ou em determinado ser, projetamos no éter a sua forma, a que o pensamento, assim vigorosamente emitido,
comunica uma vitalidade fictícia e momentânea, como tivemos, no capítulo precedente, ocasião de registrar que sucedeu - é verdade que num estado de completo desprendimento - ao Dr. Wiltse, que ao pensar em anjos e demônios que, imaginava, encontraria em sua excursão extra terrestre, viu apresentarem se lhe à vista essas figuras, logo verificando embora que não eram reais, senão mero produto da imaginação.

            Se, finalmente, em lugar de convergir para seres e objetos definidos, é um raciocínio que formulamos, uma deliberação que concebemos ou, em suma, qualquer outra operação abstrata a que nos entregamos, as linhas de força, por assim dizer, desse dinamismo mental se exteriorizam e fixam em nosso aura, com a exata expressão dos pensamentos que traduzem e que, semelhantes à grafia musical, cada uma de cujas notas tem sempre significação e valor por toda parte idênticos, podem ser, graças a isso, decifrados pelas testemunhas invisíveis que nos cerquem.    

            Mas os espíritos, como o vínhamos precedentemente assinalando, não se limitam a ser espectadores silenciosos das nossas operações mentais. Pela natureza do plano a que pertencem - plano das causas, como ficou dito - não somente, por uma sistematizada sugestão, a que também fizemos referência e havemos de nos reportar ainda em capítulo adiante, intervêm na direção dos pensamentos e na realização dos humanos sucessos, senão que, operando em grandes massas, colaboram, conforme a hierarquia a que pertençam, na produção dos fenômenos que tem por cenário o próprio mundo físico. 

            Nem de outro modo se podem explicar certos fatos do Evangelho, por muito tempo aos olhos do vulgo apresentados como milagrosos, mas que, determinados por uma vontade poderosa como a de Jesus, a cujo aceno obedeciam os espíritos de todas as ordens, vem ter no conhecimento das leis e na ação dos invisíveis, que o Espiritismo patenteia, uma lógica e esclarecedora sanção.

            Está neste caso, por exemplo, o episódio da tempestade aplacada, diante do qual pode sem dúvida sorrir a Incredulidade, relegando-o, como tantos outros, para o domínio da fábula ou da lenda, mas que o estudante espírita, esclarecido sobre a verdadeira índole desta doutrina, um de cujos objetivos capitais é fornecer de todas as passagens e ensinamentos do Evangelho uma explicação minuciosa e integral, em espírito e verdade, tem tanto mais ponderoso motivo para admitir como verídico, quanto nenhum desacordo lhe observa com as leis naturais, sobretudo no que se refere à colaboração das entidades universalmente prepostas a sua execução.

            O episódio é assim, em suas linhas singelas, descrito por MATEUS (VIII, 23 a 26) :

            "Entrando ele (Jesus) em uma barca, o seguiram seus discípulos; e eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de modo que a barca se cobria das ondas. E, entretanto, ele dormia. Então se chegaram a ele seus discípulos e o acordaram, dizendo: - Senhor, salva-nos, que perecemos.
            "E Jesus lhes disse: Porque temeis, homens de pouca fé? - E, levantando-se, pôs preceito ao mar e aos ventos, e logo se seguiu uma grande bonança."

            Ora, como poderia o Cristo exercer esse império sobre os elementos, se não fossem eles movidos por inteligências capazes de perceber a sua determinação e obedecer-lhe? E onde estaria o elo dessa volição, de um lado, e dessa execução, do outro, senão no pensamento, veículo e propulsor, como o dissemos, de todos os dinamismos do universo ?  (1)

            (1) De modo idêntico, isto é, pela colaboração de espíritos obedientes às determinações do Cristo e prepostos, consoante a sua natureza, ao manejo de fluidos apropriados, se podem explicar outros fatos narrados no !Evangelho, como a pesca dita miraculosa, a multiplicação dos peixes e dos pães e mesmo o incidente dos porcos precipitados ao mar (MATEUS, VIII, 28 a 34), após a libertação, por Jesus, dos subjugados, ou possessos.

            Só o espírito é capaz de entender o espírito. Mas se já vemos, neste mesmo plano inferior em que operamos, o homem pelo poder da inteligência submeter ao seu domínio as forças vivas da natureza, captando, por exemplo, essa misteriosa e formidável energia, que é a eletricidade, e utilizando-a nas mais variadas aplicações, que haverá de extraordinário, partindo da existência dos espíritos e da universalidade de sua ação - e foi este fato que tivemos o cuidado de previamente estabelecer - que haverá de extraordinário - dizíamos - em admitir que essas inteligências, desenvolvendo correntes de pensamentos e operando sobre os fluidos que tudo, na criação, envolvem e penetram, possam produzir ou fazer cessar determinados fenômenos? Pois o que é fácil, em pequena escala, a um homem - produzir com um sopro a agitação de um líquido - não será possível aos espíritos, reunidos em massa, pelo poder do pensamento sobre os fluidos?

            A única diferença consiste em que, sob a ação das grandes e eternas leis que tudo regem no universo, a intervenção dos espíritos, qualquer que seja a órbita em que incida, jamais se opera a esmo, senão que é sempre regulada com um fim de utilidade e tendo em vista, com a harmonia do conjunto, a realização do plano providencial, que já procuramos definir nesta palavra : evolução.

            E, pois, que tudo evolui, do átomo à estrela, do infusório (seres vivos unicelulares) ao anjo, vejamos se é possível, dilatando esta incursão pelo pensamento aos remotos arcanos em que se opera a gênese dos mundos e dos seres, apreender, não decerto em toda a magnificência, o plano evolutivo - demasiado arrojo para a fragilidade do nosso entendimento - mas um esboço ao menos desse plano, em que o nosso próprio destino se contém.



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Dai de Graça



Dai
de Graça
por Juvenil Silva

            Numa das nossas habituais peregrinações  pelas consoladoras páginas dos Evangelhos, deparamos com este precioso e oportuno trecho:

            "Enquanto íamos ao lugar da oração, veio-nos ao encontro uma jovem que tinha um Espírito adivinhador, a qual com as suas adivinhações dava muito lucro aos amos.
            Ela, seguindo a Paulo e a nós, clamava: Estes homens são servos de Deus Altíssimo, que vos anunciam o caminho da salvação.
            E fazia isto por muitos dias. Mas Paulo, enfadado, virou-se para ela e disse ao Espírito:. Eu te ordeno em nome de Jesus Cristo que saias dela; e na mesma hora saiu.          
            Vendo os seus amos que se lhes havia acabado a esperança do lucro, pegaram em Paulo e Silas e arrastaram-nos para a praça à presença das autoridades." (Atos, XVI; v. 16, 17, 18, 19)

            Assim, Paulo não só rejeitou o que lhe poderia parecer uma ajuda formal, pois a mulher em questão não cessava de clamar que ele e seu círculo se achavam na graça de Deus, e, portanto, no caminho da salvação, como ainda a puniu com a perda da mediunidade, da qual tão mau uso fizera, desde que visava sempre "dar muito lucro aos seus amos".

            Isso se passou há dois mil anos. Hoje as coisas não são muito diferentes.      

            Essa narrativa dos Atos dos Apóstolos, aplicada ao que observamos no domínio da religiosidade contemporânea, leva-nos a condenar, igualmente, certa categoria de médiuns interesseiros que, apesar de trazerem sempre nos lábios os nomes de Deus e do Cristo, são, entretanto, incapazes de dar um passo em prol de seus semelhantes, sem prévio ajuste de preço. Sabemos, felizmente, não ser grande o número dos que assim procedem, negando dar de graça os benefícios de uma faculdade que lhes é concedida sem quaisquer ônus. Esses estão acumulando dívidas que terão necessariamente de resgatar.

            Mas, onde o gesto de Paulo vem atingir em cheio - como um dardo que tivesse trespassado o centro do alvo - é o que se refere a certa Igreja, dita cristã, mas para a qual as chagas do Cristo são apenas a expressão do que elas possam representar como fonte de renda para aumentar os seus incalculáveis tesouros. Dizendo-se guardiã da civilização ocidental, está hoje reduzida ao que conhecemos como Jesuitismo ocidental, isso em virtude da analogia do seu procedimento com o da mulher da cidade macedônica de Felipe, a que nos referimos. Dizendo-se únicos depositários da vontade de Deus, e traço de união entre os homens e a Divindade, esses fariseus modernos não batizam, não confessam, não casam e não absolvem por meio das suas preces, sem antes ajustarem, com rigores de detalhes, os preços de tais "benefícios".

            Contra esses abusos e ludíbrios da boa fé devemos estar precavidos, sobre eles esclarecendo os que de esclarecimentos necessitem.

Reformador (FEB) Novembro 1946



61. "Doutrina e Prática do Espiritismo" por Leopoldo Cirne



61 ***


            
            Vimos precedentemente que, ao despojar-se do envoltório físico, um prazo mais ou menos longo decorre para o espírito, antes que possa este, vencida a fase de perturbação que geralmente acompanha o fenômeno da morte, se integrar na plenitude da consciência  individual e, conseguintemente, das aquisições anteriores que lhe correspondem.  

            Franqueado esse passo, isto é, dissipada aquela espécie de letargia, que o mantivera inconsciente na fronteira dos dois mundos, é que começa verdadeiramente para o espírito a existência espiritual, em cujos elevados, dignificadores e transcendentes misteres vai novamente ser iniciado.

            Em que irão daí em diante consistir as suas ocupações? - Tal foi a pergunta que, muito atrás deixamos formulada, mas que a necessidade de outros desenvolvimentos, reclamados pela conexão dos assuntos que se foram logicamente sucedendo, nos induziu a deixar até agora sem resposta.
           
            Desembaraçado das pesadas roupagens da matéria e, portanto, da constrangedora limitação dos sentidos corporais, que lhe não permitiam mais que uma superficial e por isso mesmo ilusória apreciação do mundo exterior; transferido assim do plano dos efeitos, que é o nosso, ao das causas, em que não somente se preparam os sucessos que aqui se realizam, mas a vida ostenta os esplendores de sua gênese remota; restituído, numa palavra, a sua fonte originária, em que pode consistir a ocupação do espírito senão em se instruir?

            E essa instrução não se entende unicamente dos espíritos cuja mentalidade, volvida desde a Terra para a cogitação dos torturantes problemas da ciência e da filosofia, encontra no invisível, com um maravilhoso e ilimitado campo de pesquisas, as mais seguras possibilidades de certeza, senão que é igualmente acessível aos mais vulgares e modestos, aos que apenas decifram as primeiras singelas estrofes do poema sem fim da evolução. A uns o estudo das leis que regulam o variadíssimo e eterno ritmo da vida e, sobretudo , o conhecimento da Vontade que as mantém e de que a sua maior felicidade consistirá em se fazerem executores e instrumentos, como teremos ocasião de mais desenvolvidamente  examinar em capítulo adiante; a outros o subalterno encargo de servir as formas inferiores da atividade humana, em tudo o que tem de pessoal e transitório.

            E assim, distribuídos pelas diferentes esferas fluídicas dicas, ou etéreas, de que falávamos há pouco, umas às outras se interpenetrando, haverá para todas as categorias de espíritos ocupações apropriadas às suas aptidões, ao grau de moralidade e inteligência em que se encontrem. Podendo, sem ser vistos, misturar-se com os homens, imiscuir-se em seus atos e deliberações e com tanta facilidade se mover na atmosfera, como penetrar no seio da terra e na profundeza das águas, sem serem afetados por esses elementos, graças à permeabilidade do corpo etéreo que os reveste, compreende-se assim que múltipla atividade se acham em condições de desenvolver os espíritos, constituindo sempre, qualquer que seja a categoria a que pertençam, um campo de aprendizado e de progresso o meio em que operam.

            Nem sempre de progresso – retifiquemos. Porque, no que se refere à ação oculta sobre os homens, não é proveitosa ao adiantamento dos seres invisíveis que a exercem senão a que se inspira na grande lei do Amor e, conseguintemente, nos sentimentos de fraternidade e de solidariedade encaminhada ao bem.

            Acontece, entretanto, que, atraídos pelas paixões grosseiras que ainda em tão larga escala infelicitam a humanidade, comprazendo-se, portanto, em permanecer na atmosfera que imediatamente a envolve, saturada dos pesados eflúvios que de tais paixões constantemente emanam, a ação dos espíritos terra a terra antes se faz sentir no sentido de as reforçar, estimulando-as, com isso participando das responsabilidades dos que se constituem seus escravos, que no de as neutralizar e combater. Por fortuna, essa atividade malfazeja é contrabalançada pela dos bons espíritos, empenhados infatigavelmente em atrair os homens à consciência dos deveres e à pratica do bem, ou - para empregarmos a consagrada formula - ao caminho da regeneração.          

            E não é somente no domínio da moral - assinalemos de passagem - que se faz sentir sobre os humanos a ação dos seres invisíveis. Todos os que se aplicam aos trabalhos intelectuais - pensadores, literatos, filósofos, artistas - ou se encaminhem as suas faculdades à penetração dos segredos da natureza, como os inventores e os sábios, ou a exprimir a Verdade e o Belo em lapidares formas, contribuindo com suas obras para o patrimônio comum da civilização, todos os que; numa palavra, se constituem apóstolos ou, pelo menos, servidores do progresso humano em qualquer de suas variadíssimas modalidades, são sempre assistidos por espíritos que, simpatizando com suas aptidões, lhes transmitem, como uma sorte de estímulo e de premio ao seu labor, o que se chama inspiração" (1). 

            (1) Pretende o Dr. Gustave Geley (ver L'ÊTRE SUBCONSCIENT, págs , 107) que a Inspiração "nos homens de gênio ou de talento e pura e simplesmente o resultado da sugestão do Ser subconsciente."

            Sem desconhecermos, nem ainda menos contestarmos a parte que, nas produções do gênio, deva ser atribuída às aquisições anteriores do espírito, latentes nas profundezas da subconsciência, reivindicamos todavia para os espíritos prepostos à evolução da humanidade a intervenção que logicamente lhes deve caber no mecanismo da inspiração.

            Dá-se assim da parte dos seres desencarnados e em todas as manifestações da atividade humana uma sistemática e generalizada colaboração, de que o homem vulgar não faz a mais ligeira ideia e em que, todavia, reside a explicação da marcha ascensional, posto que jamais uniforme e não poucas vezes acidentada de perturbações e de recuos, pelo menos na aparência, que vem através os séculos realizando a humanidade e que se traduz como a emersão da nossa espécie dos ínfimos graus de embrutecida barbaria aos píncaros de uma civilização, que embora represente ainda um ideal distante, há de um dia ter na Terra a sua plenitude.

            É porque esse imenso rebanho, que nós somos, não se move ao acaso, senão que obedece a uma diretriz suprema em cujo rumo se encarregam de nos orientar desde as mais altas entidades espirituais, propostas à execução das divinas volições, até as que mais de perto nos assistem, inspiram e estimulem, que já foi possível acrescentar à ciência , como um novo ramo, a sociologia, e as suas leis puderam ser deduzidas com uma inflexibilidade aproximada ou semelhante, na ordem moral, à das que regem os fenômenos do universo físico.

            Há, pois, um plano traçado à existência e ao caminhar da humanidade, e esse plano se chama evolução. Mas a evolução não se limita nem se poderia limitar a ser uma espécie de imperativo convite a nossa espécie no sentido de um crescimento, moral pela aquisição e aumento de virtudes, e intelectual pela incessante dilatação da órbita  dos conhecimentos; abrange, e tem que forçosamente abranger, todas as formas e todas as manifestações da vida, o que importa dizer que não somente a totalidade dos seres, dos mais elevados aos mais ínfimos, que povoam o nosso mundo e constituem a sua denominada natureza viva, mas o próprio mundo, em sua estrutura física e nos elementos ditos inanimados que o integram, está sujeito a essa mesma lei.

            Tudo progride, se transforma e aperfeiçoa, a impulsos de uma vontade soberana, invisível em sua fonte, servida em todos os graus da hierarquia espiritual e planetária por inteligências a essa mesma lei.  

            De que veículo se servem tais inteligências para levar à execução o plano evolutivo? - De uma prodigiosa força, impalpável em sua essência, incalculável em suas consequências e efeitos, força que por desventura nossa não aprendemos ainda a utilizar convenientemente: o pensamento. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Parábola do Semeador (em Mateus)



A Parábola
do Semeador

13,1   “ Naquele dia, saiu Jesus e sentou-se à beira do lago.
13,2 Acercou-se Dele, porém, uma tal multidão, que precisou entrar numa barca. Nela se assentou, enquanto a multidão ficava à margem.
13,3 E seus discursos foram uma série de parábolas.
13,4 Disse Ele: “ -Eis que o semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e comeram.
13,5 Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda.
13,6 Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes.
13,7 E outra caiu em boa terra e deu fruto, um a cem ,outro a sessenta e outro a trinta. 13,8 Aquele que tem ouvidos, ouça”

            Esclarecedora a palavra de Emmanuel por Chico Xavier, no livro “Caminho, Verdade e Vida”:
           
"Semeadura -

            É razoável que todos os homens procurem compreender a substância dos atos que praticam nas atividades diárias. Ainda que estejam obedecendo a certos regulamentos do mundo, que os compelem a determinadas atitudes, é imprescindível examinar a qualidade de sua contribuição pessoal no mecanismo das circunstâncias, porquanto é da lei de Deus que toda semeadura se desenvolva.

            O bem semeia a vida, o mal semeia a morte. O primeiro é o movimento evolutivo na escala ascensional para a Divindade, o segundo é a estagnação. Muitos espíritos, de corpo em corpo, permanecem na Terra com as mesmas recapitulações durante milênios. A semeadura prejudicial condicionou-os à chamada “morte no pecado”. Atravessam os dias, resgatando débitos escabrosos e caindo de novo pela renovação da sementeira indesejável. A existência deles constitui largo círculo vicioso, porque o mal os enraíza ao solo ardente e árido das paixões ingratas.

            Somente o bem pode conferir o galardão da liberdade suprema, representando a chave única suscetível de abrir as portas sagradas do Infinito à alma ansiosa.

            Haja, pois, suficiente cuidado em nós, cada dia, porquanto o bem ou o mal, tendo sido semeados, crescerão junto de nós. de conformidade com as leis que regem a vida.”



            Para  Mt  (13,4) - Eis que o semeador saiu a semear... - lemos em “Fonte Viva” de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Todo ensinamento do Divino Mestre é profundo e sublime na menor expressão. Quando se dispõe a contar a parábola do semeador, começa com ensinamento da maior importância que vale relembrar.

            Não nos fala que o semeador deva agir, através do contrato com terceiras pessoas, e sim que ele mesmo saiu a semear. Transferindo-se a imagem para o solo do espírito, em que tantos imperativos de renovação convidam os obreiros da boa vontade à santificante lavoura da elevação, somos levados a reconhecer que o serviço do Evangelho é compelido a sair de si próprio, a fim de beneficiar corações alheios.

            É necessário desintegrar o velho cárcere do “ponto de vista” para nos devotarmos ao serviço do próximo. Aprendendo a ciência de nos retirarmos da escura cadeia do “eu”, excursionaremos através do grande continente denominado “interesse geral”. E , na infinita extensão dele, encontraremos a “terra das almas”, sufocada de espinheiros, ralada de pobreza, revestida de pedras ou intoxicada de pântanos, oferecendo-nos a divina oportunidade de agir a benefício de todos.

            Foi nesse roteiro que o Divino Semeador pautou o ministério da luz, iniciando a celeste missão do auxílio entre humildes tratadores de animais e continuando-a através dos amigos de Nazaré e dos doutores de Jerusalém, dos fariseus palavrosos e dos pescadores simples, dos justos e dos injustos, ricos e pobres, doentes do corpo e da alma, velhos e jovens, mulheres e crianças...

            Segundo observamos, o semeador do céu ausentou-se da grandeza a que se acolhe e veio até nós, espalhando as claridades da Revelação e aumentando-nos a visão e o discernimento. Humilhou-se para que nos exaltássemos e confundiu-se com a sombra a fim de que a nossa luz pudesse brilhar, embora lhe fosse fácil fazer-se substituído por milhares de mensageiros, se desejasse.

            Afastemo-nos, pois, das nossas inibições e aprendamos com o Cristo a “sair para semear”. ” 

         Para  Mt  (13,8) -Caiu em Boa Terra e deu Fruto... - lemos. em “Palavras de Vida Eterna” de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Referindo-nos à parábola do semeador, narrada pelo Divino Mestre, lembremo-nos de que o campo da vida é assim como a terra comum. Nele encontramos criaturas que expressam glebas espirituais de todos os tipos:

            Homens-calhaus... Homens-espinheiros... Homens-milhafres... Homens-parasitas... Homens-charcos... Homens-furnas... Homens-superfícies... Homens-obstáculos... Homens-palhas... Homens-sorvedouros... Homens-erosões... Homens-abismos...

            Mas, surpreendemos também, com alegria, os homens-searas, aqueles que reunindo consigo o solo produtivo do caráter reto, a água pura dos sentimentos nobres, o adubo da abnegação, a charrua do esforço próprio e o suor do trabalho constante, sabem albergar as sementes divinas do conhecimento superior, produzindo as colheitas do bem para os semelhantes.

            Reparemos a vasta paisagem que nos rodeia, através da meditação, e, com facilidade, por nossa atitude perante os outros, reconheceremos de pronto que espécie de terreno estamos sendo nós.”



'À Luz da Razão' por Fran Muniz



“À Luz da Razão”

por  Fran Muniz
 L  Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924
breve... aqui..

Fran Muniz


28 e final. 'Amor à Verdade' por Alpheu Campos


28
“Amor à Verdade”
por Alpheu Gomes O. Campos
Marques Araújo & C. – R. S. Pedro, 216
1927



Renovação

            É, positivamente, o esclarecimento das almas a antemanhã de uma nova era.

            As provas maravilhosas da sobrevivência, os fenômenos de mais em mais amiudados, os fatos insistentemente ocorridos entre a própria gente descuidada ou cética, tudo está a pedir, de modo inconfundível, um pouco de reflexão sobre os destinos humanos e a grande verdade de que além desta vida transeunte outra vida existe, mais vida, onde “nada ficará, oculto que não seja descoberto.”

            As mensagens daqueles que o Criador encarregou de educar a humanidade sucedem-se manancialmente, orientando por igual os encarnados e os desencarnados que, doutrinados no Além, necessitam voltar à Terra para sua evolução.

            Também sucedem-se, é claro, com esse movimento crescente, as provas e expiações.

            Assim, toca a buscar a razão da dor o que sofre, e cumprir seus deveres cristãos o iniciado.

            Se a um vai pesar a revolta contra o padecimento, ao outro não menos doerá o deixar demonstrar, por toda parte, pelos meios possíveis, com o exemplo e a palavra, o caminho verdadeiro.

            Os que, para progredir, precisam tomar novo corpo, são almas ainda fracas e de certo modo inexperientes: da ação dos que aqui aceitam os ensinos depende a sua sorte - o naufrágio ou a vitória, nova queda ou a falsidade. Está traçado que devem formar a base de uma sociedade melhor constituída que a presente.

            Não falirão tanto pela dor como pelo mau exemplo, que os arrastará para a desgraça. Os erros que tem conduzido os homens à desventura, muito refletirão sobre a nova camada, que só para evoluir  vem, como precursora de outra mais iluminada e forte que afinal baixará para fazer triunfar a  verdade sobre a mentira, o sentimento sobre a sensação, o espírito sobre a matéria.

            Pelo teor seguinte nos fala a esse respeito o abnegado que foi Pedro de Alcântara, tão solicito sempre em guiar-nos pela boa senda:

            “Ao infinito se desdobram os acontecimentos e suas consequências. O início foi dado com o maior sinal que ainda se notou sobre o globo - a Grande Guerra.

            Em sua sabedoria, o Pai celestial chamou, a um tempo, milhares de entes que, embevecidos no poder terreno, esqueciam que só Deus pode sabiamente distribuir, justiça e determinar acontecimentos.

            “Assim conduzidos pela dor, despertaram entre clarões, não já dos fuzis matadores, porém da luz divina, que, iluminando-os, fê-las compreender a vantagem do sofrimento, o seu poder regenerador, e que só serão felizes quando não mais causarem gemidos a  seu próximo.

            “Atualmente, estudam, observam, experimentam todas as sensações, desde as da densa atmosfera terrestre, . penosas, até as sublimes e puras dos céus. Em continuas alternativas de dor e alegria, pesquisam, para que possam, quando vestirem novo corpo físico, sentir os avisos da felicidade que lhes está reservada, bem como a todos quantos souberem amar a Deus e ao próximo.

            "Entre elas, aprendizes em sua vasta maioria, contar-se-ão mestres que as conduzam na trilha do Dever. E lá onde estanceiam os Espíritos guardiães onde, somente, o amor e a verdade podem ser conhecidos em toda a pureza, lá, um Amigo maior que todos, sábio e manso, cheio de fé nos irmãos a quem confiou a tarefa de ajudá-la, lá, o Mestre, o Filho de Deus, o que sofreu por amor dos homens, o que de seus algozes não teve senão piedade, Jesus, entre hinos e luminares, contemplará a faina, por todos orando e a todos inspirando.

            “Os encarregados, quais obreiros da primeira linha, de desbravarem o terreno e lançarem os alicerces do grande edifício, esses, filhos também abençoados pelo Pai e amados por Jesus, tendo, sob os rigores do pesado trabalho, concluído sua incumbência, serão, ao regressar, festivamente recebidos. E sua sede será saciada na água cristalina... Repousarão, para que os novos operários levem por diante a obra, que lhes apresentará mais delicados encargos.

            “Tratai, pois, de preparar o meio que deverá receber os irmãos agora convertidos e que ensaiam, neste momento, ainda na erraticidade, os seus primeiros passos no caminho maravilhoso da fé.

            “Muito vos pedimos, é exato; mas muito vos daremos. E se mais precisardes, é pedir: não se esgota a fonte eterna do Amor.”

FIM