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sábado, 30 de março de 2013

Papai, o que é a Páscoa?





Papai, o que é a Páscoa?
                                 por Luiz Fernando Veríssimo


- Papai, o que é Páscoa?

- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!

- Igual ao Natal?

- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus,   e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

- Ressurreição?

- É, ressurreição. Marta, vem cá!

- Sim...

- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

 - Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. 

Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?

- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um  coelho?

- O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu!

- Nem parece que esse menino foi batizado! - Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos.

- Até parece que não lhe demos uma educação cristã !

- Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe!

- Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

 - Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?

 - É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

 - O Espírito Santo também é Deus?

 - É sim.

 - E Minas Gerais?

 - Sacrilégio!!!

 - É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

 - Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, Nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

 - Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

- Coelho bota ovo?

- Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?

- Era... era melhor sim... ou então urubu.

- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia ele morreu?

- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

- Que dia e que mês?

- (???)

- Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!

- Não três dias depois.

- Então morreu na Quarta-feira.

- Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois!

 - Como?

 - Pergunte à sua professora de catecismo!

- Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?

 -É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

- O Judas traiu Jesus no Sábado?

- Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!

- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?

- Ai...

-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

- Cristo. Jesus Cristo.

- Só?

- Que eu saiba sim, por quê?

- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?

- Ai coitada!

- Coitada de quem?

- Da sua professora de catecismo!



Com o humor renovado com essa página do Veríssimo, é hora de coisa séria... Leiamos a Zêus Wantuil que escreveu o texto abaixo explicando, com seriedade e lógica, a verdade sobre a...


 Santíssima Trindade



por Zêus Wantuil
 Reformador (FEB),  Agosto 1947

            “Porque três são os que testificam (no céu: o Pai, o Verbo, e o Espírito-Santo; e  estes três são um. E três são os que testificam na terra): o espírito e a água, e o sangue; e os três concordam num. I Epístola de João 5:7-8.

            O trecho dos três testemunhos celestes constitui a base em que se apoia a teologia católica para justificativa do dogma da Santíssima Trindade.

            Examinemos, agora, se o trecho entre parênteses figurava no texto primitivo, ou se foi uma interpolação introduzida nos manuscritos da Vulgata Latina.

            Com sinceridade que deve presidir-nos à crítica, apoiar-nos-emos em obras da Igreja Católica, principalmente no “Dictionnaire de la Bible”, publicado por F. Vigouroux, obra aprovada por S.S. Leão XIII e na “The Catholic Enclyclopedia”.

            Dividindo os assuntos, teremos:

            1º)       Manuscritos gregos: Em todos os manuscritos gregos até hoje conhecidos, e que tem sido conferidos, não há senão quatro que contêm o fragmento controvertido, aliás todos os quatro escritos em cursivos, e de data relativamente recente.

            O mais antigo, o cursivo 83 e 173 dos Atos, do século XI, não o tem senão na margem e com uma escritura caracteristicamente do século XVI ou XVII. O Codex Ravianus, do fim do século XVI ou começo do XVII, parece originar-se de uma cópia da edição da “Poliglota de Alcalá”. O Montfortianus,cursivo 61 dos Evangelhos, no Colégio da Trindade, em Dublin, é do começo do século XVI. A opinião geral é de que Erasmo se tenha servido deste último trabalho quando publicou a sua terceira edição do Novo Testamento em grego. O Ottobonianus 296 do Vaticanocursivo 162 dos Atos, é manuscrito grego-latino do século XV.

            Em contraposição, os Unciais (escritos em letras maiúsculas características) e grande número de cursivos não incluem o trecho em questão, bem como não o encontraremos igualmente nos manuscritos dos Epistolares gregos e nem mesmo em todas as edições impressas do ‘Velho”, pseudônimo ou cognome que se supõe ter sido dado por João Evangelista.

            Assim, quanto aos manuscritos gregos, concluiremos, em que pese à nossa incapacidade teológica, que aqueles quatro não podem ter a importância que lhes queiram dar, quer pela qualidade, quer pelo seu pequeno número e quer, sobretudo, por não terem recebido a aprovação geral dos meios religiosos, até mesmo entre os autores católicos.

            2º)       Versões: Em nenhum manuscrito da Peshitoversão siríaca doAntigo e Novo Testamento, considerada importantíssima, não só por conservar o antigo manuscrito em sua feição original, senão também em virtude da sua antiguidade (princípios do século IV), se encontra o trecho contestado; notando-se, porém, a intercalação dele quando fizeram as edições impressas, por se terem, então, baseado no texto latino da Vulgata.

            Também não encontramos o referido trecho nas respeitáveis versões siríacas de Filoxeno (fins do século IV) e nas de Harklean, nem nosmanuscritos das versões coptas e etiópicas, e nem mesmo nos antigos manuscritos armênicos, a não ser a partir do século XII, certamente por influência latina.

            Igualmente ele não consta nos antigos manuscritos latinos e nem mesmo na maioria dos antigos manuscritos da Vulgata hieronímica, mas somente duas antigas versões a reproduzem: o Monacênsis (q), do século VI ou VII, que parece o texto de que se servia Fulgêncio de Ruspe e o Spectrum(m), que falsamente atribuíram a Santo Agostinho, quando esta versão é do século VIII  ou do IX, época muito posterior a do Santo.

            Encontramo-lo, sim, na Bíblia de Teódulfo (século VIII), no Cavensis(século IX), no Toletano (século X), como também no Demidoniano (século XII), e em outros, mas sempre com transposições e variantes notáveis. Como sucedeu com os manuscritos armenianos e versões copta igualmente se deu com os manuscritos da Vulgata a partir do século XII: quase todos passaram a incluir o fragmento de que ora tratamos.

            3º)       Doutores e documentos eclesiásticos: Antes do século XII não há notícia de um único doutor grego que tenha citado a porção entre parênteses, nem mesmo em comentários às Epístolas ou em tratados teológicos sobre o “Mistério da Trindade”. Assinalaram, é bem verdade, pretensas alusões nas obras de alguns doutores gregos, mas, examinadas essas alusões, acordaram que elas se relacionavam apenas com outras passagens do Novo Testamento.

            A partir do ano 1215, após a realização do  Concílio de Latrão, obrigatoriamente os padres gregos, latinos e armênios passaram a adotar o ponto em estudo, por um acordo entre eles.

            Pelo que consta em documentos antigos, parece-nos que um único documento existe, do século III, em obra atribuída a S. Cipriano, que poderia justificar a criação do ‘mistério’, visto que nela, ao citar o versículo 30 do capítulo X, de João, ele o faz com as seguintes palavras: “Et iterum de Patre et Filio et Spiritu Sancto scriptum est. Et hi tres unum sunt”, mas isto, como vemos, é uma evidente interpolação, sendo mesmo de estranhar que, nas demais obras, não se encontre nenhum traço relativo à interpretação mística da Trindade.

            Aliás, quanto a este versículo 30, a que de passagem nos referimos, encontramos em “Síntese de O Novo Testamento”, obra recentemente publicada no Brasil, uma interpretação mais racional, visto não recorrer à interpolação, atribuída a S. Cipriano. Continuemos, porém, nossas considerações em torno do trecho da Epístola de João.

            Entre muitos dos doutores da Igreja Africana, é bem verdade que, principalmente depois do século VI, encontramos a porção contestada com divergências nas citações e, sobretudo, ... o apoio do grande doutor da África -Santo Agostinho -  que, no seu tratado “Contra Maximinum”, só se referiu ao assunto colocado fora dos parênteses, conclusão esta a que chegou Dom Sabatier, em sua “Bibliorum sac. latinoe versiones antiquoe.”

            Também S. Jerônimo (século IV) silenciou a respeito, visto que o “Prólogo às Epístolas Católicas”, que o contém e que lhe foi atribuído, está suficientemente provado não ser da sua autoria, quer pelos índices de não autenticidade, quer ainda, por lhe ser posterior em data.

            Eugène Margenot, professor de Escritura.... no grande seminário de Nanci, autor, portanto, insuspeito para os meios religiosos que respeitam a trindade, assim se expressou:

            “Se bem que se não possa afirmar, com absoluta certeza, que oConcílio de Trento (1545-1563), ao declarar autêntica a Vulgata latina, tenha englobado, nesta autenticidade extrínseca, um versículo que não foi questão, sequer uma vez, nos debates preliminares; e se bem que igualmente não se possa afirmar que os papas Sixto V e Clemente VIII, ao apresentarem à Igrejaedição oficial dessa Vulgata latina, tenham tornado obrigatório todo o conteúdo, até mesmo das passagens dogmáticas, visto que eles reconheceram que a edição não era absolutamente perfeita, o Santo Ofício, em13 de Janeiro de 1897, em sua decisão aprovada dois dias mais tarde por Leão XIII, declarou não se poder negar e nem mesmo por em dúvida a autenticidade do fragmento controvertido.”

            Como vemos, a decisão de 1867 originou-se da necessidade em que se viu a Igreja de por um ponto final nas discussões suscitadas a respeito do trecho entre parênteses da Primeira Epístola de João (Capítulo 5), discussões essas que se prolongavam através de um longo período de mais de 400 anos. Assim, para os meios católicos, que aceitam beatamente o dogma da infalibilidade papalina, o fragmento em estudo é autêntico, não o sendo, porém, para quantos que não aceitamos aquela infalibilidade.

            Todavia, é digno de registro que não estamos sozinhos, visto que em algumas das recentes edições protestantes, e até mesmo católicas, já se não vê o trecho intercalado que estudamos, certamente porque a razão se vai evidenciando, obrigando-nos a julgá-lo, como nós outros, inteiramente apócrifo.

            Nada justifica, pois, a criação do dogma da Santíssima Trindade, oriundo, evidentemente, de homens vindos do politeísmo da religião então dominante em Roma. Idealizaram-no e mais adiante lhe formaram a corte celeste, constituída de pequenos deuses, os canonizados, tudo em perfeita harmonia com o paganismo, religião da qual se adaptaram, imitando-lhe, até mesmo, toda a liturgia.

            Cujusvis hominis est errare.




Quaresma em plena Páscoa  

                 
         No mesmo dia, iam dois deles para uma aldeia de nome Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Vinham conversando um com o outro sobre tudo o que acabava de suceder. Enquanto assim falavam e conferenciavam entre si, aproximou-se deles o próprio Jesus e foi com eles. Eles, porém, estavam com os olhos tolhidos, de maneira que não o reconheceram. Perguntou-lhes ele: “Que conversas são estas que entretendes um com o outro pelo caminho?”

            Calaram-se eles, tristes. Um deles, de nome Cléofas, respondeu: “és Tu o único forasteiro em Jerusalém e ignoras o que aí se passou nestes dias?”

            “Que foi?” – inquiriu ele.

            “Aquilo que Jesus, o Nazareno – responderam-lhe. – Era um profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. Mas os sumos sacerdotes e os nossos magistrados entregaram-no à pena de morte e crucificaram-no. Nós, porém, esperávamos que fosse ele o salvador de Israel. De mais a mais, já é agora o terceiro dia que se deu tudo aquilo. Verdade é que algumas das nossas mulheres nos aterraram; tinham ido ao sepulcro, mui de madrugada; mas não acharam o corpo. E voltaram com a notícia de lhes terem aparecido anjos que declararam que ele estava vivo. Ao que alguns dos nossos foram ao sepulcro, e encontraram confirmado o que as mulheres tinham dito; a ele mesmo, porém, não o viram.” Lucas  24, 13ss



         Que dissestes, solitários viandantes?... Esperáveis que fosse o Nazareno o Redentor?... E agora vos desiludistes?... por que?... por que sofreu e morreu?

            Que é da vossa filosofia, insensatos pessimistas?...

            Redentor seria o Nazareno se a si mesmo se redimisse do sofrimento e da morte?

            Redentor, se expulsasse para além das fronteiras o invasor estrangeiro?

            Redentor, se reestabelecesse a independência política de Israel e o esplendor do reino davídico?

            Quando compreendereis o absurdo desta vossa filosofia?

        
Huberto Rohden
in “Em Espírito e Verdade”
Edição da Revista dos Tribunais, SP – 1941  



quarta-feira, 27 de março de 2013

Aprendizes e Adversários



Aprendizes
e Adversários
Irmão X
por Chico Xavier
Reformador (FEB)  Julho 1955

Jonathan, Jessé e Eliakim, funcionários do Templo de Jerusalém, passando por Cafarnaum, procuraram Jesus no singelo domicílio de Simão Pedro.

Recebidos pelo Senhor, entregaram-se, de imediato, à conversação.

- Mestre - disse o primeiro -, soubemos que a tua palavra traz ao mundo as Boas Novas do Reino de Deus e, entusiasmados com as tuas concepções, hipotecamos ao teu ministério o nosso aplauso irrestrito. Aspiramos, Senhor, à posição de discípulos teus... Não obstante as obrigações que nos prendem ao Sagrado Tabernáculo de Israel, anelamos servir-te, aceitando-te as ideias e lições, com as quais seremos colunas de tua causa na cidade eleita do Povo Escolhido... Contudo, antes de solenizar nossos votos, desejamos ouvir-te quanto à conduta que nos compete à frente dos inimigos...

- Messias, somos hostilizados por terríveis desafetos, no Santuário - exclamou o segundo -, e, extasiados com os teus ensinamentos, estimaríamos acolher-te a orientação.

- Filho de Deus - pediu o terceiro -, ensina-nos como agir ...

Jesus meditou alguns instantes, e respondeu:

- Primeiramente, é justo considerar - nossos adversários como instrutores. O inimigo vê junto de nós a sombra que o amigo não deseja ver e pode ajudar-nos a fazer mais luz no caminho que nos é próprio. Cabe-nos, desse modo, tolerar lhes as admoestações, com nobreza e serenidade, tal qual o ferro, que após sofrer, paciente, o calor da forja, ainda suporta os golpes do malho com dignidade humilde, a fim de se adaptar à utilidade e à beleza.

              Os visitantes entreolharam-se, perplexos, e Jonathan retomou a palavra, perguntando:

- Senhor, e se somos injuriados?

- Adotemos o perdão e o silêncio - disse Jesus. - Muita gente que insulta é vítima de perturbação e enfermidade.

- E se formos perseguidos? - indagou Jessé.

Utilizemos a oração em favor daqueles que nos afligem, para que não venhamos a cair no escuro nível da ignorância a que se acolhem.

- Mestre, e se nos baterem, esmurrarem? - interrogou Eliakim. - Que fazer se a violência nos avilta e confunde?

- Ainda assim - esclareceu o brando interpelado -, a paz íntima deve ser nosso asilo e o amor fraterno a nossa atitude, porquanto, quem procura seviciar o próximo e dilacerá-lo está louco e merece compaixão.

- Senhor - insistiu Jonathan -, que resposta oferecer, então, à maledicência, à calúnia e à perversidade?

O Cristo sorriu e precisou:

- O maledicente guarda consigo o infortúnio de descer à condição do verme que se alimenta com o lixo do mundo, o caluniador traz no coração largas doses de fel e veneno que lhe flagelam a vida, e o perverso tem a infelicidade de cair nas armadilhas que tece para os outros. O perdão é a única resposta que merecem, por que são bastante desditosos por si mesmos.

- E que reação assumir perante os que perseguem? - inquiriu Jessé, preocupado.

- Quem persegue os semelhantes tem o espírito em densas trevas e mais se assemelha ao cego desesperado que investe contra os fantasmas da própria imaginação, arrojando-se ao fosso do sofrimento. Por esse motivo, o socorro espiritual é o melhor remédio para os que nos atormentam...

- E que punição reservar aos que nos ferem o corpo, assaltando-nos o brio? - perguntou Eliakim, espantado. - Refiro-me àqueles que nos vergastam a face e fazem sangrar o peito...

- Quem golpeia pela espada, pela espada será golpeado também, até que reine o Amor Puro na Terra - explicou o Mestre, sem pestanejar. - Quem se rende às sugestões do crime é um doente perigoso que devemos corrigir com a reclusão e com o tratamento indispensável. O sangue não apaga o sangue e o mal não retifica o mal...

E, espraiando o olhar doce e lúcido pelos circunstantes, continuou:

- É imperioso saibamos amar e educar os semelhantes com a força de nossas convicções e conhecimentos, a fim de que o Reino de Deus Se estenda no mundo... As Boas Novas de Salvação esperam que o santo ampare o pecador, que o são ajude ao enfermo, que a vítima auxilie o verdugo... Para isso, é imprescindível que o perdão incondicional, com o olvido de todas as ofensas, assegure a paz e a renovação de tudo...

Nesse ínterim, uma criança doente chorou em alta voz num aposento contíguo. O Mestre pediu alguns instantes de espera e saiu para socorrê-la, mas, ao regressar, debalde buscou a presença dos aprendizes fervorosos e entusiastas.

Na sala modesta de Pedro não havia ninguém.



27. "Fenômenos de Materialização"



27
Fenômenos de Materialização
por   Manoel Quintão
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
 1942


Conclusões Gerais

            Escrito deliberadamente para um Congresso internacional, este trabalho haveria de conter particularidades e minúcias que o alongaram e que, supérfluas e até pueris se tornam, em sua atual aplicação e destino.

            Lá, entre irmãos estranhos ao nosso ambiente psíquico e despercebidos dos nossos hábitos e costumes; dos valores em jogo para formar um padrão novo de religiosidade, o nosso esforço bem poderia ficar encerrado com o último capítulo. Aqui, entre falangiários de têmpera mais harmonizada, porque filhos natos ou adotivos da mesma Pátria, educados e evolvidos por fatores variáveis na forma, porém idênticos no fundo e na finalidade global; aqui, ele, o nosso trabalho, carece do acréscimo de algumas considerações que o aclarem e justifiquem.

            Aceito e admitido sejamos um povo fadado a transformar o mundo pela difusão maior do Evangelho cristão à luz do Espiritismo, forçoso é cogitar dos meios mais práticos e eficientes no desempenho da grandiosa tarefa, tão certo é que, se, nesse escopo, a melhor parte diretiva pertence aos nossos Guias, nem por isso nos forramos à contribuição de nossa quota, tanto mais legitimada quanto bem entendida.

            Ora, sendo os médiuns, no sentido ortodoxo, doutrinário, os instrumentos por assim dizer vivos da Doutrina, é claro que para eles deve convergir todo o cuidado e proteção dos que se interessam pela causa da Verdade.

            Médiuns valiosos e valorosos não faltam em nosso pais; conscientes e conscienciosos de suas faculdades, máxime da aplicação dessas faculdades, poucos temos conhecido e daí o empirismo, a confusão, a arbitrariedade de métodos e processos, dos mais heteróclitos aos mais grosseiros, dos mais retumbantes aos menos honestos.

            Será uma triste contingência, uma dolorosa fatalidade radicada à natureza do Espirito, que se não corrige nem se modifica de jato - natura non facit saltus. (a natureza não dá saltos). Concordamos.              

            A ilação clássica, que os fatos e observações autorizam, é a de que os médiuns são, em tese, grandes devedores que pediram a prova do "fogo", para no fogo se depurarem.

            Por isso os vemos a miúde em luta com os maiores tropeços e dificuldades de ordem moral ou material, feridos no lar, zurzidos na sociedade, por vezes enlodados no escândalo.

            Comédias ridículas, tragédias pungentes, são frutos legítimos de mediunidades desviadas, subvertidas, em maior escala do que a muita gente poderá parecer. 

            As Sociedades e Grupos espíritas devem, portanto, cogitar primacialmente da cultura doa seus médiuns, fazendo deles e com eles um estudo especial.

            Inculcar métodos para tal fim seria pueril, de vez que cada núcleo e cada médium tem peculiaridade própria e definida, em relação com o meio ambiente.

            De resto, toda regra imposta e prefixada representaria uma coação, uma restrição dessa liberdade que é o mais belo apanágio do Espírito, e sem a qual não há mérito nem demérito. Entre nós, mesmo entre confrades esclarecidos, tem medrado a hipótese da criação oficial de regras e preceitos tendentes a legitimar o exercício da mediunidade.

            Outros procuram instituir escolas de médiuns. Respeitando-lhes o intuito, não somos de um tal parecer e neste, como em todos os problemas doutrinários que nos defrontam, achamos que um só processo se justifica e legitima, qual o do intercâmbio das boas ideias e princípios, a sua difusão intensiva em larga escala, inteligente, amorosa, persuasiva e clara... '

            Esclarecer, insinuar, convencer por todos os meios e modos ao nosso alcance, sobretudo pelo exemplo, mas nunca impor nem constranger.

             A obra real, a obra única, por assim dizer, do Espiritismo é a transformação do individuo por si e dentro de si mesmo.

            Toda arregimentação e toda cooperação deve ser espontânea, livre, consciente, natural; e tudo que o não seja será obra de artificialismo, armada ao fracasso, obra divisória e contraproducente.

            A Federação Espirita Brasileira, como entidade coletiva, propugna certamente, e tem na mais alta conta, a formação de bons médiuns, ou, antes, a adoção de processos que facilitem aos médiuns o aprimoramento e legitima aplicação de suas faculdades.