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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Augusto Elias da Silva


1982 - O Centenário
do “Reformador
por Juvanir Borges de Souza

Reformador (FEB) Dezembro 1982
           
            Soube Augusto Elias da Silva, homem simples e prático, concretizar uma aspiração não somente sua, mas de muitos espíritas de sua época.

            Desde 1865 os espiritistas brasileiros sentiam a necessidade de propagar a novel Doutrina dos Espíritos através da imprensa, essa poderosa força que há séculos vem construindo ideais e demolindo impérios. Torna-se interessante assinalar a estreita ligação entre o Espiritismo e seu movimento, desde seu surgimento, e a imprensa, compreendendo também o livro. Allan Kardec utilizou-os desde o início dos trabalhos da Codificação com real proveito na divulgação dos novos conhecimentos.

            O Brasil dos fins do século XIX era um fervilhar de ideias, conservadoras umas, revolucionárias outras. Os ideais republicanos e abolicionistas chocavam-se com a realidade, buscavam inspiração na experiência de outros povos e tornavam-se cada vez mais influentes, especialmente após a Guerra do Paraguai, com a fundação do Clube Republicano, em 1870. O conservadorismo dos partidos políticos tradicionais do império ia sendo solapado gradativamente. Culminariam os acontecimentos com a abolição da escravatura em 1888, seguindo-se-lhe a queda do império e a proclamação da República, em 1889.  

            Transplantara-se para cá a filosofia positivista de Augusto Comte, logo acolhida por alguns intelectuais influentes.

            O Espiritismo contava já com muitos adeptos, no Rio de Janeiro, na Bahia, em São Paulo e em outras províncias.

            Algumas sociedades e grupos espíritas surgiram do esforço criativo e pioneiro daqueles que iam buscar nas fontes inspiradoras da Europa, especialmente na França, a orientação inicial para a implantação dos primeiros núcleos. Mas a barreira da língua limitava a uns poucos eruditos o acesso às obras originais francesas. Em 1869 surgira na Bahia o primeiro órgão da imprensa espírita brasileira, infelizmente de pequena duração - pouco mais de um ano -, "O Echo d'AIém-Túmulo", fundado e dirigido por Luís Olímpio Teles de Menezes. A partir de 1875 aparecem as primeiras traduções das obras básicas da Codificação, graças aos esforços do médico Joaquim Car los Travassos, sob o pseudônimo de "Fortúnio". A antiga Editora Garnier incumbiu-se das edições em língua portuguesa de "O Livro dos Espíritos", "O Livro dos Médiuns" e "O Céu e o Inferno", todos em 1875; em 1876 era editado "O Evangelho segundo o Espiritismo".

            Os núcleos de estudo e prática do Espiritismo começam, então, a delinear seus rumos, com todos os percalços e dificuldades dos movimentos novos. Diferentes tendências, incompreensões, personalismos não deixaram de influir também no nascente movimento espiritista brasileiro. Muitos trabalhadores, deslumbrados diante da beleza, da vastidão e da abrangência da Doutrina, no seu tríplice aspecto de ciência, filosofia e religião, deixaram-se, contudo, envolver pelas dissensões, por inexperiência.

            Louváveis tentativas haviam sido feitas, no Rio de Janeiro, com o objetivo de propagar a Doutrina através da imprensa. Prova disso foi a "Revista Espírita", fundada e dirigida pelo Dr. Antônio da Silva Neto, vice-presidente do "Grupo Confúcio", a qual teve vida efêmera, aparecendo em 19 de janeiro de 1875 e desaparecendo ao fim de seis meses. Outro tentame foi a "Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade", que subsistiu de janeiro de 1881 a julho de 1882.

            É nesse meio tumultuado que abnegado e tenaz seareiro português, fotógrafo de profissãoAugusto Elias da Silva, idealiza, funda e faz circular o REFORMADOR" - "Orgam Evolucionista", a serviço da Grande Causa.

            "Abre caminho, saudando os homens do presente que também o foram do passado e ainda hão de ser os do futuro, mais um batalhador da paz: o "Reformador".

            Com essas palavras iniciais apresentava-se, em 21 de janeiro de 1883, o novo órgão da imprensa espírita, terminando por afirmar, peremptoriamente, em seu primeiro editorial:

            "Pelas considerações que acabamos de fazer e que constituem a nossa profissão de fé, os nossos leitores, coevos e vindouros, ficam cientes de que, alumiados pela luz da Doutrina Espírita, somos evolucionistas essencialmente progressistas."

            Batalhador da paz, à luz do Espiritismo, com vocação essencialmente progressista, eis uma legenda feliz para uma obra ciclópica, com um marco inicial visível, mas sem limitação no tempo.

            A diretriz inspirada ao fundador intimorato subsiste nos desdobramentos dos programas em que se empenharam todos os continuadores da obra, porque os compromissos assumidos são com a paz, em ação permanente, com a luz, que vem de Mais Alto e com a Doutrina que representa no mundo a revivescência da Mensagem Cristã.  

            Não importam, assim, as mil vicissitudes interpostas à jornada do lutador da paz e da luz. Importa, sim, a superação dos obstáculos, um a um, nessa sucessão dos anos, que já perfazem o primeiro centenário.

            Empenhados nessa luta permanente estão os obreiros dos dois planos da Vida. A inspiração de Cima precisa dos executores dedicados, sejam eles talentos cultivados ou simples trabalhadores de boa-vontade, mesmo portadores de imperfeições humanas.

            A trajetória secular do "Reformador" virtualmente se confunde com a própria história da Casa de Ismael[1], da qual é o porta-voz e a representação do seu pensamento.

            Suas milhares de páginas refletem o tríplice aspecto da Doutrina dos Espíritos. Sem descurar da vasta fenomenologia espírita e dos estudos científicos e filosóficos, sua inclinação natural é dar ênfase ao Espiritismo religioso, com seus aspectos morais profundamente vinculados ao Cristianismo revivido no Consolador.

            Essa face, sempre presente no "Reformador", hoje está patenteada em seu frontispício - "Revista de Espiritismo Cristão" -  como a lembrar, permanentemente, que seu objetivo primeiro é o de contribuir para a reforma moral do homem, segundo o Código deixado à Humanidade pelo Cristo de Deus.        

            Essa tarefa jamais foi fácil. Ao Mestre Divino tem custado sacrifícios e renúncias que estamos longe de compreender. A todos os seus emissários, em todas as latitudes e épocas, não têm faltado esforços e sofrimentos.

            Não seria diferente a missão do Espiritismo, o Consolador prometido, aqui ou alhures.

*

            No Brasil de hoje todos os espiritistas conhecem as dificuldades extremas para se alcançar algum progresso na porfia contra nossas imperfeições, contra o materialismo avassalador, contra o obscurantismo dogmático ou contra o preconceito científico, religioso e social. Imaginemos, então, o que teria sido esse quadro de óbices em uma época hostil, em que o ridículo era arma usual contra os espíritas, as perseguições eram aceitas com toda naturalidade e o poder político estava intimamente ligado à Igreja Romana, garantindo-lhe prerrogativas e privilégios de religião do Estado.

            Enfrentar tais dificuldades desencorajaria qualquer ânimo que não se apoiasse em têmpera rija e fé verdadeira. Augusto Elias da Silva as possuía. Por isso, concretizou seu sonho, apesar do pessimismo de muitos, impressionados com as pedras do caminho. O prognóstico para o empreendimento era o de uma vida breve e pálida, sem brilho e sem grandeza, como já ocorrera com tantos outros periódicos.

            "Não foi Elias, como alguns confrades supõem hoje, um homem inculto e incapaz de produções admiráveis, escritas ou faladas. Ao contrário, à fluência e correção da linguagem se casava um estilo pleno de beleza e vigor literários e profundo conhecimento da Doutrina dos Espíritos e de diferentes ramos do saber humano. Quem quiser dar-se ao trabalho (que traz satisfação) de averiguar o que afirmamos, basta folhear as coleções antigas do "Reformador", onde encontrará alguns dos belos e instrutivos discursos por ele pronunciados.

            Por ser Elias humilde e modesto ao extremo, por isso mesmo se retraía a ponto de não deixar se lhe conhecessem devidamente as qualidades, entre as quais a de excelente orador." ("Grandes Espíritas do Brasil", Zêus Wantuil, 2ª ed. FEB, pág. 182)

            Afora suas qualidades pessoais, entrevistas no breve trecho de seu biógrafo, o desbravador contou, sem dúvida, com a inspiração da Espiritualidade Superior, sempre presente nas realizações do Bem. Recebeu, também, a cooperação e o auxílio precioso de alguns poucos companheiros que se lhe juntaram. O então Major Francisco Raimundo Ewerton Quadros é nome que se liga ao do operoso fotógrafo português, desde a primeira hora. Os dois, dinâmicos e corajosos, não temem obstáculos.,.

            Um tem a ideia, a inspiração, a vontade firme de torná-Ia realidade. O outro a acolhe, batalha por ela, auxilia sua concretização e toma o encargo da direção conjunta.

            Essa conjugação de esforços ocorre tanto no lançamento do jornal quanto, um ano depois, na fundação da Federação Espírita Brasileira. A cooperação entre os dois é nítida, franca, leal, sem restrições nem vaidades.

            Outros poucos uniram-se ao afã da tarefa iniciada. Hoje podemos perceber que os tarefeiros desincumbiram-se de missão específica, recebida e cumprida galhardamente.

            Depois, a obra cresceu, dilatou- -se, firmou-se e ai está com seus frutos abençoados, espalhados por toda parte. Mas, a Augusto Elias da Silva, a Ewerton Quadros e a seus companheiros da primeira hora, devemos o tributo da gratidão e do reconhecimento.  

*

            Cronologicamente, afirma Zêus Wantuil, "Reformador" foi a décima folha espírita surgida no Brasil, em que pese à afirmativa de Clóvis Ramos de ter sido a oitava. ("A Imprensa Espírita no Brasil" – 1ª ed., pág, 5)

            Há muito se tornou o mais antigo periódico da imprensa espírita brasileira. Em todo o mundo, ocupa o quinto lugar em antiguidade.

            Registram os "Anais da Biblioteca Nacional" (VoI. 85) ser o "Reformador" um dos quatro periódicos surgidos no Rio de Janeiro, de 1808 a 1889, que sobreviveram até os dias de hoje. São eles, pela ordem: "Jornal do Commercio" (1827); "Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro" (1839); "Diário Oficial" (1862); 'Reformador" (1883). A exceção do "Diário Oficial", "Reformador" é o único que jamais teve interrompida sua publicação.

            Surgido aos 21 de janeiro de 1883, depois de preparativos afanosos, com recursos de seu fundador, as oficinas e a redação do pequeno jornal foram instaladas na residência de Elias da Silva, ao lado do atelier fotográfico, à Rua da Carioca nº 120, 2º andar (antiga Rua São Francisco de Assis), ali permanecendo até janeiro de 1888. Contara Elias com o Incentivo e a cooperação de sua mulher e de sua sogra, ambas espíritas.

            O jornal tinha, então, quatro páginas de textos, com o formato de 44 x 36 cm, saindo quinzenalmente. A tiragem era pequena, cerca de 300 a 400 exemplares. As assinaturas, não excedentes de duzentas, não cobriam as despesas de confecção. Boa parte das edições era distribuída graciosamente. Logo alcançou o exterior, com remessas principalmente para Portugal.

            Unidos, Elias da Silva e Ewerton Quadros imprimiram ao jornal orientação segura, fraterna e tolerante.

            Em janeiro do ano seguinte, antes de completar o primeiro aniversário, por proposta de seu fundador, "Reformador" era cedido à Federação Espírita Brasileira, sociedade fundada também por Augusto Elias da Silva. Não houve solução de continuidade na orientação do jornal, de vez que Ewerton Quadros foi eleito primeiro Presidente da nova Instituição. Em 2 de janeiro de 1884 formalizava-se a constituição da Federação, elegia-se sua primeira Diretoria e incorporava-se o jornal de Elias à FEB. Estava cumprida a parte essencial da missão de Elias da Silva e de seus coadjuvantes. Depois, viria o desdobramento da obra. Trabalho e dedicações, permanentes dificuldades e lutas constantes, alegrias e pesares.

            Como porta-voz da Federação Espírita Brasileira, "Reformador" reflete o que é a Casa de lsmael, seu programa, suas finalidades e o pensamento dos que a dirigem daqui e do Alto.

            Guillon Ribeiro, o fiel servidor e inesquecível Presidente, sintetizou bem o relevante papel desse órgão da Casa dos Espíritas, em Relatório publicado em setembro de 1940, assinalando:

            "Subordinado sempre, com absoluta fidelidade, à orientação doutrinária da instituição cujo pensamento lhe cabe exprimir, continuou ele a esforçar-se por bem servir o melhor possível à causa espírita. sem jamais dissociar do Evangelho o Espiritismo, antes timbrando invariavelmente em propagar a Terceira Revelação Cristã, sem esquecer, todavia, de dispensar a atenção devida à fenomenologia que serviu de base a estruturação da Doutrina dos Espíritos."

*

            Alinhando-se corajosamente, desde seus primórdios, como batalhador da grande causa dos escravos negros do Brasil, a última bastilha da escravatura no mundo, bateu-se pela emancipação ampla e pacífica, arrostando com denodo o reacionarismo escravocrata. Em 1888, quando pouco antes se instalara à Rua do Çlube Ginástico nº 17, hoje Rua Silva Jardim, juntamente com a Federação, via proclamada a abolição, em meio a festas memoráveis na Corte e a alegrias nos corações, coroando as justas aspirações de milhares de criaturas já cansadas de uma longa espera pela liberdade.

            Triunfara o Bem. Terminava uma campanha. Começava uma nova etapa na luta incessante em prol de uma libertação ainda maior, a do Espírito.

*

            Os anos de 1892 a 1895 foram particularmente difíceis para o Movimento Espírita brasileiro. Lavravam as divergências no seio da família espiritista. A Federação Espírita Brasileira e seu órgão atravessavam séria crise de ordem financeira, a par de dissensões e desentendimentos.

            Desanimado diante das inúmeras dificuldades, o Presidente Júlio César Leal renunciou ao cargo, em meados de 1895.

            "Foi então que as vistas dos que amavam aquela Casa, e por ela haviam empenhado os maiores sacrifícios, se voltaram para uma individualidade que, reunindo as mais peregrinas virtudes e saber a um legítimo prestígio no seio dos espíritas, parecia - e com efeito foi - a única em condições de salvar a Federação." (V. "Esboço Histórico da Federação Espírita Brasileira", ed. de 1924.)

            Essa figura apostolar e enérgica - o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes -, que fora anteriormente Diretor da FEB e Presidente em 1889, com largos serviços prestados à Causa e ao próprio "Reformador", é convidado, diríamos melhor, instado, a tomar a direção suprema da Casa de Ismael, no plano físico. Augusto Elias da Silva,  Manuel Fernandes Figueira, Alfredo Pereira, o então gerente do "Reformador", e o ex-Presidente Dias da Cruz são os emissários escolhidos para convencer Bezerra de Menezes a aceitar a Presidência. Os emissários impuseram a si mesmos, desde logo, a condição de não ocuparem qualquer cargo administrativo na nova gestão.

            Bezerra atendeu à convocação, foi eleito com poderes excepcionais na assembleia extraordinária de 3 de agosto de 1895 e empossado no cargo por Augusto Elias da Silva. Mais um relevante serviço ao Movimento Espirita prestavam Elias e seus companheiros.

            Bezerra de Menezes, com descortino e serena energia, imprimiu nova orientação aos trabalhos da Federação, com base nos estudos doutrinários e evangélicos, terminou com as tertúlias puramente literárias e com as discórdias e restabeleceu o equilíbrio financeiro necessário ao prosseguimento da obra admirável.

            A atuação de Bezerra à frente dos destinos da Federação e de seu órgão de divulgação, durante o período de cinco anos, até à sua desencarnação, foi de importância ímpar para todo o Movimento Espírita no Brasil, que se firmou, desde então, dentro de uma diretriz que o futuro iria consagrar como a do verdadeiro papel do Espiritismo no mundo.

*

            Após vinte anos de sua fundação, o jornal da Federação passou a ser impresso como revista bimensal, com 20 páginas, inicialmente, no formato de 27 x 18,5cm. Durante trinta e quatro anos, de 1903 a 1937, manteve esses característicos.

            A administração e a redação do órgão febiano mudaram de endereço sucessivas vezes, acompanhando a sede da Federação, peregrinando por salas e porões alugados, até que, em 1911, se instalaram na sede nova construída na administração de Leopoldo Cirne, à Avenida Passos, 30, endereço que se tornou conhecido de todos os espiritistas do Brasil e do exterior.

            Em 1937, estando na Presidência Guillon Ribeiro, tendo como gerente Antônio Wantuil de Freitas, a Revista torna-se publicação mensal aumentando, gradativamente, até atingir o número atual de quarenta páginas.

            Cresceu o número de assinantes, dentro e além-fronteiras. É grande a quantidade de leitores e Casas Espíritas que recebem gratuitamente a Revista. Não dispondo o leitor de recursos financeiros, não deixará de recebê-Ia, desde que manifeste sua vontade nesse sentido.

            Durante muitos anos, manteve "Reformador" rede nacional de agentes encarregados da cobrança e agenciamento de assinaturas. A partir de 1981 a trabalhosa tarefa passou a ser executada diretamente pela gerência do órgão, valendo-se dos serviços da rede bancária, com auspiciosos resultados.

            Como experiência que resultou positiva, seu Diretor Francisco Thiesen, na Presidência da FEB, em dezembro de 1975, resolveu imprimir suas capas em cores. A Revista tomou novo aspecto gráfico, com boa recepção. Antes, em 1970, o logotipo e desenho da capa haviam sido substituídos. A modernização, em matéria gráfica, é uma imposição a que estão sujeitos os meios de comunicação impressos. Na FEB não poderia deixar de haver atualização, embora ela se processe sem as prejudiciais precipitações.

            Desde 1891, sob a Presidência de Dias da Cruz e Vice-Presidência de Bezerra de Menezes, a FEB buscou levantar, junto aos espíritas, um empréstimo para compra de prédio próprio e montagem de uma oficina tipográfica destinada à impressão do "Reformador" e de obras de propaganda da Doutrina. A tentativa malogrou. Somente em 1939 o velho projeto se concretizava integralmente.  Guillon Ribeiro, o incansável Presidente, adquiriu e instalou as máquinas Impressoras próprias, nas dependências dos fundos do prédio da Avenida Passos, 30. Foi um decisivo passo à frente, um novo alento na trajetória do divulgador do Espiritismo. Graças a essa providência, as edições e reedições de livros espíritas começaram sua grande expansão.

            Com a instalação do Departamento Editorial, em 1948, em amplo edifício especialmente construído em São Cristóvão, o saudoso Presidente Wantuil de Freitas deu sólida estrutura a todo o complexo editorial da FEB. Situado na Rua Figueira de MeIo, 410, esquina da Rua Souza Valente, 17, esse prédio foi posteriormente ampliado, com dois novos pavimentos, inaugurados em 1961, sendo hoje a sede dos Departamentos Editorial e Gráfico.

            Novo surto de progresso aconteceu na década de 70, quando, sob as Presidências de Armando de Oliveira Assis e Francisco Thiesen, todo o parque gráfico foi renovado, com a adoção do sistema offset de impressão. Com a modernização beneficiaram-se o "Reformador" e seus milhares de leitores.

*

            Todos os espiritistas conhecem sobejamente a orientação editorial do órgão febiano. Servindo de mensageiro da Federação Espírita Brasileira, expressa seu pensamento e suas diretrizes. Está permanentemente a serviço do Evangelho de Jesus, à luz da Doutrina Espírita, e isto diz tudo.

            Sempre esteve na estacada, em defesa do Movimento Espírita, das Instituições Espíritas, dos espíritas, contra os ataques, as perseguições e os preconceitos de qualquer ordem ou procedência. Nessa linha de coerência, tem expressado sempre a coragem serena dos que pugnam pela prevalência da verdade, da justiça e da fraternidade entre os homens.

            Contam-se às centenas seus colaboradores, acolhendo suas páginas os nomes mais ilustres do Espiritismo em todo o mundo e em todas as épocas, os médiuns mais dedicados, a serviço da Doutrina, os escritores, os poetas, os cronistas, os críticos e os artistas, todos os que se interessam por uma cultura sã das Letras, da Arte, da Ciência e da Filosofia - a serviço do Bem.

            É evidente que, na sustentação de uma obra complexa e dinâmica, difícil, evolucionária, mas coerente, de alta significação espiritual, porém simples e sem atavios em sua apresentação material, teria o "Reformador" de assentar sua construção em "rocha firme". Do contrário não chegaria até nós, com um século de serviços relevantes.

            A que atribuir a segurança e firmeza dessa realização, quando outras, com tantas possibilidades, naufragaram a meio da travessia?

            A resposta não se torna difícil desde que atentemos em dois fatores sempre presentes na vida da Revista: em primeiro lugar, o objetivo visado e o caminho escolhido, em compromisso irrevogável com o Evangelho do Cristo, entendido em espírito, à luz do Consolador - esta é a pedra angular; em segundo, a dedicação admirável de seus servidores, dos dois planos, assim compreendidos não somente os Diretores, os sucessivos Presidentes que honraram seus compromissos com o programa de Ismael, mas também os trabalhadores dos demais escalões, os redatores, os administradores, os secretários, os gerentes, os executores de tarefas aparentemente secundárias, sem as quais não se torna possível a manutenção de um  periódico com a feição e os característicos iniludíveis da Revista da FEB, máxime por um lapso de tempo tão significativo.

            A presença do Alto, sob a forma de encorajamento e inspiração, deve-se à invariável diretriz traçada e executada. O segundo fator dependeria de servidores fiéis e dedicados.

            Neste fim do Primeiro Século e limiar de uma nova idade de "Reformador", elevamos nosso pensamento, agradecido, ao Mestre Incomparável. Lembramos, com admiração, o vulto de seu fundador, missionário que se tornou grande na humildade e na coragem, cuja visão varou o tempo, projetando-se nas claridades do futuro. Recordamos igualmente, com emoção, todos os trabalhadores sinceros que tomaram a si o dever da sustentação e continuação da obra admirável de esclarecimento espiritual, como exemplos vivos de dedicação a Ismael, o executor do programa, o preposto do Cristo.

            Aos obreiros de hoje e de amanhã, auguramos sejam dignos da confiança do Alto e saibam conduzir o facho luminoso, zelando para que jamais se extinga a sagrada chama do ideal, ao encontro da paz e da luz.

*

            Valendo-nos de recente pesquisa de nossos companheiros Zêus Wantuil e José Jorge, alinhamos abaixo, em quadro sinóptico, os nomes dos Presidentes da Federação e dos que se vincularam mais estreitamente à Revista, como seus Diretores, redatores, secretários, administradores e gerentes - os devotados obreiros que por um século vêm emprestando seus esforços e labores, construtivamente, na difusão da Doutrina dos Espíritos, a tempo e a hora.

REFORMADOR

FUNDADOR - AUGUSTO ELIAS DA SILVA

PRESIDENTES da Federação Espírita Brasileira:

Ewerton Quadros                   - 1884 a 1888
Dias da Cruz                           - 1890 a 1894
Júlio César Leal                      - 1895 (alguns meses)
Bezerra de Menezes              - 1889, 1895 a 1900
Leopoldo Cirne                       - 1900 a 1913
Aristides Spínola                    - 1914, 1916 a 1917, 1922 a 1924
Luís Barreto A. Ferreira         - 1925 a 1926
Paim Pamplona                      - 1927 a 1928
Manuel Quintão                    - 1915, 1918 a 1919, 1929
Guillon Ribeiro                       - 1920 a 1921, 1930 a 1943
A. Wantuil de Freitas             - 1943 a 1970            
Armando de O. Assis             - 1970 a 1975
Francisco Thiesen                  - 1975 até hoje

DIRETORES (Registrados no frontispício):

Manuel Quintão                     - 1915 a 1916, 1918 a 1920, 1929 a 1930
Aristides Spínola                    - 1916 a 1918, 1922 a 1925
Gulllon Ribeiro                       - 1920 a 1922, 1930 a 1943
Luís Barreto A. Ferreira         - 1925 a 1927
Paim Pamplona                      - 1927 a 1929
A. Wantuil da Freitas             - 1943 a 1970
Armando da O. Asssis            - 1970 8 1975
Francisco Thiesen                  - 1975 até hoje

DIRETOR-SUBSTITUTO:
Lauro de Oliveira S. Thiago   - 1980 até hoje

REDATORES-CHEFES E REDATORES-SECRETARIOS:

Ewerton Quadros                   - 1884 a 1888
Leopoldo Cirne                       - 1905 a 1913 (Redator-Sec.)
Aristides 5pínola                    - 1914 (Redator-Chefe)
Miguel Ricardo Galvão          - 1913 a 1915 (Redator-Sec.)
Guillon Ribeiro                       - 1922 a 1929 (Redator-Chefe)
Manuel Quintão                     - 1927 a 1928 (Redator-Chefe)
Carlos Imbassahy                   - 1943 (Redator-Chefe)
Indalício Mendes                   - 1978 até hoje (Redator-Chefe)

SECRETÁRIOS

Sylvlno Canuto Abreu             - 1915 a 1916
Amaral Ornellas                     - 1917 a 1923
Fernando Coelho                    - 1920
Carlos lmbassahy                   -  1923 a 1943
Indalício Mendes                   - 1943 a 1975
J. Antero de Carvalho            - 1975 a 1978
Alberto Romero                     - 1978 até hoje

GERENTES E ADMINISTRADORES:

Augusto Elias da Silva             - 1883 a 1887
F. A. Xavier Pinheiro                - 1887 a 1890
Alfredo A. O. Pereira               - 1891 a 1897
Pedro Richard                          - 1897 a 1902 1903 a 1912 (ad.)  - 1916 a 1917 (ger. interino)
Adauto Neiva                           -  1912 a 1913
Francisco Chaves                     - 1913 a 1914 (ger. interino)
Jarbas Ramos                          - 1914 a 1915
A. A. Rodrigues Quintans        - 1915 a 1916
Emillo Wirz                              - 1916
Arthur Rosenburg                    - 1917 a 1918, 1924 a 1927
Antônio Alves da Fonseca       - 1918 a 1920, 1920 a 1924 (ad.)
Américo Lopes Vieira              - 1927 a 1929
José Vaz de Carvalho              - 1929 a 1931
João da Costa Viana               - 1932 a 1936
A.. Wantuil de Freitas             - 1936 a 1943
Henrique Sondermann            - 1943 a 1948
João d'Oliveira e Silva            - 1948 (ger. interino), 1948 a 1951, 1952 a 1957   
Paulo de O. Ludka                   - 1951
Carlos Guimarães                   - 1951 a 1952
Ernesto Teixeira Barros          - 1957 a 1959
José Yolando dos Santos        - 1959 a 1970
Francisco Thiesen                   - 1970
Getúlio Soares de Araújo       - 1970 a 1981
Alfonso B. G. Soares               -1981 a 1982
Tânia de Souza Lopes             - 1982
Agadyr Teixeira Torres          - desde agosto de 1982


[1] “Reformador”: porta-voz da espiritualidade superior” – artigo de Francisco Thiesen in “Reformador” de outubro de 1972. 



01 / 03 A Escolha das Provações


01/03
  A Escolha das
 Provações
A Escolha das provações segundo os Fatos e a Lição dos Espíritos

por Almerindo Martins de Castro


inReformador’ (FEB) Abril-Maio- Junho 1970


            No tempo em que os livros escolares destinados à infância eram cheios de bons ensinamentos e conselhos instrutivos, li uma lição onde se contava que experiente e velha mosca, necessitando ausentar-se de casa, chamou a filhinha, ingênua e tenra, e assim lhe falou: “Minha filha, até que eu volte, não te afastes daqui; poderias correr graves perigos, sem que tivesses quem te acudisse. Sê obediente a esta ordem, minha filha, porque os conselhos das mães nos poupam de muitos sofrimentos e fatais enganos.

            Mas, tão logo a precavida mosca se ausentou, a mosquinha começou a rir-se, dizendo: “Meu Deus, quão rabugentas são as velhas e quanto gostam as mães de privar os filhos dos divertimentos e passeios! Ora, perigos! Então eu não sei voar? Sou alguma tola, que se deixa colher por qualquer?”

            E começou a voar. Como era esplêndido! Quantas coisas novas e belas!

            E foi voando, e foi voando, até chegar a um grande pátio, onde julgou ver linda nuvem, muito branca, movendo-se para o alto e sumindo-se em seguida. E pensou: Oh! uma nuvem, e eu que tinha tanta vontade de vê-Ias! E a rabugenta da mamãe, enganando-me, a dizer que as nuvens estão no céu e as moscas não podem subir tão alto para contemplá-Ias melhor! ...  Ah! velhas rabugentas! ...

            E voou mais rápido, para chegar depressa. Mas, não era nuvem, ou, antes, era uma nuvem de vapor, desprendendo-se de um tacho com água a ferver. E a mosquinha, que não conhecia o perigo e dele não aprendera ainda a defender-se, viu-se envolvida pelo vapor fervente, sufocada e desaparecida na voragem da morte.

            No derradeiro instante, reconhecendo o erro, seu pensamento correu célere em busca da mãe querida, à qual quisera então dizer: Oh! minha mãezinha, perdoa à tua ingrata e louca filha a dor que te causa. Insensata, porque não ouvi, porque desprezei os teus conselhos, mãe?

            Assim são aqueles que fecham os ouvidos aos ensinamentos do Evangelho. À semelhança do carinho materno, a Doutrina Espírita mostra aos orgulhosos e inexperientes entes humanos os perigos da existência que não se norteia pelo espírito e verdade das leis de Deus, apontando o da nuvem traiçoeira e mortífera, vapor que sufoca e queima e mata; apresentado os fatos espíritas de todos os dias, aos olhos da Humanidade inteira; indicando que é tempo de tomarmos os novos rumos que nos são traçados pelos Espíritos amigos, e de fugirmos aos inevitáveis sofrimentos que aguardam os incautos gozadores, insensíveis à palavra e às lições que nos vêm do Alto.

            Mas, à semelhança da vaidosa moscazinha, nós nos rimos ou duvidamos da verdade dos conselhos salvadores e, supondo-nos abarrotados de poderes que não temos, vamos voando cegamente ao encontro da morte. Somente depois que o Espírito se desprende da carne, a nossa visão se aclara e se volta, cheia de pena e remorso, para as verdadeiras realidades da vida espiritual, e para aqui nos volvemos suplicando por uma prece que nos atenue os sofrimentos no Espaço e nos permita obter mais rapidamente o resgate das nossas culpas.

            Cegos, três vezes cegos, que não nos convencemos, apesar das lições de todos os dias, de quanto é caro o preço pelo qual compramos os prazeres efêmeros da vaidade, do orgulho, da inveja, das vinganças, das iras castigadoras, da indiferença pelos males e agruras do nosso próximo, desse próximo que o Cristo mandou amássemos com o socorro da nossa caridade, do nosso pão, da nossa palavra amiga.

            Foi também num desses livros para a infância, que hoje não se escrevem mais, em nossa triste época, que li uma filosófica comparação de Benjamim Franklin.

            Tinha o grande homem menos de dois lustros de idade quando, transitando pela rua, encontrou certo rapaz soprando num assobio. Encantado com aquele insignificante canudinho que produzia sons, aos seus ouvidos - inexcedíveis em beleza e harmonia - ele, que nunca tivera um assobio, ficou maravilhado e desejoso de possuir o mirífico instrumento. Correu a casa e, pegando em todo o dinheiro que possuía, dádiva dos pais e padrinhos, comprou ao anônimo o assobio, voltando radiante, mais contente decerto do que o rapazinho que recebera talvez o víntuplo do valor do tal canudinho sonoro.

            Porém, que desilusão, quando mostrou e disse aos pais a compra que realizara! Fizeram-no compreender o absurdo exagero do preço e quantos outros lindos brinquedos, flautinhas e assobios podia ter adquirido com o dinheiro que entregara afoitamente! ...

            Daí em diante, por toda a sua vida de homem, sempre que encontrava uma vítima das enganosas aparências do mundo, um vencido pelos esbanjamentos, pelos vícios, pelas imprudências, pelas falsas galas que duram pouco e tanto custam - nada valendo, Benjamim Franklin dizia a si próprio, lembrando a inesquecível lição que recebera: Pobre irmão, pagaste bem caro o teu assobio!

            Assim somos, quando vamos descuidados pelos caminhos da vida.

            O primeiro prazer falaz, tosco e insignificante assobio, nos empolga e delícia e por ele entregamos todos os dinheiros, todos os tesouros recebidos de nossos pais, dos mestres, dos Guias. E só depois que a nossa desiludida sofreguidão compreende quantas coisas belas trocamos por uma que não valia nada, é que nos voltamos, chorosos e arrependidos, pedindo o remédio, às vezes impossível de encontrar, porque há coisas que, perdidas uma vez, não se podem readquirir nesta vida.

            À flor emurchecida podemos restituir o perfume artificial das essências fabricadas nos laboratórios; mas, o viço, a fragrância, a frescura da pétala, a aveludada cútis que a seiva do tronco empresta à flor, isso não se restitui, porque a vida em tudo vem de Deus e a Deus pertence dar, ou suprimir ...

            Talvez porque o Espiritismo não se propõe a fazer desses milagres, é que muita gente não o aceita. Exigem, por exemplo, que transforme - num dia - o bandido em santo, ou então querem maravilhas, pompas, palavras tétricas, castigos horríveis, poços de enxofre fervente, cadáveres que não se decomponham e a cujo contato desapareçam mazelas e feridas, loucuras e paralisias, verrugas e capenguices.

            O Espiritismo não faz milagres. A sua doutrina é o Evangelho, em espírito e verdade. Ser espírita é cumprir os dez mandamentos da lei de Deus; é seguir o Cristo pelos caminhos que traçou com as palavras do sermão da montanha; é ser humilde e bom, mansueto e caritativo, resignado na fé e ardoroso no trabalho, sincero, leal, amigo da família, tolerante com os erros alheios, meigo na palavra, honesto nas ações.

            Ser espírita é abominar os vícios e amar as virtudes.

            Sem condenar as crenças de ninguém, o Espiritismo afirma e quer demonstrar que o único caminho para Deus é o Evangelho. Fora do Evangelho, não há verdade, não há salvação.

            Na terra, não há deuses que salvem, não há santos, não há milagres.

            Deus é um só e está nas Alturas; santos são aqueles que cumprem a lei do Senhor; milagres são as manifestações dos Espíritos, revelando-nos a outra vida ao termo da qual está a luz inextinguível, iluminando as derradeiras moradas do Pai.              

            Aí estão as comunicações dos Espíritos. Eles nos dizem que, chegando ao Espaço e descortinando a verdade, medindo toda a extensão dos erros cometidos, o Espírito volta para resgatar - por vontade própria - os seus crimes e sofrer a depuração dos maus fluidos que lhe escurecem a alva pureza de que necessita, para remigiar mais alto e fruir as delícias dos outros mundos, onde se é mais perfeito, mais esclarecido e se está, por assim dizer, junto de Deus.

            Os que ainda não começaram esse trabalho de aperfeiçoamento, ou que ainda se acham mergulhados nas trevas da perturbação que se segue à desencarnação, quando o Espírito se liberta do corpo material - esses aqui vêm mostrar-nos, chorando ou blasfemando, a realidade da sobrevivência da alma, tranquila ou sofredora, conforme viveu, bem ou mal, dentro ou fora das leis divinas.

            Essa a principal razão dos fatos espíritas.

            As manifestações dos Espíritos não são espetáculos de proscênio, para que nos regalemos com acontecimentos sensacionais; não são exibições de prestidigitação, para provocar aplausos. São avisos para que cuidemos da nossa alma e nos façamos dignos das bênçãos de Deus, porque Deus nos deixa a escolha dos caminhos para chegarmos até Ele. Se os erramos, teremos de reconhecer o engano, ao chegarmos ao fim da enganosa estrada, e de recomeçar a viagem, sofrendo as fadigas do percurso, até trilharmos o chão bendito.

            Esta a verdade. Veja quem puder; acredite quem quiser.

            O Espiritismo diz apenas: Homem que vives engolfado nas coisas materiais, sem reparar que tens uma alma imortal, lembra-te de que és o operário da tua ventura ou da tua desgraça. Lembra-te de que, se fazes o mal a outrem, sofrerás na Terra a consequência desse mal: atenta, pois, em que, se encheres à tua consciência - que é o arquivo do Espírito - de iniquidades, sofrerás na outra vida as consequências dessas iniquidades.

            Porque duvidar? Porque tomar como fábulas, alucinações, truques, mentiras, os fatos abundantes, comprovados hoje até pelas placas das máquinas fotográficas?

            O Espiritismo não tem a prova material de alguns casos, é certo; mas, possui a palavra dos Espíritos, concordantes com as leis esboçadas em todos os ensinamentos dados posteriormente à vinda de Jesus-Cristo.

            Porque duvidar, por exemplo, de que Maria Antonieta, a rainha esposa de Luís XVI, de França, seja uma reencarnação de Salomé, a quem Herodes presenteou a cabeça decepada de João Batista?

            Quando a guilhotina da Revolução Francesa cortou a vida da rainha, não se estava cumprindo a lei de “quem com ferro fere, com ferro será ferido”?

            Não é perfeitamente lógico que a provação escolhida corresponde ao sofrimento humilhante, que é rolar de um trono para a ignomínia do cadafalso?

            E porque duvidar também de que essa mesma culpada, Maria Antonieta, é a meiga senhorita Smith, que o Dr. Flournoy, professor da Universidade de Genebra, estudou num livro e que a Sociedade Espírita Suíça aceita como sendo essa reencarnação?

            Não está de acordo com a lição dos Espíritos que as orgulhosas rainhas e princesas podem voltar à Terra, a fim de serem um dia burguesinhas encantadoras e amoráveis, para enlevo dos pais e consolo dos aflitos, a quem fizeram sofrer, e mais tarde socorrem com verdadeira e evangélica piedade?

            Não temos a lição, aqui mesmo, no Brasil, em Belém do Pará, da grande, da extraordinária médium Ana Prado, que morreu queimada, reencarnação de famoso inquisidor, que veio expiar corajosamente, abnegadamente sofrer esse terrível gênero de morte, que outrora fizera experimentar aos infelizes que, com o estigma de hereges, caíram nas garras do Tribunal da Santa Inquisição?

            Quem não sabe e não recorda o conhecido caso do menino indiano, de azulados olhos e loiro cabelo, totalmente diferente dos pais morenos, que, aos quatro anos de idade, disse ser a reencarnação do major inglês D. J. Welsh, que perecera afogado em março de 1904 e cuja vida anterior e moradia descreveu, apesar de nunca ter visto o local onde existira e morrera aquele oficial, na reencarnação precedente?

            Os fatos são muitos, tantos que se tornaram banais, tão banais que os homens já se acostumaram e não os aproveitam nos profundos e admiráveis ensinos que encerram.

            Hoje, vemos criaturas extraordinárias, que nos merecem apenas uma complacente homenagem. Se tivessem vivido assim em outras épocas, seriam outros tantos santinhos, de que vou falar, iguais aos que certas ingênuas pessoas adoram, às vezes sem saber mesmo quem foi em vida aquele homem ou aquela mulher, impingidos como ouro de fino quilate nas virtudes e no progresso espiritual. Muitas vezes, vencidos pela bondade e abnegação de alguém, dizemos: “Aquela criatura é uma santa!” Profunda verdade, que não sabemos aproveitar, seguindo o exemplo de tal criatura, superior, não raro, a muito santo de 4ª ordem, diante do qual nos vamos ajoelhar ...

            Porque é preciso não esquecer que todos temos conhecido, em nosso trato quotidiano, algumas figuras humanas que nunca possuíram um vício, sempre praticaram a caridade, sofreram resignadas, tiveram e seguiram a verdadeira fé, foram, em suma, legítimas santas, e não mereceram senão meia dúzia de palavras de elogio, enquanto o esquecimento não veio apagar a sua da nossa memória. Outras, cujo verdadeiro nome nem ao certo sabemos qual foi, vivem diante dos nossos olhos, cheias de mimos, velas e rezinhas, quando, em verdade, feita uma justa comparação, rigorosa, não merecem a centésima parte de um pequeníssimo encômio, pois convém não esquecer que muitos dos chamados santos que estão nos altares das igrejas, antes de principiarem a esmurrar os peitos contritos e a derreter as banhas fartas, foram feiticeiros, bêbedos, jogadores, assassinos e ladrões. Há, em verdade, entre os chamados santos, muitas e luminosas figuras projetando luz para o futuro, mostrando, em toda a plenitude, a verdade da lei da reencarnação e o valor das provações, quando o Espírito é bem assistido e não fracassa na luta do corpo material, reagindo contra os terríveis padeceres que o EU espiritual escolheu para seu progresso, para sua evolução.

            Existiram essas figuras luminosas; mas não foram santas.

            O Espiritismo as explica na simplicidade das provações, dentro da lei da reencarnação, do progresso espiritual.

            Só assim podem ser compreendidas essas personagens. De outro modo, pareceriam loucos, pois sofrer, por livre e espontâneo alvedrio, sem uma causa, sem um motivo, sem uma razão, seria admitir que as provações terrenas são quase um esporte para alguns que as querem passar, bastando, para outros que não estejam dispostos a tomar tanto trabalho, agarrar-se a uma religião e comprar através dela a salvação, com rezas de encomenda, cerimônias, etc. Além disso, só a vontade deliberada, trazida do Alto, pode explicar a fortaleza de ânimo para suportar os rudes golpes de certas amarguras, pois não há dentro da contingência humana poder de vontade que nos faça sofrer - por simples engano - sem uma razão espiritual, certas injustiças e agruras morais terríveis, que poderíamos evitar, pronunciando apenas o nome do verdadeiro culpado, ou dizendo quem somos.

            Porque então sofrem certas criaturas os maiores tormentos, resignadas, sem uma queixa, quase alegres e felizes, dando graças ao Senhor por tantos martírios e tantas desventuras?
           
            É que aquela foi a provação escolhida. E quando a criatura se faz digna da ajuda de um bom Guia, não lhe faltam forças para vencer; se assim não for, fracassará, como se vê, a cada passo, em todos os aspectos da vida.

            Eis alguns exemplos tirados dos livros da Igreja católica apostólica romana, referentes a criaturas chamadas santas.

            Que as pessoas de boa fé examinem a interpretação que lhes dá o Espiritismo e vejam, à luz de um raciocínio desapaixonado, sincero, como devem ser encarados os fatos, as causas, as consequências. Me ditem e vejam se foram santos ou Espíritos em provação.

            Santa Rosa de Lima, assim chamada por ser peruana, isto é, nascida em Lima, capital da República do Peru, veio ao mundo em 1586, tendo por pai Gaspar Flores. Seu nome de batismo foi Isabel; porém, devido ao encantador aspecto das faces, lembrando rosas, Rosa passou a ser chamada.

            Desde muito cedo, revelou a jovem o feitio do seu Espírito, voltado para as coisas de Deus, alheia às vaidades e aos aspectos fúteis da existência.

            À proporção que aumentava a sua peregrina beleza, mais lhe cresciam também a aversão às mundanices e o desejo de destruir em si própria os motivos de fracassar nas provações que escolhera. Assim, toda vez que necessitava sair à rua, esfregava o rosto com as folhas da pimenteira e não raro com a mesma pimenta, de modo que a intumescência corrosiva lhe desfigurasse a formosura. Era simples, piedosa e boa, sofrendo resignada maus tratos dos pais, que desejavam casá-Ia à viva força.

            Não havendo, naquela época, para onde voltar-se espiritualmente, dentro em breve foi encerrar-se no convento de São Domingos, em 1606, com bastante mágoa de seus pais, que, tendo ficado pobres, viam na beleza da filha o seu tesouro e sempre sonharam vê-Ia casada, rica e feliz, naquele lar onde mesmo solteira prestava valioso auxílio, cultivando a terra e cosendo, para ajudá-los.

            Mas a futura Santa Rosa assim não entendeu, principalmente porque Espíritos atrasados, talvez inimigos e vítimas dela em outras encarnações, a perseguiam tenazmente, fazendo-a sustentar lutas terríveis para não fracassar, principalmente quando os pais a castigavam por motivo de recusa ao casamento.

            Ingressando na vida estéril do convento, Rosa pouco ou quase nada pôde fazer em favor do próximo; mas, expiou bem duramente as culpas de outras vidas, pois o rigor dos sofrimentos que se impunha era de tal ordem, que misturava fel na comida.

            Aos trinta anos de idade, voltou ao Espaço.

            Quem teria sido, anteriormente, Isabel Flores, a Santa Rosa de Lima? Alguma jovem doidivana, causadora de males e crimes? Uma daquelas malvadas abadessas que mandavam envenenar ou esconder nos cárceres dos conventos as freiras que lhes faziam inveja, ou recusavam sujeitar-se aos agrados dos confessores privilegiados?

            Não sabemos dizê-Io . Que Deus a tenha conduzido já para a verdadeira mansão de onde nos possa auxiliar para nossa instrução e aperfeiçoamento. E; se ainda não terminou o resgate da dívida, que Deus a ajude a satisfazer a lei inexorável. Porque a lei é essa. Disse o Cristo que da prisão não sairíamos sem haver pago até o último ceitil (Mat. V, 26).

            Corremos muitas vezes o risco de ficar devendo milhares de ceitis, porque Espíritos atrasados e cegos (quiçá inimigos adquiridos em outras encarnações) tentam perturbar-nos, ou se aproveitam das oportunidades para nos causar males e retardar o nosso progresso espiritual.

            Na vida de Santo Antonino, arcebispo italiano, nascido em 1389, fundador da ”Congregação dos Homens Bons”, que parece ainda existir em Florença, há um caso típico.

            Antonino era médium vidente e audiente. Certa vez, quando ia para a sua catedral, em dia de festa solene, enxergou, sobre o teto de uma pequena casinha da rua de Santo Ambrósio, vários Espíritos de Luz. Diante de tão estranho contraste, entrou para ver quem vivia ali, capaz de atrair tais Espíritos. Deparou com uma pobre viúva, rodeada por três filhas, mal vestidas, descalças, que trabalhavam por necessidade, para fora, até nos dias de festa. Mais admirado ficou, verificando que mãe e filhas eram virtuosas, cheias de verdadeira fé, resignadas, quase contentes com a vida que tinham. Por isso, depois de exortá-Ias a prosseguirem no bom caminho que trilhavam, auxiliou-as com bastante dinheiro, a fim de que não mais sofressem tão duras necessidades.

            Porém, qual não foi o espanto de Santo Antonino quando, ao passar, tempos depois, pela casinha da viúva, divisou, não mais os Espíritos de Luz da visão anterior, mas Espíritos da Treva, verdadeiros obsessores. Penetrou no predíozinho. A transformação era completa. As jovens, outrora esfarrapadas e descalças, estavam garridamente cobertas de enfeites e falavam, não mais a linguagem humilde e harmoniosa da fé, mas a dos louvores aos divertimentos e folganças.

            Ante a perplexidade de Antonino, o seu Guia lhe deu a intuição de que não devemos SUPRIMIR as provações de ninguém, e sim apenas atenuá-Ias, tornando-as mais suaves, e ajudar as criaturas a vencê-Ias. Mas, Antonino, sem compreender toda a extensão da lei que rege as vidas sucessivas, ficou perplexo ainda, buscando atingir a incógnita daquele complexo problema.

            Servindo-se da sua faculdade de médium audiente, rogou ao Espírito protetor que lhe ensinasse a melhor perceber a lição recebida. E o Guia lhe revelou que, no caminho do aperfeiçoamento, vários são os meios de atingi-lo. Fê-lo saber que, ali mesmo, naquela cidade, havia um humilde operário ao qual estava reservada tanta glória no Espaço, quanto a ele, arcebispo, que procurava, por outros processos, servir também a Deus.

            E Santo Antonino procurou conhecer o operário.

            Era um remendão, alfaiate de escassos recursos, pois, inábil na sua arte, não auferia dela senão parcos proventos. Mesmo assim, reservava para si apenas o estritamente indispensável à alimentação e à vestimenta, que era sempre dos mais grosseiros tecidos e do mais módico preço. O resto distribuía-o em esmolas com os mais pobres. Quando não tinha trabalho, ia para um modesto hospital chamado de S. Paulo, ajudar, gratuitamente, no cuidado aos doentes. E mais ainda. Tinha em seu paupérrimo abrigo um leproso, a quem tratava com evangélica paciência, e bem evangélica, porque o lázaro, falhando na provação escolhida, era um revoltado contra a doença, e injuriava com impropérios o seu caridoso amigo e enfermeiro.

            Admirável lição esta, que nos integra nas verdades do Evangelho: os humildes serão os exaltados.

            João Batista nasceu no conforto do lar de um grande sacerdote, e foi apenas um precursor; Jesus tomou corpo deitado nas palhas de uma tosca manjedoura e era o Enviado de Deus!

            Bem haja o sofredor resignado, que sorri na dor, na desventura, cheio de força e de luzes espirituais, que lhe mostram as realidades das provações nas vidas sucessivas e o futuro que o aguarda; ditoso aquele que antes de suplicar o pão, que lhe mitigue a fome da carne, sabe esperar a paz da Alma, orando para que lhe venham as bênçãos, os auxílios, os fluidos benéficos dos nossos Guias do Espaço.

            Quem fora o obscuro alfaiate, que um Espírito-Guia declarou maior do que o arcebispo?

            Não se pode responder. Sabe-se apenas que do alfaiate nem o nome a História registou, enquanto que do arcebispo se fez um - santo - para os altares da Igreja de Roma.

            Estranho e curioso contraste, que vemos ainda, em nossos tempos!

            Os médiuns, quando pertencem à Igreja, são santos; quando professam o Espiritismo, são loucos, visionários, ou possuídos de Satanás ...

            Para Teresinha de Jesus, a freira, cânticos e louvores, altares e incenso, para Ana Prado, a médium, risotas e insultos, a sepultura e o esquecimento! ...

 Continua