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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

29 de Fevereiro


29 fevereiro

‘Indulgência e Nós’     03/03

Quando a injúria te ameace,
Age e constrói, serve e lida.
A gente guarda na vida
Somente aquilo que fez.
Todos estamos na escola,
Hoje, há quem erre e se gabe
Amanhã, talvez.. Quem sabe?
Chegue também nossa vez. 

 Maria Dolores 
por Chico Xavier
in ‘Coração e Vida”  (IDE 1ª Edição 1978)



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

28 de fevereiro



28 fevereiro

‘Indulgência e Nós’     02/03

Aversão, cólera, insulto,
Inveja, impulso violento
Discórdia, ressentimento
Desespero e orgulho vão.
No fundo, somente expressam
Enfermidades da mente
Que esperam de toda a gente
O amparo da compaixão.

 Maria Dolores 
por Chico Xavier
in ‘Coração e Vida”  (IDE 1ª Edição 1978)



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

03/03 "Apolinário, Cerinto e o corpo de Jesus" por Zêus Wantuil




03/03  Apolinário, Cerinto
e o corpo de Jesus

           
Zêus Wantuil

Apêndice  in “Elos Doutrinários” (FEB)  3ª Ed 1978


            As duas epístolas de João, que vimos citando, são as de que comumente os anti-rustenistas se servem para combater o corpo fluídico de Jesus. Apesar de elas se referirem a Cerinto, poderão dizer, ainda, que permanece de pé a encarnação de Jesus Cristo, isto é, a sua vinda em carne, conforme se expressa o evangelista João.

            Todavia, mesmo que se aceite, nos versículos já mencionados atrás, a palavra “carne” no sentido comum, isto em nada altera a teoria do corpo fluídico de Jesus.

            Os apóstolos (se todos, não sabemos) certamente haviam de crer num corpo físico, carnal, de Jesus. Se este corpo apresentava todas as características e propriedades da carne realmente carne, não assistiria a eles outra alternativa, senão a de afiançar que Jesus “veio em carne”, e que era, por conseguinte, um homem.

            Os rustenistas também podemos dizer que Jesus veio em carne, e não estaremos em desacordo com a teoria que aceitamos. Expliquemo-nos melhor:

            Partindo-se do princípio de que a materialização de Espíritos é um fato incontestável na enomenologia espirítica, e que Espíritos se materializam com maior ou menor perfeição, à meia luz ou à plena claridade, afastando-se mais, ou menos, do médium, que pode estar sonambulizado ou acordado, mostrando-se, às vezes, esses mesmos Espíritos materializados, tangíveis, com todos os movimentos e até qualidades da carne humana, com todos os característicos anatômicos e fisiológicos de órgãos biologicamente vivos, com vestimentas e adereços também visíveis, objetivos, materiais, - não estaremos mentindo, à vista de tudo isso, se dissermos que os Espíritos materializados vêm em carne em nossas sessões experimentais.

            Na materialização completa, apresenta-se-nos à vista carnal e ao tato um corpo humano realmente vivo, “de carne e osso, com pulmões e coração”, no dizer de Aksakof, providos de uma respiração quente, como verificaram Lombroso, Geley, Bozzano e tantos outros observadores.

            O Dr. William Ritchman, presidente da Sociedade de Antropologia de Liverpool, escrevia, em 1886, a Aksakof contando-lhe que havia comprovado nos organismos materializados a existência da respiração e da circulação, e é clássica a narração que o sábio William Crookes fez acerca da contagem das pulsações de Katie King (Espírito materializado), ouvindo-lhe, também, o bater do coração e o respirar dos pulmões, podendo-se citar ainda a forma materializada de Bien-Boa, com quem o grande fisiologista Charles Richet realizou experiências extraordinárias, que positivaram a existência de anidrido carbônico no ar expirado pelo “fantasma”.

            O Dr. William Mackenzie, livre-docente da Universidade de Gênova, atual presidente da Sociedade Italiana de Metapsíquica, reconheceu também que os fantasmas materializados “são mais tangíveis e mais objetivamente vivos do que se supõe”, e, como disse muito bem o sábio suíço Raul Montandon, se eles são inabituais, não são, porém, mais misteriosos que os organismos vivos normais.

            O Sr. Brackett - experimentador céptico e muito prudente -, citado por Alfred Erny em sua obra “O Psiquismo Experimenta!”, narra o interessante fato a seguir: “Numa sessão de materialização, vi um mancebo de grande estatura dizer-se irmão da senhora que me acompanhava, e que lhe replicou: “Como poderia eu reconhecê-Io, se não o vejo desde criança?” Para logo, a figura diminuiu de talhe pouco a pouco, até chegar à do menino que a senhora conhecera. Observei outros casos do mesmo gênero.”

            Em Liverpool, o Sr. Burns, numa sessão, viu aproximar-se dele um Espírito materializado que com ele estivera em relações durante longo tempo. “Apertou-me a mão, diz Burns, com tanta força que ouvi o estalido de uma das articulações de seus dedos, como sói acontecer quando se aperta fortemente uma mão. Esse fato anatômico foi corroborado pela sensação que eu experimentava de estar segurando uma mão perfeitamente natural.”

            Muitos e muitos inteligentes homens de ciência, de visão penetrante, confirmaram, em diferentes países do Mundo, o fenômeno absurdo (na expressão exclamativa de Richet) da ectoplasmia ou materialização, e todos são unânimes em ratificar estas palavras do estudioso ocultista Charles Lancelin: “o ser materializado vive uma verdadeira vida fisiologicamente humana.”

            Nas materializações de laboratório, vemos ser necessário um médium para a sua concretização, e sempre se observou uma estreita relação entre este e aquelas, tanto que toda impressão recebida pelo ectoplasma repercute no médium, e reciprocamente.

            Todavia, a interdependência do ser materializado com o médium é muito variável, e, às vezes, ela quase deixa de existir, afirmando Geley que as formas materializadas têm tanto mais autonomia quanto mais bem materializadas.

            Na presença de Maximiliano de Meck, eminente ocultista que em vários países e por diversas ocasiões assistiu a sessões de materialização, deu-se o extraordinário fato que passaremos a narrar, extraído da obra de Raul Montandon – “Formes Matérialisées”:

            “Em Moscou, num grupo de sete pessoas, entre as quais dois médicos, manifestava-se, durante as sessões de estudo, o fantasma de um homem de uns quarenta anos, e que se movia entre os assistentes, com estes entretendo palestras, enquanto o médium, profundamente em transe, permanecia inerte em sua cadeira. O Sr. de Meck, que participava do grupo, certo dia teve a ideia, com o assentimento dos dois médicos presentes, de perguntar à entidade materializada se seria possível abrir-lhe as carnes dos braços com um bisturi, a fim de se verificar de que matéria um fantasma era formado. A entidade respondeu que de boa vontade aceitava submeter-se à experiência, mas que medidas de precaução deveriam ser tomadas, a fim de não prejudicar a saúde do médium. Após cinco meses de preparação, foi anunciado que a experiência poderia ser tentada, e, de fato, realizou-se. Diz o Sr. de Meck que o resultado foi totalmente inesperado: “Quando os dois médicos, depois de friccionarem o braço do fantasma com clorofórmio, o incisaram por meio de bisturi, puderam verificar que ele era formado de carnes humanas naturais. Mas, em seguida, ao incisarem o outro braço, certificaram-se, com grande surpresa, de que, abaixo da epiderme, não havia senão carne amorfa, uma espécie de pasta espessa e gelatinosa, semelhante à matéria ectoplásmica que certos experimentadores têm observado no curso de sessões de materializações.”

            Não podemos deixar de lembrar aqui duas maravilhosas experiências feitas com o médium Dr. Monck, que foi estudado por Alfred Russel Wallace, pelo arcediago de Cantuária, Colley, por Aksakof e outros. Num relatório assinado por cinco testemunhas (28), é apresentado o fato a seguir, obtido com o médium citado:

                (28) The Spirituallst, 1877, 11, pág. 287.

            “Propôs-se agora uma experiência única: a forma materializada beberia um copo d'água. O resultado foi que, enquanto o Espírito materializado bebia a água, diante de nós, de um modo visível, ouvindo-se até o ruído da deglutição, essa mesma quantidade de água era no mesmo instante rejeitada pela boca do médium.” Noutro relatório, lê-se o seguinte: “Pois que Monck (o médium) afirmava saborear tudo o que uma forma materializada absorvia, Colley assegurou-se desse fato, ao recolher dos lábios do médium “a casca e as sementes da maçã que o fantasma estava a ponto de engolir”, e, contudo, uma distância de dois metros separava o fantasma do médium.”

            Por estas notáveis experiências, além de outras, fica peremptoriamente demonstrada - a despeito do que disse Allan Kardec (“A Gênese”, XVI, § 36) - a possibilidade de a matéria do Espírito materializado apresentar-se coesa, com todas as qualidades da carne humana, e a possibilidade de ele comer e beber, aparentemente ou não, a exemplo do que se deu nos casos retro mencionados, e bem assim com o anjo de Tobias, com “o jovem de Londres” (“Revue Spirite”, janeiro, 1859) e com o próprio Mestre Jesus, antes e depois de sua ressurreição (Lucas, 24:41 a 43).

            “Não é mais possível, agora - escreveu Gabriel Delanne -, negar que o corpo fluídico objetivado não seja semelhante, em todos os pontos, e mesmo anatomicamente, idêntico ao nosso. É positivamente um ser de três dimensões, com morfologia terrestre.”

            Muita coisa ainda há que poderíamos apresentar à reflexão do leitor, mas deixamos de fazê-lo para não tornar demasiado longo este trabalho. Isto, entretanto, não impede que o leitor por si mesmo o faça, lendo as inúmeras obras que tratam do assunto.

            Se tais maravilhas, aparentes contradições da Natureza, se processam entre Espíritos muitíssimo inferiores em relação a Jesus, desconhecedores até do “modus operandi” das materializações, que eles explicam apenas superficialmente, que não poderia conseguir um Super--Espírito, como Jesus, enviado direto do Criador, e para quem não há segredos nas leis que presidem o Universo?!

            Talvez (e não é nada ilógico, e assim é provável) que ele não necessitasse de médium algum para materializar-se, carniformizar-se entre os homens; com os profundíssimos conhecimentos de que era possuidor, ele seria o médium de si mesmo, ele próprio criaria o seu corpo fluídico, tendo em vista, segundo o célebre vidente Emmanuel Swedenborg, que “no ar e no éter há uma grande quantidade de partículas que podem servir para compor imediatamente a matéria de um tecido orgânico, havendo, ali, princípios materiais perpétuos, que tornam possível semelhantes produções”.

            Aceitando-se, por hipótese, um corpo com os característicos acima, poderíamos daí inferir que toda e qualquer impressão sobre tal corpo se refletiria sobre ele mesmo, e não sobre um segundo, como geralmente acontece nas sessões experimentais do Espiritismo.

            Dessa forma, Jesus sofreria, por vontade própria, as dores corporais que o acompanharam até à crucifixão, e talvez as sentisse em grau muito superior, e talvez mesmo não as sentisse, qual sucedeu com muitos mártires dos primeiros séculos do Cristianismo, os quais se tornavam insensíveis às maiores torturas.

            A este ponto, o de se saber se Jesus sentiu ou não dor material, não ligamos a importância que certos confrades lhe querem dar. Só a descida de Jesus dos elevadíssimos páramos celestiais ao pequenino “nada” do Universo, que é a Terra, bastar-nos-ia para demonstrar o grande amor que ele nos dedica a todos, fornecendo-nos, ainda, um grande exemplo de humildade e submissão à Vontade Divina.[1]

            Para esses discípulos do Evangelho, que consideram de grande importância o sofrimento corporal de Jesus, o Espírito Emmanuel respondeu pelo lápis de Francisco Cândido Xavier, como lemos em “O Consolador”:

             “A dor material é um fenômeno como o dos fogos de artifício, em face dos legítimos valores espirituais.
            “Homens do mundo, que morreram por uma ideia, muitas vezes não chegaram a experimentar a dor física, sentindo apenas a amargura da incompreensão do seu ideal.
            “Imaginai, pois, o Cristo, que se sacrificou pela Humanidade inteira e chegareis a contemplá-lo na imensidade da sua dor espiritual, augusta e indefinível para a nossa apreciação restrita e singela.
            “De modo algum poderíamos fazer um estudo psicológico de Jesus, estabelecendo dados comparativos entre o anjo e o homem.
            “Em sua exemplificação divina, faz-se mister considerar, antes de tudo, o seu amor, a sua humildade, a sua renúncia pela Humanidade.
            “Examinados esses fatores, teria a dor material significação especial para que a obra cristã ficasse consagrada? Não constituiu a dor espiritual, grande demais para ser compreendida, o ponto essencial da sua perfeita renúncia pelos homens?      
            “Nesse particular, contudo, as criaturas humanas prosseguirão discutindo, como as crianças que somente admitem as realidades da vida de um adulto quando se lhes fornece o conhecimento, tomando para imagens o cabedaI imediato dos seus brinquedos.”

            Não erraríamos, ainda, se disséssemos, com os evangelistas, que Jesus morrera na cruz. A morte é o abandono total do corpo pelo Espírito. Jesus abandonou na cruz o seu corpo materializado, que, por algum tempo, assim se conservou, até desmaterialízar-se por completo no sepulcro onde fora posto. Tudo isto poderia ter acontecido, mas não é menos racional supor que se houvesse dado uma morte aparente, semelhantemente a casos dessa natureza observados entre nós, os humanos.

            As meticulosas observações de Geley quanto às materializações levaram-no a admitir que “na fisiologia supranormal (do ser materializado) não há, como substratum das formações orgânicas diversas, substâncias óssea, muscular, visceral, nervosa, etc.; há simplesmente a substância, a substância única, base, substratum da vida organizada.”

            Apreciando, por meio de inteligentes raciocínios, que, na fisiologia normal, se dá exatamente o mesmo, mas que, aí, o fato é menos aparente, ele chega à conclusão de que “tudo se passa em biologia como se o ser físico fosse essencialmente constituído por uma substância primordial única, cujas formações orgânicas não são senão simples representações”.

            Os Espíritos materializados, quando o permitem, deixam-se apalpar, abraçar, beijar, e até mesmo incisar na “carne”, como já vimos. Há casos em que o Espírito permite se lhe cortem mechas de cabelo e retalhos do vestuário, que às vezes têm duração bem longa, o que evidencia a possibilidade de uma materialização estável, por assim dizer.

            Quando os Espíritos materializados acham por bem não permitir tais intromissões em seus corpos, fazem que estes desapareçam instantaneamente, como tem sido observado em numerosas sessões experimentais, e mesmo naquela passagem de Lucas, 4:28 a 30.

            Do fenômeno de materialização só se sabe o ABC, e mesmo este ABC custou a ser admitido pelos sábios que estudavam as manifestações supranormais. Basta dizer que, logo que foi constituída a Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, esta só aceitou um axioma, tido como princípio fundamental, que dizia não haver fenômeno material, sendo tudo subjetivo. Gurney, Myers, Sidgwick, Podmore e outros partilhavam desse pensamento. Sidgwick desencarnou sem ter tido tempo para admitir mesmo a telecinesia e a materialização. Myers, a princípio bastante hostil às materializações, acabou pelas admitir, crendo com todas as forças da alma em sua objetividade. Podmore, ao que parece, jamais pôde resignar-se em nelas crer. Oliver Lodge também só posteriormente aceitou a realidade dos fenômenos materiais.

            A materialização ou ectoplasmia apresenta particularidades que só são percebidas de quando em vez por alguns experimentadores de mais sorte. Que não dizer daquilo que não foi percebido, daquilo que ainda não foi conseguido por deficiência do intermediário mediúnico ou do próprio manifestante?

            A materialização de animais, por exemplo, se não houvesse sido comprovada em algumas sessões mais ou menos recentes, talvez que fosse considerada pouco provável pelos próprios espíritas, senão considerada impossível. Entretanto, ela se deu e se repetiu diante de ilustres personalidades.

            É assim que, na Sociedade Polonesa de Estudos Psíquicos, em Varsóvia, obteve-se, em 1919, por várias vezes, com o médium Franck Kluski, a materialização de uma ave de rapina, que chegou a ser fotografada. Com o mesmo médium, o Dr. Gustave Geley comprovou, em 1923, em Paris, a realidade das materializações de animais, e fenômenos idênticos produziram-se com os médiuns D. D. Home e Jean Guzik, sendo que com este último as sessões se realizaram no Instituto Metapsíquico de Paris, ante a presença de notabilíssimos estudiosos.

            Estes fatos permitem-nos, agora, admitir que a pomba que surgiu quando João batizava Jesus, às margens do Jordão, bem poderia ter sido uma materialização momentânea, embora outras explicações aí também possam caber.

            Após a ressurreição de Jesus, este apareceu por quarenta dias aos seus discípulos, em diferentes ocasiões, e a mais de quinhentos irmãos de uma vez, sempre perfeitamente materializado, como se realmente fosse um homem, “de carne e osso”, como ele próprio afiançou aos apóstolos (Lucas, 24:39), tal qual o era antes da ressurreição.

            Referindo-se à opinião dos que admitem o corpo fluídico de Jesus (“A Gênese”, cap. XV, § 64), Kardec opinou que “semelhante fato não se pode considerar radicalmente impossível, dentro do que hoje (1868) se sabe acerca das propriedades dos fluidos”, concluindo que tal hipótese seria admissível, se os fatos a confirmassem.

            Ora, de 1868 até os dias atuais, numerosíssimos médiuns alargaram os horizontes da fenomenologia espirítica, descerrando aos sentidos humanos novos aspectos das leis cósmico-divinas que regulam as materializações, e que ainda encerram, latentes, um infinito potencial de maravilhas.

            Os fatos, corroborados em diversos países, confirmaram ser admissível a encarnação fluídica do excelso Espírito de Jesus!



[1] Grifo do blogueiro.


27 de Fevereiro


27 fevereiro

‘Indulgência e Nós’     01/03

Quando ofendas te visitem
Não revides, alma boa,
Não penses mal de ninguém;
Quando não sabe o que custa
Fugir à lei nobre e justa
Com que Deus preserva o bem.

 Maria Dolores 
por Chico Xavier
in ‘Coração e Vida”  (IDE 1ª Edição 1978)



02/03 'Apolinário, Cerinto e o corpo de Jesus' por Zêus Wantuil



02/03  Apolinário, Cerinto
e o corpo de Jesus

           
Zêus Wantuil

Apêndice  in “Elos Doutrinários” (FEB)  3ª Ed 1978




            Também dizem por aí que, no primeiro século, Cerinto levou a Éfeso a teoria do corpo aparente de Jesus, sendo ele veementemente combatido pelo apóstolo João, que ainda vivia.

            Ao que sabemos, Cerinto jamais adotou semelhante teoria; senão vejamos:

            A primeira referência a Cerinto, de que se tem conhecimento, encontra-se na obra “Adversus Hoereses”, escrita pelo ano 170, por Santo Ireneu. Este, referindo-se a S. Policarpo, escreve assim: “E há alguns que o ouviram dizer que João, o discípulo do Senhor, tendo ido a um balneário de Éfeso, ao ver Cerinto ali dentro, lançou-se para fora do balneário, sem banhar-se, dizendo: “Vamos fugir, pois que é de temer-se que o edifício caia, enquanto Cerinto, o inimigo da verdade, ali dentro estiver.” (“Adversus Hrereses”, III, iii, 4.)

            Cerinto, de acordo com esta informação de Santo Irineu, parece ter sido contemporâneo de um João da Ásia, que até hoje não se sabe ao certo se foi João, o Apóstolo, ou João, o Presbítero.

            A época e o lugar de nascimento e morte de Cerinto são desconhecidos, apesar de alguns autores fixarem esses dados.

            A informação mais digna de confiança, no que respeita à doutrina de Cerinto (que não deixou obra escrita), é devida a Ireneu. Eis o que este bispo registrou: “Um certo Cerinto ensinou na Ásia que o Verbo não foi feito pelo Deus Supremo, mas por um determinado poder inteiramente separado e distinto daquela autoridade que está acima do universo, desconhecedor daquele Deus que é sobre todas as coisas. Ele opinou que Jesus não nascera de uma virgem (porque isto lhe parecia impossível), e sim que foi o filho de José e Maria, nascido como todos os outros homens, se bem que ele superasse toda a Humanidade em justiça, em prudência e em sabedoria; e que, no ato do batismo de Jesus, descera sobre este, daquela autoridade que está acima de todas as coisas, o Cristo em forma de uma pomba. Então, Jesus anunciou o Pai desconhecido e operou milagres; mas, no fim, o Cristo separou-se de Jesus, e este sofreu e ressuscitou, enquanto o Cristo permaneceu impassível, posto que era um ser espiritual.» ( “Adversus Hoereses”, I, XXVI, 1.)

            Hipólito de Roma repetiu, com outras palavras, o que escreveu Ireneu, e, posteriormente, outros Padres escreveram também algo a respeito, havendo entre todos concordância na exposição.

            Em síntese, segundo Cerinto, há Jesus e há o Cristo ou Filho único de Deus, e só Jesus, o homem, nasceu, padeceu, morreu e ressuscitou.

            Muitos escritores da Igreja acreditaram que o Evangelho atribuído (25) a João foi escrito para refutar Cerinto, que negava a encarnação do Verbo.

                (25) o quarto Evangelho e bem assim a 1ª Epístola a que nos referimos, embora sejam anônimos, visto que não traziam o nome do autor, são, entretanto, atribuídos ao apóstolo João. A este é igualmente atribuída a 2ª e a 3ª Epístolas, cujo autor simplesmente se fez conhecer com o titulo presbyteros. De acordo com a opinião do profundo estudioso Henri Delafosse ("Le Quatriême Evangile", 1925), o 4º Evangelho "é a edição católica de um livro marcionita", isto é, um livro da autoria de algum dlscípulo de Marcião, o gnóstico. Já Ernesto Renan ("A Igreja Cristã", 1879) acha que esse Evangelho tenha sido escrito por João, o Presbítero, juntamente com Aristião.

            A teologia do Verbo (Logos), professada na metade do século II por Justino, depois por Taciano, Hipólito, Tertuliano, Orígenes e outros, contou entre os seus defensores todos os grandes teólogos do fim do século II e primeira metade do século III.

            Todos os atributos do Logos grego, os apologistas os transportaram imediatamente ao Logos do quarto Evangelho, acrescendo-lhe outros novos e mais importantes, fazendo dele um outro Deus, um Deus segundo, o Filho único de Deus.

            O Verbo era, então, o Filho único de Deus, o Christos de Cerinto, e, segundo os apologistas ortodoxos, ele veio em carne no seio de uma virgem para dar nascimento a Jesus. Este não era o Pai encarnado, nem simplesmente um homem, como queria Cerinto, mas o Logos encarnado.

            Relativamente à primeira Epístola atribuída a João (26), 2:22: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o anticristo, que nega o Pai e o Filho”, a maioria dos estudiosos acha que aí
a doutrina de Cerinto é condenada, constituindo este versículo não uma acusação ao Judaísmo (que negava a
missão messiânica de Jesus), mas um ataque àqueles que recusavam identificar Jesus com o Cristo.

            (26) Traducão de Sacy (ed. de 1749), tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo (ed. de 1818, Lisboa) e outras.

            No cap. 5, vers. 6 dessa mesma Epístola: “Este é aquele que veio por água e sangue, Jesus, o Cristo; não só por água, mas por água e por sangue”, é mais natural, diz a “Encyclopoedia of Religion and Ethics”, de James Hastings, ver neste versículo uma oposição ao ponto de vista de Cerinto, que dizia ter o Cristo descido a
Jesus durante o batismo pela água, mas que o deixou antes da Paixão.

            Citam-se, ainda, os vers. 2 e 3 do capítulo 4, e Arthur S. Peake, M.A., D.D., declara que, no texto comumente usado, a referência à “carne” pode parecer uma alusão ao Docetismo, e, assim sendo, deixa de ser importante contra o Cerintianismo, porquanto Cerinto não negava a real humanidade de Jesus.

            Concordamos em parte com o douto professor de exegese bíblica: Cerinto não negava que Jesus tivesse vindo em carne, mas negou que o Cristo houvesse feito o mesmo. Ora, se o versículo 2, por exemplo, diz claramente que “todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus”, podemos muito bem crer que o autor da epístola quisesse frisar que tanto Jesus, como o Cristo, sendo um, vieram em carne, nasceram em carne. Esta nossa suposição adquire maior peso, ao sabermos que o versículo 3 pode também ser perfeitamente traduzido assim: “E todo espírito que divide a Jesus não é de Deus, e tal é o espírito do anticristo, do qual ouvistes dizer que deve vir, e já agora está no mundo.” (27). Tomando-se esta tradução, nenhuma dúvida parece aí haver de que se trata da doutrina de Cerinto, e é a Enciclopédia citada que diz ser a divisão de Jesus a separação feita pelo Cerintianismo entre Jesus e o Cristo.

            (27) Id. íb.

            Ora, como o versículo 3 é a continuação do versículo 2, estando ambos intimamente ligados, não erraremos se dissermos que este último também deve ter relação com o Cerintianismo. Consequentemente, nada obsta a que semelhante conclusão possa estender-se ao versículo 7 da segunda Epístola de João.

            É interessante observar a tradução que Frei João José Pedreira de Castro, O.F.M. fez, à base da Vulgata, do capítulo 4, verso 2 e 3 da 1ª Epístola de João. São estes os termos: “O espírito de Deus reconhece-se nisto: Todo espírito que confessa Jesus como Cristo que veio em carne é de Deus; mas todo espírito que rompe a unidade de Jesus não é de Deus, mas é o espírito do anticristo, de cuja vinda tendes ouvido, e já agora está no mundo.” O vers. 7 da 2ª Epíst. de João, Frei Pedreira de Castro o traduziu assim: “Porque muitos sedutores andam pelo mundo, os que não confessam que Jesus como Cristo veio em carne: este tal é sedutor e anticristo.”


            Através dessa tradução, ressalta, com mais clareza, o combate que se queria dar às ideias de Cerinto, que dizia não ter vindo o Cristo em carne.

            Observa Arthur Peake, na “Enciclopédia de Religião e Ética”, que tudo leva a indicar que a 1ª Epístola de João também se refira às imoralidades da doutrina sensual do milenarismo de Cerinto e seus seguidores. E
outras passagens desta mesma epístola, como 4 :15, a 5:1 e 5, parece relacionarem-se com o pensamento de Cerinto quanto a Jesus.

            Se as doutrinas cerintianas são, fora de dúvida, aludidas na 1ª Epístola de João, o mesmo não se pode dizer com relação às ideias docetistas, e tanto é assim que Peake declara, quase ao final do seu trabalho sobre o “herege” a que nos estamos referindo: “Mas, quanto ao fato de que duas formas de falsa cristologia (Docetismo e Cerintianismo) parecem ser atacadas, nenhuma certeza se prende a esta conclusão.”




domingo, 26 de fevereiro de 2012

01/03 "Apolinário, Cerinto e o corpo de Jesus" por Zêus Wantuil



01/03  Apolinário, Cerinto
e o corpo de Jesus

           
Zêus Wantuil

Apêndice  em “Elos Doutrinários” (FEB)  3ª Ed 1978


            Em nosso trabalho – “Docetismo”, mostramos que as ideias de Apolinário, bispo de Laodiceia, no século IV, nada tinham que ver com a teoria do corpo fluídico de Jesus. O Apolinarismo surgiu como uma explicação para o problema que já vinha sendo tratado desde o século segundo, e sobre o qual se levantavam as mais disparatadas e controvertidas ideias. A questão resumia-se em compreender como o Logos (o Verbo) poderia ligar-se a uma natureza humana. E a solução apresentada por Apolinário foi uma tentativa para salvar a unidade da pessoa do Cristo, a expensas de sua natureza humana.

            Apolinário, cuja desencarnação se deu ali pelas proximidades de 390, foi, como já fizemos notar, admirado e respeitado pelos seus contemporâneos devido a sua grande sabedoria. Segundo um seu contemporâneo chamado Sócrates, o Escolástico, era ele “sábio em ciência”, e, no dizer do historiador Sozomeno, era “versado em todas as ciências e doutrinas, um homem de erudição e cultura profusas”.

            Acreditando firmemente ser impossível a união da natureza Divina completa com a natureza completa de um homem, não passando isto, acreditava ele, de mera justaposição, e não unidade, apoiou-se na concepção neoplatônica da natureza humana (corpo, alma e espírito ou mente), corroborada pelo apóstolo Paulo, e fez as seguintes considerações: O espírito ou mente humana, sendo imperfeito, falível, não poderia estar no Cristo. Dessa forma, é ele eliminado da humanidade do Cristo, e, no seu lugar, permanece a essência divina, o Logos, para que o ser do Cristo não se macule com o pecado inerente à natureza humana.

            Em suma, o Cristo assumiu o corpo humano e a alma humana ou princípio da vida animal, mas não o espírito humano. O Logos é que tomou o lugar deste último, tornando-se assim, no Cristo, o centro da vida racional e espiritual, a sede da autoconsciência e autodeterminação. O Cristo é, então, um ser humano (pelo corpo e pela alma sensitiva) guiado e controlado pelo Logos, que é, portanto, a única parte divina do mesmo Cristo.

            Usando deste artifício, Apolinário julgou ter posto o Cristo a salvo, assegurando-lhe a unidade substancial, garantindo-lhe a imutabilidade de sua moral e, destarte, tornando evidente, por si mesmo, o grande valor da Redenção.

            Por causa dessas ideias, Apolinário foi considerado como heresiarca, e dele se afastaram antigos amigos, que, então, passaram a combatê-lo com veemência.

            O Sínodo de Antioquia (378) anatematizava aqueles que “dizem que o Verbo de Deus habitou em carne humana no lugar de uma alma inteligente e racional”. (Mansi, i i i, 486.)

            O primeiro Cânon do Concílio de Constantinopla (381) também condena os apolinaristas, e o Concílio de Roma, de 381, repetia: “Pronunciamos anátema contra aqueles que dizem que o Verbo de Deus esteve na carne humana, em vez ou no lugar da alma humana racional e intelectiva.”

            O Quinisextum Sínodo, de 691, no primeiro cânon, não esqueceu  de, novamente, condenar “Apolinário, chefe da malícia, que impiamente declarou que o Senhor não assumiu um corpo dotado de alma e mente”. (Mansi, Collectio, 1759-1798, XI, 936.)

            Vários outros Concílios referiram-se à doutrina apolinarista, e só citamos os acima, não porque damos importância a excomunhões e anátemas, e sim para provar que Apolinário cria realmente no corpo físico, carnal do Cristo, e tanto é assim, que ele também se apoiava em I-Timóteo, 3 :16: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: aquele que foi manifestado em carne ...” e em João, 1:4: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós ... “, com isto querendo frisar, em defesa de suas ideias, que o Verbo (Logos) foi feito não homem, mas carne.

            À vista de tudo o que, com simplicidade, expusemos, apenas com o intuito de esclarecer, sem mostras de erudição, que confessamos não possuir, devemos concluir que falece razão àqueles que continuam a ligar o Apolinarismo ao corpo fluídico de Jesus.

            Para combater esta última teoria, não mais se faz necessário ressuscitar Apolinário e as condenações católicas que caíram sobre ele, primeiro porque o dito bispo de Laodiceia acreditava na “carne” de Jesus Cristo, e segundo porque a doutrina apolinarista está há muitos séculos extinta.

            Além do mais, precisamos apoiar nossas opiniões em estudos raciocinados e inteligentes, e não em excomunhões arbitrárias ou não. Se assim procedermos acerca de certa questão que queremos defender, é lógico que o devamos também fazer com relação a todas as demais, e neste caso não deveríamos aceitar, por exemplo, a reencarnação, pregada por Carpócrates, Orígenes e outros, a não divindade de Jesus, pregada por Ário,  porque essas ideias e seus partidários foram condenados pela Igreja como heréticos.

            Ário era sacerdote de uma das igrejas de Alexandria, e, em 318, mais ou menos, opôs-se à doutrina do seu bispo, que proclamava a igualdade das três pessoas divinas.

            A relação entre o Pai e o Filho foi um dos problemas que preocupavam seriamente os padres dos séculos IIe III. Pairavam no ar interrogações como estas: Jesus Cristo é realmente Deus? “É a divindade - como escreve Harnack - que apareceu na Terra e tornou a sua presença ativamente idêntica à divindade suprema que governa os céus e a Terra?”

            Com o propósito de satisfazer a estas exigências racionais da fé é que apareceu Ário com a sua doutrina. Pregava que o Filho (Jesus Cristo) é como que uma divindade secundária, inferior, subordinada, colocada entre a Primeira Causa e as criaturas, e não realmente o Deus eterno, onipotente, infinito.

            Deus, segundo Ário, foi sempre único, o princípio, o não gerado. Já o Filho, este foi gerado, e houve um tempo em que não existiu; portanto, conclui Ário, ele não pode ser co-eterno, consubstancial com o Pai, nem igual a este em dignidade.

            Era a negação expressa da “misteriosa” Trindade (três pessoas num só Deus), que começava a enraizar-se no Catolicismo nascente, e que, em fins do século II, ainda se achava meio indecisa.

            Pois bem, foi por isto que o Sínodo de Alexandria o excomungou e expulsou do sacerdócio; que o Concílio de Nicéia (325), convocado pelo imperador Constantino, que a ele presidiu sentado num trono de ouro, condenou Ário e outros bispos que adotavam a mesma doutrina, o mesmo fazendo o Concílio de Constantinopla (381) e outros concílios. Quem estudar, mesmo superficialmente, os concílios na história da Igreja, comprovará as arbitrariedades neles cometidas. “Os autores sacros - comenta Allan Kardec, em “Obras Póstumas” - nada mais conseguiram do que girar dentro do mesmo círculo, produzindo apreciações pessoais, deduzindo corolários acordemente com seus pontos de vista, comentando, sob novas formas e com maior ou menor desenvolvimento, as opiniões contrárias às suas. Pertencendo ao mesmo partido, tiveram todos de escrever no mesmo sentido, senão nos mesmos termos, sob pena de serem declarados heréticos, como
o foram Orígenes e tantos mais. Naturalmente, a Igreja só incluiu no número dos seus Pais os escritores ortodoxos, do seu ponto de vista; somente exalçou, santificou e colecionou aqueles que lhe tomaram a defesa, ao passo que repudiou os outros, e lhes destruiu quanto pode os escritos. Nada, pois, de concludente exprime o acordo dos Pais da Igreja, visto que formam uma unanimidade arranjada a dedo, mediante a eliminação dos elementos contrários. Se se fizesse um confronto de tudo o que foi escrito pró e contra, difícil se tornaria dizer para que lado se inclinaria a balança.” E, mais adiante, conclui Kardec: “Longe de intentarmos apontá-Ios (os Pais da Igreja) no que quer que fosse, apenas quisemos refutar o valor das consequências que se pretende tirar do acordo de suas opiniões.”

            Muitas outras teses doutrinárias, hoje aceitas pelos espíritas, foram também condenadas como heréticas pela Igreja, pois que contrárias ao pensamento dos Padres da Igreja. Para não irmos mais longe, basta dizer que, se fôssemos adotar o veredito da Igreja, para justificar nossas asserções, falsas ou verdadeiras, contra ideias que não professamos, numa argumentação tola e incoerente, não mais deveríamos ser espíritas, pois estes são considerados heréticos pela Igreja, e por esta condenados! 


26 de Fevereiro


26 fevereiro

E na Terra, quanto contraste
No rol da mundana estima! ...
Muitos sobem . .. para baixo,
Muitos descem... para cima.


Gastão de Castro 
por Chico Xavier
 in ‘Reformador” (FEB)   (Junho 1970)



sábado, 25 de fevereiro de 2012

18 "Doutrina e Prática do Espiritismo' por Leopoldo Cirne




18      ***


            Ao grupo de fenômenos que acabamos de relatar, exceção feita dos casos do abade Grimaud e do médium James, poder-se-á opor a objeção de que falta o sinal de identidade dos manifestantes. Preferimo-los, contudo, entre vários outros, pelo seu cunho de intelectualidade, muito acima dos conhecimentos pessoais dos médiuns com cujo concurso foram produzidos, e por nos parecer que são os fenômenos dessa ordem que melhor atestam o fato da sobrevivência, não podendo ser interpretados, como, os de efeitos físicos, por uma exteriorização da força nervosa ou psíquica dos médiuns, conforme a denominação que lhe queiram, como o tem pretendido, dar observadores parciais.

            Mas os casos de manifestações com esse desejado sinal de identidade iniludível são numerosos, registrados na literatura espírita - livros e revistas - de todos os países, só nos restando o embaraço da escolha.

            A fim de não alongar demasiadamente a documentação que nos propomos, acreditamos bastarque mencionemos os seguintes, extraídos da obra de Léon Denis, já indicada. No INVISIVEL - ESPIRITISMO E MEDIUNIDADE, cuja leitura será de sumo proveito a todos os estudiosos.

            Refere ele (págs. 391) :

            "Entre esses numerosos fenômenos (de identidade), pode recordar-se o caso relatado no LIGHT de 27 maio 1899, e devido à mediunidade de Mrs. Bessie Russell-Davies, de Londres:

                "Um pedido de prova de identidade, formulada por pessoas ligadas à corte de Viena, havia sido endereçado a essa senhora. As perguntas estavam encerradas num invólucro lacrado, que se conservou intacto. Depois de alguns dias de investigações, o guia voltou com cinco espíritos, que ditaram uma resposta em idioma desconhecido. Feito o exame, reconheceram os interlocutores que essa língua era o antigo magiar, idioma unicamente conhecido de alguns eruditos. A resposta estava assinada por cinco personagens que tinham vivido dois séculos antes e eram membros falecidos da família húngara que solicitara esse testemunho.
  
            Outro facto, (1) extraído da obra SPIRITUALISM, ITS PHENOMENES, do publicista americano Watson.

                (1) Obra cit., págs. 392.

            "Tinha Watson recebido uma comunicação assinada por seu amigo. o general Th. Rivers. Segundo o costume inglês, o general apusera as iniciais de seus nomes próprios, entre as quais figurava um W.  Ora, nenhum de seus nomes próprios admitia essa inicial. Por escrúpulo e respeito á verdade, Watson havia publicado essa assinatura sem modificação, mas a contragosto e não sem alguma desconfiança, que certas particularidades da missiva parecia deverem dissipar . Os contraditores da imprensa não perderam a ocasião de denunciar o erro, metendo a ridículo esse espírito que não sabia o próprio nome.

            Entretanto, no curso de uma outra sessão o mesmo espirito confirmou aquela inicial, dizendo que sua mãe daria a explicação. A mãe, interrogada, respondeu que o W era um engano. Logo, porém, interveio o espírito, que disse: "Tu achas singular, minha mãe, que eu assine um W; lembra-te, entretanto, de que, em minha infância eu era tão irritadiço que meus companheiros me chamavam "Wasp " (vespa ) . Esse apelido me ficou ; eu o havia adotado e com ele assinava minhas composições. Repara nos meus cadernos e nos meus livros escolares, e neles o encontrarás." Assim se fez e ficou verificada a exatidão do que o espirito afirmara."

            O seguinte fato foi em primeiro Iugar divulgado na REVISTA DE ESTUDIOS PSICOLÓGICOS, de Barcelona (setembro de 1900),' acompanhado de documentos comprobatórios (1):

            (1) Mesma obra, pág. 392-393.

            "Três pessoas, um professor de matemáticas, um médico e um eclesiástico, haviam pedido ao Sr. Segundo Oliver, médium desinteressado, que lhes fornecesse provas da realidade dos espíritos. Após um instante de recolhimento, a mão do médium traçou mecanicamente as seguintes palavras: "Izidora, 50 anos de idade, nascida em San Sebastian, morta a 31 de março de 1870; moléstia cancro Intestinal; deixou três filhos ; seus nomes e idades: P., 15 anos, C., 19 anos, M., 25 anos."

            "Por esses pormenores um dos assistentes reconheceu o espírito de sua mãe. Surpreso e comovido, perguntou se ela tinha alguns conselhos a dar-lhe. O médium retomou o lápis; com grande estupefação, porém, traçou em alguns minutos o retrato de uma pessoa que lhe era desconhecida e no qual foi reconhecido o espírito de Izidora, que em vida jamais consentira em se fotografar. O médium nunca aprendera desenho nem sabia desenhar. Todos os assistentes declararam que não tinham pensado em coisa alguma do que fora escrito e que não podia haver, portanto, um fenômeno de sugestão nem de leitura de pensamento."

            Não já pela escrita automática, mas pelo fenômeno de incorporação denominado trance, foi obtida ainda uma prova de identidade, consignada no RELATÓRIO SOBRE O ESPIRITUALISMO apresentado à Sociedade Dialética de Londres pela comissão para esse fim expressamente nomeada, prova atestada por um Sr. T. Simkiss e assim reproduzida na mencionada obra (págs. 397).

            "Há dezesseis anos, achando-me em Filadélfia (América), não acreditava na vida futura e considerava o Espiritismo a derradeira farsa americana. Fui ver Henry Gordon, médium afamado. Logo que entrei em seu salão, caiu ele em trance e de seu corpo pareceu se apossar algum agente inteligente, que lhe era estranho. Estendeu-me ao mesmo tempo a mão, dizendo rapidamente : "Tom, como vais? Sinto-me feliz por te ver aqui; eu sou teu velho amigo Michael C." Em seguida, após um silêncio: "Eu e alguns outros te incitamos a vir aqui, para te dar provas da imortalidade, que tu não queres admitir." Michael C. era um de meus amigos de colégio, morto havia mais de três anos.

            "Eu estava na América apenas há seis dias e me sentia absolutamente estranho nesse meio. Não pronunciara diante de pessoa alguma, na América, o nome ele Michael C. e nem sequer tinha pensado nele, desde muitas semanas antes daquele dia. Michael C., por intermédio de Henry Gordon, me recordou diversos incidentes de natureza privada, que me deram a inteira convicção de sua personalidade. - T. SIMKISS."

            Rematemos esta documentação com o seguinte caso testemunhado pelo doutor Moutin, presidente da Sociedade Francesa de Estudo das Fenômenos Psíquicos, e por ele comunicado à REVUE SCIENTIFIQUE ET MORALE DU SPIRITISME (março de 1901) :

            "Em 1884, em Marselha, durante a epidemia de cólera, assisti aos últimos momentos de uma de minhas parentas, que fora acometida e sucumbiu dentro de algumas horas.  Antes de morrer, quando já não podia mais falar, quis me comunicar alguma coisa, que eu acreditava importante, a julgar pelos seus gestos de desespero. Fazendo por fim um derradeiro esforço, articulou ela duas vezes a palavra "espelho," indicando com a mão o que ornava o fogão de seu quarto.

                "Seu marido, o Sr. J., estava no mar, nessa ocasião. Informado do ocorrido em seu regresso, e sabendo que a falecida tinha a mania de esconder o dinheiro um pouco por toda parte, não vacilou em retirar a parte posterior do espelho, mas sem resultado.

            "Quinze meses mais tarde, assistindo eu a uma sessão em casa da Sra. Decius Deo, em Avignon, à rua dos Mercadores, e estando essa senhora em trance, o espírito da Sra. J. por sua boca me falou, chamando-me por meu nome próprio, que o médium certamente mão conhecia: "Luciano, venho dizer-te o que te não pude comunicar antes de minha morte. Eu tinha colocado um título de 500 francos da Companhia Fraissinet entre o vidro e o fundo do espelho que está na cozinha. Meu marido vai se mudar e vender talvez esse objeto. É preciso preveni-lo."

 "Escrevi ao Sr. J., que deu a necessária busca e achou o titulo no lugar indicado."








17 'Doutrina e Prática do Espiritismo por Leopoldo Cirne




17      ***


            Não menos demonstrativo é o caso de Hudson Tuttle, um jovem agricultor norte-americano, médium, como James, iletrado e que, como este, se tornou instrumento para a publicação de uma obra, não já de índole romântica, mas de um elevado cunho científico, incomparavelmente superior, por conseguinte, à sua modesta capacidade intelectual.

            Como a ele se refere apenas incidentemente Aksakof (1), por já o haver feito com grande desenvolvimento na revista PSYCHISCHE STUDIEN, (2) que entretanto não temos à mão, é Léon Denis (3) quem nos vai fornecer os pormenores desse interessante caso.

            (1) Ver obra e págs. citadas.
                (2) Coleccão de 1874, págs. 93.
                (3) Ver No INVISIVEL--ESPIRTISMO E MEDIUNIDADE, págs. 279.

            "Hudson Tuttle, de Cleveland (Ohio) - refere o eminente escritor francês - era aos 18 anos um simples lavrador, sem educação nem preparo intelectual, ocupado todo o dia nos penosos trabalhos dos campos. Escreveu durante noites consecutivas, sob a inspiração dos espíritos, um livro admirável, ARCANOS DA NATUREZA, que excedia de muito os conhecimentos científicos da época. Não tinha à sua disposição nem livros, nem biblioteca, porque seus pais moravam na roça e só se ocupavam de agricultura. A obra foi publicada em 1860, com um apêndice indicando a sua origem.

            "Teve três edições na América, foi depois reeditada na Inglaterra, traduzida em alemão pelo doutor Aschenbrenner e publicada em Leipzig.

                "Particularidade curiosa: o doutor Büchner, chefe da escola materialista alemã, leu a obra sem prestar a mínima atenção ao apêndice, acreditou que a produzira um homem de ciência e dela extraiu numerosas citações, que figuram em seu célebre livro FORÇA E MATÉRIA, sem designação de autor.

                "O doutor Cyriax o fez notar, e quando Büchner foi à América realizar uma série de conferências, passou por Cleveland e pediu para ver Hudson Tuttle, "desejoso que estava - dizia ele - de travar conhecimento com um homem que tão valioso auxílio lhe prestara para a confecção de sua obra."

            "O médium lhe foi apresentado por ocasião de um banquete. Grande foi, porém, a decepção de Büchner ao ver o rapaz; e quando soube de que modo haviam sido escritos os ARCANOS, acreditou que era uma farsa. O doutor Cyriax e o Sr. Teime, editor do jornal alemão de Cleveland,  tiveram grande dificuldade em o dissuadir. (Carl du Prel, DER SPIRITISMUS, págs. 44)."

            Por inacreditáveis, a poder de singulares e, mesmo, perturbadores, que tais casos pareçam aos ignorantes da doutrina e dos sucessos do Espiritismo, não são, entretanto, os únicos em que médiuns iletrados, ou de medíocre instrução, têm sido instrumentos de ensinos ou revelações incomparavelmente acima de suas capacidades ordinárias.

            O Sr. J.P. Barkas, membro da Sociedade de Geologia de Newcastle (1), publicou, em 1885, no LIGHT, de Londres, uma série de artigos contendo "Respostas de improviso a questões científicas, por uma médium de educação ordinária", nas quais se encontram desenvolvidas, com admirável proficiência, teorias sobre assuntos técnicos, como por exemplo, "o modo por que a percepção do som atinge a nossa consciência", o motivo da neutralização de dois sons de igual intensidade vibratória, uma descrição, rigorosamente anatômica, do olho humano, etc., das quais não possuía a médium a mínima noção.

            (1) Ver Aksakof, ANIMISME ET SPIRITISME, págs. 332 e seguintes.

            A seu turno, o major-general A. W. Drayson comunicou igualmente ao LIGHT (edição de 1884, págs.  499) uma observação pessoal, subordinada à epigrafe THE SOLUTION OF SCIENTIFIC PROBLEMS BY SPIRITS (Solução de problemas científicos pelos Espíritos), a qual constitui um eloquente desmentido aos que, não tendo dos fenômenos uma demorada e múltipla observação que os habilite a formar juízo autorizado, pretendem que as comunicações espíritas jamais ultrapassam o nível dos conhecimentos, não só do médium, como do círculo em que sejam transmitidas, havendo neste caso mera sugestão mental inconsciente.

            Sem dúvida, não têm por missão os espíritos antecipar-se ostensivamente aos homens na pesquisa da verdade, cujo conhecimento deve ser para estes o prêmio do esforço e um elemento de progresso, limitando-se em geral a assistência com suas inspirações ocultas, como o teremos ocasião de oportunamente apreciar. Casos há, todavia, em que, segundo um critério de utilidade que ao arbítrio humano escapará, mas não deve ser estranho ao plano providencial a que todas as coisas obedecem, a revelação de uma verdade ignorada é transmitida, vindo a ser mais tarde confirmada, como sucedeu com o major-general Drayson, cujo depoimento é o seguinte (1):

                (1) Aksakof, obra cit., págs. 341 a 343.

            "Tendo recebido do Sr. George Stock uma carta em que me perguntava se eu poderia citar um exemplo que fosse de ter um espirito, ou pretenso espírito, resolvido, em sessão, um desses problemas científicos que têm feito a preocupação dos sábios no século passado, tenho a honra de vos comunicar (2) o seguinte fato, de que fui testemunha pessoal.

            (2) A narrativa era, como o dissemos, dirigida ao LIGHT de Londres.

            "Em 1781, William Herschel descobriu o planeta Urano e seus satélites. Observou que esses satélites, contrariamente a todos os outros do sistema solar, percorriam suas órbitas de oriente a ocidente. Diz J.-F. Herschel em seus ESBOÇOS ASTR0NÔMICOS : "As órbitas desses satélites apresentam particularidades inteiramente inesperadas e excepcionais, contrárias às leis gerais que regem os corpos do sistema solar. Os planos de suas órbitas são quase perpendiculares à eclíptica, formando um ângulo de 70° 58', e eles as percorrem com um movimento retrógrado, O que quer dizer que a revolução que efetuam em torno do centro de seu planeta é de leste a oeste, em vez de seguir a direção inversa."

            "Desde que Laplace emitiu a teoria de que o sol e todos os planetas se formaram a expensas de uma matéria nebulosa, esses satélites eram um enigma para ele.

            “O almirante Smith menciona em seu CICLO CELESTE que o movimento de tais satélites, com estupefação de todos os astrônomos, é retrogrado, contrariamente ao de todos os outros corpos até então observados.
           
            "NA GALLERY OF NATURE igualmente se diz que os satélites de Urano descrevem sua órbita de este a oeste, singular anomalia que constitui exceção no sistema solar.

            "Todas as obras de astronomia publicadas antes de 1860 contêm o mesmo raciocínio acerca dos satélites de Urano. Por minha parte, não encontrava explicação alguma para essa particularidade; era mistério para mim, como para os mencionados escritores.

            "Em 1858 hospedei em minha casa uma senhora, que era médium e com quem organizei sessões quotidianas. Uma noite me disse ela estar vendo ao meu lado uma pessoa que pretendia ter sido, em sua existência terrestre, um astrônomo.

            - "Perguntei a esse personagem se era atualmente mais sábio que na terra. - "Muito mais" - respondeu ele.

            "Tive então a ideia de submeter a esse pretenso espírito uma questão, a fim de por à prova os seus conhecimentos. "Pode me dizer - lhe perguntei - porque os satélites de Urano fazem sua revolução de leste a oeste e não de oeste a leste?"

                "Recebi imediatamente a seguinte resposta:

            "Os satélites de Urano não percorrem sua órbita do oriente ao ocidente; giram em torno de seu planeta de ocidente a oriente, no mesmo sentido em que a lua gira ao redor da terra . 0 erro proveio de estar o polo sul de Urano voltado para a terra na ocasião da descoberta desse planeta; assim como o sol, visto do hemisfério austral, parece efetuar seu percurso quotidiano da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita, os satélites de Urano se moviam da esquerda para a direita, o que não quer dizer que percorressem sua órbita de oriente a o ocidente. 

            "Em resposta a outra questão que propus, acrescentou o meu interlocutor:

                "Enquanto se achava o polo sul de Urano voltado para a terra, para um observador terrestre os satélites parecia se deslocarem da esquerda para a direita, e dai se concluiu, erradamente, que se encaminhavam do oriente para o ocidente. Esse estado de coisas durou cerca de quarenta e dois anos. Quando o polo norte de Urano se acha voltado para a terra, os seus satélites percorrem seu trajeto da esquerda para a direita e sempre de ocidente a oriente."

                "Perguntei então como é que aquele erro não fora reconhecido até quarenta e dois anos depois da descoberta do planeta Urano por W. Herschel, ao que me foi dada esta resposta:

            É porque, em regra, os homens não fazem mais que repetir o que disseram as autoridades que os precederam; deslumbrados pelos resultados obtidos por seus predecessores, não se dão ao trabalho de refletir."

            "Guiado por esse ensino, apliquei-me a resolver o problema geometricamente, e verifiquei que a explicação era exatíssima e a solução bem simples. Em consequência, escrevi sobre o assunto um tratado que foi inserto nas Memórias do Instituto real de artilharia, em 1859.

            "Dei, em 1862, essa mesma explicação do pretenso enigma em uma pequena obra sobre astronomia, COMMON SIGHTS IN THE HEAVENS (Vista d'olhos nos céus) ; mas a influência "opinião autorizada" é tão funesta que somente agora os escritores que se ocupam de astronomia começam a reconhecer que o mistério dos satélites de Urano deve ser provavelmente atribuído à posição do eixo desse planeta.

                "Na primavera de 1859 tive, uma vez mais, ocasião de conversar, pelo mesmo médium, com a personalidade que dizia ser o mesmo espírito e perguntei se me poderia esclarecer sobre algum outro fato astronômico ainda ignorado. Possuía eu então um telescópio com uma objetiva de 4 polegadas e de uma distância focal de 5 pés. Fui informado de que o planeta Marte tinha dois satélites, que ainda ninguém tinha visto e que eu poderia descobrir, em favoráveis condições. Aproveitei a primeira ocasião, que se me ofereceu, para fazer observações em tal sentido, mas não descobri coisa alguma.

            "Dei ciência dessa comunicação a três ou quatro amigos com quem fazia experiências espiritas. e ficou decidido que guardaríamos segredo a tal respeito, pois que nenhuma prova possuíamos em apoio das afirmações do meu interlocutor -e ficaríamos expostos à risota geral.

                "Durante a minha estada nas Índias, falei dessas revelações ao Sr. Sinnet ; em que época não o posso dizer exatamente.

                "Dezoito anos mais tarde, em 1877, esses satélites foram descobertos por um astrônomo em Washington."