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terça-feira, 6 de outubro de 2020

Conclusão da pesquisa

 


Conclusão da pesquisa

Ignácio Bittencourt por W. Vieira         Reformador (FEB) Março 1963

 

            Companheiro espírita, que não entendes ainda nos princípios do Espiritismo?

            A singela pergunta surge com imensa importância, porque sem o necessário entendimento do Espiritismo há sempre falhas na utilização do estágio terrestre.

            É imprescindível assimilar a Doutrina Espírita, nas entranhas da própria alma, para que seja vivida nas ações cotidianas.

            Para senti-la, porém, urge compreendê-la, raciocinando.

            Com todos os ensinamentos excepcionais divulgados pelas ciências e pelas filosofias da atualidade, não encontrarás a explicação das Leis que orientam a Vida Eterna, tanto quanto na intimidade da fé positiva que esposamos.

            Quase todos os setores da existência humana já foram motivos para revelações espirituais.

            Quase todos os fenômenos que sensibilizam a consciência já receberam na Terra essa ou aquela palavra esclarecedora do Mais Além.

            Mas o ideal espírita só abrasará o mundo se o acendermos no imo do próprio ser. Evitemos a derrota prévia das almas amodorradas na rotina e construamos o tempo do estudo.

            Ócio é coágulo da vida.          

            Não te contentes em declarar que conheces os postulados que abraças. Aprendizado não decorre de geração espontânea.

            Analisa o teu conhecimento doutrinário nas horas de decisão. Em tais circunstâncias é que demonstrarás para ti mesmo e para os outros como se te gradua o brilho do Espiritismo no âmago da razão.

            E faze testes rigorosos contigo, medindo a própria aplicação: abre indiscriminadamente um compêndio básico de Doutrina e verifica se dominas o assunto tratado nas páginas descerradas.

            Visita uma biblioteca espírita e observa quantos volumes já analisaste com atento.

            Ouve um orador e repara se estás percebendo o conteúdo das palavras pronunciadas.

            Considera qual o esforço que despendes por dia, por semana ou por mês, para realizar esse ou aquele estudo pessoal dos princípios que esposas.

            Sopesa como e quanto já favoreceste, sem imposição, a benéfica renovação dos parentes, amigos e colegas que te cercam.

            O homem não deve ser espírita apenas por inclinação.

            Os Emissários Espirituais dos Planos Divinos não ditam mensagens, desde os albores da Codificação Kardequiana, somente com interesse literário. Visam a elevado fim: a instrução da Humanidade.

            Por esses e outros motivos, reconhecemos o acerto da opinião indiscutível dos Excelsos Dirigentes do Espiritismo, nas Esferas Superiores, que, após minuciosa pesquisa, chegaram à conclusão de que, junto às calamitosas quedas morais e às deserções deploráveis de numerosos companheiros responsáveis pelo serviço libertador, entre todas as causas que dificultam a marcha da Nova Revelação na Terra, destaca-se, em posição de espetacular e doloroso relevo, a preguiça mental.


domingo, 5 de março de 2017

Aviso Oportuno


Aviso Oportuno 
Ignácio Bittencourt
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Janeiro 1956

            Meus amigos: Louvado seja o Senhor.
           
            Em minha última romagem no campo físico, mobilizando os poucos préstimos de minha boa vontade, devotei-me ao serviço da cura mediúnica; no entanto, desencarnado agora, observo que a turba de doentes, que na Terra me feria a visão, aqui continua da mesma sorte, desarvorada e sofredora.

            Os gemidos no reino da alma não são diferentes dos gemidos nos domínios da carne.

            E dói-nos o coração reparar as filas imensas de necessitados e de aflitos a se movimentarem depois do sepulcro, entre a perturbação e a enfermidade, exigindo assistência.

            É por esta razão, hoje reconhecemos, que acima do remédio do corpo temos necessidade de luz no espírito.

            Sabemos que redenção expressa luta. E que resultados colheremos  no combate evolutivo, se os soldados e obreiros das nossas empresas de recuperação jazem, desprevenidos e vacilantes, infantilizados e trôpegos?

            Nas vastas linhas de nossa fé, precisamos armar-nos de conhecimento e qualidade que nos habilitem para a vitória nas obrigações assumidas. Conhecimento que nasça do estudo edificante e metódico, e qualidade que decorra das atitudes firmes na regeneração de nós mesmos.

            Devotamento à lição que ilumine e à atividade que enobreça.

            lndubitavelmente, ignoramos por quanto tempo ainda reclamaremos no mundo o concurso da medicina e da farmácia, do bálsamo e do anestésico, da água medicamentosa e do passe magnético, à feição de socorro urgente aos efeitos calamitosos dos grandes males que geramos na vida, cujas causas nem por isso deixarão de ser removidas por nós mesmos, com a cooperação do tempo e da dor.

            Mas, porque dispúnhamos de semelhante alívio, temporário embora, não será lícito olvidar que o presente de serviço é a valiosa oportunidade de nossa edificação.

            A falta de respeito para com a nossa própria consciência dá margem a deploráveis  ligações com os planos inferiores, estabelecendo , em nosso prejuízo, moléstias  e desastres morais, cuja extensão não conseguimos sequer pressentir; e a ausência de estudo acalenta em nossa estrada os processos de ignorância, oferecendo azo às mais audaciosas incursões da fantasia em nosso mundo mental, como sejam:: a acomodação com fenômenos de procedência exótica, presididos por rituais incompatíveis com a pureza dos nossos princípios, o indevido deslumbramento  diante de profecias mirabolantes e a conexão sutil com inteligências desencarnadas menos dignas, que se valem da mediunidade incauta e ociosa entre os homens, para a difusão de notícias e mensagens supostamente respeitáveis,  pela urdidura fantasmagórica, e que encerram em si o ridículo finamente trabalhado, com o intuito de achincalhar o ministério da verdade e do bem.

            A Morte não é milagre e o Espiritismo desceu à Humanidade terrestre com o  objetivo de espiritualizar a alma humana.

            Evitemos prometer como aquele artífice do apólogo que pretendia consertar a vara  torta, buscando aperfeiçoar-lhe a sombra.

            Iluminemos o santuário de nossa vida interior e a nossa presença será luz.

            Eis a razão por que, em nos comunicando convosco reportamo-nos aos quadros dolorosos que anotamos aqui, na esfera dos ensinamentos desaproveitados, para destacar o impositivo daquela oração e daquela vigilância, perenemente lembradas a nós todos pela advertência do nosso divino Mestre, a fim de que estejamos seguros no discernimento e na fé, na fortaleza e na razão, encarando o nosso dever face a face.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Espiritismo e falsas revelações superiores



             Todos estamos juntos no grande barco. Somos forçados a conviver tanto com aqueles a quem admiramos e respeitamos, quanto com os que preferiríamos não ter a nosso lado. Quantas vezes agimos com precipitação, assemelhando-nos a crianças caprichosas, que, aos rompantes, exigem a guloseima de sua preferência. Esperamos, oniricamente, o mar de rosas, mas quase nunca nos lembramos de que os cultivadores das belas roseiras, que nos enchem os olhos, numa estética sublime, e nos plenificam o olfato com essência inebriante, enfrentam as mais rudes dificuldades, da semeadura à colheita.

            Dentre as roseiras, uma existe, plantada pelas mãos do Senhor, cultivada por
emissários divinos, a qual teve um dos seus botões colhidos por Allan Kardec. Que ela
prossiga abençoando os pântanos do mundo. Nossa flor não se destina aos jardins da
bem-aventurança ou aos jarros de fino cristal, adornando lares diversos; ela está dirigida à nossa conversão para a bem-aventurança, prometida por Jesus, segundo os esforços que empenhássemos.

            Decerto, todos os jardins sofrem invasões .de ervas daninhas, as quais se disfarçam em subterfúgios incontáveis, às vezes numa humildade superficial, tentando enraizar-se e ganhar força. Lutam pela discórdia na família de Jesus, integrada pelos coxos, pelos estropiados, pelos pobres, abastados e ricos, assim pelos bons como pelos maus, uma vez que existe, aos olhos do Senhor, tão-somente um imenso número de sofredores, todos seus irmãos e nossos irmãos; e, para Deus, só há filhos, a quem Ele jamais dará pedras! Convenhamos que as pedras de nossas existências nada tem a ver com Deus: são escolha nossa. Nada acrescentemos a isso: retornemos à nossa rosa.

            Cabe-nos preservá-la, naquilo que nos toque. Não nos esqueçamos, por minuto sequer, de que o Espiritismo abrange as mais surpreendentes formas de consolo, ainda que se revistam de aparentes contradições. Só assim pode ele balsamizar os ares irrespiráveis da Terra onde vivemos. Ele é o elemento vivo da retomada do Evangelho do Senhor, em Espírito e Verdade: todos os homens, das mais longínquas nações, das aldeotas às metrópoles, retomarão a Ele.

            Se este é um plano estabelecido, atenção, no entanto, para as influências estranhas: cuidemos da terra, porque reside principalmente nela a força da planta. É sabido que a Verdade assume inúmeras facetas, respondendo pelas necessidades de cada povo. A nós, todavia, há facetas primitivas da verdade restrita que já não mais convêm. Não mais podemos aceitar as fantasias absurdas que, povoando a mente humana, por vezes querem alar voo e ditar normas. Busquemos, isto sim, a pureza dos princípios espíritas, que Kardec codificou, o que nos manterá em guarda contra os excessos, estes ditados pelos desejos irreprimidos de nosso coração. Se não nos cabe combater nossos irmãos de outras crenças, nem por isso se nos está autorizada uma passividade tal, que tudo nos leve a aceitar sem reservas. Aliás, é conveniente ressaltar, se outras religiões agem como estágios antecedentes à verdade espírita, faz-se urgente que nos mantenhamos em guarda contra os falsos profetas, os que nos trazem revelações fantasiosas, fáceis, porém, de serem aceitas pelo Espírito não dado à reflexão, porque, em geral, os emissários do desentendimento aproveitam os primeiros impulsos do homem velho para materializá-los, em forma da barra de chocolate para a criança gulosa, e todas as tentações para o invigilante. Firmam as primeiras impressões, sempre que lhes apoiem as teorias absurdas, para, logo após, hipnotizar as vítimas, boicotando-lhes a atividade libertadora, privando-as das legítimas edificações espirituais, em nada capciosas, para, enfim, quando desejar o homem libertar-se, fazer com que se veja ele preso ao tribunal da própria consciência, onde ouvirá a leitura do libelo. Ante a sentença do juiz, que é ele mesmo, só lhe restará, então, recolher-se à célula, para chorar na solidão o desespero do invigilante e o tormento do culpado. Guardemos atenção.

Espiritismo e falsas revelações superiores
Ignácio Bittencourt

Reformador (FEB) Fevereiro 1976

domingo, 11 de dezembro de 2011

Em favor do Espiritismo


Em favor do Espiritismo


            Muito há sido feito em favor dos interesses imediatistas do homem; consideração lhe é devida, a ele e a seus desejos plausíveis; atenção para com os seus problemas ocupa lugar de destaque nos planos de ação da Espiritualidade; procura-se atender a todas as carências do coração preso à lide terrena; tomam-se providências no sentido de pensar as chagas que a infantilidade vem abrindo com prodigalidade nas mais nobres realizações do orbe; buscam-se
as mais eficientes terapêuticas, visando a colaborar espiritualmente em favor da carência interior da humanidade; tem-se escrito páginas e páginas de desdobramento da Revelação Espírita,  sem que - em qualquer ocasião - se esqueça do conforto moral devido aos semelhantes;  brotam inspirações pela Terra inteira: o espírito de Deus sopra pelos quatro cantos do mundo) através dos arautos da Boa Nova do Reino; aconselha-se a tolerância, insufla-se a fraternidade; a ponderação e o despertar construtivos vêm sendo repisados nas mais diversificadas ocasiões: o Plano Espiritual fervilha em intenções. É preciso que a Terra seja transformada em câmara de eco, respondendo aos apelos que o Senhor lança sobre ela, correspondendo--lhe à confiança.

            Mas, ao contrário, o que vem acontecendo, senão a desatenção aos ditames do Mais Alto? O que vem movendo os corações humanos; senão a sede avassaladora da fama, além da cobiça incontida dos regalos das situações privilegiadas? Há quanto tempo a ferrugem tem estado a corroer a enxada atirada ao depósito íntimo, considerada como instrumento irremissivelmente anacrônico? O homem, e acima de tudo o espírita, tem colocado a Doutrina em plano de primariedade, negligenciando-lhe a pureza. O Espiritismo corre o sério risco de transformar-se em nova fonte dos desejos) se lhe não forem restauradas as bases, levando-se em conta a gula de saber que assola o mundo. Sim, porque o saber desenfreado perde suas mais altaneiras características e passa a ser elemento de destruição. O Evangelho está na base de tudo; só ele destrói os caprichos.

            Quem quer que se lance à prática doutrinária precisa, desde a primeira hora, começar a construir o pequeno degrau que lhe toca, com bom cimento, com boa vontade e com inaudita perseverança. E aqueles que já labutam no seio do Espiritismo carecem urgentemente de reformulação porque, se o Espiritismo vem movimentando em favor de todos os meios da redenção de muitos não se justifica que outros tantos deixem de algo realizar em favor dele, apenas por se julgarem preteridos, dessa ou daquela maneira. Afinal, o que lhe fizerem, a eles mesmos reservarão os resultados. E não se trata de simples retribuição: o Espiritismo, como Cristianismo redivivo, prega em si e existe em si, a favor dos homens; mas, caminhará contra eles ou apesar deles, se não quiserem que lhes norteie os passos.

            Como se vê, trata-se de simples opção: ou se aceita a bênção do Espiritismo - que é Jesus entre nós - e se colabora em prol dele, ou se persiste em dele afastar-se, sem mais direito às imensas e excelentes vantagens que buscam os que entendem o mundo sem pertencer a ele. Ou se retoma à realidade da Terra, desenterrando dos subterrâneos do coração a enxada corroída - e tida como ultrapassada, ou lá se fica, vegetando no limo parasitário ou dependurado ao balaustre da ilusão, lançando moedas às águas enganosas do sonho.

Ignácio Bittencourt

por Gilberto Campista Guarino,
Reformador (FEB) Jan 1975




quinta-feira, 14 de julho de 2011

'Festividades dentro do Centro Espírita'



Espiritismo,
Evangelho... 
e  festividades
(Resposta à consulta de um amigo terreno)

  
Inácio Bittencout
Recebido pela médium Yvonne A. Pereira em 28-5-1959
publicado no Reformador (FEB)  em  Agosto 1959
           
            Muito amável e desvanecedor o teu gesto, meu amigo, lembrando-te de mim em meio das confusões desse mundo em que ainda vives, recorrendo à opinião do teu velho Inácio, da Rua Voluntários da Pátria n. 20, agora que ele já não te pode à viva voz falar.
            Vejo que, como espírita, aderiste ao movimento denominado ‘Mocidades Espíritas’, e de um grupo de jovens te tornaste mentor. Felicito-te pelo elevado encargo moral-espiritual que a ti mesmo conferiste e daqui, da minha banda deste Além cheio de realidades e surpresas, formulo sinceros votos ao Criador para que bem te desincumbas de tão espinhosa missão.
            Na Terra ainda, quando eu te conheci, tu eras muito jovem e não eras espírita... E já agora estás à frente de um pastoreado de almas!... Vem ao caso perguntar-te, meu amigo, se, do tempo que me passei daí para cá, ou seja, da Terra para o Além, já conseguiste aquisições e cabedais tão vastos para uma tarefa de tal vulto?!...
            Mentor de Mocidades!...
             Aqui também, no além-túmulo, existem coisas parecidas com esse movimento em que te observo empenhado. Acredito mesmo que esse caso de ‘Mocidades Espíritas’ tende a evoluir, melhorando-se, reajustando-se, nobilitando-se e, acima de tudo, cristianizando-se para uma finalidade augusta. Apenas depois que tua gentileza bateu à minha humilde porta de além-morte, à cata de minha modesta opinião, é que me entreguei com maiores atenções, à observação dos acontecimentos que tanto te vêm preocupando e mesmo empolgando.
            Perguntas-me, ‘santamente ingênuo’, como talvez dissesse, ainda hoje, aquele adorável mártir Giordano Bruno, se será lícito fazer-se de um Centro Espírita um misto de Templo religioso, de Santuário de Ciências Espirituais e de auditório de teatro ou sala de concertos, para cativar os teus jovens pupilos iniciantes de Espiritismo?... Oh, meu amigo! Eu poderia perguntar-te, respondendo, se o que tu tens aprendido nos livros de Doutrina Espírita, depois do meu trespasse para o lado de cá, autoriza alguém a promover forrobodós e ‘soirés’ num lugar sagrado, isto é, num Centro Espírita, que nós, os desencarnados, respeitamos no mais alto grau, como sendo um Santuário, e onde vós outros, os encarnados, costumam ser consolados das vossas dores e provações com a presença dos vossos mortos queridos e os conselhos dos grandes Espíritos instrutores da Humanidade, a serviço de Jesus! Vale aqui declarar-te que essas encenações assaz medíocres, a que, com surpresa, assistimos de há uns tempos para cá, invadindo os Centros Espíritas, são muito estranhas e ficam muito mal onde certa corrente de espiritistas as tem querido colocar. Creio, filho, que aos teus jovens subordinados, como mentor que te confessas de um grupo de moços, deves aconselhar, em primeiro lugar, a assimilação da Doutrina Espírita, essa sublime Terceira Revelação, mais cheia de encantos e atrativos do que os teus teatros e recitais; que eles a aprendam, sim! sob a direção sadia e firme das tuas orientações, para que bem cedo se tornem cidadãos respeitáveis, espíritas responsáveis para carregarem o peso das verdades que ela, a Terceira Revelação, ainda não acabou de ditar aos homens. Esta é que é a finalidade do Consolador! 
            Quanto aos teatros, aos recitais, etc., se eles quiserem e tiverem vocação para qualquer ramo das Artes, nada existe na Doutrina Espírita que os impeça a se habilitarem nele. Que aprendam a boa música, o bel-canto; que se tornem bons declamadores, bons poetas. Que se façam até atores e bailarinos e levem tão belas aquisições a moralizarem os ambientes profanos, a fim de educá-los com sua altivez e dignidade pessoais, pois prestarão à Causa Espírita e à Sociedade terrena um serviço grandioso. Serão assaz admirados se conseguirem cursar um Instituto que bem desenvolva neles tais valores, pois que, uma vez edificados na Doutrina, saberão nobilitar tudo o em que tocarem.
            O que, porém, eu, como Espírito desencarnado hoje, e ontem como espírita que dedicou toda a sua vida a serviço da Causa, não creio seja lícito, é consentires que quem quer que seja leve para o Centro que diriges a profanação das festas mundanas, dele fazendo - não mais um receptáculo das inspirações divinas, como devem ser os Centros espíritas bem orientados, mas uma platéia heterogênea onde a mediocridade da arte apresentada fará atrair os pândegos e paspalhos do Invisível, em vez dos abnegados obreiros de Jesus, os quais, assim sendo, de forma alguma poderão descer das suas sublimes tarefas a prol da salvação da Humanidade para bater palmas aos desvirtuamentos de solenidades sérias, cuja abertura tem sempre como chave máxima o nome sacratíssimo do Todo-Poderoso e de N. S. Jesus Cristo!
            O que, outrossim, não me parece ainda lícito, é tu, que te confessas orientador de ‘Mocidades’, permitires futilidades, no seio da Doutrina, a jovens inexperientes que deverão antes desejar a luz do saber e a sublimação do espírito! O que não posso aplaudir em ti, meu filho, é consentires que os teus jovens, abastardando a Doutrina com festividades de mau gosto, abastardem também as Artes, pois que (perdoa-me a aspereza da expressão) não vejo artistas entre os teus pupilos, e sim, Espíritos que, ao reencarnarem, prometeram ao Divino Mestre zelar pelo Consolador e engrandecê-lo com o devotamento inspirado no Evangelho.
            Não, meu amigo! Não faças do teu Centro Espírita um palco, uma ribalta, um ambiente confuso onde se abrem trabalhos em nome de Deus e de Jesus, para depois se permitirem festanças e teatralices que nos entristecem, a nós outros, trabalhadores do lado de cá, pois que, ainda que apresentasse Noturnos do melodioso Chopin, Sonatas do erudito Beethoven e Concertos do incomparável Mozart, ainda assim não te poderíamos aplaudir, porque a Humanidade precisa mais do amor do Cristo e da ciência de si mesma do que das peças de qualquer desses três gênios... e em seguida porque... a música, o teatro, as festas que o Invisível nos proporciona, a nós desencarnados, são de tal ordem que até mesmo Chopin, Beethoven e Mozart pareceriam insípidos diante delas... e ainda porque, meu querido amigo, não será através dos já citados forrobodós, das ‘soirés’ e noitadas ‘artísticas’ dentro dos Centros Espíritas que tu e todos os demais espíritas alcançarão um local feliz no Além-túmulo, mas com o verdadeiro Amor, o verdadeiro Trabalho e o verdadeiro Conhecimento em favor uns dos outros e pelo amor da Verdade!
            Espera, meu amigo... Lembrei-me agora de uma coisa:
            -Não tarda a volta do Esposo... Relê, estudando, a parábola das Virgens Loucas e da Virgens Prudentes... Esse ensinamento é de muita atualidade... e vejo que tu precisas dele para ensinares aos teus pupilos a obterem o azeite para que tenham a candeia bem acesa...
            Do teu velho amigo
                                               Inácio Bittencourt
           
           
Nota do Blogueiro:
            Inácio Bittencourt mereceu destacada biografia iniciada à página 384 da 2ª Edição do livro ‘Grandes Espíritas do Brasil’ (FEB) de autoria de Zêus Wantuil.
            Nascido em Portugal e desencarnado no Rio de Janeiro em 1943, legou extensa obra de caráter humanitário e doutrinário. Ativo militante do movimento espírita, foi dirigente de Centros e médium receitista sendo inclusive processado pela atividade.
            Zêus, na obra citada, assim se exprime sobre o amigo:  “Forte na fé, valoroso na humildade, impertérrito na caridade, tal se revelou este velho companheiro de lides espiritualistas e amigo muito benquisto.”