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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Divide ut Imperes

Divide ut Imperes
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB)   Agosto 1962

            Desde o antigo senado romano, passando por Luís XI, Catarina de Medicis, Machiavel e os czares da Rússia, a fórmula "divide para dominar" tem sido empregada pelos espíritos mais tenebrosos.

            O movimento espírita não poderia passar ileso das campanhas de divisão para destruição.

            Têm surgido muitas vezes e repetem-se sempre às tentativas de desunir para vencer e destruir o movimento.

            Felizmente os nossos irmãos compreendem que a Doutrina é de amor incondicional a todos os seres, não combate nem o mal nem os maus, limitando-se a edificar o bem para que o mal desapareça por si mesmo e os maus se convertam ao bem por falta de ambiência para maus intentos, por isso os espíritas reconhecem logo a procedência tenebrosa de todas as tentativas de divisão e não se deixam arrastar às campanhas de ódio contra quem quer que seja.

            Desde que uma voz se levante faltando à caridade contra alguém, percebemos logo sua triste inspiração e sua finalidade de dividir para destruir.

            O ataque pode tomar as formas mais diferentes unia das outras: ora se ataca um livro, ora uma organização, de outras vezes uma pessoa.

            Soa estimada no movimento, mas sempre traz em si mesmo a marca de sua origem: ausência de caridade e tentativa de fracionar, para enfraquecer e destruir.

            Todos os "defensores" da Doutrina, que atacam a alguém, caem logo na suspeita dos nossos irmãos, porque estes compreendem que a nossa obra é sempre de amor e construção, nunca de ataque a alguém ou a alguma coisa.

            Os oitenta anos (+53) de experiência da FEB tem-nos ensinado a nos guardarmos sempre do perigo de divisão, venha ele com as mais belas vestes.

            Sem dúvida aparecem obras más, trabalhos imperfeitos, livros errados, mas tudo isso cai por si mesmo à medida que surgem coisas melhores.

            Não tenhamos medo de "hereges", mas nos guardemos cuidadosamente contra os perseguidores de "hereges", porque a história religiosa do mundo já nos mostrou como são perigosos os que perseguem os "hereges". Seu zelo peca mortalmente contra a própria doutrina que pretendem defender e ocasiona toda a sorte de males.

             Construamos o bem e o mal cairá por si mesmo, porque só o amor é força invencível na eternidade.


             Saibamos ver e combater o inimigo que temos dentro de nós, para podermos ser unidos e não nos perturbarmos com as campanhas do “divide ut imperes".

Ismael Gomes Braga

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Um inimigo só

'Um inimigo só'
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Julho 1955      

            Quando a luz do conhecimento evangélico penetra o plano obscuro de nossa mente, estabelece-se a divisão, no mundo de nossa alma, entre o bem e o mal, entre a claridade e a treva...

            Compreendemos, então, que o nosso conceito de paz se modifica. E observamos, espantados, a paz do cofre recheado de ouro, que se transforma, com o tempo, em aflição da avareza; do excessivo reconforto da carne que, não raro, se converte em moléstia infeliz; da alegria da herança amoedada que, frequentemente, desaparece em amarga tortura mental; do contentamento da posse efêmera, que, pouco a pouco, dá lugar a lamentável escravidão do espírito; da mentirosa segurança do poder humano que, cedo, se mergulha na pesada corrente do desencanto...

            Chegamos, assim, a entender que a paz fictícia da morte moral acompanha sempre os iníquos e os perversos, os maus aparentemente triunfantes e os enganados de todos os matizes, que despertam, invariavelmente, nos espinheiros da dor e da desesperação.

            Por isso mesmo, a revelação do Evangelho em nós, na profunda intimidade de nossa alma, é guerra - luta imensa - que nos compele ao aprimoramento incessante, e, se nos vemos, realmente, muitas vezes separados de nossos familiares e de nossos laços mais queridos ao coração, segundo o ensinamento da Boa Nova, somos obrigados a reconhecer que, nesse combate sem sangue do nosso campo interior, somente possuímos um grande inimigo - o nosso próprio "eu", separado da verdade divina, que precisamos reestruturar, nos moldes do nosso Divino Mestre, a golpes de sacrifício pessoal, a fim de que nos coloquemos ao encontro da grande fraternidade, para a vitória plena do amor em nosso espírito, em marcha sublime para a nossa destinação de filhos de Deus, na glória da vida
imortal.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Doutrinar Sempre

Doutrinar Sempre
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Agosto 1962

            Nada é mais necessário fazer no ambiente espírita do que doutrinar, levar a Doutrina à compreensão dos confrades mais humildes, para os quais há conveniência em se adotar linguagem muito simples, que lhes permita rápida assimilação das ideias apresentadas.

            Não se trata, positivamente, de falar bonito, mas de falar eficientemente, com absoluto conhecimento da Doutrina, para esclarecer, ensinando. É bem mais importante do que possa à primeira vista parecer, a pregação inteligente da Doutrina de Kardec. O número daqueles que perambulam pelo Espiritismo e pouco ou quase nada sabem de Doutrina é muito grande. Em virtude da "lei do menor esforço", muitas vezes o adepto do Espiritismo não se mostra exigente, não zela pelo respeito à Doutrina, porque a desconhece em suas minúcias. Aceita qualquer "espiritismo" que lhe pareça bom por falar em Jesus, no bem, etc.

            Evidentemente, isso não basta. Seria ótimo que a só menção do nome de Jesus fosse bastante para assegurar a certeza de que os princípios doutrinários do Espiritismo são observados em qualquer parte. Tal não sucede, porém. Há necessidade de se martelar a Doutrina, pela palavra falada, nas tribunas e no Rádio, pela palavra escrita, nas conversações, enfim, onde quer que estejam reunidos indivíduos que debatam temas espíritas.

            Todos nós, que nos sentimos com alguma responsabilidade no movimento espírita nacional, devemos ser rigorosos na exemplificação de todos os instantes, porque os olhos dos confrades mais novos ou dos adeptos incipientes convergem justamente para aqueles que eles supõem ser corretos no procedimento moral.

            Doutrina, Doutrina, Doutrina - eis o ponto fundamental de qualquer propaganda espírita kardecista. Com a difusão da Doutrina será mais fácil corrigir maus hábitos, superstições, abusões, erradas interpretações dos fatos espíritas e destorcida compreensão do que eles possam ignificar à luz dos preceitos doutrinários.

            Ninguém pode ter "o seu espiritismo". Todos podem ter apenas o Espiritismo fundamentado na Doutrina, que é simples, porém positivo. Ele somente sobreviverá através da Doutrina. Sua consolidação se deveu à unidade de ação dentro dos princípios doutrinários. Mas à medida que se vai ampliando o seu raio de ação, à medida que cresce extraordinariamente o número de adeptos, é mister reforçar e ampliar o trabalho doutrinário.         

            Devemos dizer uma verdade que talvez não seja bem aceita: o Espiritismo teórico não lança raízes profundas no espírito dos adeptos mais esclarecidos. É imprescindível que ele seja comprovado pelo trabalho prático, objetivo, ilimitado, com base na assistência social, na caridade respeitosa, no socorro àqueles que, tangidos pelos compromissos do Carma, vivem uma existência de privações dolorosas.

            Isso tem sido feito no Espiritismo, mas precisa de ser multiplicado, desenvolvido e mantido permanentemente, numa atmosfera evangélica de reconstrução moral e espiritual de pobres irmãos em terríveis provas na Terra.

            Dar o pão do espírito sem esquecer o pão do corpo, eis o caminho que tem apresentado resultados mais seguros e mais rápidos. A Doutrina tanto pode ser encontrada dentro de um livro como dentro de um pedaço de pão.

            Nunca o mundo sofreu tanto quanto presentemente; nunca houve tanta dor nem tanta miséria como nos dias que correm. Por isto, as responsabilidades dos espíritas multiplicaram-se e eles têm de sustentar galhardamente essa luta, sem o que poderão ser absorvidos ou perturbados em suas tarefas.

            Doutrinar, Doutrinar, Doutrinar, exemplificando, ajudando, trabalhando praticamente também, para que os obstáculos sejam mais facilmente superados.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Sibila de Rosenhn

A Sibila
de Rosenhn


Túlio Tupinambá /(Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Junho 1962

            Refere-se este artigo à médium alemã Kate Speemans, que nasceu na Baviera, em 1783, na cidadezinha de Rosenhn, perto de Munique. É considerada um dos médiuns mais célebres de todos os tempos.

            Pelo que se sabe, desde os doze anos que a consultavam antes de realizar qualquer tarefa de importância. Revelava experiência segura em assuntos que, fora do transe mediúnico, desconhecia inteiramente, muitos dos quais ocorridos antes da data do seu nascimento.

            Se lhe perguntavam de onde tirava tais conhecimentos, ela respondia invariavelmente assim:

            - “Há muitos anos já que vivo entre vocês. Conheci-os quando ainda vocês todos eram tão pequenos quanto eu o sou agora.”

            Sua fama se espalhou rapidamente e o povo começou a denominá-la “a sibila de Rosenhn”.

            Entre os muitos cronistas que a ela se referiram, conta-se Delaunay, que relata este fato:

            “Certa vez um irmão do Príncipe Guilherme procurou-a. Era moço, ardente e impetuoso nos seus trinta e dois anos. Inconformado com a posição secundária em que se achava no Reino, por não ser o primogênito, perguntou a Kate Speemans quando chegaria a ocasião de prestar algum serviço a seu país, de modo a despertar a atenção do povo, que não tomava conhecimento da sua existência. Ele estava soberbo no uniforme militar com que se apresentara àquela médium.

            Depois de observá-lo rigorosamente, ela respondeu:

            - Príncipe, sois muito ambicioso. Tereis um futuro brilhante e vos cobrireis de glória juntamente com a nossa pátria. Todavia, temeis mais a enfermidade do que a morte. Não tendes paciência para sofrer.

            - Quando acontecerá isso? Quando terei um papel ativo no Reino? Quando deixarei de estar relegado a uma posição secundária e obscura?

            Essa sucessão rápida de perguntas denunciava o estado de espírito do jovem príncipe.

            Kate não tardou a responder:

            - Estamos no ano de 1829...

            Levantou-se, apanhou um pergaminho que se achava sobre a mesa, e, apresentando ao príncipe uma pena de águia, de finíssimo corte, disse-lhe que escrevesse o ano referido -... 1829, repetindo verticalmente os algarismos debaixo do último deles, de modo a poderem ser somados:

                                               1829
                                               1
                                               8
                                               2
                                               9
                                               1849

            No ano de 1849, que é a soma dessa simples operação, reprimireis um movimento democrático iniciado na França, o qual transtornará a cabeça dos nossos compatriotas. Vencereis os revoltosos e restabelecereis totalmente a ordem.

            - Poderei unificar um dia os povos germânicos, formando um só império e reinando sobre ele? - indagou, nervoso.

            Kate, séria, mostrando impressionante palidez no rosto, falou:

            - Sim: sereis imperador da grande Alemanha.
            Mais nervoso ainda, o príncipe exigiu:

            - Mas... quando?! quando?!

            Notando a profunda emoção do visitante, a médium respondeu imperturbavelmente:

           - Somai agora a 1849 as mesmas cifras, de maneira idêntica ao que fez há pouco e encontrareis a resposta.

            O príncipe, aflito, obedeceu, e o resultado da nova soma foi este:

            1849 + 1 + 8 + 4 + 9 = 1871

            Deixando-se trair pelo entusiasmo, o príncipe exclamou em voz alta:

            - Quer dizer que serei imperador em 1871!

            Pois bem, Kate: se a sua profecia for acertada, não me esquecerei de você. Será que a sua ciência poderá ir mais longe ainda? Poderá dizer o ano em que morrerei?

            A médium fixou bem os olhos do príncipe e considerou:

            - Não gosto de revelar aos homens o segredo de sua última hora - disse ela, depois de uma pausa em que meditou acerca da inesperada pergunta.

            E acrescentou:

            - Alteza: ninguém possui uma alma tão bem forjada que possa afrontar sem temor a data fatal. Perdoai-me e relevai o meu silêncio a este respeito.

            O príncipe, porém, era voluntarioso e insistiu:

            - Mas você não me assegurou há pouco que sou forte e que a morte me assusta menos do que a enfermidade? Pode responder-me, se é que a sua ciência alcança até esse limite...

            Diante de tais palavras, que ocultavam uma ordem, Kate Speemans cedeu:

            - Se assim o exigis, Alteza, não tenho outra alternativa: Repeti a mesma operação de antes, somando de novo, e os números vos darão a resposta que desejais. Podeis ter a certeza de que dirão a verdade.  

            Ele começou a escrever:

            1871 + 1 + 8 + 7 + 1 = 1888

            O príncipe ficou profundamente emocionado.

            A voz lhe sumira da garganta. Quando pode falar, disse à médium:

            - Promete-me você longa vida. Se ela for feliz e gloriosa, aceitarei com satisfação a profecia. .. Entretanto, desejo fazer-lhe uma última pergunta: Durará muitos anos o Império que será fundado por mim?

            Não se conteve e estabeleceu novas interrogações:

            - Sofrerá o meu país a influência das novas ideias? Perderá a Monarquia, no futuro, o seu prestígio, implantando-se aqui, no Reino, o regime democrático?

            Impassível, a médium, como resposta, realizou nova soma:

            1888 + 1 + 8 + 8 + 8 = 1913

            Sem conter a desilusão, mas resignado, o príncipe guardou o pergaminho em que haviam sido feitas todas as somas e se despediu de Kate, dando-lhe as mais inequívocas demonstrações de agradecimento.

            Esse príncipe se tornou, na data fixada, 1871, imperador da Alemanha. Foi ele Guilherme I. Todas as datas foram rigorosamente exatas. Tendo por sustentáculo o Marechal Bismark, chamado o “Chanceler de Ferro”, Guilherme I desencarnou em 1888, sendo sucedido por seu filho, Guilherme II, o Kaiser, cuja ambição desmedida de escravizar o mundo iniciou a desagregação do Império fundado por seu pai. Kate apontou o fim do Império para 1913, pois, na realidade, foi nesse ano que o pan-germanismo começou a desmoronar, embora só em 1914 rebentasse a primeira Conflagração Mundial, provocada pelo Kaiser, e a guerra terminasse em 1918. Foi em 1913 que o trabalho oculto de desmantelamento do Império começou a ser feito, desde quando Guilherme II decidiu tornar-se senhor do mundo.

            Aí está, em linhas rápidas, uma face importante e não menos curiosa da mediunidade. Kate Speemans, “a sibila de Rosenhn”, não desmentiu o prestígio que adquirira como médium, embora muitos a tomassem, o que ainda hoje é comum,

por simples “feiticeira”... 

Maravilhas do Evangelho


Maravilhas
do Evangelho

Sylvio Brito Soares
Reformador(FEB) Junho 1962

            Em suas peregrinações pela Galileia, era hábito de Jesus pregar nas sinagogas e curar, com a força magnética de seus fluidos, muitos dos chamados endemoninhados, isto é, criaturas sujeitas à vontade de Espíritos maléficos.

            Certo dia, um jovem, então empolgado com a pregação do Mestre e com os prodígios que operava, não mais pode sopitar os anseios de sua alma e, por isso, dirigiu-se a Jesus, dizendo-lhe resolutamente: - Seguir-te-ei, Senhor!

            A verdade, porém, é que os homens, mesmo nos momentos de arrebatamento, têm sempre na vida um “mas”, uma restritiva, e isto porque ainda se conservam escravizados às coisas do mundo!

            Esse mancebo, após prometer ao Divino Mestre que o acompanharia em sua jornada de amor e luz, acrescentou, apressado, um “mas”, isto é, que Jesus lhe permitisse ir antes despedir-se dos que se encontravam em casa.

            A resposta de Jesus há de causar surpresa aos espíritos pouco afeitos às sutilezas das palavras, que bem representam um símile perfeito das criaturas. Quem vê um homem finamente vestido, de maneiras delicadas, não acredita que seu coração seja uma usina de ódios, intemperanças e amoralidades. E quantas vezes nos enganamos nós, presumindo que este ou aquele maltrapilho é um vagabundo, um malfeitor vulgar, quando, em verdade, em sua alma rebrilha a luz encantadora do amor e da honestidade!

            Muita gente tem lido e relido as palavras constitutivas da resposta de Jesus, sem atinar com o seu conteúdo espiritual, com a beleza de seus ensinamentos.

            Mas qual foi a resposta do Messias a que estamos aludindo? Apenas esta: - Quem empunha o arado e torna a olhar para trás, não é apto para o reino de Deus.

            É bem certo que escritores mal avisados, levianos em suas apreciações apressadas, tem feito reparos a essa resposta, porque, dizem eles, Jesus, assim falando, está implicitamente pregando a secura de coração, despedaçando os ternos laços da família.    

            Ora, não é crível, absolutamente, que o Divino Enviado tivesse o propósito de aconselhar tamanho absurdo. O espírito dessas suas palavras é outro bem diverso. Faz-nos sentir ser necessário não olhar para trás quando nos encontremos na estrada do bem, evitando, destarte, que algo nos possa despertar desejos menos dignos, retendo-nos em suas malhas traiçoeiras.

            Quem põe a mão no arado para remover as suas inferioridades não pode dele retirá-la, sob pena de perder o esforço até então despendido. “Um arado, disse culto irmão da Espiritualidade, promete serviço, disciplina, aflição e cansaço; no entanto, não se deve esquecer que, depois dele, chegam as semeaduras e colheitas, pão no prato e celeiros guarnecidos."

            Portanto, meu irmão ou minha irmã, se te encontras com a mão no arado libertador da, influenciação de Espíritos ainda invigilantes, é imprescindível que jamais abandones esse instrumento de progresso que o Senhor pôs em tuas mãos, para que amanhã possas usufruir os frutos sazonados desse teu árduo e doloroso labor.

            O apego às coisas perecíveis do mundo em que vivemos, muito nos dificulta, evidentemente, alcançar a pura substância das grandes verdades salvadoras contidas nas palavras do Divino Enviado. No dia em que o nosso espírito se capacitar da finalidade de sua permanência na Terra, passará, então, a divisar nas palavras evangélicas as luzes maravilhosas do seu porvir e jamais olhará para as que se mostram recobertas de lentejoulas de hipocrisia e de ambição, de orgulho, de vaidade e de concupiscência!


            O Bom Amigo de todos nós tem sempre razão no que afirma, através de suas palavras registadas pelos evangelistas. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Negação de Pedro



A Negação de Pedro
Martins Peralva
Reformador (FEB)   Abril  1956

"Mas Pedro negava, dizendo:
Mulher, não o conheço."
Lucas, 22 :57.

            A negação de Pedro, o venerando apóstolo galileu, contém em si mesma um dos mais expressivos ensinamentos do Evangelho.

            É acontecimento que não deve ser considerado por acidental dentro das narrativas evangélicas, merecendo, por isso, acurada meditação de quantos se interessam pelo estudo da Boa Nova do Reino.

            Todos sabem como se deu a ocorrência, sendo desnecessários, portanto, os pequenos detalhes da recapitulação.

            Foi nas horas finais da presença tangível do Divino Emissário na paisagem terrestre, quando, desprezado por quase todos, buscava no martírio e na coroa de espinhos o combustível com que acenderia para toda a Humanidade planetária a luz da redenção espiritual.

            Apontado, três vezes, como um dos acompanhantes do Senhor, o velho Cefas, receando represálias de romanos e judeus, afirmou, referindo-se ao Divino Crucificado: “Não o conheço”.

            A negação de Pedro, antes de tudo, “serve para significar a fragilidade das almas humanas”, conforme acentua Emmanuel, ao focalizar o episódio.

            É, também, um convite a que estejamos sempre em vigilância, guardando sincera humildade, não pretendendo ultrapassar o âmbito de nossas possibilidades, não querendo ser o que na verdade não somos.

            A negação de "Pedro induz-nos a situarmo-nos na condição espiritual que nos é própria.

            Lembra-nos, claramente, as nossas fraquezas e o perigo a que, pelas imperfeições de nossas almas, estamos frequentemente sujeitos.

            Nenhum dos apóstolos foi maior, na dedicação, do que Pedro.

            Amava profundamente o Mestre e nenhum dos companheiros o superou na fé e na humildade.

            Nenhum era mais prudente e sensato do que o rústico pescador de Cafarnaum.

            Permanecia sempre ao lado do Senhor, zeloso e devotado, ouvindo-lhe dos próprios lábios lições edificantes; todavia, nos últimos instantes, exatamente quando Jesus sofria a incompreensão geral, Pedro, amedrontado e bem humano, declara: “Não o conheço!”

            Ora, se Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, sendo mesmo aquele a quem o Mestre diria, depois, reabilitando-o amorosamente: “Se me amas, Pedro, apascenta as minhas ovelhas”, se o valoroso pescador da Galileia negou o Cristo no extremo, que esperar-se de nós, que não privamos do convívio pessoal e tangível do Mestre?

            A lembrança da negação de Pedro, registrada pelos evangelistas, evitar-nos-á uma série de atitudes incompatíveis com a humildade cristã: seremos menos vaidosos, não teremos a pretensão de ser os ‘maiores’, não sobreestimaremos as nossas possibilidades no campo das edificações espirituais.

            Sobretudo, não entronizaremos o coração na ilusória torre que o nosso milenário orgulho costuma construir.

            A negação de Pedro será, no curso dos séculos, uma espécie de: “olha para dentro de ti mesma, criatura humana e frágil; vê a tua indigência espiritual e entrega ao Pai Celestial a autoria de todas as boas obras que consegues materializar na Terra!


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Silêncio é o Princípio e o fim de tudo


O Silêncio é
o princípio e o fim de tudo

José Brígido / Indalício Mendes
Reformador (FEB) Abril 1956

            Tênue e vacilante luz duma lâmpada de óleo impedia que o velho templo se ocultasse inteiramente na treva que chegara ao anoitecer. Galaor se deteve no limiar do átrio, seguido de perto pelos discípulos. Depois, fez-se ouvir mansamente a voz grave e morna de sua predicação:

                 "No profundo sossego da noite, o Silêncio é a prece da Natureza.  Respeitemos a força desse Silêncio, porque ele é o Princípio e o Fim de tudo."

            Logo após, em delicada materialização de fluidos, começaram a desfilar, emoldurados de argêntea luz, os perfis de Rama, Krishna, Hermes, Pitágoras, Moisés, Buda, Sócrates, Platão, Aristóteles, Maomé... Em face de um clarão aurifulgente, mais belo e nítido, esses perfis foram-se esbatendo, surgindo a figura suave de Jesus da Galileia, o Cristo de Deus! Angélico sorriso agitou os lábios de Galaor, cujo olhar se perdia, feliz, em sutilíssima emoção. E de novo sua voz ressoou pela colunata do templo augusto:        

               “Ante a Natureza prodigiosa, que atesta a realidade admirável da Suprema Inteligência, permaneçamos simples, humildes e reverentes. Contemplemos a Serenidade que vive em todas as coisas, ainda mesmo naquelas que se tornaram prisioneiras do Rumor, porque o Silêncio é o Princípio e o Fim de tudo.
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                "O poder de Deus se evidencia na Inteligência que Ele conferiu ao homem. Todavia, só o sentimento aprimorado da criatura humana poderá penetrar os arcanos da Espiritualidade."
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                     "O Êxtase é um eco do Silêncio dentro do Silêncio. Nele, Silêncios menores se aglutinam e se fundem em Silêncios maiores, consumando a expressão   metafísica da Realidade Espiritual. A imanência do Silêncio revela-se no Êxtase,   porquanto este estado de alma nasce do Silêncio, nutre-se no Silêncio e se realiza integralmente no Silêncio. E no Silêncio se dissolve..."

                        "O Silêncio é o Princípio e o fim de tudo."
  
*

            Movimentou-se o grupo, vagarosamente.

            Galaor transpôs o umbral do templo centenário e se sentou na êxedra (recinto semicircular utilizados para reuniões) granítica, entre os discípulos atentos. Todos aguardaram tranquilamente que se expandisse a sabedoria do mestre. E Galaor falou assim:

                "Muitas vezes o olhar é uma mensagem do Silêncio e em seus      colóquios com o Infinito o Silêncio emprega a linguagem do pensamento. A existência terrena é apenas um episódio iniciatório, porque há somente uma Realidade intrinsecamente incorruptível: a do Espírito. Suas vibrações possuem um sentido cósmico, de grandeza que excede à compreensão comum."
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                 "Na composição dos poemas do Sentimento, o Silêncio colhe seus ritmos nas escalas da Meditação."
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            Ia longe a noite. A madrugada fez-se anunciar através do crepúsculo matutino. Galaor ergueu-se, estendendo os braços, para tornar ainda mais enfática a derradeira lição:
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                   "Purificai sempre o Espírito na meditação e não vos esqueçais em nenhum instante do que ela representa - como elo entre o mundo astral e o mundo material."
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                   "O Silêncio é o Princípio e o Fim de tudo. A Morte significa a       repercussão do Silêncio no estágio da vida física. Ela exprime a serenidade         imperturbável de um aspecto da Vida que se transforma no plano visível para se   projetar em outro aspecto da Vida, no plano invisível."
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                  "No profundo sossego da noite, o Silêncio é a prece da Natureza. Respeitemos a força desse Silêncio, porque ele é o Princípio e o fim de tudo."


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Evolução e Livre Arbítrio

Evolução 
e Livre Arbítrio

Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1962

            Porque há dores necessárias no erguimento da vida, há quem se acolha à faixa da negação.

            Ainda agora, muitos cientistas e religiosos, encastelados em absurdos afirmativos, parecem interessados em se anteporem ao próprio Deus.

            Gigantes do raciocínio constroem máquinas com que investem o espaço cósmico, em arrojados desafios, para dizerem que a vida é a matéria suposta onipotente, enquanto que milhares de pregoeiros da fé levantam cadeias teológicas, tentando apresar a mente humana ao poste do fanatismo.

            Na área de semelhantes conflitos, padece o homem o impacto de crises morais incessantes.

            Não te emaranhes, porém, no labirinto.

            O mundo está criado, mas não terminado.

            De ponta a ponta da Terra, vibra candente a forja da evolução. Problemas solucionados abrem campo a novos problemas. Horizontes abertos descerram horizontes mais amplos. E, na arena da imensa luta, o espírito é a obra prima do Universo, em árduo burilamento.

*

            O Criador não vive fora da Criação.

            A criatura humana, contudo, ainda infinitamente distante da Luz Total, pode ser comparada ao aprendiz limitado aos exercícios da escola.

            Cada civilização é precioso curso de experiências e cada individualidade, segundo a justiça, deve estruturar a grandeza própria.

            Examinando o livre arbítrio que a Divina Lei nos faculta, consideremos que nós mesmos, imperfeitos quais somos, não furtamos, impunemente, uns dos outros, a liberdade de conhecer e realizar.

            Pais responsáveis, não trancafiamos os filhos em urnas de afeto exclusivo, com a desculpa de amor.

            Professores honestos, não tomamos o lugar do discípulo, ofertando-lhe privilégios, a título de ternura.

            Médicos idôneos, não exoneramos o enfermo dos arriscados processos da cirurgia, a pretexto de compaixão.

*

            Recebei, pois, o quadro das provações aflitivas em que te encontras como sendo o maior ensejo de crescimento e de elevação que a Bondade Infinita, por agora, te pode dar.

            Não te importe o materialismo a dementar-se no próprio caos.

            Sabes que o homem não é planta sem raiz, nem barco à matroca.

            Os que negam a Causa das Causas, reajustam, para lá do sepulcro, visão e entendimento, emotividade e conceito.

            Enquanto observas, no caminho, perturbação e sofrimento, à guisa de poeira e sucata em prodigiosa oficina, tranquiliza-te e espera, porquanto, aprendendo e servindo, sentirá em ti mesmo a presença do Pai.





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Nossas obras


Nossas obras
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Abril 1956

            Nossas obras são os sinais que endereçamos ao mundo que nos cerca.

            Por elas, criamos, no círculo em que vivemos, pensamentos, palavras e ações que, por força da Lei, reagem sobre nós, deprimindo-nos ou levantando-nos, iluminando-nos o coração ou obscurecendo-nos a mente, segundo o bem ou o mal em que se estruturam.

            Não te esqueças de que a nossa trajetória, entre as criaturas, fala silenciosamente por nosso espírito.

            Não é preciso que a nossa língua se desarticule na exposição desvairada do sofrimento, para recebermos a cooperação dos nossos vizinhos, porque, se a nossa plantação de simpatia e trabalho está bem tratada, a assistência espontânea do próximo vem, de imediato, ao nosso encontro.

            Por outro lado, não é necessário o nosso mergulho nas alegações brilhantes do desculpismo, para inocentar-nos à frente dos outros, porque, se as nossas obras não são recomendáveis, a própria vida, na pessoa dos nossos semelhantes, nos relega a transitório abandono, a fim de que, na consequência purgatorial de nossos próprios erros, venhamos curtir a provação amarga que nos restaurará o equilíbrio à maneira de remédio precioso e salutar.

            Não olvides que os nossos atos são as legítimas expressões do nosso idioma pessoal, no campo do mundo .

            Faze o bem e a luz sorrirá com a tua alegria.

            Faze o mal e a dor chorará com as tuas lágrimas.

            Disse Jesus – “Pelos frutos conhecereis ...” e, consoante os princípios que nos regem a luta as nossas próprias obras falarão por nós, a frente da Humanidade, decretando a nossa ascensão ou a nossa queda, nossa bem-aventurança ou nossa aflição.


k. O Pensamento de Indalício Mendes


A Base do Edifício

A Base do Edifício
Antônio Túlio / (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB)  Abril 1956

            Todo o edifício do Espiritismo e das religiões é assentado sobre uma base única, sem a qual tudo se esboroa: é a demonstração da sobrevivência da alma humana.
           
            A imensa maioria da Humanidade não aceita essa base e por isto mesmo vive em pleno materialismo. Essa multidão de descrentes, por vezes com um rótulo religioso tradicional, não se dá ao trabalho de estudar o assunto, porque supõe saber de antemão que nada existe depois da morte e que toda crença religiosa é mera superstição.

            A Codificação demonstra que essa suposição é completamente falsa, mas não é lida nem estudada por essa grande maioria da Humanidade.

            Faz-nos recordar a conclusão de uma comissão de “sábios” nomeada, há alguns séculos, para emitir parecer sobre a queda de um aerólito.

            Não se deram ao trabalho de estudar a pedra que se dizia caída do céu, porque aqueles "sábios" sabiam com ciência plena que não era possível a coisa, e que, portanto, tais boatos eram pura mentira. Emitiram o seguinte parecer: "Não é possível haver caído uma pedra do céu, porque no céu não há pedras". Nada tinham de sábios aqueles senhores da Sorbonne, porque eram governados pelos seus preconceitos.

            É grande o número de "sábios" de hoje que não descem de sua dignidade para estudar o Espiritismo, porque já sabem, de antemão, que tudo é mentira, fraude, observação imperfeita, superstição.

            Apesar de toda essa pirâmide imensa de preconceitos, a Codificação vai crescendo sempre e tornando-se outra pirâmide invencível. Depois de Kardec vieram Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano e mil outros e continuaram os estudos nas mesmas linhas traçadas pelo Codificador. Observaram a repetição dos mesmos fenômenos, reuniram e catalogaram os fatos, e confirmaram a obra kardequiana. Essa literatura vai crescendo a despeito da indiferença dos "sábios"; vai reunindo novos documentos aos velhos e não se importa com a indiferença dos rotineiros, sejam eles populares analfabetos ou tragam nomes aureolados pelas Academias.

 Gabriel Delanne
            
Não nos preocupemos com a opinião dos ignorantes. Ignorantes são todos que não estudaram um assunto e sobre ele se pronunciam.

            Que importa sejam sábios em outros domínios se nesse são analfabetos?

            Um homem pode saber muito umas coisas e ignorar totalmente outras.

Ismael Gomes Braga

          
Léon Denis
  
                 
Conhecemos gramáticos eruditíssimos em português, linguistas notáveis, que nada sabem de Esperanto. Qualquer aluno de Esperanto que haja vencido um curso elementar, mesmo que seja um operário inculto, poderia ensinar a tais sábios os elementos de Esperanto. Igualmente em Espiritismo qualquer espírita, ainda que muito modesto, pode saber mais do que tantos professores de universidade que nunca estudaram a Codificação Kardequiana.

            Até quando permanecerá essa indiferença pelo assunto mais importante da vida? Impossível prever o tempo, mas é fora de dúvida que os fatos terão de vencer porque eles se repetirão sempre por toda a eternidade.

            Os Espíritos prepostos à obra de espiritualização da Humanidade agem com prudência e paciência, respeitando religiosamente o livre arbítrio dos humanos; limitam-se a fazer encarnar médiuns em meios e momentos oportunos, para despertar certo número de pessoas; aproveitam a dor como elemento de indagação para encaminhar o homem a pensar no mistério da vida e da morte.

            Nós, os pregadores de Espiritismo, pouco podemos fazer para essas massas que não nos ouvem. Temos igualmente que esperar quando quiserem elas nos dar ouvidos; mas não esperamos na ociosidade, de braços cruzados, não; temos duas tarefas a realizar: por um lado vamos esforçando-nos por melhorar o indivíduo e o meio social; por outro lado vamos colecionando e divulgando a documentação básica do Espiritismo.

            Quanto mais livros publicarmos tanto melhor. Nos livros vão ficando registrados os documentos que, partindo de diversos pontos, conduzem sempre à base única - sobrevivência para daí irradiar luz e obras. Toda uma imensa biblioteca vai-se preparando para aguardar os estudiosos do porvir e para ir servindo desde já aos poucos do presente. A indiferença é chocante: preciosas coleções de documentos permanecem paralisadas em nossas editoras; mas não podemos parar. Continuaremos sempre até que se processe a grande transformação na mentalidade humana.

            Presentemente os problemas econômicos e sociais absorvem todas as inteligências e energias, reclamando de cada um solução urgente de interesse vital, e as cogitações maiores sobre a vida e a morte se acham ao abandono; mas esta situação é passageira porque a solução dos problemas econômicos, puramente materiais, traz em si mesma o desencantamento, o anseio por algo maior que nos livre do medo do porvir, da perda de todos os bens que nos parecem constituir a felicidade. Uma vez satisfeita a fome do corpo, surge a sede do espírito.

            A Codificação está crescendo dia a dia:  Kardec traçou as linhas do edifício e deixou aos fatos futuros  confirmarem sempre sua obra. Seria um funesto engano pensarmos que Codificação é apenas a obra terminada em 31 de Março de 1869. Não;  tudo que vem surgindo depois, são outras tantas pedras que vão levantando a pirâmide infinita da Codificação, são novas pedras angulares do edifício kardequiano: não tiram nada e acrescentam muito ao edifício.


            Dessa base única é que surgem a Compreensão da vida e o Código moral.