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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os trabalhadores das diversas horas


Os trabalhadores das diversas horas
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Março 1943

O reino dos céus é semelhante a um proprietário que saiu pela manhã a assalariar trabalhadores para a sua vinha. Feito com eles o ajuste de um denário por dia, mandou-os para a vinha. Saindo à hora terceira, viu outros na praça, desocupados, e disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo. Eles foram. Saiu às horas sexta e nona e fez o mesmo. Finalmente, indo à praça à hora undécima e encontrando ali jornaleiros, disse-lhes: Porque estais todo o dia ociosos? Porque ninguém nos assalariou, responderam. Ide também vós para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo. À tarde, chamou o seu mordomo dando-lhe a seguinte ordem: Chama os jornaleiros e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e acabando pelos primeiros. Chegaram, então, os da undécima hora e perceberam um denário cada um. Vindo os primeiros, esperavam receber mais; porém, foi-lhes dada igual quantia. Ao receberem-na, murmuraram contra o proprietário, alegando: Estes últimos trabalharam apenas uma hora, e os igualaste a nós que suportamos o peso e o calor do dia. Retrucou o proprietário a um deles: Meu amigo, não te faço agravo nem injustiça: não ajustaste comigo um denário? Toma o que é teu
e vai-te embora, pois quero dar a este último tanto como a ti. Não me é lícito fazer o que me apraz daquilo que é meu? Acaso o teu olho é mal, porque sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos." (Evangelho).

A alegoria acima, como, aliás, toda alegoria, exprime e revela um princípio diferente daquele que literalmente enuncia. Parece, à primeira vista, haver injustiça da parte daquele proprietário que manda pagar igual salário aos obreiros das diversas horas do dia. Pois, então - como alegaram os que iniciaram o trabalho pela manhã - será justo pagar o mesmo jornal a nós e aos que entraram às nove horas, ao meio dia e até mesmo à hora undécima?

Para entrarmos no mérito do critério em que se baseou o proprietário da vinha, cumpre lembremos que a parábola em apreço tem relação com o reino dos céus, isto é, com os meios e processos empregados para a sua conquista. Neste particular, o tempo constitui elemento de somenos importância. "A cada um será dado segundo as suas obras", e não segundo o tempo, mais ou menos dilatado, de sua atuação nos arraiais do credo que professa. Assim, pois, se os jornaleiros da hora nona e do meio dia fizeram, pela maior soma de atividade empregada, tanto como os da manhã, é natural que percebessem o mesmo jornal, por isso que o proprietário havia prometido DAR-LHES O QUE FOSSE JUSTO. E aos da undécima hora? Seria possível, em tão minguado tempo, fazer o mesmo que os demais? Pelo dedo se conhece o gigante, reza o rifão popular. O que teriam feito aqueles assalariados no decurso de uma hora apenas? Aqui entra em jogo um fator de subida importância, no que respeita ao merecimento do obreiro: A QUALIDADE da obra. Certamente, o pouco que produziram os jornaleiros da undécima hora superou tanto, em qualidade, o que fizeram os outros, em quantidade, que os bons olhos do proprietário acharam de justiça dar-lhes a mesma paga. Em realidade, o que ele viu é que o trabalho destes valia mais que o dos outros, fazendo, nesse cômputo, abstração do FATOR TEMPO.  
A sabedoria da sentença evangélica - a cada um será dado segundo as suas obras - abrange dois aspectos distintos: O objetivo e o subjetivo. Só de posse do conhecimento exato de ambos, é possível opinar com acerto e com justiça. Os homens julgam comumente através do aspecto objetivo das obras, por isso que não lhes é dado penetrar o plano subjetivo. Daí a precariedade dos seus juízos e das suas sentenças. Por vezes, há mais estimação nos feitos sem maior importância objetiva, do que nas vultosas obras que impressionam e deslumbram os sentidos. Aquela pobre viúva que lançou no gazofilácio do templo uma moedinha de cobre, de ínfimo valor pecuniário, deu mais, disse o interprete da divina justiça, que os ricos, que ali despejaram moedas de ouro a mancheias. O valor da oferta da viúva é de natureza subjetiva, está no que se não pode ver nem tocar, isto é, no motivo que determinou o seu gesto; está na santidade, na pureza da intenção e no sacrifício com que o fez, pois ela havia dado tudo o que possuía, aquilo que estava reservado para o seu próprio sustento. Os olhos humanos não podem aquilatar os valores desta espécie, mas os do Filho de Deus vão descobri-los nos íntimos e secretos refolhos da alma humana.

*

Recapitulando, recordemos mais uma vez que a semelhança ora comentada se relaciona com o reino dos céus. Somos todos jornaleiros da vinha do Senhor, que é o planeta onde nos encontramos. Cada um age no setor que lhe foi destinado. O proprietário observa a maneira como os seareiros mourejam, julgando o mérito individual, não pelo tempo, nem pelo volume da produção, mas pelo cunho de perfeição imprimido à obra. O bom obreiro tem os olhos fixos no mister que executa e não nos ponteiros do relógio. Pensa menos na recompensa que no bom acabamento da sua tarefa. O trabalho é santo, pela sua mesma natureza e, sobretudo, pela alma do operário nele encarnado, "Só canta bem quem canta por amor." Os músculos refletem as vibrações do cérebro e os latejos do coração. A inteligência e os sentimentos dirigem as mãos, tanto do operário como do artista. É com o Espírito e não com a matéria que se constroem as obras que dignificam e imortalizam os seus autores. Trabalhemos, portanto, com simpleza e santidade. Imprimamos aos nossos atos aquela naturalidade com que os pássaros gorjeiam e aquela dedicação com que fazem os seus ninhos. Não nos preocupemos com o peso e a vultuosidade das nossas obras; tampouco nos deixemos impressionar com o tempo que temos empregado em produzi-las e, menos ainda, com a recompensa presente ou futura: o Senhor da vinha nos DARÁ O QUE FOR JUSTO. Confiemos como confiaram os jornaleiros das derradeiras horas, pois "os primeiros serão últimos e os últimos serão primeiros; porque muitos são chamados e poucos os escolhidos."

E, assim, verificamos que a parábola ora comentada encerra a mais bela e excelente apologia da JUSTIÇA.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Cenáculo e o Gólgota



O Cenáculo e o Gólgota
Editorial
Reformador (FEB) Abril 1943

Uma vez mais, a cristandade vem de rememorar e comemorar, de maneiras várias, em dois dias de uma semana chamada por isso santa, os derradeiros episódios da gloriosa missão que Jesus, o divino Modelo, desempenhou na Terra.

Também os comemoraram os espíritas, igualmente cristãos, visto que a doutrina que professam é a mesma que o Salvador pregou e exemplificou e se encontra nos Evangelhos, mas tornados estes, por aquela doutrina, compreensíveis segundo o espírito que vivifica e não mais segundo a letra.

Eis, porém, que as comemorações a que aludimos, a da Ceia Pascal, que foi o ensinamento extremo da humildade e da fraternidade, e a do Sacrifício do Calvário, síntese das que o Justo dos justos multiplicara, de renunciar perdão e amor, transcorreram ainda agora, como aconteceu nos últimos anos que passaram, oferecendo a humanidade um espetáculo, porventura sem paralelo na sua história, que a mostra em oposição àqueles ensinamentos, empenhada, por assim dizer, em demonstrar que eles, depois de postergados e falseados longamente, encontraram sepultura no fundo da vasa densa das paixões mais ignóbeis que o coração do homem abriga. Ser-se-ia assim levado a crer ou a supor que ficaram de todo em todo perdidos, que nada produziram do que objetivava o Messias anunciado e prometido com tão grande antecipação, e cuja presciência e sabedoria teriam sido então simples mito.

Semelhante dedução, no entanto, por absurda, atesta, por si só, que muito diverso foi o que se deu. Multidões imensas, seguindo o carreiro evangélico através dos tempos, ou, seja, de reencarnações sucessivas, se libertaram do jugo do pecado e ascenderam à bem aventurança, qual a definiu o divino Pastor; outras multidões, em marcha para a mesma meta, se acham em níveis diversos dessa ascensão, cujo termo já entrevem, e outras mais, espalhadas por entre os que perambulam no planeta da sombra, da dor e da amargura, porque de expiação e reparação, se aprestam para realizar a grande Eucaristia, entendendo em espírito e verdade o repasto de Jesus com seus apóstolos, preâmbulo do que se convencionou chamar a sua Paixão.

Assim, embora a comemoração, mais ou menos falha, de tão sublimados acontecimentos, das lições neles contidas, de nenhum proveito sejam para muitos, para não poucos são, sem dúvida, de efeitos que só mais tarde, na vida espiritual, poderão avaliar-se com justeza. Os primeiros se contarão entre os que não logram interromper, sequer por um instante, o curso de suas preocupações materialmente interesseiras, nascidas do egoísmo e do orgulho, que alimentam todos os vícios e paixões humanos; entre os que nelas apenas percebem o lado exterior das cerimônias cultuais que as caracterizam, em vivo contraste com a simplicidade humilde e delicada em que decorreu a Ceia do Senhor; entre os que se comovem, relembrando os sofrimentos do Filho de Deus, tornados de indignação contra os que o imolaram, sem que entretanto, por negarem realidade a lei misericordiosa dos renascimentos, formulem a hipótese de haverem participado da negregada façanha e sem que cuidem de saber se não se acumpliciariam agora noutra semelhante, dado que para isso ocasião se oferecesse.      

Os segundos figurarão entre os que, possuídos de arrependimento sincero, derramam lágrimas de compunção, reconhecendo-se dos que se conjuraram, há 20 séculos, contra a Verdade, por se deleitarem na escravidão do erro e da mentira; os que se hão visto, numa hora de consciência desperta, a renovar, em múltiplas existências, a imolação do Cordeiro de Deus, repelindo lhe os ensinos e preceitos, ou falseando-os intencionalmente, para cultuar os sentimentos subalternos, de cuja extirpação das almas veio Ele ensinar no mundo o processo. Para estes últimos, tais comemorações são como que o borbulhar mais vivo de uma fonte de inigualável frescura, em meio da travessia que vão fazendo sob os ardores causticantes das provas que pontilham as veredas por onde irão do pântano moral em que caíram à estrada do progresso, pela qual subirão as íngremes escarpas do calvário, em cujo cume têm que plantar a cruz que carregam, para de seus braços voarem redimidos aos do Redentor.

Não lhes fica, a esses, interceptado olhar pelo madeiro em que expirou o Filho do Homem. Não o conservam tolhido ali pela sombra das ameaças de eternos castigos, se não lograrem, de um salto, numa vida única, tornar-se quais o modelo divino. Veem-na, ao contrário, intensamente luminosa e, à claridade que de toda ela te projeta, descortinam os gloriosos destinos que lhes estão reservados, iguais aos de todos aqueles por quem baixou das eternas regiões da pureza o Enviado do Pai, a lhes traçar a senda da salvação, dando-lhes por bússola o amor. Esses transpõem, em espírito, o Calvário onde foi imolado o Cordeiro divino e o contemplam, na sua glória de preposto ao governo do planeta que habitamos, a repetir, constantemente, em estos de amor puríssimo: "Vinde a mim todos vós que vos sentis oprimidos, e eu vos aliviarei".

Esses, só com o experimentarem, no mais íntimo de suas almas, a repercussão de tão terno convite se sentem aliviados e, volvendo de novo o olhar para seus irmãos em humanidade, voltando a confundir-se com eles no torvelinho da vida material, não mais experimentam como outrora, as crispações do despeito ou do rancor ao se reconhecerem objeto do desprezo dos outros homens, principalmente dos que se dizem "práticos", ou "espíritos” fortes.  Antes, com um sorriso de benevolência, que exprime o despontar da fraternidade n’alma, recebem os apodos dos que os tacham de visionários ou de loucos, como tacharam outrora a Jesus, em quem os maiores doestos jamais alteraram a suavidade dulcíssima do angélico semblante. É que se lhes fez completa, na maior profundeza de suas consciências, que os que assim os injuriam são cegos que, amanhã, também começarão a curar-se de sua cegueira, fazendo-se igualmente capazes de entrever-se a si mesmos no gozo da "vida eterna", unificados pelo amor com aquele que já fruía "antes que o mundo fosse", porque já então era puro e perfeito.

Indubitavelmente os pungirão as dores e os sofrimentos, pois que ainda não são do céu e sim da terra, onde umas e outros formam a partilha de quantos a vêm habitar. Mas, que importa, se nas almas se lhes arraigou a certeza de que não há maneira outra de subirem o seu calvário e de que sem o galgarem até ao cimo nunca atingiriam a glória que os espera, como a todos os seus irmãos? Que importa, se esta outra certeza, a do fim a que as dores e os sofrimentos conduzem, é bastante para lenir lhes, forrando-os aos desesperos que os exacerbam e inutilizam nos que se desesperam? Que importa, se a plena segurança da realidade de seus destinos, comuns a todas as criaturas, não consente se desvairem, em meio do choque das paixões violentas, em meio das lutas que ao seu derredor se travam, e lhes patenteia, nessa confusão, nesse caos de ideias, de pensamentos e de sentimentos, a mais perfeita ordem e a mais perfeita justiça, presidindo aos desígnios providenciais, exarados na lei divina do progresso, único fundamento da vida universal?

Aos olhos de quantos hão entrevisto a grandeza dos destinos humanos, pela percepção, embora muito relativa, do que significa, para o nosso mundo, a figura peregrina do seu governador e protetor, dessa figura cuja beleza celestial se ostenta na sabedoria de cada uma das palavras que proferiu para todos os tempos e às quais deu a sanção prática e imediata da exemplificação por obras, tais lutas são as que necessariamente têm de travar os que, pela torpeza que lhes avassalou os corações, se rebaixaram à condição de pigmeus, para depois se transformarem em gigantes pelo amor. É a humanidade em marcha pela do seu calvário, em demanda da redenção que lhe cumpre alcançar, conquistando-a.

É isso o que veem os que realmente comemoram o Sacrifício do Gólgota. Veem, na cruz ali plantada, o símbolo da redenção, vendo, à luz do exemplo dado pelo que até lá  carregou o madeiro fabricado pela maldade, pela perversidade, pela ingratidão de corações duros, que os Espíritos degradados só se redimem levando ao cimo do calvário das expiações purificadoras  a cruz das provações, feita dos erros e dos crimes  oriundos dos mesmos sentimentos que armaram a cruz simbólica em que concluiu a sua missão o meigo Rabi da Galileia. Dessa forma comemoram a "Paixão do Salvador" todos quantos, surdo mudos do espírito, Já puderam ouvir dele, por intermédio dos seus enviados s os Espíritos de luz e caridade, estas palavras que Ele um dia pronunciou, dirigindo-se ao surdo-mudo de Decápolis: EPH PHETA, e As compreenderam assim:       

"Abri-vos, inteligências entorpecidas; abri-vos olhos vendados pela matéria; abri-vos, para escutar as vozes dos Servos do Senhor, que vos trazem o sentido verdadeiro de seus ensinamentos, da sua lei; abri-vos para contemplar a aurora do novo dia, do dia em que vos vem, da parte do Senhor, a liberdade, que significa: uso livre da razão, apreciação racional  dos fatos e das coisas, aplicação sábia da ciência, marcha progressiva em todos os terrenos; liberdade que implica o despedaçamento das cadeias que a escravização humana vos impunha à consciência. Tende-a livre e por guia único o amor a Deus acima de tudo e ao próximo mais que a vós mesmos”.  

Não muitos seriam, talvez, até há pouco, os que, já se havendo habilitado a escutar do médico das almas, com ouvidos de ouvir, essa ordenação, comemorassem, efetivamente, as passagens sublimes da Ceia e do Gólgota. Hoje, porém, quando a humanidade inteira sangra abundantemente pregada à cruz ignominiosa, de iniquidades e crueldades, de egoísmo e de ódio, de descrença ou de fanatismo insano, que vem construindo há séculos, cruz, no entanto, em que se redimirá de seus crimes e abominações, por ser a das provações máximas e dos supremos testemunhos, muitíssimos já hão de ser os que compreendam, em seu significado legítimo, aquelas passagens e, mais do que isso, as sintam no palpitar de seus próprios corações, sentindo que só do céu lhes pode vir o socorro ansiosamente buscado. Por fim, serão todos, porque, para esse efeito, ressurge hoje, como outrora ressurgiu o Filho do Homem, na Doutrina dos Espíritos, no Espiritismo, a perene doutrina de redenção ensinada ao mundo pelo Cristo de Deus, que por isso foi, é, e será por todo o sempre, o Redentor do gênero humano. Serão todos, porque todos se compenetrarão, mediante o conhecimento dessa doutrina, em que revive o Cristianismo puro, de que somente correspondendo ao amor sem limites d'Aquele que é Caminho, Verdade, Vida, encontrarão a única base indestrutível sobre que ergam o edifício da Paz por que angustiadamente anseiam, começando a entender o em que ela, de fato, tem de consistir, para não ser ilusória, como o foi até aqui.


A sabedoria popular



A sabedoria popular
Eliseu Rigonatti
Reformador (FEB) Março 1943


Quando D. Quixote corria os campos da Espanha, não raro se entretinha a conversar com Sancho Pança, seu fiel escudeiro.

Sancho Pança personificava o bom-senso e, como falava sensatamente, causava admiração a seu amo pela justeza de suas observações.

Galopavam certa vez lado a lado, entretidos na conversa e D. Quixote notou a incrível soma de provérbios com os quais Sancho entremeava sua prosa. Perguntou-lhe onde aprendera tantos ditados e Sancho, embaraçado, não lhe soube responder. Limitou-se a dizer que todas as vezes que deles necessitava ocorriam-me à memória e os aplicava.

Cervantes, ao criar Sancho Pança, personificou nele o povo, esse povo bonachão e ignorante, sem estudos e sem malícia, que sempre existiu e existirá a acompanhar seus líderes, verdadeiros D. Quixotes, que ora destroem o mal, ora o bem.

Entretanto, se a esse povo falta a instrução livresca, sobram-lhe as lições da experiência. E essa experiência se acha consubstanciada nos ditos populares que enriquecem a literatura de todas as nações.

As classes letradas, reconhecendo as profundas verdades encerradas nessas máximas, dizem: A sabedoria popular não falha. E os latinos criaram também um rifão sancionando o que o povo afirmava: Vox populi vox Dei, que, trocado em miúdos, da em nossa língua: A voz do povo é a voz de Deus.

Há dias, em visita a uma família de nossa amizade, ouvimos amargas queixas de uma mãe contra seu filho, rapaz em cujo mento já desponta a barba.

- Ele não é mal, pelo contrário, tem até um bom coração, mas... E desandou a contar as proezas do rapazote, que provam não a sua maldade, mas a péssima educação moral que recebeu... de seus pais.

- É de pequenino que se torce o pepino, atalhou alguém; se a senhora o tivesse freado enquanto ele era criança, hoje não teria razões para se queixar.

Eis a sabedoria popular ditando uma de suas magníficas lições: É de pequenino que se torce o pepino... 

E o que acontece com o pepino, acontece com os filhos de todos os pais.

Felizes dos pais que sabem aproveitar o período da infância, em que o espírito de seus filhos é maleável, para dar lhes uma sólida educação moral!

Não terão que sangrar de desespero quando os filhos chegarem à idade adulta!

Onde encontrar essa educação moral que os pais devem dar aos filhos, quando, geralmente, aos próprios pais falecem os princípios morais?

Os espíritas já sabem onde encontrá-la. É nos salutares princípios da doutrina espírita. É nos preceitos imutáveis do Evangelho segundo o Espiritismo.

Sucede que a muitos pais não sobra tempo para ministrarem a seus filhos esses ensinamentos. É quando devem procurar o auxílio que os Catecismos Espíritas, mantidos pelos Centros Espiritas, lhes podem proporcionar na consecução da grandiosa tarefa que o Pai Supremo lhes confiou: a tarefa de concorrerem para o adiantamento dos. Espíritos que estão sob sua guarda.

E os Centros Espiritas, mantendo bem orientados catecismos, aproveitam-se da divina oportunidade de influírem salutarmente nos destinos da nova humanidade que, pequenina ainda, já se educa para as grandes lutas redentoras.


Discutir sem pensar


C. Wagner
Reformador (FEB) Março 1943


A discussão cultiva a obstinação. Discutir é nos expormos a proferir palavras inspiradas pelo nosso falso amor-próprio. Mais vale refletir sem falar: os pensamentos tem então mais probabilidade de se encontrarem.

Ressurreição é reencarnação

Ressurreição é reencarnação
Antônio Túlio (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Março 1943

A Terceira Revelação projeta luz em muitos pontos obscuros das duas Revelações precedentes.

A Bíblia nos fala de Filhos de Deus que tomaram por esposas filhas dos homens, porque estas eram formosas. Noutros lugares nos dá como sinônimo de profeta o título de "homens de Deus". Nada disso é compreensível sem a Revelação Espírita, esclarecendo-nos que Espíritos muito mais adiantados do que os indígenas da terra vieram aqui habitar em missão e trouxeram uma nova civilização para o planeta. Em relação aos primitivos habitantes deste, tais Espíritos eram verdadeiros Filhos de Deus. Igualmente a vinda de grandes missionários, como verdadeiros enviados de Deus, homens muito superiores aos da terra, justifica o título de homens de Deus que a Bíblia frequentemente lhes aplica.

O profeta Isaias declarou que os mortos reviverão. Jesus pergunta aos seus discípulos quem dizem os homens que ele é. Respondem aqueles que as opiniões estão divididas, achando uns que ele é Elias ou João Batista outros que é ou Jeremias, ou um dos profetas. Os judeus sabiam, portanto, que Jesus não era um simples habitante da terra e procuravam entender quem teria sido em outra encarnação missionária, por não poderem perceber que ele era muito maior do que os seus antigos heróis nacionais.

As noções claras sobre a sobrevivência e a vida da alma não existiam, porém, entre os antigos Judeus. Por vezes, suas expressões parecem de materialistas, pois falam em cumprir a lei para viver longos anos na terra. Noutros lugares falam em condenação ou salvação eterna no seio de Abraão. Empregavam a palavra "ressureição" sem definição clara. Ora supunham que o mesmo corpo ressuscitaria no fim dos tempos, ora achavam que o Espírito retomava outro corpo, como no caso de suporem que Jesus seria a reencarnação de um dos antigos profetas. Acreditavam que Elias teria de voltar, mas não sabiam como. Jesus declarou que Elias já voltara como João Batista e os discípulos entenderam logo, sem mais interrogações, que isso era a verdade mas desse exemplo não extraíram um princípio geral. Limitaram-se a crer sem compreender, sem raciocinar sobre a consequência teórica do fato afirmado.

A Igreja teve que firmar dogma sobre a ressurreição e preferiu, infelizmente, a opinião mais popular e menos cientifica, do reaparecimento do mesmo corpo. Assim, a palavra ficou tendo sentido bem definido, mas com definição errada. Só a Terceira Revelação esclareceu e provou que reencarnação é uma das leis da natureza e que a velha ideia de reaparecer no mundo, depois de morto, expressa antigamente pela palavra ressurreição é absolutamente verdadeira com um novo corpo, como reencarnação. Logo, ressurreição é sinônimo de reencarnação, doutrina religiosa universal e eterna, que a pouco e pouco se vai tornando verdade demonstrada pela experimentação, isto é, entrando para o domínio muito mais estreito da ciência positiva.

Pela observação dos fatos, espontâneos uns, provocados outros, pela concordância nos depoimentos dos Espíritos que se comunicam em toda a superfície do planeta, pelas recordações que algumas pessoas conservam da encarnação anterior, a reencarnação sai do domínio amplo da fé para o âmbito estreito do conhecimento. O mesmo se deu com a existência e sobrevivência da alma. De crença vaga, matéria de fé, passou para o domínio dos conhecimentos humanos, através de rigorosa experimentação e catalogação de fatos espontâneos observados em todos os tempos e em todos os lugares, entre povos bárbaros, primitivos, selvagens, tanto quanto entre os mais civilizados.

Embora a nossa inteligência seja curta para as coisas imateriais e só consiga bons resultados na observação da matéria, a sobrevivência da alma humana e a sua reencarnação se vão tornando materiais, verificáveis pelos mesmos processos da ciência materialista, porque já se verifica que o Espirito está sempre revestido de um corpo, que em certo sentido é material e em casos especiais pode ser observado pelos sentidos, dando provas concretas da sua presença.

Essa passagem do domínio da fé para o do conhecimento traz consigo imensas consequências para a futura civilização. A Religião e a Ciência estarão sempre de acordo, sem se hostilizarem ou julgarem incompatíveis. Serão as duas asas para os grandes voos do Espírito.

Tudo tende a fundir-se em um todo harmonioso, Religião, filosofia, ciência, moral hão de formar um conjunto único e harmônico para bem de todos, e não técnicas separadas, com seus especialistas divididos.

*

A demonstração de que a palavra "ressurreição", do Cristianismo e do Judaísmo significa na verdade o mesmo que "reencarnação", não é simples minúcia teológica para as sutilezas de discussão escolástica ou acadêmica. Ao contrário, é uma descoberta, dessas que alteram o curso da história do mundo, porque aproxima todas as religiões do Ocidente às grandes Religiões do Oriente. De fato, a grande divergência entre o Cristianismo ortodoxo das três grandes Igrejas cristãs - Católico-Romana, Ortodoxa Grega e Protestante - que ensinam a doutrina das penas eternas, e as grandes religiões do Oriente - Budismo, Bramanismo e Xintoísmo - que ensinam a salvação universal através das fieiras infinitas de existências do mesmo espírito, está só nesse dogma. Todas as outras divergências decorrem dele.

Uma vez demonstrado que ele está errado, que na verdade não existem penas eternas mas sim salvação universal; que o Cristianismo ensina, portanto, a mesma doutrina dos filósofos gregos e das revelações orientais, todos se acharão de acordo, todas as Igrejas poderão confraternizar para a obra comum de reformar a humanidade.  Já os orientais, não terão razões de nos julgarem bárbaros, nem nós, de julgá-los fanáticos supersticiosos.

Três séculos de missões católicas no Oriente, tratando os povos reencarnacionistas como selvagens, deram resultados muito medíocres. Foi impossível induzir aquelas massas imensas a aceitar a doutrina das penas eternas, a aceitar a crença na graça, na predestinação, na remissão dos pecados e tudo mais que decorre do princípio da existência única. Uma convicção multi secular em contrário, a certeza de que a doutrina reencarnacionista está demonstrada e só ela explica as infinitas diferenças de caráter dos homens e as diferenças de sorte lhes fecham a alma aos dogmas das ortodoxias cristãs.

Verificado que as ortodoxias cristãs realmente estão erradas nesse ponto, não haverá mais repugnância entre o Oriente e o Ocidente em assuntos religiosos; poderemos entrar em fraterna colaboração, permutando ideias e nesse domínio todos temos muito a receber - ocidentais e orientais - e nós do Ocidente mais do que os do Oriente.

É missão do Espiritismo, portanto, aproximar o Cristianismo do Budismo e do Bramanismo, demonstrando que entre as duas grandes correntes religiosas só há diferenças de palavras, que na essência o ensino é o mesmo.

Louis Jacolliot, numa série de livros muito interessantes, já demonstrou que todos os fenômenos do Espiritismo são conhecidíssimos na Índia e já o eram muitos séculos antes de os estudarmos no Ocidente. Cabe ainda ao mesmo Louis Jacolliot a honra de haver estudado as grandes religiões da Índia, e demonstrado que a nossa Bíblia traz as mesmas ideias dos velhos livros hindus, ou, em outras palavras, a unidade da revelação.

Afastadas as diferenças de palavras, reinará a harmonia da essência, o fundo comum. Para lá caminha a humanidade. Tudo avança para a universalização, para a união, para Deus. Nos domínios da matéria, essa uniformidade já está alcançada. A ciência, a técnica, já se aplicam igualmente em todos os países do mundo. Todas as descobertas se universalizam rapidamente. Nesse domínio, tudo é positivo, demonstrável, e não resta campo livre à formação de seitas.

Em filosofia e religião, por serem temas mais abstratos, de mais difícil compreensão para o homem, formaram-se escolas e seitas diferentes; mas, a inteligência progride e a pouco e pouco vai descobrindo os erros que produziam separações. Uma vez corrigidos esses erros, teremos chegado à união, teremos uma só religião, como já temos uma só ciência.


O conhecimento da doutrina reencarnacionista lança por terra uma série de erros seu.

Devotamento e abnegação



Devotamento e abnegação
Lino Teles (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Março 1943

O Espírito de Verdade em mensagem recebida no Havre em 1863 e reproduzida por Allan Kardec no capitulo VI de O Evangelho segundo o Espiritismo, nos aconselha a tomar por divisa para sermos fortes as duas palavras DEVOTAMENTO e ABNEGAÇÃO. Eis a íntegra dessa sublime mensagem descida à terra precisamente há oitenta anos:

"Deus consola os humildes e dá força aos aflitos que lha pedem. Seu poder cobre a terra e, por toda parte, junto de cada lágrima colocou um bálsamo que consola. A abnegação e o devotamento são uma prece contínua e encerram um ensinamento profundo. A sabedoria humana reside nessas duas palavras. Possam todos os Espíritos sofredores compreender esta verdade, em vez de clamarem contra suas dores, contra os sofrimentos morais que neste mundo vos cabem em partilha. Tomai, pois, por divisa estas duas palavras: devotamento e abnegação e sereis fortes, porque elas resumem todos os deveres que a caridade e a humildade vos impõem. O sentimento do dever cumprido vos dará repouso ao Espírito e resignação. O coração bate então melhor, a alma se asserena e o corpo se forra aos desfalecimentos, por isso que o corpo tanto mais é afetado, quanto mais profundamente atingido é o Espírito. O Espírito de Verdade. (Havre, 1863).

A imensa maioria dos nossos males, dos nossos sofrimentos, na Terra, são causados pelo egoísmo, pelo orgulho ofendido. Falta-nos humildade para receber com serenidade as consequências de nossos próprios erros e preferimos atribuir os nossos insucessos a culpas alheias. Pretendemos muito infantilmente que os outros reconhecem nossas pífias virtudes, por vezes apenas imaginarias, e não vejam os nossos defeitos por mais berrantes que sejam. Sabemos sempre desculpar-nos de nossas faltas, ainda que com sofismas e chicanas, e pensamos que também os outros deveriam proceder assim, pesquisar as causas dos nossos erros para forjarem desculpas, como nós fazemos em relação a nós mesmos. Mas, os outros são em via de regra tão egoístas como nós e até preferem que os nossos defeitos sejam divulgados para se sentirem um pouco melhores do que nós. O mundo crê muito mais no mal do que no bem, pela lei de afinidade, porque cada um julga os outros por si próprio e não lhe parece lógico que os outros façam o bem quando ele faz normalmente o mal que pode. Assim, é fácil e natural não procurarem desculpas para os nossos defeitos como nós procuramos, e até esforçarem-se por divulgar o mais possível nossas falhas, ocultando maldosamente as raras boas qualidades que possuamos.

Portanto, o nosso orgulho é ferido a cada instante pelos juízos dos homens; nosso egoísmo se choca com os dos nossos companheiros de penitenciária - a Terra - e produz dores violentas, enfraquecimento em discussões estéreis, em disputas violentas, em justificativas inúteis, em contra-ataques detestáveis. Perdemos imenso tempo, sacrificamos preciosas energias, às vezes uma encarnação inteira, uma existência toda nessa luta de cada dia por nos justificarmos, por nos defendermos, e tudo isso, na verdade, é manifestação fútil de uma vaidade estulta.

Que nos interessam os juízos do mundo, desse mundo que tem crucificado, envenenado, enforcado, queimado, esquartejado, todos os Missionários que Deus lhe há enviado para salva-lo?

De que nos serve o apoio inconstante, mutável, vão, das massas humanas que se deixam levar com entusiasmo para as causas mais detestáveis, mais contraditórias, sem pensar, sem refletir, calcando hoje aos pés os mesmos ídolos que adoravam ontem?

O único juiz a que nós devemos curvar é o da nossa própria e não da alheia consciência. Este, sim, irá conosco por toda parte, aquém e além tumulo, sem lhe importar a opinião do universo inteiro. Se todos os homens nos aprovarem, nos endeusarem, mas a nossa consciência nos condenar, é com ela que iremos, porque o mundo amanhã terá mudado de opinião ou não se lembrará mais de nós.

Porque sofremos, então, pelos juízos desfavoráveis dos homens e tentamos por todos os meios conquistar aprovação para os nossos atos?

É porque nos faltam devotamente e abnegação pela nossa causa. Quando tivermos verdadeiro devotamento à ideia que abraçamos, só os seus triunfos nos interessarão; faremos inteira abstração das nossas pessoinhas para tudo darmos à causa. Espontaneamente praticaremos a abnegação, porque o nosso interesse será somente o ideal em marcha. Não perceberemos, sequer, que nos estamos sacrificando pela ideia, porque só encontraremos prazer em tudo que por ela possamos fazer. Em vez de vermos sacrifícios, veremos e sentiremos somente alegria sã, entusiasmo sempre renovado, porque não teremos interesses individuais a defender, em oposição à causa que sustentamos.

A abnegação nos colocará acima das ofensas, dos sofrimentos, das reprovações, venham de onde vierem. Nosso egoísmo terá desaparecido em sua forma estreita e pessoal, para fundir-se nos anseios da humanidade inteira, nesse anseio de felicidade que a raça humana sente, mas não sabe formular; no anseio de progresso, de liberdade, de paz, de harmonia, de fraternidade.

Pela abnegação completa e absoluta, conquistamos a liberdade, pomo-nos acima do sofrimento, porque quebramos os grilhões que nos acorrentavam ao orgulho. Ficamos livres para trabalhar eficientemente, perseverantemente, sem desfalecimentos, com alegrias sempre renascentes, com fé cada dia mais forte, porque teremos vencido o medo, fantasma que nos roubava o sono e nos perseguia na vigília. O medo de sermos incompreendidos, o medo de sermos reprovados, o medo de sermos condenados à pobreza, ao desprezo, à desonra, ao esquecimento, à enfermidade, à morte. Todo esse medo é produto doentio do egoísmo, da sede de aprovação, do desejo de receber uma recompensa, de ver coroados os nossos esforços pelas compensações morais ou, até, materiais.

Só temos um inimigo a vencer, para conquistarmos a felicidade eterna: é o egoísmo. Pela abnegação abateremos esse único inimigo real e estaremos livres para nos devotarmos de corpo e alma às grandes causas que vão surgindo à nossa frente, que nos irão sendo confiadas â medida que nos demonstrarmos dignos delas. Neste momento da evolução do nosso planeta, a mais bela de todas as causas é esclarecer o homem sobre a sua própria natureza, revelar-lhe que ele é muito mais do que supunha ser, porque já tomou parte em múltiplas e grandiosas realizações da história, fez grandes coisas para o bem e para o mal, já viveu mil vidas em todas as formas de civilização e de barbaria e tem diante de si a eternidade para realizar seus ideais, para aprender, adquirir energia, conquistar virtudes, aproximar-se de Deus. Dizer-lhe que ele pode ter sido tudo o que haja de pior, mas que é uma criatura de Deus e que para Deus tem de voltar; que se transviou, praticou muito mal e ainda hoje despreza as melhores coisas em troca das mais passageiras ilusões; que foi Tartufo, mercenário, traficante das coisas santas que de graça recebera de Deus; que encarcerou o justo, sacrificou o inocente, torceu a verdade, conspurcou lares, assaltou viandantes, moveu a guerra, traiu a pátria, blasfemou de seu Deus; mas, que, apesar de tudo, terá tempo para reconquistar a felicidade, para voltar ao seio de Deus, cuja misericórdia é inesgotável; que nenhuma situação, por pior que seja, é irremediável dentro da eternidade.

Revelar todas essas coisas ao terrícola sofredor; provar-lhe que ele e seu mundo caminham para a felicidade inevitável, em virtude de uma lei divina, é um dos grandes, talvez o maior ideal neste momento. Dar ao homem essa segurança em seu próprio futuro; mostrar-lhe que já venceu a parte mais penosa de sua evolução e que o futuro será cada vez melhor e mais brilhante, é tarefa que merece todo o nosso devotamento a, se a executarmos com verdadeira abnegação, será uma fonte de sublime paz, de felicidade pura.

Desse grande ideal que tem o nome de Espiritismo, decorrem muitos outros, dignos de nosso devotamento. São setores de trabalho seções do todo, e abrangem toda a sociedade humana, todos os interesses sociais. Uma dessas seções, que enche de encantador trabalho muitas vidas inteiras, é a solução do problema de compreensão planetária, a adoção de uma língua comum a todos, mediante a qual todos os filhos de Deus se entendam e discutam seus problemas pacificamente, harmoniosamente. Esse setor de trabalho tomou hoje o nome de Esperantismo e tem feito a felicidade de muitas pessoas que consciente ou inconscientemente aceitaram a divisa devotamento e abnegação, ensinada pelo Espírito de Verdade, cuja volta ao planeta se realiza em nosso tempo.

Jesus disse que veio para servir e não para ser servido; que o maior será aquele que se torne o servidor dos outros, esquecendo-se de si mesmo. Agora o Espírito de Verdade nos repete que a sabedoria humana reside nessas duas palavras: DEVOTAMENTO e ABNEGAÇÃO. É precisamente o mesmo ensino em nova forma: vencer o egoísmo isolante e harmonizar-se com a obra de Deus. A harmonia exige a vitória contra o egoísmo. A harmonia universal é a lei divina; logo, a abnegação é o caminho para a felicidade real e Inalterável.


Lá havemos de chegar, mesmo que muita dor nos custe!

Amando a verdade


Amando a Verdade e proclamando-a sempre, em todas as ocasiões, pode a criatura, em face dos preconceitos humanos, prejudicar certos interesses de ordem temporal; todavia, em face das leis divinas, tornar-se-á livre pois que o Cristo ensinou: - "Só a Verdade vos fará livres”.

assina: Akiss-Amed

Reformador (FEB) Março 1943

A lâmpada


A lâmpada
Casimiro Cunha por Chico Xavier
Reformador (FEB) Março 1943

Em casa, a lâmpada acesa
Singela e desapercebida,
É uma lição permanente
Das mais nobres que há na vida.

Contra a noite escura e espessa
Que se espalha e reproduz,
Envolve-se de energia,
Resplandece, acende a luz.

Seu trabalho é grande e simples,
Difundindo o sol do bem.
Não discute. Não pergunta.
Dá sempre, não olha a quem.

Ilumina o gabinete
De pesquisa ou de leitura,
Como aclara a agulha humilde
Da máquina de costura.

Envolve com a mesma luz
A velhice, a enfermidade,
A infância, alegria, a dor
E os sonhos da mocidade.

Há tumultos, há prazeres?
Amarguras, agonia?
Se não sofre violência
Eis que a lâmpada irradia.

Serena, silenciosa,
Não se aflige, não consulta.
Nada pede além da força
Que lhe vem da usina oculta.

Revela todo detalhe
Sem contendas, sem perigo.
A sua demonstração
É o foco que traz consigo.

Não exige condições
Por servir e iluminar
E define sem ruído
Cada coisa em seu lugar.

Pensemos em nossa glória
Quando formos, irmãos meus,
Como lâmpadas do Cristo
Na usina do amor de Deus.

Casos e coisas


Casos e Coisas
M. Quintão
Reformador (FEB) Março 1943

Humberto de Campos, pelo lápis mágico de Chico Xavier, e naquele estilo mélico que Agripino arguto não recusou identificar, já nos deu umas saborosas Crônicas de Além-Túmulo, (1) e vai dar-nos agora, com foros de novíssima atualidade, umas deliciosas Reportagens da mesma fonte.

(1) Já traduzido na. Argentina e publicado sob o título de - Cronicas del más allá del tumulo.

O autor de Memórias, com o seu faro de cronista laureado e com a graça que Deus lhe deu, fisga por lá os confrades que vão transpondo o Styge e manda-nos as suas impressões de um ineditismo pitoresco, brejeiro, mas, nem por isso, menos edificante e lógico.

Edificante, porque referente à confraria inexperta e turbulenta; lógico, porque integrado na mais perfeita hermenêutica evangélica.

Feliz Humberto que pode, assim, dar arras ao seu temperamento com prestigio de causa, livre dos zoilos cá de baixo, e dos mestres em Israel arvorados em suprema congregação do Santo Oficio, de nova espécie, ou, por melhor dizer em - "Congregatio de Propaganda Fide" e santificações póstumas.

A nós outros, (ai de nós!) em forais de carne osso, mal se nos deparam ensanchas de frascarios e suspeitíssimos palpiteiros, sem ressonâncias de prol no ambiente dos canonarcas.

Vamos, então ao recadinho, de olhos turvos no minuto que passa, e no sinaleiro do trânsito, por não esbarrondar na primeira esquina, uma vez que este mundo sublunar é um tabuleiro de esquinas e, o que mais é: sem bichas organizadas.

*

Pois foi ali na esquina, que, não há muito, encontramos os conspícuos e estimabilíssimos confrades Epaminondas e Archimedes.

O leitor não os conhece, mas nós apresentamos: Epaminondas, em que pese o paradoxo, não desmente o ancestral homónimo e ilustre beócio, salvo seja. Tal como o herói de Leuktra, este nosso Epaminondas também não mente. E o Archimedes, escusa dize-lo, não é -  por bem nem mal dizer - êmulo do glorioso siracusano, senão porque também lhe falte uma alavanca... Mas gosta de espelhos, lá isso gosta, ainda que tratados a fosco em "manchetes" de jornal - isso a que a plebe chama - dar as caras.

De cara com eles, na inevitável esquina, não houve como dobra-la para o beco do silêncio. E antes que levado à parede, fomos ouvindo o curioso dialogo.

*

- Achas, então, que o sacerdote pode viver do altar?

- Isso não sei; mas sei que Paulo foi tecelão e que Jesus mandou dar de graça o que por graça recebemos; de resto, há que não confundir sacerdócio religioso com apostolado Cristão, que é como quem diz - espiritista.

- Com esse radicalismo, no mundo econômico que desfrutamos, as obras seriam nulas e o grande Paulo também disse que a fé sem obras é morta. E não sabes que os espiritistas somos, via de regra, uns pobretões?

- Bem o sei, mas sei igualmente que os Apóstolos eram pescadores, a justificarem que digno é o trabalhador do seu salário. As obras da fé cristã, ao meu ver, não se aferem por símbolos de expressão exterior. Ao povo errante no deserto, fustigado pelo Simum, nunca faltou o maná revigorante nem a vara de Moisés para extrair da rocha a linfa pura.

- Milagres que ninguém jamais viu repetir-se, que me conste...

- Porque de Moisés a fé está morta: o deserto se cobre e coalha de "tanks" e aviões de guerra, e por levar a "Arca Santa" aos trambolhões, os apóstolos hodiernos se atropelam e colimam antes construir na areia movediça.

- Quer dizer que negas o fruto do esforço coletivo em benefício do órfão, do enfermo, do desvalido da sorte?

- Não. Quero apenas dizer que a genuína caridade é espiritual, e o que aí se faz a esse título, aliás com ênfases e derriças nada evangélicas, não resolve o problema do pauperismo. A verdadeira fome não é de pão, é de luz; a enfermidade real não é de corpo, é de alma.

- O que não exime de cuidar do corpo, ainda porque, instrumento do Espírito. Disse Jesus que não só de pão vive o homem, mas não disse que viveria sem pão. 

- Mas disse, também, que o Pai não daria pedra ao filho que pedisse pão.

- Condenas, então, os que pedem para dar?

- Em tese, eu nada e a ninguém condeno, mas posso discordar da maneira por que o fazem, sem consideração ao óbolo da viúva.

- Vejo que te desvias: nosso tema é a caridade apostolar, é o das obras de assistência e beneficência coletiva.

- Topo então a parada e digo: caridade não é moeda, é sentimento. Advirto que nenhuma célula do Cristianismo original se distinguiu sob este aspecto. As primitivas ecclesias viviam dos seus sobejos, espontaneamente oferecidos e repartidos em caráter de emergência, e Deus sabe se não foram as diaconias que lhes carrearam a cizânia. De qualquer forma porém, a comunhão de bens era voluntária e que mais é: - total e incondicional. O caso de Ananias e sua mulher Safira, é típico... (2)

(2) Atos dos Apóstolos, V:1 a 10.

- Esqueces que os tempos são outros?

- Absolutamente. Lembro, todavia que a noção de tempo e espaço precisamos juntar a de eternidade e infinito. A Lei, em essência, é sempre uma e única. A esmola que eu peço e dou, não é galardão meu e sim de quem a der, dado que a dê de coração aberto. Caridade é também sacrifício. Jesus, Espírito de Caridade por excelência, não espalhou outra moeda que a de sua palavra de vida, em holocausto da própria vida; e os Apóstolos simplesmente o imitaram, socorridos pelo Espírito Santo. E se é certo que os institutos congregacionais, desdobrados em seu nome têm dado frutos de misericórdia, não é licito desconhecer os males concomitantes que originaram, para que o problema da penúria humana permanecesse insolúvel e quiçá agravado.

- Dir-se-á que regredimos, então?

- Materialmente, não direi que sim; moralmente, talvez, porque o senso da responsabilidade se anuviou no báratro das grandezas terrenas. Pergunto: onde o Templo de Salomão? A história só se não repete porque é sempre a mesma. Todos nós, creia, temos um pouco de Jacó na capenguice, e de Esaú na parvulez, que leva a trocar a herança pelo prato de lentilhas.

*

O sinal abriu. Os interlocutores precipitaram-se em direções opostas. Perdi-os de vista e disse com os meus botões: Que bela reportagem para o Humberto de Campos.


Os trabalhadores das diversas horas


Os trabalhadores das diversas horas
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Março 1943

O reino dos céus é semelhante a um proprietário que saiu pela manhã a assalariar trabalhadores para a sua vinha. Feito com eles o ajuste de um denário por dia, mandou-os para a vinha. Saindo à hora terceira, viu outros na praça, desocupados, e disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo. Eles foram. Saiu às horas sexta e nona e fez o mesmo. Finalmente, indo à praça à hora undécima e encontrando ali jornaleiros, disse-lhes: Porque estais todo o dia ociosos? Porque ninguém nos assalariou, responderam. Ide também vós para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo. À tarde, chamou o seu mordomo dando-lhe a seguinte ordem: Chama os jornaleiros e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e acabando pelos primeiros. Chegaram, então, os da undécima hora e perceberam um denário cada um. Vindo os primeiros, esperavam receber mais; porém, foi-lhes dada igual quantia. Ao receberem-na, murmuraram contra o proprietário, alegando: Estes últimos trabalharam apenas uma hora, e os igualaste a nós que suportamos o peso e o calor do dia. Retrucou o proprietário a um deles: Meu amigo, não te faço agravo nem injustiça: não ajustaste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te embora, pois quero dar a este último tanto como a ti. Não me é lícito fazer o que me apraz daquilo que é meu? Acaso o teu olho é mal, porque sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos." (Evangelho).

A alegoria acima, como, aliás, toda alegoria, exprime e revela um princípio diferente daquele que literalmente enuncia. Parece, à primeira vista, haver injustiça da parte daquele proprietário que manda pagar igual salário aos obreiros das diversas horas do dia. Pois, então - como alegaram os que iniciaram o trabalho pela manhã - será justo pagar o mesmo jornal a nós e aos que entraram às nove horas, ao meio dia e até mesmo à hora undécima?

Para entrarmos no mérito do critério em que se baseou o proprietário da vinha, cumpre lembremos que a parábola em apreço tem relação com o reino dos céus, isto é, com os meios e processos empregados para a sua conquista. Neste particular, o tempo constitui elemento de somenos importância. "A cada um será dado segundo as suas obras", e não segundo o tempo, mais ou menos dilatado, de sua atuação nos arraiais do credo que professa. Assim, pois, se os jornaleiros da hora nona e do meio dia fizeram, pela maior soma de atividade empregada, tanto como os da manhã, é natural que percebessem o mesmo jornal, por isso que o proprietário havia prometido DAR-LHES O QUE FOSSE JUSTO. E aos da undécima hora? Seria possível, em tão minguado tempo, fazer o mesmo que os demais? Pelo dedo se conhece o gigante, reza o rifão popular. O que teriam feito aqueles assalariados no decurso de uma hora apenas? Aqui entra em jogo um fator de subida importância, no que respeita ao merecimento do obreiro: A QUALIDADE da obra. Certamente, o pouco que produziram os jornaleiros da undécima hora superou tanto, em qualidade, o que fizeram os outros, em quantidade, que os bons olhos do proprietário acharam de justiça dar-lhes a mesma paga. Em realidade, o que ele viu é que o trabalho destes valia mais que o dos outros, fazendo, nesse cômputo, abstração do FATOR TEMPO.  

A sabedoria da sentença evangélica - a cada um será dado segundo as suas obras - abrange dois aspectos distintos: O objetivo e o subjetivo. Só de posse do conhecimento exato de ambos, é possível opinar com acerto e com justiça. Os homens julgam comumente através do aspecto objetivo das obras, por isso que não lhes é dado penetrar o plano subjetivo. Daí a precariedade dos seus juízos e das suas sentenças. Por vezes, há mais estimação nos feitos sem maior importância objetiva, do que nas vultosas obras que impressionam e deslumbram os sentidos. Aquela pobre viúva que lançou no gazofilácio do templo uma moedinha de cobre, de ínfimo valor pecuniário, deu mais, disse o interprete da divina justiça, que os ricos, que ali despejaram moedas de ouro a mancheias. O valor da oferta da viúva é de natureza subjetiva, está no que se não pode ver nem tocar, isto é, no motivo que determinou o seu gesto; está na santidade, na pureza da intenção e no sacrifício com que o fez, pois ela havia dado tudo o que possuía, aquilo que estava reservado para o seu próprio sustento. Os olhos humanos não podem aquilatar os valores desta espécie, mas os do Filho de Deus vão descobri-los nos íntimos e secretos refolhos da alma humana.

*

Recapitulando, recordemos mais uma vez que a semelhança ora comentada se relaciona com o reino dos céus. Somos todos jornaleiros da vinha do Senhor, que é o planeta onde nos encontramos. Cada um age no setor que lhe foi destinado. O proprietário observa a maneira como os seareiros mourejam, julgando o mérito individual, não pelo tempo, nem pelo volume da produção, mas pelo cunho de perfeição imprimido à obra. O bom obreiro tem os olhos fixos no mister que executa e não nos ponteiros do relógio. Pensa menos na recompensa que no bom acabamento da sua tarefa. O trabalho é santo, pela sua mesma natureza e, sobretudo, pela alma do operário nele encarnado, "Só canta bem quem canta por amor." Os músculos refletem as vibrações do cérebro e os latejos do coração. A inteligência e os sentimentos dirigem as mãos, tanto do operário como do artista. É com o Espírito e não com a matéria que se constroem as obras que dignificam e imortalizam os seus autores. Trabalhemos, portanto, com simpleza e santidade. Imprimamos aos nossos atos aquela naturalidade com que os pássaros gorjeiam e aquela dedicação com que fazem os seus ninhos. Não nos preocupemos com o peso e a vultuosidade das nossas obras; tampouco nos deixemos impressionar com o tempo que temos empregado em produzi-las e, menos ainda, com a recompensa presente ou futura: o Senhor da vinha nos DARÁ O QUE FOR JUSTO. Confiemos como confiaram os jornaleiros das derradeiras horas, pois "os primeiros serão últimos e os últimos serão primeiros; porque muitos são chamados e poucos os escolhidos."

E, assim, verificamos que a parábola ora comentada encerra a mais bela e excelente apologia da JUSTIÇA.