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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Sessões 'particulares'

Sessões ‘particulares”
Orvile Derby A. Dutra
Reformador (FEB) Fevereiro 1942

Dado que a doutrina espírita por ser a própria doutrina cristã, concede inteira liberdade aos seus adeptos, não tem ela hierarquia, nem ritos, nem dogmas.

Pela mesma razão, nenhum núcleo espírita que se preze de bem orientado impõe obrigação alguma a seus sócios e frequentadores, nada lhes exige com referência à doutrina, contando apenas com os esforços e a boa vontade e todos, de modo que, educando-se a si mesmos espontaneamente, trabalhem com denodo, levando seu apostolado tão alto, que chegue a abnegação. Oferece tudo   o que lhe está ao alcance, na convicção de que, cumprindo o Evangelho, tudo o mais virá de acréscimo e por misericórdia.

Os núcleos espíritas são de modo geral, bem orientados, têm à sua responsabilidade definida perante as leis do país e, ainda mais, perante as leis divinas, oficinas, que são, de trabalho constante, produzem sempre efeitos benéficos, quer na parte espiritual, quer a parte material. Seus guias, reconhecendo-lhes as responsabilidades, estão sempre vigilantes sobre labores, contribuindo poderosamente para que progridam. Neles, os estudos se fazem sempre luz dos Evangelhos, oferecendo, além do amparo do Alto, a vantagem de ser feitos em conjunto o que dá melhores resultados, do que estudos feitos isoladamente, sem o necessário ambiente espiritual. Dando de graça tudo o que de graça recebem, suas sessões se realizam à hora certa, porque, sendo uma coletividade de trabalhadores esforçados, quando falta o que costumeiramente dirige os trabalhos, outros, à altura de substitui-lo, acorrem, sem constrangimento e, colocando-se sob o mesmo amparo, colhem os mesmos resultados. Nos seus recintos só se trata de coisas de elevada moral, só interessando aquilo que pode beneficiar a outrem. Tanto assim que, dentro dessas instituições espíritas e do meio em que convivem os seus frequentadores a que saem e nascem essas obras de assistência social, espalhadas por todos os recantos do nosso grande Brasil, como frutos valiosos dos ensinamentos do Evangelho do Mestre Jesus.
           
Além disso, é dentro dos meios espíritas que se vem operando lenta, porém seguramente, transformação radical do homem velho em homem novo, a do materialista em espiritualista, bem como a reedificação de lares desmoronados, a conversão de muitas criaturas em benefício próprio e de outros.
           
Ao contrário, os que, por conveniência individual, isoladamente estudam e praticam a doutrina, não podem contar com tudo aquilo que oferecem os Centros e o êxito de suas sessões chamadas íntimas ou particulares, fica à mercê de múltiplas vicissitudes.  

Acreditamos que os que assim praticam fazem-no de boa fé, ou por ignorância e, também, que os Espíritos que se comunicam nesses meios são bem intencionados; acreditamos, ainda, que, a princípio, tais trabalhos produzem boas consequências porém, dada a familiaridade do meio e o não terem as pessoas que os frequentam conhecimento seguro da doutrina e fugirem outros, por conveniência e vergonha, de ir aos núcleos mais frequentados, logo surgem as perguntas pouco discretas, as consultas sobre questões materiais e assuntos de interesse secundário, que não de caridade e espiritualidade, perguntas que, atendendo às conveniências dos que as formulam e não da doutrina, nem dos Espíritos, versando quase sempre sobre coisas fúteis e banais, de engrandecimento pessoal, acabam todos desviando-se bom caminho.

Sendo raro que tenham horário certo para se iniciarem e encerrarem essas sessões, conquanto possa acontecer que as frequentem médiuns com bons serviços à Doutrina, portadores de apreciáveis dons mediúnicos e excelentes intenções, os guias, verificando pouco a pouco a inutilidade de seus esforços, se vão afastando e os Espíritos zombeteiros os vão substituindo dando comunicações que, aceitas sem análise, conduzem a um final desastroso, a um desfecho lamentável. A obsessão muitas vezes se apodera dos componentes e as consequências são tão dolorosas, que muito nos alongaríamos, se aqui houvéramos de apreciá-las.

É exato que os que revelam tais tendências demonstram precário conhecimento. da Doutrina codificada por Allan Kardec e, por isso, nada influem nas já densas fileiras formadas pelos núcleos espíritas, pois sabemos que a cada um é dado segundo suas obras. Entretanto, necessário se faz atraí-los e esclarece-los, para que, cada vez mais e mais depressa, todas as ovelhas formem um só rebanho, em torno do cajado do Pastor divino.


Cinzas do meu cinzeiro...


Cinzas do meu cinzeiro...
Manoel Quintão
Reformador (FEB) Fevereiro 1942

"Eu sabia que o Bindo havia adquirido o velho hotel Biela e lá prosperava, em Ponta Grossa - a justamente denominada Princesa dos Campos.

O Bindo era a flor do exército imenso de "garçons" do meu conhecimento, por força de longas e repetidas viagens. Encontráramo-nos pela primeira vez nos idos do século das luzes, ao apagar destas, lá por 1895, no "Grande Hotel" de João do Couto, em Curitiba. Quando, pois, 20 anos mais tarde, precisamente em 1915, acorria ao Congresso EspÍrita do Paraná, como delegado da Federação EspÍrita Brasilera, outro que o Bindo não houvera de ser meu hospedeiro. A viagem por via-férrea, partindo de
S. Paulo, não oferecia perspectivas novas, por isso que a conhecia até ltapetininga, em território paulista, e até Castro do lado paranaense. O trecho intercorrente, havia de ser vencido à noite. Deixei a cidade de Tibiriça às 17 horas e quando, no dia seguinte, ao lusco-fusco da noite, atingia Ponta Grossa, chovia a cântaros. Na plataforma da Estação, certo devido ao temporal grosso, a balbúrdia era enorme. Nem um rosto conhecido! Precipitando-me de roldão para um carro de praça, gritei ao cocheiro encharcado:

- Ainda existe o hotel Biela? Sim, existia; e logo num chouto (andadura sacudida, com passos pequenos, incômoda para o cavaleiro) fustigava a parelha, para deixar-me na portada do casarão prestes reconhecido. Mas... (causa esquisita e indefinível!) ao transpor-lhe os umbrais, tive um frisson de mau pressagio. Ambiente pesado, de câmara funerária, nada obstante a iluminação farta jorrante do interior. Não tardou muito, porém, o meu enleio. A minha frente, um vulto feminino em traje de rigoroso luto, interrogava:
- É o Sr. Quintão? E a um aceno confirmativo:

- Sabia que o esperavam e já o conhecia de nome, porque o Bindo sempre me falava no senhor...

- Mas... onde está o Bindo?

- Pois o senhor não sabe? - meu marido foi há pouco tempo assassinado aqui mesmo neste salão de jantar, e, veja o senhor: - assinado pelo cunhado, meu irmão!

Dos olhos negros, profundos, porejavam duas lágrimas. Eu não sei o que lhe disse, nem mesmo se algo disse. Lembro-me, porém, de coisa assim como seja tudo por amor de Deus ...

- Mas o senhor vai jantar e vou mandar preparar-lhe o aposento, que será o que ocupei com o Bindo, até o dia fatal. Se é que os mortos vivem, como creio, meu marido há de regozijar-se com esta homenagem. É o melhor quarto da casa, está perfeitamente montado e apenas precisa de ligeira limpeza, porque nunca mais lá entrei depois da tragédia.

- Não, Exma., absolutamente não... Compreendo e agradeço a gentileza honrosa, mas prefiro um quarto daqueles da galeria lateral, com janelas altas que dão para a ladeira, onde pernoitei há vinte anos. Além do mais, não posso dormir em ambientes fechados e os quartos frontais, ao nível da rua não facultam a ventilação.

- Entretanto, na galeria só dispomos hoje de um quarto e esse não me atrevo a oferecer-lho ...

- Mas, por quê? Olhe que é questão de três ou quatro dias e "cometa" traquejado dorme até em travesseiro de pedra.

Constrangida, aquiesceu, e mal assentei à mesa para jantar, chegaram de tropel os confrades da burlada recepção. Andaram-me na pista a conjeturar impedimentos de última hora, até que descobriram que ali estava e não podia deixar de ser... eu mesmo. E foi um alegrão, dessa alegria sã de almas afeiçoadas a Jesus. Dentre elas, muitos partiram já para o reino da Verdade e da saudade; mas o Lins de Vasconcelos e o Sousa Morais ainda aqui estão para dizer o que foi esse conclave fraternista, primeiro quiçá de quantos lhe sucederam em nossa Pátria, e cuja documentação se encontra nas páginas desta revista, nºs. 3 e 4 de fevereiro de 1916. Mas, não é para falar do Congresso que sopro aqui esta larada (cinzas da lareira) e sim para fixar fenômenos psíquicos, suscetíveis de ponderação e aclaramento.

*

Assim que, ao regressar por deshoras (intempestivamente) ao hoter (?), após a sessão recepcional ao Delegado da Federação Espirita Brasileira, senti-me febril, exausto e, não obstante, insone. Doía-me a garganta, a chuva miudinha e frígida peneirava lá fora no silêncio da noite e eu ouvia cantar o galo, sem pregar olho.

O leito parecia de brasas. Alta madrugada, entrei a madornar (ficar meio dormindo e meio acordado) em sobressalto. Visões estapafúrdias, com ciclones autósitos (monstro capaz de vida extrauterina)  independente em taranteIas (dança popular italiana) bizarras. Ao deixar o leito, manhã alta, tinha os olhos injetados, ardentes; dorida a garganta, e estava completamente afônico.

Meu Deus! nem falar, nem comer; nem voz, nem noz... Era o castigo! Jejum e oração, quand même (de qualquer forma). Os confrades estavam desolados e eu mais do que eles. Nem, passes, nem gargarejos, nem poções dificilmente deglutidas, lograram melhoras.

Nesse dia, véspera de Natal, devido ao mau tempo, o Congresso reuniu-se no teatro "Renascença" e lá ouvi, com a impassibilidade de bonzo, (membro de qualquer ordem religiosa) relatadas por Lins de Vasconcelos, as teses que me cumpria desdobrar perante o Cenáculo.

- Vamos ver amanhã - diziam os confrades solícitos. Mas a segunda noite do Hotel Biela foi mais dantesca do que a primeira. Ao pandemônio onírico (dos sonhos) -visual juntou-se o auditivo, com ruídos insólitos e gemidos abafados. Eu tudo atribuía a um estado patológico: fadiga da viagem, mudança de clima, algum distúrbio alimentar. E pois que se baldavam todos os recursos terapêuticos, um só restava; contramarchar. Não assistiria ao encerramento do Congresso, não reveria a saudosa Curitiba, das alturas do "Batel", como tanto me prouvera. Estava resolvido. No dia de Natal, quando, à tarde, na gare da estação me despedia do bloco fraterno e generoso, Hugo Reis, o saudoso e cintilante jornalista do "Diário dos Campos", tomou-me de parte e disse a sério:.

              - Ouve Quintão e não te rias... Foi um desastre a tua hospedagem no "Biela"; eu quis retirar-te dali à tempo, mas fiquei receoso de provocar suscetibilidades. Aquilo é uma casa malsinada. O Bindo, o teu amigo, foi o último número da tragédia que ali se vem desenrolando. " Dize: que quarto ocupaste?

            - Número tal.

- Justamente o fatídico, onde já se verificaram dois ou três suicídios. Pensa no caso e dá-me notícias.

A sineta tilintava em sinal de partida e dentro em pouco, comovido, da plataforma do último vagão, eu via desaparecerem na curva da linha os lenços adejantes, quais asas brancas em caprichosos remígios (movimento das asas).

E o grande caso é que, apesar da noite úmida e dos solavancos e agruras da viagem, adormeci corno um justo, para só despertar muito aquém de Sorocaba. E ao tomar pé na Paulicéia, sentia-me são como um pero e voraz como um Vitélio (foi imperador romano).

*

Mais tarde, traduzindo Souvenirs de Ia folie, de Antoinette Bourdin, lá encontrei registrada a teoria dos chichés astrais (pintinhos astrais?) e Flammarion, em La mort et son mystère, consigna o episódio impressionante, que facultou a descoberta de um crime, graças a um sonho premonitório. Mas hoje, como ao tempo em que isso se deu, há 26 anos, eu não discuto teorias e só registro fatos quando respigo no meu borralho. (lugar aquecido e confortável.)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Oração da Migalha

Oração
da Migalha

Senhor,
            Quando alguém estiver em oração, referindo-se à caridade, faze que esse alguém me recorde, para que eu consiga igualmente ajudar em teu nome.
            Quantas criaturas me fitam, indiferentes, e quantas me abandonam por lixo imprestável!...
            Dizem que sou moeda insignificante, sem utilidade para ninguém; contudo, desejo transformar-me na gota de remédio para a criança doente. Atiram-me à distância, quando surjo na forma de pedaço de pão que sobra à mesa; no entanto, aspiro  fazer, ainda, a alegria dos que choram de fome. Muita gente considera que sou trapo velho para o esfregão, mas anseio agasalhar os que atravessam a noite, de pele ao vento... Outros alegam que sou resto de prato para a calha do esgoto, mas, encontrando mãos fraternas que me auxiliem, posso converter-me na sopa generosa, para alimento e consolo dos que jazem sozinhos, no catre do infortúnio, refletindo na morte.
            Afirmam que sou apenas migalha e, por isso, me desprezam... Talvez não saibam que, certa vez, quando quiseste falar em amor, narraste a história da dracma perdida e, reportando-te ao reino de Deus, tomaste uma semente de mostarda por base de teus ensinos.
            Faze, Senhor, que os homens me aproveitem nas obras do bem eterno!... E, para que me compreendam a capacidade de trabalhar, dize-lhes que, um dia, estivemos juntos, em Jerusalém, no templo de Salomão, entre a riqueza dos poderosos e as jóias faiscantes do santuário, e conta-lhes que me viste e me abençoaste, nos dedos mirrados de pobre viúva, na feição de um vintém.
                        Meimei
 por Chico Xavier

Reformador (FEB)   pág. 89  em  Abril de 1961

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Estudos Bíblicos


Estudos Bíblicos
Almerindo Martins de Castro
Reformador (FEB) Janeiro 1940

Tema:  Renascimento e Reencarnação

Disse Jesus a Nicodemos: "Em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo não pode ver o reino de Deus." Perguntou Nicodemos: "Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, entrar novamente no ventre de sua mãe?" Respondeu Jesus; "Em verdade te digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espirito. Não te maravilhes de eu te dizer: É-vos necessário nascer de novo. O Espirito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que é nascido do Espírito." - Como pode ser isso? perguntou Nicodemos, Respondeu Jesus: "Tu és mestre em Israel e não entendes estas coisas?" (João, III, 1-10.)

A estranheza de Jesus estava em que Nicodemos não devia ignorar o sentido das palavras de que Ele, o Cristo, usava. Segundo as crenças transmitidas nas Escrituras Sagradas, sabia-se que o Espírito (sopro divino dado às criaturas) era imortal, imperecível. Não era, pois, natural que Nicodemos, grande entre os Fariseus, se admirasse de poder um Espírito voltar à Terra, nascendo de novo por um corpo-carne, Visto que este constitui o veículo do Espírito, como está demonstrado em João I, 14, onde se diz: "O verbo se fez CARNE (tomou a forma corpórea) e habitou entre nós." Segundo também essas crenças e conhecimentos, que vinham de tempos imemoriais, quatro eram os elementos que dominavam no mundo e resumiam as fontes da vida e das transformações de todas as coisas vivas: ÁGUA, TERRA, FOGO e AR. '

A ÁGUA, por essas noções, era o princípio gerador de todos os seres, fonte originária dos corpos vivos. Tal se encontra na Gênese (I, 1, 2, 6, 7, 20 e 21): "No princípio criou Deus o céu e a terra e o espírito de Deus era levado sobre AS ÁGUAS. E disse Deus: Faça-se o firmamento e dividiu as águas que estavam por baixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. Disse também Deus: Produzam AS ÁGUAS répteis de alma vivente e aves que voem sobre a terra. Criou Deus os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimento, os quais FORAM: PRODUZIDOS PELAS ÁGUAS, cada um segundo suas espécies."

Por isso, Jesus disse que era preciso nascer de novo da ÁGUA e do Espírito, considerando a água como o elemento gerador de todo corpo "que tem vida e movimento", e do Espírito (porque este não pode vir das ÁGUAS, mas de Deus, CUJO ESPÍRITO PAIRA SOBRE AS AGUAS), o que tudo significa, em resumo que o ESPIRITO (oriundo de Deus e Fonte Suprema) nasce de novo - tomando DAS ÁGUAS um corpo que tem vida e movimento.

E esse foi o ensinamento que Jesus transmitiu aos Apóstolos e estes pregaram sem restrições, como se vê da 1ª Epístola de João, cap. V, onde está afirmado que o Cristo "veio com ÁGUA e com o sangue; não com a água tão somente, senão com a água e com o sangue. E o ESPÍRITO é que dá testemunho de que o Cristo é a verdade."

Sabendo-se que o SANGUE era o símbolo da Vida animal, o ensinamento se completa nesse mesmo trecho, quando o Apóstolo diz, no vers. 8: "Três são os que dão testemunho na Terra: o ESPÍRITO e a ÁGUA e o SANGUE; e estes três SÃO UMA MESMA COISA."

E quem nos confirma que esse ensinamento foi dado a todos os Apóstolos, isto é, que SANGUE é símbolo ou sinônimo de VIDA, é aquela passagem de Atos (XVIII, 26): Deus de um sangue fez todo o gênero humano."

Muitos outros ensinamentos complementares confirmam e ilustram essa doutrina, pela qual o Mestre quis esboçar a finalidade do Espírito no caminho da perfeição.

Diz a 1ª Epístola aos Coríntios, VI, 19: "Acaso não sabeis que os vossos corpos são templo do Espírito Santo QUE HABITA EM VÓS, o qual tendes por VO-LO HAVER DADO DEUS e que não sois mais de vós mesmos?"

E, para que não houvesse dúvida, explica no cap. XV, 39 a 49, que não se deve confundir a forma corpórea terrestre, com a forma do Espírito, porque "corpos há celestes e corpos terrestres". O Espírito é semeado em corpo corruptível, mas ressurge em corpo incorruptível, pois, "se há corpo animal, também o há espiritual"; Deus fez primeiro o animal e depois o espiritual.

Que concluir de tais ensinamentos? Que os Espíritos, desconhecedores ou adversos da Verdade, que está no Evangelho do Cristo, precisam voltar á Terra. Porque? Porque a lei que será aplicada a todas as criaturas, diz assim: A cada um se paga segundo as suas obras (Mat., XVI, 27).

Mas, os Espíritos não têm, pelas religiões, apenas a salvação eterna ou a condenação eterna? Não, porque Jesus disse estas palavras (João, VIII, 58): "Em verdade, em verdade vos digo, que se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente."

Como explicar que, guardando a palavra do Cristo, a criatura não tem - morte eterna e sim transitória? Será por estar ensinado que Deus não quer o perecimento do pecador, mas o seu arrependimento e a sua salvação, em qualquer tempo?

Já no Velho Testamento havia esta promessa de Deus, em favor do pecaminoso (Jó, XXXIII, 23-24): "Se houver algum anjo (Espírito) , um entre milhares, que fale a seu favor, e instrua o homem no seu dever, se compadecerá dele e dirá: Livra-o, para que não desça à corrução; eu achei por lhe fazer graça." E como podiam os anjos (Espíritos puros) descer até as criaturas, uma vez que as religiões isolam o Céu da Terra?

A explicação de que Deus fala às criaturas (de certo por intermédio desses anjos) está nesse mesmo capitulo, vers. 15 – 16: "Por sonho de visão noturna, quando cai sono sobre os homens, e estão dormindo no seu leito; então abre os ouvidos dos homens e, admoestando-os, lhes adverte o que devem fazer."

Mas, os anjos terão a sua ação limitada à vida terrena da criatura, ou Deus consente que protejam o pecador e por ele peçam, mesmo depois que o Espírito deixa o corpo carnal? Quem poderá fazer a restrição, uma vez que tal limite não está nas Sagradas Escrituras? É certo que a Escritura diz (Hebr. IX, 27 - 28; X, 26 - 27): "Assim como está decretado que o homem morra só uma vez, seguindo-se o juízo - assim só passa pelo horror do sofrimento o que pecou voluntariamente, depois de haver conhecido a verdade."

Esta morte é a do pecado, a morte espiritual. O que peca morre espiritualmente, porque decai da condição em que foi criado, contrai culpa e, por isso, fica sujeito à reparação, diante da lei do Juízo Supremo, conforme disse o Cristo, figuradamente, em Mat., V, 25 - 26: "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juízo e o juízo te entregue ao oficial e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali, enquanto não pagares o ultimo ceitil."

Deus não cria Espíritos culpados; nós é que adquirimos um inimigo e nos tornamos adversários - no caminho a percorrer - da Lei fraudada, o que nos conduz à prisão do pecado, onde há sofrimento para o Espírito, "fogo e ranger de dentes". E vamos a essa prisão pelo esquecimento da Palavra de Deus, ensinada desde Moisés. Mas, mesmo no cárcere do sofrimento, a nossa vida prossegue e os Espíritos se avistam e recebem ensinamentos, conhecem em plenitude suas culpas, aprendem a necessidade de reparar os crimes praticados contra a Lei de Deus, percebem a diferença entre os que já sofreram e os que vivem esquecidos dos Mandamentos, mergulhados no egoísmo dos prazeres materiais - o que está comprovado na parábola do rico e do lázaro (Lucas, XIV, 19 - 31 .) O rico, sepultado no Hades (lugar inferior), viu a Lázaro e Abraão e ouviu a voz deste, apesar da distância, o que significa que os Espíritos se falam do "céu para o inferno", e Deus o permite.

E porque Jesus não podia ter dito apenas uma fantasia ou uma calva mentira, aí se compreende que os Espíritos culpados não podem passar - diretamente - da região dos pecaminosos para as moradas superiores, sem pagar o último ceitil das suas dívidas de culpa, enquanto não conhecerem, aceitarem e cumprirem o Evangelho, por isso que o Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Os que não aceitam a doutrina, nem a praticam, são iguais aos que não ouviram a palavra de Moisés: a esses não adianta que os Espíritos lhes falem, porque - a Salvação não vem por acreditar na pessoa do Cristo, mas por praticar a doutrina, seguir-lhe os exemplos da vida que viveu -- para nosso modelo e legado.

            "Aquele que fizer a vontade de Deus (cumprir a Lei)" esse é minha irmã, minha mãe, meu irmão", disse Jesus (Mat. XII, 50).

Assim é que foi ensinado nestas passagens do Novo Testamento: "Morreu o Cristo por nós; pois, muito mais agora que somos justificados pelo sangue (Rom. V, 9); "o sangue do Cristo limpará a nossa consciência das obras da morte (Hebr. IX, 14). Nesses trechos e, mais, na 1ª Epístola de João (I, 7) onde se dia: "o Sangue de Jesus Cristo purifica de todo pecado" - a expressão Sangue do Cristo significa sua obediência até à morte; elucidação adotada por eminentes exegetas.

Aí está, pois, o fundamento da Lei da Salvação, pela perfeição da vida, dentro dessa Lei exemplificada e vivida por Jesus.

E se a criatura só lhe for possível conhecer o Evangelho, a Lei, nas derradeiras horas, sem tempo para reconciliar-se - enquanto no caminho - ficará por isso fora do caminho de que falava Jesus? "

Como reencetar o caminho, em busca da verdade, para conquistar verdadeira vida? Voltando ao - caminho; nascendo de NOVO da ÁGUA e do ESPÍRITO.

É o que decorre dos ensinamentos bíblicos sobre a reencarnação.  

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Histórias erradas


Histórias erradas
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Janeiro 1943

O honrado padre Zioni, no livro que vimos comentando, precede as suas considerações com a "história do espiritismo moderno".

Nessa história aparece o caso das irmãs Fox, que S. R. relata com muitas omissões e várias interpolações. Não se esquece das fraudes que elas "confessaram", e depois retrataram, "da negação do indigitado criminoso", "da ausência de provas, no que toca às afirmativas do morto que se manifestava", e, finalmente, "do estado miserável em que acabaram essas médiuns".

Todo esse material achou-o o digno escritor em vários outros padres, onde sobressaem o padre Valério e o padre Lacroix.

Reservo-me para voltar ao assunto num livro que estou principiando a escrever em resposta ao padre Lacroix, livro no qual o seu colega Zioni foi inspirar-se grandemente para a valiosa digressão histórica.

Não posso, porém, fugir à freima em que me acho, de tocar desde já em dois pontos dos feridos pelo escritor. Diz S. R.:

"Desta maneira veio a saber-se que o tal espírito era a alma de Carlos Ryan assassinado naquela casa em tempos idos e enterrado na dispensa. Divulgado o nome do assassino, esse apareceu perante a Justiça defendendo-se da calúnia que lhe fora
imputada. A polícia promoveu rigorosa investigação em todos os cômodos e não conseguiu descobrir os ossos do suposto Carlos Ryan, nem vestígio algum do crime cometido, donde se concluiu que a história do assassinato era uma fábula."

O que é uma fábula é isto que o padre Zioni está contando. É falso que não se tivesse encontrado vestígio de algum crime. Veremos isto, conforme prometi, e verá desde já quem folhear alguns livros onde se conta esta história mais bem contada.

O que não podemos deixar passar sem reparos, no momento, são dois fatos, para o reverendo Zioni, de grande valor probante, ou improbante.

O primeiro é o de não se terem achado ossos nos aposentos. Havia de ser interessante que o assassino guardasse o cadáver nos cômodos da casa. E ele ali ficasse até reduzir-se a ossos, sem que ninguém desse por isto, sem que se soubesse nada. Um pouco mais, seria de espantar que o matador não pregasse uma tabuleta na porta com estes sensacionais dizeres: - Venham todos com urgência, aqui dentro há um defunto.

O segundo caso é ter o assassino negado a autoria do crime. É fulminante! O curial seria que ele chegasse e fosse logo confessando que perpetrara o crime, e pedisse, até, que o metessem rapidamente na cadeia.

Se tal não se deu, está claro que não houve o homicídio; a fábula fica patente! É a lógica do reverendo, que vem modificar de fond en comble (para baixo) o capítulo das provas em matéria penal.

Maiores reparos, porém, nos estão a merecer as considerações do reverendo, no que toca à maneira miserável por que morreram as irmãs Fox.

Leiamo-las:

"Cinco anos mais tarde morreram estas duas pobres irmãs... numa verdadeira ruína mental e física ..." ( O grifo é meu).
“Só tinham apetite para os licores Intoxicantes. Morreram, assim, num estado de embriaguez, de sensualidade, de degenerescência moral, sob todas as formas.”(Pag. 19).

Esta descrição desanimadora foi buscá-la o reverendo em dois formidáveis esteios - o padre Lacroix e o padre Lucien Roure. Aquele inspirou-se nuns jornais ou revistas.

Deixemos de parte a miserabilidade daquelas criaturas, com a sua embriaguez, sensualidade e degenerescência - o que tanto penalizou o padre Zioni - e nos firmemos em sua conclusão, ou na ilação que ele tirou dali:

"Não obstante origem tão vergonhosa, o Espiritismo conseguiu vencer, em parte, a reação geral contra os embustes que ele explorava e apresentar-se ao mundo com a máscara de Ciência e Religião, mercê dos esforços titânicos dos seus codificadores." (Pag. 19).

Como se vê, para o padre Zioni, a origem do Espiritismo foram os fenômenos produzidos pelas irmãs Fox. Mas fenômenos sempre os houve. O ilustre padre, mesmo, parece conhece-los, visto que deles relata uma batelada no seu capitulo - Fundamento histórico do Espiritismo.

Fala na antiga magia, em persas, babilônios, etruscos, egípcios, gregos e romanos.

Acrescenta: "todos esses povos da antiguidade pagã comunicavam-se com os mortos e espíritos." Declara, ainda, que disto nos dão testemunho os historiadores e filósofos mais antigos. E cita 14 nomes.

Menciona, particularmente, as frequentes relações de Apio com os mortos, as evocações de Tibério, a queima de livros mágicos...

Reporta-se à Escritura, à alma de Samuel, à filosofia alexandrina, a Tertuliano, a Lactâncio, a Hilário, a Eusébio, a Gregório...

Vem pela Idade Média afora, e, diante de tudo isto, não acha estranhável "o orgulho com que os espíritas proclamavam e alardeiam, ainda em nossos dias os seus progressos sempre crescentes. "

Se o fundamento histórico do Espiritismo assenta nesse imponente acervo de fatos; se eles vêm já dos povos da antiguidade pagã, se a eles se referiram, em todos os tempos, historiadores e filósofos, e se eles servem de orgulho aos espíritas, que proclamavam, então, os seus progressos sempre crescentes, e ainda hoje o alardeiam, como poderia ter sido o Espiritismo iniciado pelos fenômenos das irmãs Fox e se haver conspurcado nessa origem vergonhosa?

Mais uma vez se atrapalha o reverendo nas suas ilações. Ora é o Espiritismo que começa com as Fox, ora o fundamento do Espiritismo surge com os povos da antiguidade.

Já existia a comunicação dos mortos com persas, babilônios, etruscos, romanos, mas a comunicabilidade dos mortos com as irmãs Fox é que deu "a vergonhosa origem do Espiritismo."

Não param as contradições do eminente professor, sem mesmo sair das malsinadas médiuns.

O esforço por mostrar que tais fenômenos foram fraudulentos é imenso por parte de Sua Reverendíssima.

"Não houve vestígio do crime... A história era uma fábula... Umas tantas profecias não se realizaram... Uma das Fox confessou a falsidade dos fenômenos... Numa entrevista, Margarida Fox se lembrou de declarar que ela e Katie tinham sido vítimas da esperteza da irmã mais velha e da idiotice da mãe... Catarina confirmou esta confissão... Finalmente, o Espiritismo explorava estes embustes..."

Mas ao mesmo tempo, o reverendo parece em dúvida sobre se os fatos existiram ou não, porque fala na retificação das médiuns, que se retrataram da afirmativa de fraude; diz, então: "Ou juraram falso da 1ª vez, para afirmar uma mentira, ou da 2ª, para retificar." Por maneira que ele não sabe bem.

Para reforçar-lhe a dúvida e aumentar a nossa perplexidade, transcreve o padre Thurston, com quem se diria estar de acordo:

"De tais contradições das irmãs Fox, o Padre Thurston S. J. conclui:

1) ................................
2) quando atribuíram tudo a uma fraude interessada e consciente, ainda mentiram, porquanto algumas vezes houve nas sessões intervenção de espíritos."

Assegurando que as Fox, ou mentiram, quando falavam em fraude, ou mentiram quando se retrataram; citando Thurston, quando afirma que algumas vezes houve intervenção de espíritos; referindo-se aos fenômenos congêneres que existiram por toda a antiguidade e de que dão testemunho historiadores e filósofos, é claro que o reverendo Zioni acha aceitável ou possível a manifestação mediúnica das Fox.

A que viriam, então, as suas páginas sobre fraudes e embustes, "que o Espiritismo explorava"?

Se não houve embustes nem fraudes, o Espiritismo não explorou coisa nenhuma, e a assertiva do professor do Seminário não é exata, entretanto que a palavra de um padre, e, sobretudo, padre mestre, deveria ser de inabalável segurança. Colocou-se, ainda, S. R., numa posição ambígua, talvez de grandes efeitos táticos, mas prejudicial à firmeza de um estudo. Porque, afinal, não sabemos em que pé ficou. Se quisermos demonstrar que não houve fraude nenhuma, - como o iremos fazer, - sai-se S. R. com as suas dúvidas ou com o padre Thurston, ou com a realidade dos fenômenos, que ele nunca negou e que já vinham de persas, babilônios, etruscos, romanos...

Se pedirmos o testemunho de S. R. para roborar a autenticidade dos fatos, ele nos apresentará as fraudes e os embustes "que o Espiritismo explorou."

Fica assim armado para o que elas derem. Posição é essa de equilíbrio instável, provavelmente digna de aplausos num circo, mas, inegavelmente, pouco elogiável na cátedra.

Uma dedução categórica, porém, ele estabelece: - Que as Fox foram "tristes iniciadoras de uma religião nova; que, por isto, os espiritistas não as querem por madrinhas, e que foi nessa fonte vergonhosa que teve origem o Espiritismo. "

Para os incultos a tirada é esplêndida. Os menos incientes sabem, porém, que a mediunidade é um dom, que se pode dizer de ordem fisiológica, e, consequentemente, poderá recair em qualquer pessoa, sem procurar certificados de boa conduta; que, conforme dizem os próprios Espíritos, o médium pode empunhar uma pena ou uma faca, que há médiuns de alta inspiração e médiuns obsessos; que, na produção de efeitos físicos, não só é desnecessária a elevação espiritual do médium, como nem sempre será dos mais adiantados o Espírito produtor dos fenômenos; que não podiam ser madrinhas do Espiritismo ou fontes dele aquelas produtoras de fenômenos, desde que os ditos já existiam de todos os tempos; que a verdadeira origem do Espiritismo data de sua codificação; que as mensagens de grande pulcritude, notáveis pelos seus ensinos, é que exigem, assim um aparelho físico especial, como uma organização moral privilegiada.

Pelos vistos, quer na sua dubiedade, quer nas suas asserções, errou o eminente padre. Os seus equívocos são em toda a linha.


E de tudo se percebe que, nem mesmo forçando as premissas, acertou nas conclusões. 

Coisas que não sabíamos


Coisas que não sabíamos
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Junho 1943

Não há dúvida de que o livro do padre Zioni foi um prestimoso trabalho, que não só veio ensinar muitas coisas aos seminaristas do Ipiranga como a nós mesmos, espiritistas.

Assim é que ele esclarece:

"Bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo. (Todos os grifos são do reverendo). A filosofia espiritualista crê na existência de um Deus todo poderoso, Criador e Providência do mundo, pessoal e absolutamente distinto de suas obras. O Espiritismo identifica o efeito com a causa. Deus com o mundo!"

E nós, espiritistas, a crer o contrário, visto que “bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo”. E nós, espiritistas, a crer que Deus não é poderoso, nem é Criador, nem é providência do mundo, nem é distinto de suas obras, e é impessoal. Pensamos, além de tudo, que efeito e causa, Deus e o mundo é tudo a mesma coisa.

(“O Espiritismo identifica o efeito com a causa.”)

“Nós, espiritistas, cremos nisto, disse-o o padre Zioni aos seus alunos e proclamou-o à face do Brasil, no seu famoso livro.

Bem é que nos viesse agora iluminar o entendimento, porque nós criamos que acreditávamos justamente no contrário do que afirma o padre que nós cremos.

Mas, quem nos enganou foi o Kardec. Diz ele, logo na 1ª linha, do 1º capítulo, como 1ª resposta dos Espíritos no Livro dos Espíritos: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Por isso não esperávamos. O Kardec a dizer que Deus é a suprema causa e a suprema inteligência, nós a crermos que era nisso que acreditávamos! Supúnhamos até hoje que tínhamos Deus como Criador, visto que é causa primária, e como causa não se podia confundir com o efeito, que é a sua obra, e como Inteligência Suprema é o todo poderoso ...

Nada! No que acreditamos quem o sabe, quem o diz, quem o ensina é o padre Zioni.

Ainda nos engana e atrapalha Allan Kardec, quando estabelece no nº 13, Livro dos Espíritos, que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.
           
Mas que patranha!            

Dir-se-ia que isto é que é o ensino dos Espíritos, o que proclama o Espiritismo, aquilo em que cremos. Lá está que Deus é único, imutável, onipotente ...

Mas não importa. A verdade vive palpitando pela pena do reverendo: "São bem claras as diferenças." O Espiritualismo, de que ele é representante, crê num Deus poderoso, criador, pessoal, distinto de suas obras ...

Cá conosco é o contrário - cremos no oposto - o Kardec é p’ros tolos. E se não é a providencial interferência do padre. Iríamos por aí afora naquele engano d’alma.

No capítulo Panteísmo, Kardec para reforçar o engodo em que vivíamos, declara que Deus é um ser distinto, porque, se fosse a resultante de todas as forças e de todas as inteligências, não existiria, porquanto seria efeito e não causa. (LE, nº 14).

            Mas não é isso que cremos, di-lo o padre Zioni – nunca é demais repetir – em respeitável obra, que corre o Brasil inteiro, explicando o que é a infausta doutrina do Espiritismo. E entre o padre Zioni e o Kardec... “tollitur quaestio” (a questão é resolvida).

Outro esclarecimento e outra coisa que não sabíamos:

"O Espiritismo pretende possuir todos os segredos da natureza e julga-se capaz de explicar todos os mistérios."

Ainda aí, que ilusão a nossa! ...

Pensávamos, nós os espiritistas, que esbarrávamos em todas as causas primárias. Não há tal. O Espiritismo sabe tudo, explica todos os mistérios ou pretende isto.

Sabe de onde veio Deus, como é que veio, como é que se formou, onde acaba o Infinito, isto sem já falar em coisas mais próximas: - porque a água se solidifica a 0 grau, porque o mercúrio é liquido à temperatura normal e o ouro é solido, porque uns metais são duros e outros moles, porque há corpos que emitem irradiações, porque o ferro se magnetiza, porque as pontas atraem os raios e não as bolas, porque o coelho é manso e o tigre é bravo, porque a barriga das pernas está atrás, quando devia estar na frente para proteger as tíbias, porque os dentes só nascem duas vezes e as unhas crescem indefinidamente, porque... etc., etc.... etc...

Nós sabíamos tudo isto! Há muita gente que supõe saber o que não sabe. Em Espiritismo a cantiga é outra: - não sabemos o que sabemos! Desta vez, obrigado, padre!
Mais coisas que não sabíamos:

"O Espiritismo repousa nesta comunicação com os desencarnados e estabelece como base essencial a crença na sobrevivência dos espíritos e sua comunicação com os vivos, seja qual for a explicação, porquanto a filosofia espírita consiste em comparar todas as filosofias, já existentes, com a revelação espirita. "

Ah! consiste nisto?

Aí têm o que é a filosofia espírita - é uma comparação com todas as filosofias existentes.

Quem faz a revelação é o Arnauné, que eu não sei quem é; mas quem a endossa é o reverendo.

O trecho está claro como azeite: - a base do Espiritismo é a crença na sobrevivência, seja qual for a explicação.

E esta base é porque a filosofia espirita consiste em comparar a revelação espírita com as filosofias já existentes.

O Arnauné, com a aprovação, senão com a admiração de Zioni, levou a explicação aos maiores extremos: - a comparação é com as filosofias existentes. Não se fosse supor que se tratava de comparação com filosofias inexistentes.

E nós a crermos que a filosofia espírita versava sobre a origem, a dor, o destino dos homens!

Nada disso: - é uma comparação.

*

Não sabíamos, ainda, que Mateus, no capítulo XVIII, nº 17, se referia à Igreja Católica.

Elucida-nos, neste ponto, o padre Zioni:

"É pena que o Sr. Allan Kardec e seus discípulos nunca leram ou não querem ler na Sagrada Escritura os anátemas proferidos pejo mesmo nosso Senhor Jesus Cristo: - Aquele que não crer será condenado, porque já está julgado. Aquele que não ouve a Igreja (isto é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por ele fundada) esse tal deve ser reputado pagão ou publicano, isto é, apóstata, herege, excomungado ."

Apesar do muito que para mim vale a palavra do reverendo, fui dar uma espiadela em Mateus, e o que lá encontrei foi o seguinte:

"Se contra ti pecou o teu irmão, vai e o repreende, mas a sós com ele. Se te atender, te-lo-as ganhado, Se, porém, não te atender, faze-te acompanhar de uma ou duas pessoas, a fim de que tudo seja confirmado pela autoridade de duas ou três testemunhas. Se também não as atender, comunica-o à Igreja; e se também a Igreja não atender, trata-o como gentio e publicano." (Mateus, XVIII 35-17) .

Se meus olhos não me enganam, está diferente da citação do padre.

O que inferíamos do texto é que o Mestre, no seu amor às criaturas, nos ensinara a brandura, em vez de aconselhar-nos os anátemas, e, destarte, mandara que, quando tivéssemos de repreender ou censurar alguém, o fizéssemos em segredo, a sós com ele, com palavras persuasivas. Se ele nos não atendesse, buscássemos outros para reforçar nossos conselhos. Os espíritas pediriam o auxílio dos bons Espíritos. Não atendidos, ainda levariam o caso à Igreja, e a Igreja era a assembleia dos doutos, dos probos, era a Autoridade. No nosso caso seria a comunidade cristã.

O conselho do Divino Pastor visava - assim o supúnhamos - evitar a desonra do infrator, a publicidade do erro. Só em último caso, na impossibilidade da corrigenda, e corrigenda do pecado, seria considerado o pecador gentio e publicano, isto é, insuscetível de emenda, e, então, deixado à sua sorte, consequentemente ao desprezo público, como se ele fora publicano ou gentio.

Mas o padre ajeitou os textos. Em boa hora, porque ficamos sabendo assim que, se um chinês não ouvir a outro chinês, tem que rumar ambos à Igreja Católica. Se um japonês não atender a outro japonês, está perdido, a menos que não consiga romper o bloqueio da esquadra britânica e forçar o canal de Suez, em caminho de Roma.

E então, antes da fundação da Verdadeira Igreja, a Católica? Era ficar esperando num ponto azul da Eternidade!

Não se compreende, nem se sabe como, mas está bonito.

Não para aí ou não parava a nossa ignorância. Leiamos mais um lanço esclarecedor do reverendo Zioni:

"O Espiritismo Moderno, filho legítimo do Individualismo, Liberalismo e Racionalismo Protestantes, é, em si mesmo, falacioso e enganador, Pretende ser uma verdadeira Ciência, Filosofia e Religião, quando, na realidade, não é mais do que uma
pseudo-revelação dos princípios subversivos da ordem e da moral, sob a roupagem santa e ideal da verdadeira caridade."

Está injurioso. Mas em se tratando de Espíritos, Espiritismo e Espiritistas, o padre não tem muita cerimônias. Já vimos isto.

Todo o livro é uma como arcada de contrabaixo, vibrada por mão de mestre. Profunda e vigorosa.

Ora no Espiritismo, o que se ensina é o Evangelho do Senhor Kardec lhe dedica um livro inteiro. Roustaing apresenta, transcreve, estuda, comenta, versículo por versículo. A doutrina roustainiana se cifra em todo o Evangelho do Divino Mestre. Onde está a imoralidade, a desordem?..

O Evangelho, filtrado pela boca do reverendo iluminado pelas chamas do Inferno, apavorante pelos anátemas, anti-fraterno pelo predomínio exclusivo de uma Igreja, vingativo pela eternidade das penas, obscuro pela insondabilidade dos mistérios, impenetrável pela proibição do exame, da investigação, é que é a fonte da ordem e da moral, onde nós devemos todos abeberar.

Mas o Espiritismo, que nos apresenta Jesus cheio de bondade e de amor, que ensina a remissão do pecado pelo esforço próprio, que pregoa a bondade do Criador pela salvação de todos, que nos dá como lei suprema a da Justiça, como princípio geral a Equidade, que não proíbe o Conhecimento, nem estiola a Razão, este, sim, é um obstáculo à ordem, é um empeço à moral.

Num ponto, porém, acordamos com o ilustrado sacerdote. Convimos em que há ali uma doutrina funesta - é o dai de graça.

Imoral, não há dúvida, porque vai de encontro à moral consuetudinária, à moral de todos os tempos e de todos os homens, com raras exceções. Anárquica, porque foge à ordem estabelecida, pelo menos à ordem econômica.

E o Espiritismo prega essa perigosa doutrina. Tem razão o padre: - "Princípio subversivo da ordem e da moral!". Acabamos por uma conciliação.