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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

'A Haste de Moisés'



A Haste
de Moisés
José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Abril 1944


            Tarde quente nos arredores de Samaria. Ao longe, mulheres morenas, esbeltas, conduzindo ao ombro almudes cheios d'água, regressavam da fonte de Nad-Gog, batendo graciosamente as sandálias na poeira fina da estrada cheia de Sol. A beira do caminho, sentado em enorme laje, um nazareno com alguns amigos.

*
           
            José: sei que continuas sofrendo por causa das criticas que te fazem... Vai para dois mil anos, passou por aqui o Mestre, semeando bondade, tolerância e amor. Deixa que tuas lágrimas corram para que teu coração fique desoprimido, mas não te esqueças, José, de que Ele disse: "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados." José sorriu e obtemperou: "- Não compreendo. Eles citam o Evangelho e são intolerantes, falam no Mestre e não perdoam... 'Não posso fazer nem dizer nada, porque meus gestos e minhas palavras são deturpados. Não compreendo, não consigo compreender... " O nazareno apertou-lhe a mão carinhosamente e tornou: "- José: não é preciso compreender; o suficiente é perdoar... Foi ainda o Mestre que ensinou, no sermão do monte: "Bem-aventurados os que têm sido perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa". Sim, José, por causa d'Ele, porque, se procuras ser fiel ao Evangelho e falas a verdade, tudo quanto sofreres será por causa do Mestre. Não te irrites nunca. Silencia e ora, porque eles são cegos, guias de cegos, mas os piores cegos, porque fecham os olhos para não enxergar a luz..."

*

            O nazareno manteve-se alguns instantes em silêncio, como que a deixar que suas palavras fossem meditadas. Depois, continuou: "- Esta advertência do Mestre deve estar sempre em nossa memória:  "- Todo aquele que ouve as minhas palavras e as observa, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. Desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela não caiu; pois estava edificada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve as minhas palavras e não as observa, será comparado a um homem néscio, que edificou a sua casa sobre a areia. Desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e foi grande a sua ruína."

*

            Como José estranhasse que os seguidores de uma mesma doutrina a tratassem de maneira tão contraditória o nazareno propôs-se contar-lhe uma velha história. E começou: "- Há muitos anos, em Jerusalém, antes da vinda do Cristo, dois homens discutiam, aos gritos, em praça pública. Juntou muita gente e logo se formaram dois partidos. A algazarra atraía cada vez maior número de curiosos, que se iam transformando em outras tantas pequenas facções, cada qual tentando impor seu ponto de vista como sendo o único verdadeiro. A confusão cresceu e o desentendimento acabou perturbando a vida pacata da velha cidade, como se por ali houvesse passado um ciclone. O chefe da grande sinagoga interveio e cada grupo escolheu um delegado para expor diante dele sua opinião.

*

            O primeiro, depois de olhar superiormente para os circunstantes, falou: - "A força de Jeová esteja comigo. Diz o meu amigo Josué que Moisés fez sair água da rocha de Meribah, golpeando-a com uma haste de cinco palmos. Isso não é verdade! A vara não podia medir menos de sete palmos!" Em seguida, o líder do segundo grupo apareceu, dogmático: "- Tão certo como Israel ter-se chamado Jacob, a haste usada por Moisés não media sete palmos, mas apenas cinco!". Veio outro, cujo sectarismo se refletia no olhar duro: "- Que não me despreze a sabedoria de Salomão - Josué e Saul estão redondamente enganados. A haste que Moisés empregou contra a rocha de Meribah não media cinco nem sete palmos, pois tinha exatamente seis!". Mais um se apresentou, porejante de farisaísmo: "Pelas santas barbas de Salomão, filho de Elkanah e Hannah! A haste de Moisés não podia ter senão nove palmos!". E assim por diante. A audiência foi suspensa, em face da impossibilidade de se chegar a uma conclusão satisfatória. Todos se supunham detentores absolutos da verdade integral e ninguém cedia um passo. A vaidade, o orgulho e a intolerância eram barreiras que os impedia de ver longe. Consideravam-se profundamente religiosos, mas somente seguiam a Lei quando ela não colidia com seus interesses pessoais. Então, o chefe da grande sinagoga considerou, apaziguador:

*

             "Irmãos! O tamanho da haste com que Moisés golpeou duas vezes a rocha de Merihab não vos pode interessar tanto, nessa discussão mais estéril que a mulher de Ashod. Estais sendo movidos pela vaidade, que vos alimenta a intolerância. Pergunto-vos: tendes observado os santos mandamentos? Quantas vezes já falseastes o Decálogo, tomando em vão o santo nome de Jeová? Deixastes de cobiçar a casa do vosso próximo, sua mulher, seu servo, sua serva, seu boi, seu jumento, enfim, algo que lhe pertença! Qual de vós, vendo extraviado o boi de vosso irmão, ou a ovelha, não passastes por ele indiferente? Qual de vós, que tanto vos azedais por nonadas, exercestes a caridade, a tolerância, o amor ao próximo? Entretanto, sois severíssimos quando julgais. Pedis que outros observem a Lei, mas a repudiais, como se não tivésseis também deveres a cumprir. Bem melhor será que procureis viver os santos mandamentos, não se lembrando deles apenas para exercerdes dissimuladamente vossas vinganças. Ninguém sabe quando voltarão a soar as trombetas que anunciaram a ruína de Jericó... "

*

            "Depois de tão edificantes palavras, os discutidores, confundidos, se retiraram silenciosamente.

            Talvez a preciosa lição não ficasse por muito tempo gravada naquelas almas empedernidas, José, mas seria, sem dúvida, excelente ensejo para a reabilitação. É que lhes faltava caridade, e onde não há caridade, não há amor, porque caridade é amor em sua mais linda expressão. Já dissera Paulo de Tarso, em sua primeira epístola aos Coríntios: "Se tiver toda a fé a ponto de remover montes, e não tiver caridade, nada sou." E Tiago confirma: "De que serve, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, se não tiver obras? Acaso pode essa fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e necessitarem o pão quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e saciai-vos, e não lhes derdes o que é necessário para o corpo, que lhes aproveita? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas, alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras."

*

            José respirava com dificuldade, tamanha a comoção de que era presa. E o nazareno concluiu: "- Tiago foi mais positivo, ao indagar: "Mas quereis saber, ó homem vão, que a fé sem as suas obras é estéril? Vedes que é pelas obras que o homem é justificado, e não somente pela fé. Pois assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta."

*

            Terminada a narrativa, José partiu, mais conformado, mais disposto a olhar os homens e o mundo com benevolência. E de suas passadas largas pela estrada, ficaram apenas as pegadas que o vento morno da tarde já começava a desfazer...

.................






14. "As Vidas Sucessivas"



14

‘As Vidas
Sucessivas’

por  Adauto de Oliveira Serra

 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira

1943


AS VIDAS SUCESSIVAS


"O berço tem seu ontem e a tumba,
o seu amanhã".      Victor Hugo


            Kardec resumiu o princípio reencarnacionista nos seguintes termos: "Nascer, viver, morrer, renascer ainda, tantas vezes quantas forem necessárias, para que a nossa evolução se elabore e o nosso aperfeiçoamento espiritual se complete".

            Só a reencarnação esclarece os meninos prodígios, que são espíritos já amadurecidos em existências anteriores: Lope de Vega foi poeta aos 5 anos; Balzac aos 8 já escrevia comédias; Alexandre Dumas leu a História Universal de Buffon aos 4 anos; Walter Scott já lia aos 3 e aos 11 escrevia baladas; Goethe com 7 anos sabia latim e versificava nessa língua; aos 9 escreveu um poema em latim, grego e alemão; Herbert Spencer escreveu obras monumentais, sem estudo; dentre elas citaremos: "Estatística Social", sem nada conhecer sobre ética; "Biologia", sem ler a "Origem  das Espécies" e “Sociologia" sem estudo de Comte ou Tylor. Enorme contraste com a educação aprimorada de Stuart Mill, conforme faz notar Will Durant, em "História da Filosofia".

            E para encerrar esta longa série de "Espíritos amadurecidos", pois que já vimos citando em capítulos anteriores, lembraremos ainda Pico de La Mirandola, célebre pela sua precocidade e ciência". Desde a idade de 10 anos se tornara um dos maiores oradores e poetas do seu tempo. Era ele que se ufanava de poder discutir "de omni rescibili et quibusdam allis" (de todas as coisas conhecidas e várias outras ainda)" (De "A Gazeta" de 1-2-1940).

            Sabendo-se que o gênio não se transmite hereditariamente, apesar das "unidades fisiológicas" de Spencer, as "gêmulas" de Darwin, os "micelos" de Noegell, as "pangêneses" de De Vries e os "bióforos" de Weismann, mas um todo somático ainda em formação e desenvolvimento. Só o Espírito já é completo desde a sua origem, retornando à Terra para evoluir, aprender, educar-se, regenerar-se, galgando em cada etapa, mais um degrau no próprio aperfeiçoamento. Ninguém ainda se esqueceu da menina de Delhi (Índia), a qual mereceu um comentário do Sr. Plinio Barreto, no "Estado" de 24-5-1936.

            Poderemos explicar racionalmente esses fatos todos pela predestinação, pela graça ou pelo milagre do catolicismo? Ou é mais lógico compreende-los pela doutrina palingenética, como aconselha o bom senso?

            Estamos vendo que o Evangelho de Jesus, os versos de Virqílio, as religiões indus e egípcias, os povos druidas, Pitágoras e o próprio Gregório de Nissa, pregam, alto e bom som, a pluralidade das existências, através dos mais remotíssimos tempos.

            Pela reencarnação se revela a Justiça de Deus que dá a cada um segundo as suas obras.


domingo, 30 de dezembro de 2012

6. Guia Prático do Espírita



6
 ’Guia Prático
 do Espírita’

por  Miguel Vives y Vives

3ª Edição

 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1926


 O QUE DEVE SER O ESPÍRITA
NA FAMÍLIA


            Se o espírita deve ser prudente, virtuoso, tolerante, humilde, abnegado e caritativo para com seus irmãos e para com a humanidade, quanto mais o não deve ser para com a família! Se são sagrados os deveres que temos a cumprir para com os nossos irmãos e para com a humanidade, muito mais o são os que temos que cumprir para com a família; porque devemos levar em conta que nesta existência nos prendem laços indissolúveis; temos sempre histórias passadas que conduzem à história presente.

            Os que não são espíritas tudo atribuem ao acaso; nós, porém, sabemos que não há efeito sem causa e que as contrariedades ou satisfações de hoje são a continuação das de nossas vidas passadas. Por isso o espírita deve ver na sua família um depósito que se lhe fez, sobre o qual tem muitos deveres a cumprir e muitos sacrifícios a fazer; por isso o esposo deve ser o apoio e o sustentáculo de sua esposa, deve respeitá-la, amá-la e protegê-la em tudo, aconselhá-la, dirigi-la e dar-lhe com justiça em todos os transes da vida o que lhe pertence. Assim também a esposa deve obediência, amor, respeito e sinceridade a seu esposo, sendo este sempre para ela a primeira pessoa a quem deve confiar todos os seus segredos e todas as suas tendências, sem afastar-se jamais do respeito e obediência que deve aquele que Deus lhe deu como guia neste mundo de dor.

            Compreendo que para muitos são demais estas palavras, mormente quando os esposos tem as mesmas tendências, são de bom caráter e sentem as mesmas inclinações; quando, porém, entre os dois ha caráteres opostos ou mau gênio que torna difícil a união, a coisa é outra. E se o esposo se encontra com tendências opostas à sua família, que não quer que ele tenha ideias espiritas ou que professe o Espiritismo? Como se deve regular tal chefe de família? É muito difícil prescrever regras para cada caso particular; só podemos dizer que nesse caso o espírita deve munir-se de prudência, de tato e paciência a toda a prova; então é que deve estar mais unido aos de lá de cima, ter muito amor ao Pai; recordar muito a paciência e a abnegação do Senhor e estar muito em contato com o seu Guia espiritual por meio da prece e pela indulgência que sente para com os que o atormentam. Sua conduta
no seio de sua família deve ser um belo modelo de todas as virtudes, para que o exemplo possa um dia levar a convicção, ou, ao menos, a tolerância aos seus, e se isso não for possível, não se rebele, deixe-se sacrificar, se for necessário; considere que o fato de hoje é resultado do de ontem, e, quando assim fizer, pode esperar grande recompensa. Conheci na minha vida espirita dois irmãos que sofreram muito na família e que, apesar dos seus sacrifícios, da sua paciência e da sua abnegação, não puderam lograr que se tolerassem suas crenças naquele seio, sendo muito amiúde objeto de chufas (mofa, zombaria) e de desprezo dos seres mais queridos; pois destes dois irmãos já desencarnados tive ocasião de receber algumas comunicações, em circunstâncias que não dão lugar a dúvida, comunicações que, moralmente falando, foram de grande elevação e mostraram uma felicidade tão grande nestes espíritos que, posso assegurar, dos seres desencarnados na nossa época, nenhum mostrou desfrutar tanta elevação nem tanta felicidade. O sacrifício foi grande na Terra, porque nada faz sofrer tanto como ver-se a gente desprezada e enganada pelos que ama; estes sofrimentos são, porém, duplamente recompensados por nosso Pai, por nosso Deus, pelo que tudo tem, tudo sabe e tudo pode.

            Estas situações são entretanto excepcionais, e poucos são os que se acham nas mesmas circunstâncias. O mais comum é que o espírita venha a ser pai de algumas criaturas cuja missão não está isenta de perigos, e às vezes é necessário ter-se abnegação a toda a prova, aliada a certo bom senso prático espírita, para se poder bem agir.

            As vezes não têm todos os filhos a bondade que o pai deseja; causando, pelo contrário, desgostos e dissabores que trazem grandes sofrimentos, que os pais tem de suportar, tendo muito cuidado em sentir o mesmo afeto pelos bons que por aqueles cujo caráter lhes causa penas e desgostos.

            O espírita deve sentir amor igual por todos os seus filhos, não esquecendo que os que mais necessitam de sua misericórdia são os que de alguma maneira possuem menos bondade ou menos inteligência; filhos há que só com lhes dar a mão o pai os leva para qualquer parte, enquanto outros, além de lhes dar a mão, é necessário ainda puxar por eles. Tenho visto pais espíritas que, apesar de amarem a todos os seus filhos, preferem aqueles que se mostram mais pacíficos e obedientes; se isso fosse só na aparência, seria uma boa medida para conduzir os outros, mas assim não é, pois que reduz-se isso a preferências por uns e esquecimento de outros. É isso má prática e pode custar caro ao que a adotar.

            É verdade que às vezes um pai não pode dar mostras iguais a todos os seus filhos, pela diferença de conduta e de compreensão dos mesmos ; o pai e a mãe devem, entretanto, trazer o amor no seu coração e, se é possível, maior pelo filho que mais necessita, pelo seu atraso moral ou por outras causas da vida; porque não deve esquecer todo espírita que tenha filhos que os não teve por casualidade, senão por um plano providencial, para seu bem e deles; são quiçá inimigos que têm dívidas graves contraídas e que Deus coloca um ao lado do outro, unidos por laços de família, para que paguem uma dívida que de outro modo não poderiam pagar; quiçá a mulher abandonada de outras existências, que serviu para satisfazer caprichos, vem reclamar vosso apoio, porque sabe que tem direito a havê-lo; por isso o espírita, se bem que deve por todo o cuidado na educação de todos os seus filhos, deve tê-lo maior por aqueles que vem carregados de defeitos e são causa de grandes desgostos. Quantos fatos há entre os seres encarnados que, se os pudéramos conhecer, nos fariam baixar a cabeça e nos poriam em constante cuidado para não nos desesperarmos! Verdade é que esses fatos não os podemos conhecer; basta-nos, porém, saber que não há efeito sem causa e que Deus, com a sua grande sabedoria, nada faz inútil e sem motivo justificado. Assim é que, se um esposo escolhe má esposa, se a mulher encontra mau marido, não é isso casual, mas sabiamente ordenado; se um pai que é bom tem filhos maus, não é isso castigo, mas o resultado de uma lei justa; nestas condições, o espírita, que sabe todas estas coisas e muitas mais, não deve considerar a vida como paragem de recreio, mas como uma sucessão de fatos que o ferirão no mais íntimo da sua alma, que o farão sofrer, que lhe causarão sofrimentos e lágrimas; mas o espírita deve ser forte e animado, compassivo, abnegado, caritativo para com todos e muito particularmente para com os defeitos dos seus filhos, depósitos sagrados que o Pai lhe confia para que seja seu protetor e guia, a fim de fazer-lhes dar um passo, quando mais não seja.

            Todo espírita deve proceder com muito cuidado na missão de pai, sem se deixar arrastar jamais nem por uma atração desconhecida na sua causa por uns, nem pela frieza que possa sentir por outros; a justiça e o dever devem ser o regularizador dessas afeições ou repulsões secretas que a alma sente. Já dissemos que um filho pode ser um grande inimigo de outras existências como um amigo carinhoso, e não há dúvida que nos recônditos da nossa alma ressoam ainda as impressões do passado; eis porque o Espiritismo é tão eficaz para nos fazer progredir, pois a sua última solução é amar, amar e amar. Amar a quem nos quer, a quem nos odeia, a quem nos protege, a quem nos persegue, a quem nos faz bem, a quem nos faz mal; e este mandamento, que é de lei praticar entre os homens, ainda o é mais no seio da família. O espírita, cuja lei e cuja prática é o amor, não verá trevas; sua vida deslizara na maior paz possível na Terra e alcançará por fim a felicidade.

            Se o espírita, em lugar de ter esposa e filhos, tem ainda pais, não deve esquecer o dever de ter para com eles todo o respeito, carinho e amor; deve considerar que aqueles são para ele os representantes da Providência na Terra, e que é obrigado a dar-lhes paz, consolo, proteção, amparo; que é obrigado como filho a fazer por seus pais o que eles tiverem feito por eles, e se seus pais se não tiverem portado bem com ele, nem por isso é menos obrigado a fazê-lo, porque, nesse caso, eles pertenceriam à ordem de espíritos inferiores, e o espírita deve ser o exemplo constante de virtude e abnegação, para que aprendam os que ainda não sabiam ou não souberam cumprir os seus deveres.

            Em resumo: Cremos que o espírita em todas as situações da vida deve cumprir o seu dever como bom filho, como bom esposo, como bom pai, como bom irmão e como bom cidadão; assim, sendo praticante da lei divina, cujo sentido prático está na lei proclamada e exercitada pelo Senhor e Mestre, será luz que alumiará os que lhe estão em derredor, será mensageiro de paz e de amor entre todos, e levará a paz das moradas de luz ao seio dos homens da terra.




sábado, 29 de dezembro de 2012

Bilhetes




Bilhetes
por G. Mirim (Antônio Wantuil)
Reformador (FEB) Setembro 1946


            Num dos Concílios da Igreja, como os homens não pudessem compreender o Cristo, porquanto não achavam explicação possível, na época, para os "milagres" por ele realizados, decretaram como dogma que o Enviado era o próprio Deus, então dividido em três pessoas, tal como os deuses de antigas religiões.

            Com Buda, os fatos se passaram mais ou menos de forma semelhante. É a tendência natural dos homens. Entretanto, todos nos rimos da ingenuidade dos índios, por se terem curvado ao deus Caramuru.

            Assim têm sempre procedido os homens apesar de os iniciadores dos movimentos religiosos deixarem bem claramente explicado que eles não eram deuses, mas criaturas falíveis como nós o somos.

            Dessa maneira, com tais interpretações, a Humanidade se tem dividido ou conservado em verdadeiro estado de fanatismo religioso, estacionando o que veio para ser evolutivo. Swedenborg aí está, trancado nos livros que deixou, formando uma seita à parte.

            Com o Espiritismo já se vai também caminhando para esse estacionamento. Kardec foi muito grande e, daí, por não o compreenderem, aliás, por não assimilarem a Doutrina que ele recebeu através de médiuns, codificando-a, já existe uma tendência para as subdivisões e por conseguinte, para o enfraquecimento do meio e consequente vantagem para o sacerdotismo semi oficializado de outras igrejas.     

            É necessário, portanto, que não confundamos a pessoa de Kardec com a obra por ele recebida do Alto. Não ponhamos em plano igual as obras que lhe foram ditadas e os trabalhos outros de sua própria pena. Nas primeiras estão as leis; nas segundas, as opiniões pessoais de um homem que, apesar da sua alta e ímpar posição no meio espírita, não pode ser considerado em igualdade com os Espíritos que lhe transmitiram aquelas leis, e tanto é justo esse nosso raciocínio, que ele próprio, agindo com a precaução dos sábios, em várias ocasiões repetiu essa mesma afirmativa de que estava sujeito a erros e, por isso mesmo, muitas vezes não afirmava, mas apresentava apenas hipóteses.

            Tenhamos por Allan Kardec o respeito e o amor de que se fez merecedor, mas não nos subdividamos por caprichos ou por vaidades exibicionistas que existam dentro de nós. Esforcemo-nos, antes, por reunir todos os meios espíritas, conseguindo convencer, até mesmo os anglo-saxões, de que "O Livro dos Espíritos" é a ligação de todos nós.

            Se continuarmos como vamos, entregando-se cada um ao primeiro inimigo invisível que se lhe apresente, em breve teremos centenas de pequenos agrupamentos: os que só aceitam os fenômenos; os que repelem a reencarnação; os que rejeitam a teoria de Darwin; os que não toleram preces; os que não admitem a evocação de Espíritos, etc., etc., cada um com a sua denominação especial.

            Como vemos, todos aqueles que trabalham pela subdivisão da Doutrina e que procuram combater e criticar, sem construir, são criaturas que se vêm prestando para a obra dos inimigos invisíveis.

            Paulo foi considerado como o maior dos pregadores e o verdadeiro propagador do Cristianismo; porque procurou reunir todas as correntes, indo até mesmo à procura dos gentios, classe desprezível para os fanáticos do Judaísmo, então dominante, e para os que receberam; no berço, a educação dessa poderosa organização  político-religiosa dos primeiros tempos.

            Dividir, criticar, condenar, acusar não é obra digna de um espírita, porque a Doutrina nos ensina a trabalhar para a união, para a tolerância, para o amor.

            Trabalhemos, pois, pela união e nunca para a desunião.

13. "As Vidas Sucessivas"



13

‘As Vidas
Sucessivas’

por  Adauto de Oliveira Serra

 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira

1943


RICHET


            Este célebre fisiologista, em sua monumental e controvertida obra - "Tratado de Metapsíquica", relata inúmeros "casos espíritas", aos quais chamou INCOMPREENSIVEIS!

            Richet que "batizou" com denominações próprias os fatos por ele estudados, tais como xenoglossia, ectoplasmia, etc., foi, até certo ponto, mais desleal que Maeterlinck. Este último foi sincero em suas observações e nunca titubeou em reconhecer a Verdade onde ela se fazia notar.

            É no próprio "Tratado", que vamos encontrar o "caso" de Laura Edmonds, filha do Juiz Edmonds, presidente do Senado Norte Americano e membro da Corte de Justiça de Nova York. Esta jovem exteriorizou-se em sânscrito, língua antiquíssima, completamente ignorada por ela e por todos os presentes. Mais uma vez somos obrigados a afastar a hipótese telepática.

            Richet, à pag. 13 do seu' "Traíte", classifica em 3 ordens os fenômenos por ele estudados:

            "1º  CRIPTESTESIA - Clarividência; que é  faculdade de conhecimento sensorial, diferente das faculdades de conhecimentos sensórias, normais.

            2º TELEQUINESIA - ação mecânica diferente das forças mecânicas conhecidas e que se exercem sem contato, à distancia, em condições determinadas, sobre objetos ou pessoas.

            3º ECTOPLASMIA - (Materialização): formação de objetos diversos, que, com frequência parecem sair do corpo humano, e tomam a aparência de uma realidade material (vestidos, véus, corpos vivos)." 

            Depois disso, ainda e sempre, está de pé a hipótese espírita, pois se ele Richet não a perfilha, nem por isso foi capaz de explicar esses fenômenos de outra maneira.
            Assim que, à pág. 509, confessa: "Não quero de forma alguma entrar em considerações que mais diriam respeito à Metapsíquica", ressalvando os seus escrúpulos de sábio ainda não despido de preconceitos.

            Reconhece ele, entretanto, que "há premonições, mas se são devidas à inteligência humana ou a outras forças, é impossível, atualmente, decidir."

            Por esses motivos, apesar de ter sido o pai etimológico da fenomenologia espírita, é que o consideramos menos sincero que Maeterlinck. E ficaríamos no incompreensível se déssemos crédito ás suas afirmações. 

            Contudo, o Richet de "A Grande Esperança", é bem diferente, onde ele já reconhece e aceita o poder terapêutico dos passes espíritas.

            Veja-se o que diz em "A Grande Esperança", págs. 99 a 101: "É facílimo dizer que se enganaram e que foram enganados "(os sábios)". É uma objeção que está à altura do primeiro sabichão que aparece. Quando o grande William Crookes relata ter visto, em seu Iaboratórío, Katie King fantasma, capaz de se mover, de respirar ao lado do seu médium Florence Cook, o dito sabichão pode erguer os ombros e dizer: - "É impossivel. O bom senso faz-me afirmar que Crookes foi vítima de uma ilusão. Crookes é um imbecil". Mas esse pobre sabichão não descobriu nem a matéria radiante, nem o tálio, nem as ampolas que transmitem a luz elétrica. E assim, minha escolha está feita. Se o sabichão disser que Crookes é um farsante ou louco, serei eu quem sacudirá os ombros. E, pouco importa que, rebocados pelo sabichão, uma multidão de jornalistas - que nada viram, nada estudaram, nem nada aprofundaram - diga que a opinião de Crookes de nada vale. Não me admirarei" .

            "Se Crookes ainda estivesse só! Mas não! Há uma nobre plêiade de sábios (grandes sábios), que presenciaram esses fenômenos extraordinários. Em lugar de fazer essa simples suposição que eles presenciaram do inabitual, poderei considera-los cretinos ou mentirosos?"

            "Stainton Meses, homem de uma piedade rara, de elevada moralidade, com seu amigo Speer e Mme. Speer, anotou diariamente, durante dez anos, fenômenos que ele observava consigo próprio. E isso apesar dos riscos que sua audácia o fazia correr."

            "Os fenômenos produzidos por Eusápia Paladino foram afirmados e confirmados por toda uma série de ilustres experimentadores, por Bottazzi, Fôa, Herlitzka, professores de fisiologia nas Universidades italianas; pelo célebre Lombroso, por sir Oliver Lodge, por Ochorovicz, por Fr. Myers, Camille Flammarion, Schrenck-Notizing, Albert de Rochas. O testemunho de um só desses grandes homens seria suficiente. Então, quando eles se reúnem numa mesma afirmação, irei eu dar ouvidos às criticas infantis que se resumem quase todas nesta pequena frase ingênua: "não é possível".  

            "E por que não é possível?"

            "Unicamente porque não é habitual."

            "Na Alemanha, o grande matemático Zollner, presidiu com Slade, fenômenos realmente estranhos .“

            "Meu distinto amigo Dr. Gibier, diretor do Instituto Pasteur de Nova York, constatou fenômenos semelhantes com Mme. Salmon".

            "Geley obteve, com Kluski, surpreendentes modelagens que toda a habilidade mecânica dos modeladores não poderia reproduzir, e que só se explicam pela desmaterialização de formas moldadas.

            "Quanto aos fenômenos mentais de adivinhação, de leitura do pensamento, de premonição, citarei os nomes de William James, de sir Oliver Lodge, de Mme. Sidwick, de Schrenck-Notzing, de Frederic Myers, de Osty, de Flammarion. No decurso deste livro farei referências de algumas de suas constatações, mas desde já afirmo que a autoridade desses sábios é suficiente para, "a priorí", fazer-nos admitir que eles não se enganaram completamente."

            "Repito: trata-se de homens versados em ciências experimentais, tendo o espirito constantemente alerta para com a série de todas as fraudes possíveis.”

            "As objeções dos jornalistas de pasquins que negam a realidade dos fatos, são da mesma espécie das objeções feitas à realidade dos meteoritos." 

            E, logo adiante, à pág. 103: - "Poderá um jornalista adivinhar o que pensa um fisiologista quando presencia (como eu presenciei) uma expansão sair do corpo do médium, prolongar-se formando duas pernas estranhas que se fixam sobre o solo, emitindo depois mais alguns prolongamentos que tomam aos poucos a forma de mão, da qual se distinguem vagamente os ossos sentindo sua pressão sobre os joelhos?"

            Na pág. 186, Richet relata uma sessão que realizou com a médium Marta Béraud (Eva) durante a qual houve a materialização de uma mão: (ectoplasmia do "Traité", pag. 672).

            Richet, na pág. 197, relata mais uma experiência: "Em primeiro lugar citarei uma bela experiência feita em minha casa, em presença de Myers, por Mme. Thompson. Ela adormeceu e tomou a personalidade de Nelly, sua filha morta. Meu filho Georges achava-se presente. Entregamos a Mme. Thompson o relógio de meu filho; imediatamente ela diz: "há sangue sobre este relógio... vejo três gerações misturadas".

            "É impossível exprimir-se melhor. Esse relógio pertencera a um irmão de minha mulher. Georges Aubry, morto na batalha de Vendôme em 1870. O pai de Georges guardara esse relógio e dera-o a meu filho, seu neto".

            E já quase no fim do livro, à pág. 233, Richet diz: "Há muitos fenômenos absurdos, porém incontestáveis e, conquanto a ciência oficial ainda não os receba em seu seio zeloso, não há dúvida que daqui a alguns anos dará lugar ao inabitual criptestesias, telepatias, lucidez, alucinações verídicas, assombrações, telequinesias, fantasmas materializados, xenoglossias, premonições. Tudo isso está bem autenticado e deve-se reconhecer que o inabitual existe."

            Ao poder supranormal do médium, Richet chama de "sexto sentido". Entretanto, faz notar, é um sentido que não possui seu órgão correspondente. ..

            Talvez por isso mesmo, já alguém disse: "A ciência moderna conduz à confusão do pensamento, que se perde no mundo que lhe descerrara ela e sepulta-se em sua vitória.”

            A ciência deve muito do seu fracasso ao ceticismo com que foi estudada e ao materialismo de seus investigadores, bem como ao indiferentismo com que é sempre recebida.

            O subconsciente é a caixa de descarga das evasivas materialistas. Para ele atiram todas as comunicações de Espíritos, mesmo as mais estranhas e impressionantes, desconhecidas dos médiuns e ignoradas dos assistentes.

            Mas, se o conhecimento exteriorizado pelo médium não foi adquirido na atual existência, só poderia ter provindo de suas vidas anteriores. Então, vem o Espirito do Dr. Bezerra de Menezes, por intermédio da psicografia de Chico Xavier, ensinar mais uma vez esta geração "adúltera e má": "O mundo subconsciente não se acha subordinado à função de nenhum órgão. Ele representa a súmula dos conhecimentos do ser em suas existências passadas, consubstanciadas na inteligência operadora e criadora. Ele é a câmara secreta onde todas as experiências se arquivam, para emergirem em futuro próximo ou longínquo. A vossa ciência não conhece o homem integral porquanto o esquecimento a que se acham submetidos os encarnados não deixa que se possa entrever a alma total. A subconsciência é o mundo da alma em sua existência extraterrestre. Podeis conceber isto ponderadamente. O aparelho respiratório existe no feto, que dele se não serve, em virtude do meio não comportar o seu uso. Ele, porém, está latente no homem embrionário. Assim são as faculdades espirituais. Não aparecem, em nossa vida comum, porquanto o ambiente atual ainda não as comporta; mas estão no seu estado latente, para emergirem futuramente em toda a sua plenitude".



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

5. 'Guia Prático do Espírita'



5
 ’Guia Prático
 do Espírita’

por  Miguel Vives y Vives

3ª Edição

 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
1926


 O QUE DEVE SER O ESPÍRITA
PERANTE A HUMANIDADE


            Disse o Senhor: Vós sois o sal do mundo; se o sal perde o seu sabor, com que se há de salgar? Equivale isso ao seguinte: Vós sois a luz do mundo; se a luz perde a sua claridade, com que se há de alumiar?

            Todo espírita que tiver feito profissão pública de suas crenças, nunca deve deixar de verificar por onde passa, onde vai, que lugares frequenta: observam-nos muito e muito nos estudam para verem como nós, espíritas, procedemos, visto saberem que a nossa maneira de pensar é muito distinta da dos que não professam nossas ideias.

            Devemos, pois, ter muito presentes aquelas palavras de um grande espirito: Providência no pensar, providência no falar, providência no proceder, porque, se esquecermos as regras que o Espiritismo nos prescreve, algumas das quais se acham apontadas nos capítulos anteriores, podemos cair no ridículo, por não condizerem os nossos atos com a moral que o mundo espera de nós; moral que, quando bem praticada, é o melhor meio de propagar e exalçar nossos princípios. Uma atitude correta e cheia de doçura é de produzir atração e pode-nos captar as simpatias de muitos a quem nos tornaremos agradáveis pelo nosso trato. Os modos e costumes são a primeira coisa que todo o espírita deve empregar na sua propaganda: primeiro obrar, depois falar, a não ser que a necessidade das circunstâncias nos obrigue a falar antes de obrar. Quando assim tenhamos de proceder, devemos ser muito prudentes e humildes, dando provas de excelente educação. Se for preciso, porém, obrar primeiro, faça-mo-lo; vale mais que nos conheçam primeiramente pelas obras que pelas palavras; assim, quando vier a hora de falar, escutar-nos-ão com mais respeito e seremos mais bem entendidos, procurando não empreender a propaganda de nossas ideias senão em ocasião oportuna, começando sempre por mostrar o que é a moral do Espiritismo, suas tendências e fins, que são tornar os homens melhores, trazer a paz à humanidade, preparando-nos um porvir mais feliz do que o que possuímos na Terra, e só se deve entrar na explicação dos fenômenos espíritas quando já as pessoas a quem se falar tiverem aceite a moral e houverem compreendido um tanto a sua sublimidade; e, caso se possam expor fatos, devem ser escolhidos aqueles que melhor podem ser compreendidos e estiverem ao alcance das pessoas a quem falarmos. 

            Temos ouvido, às vezes; certos espíritas falarem entre pessoas profanas em Espiritismo e temos ouvido a explicação de fenômenos muito fora do alcance do auditório; traz isso sempre como resultado perda de tempo e dá pasto à incredulidade, porque considera-se fanático o citado espirita, perdendo ele assim toda a influência moral sobre quem o ouve.

            Por isso, a propaganda moral é quase sempre bem recebida, mormente se o espírita que a exercita é pessoa que sabe portar-se de maneira distinta, causa muito fácil para todo espírita estudioso e que esteja bem compenetrado do que o Espiritismo lhe prescreve. Não se deve esquecer que um dos primeiros mandamentos da lei é: Amarás ao próximo como a ti mesmo; e se bem que seja muito difícil praticar este mandamento ao pé da letra, não é menos verdade que somos obrigados a praticar a caridade entre nossos semelhantes. Assim, pois,
se entre nós devemos ser indulgentes e benévolos, e nos cumpre desculpar, dissimular e até perdoar os nossos mútuos defeitos, não menos o devemos praticar para com os outros.

            Os que não são espíritas sustentam às vezes questões, altercações, disputas e rixas em que até se maltratam; devemos fugir em absoluto de tudo isso; se com bons modos pudermos levar as causas ao seu lugar, devemos fazê-lo; se para isso, porém, tivermos de nos separar das regras prescritas, devemos nos calar ou buscar a melhor maneira de evitar tal situação, e se de qualquer assunto, apesar de nossa prudência e amor, não pudermos sair bem, devemos sofrer com paciência as iras da ignorância e da má fé; devemos perdoar sem reservas dentro de nossa alma e devemos fazer o bem pelo mal se for possível. Por isso, nunca devemos esquecer a prática do Mestre e Senhor. Ele é o modelo, a verdade e a vida. Que disse Ele, quando o insultavam, apostrofavam, maltratavam e lhe cuspiam no rosto? Nada; baixava os olhos e perdoava no seu íntimo. Pois si o que tanto é e tanto podia assim praticou, faremos nós outros o contrário? Desgraçado do espírita que tem ocasião de devolver o bem pelo mal e que o não faz. Desgraçado do espírita que pode perdoar e não perdoa, pois dia virá em que exclamará: de que me serviu saber o que eu sabia e ter-me chamado espírita? mais me tivera valido ignorá-la; não teria contraído tanta responsabilidade.

            Espíritas há que, guiados pela sua ardente caridade, se dedicam a curar enfermos por meio do magnetismo, com água magnetizada ou com passes magnéticos; quando nestas, práticas se não mistura nenhuma pretensão, mas se evidencia grande amor ao enfermo e o desejo único de fazer o bem com fé ardente no Pai, podem-se alcançar bons resultados; deve-se refletir, porém, que se o espírita deve ter prudência em todos os casos, muito mais deve te-Ia o que quiser dar saúde aos enfermos; deve esse levar uma vida muito pura, isenta de faltas e defeitos que podem retirar-lhe a boa proteção; porque, do contrário, em lugar de fazer bem
aos enfermos, lhes fará mal, prejudicando-os. O que quiser aliviar ou curar a humanidade doente, ainda que não seja senão entre as suas relações particulares, deve levar vida de santidade; assim a classificamos, para distinguir ao que tal faça, mormente se o espírita que cura não é homem que possua a ciência médica ou outra ciência que o acredite como tal. Os que só o fazem, porém, por amor à humanidade, devem despojar-se de tudo o que possa empanar o brilho de seu espirito, para que seu perispírito e seu corpo possam transmitir bons fluidos.

            Devem, pois, aplicar-se sempre as seguintes máximas: si queres curar aos outros, é necessário que primeiro estejas curado de teu corpo e de tua alma; mal poderás curar os outros, se estiveres enfermo.

            Deve-se pôr em prática, portanto, os modos e costumes que deixamos consignados; abstendo-se de fazer às pessoas que se procura curar promessas que não se possam cumprir, porque, quem se dedica a práticas tão elevadas, nunca deve confiar em suas próprias forças, mas contar com os seus bons desejos, sua vontade e sobretudo com a ajuda de Deus e dos bons espíritos, procurando ter fé no que curou os cegos e os paralíticos e ressuscitou os mortos. Assim procedendo, muito se poderá esperar de Quem tudo pode e aquela missão será pano de lágrimas para os que choram e os que sofrem (1).        

            (1) Cumpre, porém, não esquecer que se deve dar de graça o que de graça se recebe, porque é muito prejudicial à todo o espírita fazer profissão lucrativa da proteção que vem do alto. Fazer a caridade é um bem; explorá-la... um mal.

            Em resumo: a humanidade geme, chora, desespera-se pelo muito que sofre; o egoísmo devora-a toda; as vítimas da maldade se sucedem umas às outras, as religiões desviaram-se do verdadeiro caminho; são escassos homens de bem, os quais são sempre intermediários entre a humanidade e a Providencia, pois nós, os espíritas, somos os encarregados de trazer a luz. Nós sabemos porque a humanidade sofre, porque chora, porque se desespera; sacrifiquemo-nos, pois, para lhe poder explicar a causa dos seus sofrimentos, das suas lágrimas, da sua desesperação; obremos de maneira que todos saibam que a lei depura, eleva, purifica, exalça, e assim cumpriremos a nossa missão.

            O espírita que muito quer fazer pelos seus semelhantes não deve perder de vista o Senhor quando o açoitavam atado à coluna, quando o coroavam de espinhos, quando carregava a cruz, quando consumava o sacrifício, para que saiba imitá-lo em seus atos de amor à humanidade, de abnegação e sacrifício.

            Vós sois o sal do mundo; se o sal perde o sabor, com que se salgará?




12. 'As Vidas Sucessivas'


12

‘As Vidas
Sucessivas’

por  Adauto de Oliveira Serra

 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira

1943

CORRESPONDÊNCIA CRUZADA


            Correspondência cruzada, ou “cross correspondance" do prof. A. C. Pigou, é o processo utilizado pelos Espíritos para chamar a atenção dos mais céticos e para demonstrar, experimentalmente, a sobrevivência da alma e a possibilidade da comunicação entre os planos material e espiritual.

            Há espíritos diversos que se manifestam por intermédio de um único médium como no caso de Chico Xavier, de Pedro Leopoldo, conservando, entretanto, cada qual, sua própria personalidade, seu estilo, a linguagem.

            Na correspondência ‘cruzada’ é um único Espírito que se manifesta, quase simultaneamente, através de alguns médiuns muitas vezes afastados uns dos outros e sem combinação prévia entre eles.

            Essas comunicações, isoladamente, não têm sentido algum; mas combinadas entre si, revelam inteligentemente a ideia do Espírito. Fragmentada, torna-se ininteligível, excluindo-se a possibilidade da telepatia.

            “O alvo destes esforços engenhosos e complicados", diz Oliver Lodge “é, de certo, provar que os fenômenos são obra de uma inteligência bem definida, distinta da de qualquer automatista."

            De tudo o que até aqui fica exposto, ressalta uma das duas alternativas: - "A sobrevivência de um Espírito não é mais inverossímil que as prodigiosas faculdades que nós somos obrigados a atribuir aos médiuns, se as recusamos aos mortos; mas a existência do médium, ao contrário da do Espírito, é incontestável."

            O terror que a morte nos pode causar: "o terror do desconhecido em que ela nos precipita" desaparece ante a sobrevivência do Espírito e a certeza das vidas sucessivas.

            Que sirvam estas páginas de estímulo aos sequiosos da Verdade para prosseguirem em seu progresso moral e espiritual.

            Os que têm sede de Justiça serão saciados com a leitura dos livros básicos do Espiritismo, com as obras de Kardec, Denis, Flammarion, Delanne, Bozzano e outros a fim de que o horizonte espiritual se dilate cada vez mais e caiam de uma vez para sempre o falso véu de Isis e o manto de Cibele, que querem empanar o brilho da realidade.

            Desfaça-se em ruínas o lendário castelo dos mistérios. A Verdade faça-se luz e a luz fecunde a razão e o bom senso de todos.

            Envidemos todos os esforços para extirpar o grave e fatídico erro em que labutaram os nossos antepassados: o medo da morte. Não mais encaremos o túmulo como o ponto final de nossa existência, mas como a porta que se abre a uma vida nova, a verdadeira vida, a única vida: a vida espiritual.

            "Não mais a dilação da agonia, acrescendo ao horror da morte; e o horror da morte exigindo o prolongamento da agonia", porque os mortos vivem!