Pesquisar este blog

quarta-feira, 18 de julho de 2018

A Ilusão do Discípulo



A Ilusão do Discípulo
Humberto de Campos
por Chico Xavier
Reformador (FEB) dezembro 1939                      

Jesus havia chegado a Jerusalém sob uma chuva de flores.

De tarde, após a consagração popular, caminhavam Tiago e Judas, lado a lado, por uma estrada antiga circundada de oliveiras, que conduzia às casinholas alegres de Betânia.

Judas Iscariote deixava transparecer no semblante uma íntima inquietação enquanto no olhar sereno do filho de Zebedeu fulgurava a luz suave e branda que consola o coração das almas crentes.

- Tiago - exclamou Judas, entre ansioso e atormentado - não achas que o Mestre é demasiado simples e bom para quebrar o jugo tirânico que pesa sobre Israel, abolindo a escravidão que oprime o povo eleito de Deus?

- Mas - replicou o interpelado - poderias admitir no Mestre as disposições destruidoras de um guerreiro do mundo?

- Não tanto assim. Contudo, tenho a impressão de que o Messias não considera as oportunidades. Ainda hoje, tive a atenção reclamada por doutores da lei que me fizeram sentir a inutilidade das pregações evangélicas, sempre levada a efeito entre as pessoas mais ignorantes e desclassificadas. Ora, as reivindicações do nosso povo exigem um condutor enérgico e ativo,

- Israel - retrucou o filho de Zebedeu, de olhar sereno -- sempre teve orientadores revolucionários; o Messias, porém, vem efetuar a verdadeira revolução, edificando o seu reino sobre os corações e sobre as almas!..

Judas sorriu, algo irônico e acrescentou: - Mas, poderemos esperar renovações, sem conseguir o interesse e a atenção dos homens poderosos?

- E quem haverá mais poderoso do que Deus, de quem o Mestre é o enviado divino?

Em face dessa invocação, Judas mordeu os lábios, mas prosseguiu:

- Não concordo com os princípios de inação e creio que o Evangelho somente poderá vencer com o amparo dos prepostos de Cesar, ou das autoridades administrativas do Templo, as quais, em Jerusalém, nos governam o destino. Acompanhando o Mestre nas suas pregações em Cesaréia, em Sebaste, em Corazim e Betsaida, quando das suas ausências de Cafarnaum, jamais o vi interessado em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida. É certo que de seus lábios divinos sempre brotaram a verdade e o amor, por toda parte; mas, só observei leprosos e cegos, pobres e ignorantes, abeirando-se de nossa fonte.

-Jesus, porém, já nos esclareceu, obtemperando Tiago com brandura, que o seu reino não é deste mundo.

Imprimindo aos olhos inquietos um fulgor estranho, o discípulo impaciente revidou com energia:

- Vimos hoje o povo de Jerusalém atapetar o caminho do Senhor com as palmas da sua admiração e do seu carinho; precisamos, todavia, impor a figura do Messias às  autoridades da Corte Provincial e do Templo, de modo a aproveitar esse surto de simpatia, notei que Jesus recebia as homenagens populares sem participar do entusiasmo febril de quantos o cercavam, razão por que necessitamos multiplicar esforços, em lugar dele, a fim de que a nossa posição de superioridade seja reconhecida, em tempo oportuno.

- Recordo-lhe, entretanto, de que o Mestre nos asseverou que o maior na comunidade será sempre aquele que se fizer o menor de todos.

- Não podemos levar em conta esses excessos de teoria. Interpelado que vou ser hoje por amigos influentes na política de Jerusalém, farei o possível por estabelecer acordo com os altos funcionários e homens de importância, a fim de imprimir novo movimento às ideias do Messias.

- Judas! Judas!.. observou-lhe o irmão de apostolado, com doce veemência. - Vê lá o que fazes!... Socorres-te dos poderes transitórios do mundo, sem um motivo que justifique esse recurso, não será, desrespeito à autoridade de Jesus? Não terá o Mestre visão bastante para sondar e conhecer os corações? O hábito dos sacerdotes e a toga dos dignitários romanos são roupagens para a Terra... As ideias do Mestre são do céu e seria sacrilégio misturarmos a sua pureza com as organizações viciadas do mundo!.. Além de tudo, não podemos ser mais sábios e mais amorosos do que Jesus e Ele sabe o melhor caminho e a melhor oportunidade para a conversão dos homens!... As conquistas do mundo são cheias de ciladas para o espírito e, entre elas, é possível que nos transformemos em órgão de escândalo para a verdade que o Mestre representa.

Judas silenciou, atormentado.

No firmamento, os derradeiros raios do Sol batiam nas nuvens distantes enquanto os dois discípulos tomavam rumos diferentes.

*

Sem embargo das carinhosas exortações de Tiago, Judas Iscariote passou a noite tomado de angustiosas inquietações.

Não seria melhor apressar o triunfo mundano do cristianismo? Israel não esperava um Messias que enfeixasse nas mãos o conjunto de todos os poderes? Valendo-se da doutrina do Mestre, poderia tomar para si as rédeas do movimento renovador, enquanto Jesus, na sua bondade e simplicidade, ficaria, entre todos, como um símbolo vivo da
ideia nova.

Recordando suas primeiras conversações com as autoridades do Sinédrio, meditava na execução dos seus sombrios desígnios. A madrugada o encontrou decidido, na embriaguez de seus sonhos ilusórios. Entregaria o Mestre aos homens do poder, em troca da sua nomeação oficial para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios políticos. Satisfaria às suas ambições, aparentemente justas, a fim de organizar a vitória cristã no seio de seu povo. Depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria a Jesus e lhe dirigiria os dons espirituais, de modo a utiliza-los para a conversão de seus amigos e protetores prestigiosos.

O Mestre, a seu ver, era demasiadamente humilde e generoso para vencer sozinho, por entre a maldade e a violência.

Ao desabrochar a alvorada, o discípulo imprevidente demandou o centro da cidade e, após horas, era recebido pelo Sinédrio, onde lhe foram hipotecadas as mais relevantes promessas.

Apesar de satisfeito com a sua mesquinha gratificação e desvairado no seu espírito ambicioso, Judas amava ao Messias e esperava, ansiosamente, o instante do triunfo para lhe dar a alegria da Vitória cristã, através das manobras políticas do mundo.

O prêmio da vaidade, porém, esperava a sua desmedida ambição. Humilhado e escarnecido, seu Mestre bem amado foi conduzido à cruz da ignomínia, sob vilipêndios e flagelações.

Daqueles lábios, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor, não chegou a escapar-se uma queixa. Martirizado na sua estrada de angustias, o Messias só teve o máximo de perdão para os seus algozes.

Observando os acontecimentos, que lhe contrariavam as mais íntimas suposições, Judas Iscariote se dirigiu a Caifás, reclamando o cumprimento de suas promessas. Os sacerdotes, porém, ouvindo-lhe as palavras tardias, sorriram com sarcasmo. Debalde recorreu às suas prestigiosas relações de amizade: teve de reconhecer a falibilidade das promessas humanas. Atormentado e aflito, buscou os companheiros de fé. Encontrou-os vencidos e humilhados; pareceu-lhe, porém, descobrir em cada olhar a mesma exprobração silenciosa e dolorida.

Já se havia escoado a hora sexta, em que o Mestre expirara na cruz, implorando perdão para os seus verdugos.

De longe, Judas contemplou todas as cenas humilhantes e angustiosas do Calvário. Atroz remorso lhe pungia a consciência dilacerada. Lágrimas ardentes lhe rolavam dos olhos tristes e amortecidos. Mau grado a vaidade que o perdera, ele amava intensamente ao Messias.

Em breves instantes, o céu da cidade impiedosa se cobriu de nuvens escuras e borrascosas. O mau discípulo, com um oceano de dor na consciência, peregrinou em derredor do casario maldito, acalentando o propósito de desertar do mundo, numa suprema traição aos compromissos mais sagrados de sua vida.

Antes, porém, de executar seus planos tenebrosos junto à figueira sinistra ouvia a voz amargurada do seu tremendo remorso.

Relâmpagos terríveis rasgavam o firmamento, trovões cavernosos pareciam lançar sobre a terra criminosa a maldição do céu vilipendiado e esquecido.

Mas, sobre todas as vozes confusas da natureza, o discípulo infeliz escutava a voz do Mestre, consoladora e inesquecível, penetrando-lhe os refolhos mais íntimos da alma: - "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai, senão por mim! ... "

Caveant Consules


Caveant Consules
por Manoel Quintão
Reformador (FEB) Novembro 1939

‘caveant consules ne quid respublica detrimenti capiat’        (que os cônsules se acautelassem a fim de que a república romana não sofra nenhum dano.)

Certificar-se tão somente da realidade tangível do fenômeno espírita e atestá-lo à face do mundo, sem amarras de preconceitos, não é corresponder às finalidades superiores e providenciais da doutrina.

O fenômeno pelo fenômeno é pristino quanto o mundo e a humanidade nem por isso, até hoje, soube ou pode utiliza-lo, antes que como elemento de superstição e confusão, em detrimento da boa causa.

Nem se trata, tampouco, de certificar anseios e desígnios de imortalidade, transparentes de todos os sistemas e confissões religiosas, em função moral regenerativa.

Sem retrosseguir mais longe por fundamentar a tese, basta evocar a só atitude dos povos contemporâneos, que padronizam a nossa decantada civilização ocidental e reivindicam foros de cristandade.

Se houvéssemos de aplicar a essa humanidade, que aí está a chacinar-se em espasmos de besta-fera, a sentença insofismável do próprio Divino Mestre, quando disse que é pelo fruto que se conhece a árvore, para logo teríamos, como de fato temos, a convicção de que esse rotulado cristianismo nada tem de cristão e, desvirtuado e pervertido em suas fontes originais, apenas há servido de engodo e repasto a todas as paixões e apetites materiais. Acomodado, amesendado (acomodado) a quaisquer situações e vicissitudes políticas, nacionais e internacionais; benzendo armas, sancionando conquistas belicosas, do mesmo passo que responsando (repousando) por algozes e vítimas, a clamar misericórdia, é força reconhecer que se de todo não faliu nos fins anódinos (eletrodo que rece a corrente elética) lhe resultaram os meios de reconduzir o armentio (rebanho de gado grande) ao aprisco do Pastor.

Entretanto, em espécie, esse cristianismo também predica a imortalidade, a
responsabilidade da criatura e, a rigor, não contesta a comunicação dos Espíritos (ditos santos) pro domo sua.

Que lhe falta, então, para revalidar as promessas do seu divino legado e pacificar
a consciência humana?

CONSULES!

Do ponto de vista material, formal, convencional, teórico e até extrinsecamente
prático, nada, nada lhe falta. Ele tem pingues tesouros acumulados, urdidura disciplinar perfeita, apoio tácito ou implícito de governos e povos. Tem, a mais, o prestígio da tradição a valorizar-se na inópia (situação de extrema penúria material) e na rotina das massas. Imiscui-se nos ministérios, nas escolas, nas casernas, nas oficinas, nos lares; ergue templos suntuosos e ermidas rústicas em toda parte; funda asilos e hospitais, academias até... Tem prebendas (rendimentos de quem ocupa cargos religiosos) e comendas, insígnias e galardões, múnus (encargo, obrigação) e sinecuras com que forrar a ingenuidade de uns, a velhacaria de outros e a vaidade de todos. Que lhe falta, então, para legitimar o sagrado ministério?

- Pedro, tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas. Pasce aves meas... - disse Jesus.

Mas as ovelhas não tem paz, tem guerra. Perguntamos: onde a paz de N. S. Jesus Cristo? Concílios, encíclicas, pastorais, bulas, decretais, cânones, anátemas, bênçãos, indulgências, missões, é tudo antítese desse Evangelho que só deveria ser Luz, Espírito, Vida. Mas, a luz da Fé redundou em treva de fanatismo sectário e fonte de tirania; o Espírito desterrou-se da letra, por confugir-se em dogmas compulsórios; a Vida aí a temos no estendaI (varal de roupa) de horrores contemporâneos.

E quando vozes autorizadas, por extremes das gangas deste, clamam do outro
mundo o penitet (desgosto, dó, tristeza) para os esplendores da vida eterna, o que se pretende é, não aclarar a inteligência e pacificar a consciência, porém, negar simplesmente o Espírito e, com ele, a razão única da própria vida!!!
.............................................................

Não é, contudo, para esse cenáculo que endereçamos estas linhas.

Sabemos o alcance e a latitude da palavra evangélica que induzia o servo a que deixasse aos mortos o ônus de enterrar seus mortos. Sabemos, também, de Martas
e Madalenas... Nosso reparo vai aos que, por misericórdia e de acréscimo, vão tendo
olhos de ver e ouvidos de ouvir o novo sentido da vida planetária, neste angustioso fim de século e de milênio, de pura revalidação evangélica, em espírito e verdade. O reino de Jesus ainda não é nem será deste mundo, antes que todas as criaturas de Deus o tenham realizado em si mesmas. Ainda não há muito, clarividente amigo, do plano espiritual, dizia-nos que, em todo este fermentar de horrores que se desatam no mundo, um só perigo existia, temível para nós outros - o da própria falência. E de pronto compreendemos que não basta ter fé e praticar obras de fé; não basta dar testemunho da verdade, senão que precisamos vivê-la em nós, para outrem, qual a viveram o Cristo e seus legítimos Apóstolos, com amor.

Não será, portanto, de convenções estatutárias, de tentames espetaculares, de congregações maciças, de institutos de beneficência material, contingente, a obra precípua do vero Cristianismo, que tanto vale dizer, do Espiritismo.

De realizações opimas e opulentas que tais, vai o mundo referto, em decadência fragorosa. Essas obras não se constituíram em ante mural à onda de perversão dos princípios mesmos em que radicaram, mas, até lhe ensejaram maiores brechas, ao sopro de competições e dissídios humaníssimos.

Outro Espírito dizia-nos, de outra feita, que era preciso cogitar do operário antes que da máquina, porque esta, sem aquele, fadava-se ao fracasso.

Ora, não condenamos, nós, em tese, quaisquer empreendimentos materiais do proselitismo espírita, certo de que tudo vem a seu tempo e respeitamos o arbítrio humano, ainda mais quando lhe reconhecemos sanidade intencional. Isso, porém, não nos impede, também, de assinalar em consciência o que nos parece mais essencial na estruturação doutrinária - a edificação íntima de cada um, da qual, nunca forçada, mas espontaneamente, haja de surgir a eficiência e magnitude do conjunto, sem eiva de personalismos. Porque, a verdade das verdades, à luz da Revelação que pretendemos cultivar e divulgar, é que, sem paz e sem amor para conosco e entre nós, não podemos senão ridiculamente oferecer-nos ao mundo. E mais: fá-lo-emos com agravo de responsabilidades, porque já precatados de que a hora ê, e muito se pedirá a quem muito se houver dado.

Qual de nós ousaria, em sã consciência, atestar o integral cumprimento de seu dever, não na pauta do que tem feito, mas, na do que deixou de fazer, justamente porque, colhido no vórtice das seduções temporais, não raro troca a alva de penitente por manto de sacerdócio, esquecido de que foi este - o sacerdócio, que matou o profetismo.

Que a hora seja de testemunhos estrênuos, ninguém, dentre nós, pode duvidar; e quando o espinheiro avulta e ameaça abafar a semente, não descabe gritar - caveant consules.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Agradecemos



Agradecemos
Emmanuel por Chico Xavier
 Reformador (FEB) Julho 1970

Senhor Jesus!
Nós te agradecemos:

pela coragem de facear as dificuldades criadas por nós mesmos;
pelas provas quo nos aperfeiçoam o raciocínio e nos abrandam o coração;
pela fé na imortalidade;
pelo privilégio de servir;
pelo dom de saber que somos responsáveis pelas próprias ações;
pelos recursos nutrientes e curativos que trazemos em nós;
pelo reconforto de reconhecer que a nossa felicidade tem o tamanho da felicidade que fizermos para os outros;
pelo discernimento que nos permite diferençar aquilo que nos útil daquilo que não nos serve;
pelo amparo da afeição no qual as nossas vidas se alimentam em permuta constante;  
pela bênção da oração que nos faculta apoio interior para a solução de nossos problemas;
pela tranquilidade de consciência que ninguém nos pode subtrair.

Por tudo isso, e por todas os demais tesouros de esperança e amor, alegria e paz de  que nos enriqueces a existência, sê bendito, Senhor, ao mesmo tempo que te louvamos a Infinita Misericórdia hoje e para sempre.

Direitos e Deveres


Direitos e Deveres
por Vínicius
Reformador (FEB) Novembro 1939

           Todas as rixas, leves ou graves, entre os povos e indivíduos, se originam da defesa ou da disputa de direitos. Ninguém quer abrir mão dos que tem, todos querem conquistar os que não têm.

Jesus foi o único que abdicou de todos os direitos próprios, para cumprir os deveres alheios. Em tal se funda sua escola: cumprir deveres e renunciar a direitos. Semelhante doutrina é a loucura da cruz, que os sábios e prudentes do século não podem conceber nem aceitar.

*

O homem primitivo desconhece deveres: usa e abusa do direito, única forma de ação que concebe. O homem do presente cumpre alguns deveres e exerce todos os direitos que pode. O homem do futuro cumprirá deveres e desistirá de direitos.

*

Fato curioso: quem acaba adquirindo maior soma de direitos são justamente aqueles que mais se dispõem a despojar-se deles. Renunciar é uma espécie de riqueza que quanto mais se espalha mais se ajunta e multiplica. Quem desiste de um direito que legitimamente lhe assiste, lança no coração da humanidade uma semente que vai produzir cento por um e, assim centuplicada, voltará um dia às mãos do semeador.

*

Existem muitas escolas de Direito. Delas procedem os jurisconsultos, os juristas, os magistrados e os causídicos. Todos eles proclamam o grande valor dessa ciência de cuja interpretação se dizem mestres. Não há, no entanto, um templo para o Dever, nem uma academia onde se aprenda essa disciplina. Não é, pois, de admirar que os homens não se entendam e vivam em constantes querelas e disputas a cata da justiça.


Canteiro de Trovas - 8



Canteiro de Trovas – 8
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Oh! Senhor, dá-me o destino
Da fonte humilde e vulgar,
Que abraça as pedras cantando
E serve sem perguntar!..

Canteiro de Trovas - 7



Canteiro de Trovas – 7
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Quem ama não conta mágoas
E nem procura entendê-las.
Tem a cabeça no mundo
E o coração nas estrelas...

Canteiro de Trovas - 6


Canteiro de Trovas – 6
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Prisão de amor? A pessoa
É livre de qualquer trama
Na medida que liberta
O coração a quem ama.

Canteiro de Trovas - 5



Canteiro de Trovas – 5
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Faze o que deves fazer,
O tempo é vida, porém,
Lembra o sol que ajuda a todos,
Mas não adula a ninguém.

Canteiro de Trovas - 4


Canteiro de Trovas – 4
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Suporta as faltas alheias,
Reprovar não vale a pena,
Quase sempre quem censura
Acaba no que condena.



Canteiro de Trovas - 3



Canteiro de Trovas – 3
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Se o mal te acena ou te busca:
Não lhe dês ocasião.
Caridade das maiores -
Evitar a tentação.

Canteiro de Trovas - 2



Canteiro de Trovas – 2
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Ensinamento da Lei,
Tão claro quanto se diz -
Quem não sabe contentar-se,
Não consegue ser feliz.


Canteiro de Trovas - 1


Canteiro de Trovas – 1
Pedro Silva
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1970

Humildade, muitas vezes,
É a fortaleza de alguém
Que se apaga em desvalia
Pela vitória do bem. 

domingo, 15 de julho de 2018

Ao longo do caminho



Ao longo do Caminho
por C. Wagner
Reformador (FEB) Novembro 1943

As duas esquecidas

Esvazia-se lentamente a sala onde Natal acaba de festejar suas lembranças e de semear seus presentes. Jubilosa, a turba das crianças se dispersa pelas ruas e, mostrando o que recebeu, cada uma conta o que viu. No local agora cheio de silêncio, onde as luzes se apagam, somente o pinheiro resta sozinho a cismar. Uma última vela bruxuleia e a sua claridade mortiça ilumina fracamente um objeto dissimulado entre dois galhos frondosos. É uma linda boneca de olhos azuis, faces rosadas, louros cabelos abundantes, com os braços rechonchudos vagamente estendidos. Ninguém a descobrira. Passaram despercebidas as graças que ela ostenta. É a pequenina esquecida.

*

No leito de dores, onde entra em convalescença de cruel enfermidade, está sentada uma menina, que parece esperar. É noite de Natal, noite de surpresas par as crianças. Haverá, também para ela, alguma surpresa? Ah! o pobre casebre, onde a enfermidade veio juntar-se a penúria e que mal basta ao necessário, não consente em pensar no supérfluo. Mas, alguns dias antes, a menina estivera com uma camaradinha que lhe falou de uma árvore de Natal e prometeu trazer-lhe um brinquedo... Não tardaria muito a amiga... Não parece que ressoam passos na escada? É ela sem dúvida...

Mas, os passos se distanciam e a porta permanece fechada... Outros passos se aproximam e se afastam e, como eles, passam as horas: a amiga não vem. Por fim, cansada de esperar e nada mais esperando, a doentinha deixou cair a cabeça no travesseiro, a soluçar: esquecida!

*

Não, pobre criança, não estás esquecida, como não o está a boneca que ficou lá na árvore. A mesma mão que a dependurou ali, ao abrigo das olhares investigadores, em breve a encontrará e te trará. Estais destinadas uma a outra, isto é certo, e nada perdereis por esperar. Nenhuma boneca terá jamais encontrado mamãe mais cuidadosa, nem uma menina, tão encantadora boneca. - Por onde andarão então as tristezas? - Esquecidas!

Triste troca

Uma chuva fininha cai desde pela manhã. No calçamento viscoso, os cavalos escorregam e tombam. A bruma envolve as árvores, os telhados, as longas fieiras de ruas intermináveis. Os transeuntes se agasalham em seu mau humor. É uma hora aborrecida. Homens e coisas parecem combinar-se para dizerem: isto vai mal.

Numa das ruelas escarpadas que sobem para Belleville, uma carrocinha desmantelada. Atrelado aos seus varais, o homem se retesa e, num esforço que o faz curvar-se até quase tocar o chão, tenta movimentá-la. Uma mulher e duas crianças atuam sobre as rodas. Nada conseguem. Decididamente, para eles, aquilo absolutamente não vai. - Que horror fazer uma mudança com semelhante tempo! Os pobres coitados estão com todo o seu mobiliário naquela carrocinha. Pouca coisa, sem dúvida, o estritamente necessário: alguns pertences de cama, uma mesa, cadeiras, uns tantos rudimentos de bateria de cozinha dependurados aqui e ali. O luxo é representado por um canário friorento, a tiritar na sua gaiola. Esse pouco, no entanto, é demasiado naquele momento. A carga excede as forças dos que a puxam. Afinal, dois transeuntes, dois samaritanos, se apiadam. Com seus braços vigorosos, empurram o veículo e o levam até ao alto da encosta.

Transidos, molhados, homens e móveis chegam pela tardinha ao novo aposento. Ah! Escuro e arrumado, ele se assemelha, como um irmão, ao antigo, donde acabam de sair. Aquela mudança se traduzira para a família por um domingo perdido por um mobiliário avariado, talvez uma enfermidade. Mas, no antigo bairro, eles já não tinham crédito. Esperam que as coisas mudem completamente, num meio mais propício. Durante os cinco anos em que habitavam a cidade imensa, haviam recorrido uma dúzia de vezes a esse  processo.

Lá, no Interior, caía em ruinas a humilde casinha que eles abandonaram. A erva invade as paredes, as teias de araúna tapam as janelas, murmura o regato, as flores se ostentam belas e os pássaros cantam, mas para ninguém tudo isso. Porque deixaram eles aquele recanto da floresta? A pobreza em que viviam outrora não era uma riqueza em confronto com a presente miséria?

Oh! a misteriosa atração das grandes cidades, bem comparável à fascinação dos abismos! Algumas histórias durante os serões bastaram para produzir a vertigem naqueles filhos dos campos. A solidão familiar e imutável, onde o mais humilde tem o seu lugar, onde as árvores e os rochedos se tornam velhos amigos, eles o trocaram pelo isolamento desesperado do grande deserto humano, onde o indivíduo se perde na multidão, deixando o traço idêntico ao que deixa no ar o voo de um pássaro.

E dizer-se que, assim fazendo, aquelas valorosas criaturas, com milhares de outras, deram origem a um dos mais apavorantes fatores do problema social: a despopulação dos campos e o atravancamento das grandes cidades.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Sofrer, perdoar, amar...



Caminha, homem, meu irmão! Não te detenhas jamais na jornada que encetaste, porque glorioso é o teu destino. Lembra-te de que vieste da treva do Erro e avanças para o resplendor da Verdade, que atingirás, mesmo que os espinhos te rasguem as carnes, ou que o granizo te requeime o corpo exausto. Sofrer, perdoar, amar, eis a tríade bendita que projeta luz na estrada do viandante da evolução, em sua ascese para a Perfeição
Akiss Amed. (Reformador (FEB) Novembro 1943)

terça-feira, 10 de julho de 2018

Sublime Recordação



Sublime Recomendação
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Dezembro 1942

"Jesus, porém, não lho permitiu, mas disse-lhe: - vai para a tua casa, para os teus e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez; e como teve misericórdia de ti." (Marcos, 5: 19)

Eminentemente expressiva a palavra de Jesus ao endemoninhado que recuperara o equilíbrio, ao toque de seu divino amor.

Aquele doente que, após a cura, se sentia atormentado de incompreensão, rogava ao Senhor lhe permitisse demorar ao seu lado, por gozar-lhe a generosa e sublime companhia.

Jesus, porém, não lho permite e recomenda-lhe procure os seus, para anunciar-lhes os benefícios recebidos.      

Quantos discípulos copiam a atitude desse doente que tinha consigo uma legião de gênios perversos?

Olhos abertos à verdade, coração tocado de nova luz, à primeira dificuldade do caminho, querem fugir do mundo, para repousar ao lado do Nazareno, esquecendo que o Mestre trabalha sem cessar.

O problema do aprendiz do Cristo não é de conquistar feriados celestes, mas de atender aos serviços ativos, onde foi chamado, em qualquer lugar, situação, idade e tempo.

Se recebeste a luz do Senhor, meu amigo, vai servir ao Mestre, junto aos teus. Se não tens a família direta, tens a família indireta. Se não contas parentela, tens vizinhos e companheiros. Anuncia os benefícios do Senhor, mostrando a própria cura. Quem revela a renovação de si mesmo em Cristo está habilitado a cooperar na renovação espiritual dos outros. Quanto ao bem estar próprio, serás chamado a ele, quando for oportuno.