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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O Natalício do Mestre

 

O Natalício do Mestre

Vinícius (Pedro de Camargo)

Reformador (FEB) 1º de Janeiro de 1929

 

            Nasceu em Belém de Judá o Redentor do mundo, há perto de vinte séculos. Tl o acontecimento de maior relevância nos fastos da história humana. Tão importante que chegou a abalar as milícias celestiais cujo alvoroço se expandiu nesta alacre mensagem: Glória Deus nas maiores alturas e paz na Terra aos homens a quem Ele quer bem!

            Nascer é iniciar, é dar começo a uma existência em determinado meio. Eis o fato histórico considerado em seu aspecto genérico. Particularizemos, agora, o advento do Messias. Que influência está exercendo em nós o seu nascimento? Que relação existe entre o natal de Jesus e a nossa vida, no momento atual? Que veio Jesus fazer à Terra, na parte que nos toca?

            Eis a questão que nos interessa de perto e que vem determinar o grau de importãncia daquele natal. Se o nascimento do Redentor não é ainda uma realidade em nós mesmo, influindo positivamente emnosso caráter, que importãncia pode ter no que no diz respeito?

            As minas do Transvaal são as mais ricas do mundo; é um fato indiscutível, considerado em sua generalidade. Mas, em que isso nos interessa? Que proveito tiramos? Se, porém, nos associarmos às empresas que exploram filões de ouro e os diamantes então o caso muda de figura, tornando-se para nós de importância capital. O Brasil é um país opulento pela uberdade de seu solo, pela sua flora, seus minérios e suas múltiplas fontes de riqueza. Não obstante, há muita gente pobre e até miserável no Brasil.

            Para que as suas decantadas riquesas sejam uma realidade para cada brasileiro, é preciso que este se hbilite, grangeando sua independência financeira pelo trabalho, pela inteligência, pela perseverança e pela economia. Caso contrário, todas as vantagens e prerrogativas de nossa terra serão como se não existissem.

            Precisamente o mesmo fenômeno se dá com relação ao natal de Jesus. Nenhum proveito nos vem do fato histórico de seu nascimento. Todo o valor desse magno sucesso está nas suas relações conoso. Se existe essa relação, se aquele fato represent uma força viva atuando em nosso Espírito, então Jesus nasceu para nós e a nós se dirige a angélica mensagem: Glória a Deus nas maiores alturas, paz na Terra aos homens a quem Ele quer bem!

            Se permanecermos alheios ao Natal de belém, quanto à sua eficiência em nossas almas, tudo o que fizermos para comemorar tão auspiciosa data histórica será vão e vazio, visto como Jesus nasceu para nos salvar do pecado, para nos remir da servidão dos vícios e das paixões. Se nos conservarmos na iniquidade do século e nos afazemos à escrvidão, aquele natalício ainda não se realizou: nada temos, portanto, que comemorar.

            Ao contrário das hospedarias de Belém, tratemos de arranjar lugar em nossos corações para recebermos condignamente o divino hóspede que há dois mil anos bate às nossas portas.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

A Pequena Parábola

 

A Pequena Parábola

por Vinícius (Pedro de Camargo)

Reformador (FEB) 16 Março 1937

             Jesus, o sapientíssimo educador, jamais se preocupou como - soe acontecer aos mestres bisonhos -   de entulhar a mente dos discípulos com definições e teorias, para, em seguida, ferindo a tecla da memória, faze-la repetir, qual disco de vitrola, as lições ministradas.

            O Rabino da Galiléia emprega o processo oposto. Seu método pegadógico consiste em apelar para a razão, procurando desenvolver, pelo exercício e uso, os poderes ocultos, que jazem em estado latente no interior de todos os seres conscientes e racionais.

            Enquanto o escolasticismo, ainda em voga, abafa a divina centelha que bruxoleia na cripta sagrada das almas, Jesus se esforça por desembaraça-la das pias do instinto, preparando-a para alcandorar-se em altos voos, nas asas da razão e do sentimento.

            É o que se depreende da parábola sobre que escrevemos etas linhas. Trata-se do mais pequeno e singelo dos apólogos imaginados pelo grande Mestre.

            A extrema simplicidade de sua urdidura toca as raias da infantilidade. Não obstante, quanta sabedoria e quanta luz emanam de tão modesta e despretenciosa alegoria!

            Mateus, assim no-la relata: “Um homem tinha dois filhos; chamando o primeiro, disse-lhe: Filho, vai tarbalhar hoje na minha vinha. Ele respodeu: Irei, senhor; e não foi. Chegando-se ao segundo, disse-lhe o mesmo. Porém, este retrucou: Não quero; mais tarde, tocado de arrependimento, foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?

*

            A obediência é uma virtude excelente. O filho que a revelou não foi, certamente, o que prometeu e deixou de fazer boa a promessa; porém aquele que, impensadamente, se negou a atender ao chamamento quando solicitado, mas que, posteriormente, considerando o caso, achou que devia obedecer ao pai e obedeceu.

            “Res non verba” – eis a questão. Não será por meio de promessas que daremos o nosso testemunho de verdadeiros servos do Senhor, mas pelos nossos atos, pela norma de conduta por nós traçada e seguida.

            A cada u será dado segundo as suas obras – tal a síntese da indefectível justiça divina, atuando sobre cada indivíduo. A doutrina cristã é a doutrina da experiência pessoal. Só através dos fatos vivos e palpitantes que nos afetam podemos senti-la, portanto, sonhece-la. As melhores teorias e os mais explícitos relatos históricos sobre o Cristianismo não valem uma pequena experiência, uma ligeira comprovação experimental, haurida na fornte dos acontecimentos da nossas vida. As palavras, geralmente, só são compreendidas pelos que já passaram pelos transes por elas descritos. Só nos entendem bem aqueles que já experimentaram o que descrevemos. As palavras podem fantasiar, nunca, porém, criar o que não existe. Daí porque só através da prática saberemos o que é, o que vale e o que representa a revelação divina, mediante o Cristo de Deus.

 *

            Há duas espécies de obediência: uma que eleva e enobrece o Espírito, outra que o humilha e avilta. A primeira é espontãnea, voluntária, fruto do raciocínio e das resoluções próprias; a segunda é imposta de fora, procede de autoridade alheia ao mesmo tempo indivíduo. A primeira não restringe a liberdade de outrem, não constarnge. Outrossim, não ameaça com penalidades, nem promete prêmios e recompensas. Originando-e da razão, é ditada pelo dever, fator que encerra a sua finalidade e todo seu poder de ação. A segunda é terrorista, amedronta, apelando para o prestígio dos castigos. De outra sorte, promete favores e privilégios, acenando ao interesse próprio.

            A primeira espécie de obediência, única digna dos foros da virtude, elevando aquele cujo íntimo encontra guarida, promove a sua emancipação, tornando-o verdadeiramente livre. A segunda submete e escravisa cada vez mais, destruindo as fibra da dignidade e dos sentimentos, afrouxando a vontade e degenerando o caráter.

            A primeira é a obediência nobre do homem livre, que espontaneamente delibera e age. A segunda é a obediência do escravo, que se aita, ora de medo do látego, ora visando lucros e proventos. Tanto o medo como o egoísmo são formas de servidão. Aquele que obedece por interesse, seja no sentido de eitar punição, seja no de alcançar favores, procede como negocista; ao passo que a obediência derivada do dever é a obediência do filósofo que pensa, medita e rflete sobre o “porque da vida” e do destino que a envolve.

            O moço que foi á vinha do pai praticou ação deliberada e de “motu proprio”. Não ofez coagido pelo medo, nem levado por interesses subalternos. Comportou-se com dignidade após madura reflexão, descobrindo em seu fora íntimo os motivos da obediência devida ao seu progenitor. Agiu por dever e por amor, os dois elementos em que se fund a única forma de obediência que Deus – Pai Celestil – requer dos seus filhos.

*

            Inginieros refere-se a uma certa obediência precoce, que reputa indício de fraqueza de caráter. É erro combater-se a voluntariedade, ou mesmo algo de rebeldia que se nota nas crianças. Muitas vezes não se trata de um mal, como supomos, mas dos primeiros assomos de independência de uma vontade firme, bem cedo revelada. É necessário dirigir e orientar aquelas manifestações, nunca, porém, combater essa nobre altivez que reponta de alguns caracteres infantis.

            A doutrina ortodoxa costuma enaltecer e cantar louvores à obediência cega, encarecendo-lhe o valor, fazendo-a passar, tanto nos lares, como na escola, por ouro de lei. Percebe-se o alcance da velha escola religiosa, cujo fito é preparar crentes passivos, sem vontade própria, desacostumados ao raciocínio, autômatos que se movem soba influência de fatores egoísticos, habilmente explorados pelos renanescentes da escola de Loyola cujo lema era e continua sendo: “Perinde ac cadaver” (como um cadáver) .  

            Não é esta a obediência ensinada e exemplificada pelo Rabino conforme se infere claramente da parábola que ora acabamos de submeter à apreciação dos nossos leitores.

            Obedecer, sim, por dever e por amor, atendendo aos legítimos reclamos da nossa razão e do nosso coração.

            Fora de tais condições, não se trata de obediência, mas de subserviência.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Direitos e deveres

             
                                     

                  Direitos e Deveres

por Vinícius (Pedro de Camargo)    Reformador (FEB) Novembro 1939

 

            Todas as rixas, leves ou graves, entre os povos e indivíduos, se originam da defesa ou da disputa de direitos. Ninguém quer abrir mão dos que tem, todos querem conquistar os que não têm.       

              Jesus foi o único que abdicou de todos os direitos próprios, para cumprir os deveres alheios. Em tal se funda sua escola: cumprir deveres e renunciar a direitos. Semelhante doutrina é a loucura da cruz, que os sábios e prudentes do século não podem conceber nem aceitar. 

*

             O homem primitivo desconhece deveres: usa e abusa do direito, única forma de ação que concebe. O homem do presente cumpre alguns deveres e exerce todos os direitos que pode. O homem do futuro cumprirá deveres e desistirá de direitos.

 *

             Fato curioso: quem acaba adquirindo maior soma de direitos são justamente aqueles que mais se dispõem a despojar-se deles.

            Renunciar é uma espécie de riqueza que quanto mais se espalha mais se ajunta e multiplica. Quem desiste de um direito que legitimamente lhe assiste, lança no coração da humanidade uma semente que vai produzir cento por um e, assim centuplicada, voltará, um dia, às mãos do semeador.

 *

             Existem muitas escolas de Direito. Delas procedem os jurisconsultos, os juristas, os magistrados e os causídicos (advogados). Todos eles proclamam o grande valor dessa ciência de cuja interpretação se dizem mestres. Não há, no entanto, um templo para o Dever, nem uma academia onde se aprenda essa disciplina. Não é, pois, de admirar que os homens não se entendam e vivam em constantes querelas (brigas) e disputas à cata da justiça.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

O grande cadinho

 


O Grande Cadinho

por Vinícius (Pedro de Camargo)     Reformador (FEB) Janeiro 1934


          O que haverá de amor naquele amor?

            O que haverá de amor nesse outro amor?

            O que haverá, em suma, de amor nos amores deste mundo?

            O que haverá de ouro verdadeiro nesses metais reluzentes que os homens ostentam com tanta jactância e tanta veleidade? Quer parecer-nos que não existe nenhuma parcela do nobre minério em todas as joias e galas do século; afigura-se aos nossos olhos que todas são falsas, que todas simulam o que realmente não são.     

            E não será por isso mesmo que a dor impera no seio da humanidade, como fatal contingência?

            Certamente, pois o orbe que habitamos não passa de um imenso cadinho, onde se derrete o metal humano, para purificá-lo das escórias que o desmerecem e aviltam.

            Graças a tal processo, a percentagem mínima de amor que existe nos amores terrenos aumentará progressivamente até que haja muito amor nos amores dos homens.

            As escórias se evolarão (elevar-se voando), ao calor do sofrimento e das amarguras, ficando no fundo do cadinho, cintilante e bela, a gema pura, sem jaça e sem liga.


sábado, 27 de março de 2021

Similia similibus curantur


 Trechos do artigo sob título

“Similia similibus curantur”

por Vinícius (Pedro de Camargo)        Reformador (FEB) 1º Julho 1937

 

            ...o papado que, a seu turno, alimenta ideias imperialistas, pretendendo exercer, como exerce em certos países de governos fracos, a ditadura espiritual, intervindo, para consecução dos seus desígnios, de modo direto e indireto, em todos os ramos de atividades, políticas, sociais e educacionais, dos povos em cujo seio se aninha...

             ...Dentre as lamentações do papa, destacamos o tópico abaixo transcrito, que vale pela condenação do mesmo papado:

             “Ainda que um homem reúna em si todo o saber, todo o poder e toda a potência material desta Terra, não pode lançar fundamento diverso do que foi lançado, que é Jesus Cristo. (1ª Cor., 3-11)

            Aquele, portanto, que, por sacrílega negação da diversidade essencial que existe entre Deus e o homem, entre o Filho de Deus e os filhos dos homens ousasse colocar ao lado de Cristo, ou pior ainda, sobre ele e contra ele, um simples mortal e fosse esse o maior de todos os tempos, saiba que mais não é senão um profeta de quimeras, ao qual se aplicam com exatidão apavorante as palavras da Escritura: Aquele que habita nos céus zombará deles,” (Salmos 2, 4.)

             Ora, qual é o homem que, neste mundo pretende colocar-se ao nível de Deus, avocando, sacrilegamente, a si atributos divinos, inclusive a infalibilidade, senão o próprio papa?

.............

            O papa, como é público e notório, é o homem que se diviniza a si mesmo, deixando-se adorar pelos seus semelhantes, distribuindo bênçãos e estendendo os pés para serem osculados.

            Ele próprio, portanto, é o falso profeta que ousa colocar-se ao lado do Cristo e, pior ainda, sobre ele e contra ele, sendo um simples mortal, sujeito às paixões e aos achaques inerentes à carne humana.              

            Saiba, portanto, o Santo Padre que a si próprio se aplicam com exatidão apavoradora as palavras da Escritura: Aquele que habita os céus zombará deles, isto é, dos profetas de quimeras.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Domingos e Dias Santos



 Domingos e Dias Santos

por Vinícius (Pedro de Camargo) 

Reformador (FEB) Maio 1951

           O título desta crônica traz-me uma série de saudosas recordações.

            Conheci, em minha mocidade, um rapaz de temperamento jovial, sempre bem humorado, que viajava para uma grande casa comercial, com sede em Santos.

            Achando-se em certa cidade do interior, indicaram-lhe que ali se organizara uma firma para explorar o gênero de comércio que ele representava. Dirigiu-se, então, o aludido moço, aos componentes da nova organização, a fim de oferecer-lhes as mercadorias próprias do ramo a que se iam dedicar. Entrando em conhecimento direto com eles, perguntou-lhes qual era a sua firma. Responderam-lhe: Domingos & Dias Santos. Retruca de pronto o viajante: Nada feito. Sinto muito, mas não podemos encetar transações. Sua firma não inspira confiança porque não conta com os dias úteis! 

            Nos países latinos vigora o espírito daquela firma comercial com quem o “cometa” faceto (brincalhão) não quis entrar em entendimento. Os feriados e dias santos, impostos por força de decretos, quebram, a cada passo, o ritmo do trabalho, reduzindo a produção, e, consequentemente, acoroçoando (incentivando) a malandrice e a majoração do custo da vida.

            O farisaísmo (hipocrisia) de antanho (do passado) censurou o Educador Excelso - porque não impunha aos seus discípulos a guarda dos sábados. Revidando essa crítica, disse o Mestre: O sábado foi criado para o homem, e não o homem para o sábado. Meu Pai age sempre, nunca cessa de agir, e eu também. 

            Nós, os cristãos novos, fazemos outro conceito a propósito da santificação de tempo. De modo geral achamos que todos os dias, em si mesmos, são santos, restando, por isso, serem santificados pelas nossas obras. O dia mais santo, segundo o nosso credo, é aquele em que praticamos espontaneamente um grande bem; em que conseguimos amparar um irmão que sofre, mitigando, ou, se possível, afastando a causa da sua dor. Consideramos também, como santo, aquele dia em que vencemos uma das nossas muitas imperfeições, mantendo à distância os tentadores da Terra e do Espaço... Finalmente, é um dia festivo e solene para o espiritista aquele em que lhe seja concedida a graça de levar a alegria a um coração desesperado, a um lar que se encontre em dificuldades.

            A santificação deve partir de nós, seres conscientes e responsáveis, e não de almanaques. Nossa fé não conta dias especiais em que seja cultuada de modo particular. Não é uma espécie de vestido novo para atos solenes e para festividades. Ela nos inspira os pensamentos e as preocupações de todos os instantes, revelando-se em nosso comportamento cotidiano, tanto no seio da família como no da sociedade. Não se restringe a datas, estas ou aquelas: domina completamente as nossas almas.

            Quando o Mestre inseriu, na oração que nos legou, esta frase: santificado seja o teu nome - referindo-se ao nosso Pai celestial - quis dizer, com isso, que a cada um de nós cumpre o dever de santificar, em si próprio, o nome de Deus. Ele não pode ser mais santo do que é, visto como é a perfeição única, infinita, porém, nós, seus filhos, temos obrigação de santifica-lo, tornando-nos os reflexos, embora pálidos, da sua santidade, de vez que fomos criados à sua imagem e semelhança.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Domingos e dias santos

 


Domingos e Dias Santos

por Vinícius (Pedro de Camargo) Reformador (FEB) Maio 1951

           O título desta crônica traz-me uma série de saudosas recordações.

            Conheci, em minha mocidade, um rapaz de temperamento jovial, sempre bem humorado, que viajava para uma grande casa comercial, com sede em Santos.

            Achando-se em certa cidade do interior, indicaram-lhe que ali se organizara uma firma para explorar o gênero de comércio que ele representava. Dirigiu-se, então, o aludido moço, aos componentes da nova organização, a fim de oferecer-lhes as mercadorias próprias do ramo a que se iam dedicar. Entrando em conhecimento direto com eles, perguntou-lhes qual era a sua firma. Responderam-lhe: Domingos & Dias Santos. Retruca de pronto o viajante: Nada feito. Sinto muito, mas não podemos encetar transações. Sua firma não inspira confiança porque não conta com os dias úteis! 

            Nos países latinos vigora o espírito daquela firma comercial com quem o “cometa” faceto (brincalhão) não quis entrar em entendimento. Os feriados e dias santos, impostos por força de decretos, quebram, a cada passo, o ritmo do trabalho, reduzindo a produção, e, consequentemente, acoroçoando (incentivando) a malandrice e a majoração do custo da vida.

            O farisaísmo (hipocrisia) de antanho (do passado) censurou o Educador Excelso - porque não impunha aos seus discípulos a guarda dos sábados. Revidando essa crítica, disse o Mestre: O sábado foi criado para o homem, e não o homem para o sábado. Meu Pai age sempre, nunca cessa de agir, e eu também.  

            Nós, os cristãos novos, fazemos outro conceito a propósito da santificação de tempo. De modo geral achamos que todos os dias, em si mesmos, são santos, restando, por isso, serem santificados pelas nossas obras. O dia mais santo, segundo o nosso credo, é aquele em que praticamos espontaneamente um grande bem; em que conseguimos amparar um irmão que sofre, mitigando, ou, se possível, afastando a causa da sua dor. Consideramos também, como santo, aquele dia em que vencemos uma das nossas muitas imperfeições, mantendo à distância os tentadores da Terra e do Espaço... Finalmente, é um dia festivo e solene para o espiritista aquele em que lhe seja concedida a graça de levar a alegria a um coração desesperado, a um lar que se encontre em dificuldades.

            A santificação deve partir de nós, seres conscientes e responsáveis, e não de almanaques. Nossa fé não conta dias especiais em que seja cultuada de modo particular. Não é uma espécie de vestido novo para atos solenes e para festividades. Ela nos inspira os pensamentos e as preocupações de todos os instantes, revelando-se em nosso comportamento cotidiano, tanto no seio da família como no da sociedade. Não se restringe a datas, estas ou aquelas: domina completamente as nossas almas.

            Quando o Mestre inseriu, na oração que nos legou, esta frase: santificado seja o teu nome - referindo-se ao nosso Pai celestial - quis dizer, com isso, que a cada um de nós cumpre o dever de santificar, em si próprio, o nome de Deus. Ele não pode ser mais santo do que é, visto como é a perfeição única, infinita, porém, nós, seus filhos, temos obrigação de santifica-lo, tornando-nos os reflexos, embora pálidos, da sua santidade, de vez que fomos criados à sua imagem e semelhança.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Só Deus é grande

                     

Só Deus é grande

Pedro de Camargo (Vinícius)       Reformador (FEB) 3 Outubro 1919

            É conveniente, é necessário mesmo que os aldeões visitem os grandes centros, as metrópoles onde o formigueiro humano fervilha e onde há, para eles, muito que ver e observar além dos acanhados limites a que se acham afeitos.

            Por sua vez, os habitantes das capitais populosas e ricas devem viajar a fim de conhecerem outras metrópoles para não suporem que aquilo que possuem seja um privilégio seu. Finalmente, os homens todos devem estudar um pouco de Astronomia, ligeiras noções embora, que lhes deem uma ideia da magnificência da criação, pois só assim eles compreenderão como são pequeninos e como Deus é grande.

            É um excelente remédio contra nosso desmedido orgulho e nossa ridícula jactância.

            O aldeão sente-se apoucado nas capitais; os moradores de certa metrópole sentem-se reduzidos quando se encontram em outros centros semelhantes, e os homens, em geral, sentem-se desaparecer quando fitam a Imensidade onde as constelações se ostentam e se desdobram numa série infinita de mundos e sóis que confunde, alucina e faz delirar a pobre mentalidade humana.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

“Similia similibus curantur”

 


Trechos do artigo sob título

“Similia similibus curantur”

por Vinícius (Pedro de Camargo)      Reformador (FEB) 1º Julho 1937

             ...o papado que, a seu turno, alimenta ideias imperialistas, pretendendo exercer, como exerce em certos países de governos fracos, a ditadura espiritual, intervindo, para consecução dos seus desígnios, de modo direto e indireto, em todos os ramos de atividades, políticas, sociais e educacionais, dos povos em cujo seio se aninha...

             ...Dentre as lamentações do papa, destacamos o tópico abaixo transcrito, que vale pela condenação do mesmo papado:

             “Ainda que um homem reúna em si todo o saber, todo o poder e toda a potência material desta Terra, não pode lançar fundamento diverso do que foi lançado, que é Jesus Cristo. (1ª Cor., 3-11)

            Aquele, portanto, que, por sacrílega negação da diversidade essencial que existe entre Deus e o homem, entre o Filho de Deus e os filhos dos homens ousasse colocar ao lado de Cristo, ou pior ainda, sobre ele e contra ele, um simples mortal e fosse esse o maior de todos os tempos, saiba que mais não é senão um profeta de quimeras, ao qual se aplicam com exatidão apavorante as palavras da Escritura: Aquele que habita nos céus zombará deles,” (Salmos 2, 4.)

             Ora, qual é o homem que, neste mundo pretende colocar-se ao nível de Deus, avocando, sacrilegamente, a si atributos divinos, inclusive a infalibilidade, senão o próprio papa?

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            O papa, como é público e notório, é o homem que se diviniza a si mesmo, deixando-se adorar pelos seus semelhantes, distribuindo bênçãos e estendendo os pés para serem osculados.

            Ele próprio, portanto, é o falso profeta que ousa colocar-se ao lado do Cristo e, pior ainda, sobre ele e contra ele, sendo um simples mortal, sujeito às paixões e aos achaques inerentes à carne humana.              

            Saiba, portanto, o Santo Padre que a si próprio se aplicam com exatidão apavoradora as palavras da Escritura: Aquele que habita os céus zombará deles, isto é, dos profetas de quimeras.

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Do Blog: Os dogmas não se alteraram mas, há que reconhecer que o papa Francisco é mais suave em suas colocações... 

sábado, 26 de setembro de 2020

A Virtude da Morte

 A Virtude 
da Morte   

por Vinícius 

(Pedro de Camargo)

Reformador (FEB) 

16 Novembro 1929

             Morreu o mendigo Lazaro e morreu também o rico que se vestia de púrpura e linho, disse Jesus numa de suas admiráveis parábolas.

            Quanta filosofia em frase tão simples e tão singela! Morrem os mendigos cobertos de andrajos e morrem também os ricos que se vestem de púrpura e linho!

            Nesse particular, a morte, pela perfeita imparcialidade com que procede, faz jus, não digo à nossa simpatia, mas ao nosso respeito.

            Sim ó! Morte, tu procedes com isenção completa de privilégios. Tu desconheces prerrogativas. Para ti não valem títulos, nem brasões. Nenhum respeito humano, nenhuma distinção logra suster teus braços no manejo do alfanje fatal que empunhas. Penetras a choupana do pobre, os cortiços onde se acoita a escumalha social, a mansarda infecta dos miseráveis e invades com o mesmo desdém os elegantes “villinos” (chalés), os solares opulentos, os palácios suntuosos! As escadarias de mármore de Carrara, os tapetes da Pérsia, as passadeiras aveludadas não conseguem embargar teus passos! Altiva e desdenhosa, pisas a enxerga úmida e pútrida, como as mais finas tapeçarias do Oriente.  

            Olhas com a mesma indiferença os candelabros artísticos, os lustres de cristal e prata cinzelada, como a fuligem que balouça em pingentes disformes dos telhados denegridos. Afastas os reposteiros (cortinas que servem como portas) e cortinas de damasco com a mesma sem cerimônia com que o fazes às teias de aranha.

            Não te impressionas com a pobreza, nem coma riqueza. Não te fazem mossa (cavidade feito em materiais como madeira, ferro etc.) este ou aquele sexo, a velhice ou a juventude, a beleza ou a fealdade. Não te perturbas com a sabedoria, nem com a ignorância; com a virtude, nem com o vício. Nenhuma posição, nenhum destaque, nenhum mister ou profissão exerce sobre ti a mínima influência, Não te importas, tão pouco, com esta ou aquela conjuntura especial ou particular. Cortas o fio da vida ao pária que, em aflições incontidas, se estorce e escabuja, só e abandonado, num desses leitos de hospital, em horas caladas da noite; procedes da mesma forma com o enfermo ilustre e conspícuo, que se vê rodeado de amigos e parentes, tendo a cabeceira, maiores sumidades médicas do século! A ti, não se te dá, ao ceifares uma existência que a vítima tombe exânime sem haver alguém que a ampare na rudeza da queda, ou que ela repouse em mil braços ternos e afetuosos.

            Não queres saber se tua ação vai dilacerar corações e provocar torrentes de lágrimas ou se vai passar despercebida quase: és invariavelmente a mesma diante de todos os homens e de todos os acontecimentos. Segundo teu consenso, a sociedade não tem altos, nem baixos, relevos nem depressões: nivelas com a máxima precisão todas as camadas humanas. Nada te impressiona, nada te abala, nada te comove: és impassível!

           Não sei, ó Morte, se te posso dizer justa, diante da crueldade com que frequentemente procedes. Chamam-te “Parca” e “Megera”. Alegorizam-te sob hedionda figura ameaçadora e bárbara, de alfange (tipo de foice) em punho, à cata de vítima. És temida em toda a parte. Só falar em ti causa horror à mente e angustia ao coração. Contudo, ó Morte, forçoso é confessar: tens um mérito muito grande, possuis uma virtude à qual rendemos homenagem - a imparcialidade... maneira imparcial com que ages, não sendo embora, a expressão da justiça, porque, como já disse, é cruel e onde há crueza não há justiça, todavia, teu modo de ação se aproxima dela, tem, inegavelmente, algo que com a justiça se parece.

             Honra, pois, ó! Morte, à tua imparcialidade.


sábado, 1 de agosto de 2020

Ingratidão


Ingratidão
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Setembro 1953

           Relata Lucas, no capítulo 17 do seu evangelho, o seguinte caso: 

             Ao entrar Jesus em certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, os quais pararam de longe, e clamaram, dizendo: Mestre, tem compaixão de nós! Disse-lhes o Senhor: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes.
            E aconteceu que, enquanto iam, ficaram sãos. Um deles, sentindo-se curado, retrocedeu glorificando a Deus em alta voz; e, prostrando-se aos pés do Mestre, dava-lhe graças.
            Este era samaritano. Perguntou então, Jesus: Não foram dez os beneficiados? Onde estão os outros nove? 
            Não se achou quem voltasse para dar glórias a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.

            O presente relato nos oferece várias lições, dignas de apreço. Os judeus, como ê sabido, não se comunicavam com os samaritanos, aos quais consideravam como gentios e hereges.

            Nada obstante, a dor, em sua função regeneradora, irmanou aqueles dez sofredores, superando os preconceitos que os desuniam.

            Segundo as ordenanças moisaicas, competia aos sacerdotes averiguar os casos de cura da temida enfermidade, suspendendo, então, as interdições e restrições a que se achavam submetidas as suas vítimas.

            Por isso, os nove judeus prosseguiram maquinalmente a caminhada, submissos ao estatuto que os regia. O samaritano, porém, no ver-se “limpo”, inflamou-se de júbilo, e começou a entoar cânticos de louvor àquele que o havia curado. Retrocedendo, foi em busca do benfeitor, a cujos pés se prosterna, tributando lhe o preito de sua gratidão. Diante de tal gesto, o Mestre o levanta, e diz: Não foram dez os curados? Onde estão os outros nove?

            Então só este estrangeiro é que veio dar graças a Deus? Vai; a tua fé te salvou.

            Realmente, a fé redentora é viva e livre. Como potência Incoercível, rompe as amarras das superstições e dos formalismos: age com espontaneidade, irrompendo das profundezas da alma como rajadas de luz que se projetam a distância. Daí o pronunciamento do Mestre com relação ao Samaritano: Vai; a tua fé te salvou.

            A influência dessa virtude foi mais longe no caso em apreço, gerando, no coração do beneficiado, o sentimento de gratidão, atestado eloquente de nobreza.

            Tendo Jesus a possibilidade de devassar os arcanos do Espírito, encheu-se de alegria verificando o que se passava com aquele pecador, cuja prova dolorosa terminara com a sua redenção.

*

            O mundo em que vivemos é dos ingratos. As páginas da sua história registam, em cada uma delas, gestos e lances de ingratidão. Citemos apenas dois casos, dentre milhares. Que sucedeu aos dois grandes vultos da emancipação dos escravos nas terras do Novo Mundo, Lincoln nos Estados Unidos e a Princesa Isabel, no Brasil? Aquele foi assassinado, e esta, destronada e banida, morreu no exílio.

            Hoje, vê-se o retrato do inolvidável estadista americano suspenso às paredes. Quanto à Isabel, a redentora, o Governo do Brasil acaba de promover a trasladação dos seus ossos, aos quais rende culto e homenagens, confirmando assim a assertiva evangélica dirigida aos fariseus dos tempos pretéritos: Vossos pais mataram os profetas e vós lhes erigis os túmulos.

            A gratidão, diz, com justeza, Tobias Barreto, é virtude da posteridade.

            Realmente, é o que sucede: as gerações futuras incumbem-se de reparar as injustiças e as ingratidões das gerações passadas. É a vindita da História.

            E o que dizer da ingratidão dos filhos, tão comum nos dias de hoje? 

            Todavia, há um remédio infalível contra as ingratidões, o qual consiste em fazer o bem pelo mesmo bem, segundo o espírito destes belos conceitos de Vigil: Semeador de Amor - que teus passos ressoem nas profundezas da terra; que o seu seio se abra e estremeça para receber tua semeadura. Que tuas mãos reproduzam os movimentos do teu coração. Alija a solidão, quebra o silêncio: avança. Semeia, como Ele te disse, a palavra do bem e do amor entre as multidões. Dia virá em que tua sementeira se levantará como uma bênção sobre o mundo. Nada busques, nada esperes dos homens. A atmosfera do céu te alimentará. Eis, diz o Senhor, que eu te amo. Porque, então, buscarás a fama e a glória terrestres? Que teu amor se derrame, sem que saibas onde. Que tuas esperanças partam cada dia como um enxame de abelhas, e ajuntem e fabriquem o mel embora não vejas, sequer, um só favo para ti!

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Nuvem por Juno


Nuvem por Juno
por Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) 15 Fevereiro 1919

            Frequentemente ouvimos pessoas que não tem aprofundado o assunto, emitir este conceito: Toda religião é boa uma vez que haja sinceridade entre seus adeptos.
            Este parecer não traduz, em verdade, o pensamento daqueles que assim se exprimem. O mérito que eles atribuem a todas as religiões, mérito que faz jus ao qualificativo “boa”, não pertence às religiões mas à sinceridade.
            A sinceridade é uma virtude e, como tal, é sempre boa uma vez onde quer que se manifeste, onde quer que esteja. A sinceridade tem o mesmo valor, assume o mesmo característico de virtude, quer a verifiquemos no católico romano, no protestante, no espírita, no positivista e no ateu. Isso é que faz supor que qualquer credo seja bom desde que se constate sinceridade em seus adeptos.  
            Ora, sendo a virtude aquilo que é bom em toda a parte, segue-se naturalmente que a verdadeira religião deve ser a religião da virtude; não só daquela virtude denominada - sinceridade - mas da virtude em geral, debaixo das múltiplas modalidades em que se desdobra.  
            O amor é a virtude por excelência. Do amor derivam todas as virtudes, conforme ensinou magistralmente o Apóstolo dos Gentios quando disse:  

            “O amor é longânimo, é benigno, é paciente, não inveja, não se jacta, não se ensoberbece, não busca interesses próprios, não se irrita, não suspeita mal. O amor  
regozija-se com a verdade e com a justiça: tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.”  

            A religião do amor, aquela que prescreve o culto desse sentimento como base, tal como Jesus o ilustrou na Parábola do Bom Samaritano, essa é, de fato, a única religião capaz de regenerar e aperfeiçoar o homem, conduzindo-o à realização dos elevados destinos da vida, porque o amor encerra o dever, encerra, finalmente, todas as fórmulas múltiplas da virtude.
            Tal é a religião encarnada e difundida por Jesus Cristo. O Evangelho todo é, em substância, a mais alta e elevada consagração do amor e o mais formidável libelo contra o egoísmo que, como se sabe, é o grande inimigo daquela virtude.
            O Espiritismo não se apresenta no mundo e como uma nova fé, como um novo credo, como uma nova religião, o Espiritismo aponta a religião do amor personificada em Jesus Cristo como a única fé que regenera e salva.
            Não se diga, pois, que toda religião é boa: diga-se que a virtude é sempre digna, onde quer que se manifeste, se ostente. Diga-se que a religião verdadeira é aquela que, fundando-se exclusivamente no culto da virtude, renuncia ao mundo com suas ambições, não age sobre os sentidos por meio de cerimônias e de aparatos, mas atua sobre a razão e o coração, educando os poderes do Espírito e aprimorando os sentimentos.
            Não é ao sectarismo, que divide a família humana, que devemos reverência: é a virtude. A virtude faz jus ao respeito, mesmo por parte daqueles que dela vivem divorciados, o que justifica a sabedoria deste conceito: “A hipocrisia é o preito de homenagem que o vício rende à virtude.”  
            Basta, portanto, de ilusão, não tomemos mais a nuvem por Juno (1).

            (1) iludir-se; tomar os desejos por realidade.
                Expressão idiomática greco-romana. É explicada pela Wikipédia como se segue: 
            “Após apiedar-se de uma punição aplicada ao vilão Íxion, criador de cavalos, Zeus convidou-o para um banquete no Olimpo. Tendo-se embriagado pelo néctar, Íxion passou a assediar Hera (Juno, na mitologia romana), a própria mulher de seu anfitrião. Ao perceber as intenções do visitante, Hera alertou o esposo a respeito das intenções de seu convidado. Zeus, em lugar de irritar-se, achou divertida a situação, e para testar seu hóspede, moldou uma nuvem na forma de sua própria esposa e deixou-a a sós com Íxion, que a possuiu. Desse conúbio nasceu a raça dos Centauros, metade homens, metade cavalos. Como Íxion divulgou aos mortais que havia possuído a esposa de Zeus, este o fulminou com um raio e o lançou ao Tártaro, onde foi preso a uma roda em chamas e condenado a nela girar pela eternidade.”


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Uma intervenção cirúrgica sensacional



Uma intervenção cirúrgica sensacional
Pedro de Camargo (Vinícius)
Reformador (FEB) Agosto 1943

            Esta a epígrafe que o nosso benquisto confrade e muito prezado amigo VINÍCIUS, cujo nome constitui, por si só, garantia plena da autenticidade do fato relatado, deu, em o jornal "A Nova Era", de Franca, S. Paulo, de onde pedimos vênia para transcrevê-la, à narrativa de um fenômeno mediúnico e notável pela sua natureza e singularíssimo pela circunstância de um desencarnado manifestar-se, pelo seu médium, ao promotor público que fizera fosse este último à sua presença, para interroga-lo sobre a acusação que lhe era assacada. Ocorreu assim o fato, segundo Vinicius:

            “O caso passou-se há pouco tempo na próspera cidade de Araçatuba.

            Yolanda Carduci, de conhecida família residente em Bebedouro, casou-se com um rapaz de Araçatuba, passando, então, a morar nesta cidade. Pouco tempo depois de casada, Yolanda apresentou-se com ataques, os quais se foram repetindo cada vez mais amiudados, a ponto de ter tido 9 a 10 por dia. Todo o tratamento médico a que se submeteu foi improfícuo. Em vista disso, cansada de sofrer, recorreu ao Espiritismo, não obstante ser católica e de família ultra católica. Tratada convenientemente, pois o seu mal era todo de origem espiritual, Yolanda curou-se completamente.

            Em virtude do sucedido, Yolanda, que conta 18 anos de idade, começou a frequentar o Grupo Espírita "Ramos da Videira", recentemente fundado em Araçatuba. Ali manifestou-se lhe a mediunidade de curar.

            A uma sessão de cura, compareceu Maria Paulina, operária, portadora de um tumor no fígado, segundo diagnostico do facultativo Dr. Raposa. Este propôs operá-la na Santa Casa local, estabelecendo os seus honorários. Maria Paulina, porém, não anuiu à proposta, pois não dispunha de recursos para enfrentar as despesas da intervenção. Além do tumor no fígado, a doente não era menstruada, padecendo de corrimento anal. Neste passo, o Espírito da Dra. Anita Ribeiro, nome bastante conhecido em Rio Preto, onde residiu, prontificou-se a examinar a paciente através da mediunidade de Yolanda.

            Após minucioso exame, a Dra. Anita disse que operaria Maria Paulina no dia seguinte.

            Na hora aprazada, pediu gaze, álcool, iodo, etc. Tomou providencias anticépticas e fez a operação. Corte profundo, bastante sangue, desinfecção, pontos que não se viam, suturando o corte, esparadrapos, etc. Resultado: a enferma curou-se radicalmente do fígado, regulando-se também o fluxo mensal, desaparecendo o corrimento anal!

            Durante a intervenção a enferma conversou com a Dra. Anita; e, não obstante ter os olhos vendados, afirma ter visto e acompanhado a operação em suas minúcias.

            O fato, como é natural, produziu grande sensação. E tomou maior vulto ainda, depois que o Dr. Plácido, conhecido médico da localidade, deu queixa à Polícia. O Promotor houve por bem abrir sindicância sobre o ocorrido.

            Ouviu a médium que, no momento, foi tomada pelo Espírito da Dra. Anita, dando ao Promotor todas as Informações, com precisão e inteligência.

            O Jornal de Araçatuba noticiou o caso.

            Essa maravilhosa intervenção abalou a população de Araçatuba que permanece ainda sob profunda emoção.

            Além da mediunidade curadora, Yolanda revela outras modalidades, inclusive a de vidência, ora em início. O seu desenvolvimento medianímico é recente, dando a impressão de que esse aparelho será um dos grandes médiuns desta Pátria do Evangelho e Coração do Mundo.

            Contra fatos não valem argumentos. O caso em apreço é positivo, categórico e notório, tendo enorme repercussão na zona onde se verificou.

            Que vejam os que tiverem olhos de ver, por isso que os tempos são chegados.

            Infelizmente, o autor do relato que se acaba ele ler, esqueceu-se de informar alguma coisa sobre o desenvolvimento e o desfecho tido pelo processo que naturalmente se originou da queixa do doutor que não pode conformar-se com a concorrência de uma cirurgiã invisível, porque desencarnada. Fora interessante saber-se o que houve depois da fala do Espírito da Dra. Anita Ribeiro com o promotor.

            Terá sido mandada para a prisão a operadora?

sábado, 25 de abril de 2020

Caos protestante



Caos protestante
Vinícius (Pedro de Toledo)
Reformador (FEB) Setembro 1929

            Sob o título acima, V. Cy, douto e apreciado colaborador do “Estado” publicou nessa folha um interessante artigo a propósito da incoerência doutrinaria verificada entre os pastores protestantes de Norte América.

            Reporta-se o ilustrado articulista a uma obra que acaba de ser editada em Chicago, despertando grande interesse entre o intelectuais norte-americanos.

            Trata-se de um inquérito aberto pelo professor de Educação Religiosa na “NorthWestern University” daquele Estado. O referido inquérito consta de 56 quesitos acerca de pontos da doutrina. Das 56 perguntas, dirigidas a 700 pessoas - ministros evangélicos em exercício e seminaristas -- apenas uma - aquela que se refere à existência de' Deus - teve resposta acorde e uniforme. As demais - 55 - foram respondidas de maneiras diversas demonstrando completa ausência de unidade nos arraiais reformistas.

            Assim, por exemplo, sobre o dogma da Trindade, 20% dos ministros não concebem um deus único em três pessoas distintas. Entre os estudantes de teologia, que representam o clero protestante de amanhã, apenas 44% aceitam o dogma trinitário. A onipotência divina é reconhecida por 87 % dos ministros e por 64% dos estudantes. A história da criação do mundo tal como reza a letra do ‘Gênesis’, aceitam-na 47% dos ministros e apenas 5% dos seminaristas.

            O Diabo está seriamente desacreditado, pois admitem sua existência 60% dos velhos pastores e somente 9% dos estudantes. Como se vê, o crédito do Diabo decresce à medida que o mundo avança. Quanto ao dogma do lnferno, verifica-se a mesma decadência : 53% dos ministros e apenas 11% dos estudantes o aceitam. Até o mesmo céu, como mansão dos justos, é negado por 69% da mocidade que frequenta os seminários.

            Outros pontos de doutrina obtiveram, a seu turno, respostas contraditórias. As denominações, cujo representantes responderam ao dito questionário, são as seguintes: Luteranos, Episcopais, Evangelistas, Presbiterianos, Batistas, Congregacionistas e Metodistas.

            Comentando este curioso e significativo inquérito, o ilustrado signatário do artigo donde respigamos os dados acima conclui pela falência do Cristianismo, Alega V. Cy que a doutrina de Jesus fracassara, tanto concedendo-se lhe liberdade de exame, como no Protestantismo, como impondo-se por autoridade pessoal, como no Romanismo. Esta igreja afigura-se ao erudito cronista mais coerente e consequente em matéria religiosa, visto como, pela força da autoridade, tem, pelo menos, conservado a unidade em seu seio.

            Pondo de parte outros pontos em que a angústia de tempo e de espaço não nos permite tocar, pedimos vênia para discordar de V. Cy. quanto à sua conclusão acerca da bancarrota do Cristianismo. O que se verifica do célebre inquérito de Chicago é a falência do dogma. O desmoronamento da estrutura dogmática é um fato que, de há muito, se vem consumando positivamente. Obra humana, levantada sobre a areia movediça das paixões e dos interesses, o dogma não resiste ao surto da inteligência e da razão. A medida que estas faculdades se desenvolvem, o dogma se esbordoa, Isto é um fato inconteste, em que pese ao másculo esforço dos reacionários e ultramontanos de todos os calibres, deste ou daquele arraial. E não é só no campo religioso que tal fenômeno se opera. Na esfera da Ciência, ele é também uma realidade. Muitos dogmas, tidos como expressão científica, se desfizeram como bolhas de sabão sem que alguém viesse proclamar a falência da ciência. Os pontos de vista humanos, as observações deficientes, os juízos apressados etc., respondem por tais erros, e não a ciência propriamente dita.

            Da mesma sorte, concluir do resultado do inquérito de Chicago que haja fracassado a missão redentora do filho de Deus é um rematado paralogismo.

            Falência do Cristianismo? Como ter falido uma doutrina que nem sequer foi ensaiada e muito menos praticada na Terra? Onde se pretende ver a fé do Crucificado? Será nesse amálgama de dogmas obsoletos, de rituais e de cerimônias litúrgicas herdadas do Paganismo? Quando e onde o Divino Mestre prescreveu a Trindade, o Diabo, o Inferno, o Purgatório, ou qualquer determinado modo de crer, como base de fé, ou meio de salvação?

            A ética e a moral cristã, proclamada no Sermão do Monte e nas admiráveis parábolas evangélicas, nada tem em comum com as modernas concepções mitológicas do Sacerdócio desta ou daquela igreja.

            Toda a árvore não plantada pelo Pai será arrancada diz o Evangelho. A derrocada dos dogmas está prescrita pela palavra do Senhor. Tal acontecimento portanto, longe de constituir a falência do Cristianismo representa, antes, os sinais precursores de seu próximo e definitivo triunfo.

            Os grandes ideais caminham lentamente. Não se pode constatar sua vitória senão através de múltiplas gerações. A natureza não dá saltos. A doutrina daquele que pode dizer com autoridade - eu sou o caminho, a verdade e a vida - não faltará. Os pródromos de sua reivindicação. Já se desenham nitidamente nos horizontes, para os que têm olhos de ver.

             Não nos impressionemos com o desmoronar da estruturação dogmática. Sobre seus escombros brilhará em breve o Sol do Espírito, a Luz do Mundo: Jesus Cristo.