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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Perseguição espiritual


Perseguição espiritual
Editorial
Reformador (FEB) Outubro 1923

            Entre as curas de enfermos, referidas no Evangelho, consideradas miraculosas, figura a dos possessos. A significação deste termo é conhecida.
            Como sabem os confrades, teórica e praticamente, grande e constante é a influência dos espíritos, desde a atuação simples até ao domínio ou subjugação do paciente.
            Fundada em fatos de observação quotidiana - e a Federação Espirita Brasileira, destroçando preconceitos científicos, pode enumerá-los às dezenas - a nossa doutrina a este respeito, como em outros pontos, encontra plena confirmação no Evangelho.
            Temos a palavra do Senhor.
            Ele nos revelou a existência do espírito obsessor invisível, que se afasta à sua ordem.
Não se trata de opinião ou de apreciação do narrador evangélico, a qual poderia ser errônea; mas de afirmação positiva e categórica do Cristo.
            Referem os evangelistas que, em certa ocasião, doutrinando Jesus na sinagoga, ali se achava “um homem possesso de espírito imundo”.
            Como o obsessor tivesse falado pela boca da vítima, o Senhor ordenou, não à esta, mas àquele:
            “- Cala-te e sai desse homem”. (Marcos, I. 23-25; Lucas, v, 33-35)
            Estamos, pois, em face de duas entidades bem distintas, reconhecidas por Jesus: o indivíduo perseguido, encontrado na sinagoga, e o perseguidor oculto, a quem foi imposta a ordem de retirada, efetivamente cumprida.
            De outra feita, no território dos gerasenos (ou gadarenos), fronteiro à Galileia, Jesus deu ordem idêntica ao obsessor de um homem, vindo a seu encontro:
            “-Espírito imundo, sai desse homem.” (Marcos, v, 1-8; Lucas, VIII, 26-29)
            O divino Mestre dirigiu ainda uma pergunta ao perseguidor espiritual.
            Em outro caso, vem da mesma forma transcrita a ordem do Senhor:
            “- Espírito surdo e mudo, Eu te mando: sai desse moço e não tornes a entrar nele.” (Marcos IX, 24.)
            Citamos essas ocorrências, porque são características. Narrando as aos evangelistas reproduzem as próprias palavras do Cristo, reveladoras da verdade sobre as obsessões, causadas por agentes espirituais.
            É a tese que o Espiritismo vem sustentando desde o seu início contra a suposta ciência materialista e a incredulidade.
            Que havemos de opor à cegueira voluntária?
            As leis do sofrimento e do progresso, que se realiza em vida sucessivas.
            Aos que desejam e querem aprender, apresentamos, além da lição do Evangelho, a nossa longa e paciente documentação, em longos anos de trabalhos, pesquisas, observações e experiências.

*

            Os discípulos de Jesus não haviam conseguido a cura, em vão tentada, de um dos obsidiados acima aludidos.
            Qual o motivo do insucesso?
            O Senhor lhe declarou: “Por causa da sua incredulidade...
            “Esta espécie de demônios não se lança fora senão à força de oração e de jejum.” (Mateus XVII, 19, 20.)
            Jesus, a personificação da bondade e do amor, nos indicou, em primeiro lugar, a causa primordial da obsessão, tida por enfermidade que pode ir até a loucura, como aconteceu ao possesso, ou, segundo Mateus, aos possessos, em extremo furiosos, do país dos gerasenos.
            Em segundo lugar, nos ensinou os meios de cura, que se resumem na fé e na prece.
            Na era espírita, conhecida a mediunidade, podemos melhor compreender e aplicar os preceitos evangélicos para a libertação de obsidiados.
            As antigas práticas exorcistas ainda mantidas pelas igrejas, eram e são inúteis ou contraproducentes porque irritam e exacerbam os perseguidores.
            Mais do que as teorias, convencem os fatos.
            As contínuas vitórias alcançadas pelo Espiritismo, no tratamento e cura das obsessões, graças à Providencia divina, por seus agentes invisíveis, Guias espirituais, provam a eficácia dos seus processos.
            Eles hão de generalizar-se, porque os tempos são chegados e as verdades serão reconhecidas e proclamadas.
            Como os ocultos, serão vencidos os perseguidores encarnados.

O Espiritismo



             “O Espiritismo, meus amigos, bem o compreende algum de vós, vem de cima e, porque vem de cima triunfará. É o Evangelho revelado pelos Espíritos que recebem a palavra de Deus e explicado conforme as necessidades morais dos tempos e das gerações. Porque, o Evangelho é o manancial de luz e de vida em todas as idades da humanidade e para todas as humanidades”. 

(Thomas de Aquino emRoma e o Evangelho(Ed. FEB)  
Reformador (FEB) Jan 1924

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Verdades da Verdade - Parte 1 de 5



             Afortunadamente, conseguimos localizar o livro sob o título ‘Verdades da Verdade’, editado pelo próprio Fígner, em 1930.

            Este livro condensa alguns dos melhores textos de Fígner que foram publicados no jornal ‘Correio da Manhã’ no início do século passado.

            Se você quiser saber mais sobre o Fígner (O irmão Jacó do livro ‘Voltei’, edição FEB), basta entrar no Google. Inúmeros sites fornecem detalhada biografia desse inesquecível personagem do movimento espírita na primeira metade do século passado.  


0   “Verdades da Verdade”

Ao Dr Edmundo Bittencourt

Pela superioridade de ânimo, desprezando interesses e preconceitos, me proporcionou meios de expandir 
as minhas idéias pelas colunas do Correio da Manhã, a minha gratidão.
Que Deus o abençoe.

            Julgando prestar um serviço à verdade ofereço este livrinho - reunião de artigos publicados no - “CORREIO DA MANHÔ - em diversas épocas - aos que se interessam pelos assuntos que condizem com a sobrevivência da personalidade humana e o seu destino.  
            Os diversos credos resolveram o problema segundo a capacidade mental ou interesses dos seus chefes. Para uns existe o céu, o purgatório e o inferno. Para outros há o céu e o inferno só, enquanto que para outros ainda há a desintegração gradual da personalidade, subindo a essência espiritual até o plano mental. Para outros, ainda, a morte é o apagar da luz de uma vela - o nada.
            Todos, porém, estão enganados. A verdade sobre este assunto é de fácil acesso a quantos com isenção de ânimo queiram conhece-la. Não existe a morte. Quando a criatura fecha pela derradeira vez os olhos aqui, no mesmo instante, e muitas vezes antes de o fazer, ela os abriu e continua a vibrar no outro plano - no mundo da verdade.
            Ao penetrar o espírito na vida espiritual é recebido, se o merecer, pelos seus entes caros que nela o precederam e depois gravita, segundo o seu estado moral, para regiões onde se encontram os que sé acham em idêntico estado ao seu. Aí, ele é feliz se foi justo e cumpridor dos seus deveres cristãos, ou infeliz, se foi mau. Toda a dissimulação lhe é impossível então, pois que todos os seus atos e pensamentos lá estão patentes as vistas de todos. Ele se acha moralmente nu. Sensação assaz desagradável para os que, podendo fazer o bem, fizeram o contrario.
            Vem muito a propósito uma comunicação recebida no meu grupo e que aqui transcrevo:
            "A alma é bem como um espelho, que tem a particularidade de gravar indelevelmente as imagens que se lhe antepõem. Espelho de dimensões incomensuráveis, reflete e deixa gravado o grande rosário das ações que pratica através de múltiplas encarnações!
            A esponja do tempo não lhe apagará jamais os traços, somente a própria ação terá o poder de destruir o mal que fez, pelo bem que fizer!
            Tudo escrito, gravado para estudo, para o progresso, para com o próprio esforço conquistar o seu verdadeiro e imortal paraíso."
            Todos seremos julgados não segundo as nossas crenças e sim tão somente, segundo os nossos atos.

Fred. Figner

1  A Divindade da igreja Católica

         De Barbacena me enviaram um livrinho com o supracitado título e como também se ocupa do espiritismo, peço ao monsenhor Miguel Martins licença para fazer uma análise da sua obra.
            A meu modo de ver, começou mal o monsenhor, pois logo na 1ª página truncou o versículo 17 do 18º cap. de Mateus, da seguinte forma:
            Diz monsenhor: "Se alguém não ouvir a igreja, seja ele por vós considerado como pagão e perverso", enquanto a passagem do Evangelho diz o seguinte: "Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só, se te não ouvir procura-o de novo, levando contigo duas pessoas para que sirvam de testemunho, e se os não ouvir, dize-o à igreja, e se não ouvir a igreja, tem o (tu) por um gentio ou um publicano".
            Já vê o monsenhor que não foi à igreja que Jesus se referia, nem lhe outorgou poder de espécie alguma. E dá-se mais: aí Jesus falava da igreja judaica, mesmo porque naquele tempo nem sombra da igreja católica existia, nem das imagens; e Jesus até o fim ou pregou nos campos ou nas sinagogas israelitas.
            No prefácio, diz monsenhor que escreveu este livrinho com o fim de salvar algumas almas e assim também a sua. Creio que a salvará, mas cometeu logo no princípio um grave erro com o desvirtuamento do versículo acima. E não sou eu, é João no vers. 18 do último capítulo do Apocalipse, que o verbera severamente.
            Também não foi bem inspirado o arcebispo D. Duarte Leopoldo e Silva, em aprovar o livrinho sem o ver, pois teria evitado este grave erro e outros que estão em desacordo com o Evangelho.    
            No segundo capitulo diz o monsenhor: "Em segundo lugar, para saber qual é o amor, quais os serviços que devemos prestar e quais as honras que devemos tributar a Deus, seria preciso por nós mesmos poder conhecer os seus gostos, os seus desejos e a sua vontade" . É boa...
            Então Jesus não ensinou qual é a vontade, gosto e desejo de Deus e o meio pelo qual o podemos amar e honrar? Jesus, além de ensinar os meios, exemplificou com os atos pelos quais podemos ser agradáveis ao Pai.
            Bem ensinou Ele: - "Amai-vos uns aos outros". “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama; e aquele que me ama será amado do meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele."
            Jesus deixou-se crucificar para nos dar o exemplo de resignação e humildade; e de amor e perdão quando do alto da cruz pediu ao Pai perdão pelos seus algozes, exemplificando com este ato o ensino: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam."  Fazer tudo isso e não fazer aos outros o que não desejamos que se nos faça, são os únicos serviços que poderemos prestar a Deus. Não é isso, Monsenhor?
            Também não está certo quando monsenhor diz: "Deus enviando ao mundo o seu unigênito Filho para salva-lo, fez por intermédio deste uma terceira e última revelação, completando e aperfeiçoando as duas anteriores. Com essa revelação plena, que devia ser a última, feita a todo gênero humano, o Filho de Deus constituiu a religião em seu estado definitivo". Não é verdadeiro isto. Nem Jesus instituiu as imagens nem as hóstias, nem a infalibilidade do papa, nem culto externo de espécie alguma, nem as missas pagas à boca do cofre, nem as encomendações dos corpos. E além de tudo Jesus ainda disse que os seus ensinos não eram definitivos quando ensinou: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito" (João, cap. 14), e, "Eu tenho ainda muitas coisas que vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora". "Quando vier porém, aquele Espírito da Verdade, ele vos ensinará todas as verdades". (João, cap. 16).
            Não se depreende daí, monsenhor, que a revelação que Jesus deu era velada, devido às condições atrasadas da humanidade de então, e que com o tempo enviaria o Espírito de Verdade, o Espiritismo, para trazer novas luzes às inteligências mais evolvidas para melhor as esclarecer! Ou acha monsenhor que a humanidade já cumpre os preceitos do Cristo?
            E a igreja? Amará ela já aos seus inimigos, desprezará já os bens terrenos dando-os aos pobres, tomando a sua cruz para seguir o Cristo? Em que consiste a sua divindade? Será na sua intransigência?
2

            No terceiro capítulo do seu livrinho, monsenhor Miguel Martins é um tanto incoerente quando ensina: "O homem não tem o direito de a seu capricho, nem mesmo à sua vontade (sem o especial consentimento de monsenhor) escolher para si uma qualquer elas religiões existentes; porém, tem o dever de adotar unicamente aquela de que ele tem a perfeita certeza que é a religião verdadeira, a que foi revelada por Deus". E adiante diz:  "Em qualquer tempo que lhes sobrevenha qualquer dúvida deverão consultar, estudar, ponderar, e logo que se convençam que a sua religião é falsa, devem imediatamente procurar professar aquela que julgam verdadeira."  Muito bem! Mas acaba o terceiro capitulo com a seguinte frase: "Por conseguinte tributemos todo amor, dedicação e devotamente à nossa religião; (ainda bem) e, pelo contrário, votemos todo desprezo, ódio e rancor a tudo quanto convém, interessa, agrada a todas as outras seitas e associações contrárias e adversas à nossa religião" (Mal, muito mal).
            Quase que sinto monsenhor dizer: ah! Que pena que não exista mais a Santa Inquisição! Mas de certo, porque o rev. seria logo elevado a inquisidor-mor.
            Foi esta a tolerância que Jesus pregou e exemplificou? Então o freguês tem por obrigação escolher a religião, que de acordo com a sua consciência seja a melhor, mas se esta não for a católica, - fogo nele?
            Que bela lógica! Não, monsenhor, o rev. descarrilhou, pois, como ensina logo no principio do 4º capítulo - "O Evangelho, é a história mais verdadeira que se possa imaginar" - e sendo assim, como é que monsenhor pode pregar o que acima cito? Não será o que Jesus previu quando disse que os tempos teriam chegado "quando a abominação da desolação estivesse no lugar que deveria ser santo?" Não é a abominação das abominações?
            Não é a igreja que desvirtua o que ela sabe ser o mais verdadeiro? Não ensina ela só os versículos que lhe convém, do Evangelho, escondendo aqueles que a condenam? Monsenhor não ignora que lá está a condenação da grande Babilônia e dos atos que ela pra ticou e pratica.
            Lá, Jesus manda: "Ide e pregai o Evangelho, cura os enfermos, ressuscitai os mortos, expeli os maus espíritos, dai de graça o que de graça recebeis"; e, em obediência a esse preceito, a igreja não cura, não ressuscita, não limpa os leprosos, não liberta os possessos e vende tudo o que de graça recebe, isto é, vende aquilo que finge ter recebido. Não é verdade, monsenhor?
            O espiritismo, seguindo os preceitos, ensina a salvação universal, mostrando um Deus cheio de bondade e misericórdia, ao passo que a igreja ensina a condenação eterna, fazendo de Deus um monsenhor Miguel Martins.
            O espiritismo prega o amor a todos sem cogitar de crenças, seitas religiosas ou nacionalidades, pois que no Além não há divisões nem limites e todos somos irmãos, filhos de um só pai. Lá, cada um sofre ou goza; de acordo com os seus atos. Ter pertencido a esta ou aquela seita nada vale, se os sentimentos não estiverem apurados, de acordo com os ensinos que tem baixado à Terra em diversas partes do mundo e em diversas épocas, e a todos ensinando a mesma moral que Jesus exemplificou - o amor ao próximo.
            O espiritismo ensina ainda, que as práticas pagãs da igreja católica e os seus atos exteriores nenhum valor tem perante o Criador pois só servem para deslumbrar a vista sem atingir o coração da criatura, e que, de acordo com os ensinos de Jesus, quem quiser orar e implorar a misericórdia do Pai, deve faze-lo fechado no seu quarto e não imitar o clero que nesse mesmo capítulo Jesus condena. (Mateus cap. 6).
            Pregando o ódio, desprezo e rancor, parece-me que o Monsenhor terá que voltar muitas vezes ao mundo antes que salve a sua alminha. Essa intolerância pode estar muito de acordo com a igreja, mas não com o Evangelho onde Jesus ensina a tolerância dizendo:  Não proibais que façam curas em meu nome; pois quem não é contra vós, é por vós” - e condena aqueles que, nada fazendo o chamam Senhor; Senhor. Não é verdade também isto, monsenhor?

3

            Diz monsenhor Martins no 4º capítulo do seu livrinho: "só a igreja católica é que constitui uma sociedade religiosa perfeita, como devia ser constituída por Jesus".
            "Em todas as sociedades que não têm à sua frente uma autoridade suprema, a quem todos os membros devem obedecer, em vez de ordem e respeito reinarão a insubordinação, a anarquia e a confusão. Pondo-se de parte a igreja católica, nenhuma outra associação religiosa tem um chefe espiritual e soberano, a quem todos prestem a devida submissão". "Todos os sacerdotes, todos os bispos do mundo inteiro obedecem ao papa".
            Não há dúvida que esta obediência é um fato, mas será um bem?
            Parece-me que não, pois o papa é homem falível como todos e como o próprio monsenhor diz no seu livrinho: "O erro será sempre o erro, embora o mundo inteiro o adote".
            Monsenhor sabe que o papado é a criação do sanguinário general Focas, do sétimo século, que, por despeito, deu ao bispo de Roma o titulo de bispo dos bispos não sendo, portanto, obra de Jesus.
            Sabe também que sem liberdade não pode haver progresso e que dando Deus o uso da razão ao homem não foi para que ela fosse escravizada a quem quer que seja e, se a igreja ainda tem adeptos, é porque em matéria religiosa o homem é preguiçoso para meditar. Enquanto queima as pestanas para resolver problemas difíceis ou negócios que lhe deem ganho material aceita os maiores absurdos em matéria religiosa como monsenhor mesmo o diz.  
            Também, o monsenhor não ignora que há exceções e que valiosos elementos têm recebido luz e abandonado a igreja, até entre o próprio clero, por terem descoberto que a divindade da igreja é uma vã pretensão, como não ignora que entre Pedro e Paulo houve desavenças, como as houve mesmo no tempo de Jesus entre os apóstolos, e eles eram os escolhidos. Portanto, se existe obediência na igreja católica, é devido ao interesse do clero que não quer perder o emprego e é esta a única razão da obediência.     
            Já vê que não é por santidade nem do papa nem da igreja, que há obediência, e sim pela boa invernada, de que todo o clero goza.          
            A igreja de Jesus, porém, foi na sua origem a reunião dos convertidos por Pedro e os outros apóstolos, convencidos da superioridade dos missionários, de quem procuravam sempre seguir os conselhos e direção para auxiliarem e cooperarem na difusão da Boa Nova. A igreja do Cristo formava-se dos sinceros e verdadeiros crentes, judeus ou gentios que aceitavam a Lei do amor que Jesus veio pregar aos homens.
            A igreja de Jesus é a totalidade dos filhos submissos e zelosos, que se reúnem por intenção quando não podem fazer de fato, mas não são os templos construídos pelos homens, os quais segundo a palavra de Paulo, Deus não habita.
            E Paulo diz na sua 2ª epístola aos Coríntios: “E que consentimento tem o templo de Deus com ídolos? Porque vós sois o templo de Deus vivente, como Deus disse: nele habitarei, e entre eles andarei".
            Ter-se-ia enganado Paulo?
            E cá entre nós que ninguém nos ouça, o monsenhor sabe que o sonho do papa é de obter de novo o poder temporal e ele sabe também que este poder só lhe pode advir da derrota da Itália e da consequente vitória do Kaiser. Daí a posição dúbia que o Vaticano tem mantido neste cataclismo que desola o mundo inteiro, desejoso da vitória daqueles que lhe podem servir de escadinha para subir de novo ao trono de rei.
            Assim seria o Kaiser imperador do mundo e o papa o imperador das consciências, com o consequente restabelecimento da santa inquisição.
            Este é o sonho e a prova palpável de que o clero é inimigo das instituições do nosso país, obrigado como é, em obedecer ao papa, como monsenhor mesmo apregoa.
            Mas descanse monsenhor, e isto também lhe digo em segredo, a vitória será dos aliados e, como já tive ocasião de dizer ao seu colega de Cuiabá, a vitória das democracias e do socialismo, que a igreja também combate, será princípio da queda da grande Babilônia predita por João no Apocalipse, Babilônia que é a igreja católica.

4

            Prosseguindo, diz monsenhor Martins:
            “Só a igreja católica tem a plena justificação da verdade da sua doutrina e a legitimidade da sua missão por meio do milagre, fato que só pode ser produzido por Deus. O milagre é a derrogação das leis naturais em relação a um caso particular; e essas leis, sendo regidas unicamente por Deus é somente Deus quem as podem derrogar... Nas outras associações religiosas podem apresentar mistificações, ilusões enganos ou fraudes ou prodígios que não exigindo um poder infinito podem ser feitos pelos demônios".
            A asserção de monsenhor cai por terra, pois em todos os tempos e em todos os credos a fé nos ídolos sempre tem produzido os mesmos efeitos que produzem alguns dos ídolos da igreja católica. Começando pelos Judeus, a quem Moisés curou pelo efeito da fé na serpente de bronze, curando os que foram mordidos pelas cobras. Em todos os tempos os sacerdotes de todas as crenças produziam o que se chama impropriamente milagres. Poder-se-iam citar inúmeros exemplos. Até Apolônio de Tiana, que abraçou as crenças de Pitágoras, fazia curas maravilhosas.  Só o clero, que falsamente se denomina cristão as não faz, e isso pela simples razão de estar obcecado pela posse do ouro e do domínio das consciências.        
            Os chamados milagres da igreja são unicamente produzidos pela fé na Virgem, no que o clero de modo algum intervêm.  A fé, sim, nesse grande espírito, cheio de piedade pela humanidade sofredora, o qual devido às suas altas virtudes, obtém da misericórdia infinita do Criador as esmolas que implora, sempre porém, dentro dos limites da sua justiça, Monsenhor mesmo o confessa no seu livrinho, dizendo: "Quando Deus não quer os santos não rogam", e como de tantos que vão a Lourdes e outros pontos onde se explora a credulidade pública, nem um por mil ficam aliviados, fica demonstrado claramente que os santos não rogam tanto quanto monsenhor apregoa.
            Quanto à derrogação das leis, com semelhante afirmação o monsenhor derroga a onisciência do Criador que instituiu leis, sem saber que de futuro, para fazer um especial favor à igreja católica, as teria de revogar. Imagine monsenhor, um Deus imprevidente! Não é blasfêmia?
            Quanto á segunda parte, sobre os prodígios praticados pelo demônio nas associações que não comungam com o reverendo, a sua própria consciência bradou quando monsenhor escreveu este absurdo, e o reverendo sabe que hoje há pouca gente que não procura o espiritismo como último recurso para ser curada; e a grande maioria (talvez não exagero dizendo-a de 80%), dos que se curam por ele são católicos, sem que ninguém os procure dissuadir das suas crenças.
            Diz ainda o monsenhor: Todos os católicos devem condenar tudo quanto é condenado pela Igreja Católica, porque se ela condenasse o que é bom, conveniente, necessário, deixaria de ser divina. Ela condena o livre pensamento (que Deus concedeu à criatura quando lhe outorgou o livre arbítrio); à liberdade de consciência (que é outro dom do Criador), o socialismo (porque ela quer tudo para si e nada para os outros), o positivismo, o espiritismo (porque proclama a verdade de Deus e a imortalidade do espírito), o protestantismo, a maçonaria, o divórcio (e absolve a ladroagem, o assassinato, o adultério e todos os crimes que os fieis lhe confessam).
            E com isso a igreja lavrou um tento, pois pretendendo ser de Jesus, condena-o, porque o maior socialista foi justamente Ele, e o segundo foi o seu precursor João, o qual, quando a multidão, afluindo ao seu batismo o interrogava sob o que deveria fazer, disse: “Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem nenhuma, e quem tiver alimento faça o mesmo”, Não é isso socialismo, monsenhor?
            E, Jesus da mesma forma disse ao moço rico:  “Vende tudo o que tens... dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu". Mas Jesus não tinha onde repousar a cabeça e os seus pretensos representantes vivem em palácios, e como não os querem vender e repartir o produto com os pobres, pregam contra as doutrinas ensinadas por Jesus. Querem proibir o livre pensamento dos outros para melhor os poderem engazopar (iludir). Mas Deus não o quer e é por isso que o Espiritismo, que os apavora, está se propagando tão rapidamente.

Verdades da Verdade - Parte 2 de 5


5

            Pensando ter demonstrado a divindade da sua igreja, monsenhor Martins, entrando nas lógicas consequências que daí advêm, diz:
            "Todo aquele que conhece a religião católica, se não procurar a ela pertencer, será um criminoso perante Deus e com toda certeza não poderá salvar-se". (Então estou perdido, mas antes só do que mal acompanhado). E continua: "Todos os que pertencem à igreja católica devem firmemente acreditar (se puderem) em todos os seus ensinos, mesmo em relação aos mais profundos e impenetráveis mistérios, mesmo que eles lhes pareçam absurdos, porque se ela em um só ponto ensinasse o erro, não seria mais divina."
            Vejamos esses dois pontos.
            O Monsenhor não ignora que cada criatura pensa como pode e não como quer. Eu, por exemplo, nasci judeu, criei-me na religião israelita, e como os judeus eram o povo perseguido pelos católicos no tempo da minha juventude, naturalmente cresci com aversão à igreja católica, a qual era a instigadora dessas perseguições. Não conhecia a sua religião, e como o meu espírito nunca achou prazer em assistir a festas pomposas, não foi atraído pelas procissões carnavalescas da sua igreja nem pelas festas às nossas senhoras onde o povo se embriaga, onde se adora o deus mamon e onde as criaturas vão levar promessas de bonecos, pernas, braços e velas de cera à igreja, para ela, pelas costas do freguês, as mandar logo de novo vender.
            Naturalmente, ao contato do mundo, cheguei a conhecer muitos dos atos e dogmas da igreja, e agora pelo seu livrinho fui esclarecido sobre aquilo que ainda ignorava. E, com toda franqueza lhe digo: prefiro ficar um criminoso perante Deus, a mentir à minha consciência.
            No entanto, um milagre operou-se em mim, produzido por esse mesmo Jesus a quem neguei e a quem a igreja invoca sem nele crer. Por causa de um diagnóstico e um prognostico sobre uma senhora doente em S. Paulo, a quem o médium daqui não podia conhecer e a qual foi por ele curada, li as obras de Allan Kardec e tornei-me um sincero adepto do Espiritismo, um crente e venerador do Cristo e da Virgem, porém dos espíritos e não das imagens que a igreja explora em proveito dos seus sacerdotes.
            Quanto ao segundo ponto, já pela boca de Moisés o Senhor proibiu a adoração das imagens. E a igreja diz que baseia a sua divindade no Velho e Novo Testamento! Moisés recebeu o mandamento: Não vos virareis para os ídolos, nem fareis para vós deuses de fundição: Eu sou o Senhor vosso Deus". (Lev. cap.19, v. 4) e, "Não fareis para vós ídolos, nem vos levantareis imagens de escultura, nem estátua, nem poreis pedra figurada na vossa terra para inclinar-vos a ela: porque Eu sou o Senhor vosso Deus". (Lev. cap. 26, v. 1). Nos Salmos diz David: "Confundidos sejam todos os que servem imagens de escultura, que se gloriam de ídolos" (Salmos 97, v. 7). No Evangelho ensina Jesus: "Deus é espírito e importa que os que o adoram o adorem em espirito e verdade" (João, cap. 4, v. 23, 24).
            Logo, as imagens são proibidas tanto por Moisés, David e outros profetas - como pelo Cristo, e para cúmulo de desfaçatez; a igreja pinta um velho barbado sobre o altar-mor, representando Deus! E assim segue os preceitos sagrados!
            Depois vêm as indulgências. O Monsenhor por acaso pode mostrar-me nas escrituras uma só passagem sobre as quais elas se possam basear?
            Jesus claramente disse: "A cada um será dado segundo as suas obras". "Quem com ferro fere com ferro será ferido". "Não sairás do cárcere sem pagar o último centil."
            No entanto Roma vendia bulas a todos, e de acordo com as posses do freguês! Agora, não; mas em quanto tinha debaixo de seu guante os monarcas da idade média, um assassino, foragido da sua aldeia com medo das autoridades, ia ao primeiro convento que encontrava e comprava uma indulgência, a qual além de lhe servir de salvo-conduto, o absolvia do crime e ainda lhe dava o direito ao reino dos céus. Não é isso, monsenhor? Semelhantes traficantes podem estar com Jesus? Não foram as bulas que deram lugar à cisão na igreja e deram nascimento ao Calvinismo e ao Luteranismo?
            Não são já dois pontos e não somente um, em que está demonstrado que a igreja está ensinando o erro? Confesse monsenhor que os dias da besta do Apocalipse estão contados!

6

            Prosseguindo, diz monsenhor Martins no seu livrinho: Na nova lei que é o complemento da “antiga" Jesus Cristo elevou o preceito antigo sobre a confissão a categoria de sacramento.
            Peço licença para o contradizer ainda nesta sua asserção, pois em nenhum versículo do Evangelho dos referentes às palavras pronunciadas por Jesus se encontra uma só palavra que trate da confissão. Portanto, mais uma vez monsenhor deturpou a verdade. Não acha?
            Mais adiante, monsenhor diz: "Jesus deu aos sacerdotes o direito e o poder de, em seu nome e pela sua autorização, conceder ou negar o perdão, Essa importantíssima verdade acha-se claramente exarada no Evangelho. Depois da sua gloriosa ressurreição Jesus Cristo aparecendo aos seus apóstolos, disse-lhes: Recebei o Espírito Santo; e aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e aqueles a quem não perdoardes, não lhes serão perdoados.”  
            Estas foram de fato as palavras de Jesus aos apóstolos. Mas, quem eram os apóstolos? Espíritos da escol celeste que baixaram com Jesus, para o acompanhar na sua missão. Espíritos que resistiram a todas as tentações do mundo que davam de graça as misericórdias que por seu intermédio o Senhor distribuía; que nunca se deixaram seduzir pelos bens terrenos; que de acordo com os preceitos de Jesus, praticaram todas as maravilhosas curas que Jesus praticou. Inspirados pelo Espírito Santo (os espíritos superiores) eles estavam aptos para conhecer o íntimo das criaturas que os procuravam. Não é isso o que o Evangelho diz, monsenhor?
            Não é uma história edificante a dos Atos dos Apóstolos? Como eles se indignaram, rasgando as túnicas, quando o povo os quis adorar! Quais os atos do clero romano para merecer a assistência desse Espírito Santo que assistia e inspirava os apóstolos? Será o de deixar os crentes ajoelharem diante deles e beijar-lhes as mãos? Serão as presumidas graças negociadas pela igreja? Qual é a sua obra?
            Com licença do monsenhor, vou mostrar-lhe uma delas. A igreja prega e monsenhor mesmo ensina que: "Com a confissão feita ao sacerdote basta a contrição imperfeita para conseguir o perdão dos pecados mortais." "O simples fato, de depois outra vez cometer o pecado, não prova falta de sinceridade, nem na contrição, nem no propósito." Ganham cada vez 300 dias, e recitando-a diariamente durante um mês uma indulgência plenária os que recitarem a seguinte oração: Eternamente e além seja louvado, etc. etc."
            Nada mais barato!
            Ouvindo o povo desde criança estes ensinos hipócritas, naturalmente chega à conclusão que são eles verdade. E quais os resultados? Os dirigentes dos povos, estando uns criados na religião católica, e outros na protestante que ensina "Crê em Jesus e serás salvo", desencadearam esta tremenda guerra sobre mundo, certos de que, dizendo que creem em Jesus uns, e, confessando-se mesmo com uma contrição imperfeitíssima outros, perdoados lhes seriam os seus pecados.
            Eis a obra das igrejas!!!       
            Mas, Deus, que vela pelas suas criaturas, e que "não quer a perda de nenhum dos seus filhos, e sim que eles se convertam", permite, devido à maldade deles, que o fogo desça sobre eles para os purificar. Mas "ai daquele por quem vier o escândalo", disse Jesus. Para a igreja está prestes a descer a profecia do Apocalipse exarada no Cap. 17 e 18.  Com a queda das dinastias, que com a besta (Cap. 13) se conspurcavam está a suceder-lhe o que o Senhor diz a João, no sonho apocalíptico: “Porque os seus pecados já se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela. Tornai-lhe como ela vos tem dado, e duplicai lhe em dobro conforme as suas obras: No cálice que ela vos deu de beber, dai a ela o dobro".         
            A besta tem o numero 666. (Apocalipse, cap. 13).
            Os títulos que o papa usa são os seguintes: Dux Cleri, Vicarius Filii Dei e Vicarius Generalis Dei in Terris.
            Ora veja monsenhor Martins o resultado, tirando-se as letras sem valor numérico e somando-se os números.
            Dux Cleri: D-500, U-5, X-10, C-100, L-50, I-1, total 666.  
            Vicarius Filii Dei: V-5, I-1, C-l00, I-1, U-5, I-1, L-50, I-1, I-1, D-500, I-1, total 666.
            Vicarius Generalis dei in Terris: V-5, I-1, C-100, I-1, U-5, L-50, I-1, D-500, I-1, I-1, I-1,
total 666.
            Serão estes números também a prova da santidade da igreja?
            Imaginem-se apenas os crimes da inquisição, fora os que praticaram aqueles que foram mal aconselhados pela igreja e pelos quais ela também é responsável; como não será amargo o cálice que a igreja terá a sorver.
            Que o Senhor tenha misericórdia da igreja!

7

            Diz ainda o monsenhor Martins:
            “A igreja proíbe de ler livros, jornais, revistas que contém doutrina, exemplos, comentários adversos à sua doutrina. "
            Isto apenas demonstra o medo que a igreja tem de serem os seus adeptos esclarecidos sobre os erros que ela ensina e assim deixem de encher continuamente as suas arcas com o produto das promessas, promessas estas que não passam de suborno da misericórdia divina. E poderá alguém que raciocine admitir que a Virgem, ou Jesus possam ser subornados ou comprados?
            E continua: "A igreja proíbe de se ter intimidade, amizade com os que são casados só civilmente".
            Não parece isto uns ares de vingança por não ter freguês pago ao padre os honorários do casamento religioso? Felizmente, esta proibição os católicos não a cumprem, compreendendo que o amor ao próximo abrange a todas as criaturas ainda que a sua igreja assim o não queira compreender.
            E mais: "A igreja manda-nos amar o nosso próximo, principalmente a sua alma".
            Este mandamento parece ter sido formulado por um diplomata à la Luxemburgo e como os seus famosos telegramas explica-se logo adiante no livrinho que comento onde "manda dar esmola aos verdadeiros pobres", e se o doador não tiver tempo para indagar quais são os verdadeiros, amará só a alma do infeliz que lhe estende a mão. Que velhacaria!
            Diz ainda: "A igreja manda concorrer cada um na medida das suas posses com o óbulo para as despesas com o culto" ... (as imagens) para que o pároco possa construir alguns prédios para renda e bem estar da sua prole. Pelo menos é o que se observa.
            E finaliza. "Eis a chave de ouro com que quero e devo fechar esta parte, referente à divindade da igreja católica apostólica romana. O grande S. Cipriano (que isca!) dizia: Quem não tiver a igreja como Mãe não terá Jesus Cristo como Pai".
            É pena que S. Cipriano não esteja encarnado agora, pois serviria admiravelmente para diplomata da Santa Sé quando ela se vir excluída do próximo congresso da paz.
            Com que então Jesus é Pai? E o monsenhor tem a coragem de repetir semelhante heresia? Admira o desplante com que se mente aos fieis que não têm meios de procurar a verdade! Jesus ensinou: "A ninguém chameis pai vosso sobre a terra; porque um só é vosso Pai que está nos céus, nem vos intituleis mestres; porque um só é vosso mestre, o Cristo" (Mateus 23:9 e '10). Estes ensinos, Jesus pronunciou para deixar demonstrada a diferença entre ele e o Pai, sabendo de antemão que a igreja católica ia deifica-lo.
            Quanto à igreja ser mãe, ninguém ignora que ela de fato o é, mas tão somente do clero e dos sacristãos.
            Do resto ao povo, porém, é madrasta que explora os seus enteados em proveito dos filhos com promessas, que ela sabe não podem ser cumpridas.
            E por dizermos a verdade, monsenhor Martins; como voz da igreja proíbe "que os católicos tenham intimidade e amizade com os inimigos da sua religião", S. rev., porém, cita o provérbio - “quem avisa amigo é”, e falando eu com esta franqueza, não é isto uma prova de que o meu coração transborda de amizade por todos e especialmente pelo clero, não trepidando diante da ira de alguns para salvar a todos do abismo a cuja beira se acham, desejando a felicidade de todos na vida espiritual, pois que a atual não é mais do que a consequência dos desmandos da humanidade de todos os tempos que é sempre a mesma, reencarnando e desencarnando, vida de expiação, reparação e provação?
            O purgatório que a igreja prega sem saber explicar o seu paradeiro é este mundo. É o que os espíritos explicam e mais: que a presente época é a última ocasião que a humanidade terrena terá para modificar a sua moral e resgatar as suas faltas, pois que chegou o tempo predito por Jesus, e os recalcitrantes serão repelidos para planetas muito mais atrasados que o nosso onde terão de viver e progredir, planetas onde haverá choro e ranger de dentes para aqueles que já estavam acostumados às comodidades deste mundo.
            Não é o caso de se meditar seriamente sobre os ensinos do Cristo, orar e vigiar  constantemente e fazer o maior esforço possível para andar de acordo com o Evangelho de Jesus de preferência a aceitar os erros que a igreja católica apostólica romana ensina?

8

            Na sexta prova de santidade da igreja, diz monsenhor Martins: “Alguém já conheceu um verdadeiro santo, na genuína expressão da palavra, no protestantismo, no espiritismo, no positivismo?
            Não no espiritismo, porque nós não temos a instituição que os fabrica, e consideramos que ser bom não é mais do que cumprir cada um o seu dever, e feliz daquele que o sabe cumprir. 
            Mas, se no meio do clero romano desceram espíritos ilustres e bondosos, foi porque Deus, infinitamente bom e misericordioso quis salvar o clero católico do precipício em que se atirava. Entretanto, a despeito dos exemplos dos Francisco de Assis, dos Antônio de Pádua, dos Vicente de Paula e de tantos outros, o clero persistiu em deixar-se seduzir pelos bens terrenos, pelos gozos da materialidade; pela concupiscência, e, dando estes exemplos, desviou o povo da verdadeira moral do Cristo. Isto é histórico.
            A igreja perseguia os seus chamados santos, aos quais hoje enaltece para ver se podem reforçar os alicerces do seu carcomido edifício, já minado e prestes a ruir.
Poderá ela citar um único santo, cujas palavras ela tivesse acatado enquanto ele fora vivo, a não ser os santos inquisidores?
            Santo Agostinho, por ventura, não repeliu o batismo das crianças, considerando-o uma farsa?
            Sim, varões ilustres procuraram encaminhar o clero católico na senda do Evangelho. O clero, porém, não lhes deu ouvidos, nem imitou os seus exemplos, e daí a sua grande responsabilidade.
             Jesus mesmo ensinava ao povo aquilo que de há muito se tornou um provérbio popular. "Fazei o que os padres dizem, mas não o que eles fazem" (Mateus cap. 23, v. 3) referindo-se aos escribas e fariseus. E disse mais: "Eles serão precedidos no reino dos céus pelas prostitutas e pelos publicanos" (Mateus 21 :31).
            Jesus constituiu a sua igreja sobre a fé robusta de Pedro, fé em que Pedro proclama ser - Jesus "o Filho de Deus vivo". Sobre esta rocha que é o próprio Cristo, foi edificada a igreja. Nem Pedro, nem nenhum dos outros apóstolos construíram igrejas de pedra e sim templos nos corações dos crentes onde as virtudes que Jesus exemplificou encontrassem um altar. E estes tais é que eram um em Jesus como Jesus é um no Pai.
            Agora, imagine o monsenhor se a igreja tivesse seguido os ensinos de Jesus, se em todos os tempos tivesse exemplificado as suas virtudes, em que altura não pairaria a moral da humanidade de hoje? O mundo não seria uma morada feliz em vez de ser o inferno que hoje se observa?      
            "Santos", homens desprendidos houve em todos os tempos, em todas as partes do mundo e em todas as seitas; mas, como o mau clero estava em maioria, o povo preferiu seguir os exemplos do clero nos gozos do mundo a ouvir os "santos" e esperar os prometidos gozos do céu.
            Prometendo Jesus, o Consolador, enviou o seu servo Allan Kardec (que na precedente encarnação fora João Huss, queimado pela igreja), para codificar o Espiritismo. Os mortos falam, os sinais, os fatos em todo o mundo se produzem, os espíritos dão os mais salutares ensinos, as revelações sucedem-se às revelações em nome do Cristo. Os pequeninos, os anônimos agasalham os ensinos que assim baixam; só o clero não os quer ouvir e brada como os escribas no tempo de Jesus: é o demônio!
            Mas que demônio é esse que só ensina a moral de Jesus, que cura os enfermos, que consola os aflitos? O demônio por certo regenerou-se pois faz mais bem do que aqueles que se dizem sucessores de Pedro. Não há livro espírita que contenha um só ensino que não esteja de acordo com o Evangelho. Onde está o demônio?
            Monsenhor não estará enganado quando ensina que "em cada uma das partículas da hóstia consagrada acham-se realmente presentes o corpo, o sangue e toda a divindade de Jesus Cristo?  Jesus ensina: "Tudo o que entra pela boca desce pelo ventre e é lançado a um lugar escuso."
            Teria o concílio de Trento, o criador da hóstia, mil quatrocentos e tantos anos depois da ascensão de Jesus, mais poder do que Ele, forçando-o a descer da sua celeste morada para se incorporar nas hóstias e ser engolido em beneficio da igreja?
            Ensinando semelhantes absurdos, queixa-se a igreja dos espíritas e os considera seus inimigos, quando o que desejamos é que ela ensine as verdades evangélicas, tal
qual Jesus as ensinou, e quando isso fizer terá os nossos aplausos e comungaremos com ela. 

9
           
            Referindo-se ao sacramento da Eucaristia, diz monsenhor Martins no seu livrinho, “Este sacramento consiste em Jesus Cristo achar-se realmente presente na hóstia consagrada, a fim de viver entre nós, e de servir de alimento espiritual da nossa alma. Este divino sacramento, com todos os outros seis, (não) foi instituído por Jesus Cristo. Na véspera da sua dolorosa paixão, reunido com os doze apóstolos no cenáculo, ele tomou o pão nas suas sagradas mãos, e benzendo-o e partindo-o, foi distribuindo aos seus apóstolos e dizendo: Tomai e comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Jesus é Deus e as palavras de um Deus, tem uma força e eficácia onipotente que realizam tudo quanto enunciam. E dizendo ele depois aos seus apóstolos: fazei isto em minha lembrança, deu com toda certeza aos apóstolos (pelo menos é o que conviria à igreja) e em sua pessoa aos sacerdotes (se fossem) seus legítimos sucessores, o portentoso poder de, (ganhar dinheiro para construir palácios) converter o pão em seu verdadeiro corpo."
            Presunção e água benta... Mas o que monsenhor ensina não é a expressão da verdade e a prova disto e que muito antes da ceia, como se lê no capitulo 6º de João, Jesus falou do seu corpo e do seu sangue no mesmo sentido usado na ocasião da ceia, dizendo: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu, se alguém, comer este pão viverá para sempre e o pão que eu der é a minha carne, a qual eu darei pela vida do mundo". "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia". "- Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele". "O espírito é que vivifica, a carne para nada aproveita; as minhas palavras são espírito e vida", em esforço, depreende-se daí que Jesus não fala senão figuradamente em ser a sua carne comida, e que as suas palavras tinham um sentido todo espiritual. O seu corpo não pode representar outra coisa senão o corpo de doutrina que Ele trouxe ao mundo, a doutrina de   amor e perdão que Ele pregou e exemplificou.
            Também na ocasião da ceia, Jesus disse muito mais do que cita monsenhor, mas à igreja não convém que o povo conheça o resto, pois lançaria logo a dúvida, mesmo nas inteligências menos esclarecidas, e isso é perigoso aos seus interesses.
            Eis aí porque o Evangelho é trancado e ao povo só se serve a dose que é útil à igreja. Senão, vejamos: Diz o Evangelho: "E quando comiam, Jesus tomou o pão, e, abençoando-o partiu, e o deu aos discípulos e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças deu-lhe o dizendo: bebei dele, todos, porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento que é derramado por muitos, para remissão dos pecados". (Mateus 26:26-28). E em João 15 :15: Já vos não chamarei servos; porque o servo não sabe o que faz seu Senhor. Mas chamei-vos amigos; porque vos descobri tudo quanto ouvi do meu Pai "para ser a vida do mundo."
            Já vê monsenhor que Jesus ainda aqui se referia, não à transformação do seu corpo em pão, e sim ao seu Novo Testamento, que seria espalhado por muitos e a salvação daqueles que o aceitassem de coração.  
             Referia-se à fraternidade que Ele com os seus irmãos menores festejavam antes da sua paixão e recomendava-lhes fossem fraternos e comemorassem esta ceia. E tanto assim é que Ele os chamou de amigos e continuando, lhes disse: "Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros".
            O ensino do Velho Testamento "dente por dente e olho por olho”, foi no Novo revogado por: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam."
            É esta a transubstanciação que Jesus pregou, - não aquela eucaristia que o concilio de Trento decretou como dogma em 1545, com o fim de iludir o povo, e para gáudio e lucro do clero romano.
            Jesus disse: "As minhas palavras são espírito e vida", "tirai o espírito da letra", e é isso que cumpria, não a nós, espíritas fazer, e sim de todos os tempos ao clero que deveria ensinar exemplificando. Se a igreja assim tivesse procedido, quanto sofrimento teria sido evitado tanto aos encarnados como aos desencarnados e especialmente ao próprio clero no Além? Só Deus o sabe!