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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fraternidade



Fraternidade
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Março 1952

            “Amemo-nos uns aos outros...” João.
                                                               I João, 4:7.

            Nem um só monumento do passado revela o espírito de fraternidade nas grandes civilizações que precederam o Cristianismo.

            Os restos do Templo de Karnak, em Tebas, se referem à vaidade transitória.
           
            Os resíduos do Circo Máximo, em Roma, falam de mentirosa dominação.
           
            As ruínas da Acrópole, em Atenas, se reportam ao elogio da inteligência sem amor.

            Santuários e castelos, arcos de triunfo e muralhas preciosas, hoje relegados à miséria e ao abandono, atestam a passagem da discórdia, da prepotência e da fantasia.  

            Antes do Cristo, não vemos sinais de instituições humanitárias de qualquer natureza, porque, antes d'Ele, o órfão era pasto à escravidão, as mulheres sem títulos eram objeto de escárnio, os doentes eram atirados aos despenhadeiros da imundície e os fracos e os velhos eram condenados à morte sem comiseração.

            Aparece Jesus, porém, e a paisagem social se modifica.

            O povo começa a envergonhar-se de encaminhar os enfermos ao lixo, de decepar as mãos dos prisioneiros, de vender mães escravas, de cegar os cativos utilizados nos trabalhos de rotina doméstica, de martirizar anciãos e zombar dos humildes e dos tristes.

            Um novo mundo começa ...

            Ao influxo do Divino Mestre, o homem passa a enxergar os outros homens.

            O lar, a maternidade, o berçário, a escola, o hospital, o asilo, são recintos sagrados e um novo gênio de luz ergue-se muito acima daqueles que se faziam respeitar pela espada, pelo sangue, pela sagacidade e pela força, para governar as almas na Terra.

            Sem palácio e sem trono, sem coroa e sem títulos, o gênio da Fraternidade penetrou o mundo pelas mãos do Cristo, e, sublime e humilde, continua, entre nós, em silêncio, na divina construção do Reino do Senhor.


Do Blog: Feliz 2020!

Educação



Educação
Editorial
Reformador (FEB) Março 1951

            Eduquemos nos padrões de Jesus e o futuro será presidido pela realidade cristã. Ensinar para o bem, através do pensamento, da palavra e do exemplo é salvar. Em razão desta verdade o Senhor foi chamado o Divino Mestre, e é ainda por isso que o reino de Deus na Terra é obra de educação.”

            Os conceitos supra transcritos são de André Luiz, o mensageiro celeste que tantas e tão grandes verdades tem revelado e continua revelando aos cristãos-novos através do maravilhoso hífen entre o céu e o plano terreno que é Francisco Cândido Xavier.
             
            Diante da conceituação desse luminar do Além, a propósito do valor e da importância da Educação, sentimo-nos confortado e cheio de bom ânimo. Mais uma vez; nos convencemos de que soou a hora da escola. Chegou o dia em que se faz imprescindível concentrar nossa atenção no problema educacional, a fim de que os demais problemas, àquele relacionados, tenham solução.

            Os males que vêm flagelando a Humanidade, através dos séculos, são efeitos de uma causa que jamais foi compreendida e enfrentada devidamente. Os homens voltejam em torno dela, passando, em seguida, a combater suas consequências, motivo por que os mesmos acidentes se repetem numa contumácia, desconcertante, zombando dos meios e processos empregados para debelá-los. E assim, por certo, continuará até que os homens despertem e descubram o modo eficaz de atingi-las.

            Amiserando-se de nossa incapacidade e cegueira, assistindo aos infrutíferos esforços por nós despendidos numa campanha exaustiva cujos resultados são aparentes e ilusórios, os nossos Irmãos Maiores estão tocando no assunto, não mais de forma generalizada e indireta, porém ferindo o alvo positiva e clarissimamente. Mais, não poderão fazer, visto esbarrarem com o nosso livre-arbítrio.

            Portanto, ou cuidamos da Educação ou teremos falhado lamentavelmente em face da tarefa que nos foi confiada, profitentes que somos, ou nos dizemos ser, da Terceira Revelação, cujo objetivo precípuo é reviver a escola do Mestre de Nazaré, trazendo à baila a sua palavra de redenção.

            Observando-se o programa educacional em vigor já no que respeita ao oficial, já no que concerne aos particulares que se oficializam, verificamos um erro verdadeiramente desastroso em seus efeitos. O fim almejado é criar técnicos e titulares, que, devidamente habilitados, exerçam sua atividade no sentido de ganhar dinheiro, de enriquecer, jogando com os conhecimentos adquiridos, os quais devem conferir-lhes maiores possibilidades e mais destreza em atingir o referido alvo.

            Há poucos dias nos veio às mãos um anúncio de certa “Escola Técnica de Comércio”, de onde extraímos os seguintes “sugestivos” reclamos:

            “Nossos métodos de ensino não visam somente formar excelentes contabilistas mas principalmente preparar futuros industriais, comerciantes de elevada categoria, altos funcionários públicos, banqueiros, enfim, homens e mulheres de destacada capacidade no mundo dos negócios. O curso comercial exige menos tempo, é mais econômico e oferece maiores probabilidades de enriquecimento. Além disso, já estamos percebendo que ser comerciante, industrial ou banqueiro, diplomado por curso técnico, é tão importante quanto ser médico, advogado ou engenheiro.”

            Em tal se resume a finalidade da educação consoante o ponto de vista generalizado. Os diretores da escola em apreço disseram franca e abertamente aquilo que todas as demais visam, guardando, embora, as conveniências devidas na maneira de se externarem. Fazer técnicos, adestrar na arte, perícia e habilidade de adquirir riquezas e, se possível, fama e glória, adaptando-se ao meio - eis o programa educacional do século em que vivemos.

            Ora, não é, nem pode ser, esse o propósito da Educação, que resume o - porquê - da Vida, cujo objetivo há de corresponder necessariamente ao valor e à excelsitude dessa mesma Vida.

            Educar é promover a evolução humana conscientemente, desenvolvendo, em harmonia, os poderes espirituais que herdamos de nosso Pai celestial, destacando-se dentre eles a inteligência, a vontade e o sentimento. Destas faculdades, o homem tem curado com maior desvelo da inteligência, relegando as demais a plano secundário, porque, mediante o cultivo intelectual, ele consegue dar maior expansão às volições egoístas que o dominam. Daí o grande surto de progresso verificado naquele setor, ao lado da crise moral que ameaça precipitar o mundo no abismo.

            A nossa pseudo civilização de que tanto se ufanam os dirigentes e magnatas é obra erguida sobre areia movediça. Ao sopro das paixões desaçaimadas, ela oscila em suas bases
instáveis, ameaçando desabar fragorosamente.

            A Educação pode ser comparada a um triângulo equilátero, representando cada linha uma faculdade. Desenvolvidas desproporcionalmente, temos o que, em geometria denomina-se “triângulo escaleno”, prefigurando o aleijão que caracteriza o sistema educacional da nossa época.

            Ao Espiritismo, que é o desdobramento do Cristianismo, cognominado, por isso, de Terceira Revelação, cumpre-lhe reviver em espírito e verdade a escola cristã, rememorando e incutindo na mente e no coração dos homens, e particularmente das crianças, os ensinamentos evangélicos cuja precípua finalidade é formar caracteres, criando indivíduos cônscios de sua própria dignidade, possuindo noções ínfimas de justiça e senso prático de responsabilidade.

            A execução, porém, deste programa, só é possível mediante educandários, colégios e escolas espíritas disseminadas por todos os recantos do Brasil, torrão assinalado pelo Cruzeiro luminoso, que, do céu, lhe vem indicando o roteiro a seguir.

            A obra de redenção, personificada no Cristo de Deus, repetimos ainda uma vez, é obra de educação. Se o Espiritismo não secundá-la, carece-lhe o direito de intitular-se: Terceira Revelação.

"Do País da Luz"



          “A emancipação pela morte abre-nos vastos e infinitos horizontes novos, ao mesmo tempo que limita e cerra até, pontos de vista que supúnhamos de uma vastidão sem fim e de uma grandeza absoluta. É que o nosso modo de ver na Terra é tudo quanto há de mais falso e convencional.”
(“Do País da Luz”)
Reformador (FEB) Dezembro 1954

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A vida verdadeira

Vinícius


A vida verdadeira
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Março 1952

            Se a vida começasse com os primeiros vagidos da criança e tivesse o seu desfecho no derradeiro suspiro do moribundo, não passaria de engenhoso engodo, habilmente concebido, para manter o homem, durante algum tempo, sob a sensação enganadora de uma aparente realidade.

            Suas incontestáveis belezas e encantos, como também suas estupendas realizações e conquistas, nada mais seriam, em síntese, senão mitos e quimeras conducentes aos maiores desapontamentos e à mais cruel decepção.

            Ciência, filosofias, artes e expressões religiosas em seus aspectos mais excelentes; coragem moral, renúncia e sacrifícios; dedicação, perseverança e fé; otimismo, bom ânimo, aspirações puras e elevadas; idealismos transcendentes tendendo à consumação do belo, do justo e do verdadeiro; enfim, surtos, arrancadas e porfias amoráveis buscando unir e confraternizar a Humanidade, apenas representaria, tudo isso, o bruxulear descompassado de uma chama que se extingue, lançando ao vento seus postremos lampejos.

            Se assim realmente fosse a vida, não mereceria ser vivida. Melhor fora que jamais existisse. Mas, felizmente para o homem, a realidade é bem outra: a vida, neste orbe, é a manifestação do Espírito através da matéria devidamente organizada para esse fim. A alma é imortal e, por isso, responsável. Veste-se do corpo ao nascer, e dele se despe ao morrer. Seus esforços e suas lutas, seus empreendimentos e suas aspirações são meios de aprendizagem mediante os quais ela vai, em seu eterno presente, reparando o passado e conquistando o futuro.

            Evolver é o objeto da vida. Amar é a sua função. Vencer é o seu destino, gravitando para a fonte de onde promana: Deus.

            A quimera e as ilusões procedem das falsas interpretações que têm da alma, da maneira errônea de concebê-la, confundindo-a com o corpo que ela movimenta do nascimento à morte.

            Fantasias e sonhos vãos resultam da falsa visão daqueles que concentram e delimitam as operações da vida ao âmbito estreito deste planeta, ao cenário instável e movediço da existência humana.

            Semelhantes conceitos e conclusões não procedem apenas do raciocínio, da lógica e do senso comum; nem, ainda, de doutrinas e escolas fundadas e mantidas por autoridades terrenas: são revelações e testemunhos trazidos à Terra por aqueles que já transpuseram as suas fronteiras, penetrando o limiar do Além.

            Não se trata de dogma ou de ponto de fé imposto pelos credos de menor ou maior projeção, mas das vozes autorizadas de nossos irmãos, daqueles que mourejaram conosco e nos precederam na passagem deste para outro plano, onde continuam exercendo suas atividades através dos atributos inerentes e inseparáveis do Espírito imortal.

            A miragem que engana, fascina e desnorteia está aqui, neste cenário onde os homens se acotovelam; está no fato de tomarem a transitoriedade da presente existência como expressão absoluta da vida, quando representa tão somente uma fase passageira, transcorrida no curto lapso de tempo que vai da encarnação à consequente e natural desencarnação.

            Se o nascer fosse o começar, o morrer seria, realmente, o terminar.

            Como, porém, o Espírito preexiste à sua incorporação ou nascimento, segue- se, logicamente, que após a desincorporação ou morte, ele continuará existindo. Se ele veio da esfera espiritual ao nascer, é claro e óbvio que retornará, ao morrer, àquela mesma esfera.

            A alma não é produto da concepção como o é o corpo. Este traz consigo os traços de sua origem, como também as heranças físicas, boas ou más, dos seus progenitores. A alma, porém, sede da inteligência, da vontade e do sentimento, tem a sua gênese na fonte da vida eterna - Deus - ao quem, por isso, o sábio Mestre da Galileia nos ensina a considerar como nosso Pai, estabelecendo destarte, analogia entre o genitor do corpo e o genitor do Espírito. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. A morte, portanto, na acepção de aniquilamento, é a grande ilusão dos sentidos, que, presos à forma, experimentam a sensação do vácuo quando esta forma desaparece.

            O nascimento pode, com justeza, ser comparado à personagem que entra no palco, em devido tempo, a fim de representar o papel que lhe foi distribuído, o qual será, mais ou menos importante, segundo a sua capacidade. O ator, após realizar a sua parte, desaparece atrás dos bastidores, tal como sucede ao homem que, ultimando sua tarefa no teatro terreno, oculta-se no plano espiritual, deixando de ser notada a sua presença pelos que permanecem, ainda, no cenário das formas corpóreas.

            Assim como o artista prossegue em sua carreira, incumbindo-se de novas representações, o Espírito continua reencarnando-se em outras existências, nesta ou em outras ribaltas onde a vida se ostenta em seu curso de perene evolução.

            A vida, portanto, não é uma ilusão, uma quimera, um engodo. Ao contrário, é a única realidade, a única evidência. Incontestável, porque Deus mesmo é a sua manifestação no imensurável palco universal de sua infinita criação.

            O que precisamos é estudá-la para compreendê-la e senti-la: em sua verdade, tanto em nós como em tudo que nos rodeia.

            O que precisamos é aprender a solucionar os seus problemas, vivendo-a como deve ser vivida, com dignidade, honra e nobreza, considerando sua origem divina.

            À medida que a santificamos em nós, espiritualizando-a progressivamente, lhe iremos sondando a natureza e sentindo a indestrutibilidade de sua estrutura inconcebível e inacessível à relatividade da inteligência humana.

            Não basta, pois, viver. É preciso viver bem, penetrando a profundeza da vida. Eu vim para terdes vida e vida em abundância, disse o Cristo. Viver, tudo vive. Vive o minério, vive a planta, vive o animal, vive o homem. A vida vegetal é mais complexa que a mineral. A vida animal sobrepuja a vida das árvores; e a vida do homem sobrepõe-se a das à dos animais. As expressões que a vida assume são, portanto, progressivas.

            Acima da vida humana, outras modalidades existem em escala sempre ascendente. Do homem a Deus verifica-se uma distância infinitamente maior que aquela estabelecida entre o verme e o Homem.

            Tratemos, pois, de galgar os degraus superiores da vida. Avancemos, subindo conscientemente a sua escada luminosa, espiritualizando-nos, pois em tal importa a melhor e mais eficiente de todas as formas religiosas conhecidas neste mundo, aquela ensinada e exemplificada pelo Verbo Encarnado, quando disse: Eu sou o Caminho. a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai senão por mim.

            Sigamos, então, desassombradamente, as pegadas d'Aquele que é o roteiro reluzente que nos conduz à Vida Verdadeira.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O presente de Rosinha


O presente de Rosinha (Conto de Natal)
José Brígido 
(Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Dezembro 1952

            Aquele asilo, de caridade só tinha o nome. Mas quem visse como as criancinhas órfãs eram ali recebidas, saia contente e confortado, abençoando aquela casa de infelizes. Mas, dona Tereza, certa vez, chegando ali de sopetão, não pode deixar de exclamar, ao ver uma menina, nos seus cinco anos incompletos, limpando o chão imundo com um pano ainda mais sujo e tão pesado que quase ela não o sustinha nas mãos:

            - Tão pequenina e já nesse rode serviço!

            Um sorriso inocente e triste aflorou aos lábios de Rosinha. Ela perdera os pais muito cedo e ficara ao desamparo, numa velha casa de cômodos de Botafogo. Andava suja e rasgada, sem os cuidados que teria, se a sua mamãezinha fosse viva. Condoída da sua sorte, uma mulher do cortiço tomara conta dela. No começo, tudo ia bem, mas, sofrendo também os acicates da miséria e não dispondo de uma preparação moral adequada, acabou por se desinteressar de Rosinha. Pouco se incomodava que ela estivesse bem ou mal. Olhava-a como um entre outros trastes que lhe enchiam a alcova sórdida: indiferentemente. A menina quase não se alimentava e os tenros ossinhos pareciam prestes a furar-lhe a pele emurchecida. Um dia, com a melhor das intenções, o carteiro Aniceto, que lhe conhecia o drama, propôs à mulher:

            - Dona Sebastiana, ó dona Sebastiana!

            - Que é, seu Aniceto! Que que há!

            - A Rosinha está doente?

            - Doente o que, seu Aniceto! Isso é uma pestinha ruim como que!      .

            - Está tão magrinha... Ela não come?

            - Se não come é porque não quer! Comida é pouca mas não falta. Dá prá gente enganar o estômago. Ela é luxenta, seu Aniceto... Pobre com luxo é desaforo. Dar na boca, não dou, não...



            - Mas ela ainda é muito pequena, dona Sebastiana...

            É sim, mas já tem idade prá saber o que faz.
           
            - Se eu fosse a senhora punha ela num asilo de órfãos. Se ela lhe dá tanto trabalho...

            - Se dá! E não me ajuda nada, seu Aniceto! Eu já quis fazer isso, mas é tanta exigência, tantos papéis, que desisti. E fica essa pamonha a me amolar o dia todo, como se meus filhos não chegassem!

            - Seus filhos são mais crescidos e mais fortes, dona Sebastiana ...

            Rosinha estava perto, porém, na sua candidez, não percebeu que falavam a seu respeito. Distraia-se com uma caixa de fósforos vazia, contente como se fosse belo brinquedo. O carteiro, comovido, abaixou-se, fez-lhe um agrado, interrompido logo pela Sebastiana:

            - Não faça isso, não, seu. Aniceto! O senhor está dando asa a essa menina e eu depois é que vou aguentar...

            Aniceto não protestou. Apenas fez esta pergunta:  

            - Estou vendo que a senhora anda muito cansada. Quer que eu a leve para um asilo?

            - Se quiser, até agora mesmo.

            - Já, não. Depois voltarei para lhe dizer qualquer coisa. Até outro dia, dona Sebastiana. Adeus, Rosinha, adeus!..

            E ausentou-se, pensativo.


*

            Rostinho magro, olhos fundos, cabelos ralos e empastados pela falta de trato, a menina estava chupando os dedinhos sujos quando o Aniceto a veio buscar. Sofria muito, sem dúvida. Como não conhecesse coisa melhor, chorou ao ser levada dali. Era multo cedo para distinguir o ruim do pior. Não queria sair e chamou, com a vozinha débil:

            - Tiana! Tiana! Tiana! ...

            E lá se foi, por entre lágrimas, para a casa de caridade que, na boa fé do seu coração sensível, lhe havia arranjado Aniceto.

            Uma vez fechada a porta, Rosinha sentiu e estranhou o ambiente. Fria, a preceptora chamou-a e ela, distraída, não atendeu. Foi o bastante:

            - Estou vendo que você tem sido tratada com muito mimo. Venha cá! – berrou, irritada.

            Assustando-se, Rosinha chorou.

            - Ainda chora, não é? Não quero criança manhosa aqui! Só mandam prá cá estes “molambos”! Está tão suja que até dá nojo!

            E fez um gesto de repugnância.

            Mandou que a lavassem e lhe dessem uma roupinha limpa. Fê-la sentar-se à mesa com as outras crianças, todas de semblante melancólico. Desabituada e saudosa do ambiente em que sempre vivera nos dois anos que mediavam entre o seu nascimento e a acolhida da Sebastiana, Rosinha desandou a chorar convulsivamente.

            Sem procurar compreender o estado psicológico da menina, a preceptora agarrou-a brutalmente pelo braço, sacudiu-a e gritou para que todos ouvissem:

            - Cale a boca! Não quero gritos, não quero choros aqui!


            Enfraquecida e nervosa, Rosinha chorou ainda mais. Foi, então, arrastada para o “quarto escuro”, como exemplo às demais crianças.

            - Fique aí, sua malcriada! Você hoje não janta, para aprender a ser obediente!

            Ao regressar ao refeitório, bradou, colérica:

            - Eu já estou "cheia”, ouviram?! A primeira que quebrar a disciplina irá para o “quarto escuro” sem comer!

            As meninas, aterrorizadas, baixaram humildemente a cabeça, pois já conheciam a “energia” da preceptora.

            Quase três anos passou ali. Já estava mais crescidinha, pois ia fazer cinco anos. Achava-se limpando o chão quando dona Teresa a viu. Penalizada, não se conteve e se dirigiu à preceptora:

            - O que a senhora está fazendo não é direito. Como é que põe uma menina dessa idade e tão fraquinha em serviços pesados?

            - A senhora compreende, dona Teresa, o asilo é pobre, não pode pagar a empregados. É preciso que todos os asilados ajudem um pouco...

            - Não, não está direito! Sei que algumas pessoas dão o suficiente para que o asilo tenha, pelo menos, dois empregados. No entanto, não é isto, o que estou vendo. Nunca supus que esta fosse a caridade que a senhora pratica aqui dentro!

            Antes dona Teresa não tivesse dito nada. Mal ela saiu, a preceptora foi buscar Rosinha, furiosa. Bateu-lhe com violência e mandou-a para o famoso “quarto escuro”. Cansada, faminta e pesarosa, cheia de medo e sem saber porque fora castigada, Rosinha chorou até adormecer. E só despertou quando ouviu que a chamavam docemente:

            - Rosinha! Rosinha!

            Ela abriu os olhinhos claros no quarto escuro. Teve a impressão de que estava todo iluminado. Fez carinha de choro e pôs um dedinho na boca... Receava que a preceptora ...

            - Não tenha medo, Rosinha... Venha cá, comigo, venha...


            - Quem é você, heim?

            - Sou o irmão de todas as criancinhas... Sou Jesus...

            - Mas quem é Zisus?

            - Jesus, Rosinha, é, como você, filho de Papai do Céu...

            - Você vem mi batê, vem? Eu num choro mais, não... Sim?..

            A sua vozinha cortava o coração. Ela tremia que fazia dó. Jesus, cuja irradiação luminosa espancara as trevas do improvisado ergástulo, não pode impedir que duas pérolas rolassem de seus olhos infinitamente meigos.

            Abraçou e beijou enternecidamente a pequenina, confortando-a:

            - Bater em você, porque, Rosinha?

            - A moça dexô você intrá aqui, dexô?

            Depois, receosa, fez nova pergunta:

            - Zizus, você também chorô i vai ficá preso vai?

            - Não, Rosinha.. Hoje é Dia de Natal e eu vim buscar você para uma grande festa...

            Batendo as mãozinhas, a menina sorriu como nunca havia sorrido.  

            Então, Jesus alegrou-a ainda mais:

            - Vou levar você comigo para um lugar muito bonito, onde há uma porção de meninas bonitas como você, cantando e brincando...

            Graciosamente, Rosinha beijou a face de Jesus e, nesse instante, sua cabecinha loura ficou mais dourada e em volta dela se formou uma auréola de luz. Pousou a cabecinha no ombro do Divino Mestre e, adormeceu.

*

            Quando despertou, fraquinha, por não se ter alimentado, achava-se estranhamente satisfeita e alegre. A preceptora dela se aproximou, sempre mal-humorada:

            - Como é, manhosa, ainda está muito birrenta?

            Rosinha sorriu, fez uma carinha brejeira e sacudiu a cabeça, negativamente:

            - Ande, venha cá! Vá comer o seu mingau que está esfriando. Como hoje é Dia de
Natal, você tem de limpar a mesa, as cadeiras e o chão, bem limpos, ouviu?

            Rosinha acenou a cabeça, denotando haver compreendido. E foi comer o mingau.

            De repente, viu Jesus. Sentindo grande fraqueza, ela deixou a cabecinha pousar na mesa, enquanto a colher lhe rolava da mão entreaberta para o chão. A preceptora, atenta e ríspida, ao vê-la assim, gritou, estentoricamente:

            - ROSINHA! Comporte-se! Vamos, coma depressa!

            Ela porém, não deu ouvidos à preceptora. Forças estranhas a invadiram e ela foi ao encontro do Mestre, que a esperava de braços abertos.

            - Venha, anjinho, venha cá!

            Rosinha parecia feliz, na companhia de Jesus...


*

            Cá embaixo, neste Umbral de lutas e incompreensões terríveis, que o egoísmo mais torpe acoroçoa, um médico acabava de assinar um papel em que se lia, apenas: “Colapso cardíaco”.

            Era o atestado liberatório que Rosinha obtivera como presente de Natal!..


O Verdadeiro bem



“O verdadeiro bem só se aprecia na dor.
            A dor conduz-nos à perfeição, 
como a imperfeição nos conduz à dor.
            Depois de passarmos dessa vida, 
vemos que o único bem que nela desfrutamos 
foi a dor com que nos confortamos.” 

            Fernando de Lacerda
            in “Do País da Luz” (Ed. FEB)

Aparências



Aparências
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1952

            Não te percas na contemplação excessiva do plano exterior, aniquilando a gloriosa oportunidade de tua própria ascensão à luz divina.
            Aquele que passa na estrada exibindo pesada bagagem de ouro, provavelmente transporta um coração atormentado e infeliz.
            Muitas vezes, quem estende os braços, implorando a esmola fácil, traz consigo a revolta e a dureza intima sob o farrapo humilhante.
            Não raro, o jovem que provoca a inveja de muitos se dirige para destino doloroso, fazendo-se credor de nossa simpatia, em preces de intercessão.
            Frequentemente aquele que te parece feliz, no círculo da prosperidade transitória, é um irmão desventurado, entre aflições morais que lhe constringem o espírito.
            Não julgues o rico por impiedoso, nem o pobre por humilde.
            Não suponhas a felicidade na beleza efêmera do corpo, nem admitas a virtude incorruptível onde se encontre a fealdade passageira.
            Às vezes, a santificação permanece com aquele que se te afigura pecador e a maldade se resguarda no imo de quem se oculta na máscara da pobreza e da angústia, no jogo das aparências.
            Lembra-te de que a Força Divina sabe ver nas profundezas e, com o arado do tempo, tudo corrige, reajusta e eleva, sem necessidade da nossa apreciação individual.
            Aproveitemos o campo da boa luta para a sementeira do bem, porque não responderemos pelos outros e, sim, por nós mesmos, quando a ordem superior da vida nos conduzir a exame necessário.
            Não te prendas à sombra, e, consciente de que receberemos segundo as nossas próprias obras, procuremos, cada dia, a glória de servir, a fim de encontrarmos na imortalidade, fora das ilusões da carne, a felicidade verdadeira e maior.

O homem que aprendeu a lição.



O homem que aprendeu a lição
José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Novembro 1952

            Azanir Bamuride olhava para o mundo, sem amargor. Lutava muito para viver, mas sempre encontrava em que demorar sua atenção com simpatia e boa vontade. Se chovia, abençoava a chuva; se não chovia, encontrava meio de justificar seu diário agradecimento à misericórdia de Alá. Olhava os animais com os olhos da fraternidade. Enfim, sabia sempre descobrir beleza nas manifestações da Natureza.

*

            Passava Azanir por uma das ruas de Constantinopla quando teve a atenção despertada para um homem que, armado de pau, perseguia um pobre cão esquelético. Azanir correu também e protegeu o animal, que, humilde, mostrou seu reconhecimento pelo abanar da cauda. O perseguidor, ao mesmo tempo que ameaçava Azanir, perguntou: - Então, és tu o dono desse cão vadio? Pagas por ele!

            E desferiu duas pauladas. Azanir saltou para o lado e deteve o braço do agressor dominando-o. Vendo o pau cair-lhe da mão, disse-lhe:

            - É errado o que estás fazendo. Que fez este pobre cão para justificar a tua cólera?

            - Roubou-me a carne que guardei para almoçar. E devia matá-lo - esbravejou, furibundo.

            Azanir ponderou:

            - Não creio que isso te restituiria. O que perdeste. Por certo, não pretenderias comer carne de cachorro. Cometerias uma ação má, continuarias sem a carne e acabarias lamentando o momento de desespero que te induzira ao ato violento. Vou largar-te, mas nada farás a este cão, cuja miséria física sugere piedade. Em vez de pretenderes matá-lo, deverias ajudá-lo a viver... Conquistarias um amigo fidelíssimo, acredita.

            Vendo-se livre, o desconhecido permaneceu quieto, mas olhava rancorosamente para o animal, com ímpetos de surrá-lo. Foi quando Azanir voltou a falar:

            - Já experimentaste a tortura da fome? Certamente, não. Assim, ignoras o sofrimento que forçou este cão a roubar o pedaço de carne que tinhas para o almoço. Não penses assim, meu amigo. Os animais não se orientam pelos nossos códigos de moral e sabes que o Alcorão desaconselha violências contra eles. Guiam-se pelo instinto. Quando têm fome ou sede, procuram o que comer ou beber. Não devem ser castigados por isso. Quando sentes fome, que fazes? Pensa um pouco. Se nunca sentiste fome ou sede, ainda não conheceste completamente a vida. Podemos prescindir de tudo, menos do alimento sólido e liquido. que nos permite sustentar as energias do corpo. Se não adubares a terra e não a regares periodicamente, as plantações morrerão fatalmente. Batendo neste cão, porque ele, cedendo a injunções da natureza, comeu a carne que pretendias comer, ofendes a misericórdia de Alá, porque te insurges contra um dos mais simples princípios da vida.

            O desconhecido ouvia sem nada dizer. Não mantinha mais a fisionomia fechada. Estava sério mas parecia medir bem cada palavra de Azanir Bamuride, que continuou a falar:

            - Não me pareces um homem mau, porém pouco esclarecido. Olha o cão que se acolhe temeroso, como que pedindo que eu lhe dê proteção. Vê. Em vez de magoá-lo, chama-o, acarinha-o, ensina-o a fazer o que desejas e a não fazer o que não queres. Tem paciência com ele e verás como sua inteligência te surpreenderá. Se ele soubesse falar, não roubaria a carne: iria pedi-la humildemente. Como não sabe, sente e age consoante as solicitações do instinto. Todavia, se o fizeres teu amigo, será capaz de lutar contra o próprio instinto para não te desagradar.

            Em seguida, Azanir lhe entregou o pau, convidando-o a mudar de atitude.

            - Eu devia abrir-te a cabeça pelo que me fizeste... - resmungou o homem,

            - Pelo senhor da Kaaba ~ - exclamou Azanir. Nada fiz, senão impedir que consumasses o castigo a um ser faminto. Quero que compreendas minha atitude: não te quis fazer mal mas evitar que desagradasses o Todo-Poderoso. “Alá abrirá o coração daquele que quiser" - está no Alcorão. E este fato. meu amigo, pode servir para aclarar o teu entendimento. Peço-te que me perdoes a intromissão. Somos criaturas dotadas da palavra, possuímos maior inteligência que os outros animais. Graças ao recurso divino do raciocínio, podemos distinguir o bem do mal. Achamo-nos, a esse respeito, num plano evolutivo mais elevado. Todavia, se recorremos à violência, baixamos de nível, porque nada eleva mais o homem do que a bondade e a resignação, a complacência e a tolerância. Gostarias que dissessem na cidade que vales menos que um cão magro e faminto? Claramente, não, porque só agiste assim por falta de adequada orientação. Desde, porém, que te resolvas a adotar outro rumo, a falta estará reparada. Acredito mesmo que procederás de outra maneira, se um fato igual ao de hoje se repetir em tua vida. Vamos, amigo, estende-me teus braços. Toma--me como teu irmão, pois que o sou perante Alá. Ajuda-me a fazer com que este pobre cão se torne, não só um fiel companheiro, mas outro irmão nosso em face da Natureza, irmão humilde e fraco, que necessita de amparo e de carinho.

*

            O homem ficara pensativo. Mas abraçou Azanir, mal este se calou. Procurou desajeitadamente aproximar-se do animal, que, desconfiado, encolheu-se e rosnou. Azanir sorriu e afagou o cão. E quando viu que este abanava a cauda, disse ao desconhecido que lhe fizesse festas. Humilde e medroso, o animal as aceitou, rabo entre pernas, encostando o focinho no chão.

            - Vês como é bom o coração deste pobre animal? Já esqueceu o que fizeste e te prova sua humildade, lambendo-te os sapatos.

            - Tems razão. Como te chamas?

            - Azanir Bamuride...

            - Porque és bom?

            - Se há bondade em mim, ela provém de Alá, através da minha consciente submissão à Sua vontade, amigo. Desde que sigas a rota do Alcorão, ficarás em salvamento, porque nada é melhor para o homem do que a palavra do Senhor. Ela é luz que não se extingue. É luz que aquece a alma e a aproxima da Verdade.

            Os dois se abraçaram de novo. O homem disse a Azanir com simplicidade:

            - Eu me chamo Elimar Baruti. Quero levar o cão comigo. Posso?

            - Como queiras. Ele não me pertence.

            Então. Elimar estalou os dedos, chamando o animal:  

            “Amigo”! Vem, “Amigo”! ...

            E se retirou, satisfeito, com o inesperado amigo que ganhara...

            Azanir Bamuride ergueu os braços para o alto e exclamou, mais feliz do que nunca:

            - Alá kibir! Alá kibir!...

            Nessa noite, parecia que as estrelas estavam mais bonitas em seus albornozes (roupões) de luz...