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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Um "Diabo" versado em latim, na Borda da Mata

 


Um "Diabo" versado em latim, na Borda da Mata

Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Junho 1953

             De quando em quando, o "Diabo" (com "D" maiúsculo) resolve despreocupar-se de seus múltiplos quefazeres e subir à Terra para distrair-se um pouco. É o que está acontecendo na cidade mineira de Borda da Mata, segundo interessante reportagem de Margarida bar, na revista “O Cruzeiro”, desta capital, em sua edição de 9 de Maio, sob o título “O Capeta apareceu no sul de Minas...” Naturalmente, o “capeta” está necessitando de “matéria prima” para as caldeiras de Pero Botelho, prejudicado, sem dúvida, pelas restrições de Cexim... E o “Diabo” está fazendo o diabo na Borda da Mata. Pedimos vênia a “O Cruzeiro” para transcrever alguns trechos da deliciosa reportagem, ilustrada com fotografias expressivas dos protagonistas do acontecimento, inclusive do valoroso sacerdote que, em vez de negar o fato, pelo contrário o confirma, com a seguinte frase: "Embuste não houve, afirmo". Começa a repórter: “A crer na voz do povo, o Diabo subiu das profundezas do inferno para, na Terra, habitar a casa-de-fazenda que fica no cimo da mais alta montanha de Borda da Mata, município do Sul de Minas. Isso dizem os 4.000 habitantes da cidade, os 15.000 do município e, por cidades mineiras e paulistas, milhares de outras pessoas repetem, aumentando, no pavor do sobrenatural, o propagado eco das serras.”

             Esclarece a reportagem que o “Diabo” costuma ser pontual. Convenhamos que isto já é uma virtude. Mas, prossigamos: “Depois que o Vigário Cooperador de Borda da Mata, Padre José Oriolo, falou do púlpito da velha igreja, dizendo que o Demônio tinha aparecido na casa da montanha, e depois que se soube ter Frei Belchior, da Ordem dos Capuchinhos, de Ouro Fino, adoecido em virtude da forte impressão que tivera do contato com o diabo, durante o exorcismo, não foi mais possível controlar o povo da região.” Após algumas considerações, a repórter elucida: "Conosco ficou Padre Oriolo, Vigário Cooperador, a quem coube, e mais ao Sacristão Manoel Cardoso. na noite de quinta para sexta, 11 de Abril, acompanhar o Padre Capuchinho de Ouro Fino, Frei Belchior, à casa mal-assombrada. Nessa noite, o Padre Capuchinho, com ordem expressa do Bispo de Pouso Alegre, praticara a cerimônia do exorcismo. Eis o que disse o Vigário da Borda da Mata:

            - Diante dos rumores de barulho e vozes sobrenaturais, fomos à casa além da Ponte da Pedra. É natural, o Padre precisa ver. Mas nada lhe posso adiantar porque foi Frei Belchior quem interrogou a voz. A minha parte se resumiu em rondar ao derredor da morada com o sacristão, de lanterna em punho, varejando inclusive o porão, em vigilância contra algum embuste. Embuste não houve, assevero-lhe."

            Louvável, portanto, a sinceridade do sacerdote: “não houve embuste”. Adiante, na reportagem, lê-se: “em outra noite, ao invés de um, apareceram dois espíritos”. A casa mal-assombrada é a residência de “Alberto Simões de Carvalho, mais conhecido por Alberto Proença (ou o “Português”), com a família, a mulher, Durvalina e seis filhos”. Suspeitavam eles da menina Valdalina, que foi vigiada e chegaram à conclusão de que não era ela que fazia “aquilo”. E nós atribuímos que ela seja médium, simplesmente, e, por força da sua capacidade mediúnica, encontre o espírito, que tanto barulho está fazendo na Borda da Mata, condições para se manifestar.

            Entretanto, não desejamos fazer muitos comentários, mas cingirmo-nos apenas ao que se encontra publicado na revista acima referida. Assim, transcrevemos a palavra de Frei Belchior ali estampada:

            “Sem rodeios, assim se manifestou o irmão religioso da Ordem dos Capuchinhos:

            - Que as coisas que se passam na casa da montanha não são brincadeira, não são. São coisas muito sérias. Mas provas positivas de que são coisas demoníacas, ainda, não tenho. Posso afirmar-lhe, porém, que não se trata nem de visão nem de assombração. Será obsessão ou possessão do demônio. A voz que eu ouvi não é a da menina Valdalina, de jeito nenhum. Agora, se ela está envolvida no caso, é um assunto a estudar.”

            - Donde vinha a voz que o senhor ouviu, Frei Belchior?

            - A voz vinha do teto, e a casa não tem forro. Eu a interroguei fazendo uso do latim e de uma mistura de dialetos italianos, E a voz respondia por vários modos, mas sempre afirmando: “Eu sou o Capeta, o Demônio, o Diabo”. E sempre em voz cavernosa.”

            E deste modo termina a curiosa reportagem: “O povo diz que Frei Belchior, aliás com reputação de sábio e santo, está fazendo penitência para novamente defrontar o fantasma.”

 

*

 

            Aí está, como a ocorrência de um simples fenômeno espírita põe alguns milhares de pessoas, sem esclarecimento da Verdade, em polvorosa... Não se trata de “capeta”, “diabo” ou “demônio” pois que tudo isto é imaginário. Trata-se, evidentemente, de Espirito perturbado que, encontrando ambiente propício à sua manifestação, o faz, valendo-se de algum inconsciente médium de efeitos físicos. Já o fato de sacerdotes católicas confirmarem a realidade dos fenômenos, já vale alguma coisa. Vê-se que o “Diabo” é versado em latim, dialetos italianos, etc. Não é para se desprezar, portanto, essa prova salutar de cultura linguística...

            E é para se admirar que, numa época tão conturbada, em que o inferno deve estar superlotado, tenha o “capeta” tempo disponível para vir brincar na Borda da Mata...


Enquanto

                

Enquanto  

Emmanuel por Chico Xavier       Reformador (FEB) Janeiro  1957

                      "...Não vem o Reino de Deus com visível aparência."  

                                                        Jesus (Lucas, 11:20)

 

            Dominarás a gramática, adquirindo fino lavor verbalista, na ciência da expressão, mas, enquanto não articulares a própria linguagem na luz da sinceridade e da compreensão, a tua palavra, conquanto primorosa, não renovará a ninguém.

            Indicarás a trilha exata da beneficência através de preciosos conselhos, mas, enquanto não te dispuseres a percorrer a estrada do desprendimento, no auxílio aos semelhantes, embora ajudes indiretamente a quem te ouça, andarás órfão de teus próprios avisos.

            Pregarás tolerância, movimentando conceitos sublimes, mas, enquanto não deres de ti mesmo, em abnegação e humildade, na desculpa que ofertas, não farás claridade no coração, a fim de acertar com o próprio caminho.

            Levantarás magnificentes construções terrestres, mas, enquanto não ergueres em ti próprio o templo da paz, alicerçado no dever nobremente cumprido, não encontrarás em teu benefício o pouso interior da genuína tranquilidade.

            Honrarás os teus familiares e amigos por seres extremamente queridos, mas, enquanto não compreenderes que as esperanças e as necessidades deles são iguais às do próximo, com o mesmo direito à bênção de Deus, não conquistarás, em favor de ti, a cidadania do Universo.

            Desfrutarás admiração e apreço, com espetáculos de prestígio e renome, mas, enquanto essas realizações não te repercutirem na vida íntima, em forma de alegria oculta pelas obrigações irrepreensivelmente atendidas, ainda mesmo à custa de supostos fracassos e prejuízos, no campo das experiências materiais, nenhuma demonstração de estima pública te adiantará no reino do espírito, onde, em verdade, se te vincula a vida real.

            Melhoraremos o mundo em derredor de nós, aperfeiçoando a nós mesmos. Capacita-te de que, depois das tarefas executadas no plano físico, possuirás tão somente a extensão e a quantidade de céu que houveres edificado dentro de ti...


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Falta de fé

 


Falta de fé

Emmanuel por Chico Xavier         Reformador (FEB) Janeiro 1957

             “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões.”

                                                           Paulo aos Romanos 14:1

             Não se deve julgar a criatura sem fé pelo padrão moral daquela que a possui como não se pode considerar o enfermo à maneira de alguém que se encontre sem saúde porque assim o deseje. E, assim como não se extingue a doença com pancadas e sim à custa de amparo e remédio, não se remove a descrença a preço de controvérsia e sim pelo concurso do amor e da educação.

            Existem motivações diversas para a incredulidade, tanto quanto existem causas variadas para a moléstia.

            Em toda parte, onde se alinham seres humanos, encontramos aqueles irmãos que ainda se privam de mais amplo entendimento no domínio das questões essencialmente espirituais:

            - os que da infância à madureza tão-somente estiveram no clima da mais profunda ignorância acerca dos assuntos da alma;

            - os que se enredaram na inquietação, à face de compromissos inconfessáveis e temem o contato com as realidades do Espírito;

            - os que se apegam a preconceitos estéreis e fogem de incrementar no próprio ser o conhecimento da Vida Superior;

            - os que sofrem processos obsessivos, temporariamente incapacitados para raciocinar com segurança, em torno da orientação pessoal.

            - os que caíram em extrema revolta, ante as lides expiatórias que eles mesmos fizeram por merecer.

            Quando te vejas defrontado pelos companheiros sem fé ou portadores de confiança ainda muito frágil, compadece-te deles e auxilia-os; quanto possas. Segundo a solicitação do apóstolo Paulo, saibamos acolhê-los ao calor da bondade, nunca ao fogo da discussão.


A lição da água poluída

 

A lição da água poluída

João Marcus (Hermínio Miranda)     Reformador (FEB) Janeiro 1967

 

            Antes de alcançar o quilômetro zero da Rodovia Presidente Dutra, a Avenida Brasil atravessa na altura de Manguinhos, um canal de águas poluídas que escorrem preguiçosamente para o mar. Aquela água fétida me ensinou uma lição que talvez valha a pena transmitir ao leitor.

            Aquela água, pensava eu, não foi sempre suja. Estou certo de que, se remontarmos às suas nascentes, a encontraremos pura e fresca como a inocência. Foi no seu curso, rio abaixo, que a contaminaram com detritos, lixo e podridão.

            Também nós, espíritos, somos criados puros, como diz a boa doutrina, e seguimos o nosso curso. Se não nos defendermos e não nos preservarmos, vamo-nos contaminando com os detritos espirituais, colhidos ao longo do nosso caminho. Insensivelmente, vamo-nos tornando imprestáveis para nós mesmos e para o nosso semelhante. Passamos a ser meros veículos de poluição. Não fomos sempre assim: as fontes das quais emanamos são puras e nobres, mas, se não escolhemos os caminhos por onde andamos, a cristalina beleza, que nos foi dada, no início, se tolda na impureza das nossas paixões, no ímpeto das nossas vaidades.

            Isso, aliás, acontece também com quase todas as grandes doutrinas que nos legaram eminentes espíritos. De tempos em tempos, vem das alturas um grande vulto espiritual trazer-nos a sua contribuição para o progresso da Humanidade. Aquilo que prega aos que têm a ventura de ouvi-lo, em primeira mão, é belo e simples corno a verdade, mas o que se transmite depois, por tradição oral ou escrita, começa logo a se mutilar e contaminar-se de ideias impuras; o que era amor se transforma, pouco a pouco, em ódio; o que era caridade turva-se pela intolerância; o que era fraternidade, mancha-se de rivalidade. E enquanto o rio, como o tempo, segue o seu curso implacável, os sedentos que buscam nas águas um refrigério encontram-na maculada, conspurcada, imprestável para aplacar a sede da alma que sonha com a paz divina.

            Tal como os rios, porém, as doutrinas poluídas podem ser alcançadas, ainda puras e frescas, nas suas origens. A água pode estar suja aqui, mas é límpida e cristalina, lá, onde nasceu e onde continua a jorrar generosamente, incessantemente. A impureza não lhe é própria - é estranha, espúria, provêm de detritos que lhe atiraram ao longo do curso. A água que escorre pejas matas, onde ainda não chegou a “civilização”, chega pura ao seu destino. Nela vivem multidões de peixes e de seres. Nela se dessedentam todos os animais da criação, Nela se mira a face tranquila da Lua e nela acende o Sol fulgores inesperados. Ela canta entre as pedras, aprofunda-se nas represas, espadana-se nas cachoeiras irisadas, É difícil, porém, senão impossível ao mais modesto riacho, atravessar uma cidade, ou mesmo um lugarejo, e continuar puro como entrou. Impiedosamente, retiramos a sua água limpa e lha devolvemos maculada.

            Nem por isso, no entanto, elas deixarão de seguir o seu destino e prestar o seu serviço.

            Há outras lições, porém, nas águas que escorrem inexoráveis. É que elas também renascem. Uma boa parte se evapora, numa imitação de espiritualização e sobe para o céu, de onde desaba transmutada em chuva generosa sobre a terra. Vai impulsionar a germinação e o crescimento das plantas, vai ajudar um novo ciclo de vida. Vai infiltrar-se pelo chão a dentro e renascer alhures, purificada nos imensos filtros da Natureza.

            Lição prodigiosa essa, que precisaria, para explaná-la, a erudição e a oratória de um Vieira renascido. Diria ele, na riqueza das suas imagens e na pureza do seu verbo, que a água renascida é água purificada; é água que veio servir de novo, na humildade do seu mister; é água que se recuperou às angústias da podridão e recomeçou a sua tarefa, incansável; é água que não teme atravessar cidades e não teme receber detritos, porque a mão invisível de Deus a conduz e a faz filtrar-se e renascer tão pura e fresca como dantes; é água que mata a sede; é água que banha; é água que limpa; é água que recebe fluidos espirituais e se transforma em veículo da recuperação; é água sobre a qual flutuam embarcações, fatores de comunicação, entendimento e comércio entre os homens; é água que serve sem queixas, sem mágoas, sem ressentimentos, sem angústias, ao bom e ao que ainda não descobriu a bondade: é água que, à semelhança do Sol, nasce para o justo e para o injusto, como diz o Livro.

            Depois dessa inesperada meditação, não mais tive desgosto ao contemplar as escuras águas do canal, em Manguinhos. Sei que, nas suas origens, continua virginal; sei que, mesmo impura, contínua a servir, arrastando para longe os detritos que atiraram à sua face, sei que o seu destino é purificar-se novamente para novamente servir.


terça-feira, 27 de outubro de 2020

Ainda um pouco de tempo

 Ainda um Pouco de Tempo         

  16,16  “-Ainda um pouco de tempo, e já não Me vereis e, depois, mais um pouco de tempo  e Me tornareis a ver, porque vou para junto do Pai” 

16,17  Nisso, alguns de seus discípulos,  perguntavam   uns   aos   outros: -Que é isso que Ele diz: Ainda um pouco de tempo e não Me vereis, e, depois, mais um pouco de tempo e Me tornareis a ver?  E que significa também: -Vou para o Pai! 

16,18 Diziam então: -Que significa este “pouco de tempo” de que fala? -Não sabemos o que Ele quer dizer! 

16,19 Jesus notou que Lho queriam perguntar e disse-lhes: “-Perguntais uns aos outros acerca do que Eu disse: Ainda um pouco de tempo e não Me vereis, e depois mais um pouco de tempo e Me tornareis a ver. 

16,20  Em verdade, em verdade vos digo, haveis de estar tristes mas, a vossa tristeza se converterá em alegria. 

16,21 Quando a mulher está para dar a luz, sofre porque veio a sua hora mas, depois que deu a luz à criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido seu filho 

16,22 Assim também vós, sem dúvida, agora estais tristes, mas hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria. 

16,23 Naquele dia não Me perguntareis mais coisa alguma. Em verdade, em verdade vos digo, o que pedirdes ao   Pai  em   Meu  nome,   Ele  vo-lo  dará”

        

         Para Jo (15,20) -Alegria Cristã -  vejamos  “Caminho, Verdade e Vida” (Ed. FEB), de Emmanuel, por psicografia de Francisco C. Xavier:

             “Nas horas que precederam a agonia da cruz, os discípulos não conseguiram disfarçar a dor, o desapontamento. Estavam tristes. Como pessoas humanas, não entendiam outras histórias que não fossem as da Terra. Mas,  Jesus, com vigorosa serenidade, exortava-os: “Na verdade, na verdade, vos digo que vós chorareis e vos lamentareis; o mundo se alegrará e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria.”

            Através de séculos, viu-se no Evangelho um conjunto de notícias dolorosas - um Salvador abnegado e puro conduzido ao madeiro destinado aos infames, discípulos debandados, perseguições sem conta, martírios e lágrimas para todos os seguidores...

            No entanto, essa pesada bagagem de sofrimentos constitui os alicerces de uma vida superior, repleta de paz e alegria. Essas dores representam auxílio de Deus à terra estéril dos corações humanos. Chegam como adubo divino aos sentimentos das criaturas terrestres, para que de pântanos desprezados nasçam lírios de esperança.

            Os inquietos salvadores da política e da ciência, na crosta planetária, receitam repouso e prazer a fim de que o espírito chore depois, por tempo indeterminado, atirado aos desvãos sombrios da consciência ferida pelas atitudes criminosas. Cristo, porém, evidenciando suprema sabedoria, ensinou a ordem natural para a aquisição das alegrias eternas, demonstrando que fornecer caprichos satisfeitos, sem advertência e medida, às criaturas do mundo, no presente estado evolutivo, é depor substâncias perigosas em mãos infantis. Por esses motivo, reservou trabalhos e sacrifícios aos companheiros amados, para que se não perdessem na ilusão e chegassem à vida real com valioso patrimônio da estáveis edificações.

            Eis por que a alegria cristã não consta de prazeres de inconsciência, mas da sublime certeza de que todas as dores são caminhos para júbilos imortais.”

 


domingo, 25 de outubro de 2020

Eliéser Rosa: "...o Bem não faz mal!"

 


Eliézer Rosa: “... 0 Bem não faz mal!”

por Indalício Mendes    Reformador (FEB) Janeiro 1976  

                                                                                        

            Vem de ser divulgada pela imprensa “A Notícia” e “O Dia”, ambos do Rio, edições de 29-11-1975, inspirada sentença proferida pelo eminente magistrado Dr. Eliézer Rosa DD. Juiz da 8ª Vara Criminal, que absolveu médiuns acusados de prática de curandeirismo. De tal maneira S. Ex. penetrou o âmago da delicada questão que a situou, sábia e brilhantemente, em plano superior, fundamentando-se numa lógica invulnerável e em argumentos ao mesmo tempo simples, serenos e seguros, para concluir com profunda acuidade e meridiana clareza, pela ausência de crime a punir.

            Seu consistente raciocínio veio como que estabelecer novo e salutar clima em face do que poderíamos denominar “a mediunidade e a lei”, título, aliás de expressiva obra de Carlos Imbassahy, a respeito justamente da “mediunidade curativa”. Longe de nós subestimar a importância e a utilidade da Medicina tradicional, os benefícios que tem trazido à Humanidade. Todavia, devemos humildemente compreender que a infalibilidade não é, infelizmente, atributo comum ao homem terreno. “Justifica-se o esforço dos experimentadores da Medicina tentando descobrir um caminho novo para atenuar a miséria humana; todavia, sem abstrairmos das diretrizes espirituais, que orientam os fenômenos patogênicos nas questões das provas individuais, temos necessidade de reconhecer a imprescindibilidade da saúde moral, antes de atacarmos o enigma doloroso e transcendente das enfermidades físicas do homem.” (“Emmanuel” – Dissertações Mediúnicas – de Emmanuel por Francisco Cândido Xavier, cap. XXIII). Hoje, através da psicossomatologia, já se reconhece a procedência da afirmativa espírita de que, não raro, “as chagas da alma se manifestam através do envoltório humano” (isto é, o corpo físico). E é ainda Emmanuel quem esclarece: “O corpo doente reflete o panorama interior de espírita enfermo. A patogenia é um conjunto de inferioridades do aparelho psíquico” (“O Consolador” de Emmanuel por Francisco Cândido Xavier, Questão nº 96).                 O mesmo autor espiritual prossegue: “A saúde humana nunca será o produto de comprimidos, de anestésicos, de soros, de alimentação artificialíssima. O homem terá de voltar os olhos para a terapêutica natural, que reside em si mesmo, na sua personalidade e no seu meio ambiente. Há necessidade, nos tempos atuais, de se extinguirem os absurdos da fisiologia dirigida. A medicina precisa criar os processos naturais de equilíbrio psíquico, em cujo organismo, se bem que remoto para as suas atividades anatômicas, se localizam todas as causas dos fenômenos orgânicos tangíveis”. (“Emmanuel”, cap. XXllI). Além do mais, é princípio pacífico e irreversível no Espiritismo Cristão, a gratuidade dos benefícios mediúnicos, sejam eles de que natureza forem, princípio esse baseado nas palavras de Jesus-Cristo: “Dai de graça o que de graça receberdes” (Mateus, X: 8). E está em “0 Evangelho segundo o Espiritismo”, cap. XXVI, p. 379, 63ª edição, FEB, 1975: “Com esta recomendação, prescreve que ninguém se faça pagar daquilo por que nada pagou. Ora, o que eles haviam recebido gratuitamente (refere-se o Mestre a seus discípulos) era a faculdade de curar aos doentes e de expulsar os demônios, isto é, os maus Espíritos. Esse dom Deus lhes dera gratuitamente, para alívio dos que sofrem e como meio de propagação da fé; Jesus, pois, recomendava-lhes que não fizessem dele objeto de comércio, nem de especulação, nem meio de vida.”

             Passemos, pois, a transcrever a luminosa sentença do egrégio Dr. Juiz Eliézer Rosa, revestida de admirável eloquência cristã:

             "Oscar Wilde Oliveira Silva, Danacê Gehrke e Maria da Conceição Queirós dos Santos foram denunciados, o primeiro e segundo réus nas penas dos arts. 282 e 264, I, do Cód. Penal combinados com o art. 25 do mesmo Código, e a terceira acusada como incursa no art. 284, I, combinado com o art. 25, ambos do Cód. Penal, porque o primeiro acusado receitava remédio e a segunda ré colaborava com ele, a terceira acusada porque colaborava com o primeiro réu, na prática do curandeirismo e exercício ilegal da Medicina.  Expõe a denúncia que, no dia 22 de junho deste ano de 1975, na Rua Presidente Barroso, 130, onde funciona o Centro Espírita Caboclo Pedra da Mata, foi preso em flagrante o primeiro réu, porque, ali, exercia ilegalmente a medicina, além de praticar o curandeirismo, auxiliado pela segunda acusada que escrevia as receitas médicas, enquanto que a terceira acusada organizava as filas e recebia as importâncias em dinheiro. Acrescenta a denúncia que, no momento da prisão, o primeiro réu fazia uma operação em Roberto Pereira dos Santos, usando um canivete, a uma bucha contendo um líquido vermelho, “idêntico a sangue”, pressionando-a sobre o olho do paciente, do mesmo passo que a segunda ré descrevia e traduzia a operação realizada pelo primeiro acusado. Prossegue a denúncia dizendo que Maria José de Oliveira, Selma Santos e Ana Martins da Rocha foram operadas pelo primeiro réu que dizia “estar incorporado ao Dr. Fritz”.

             O processo teve curso legal.

            Foram os réus interrogados a fls. 60, 61 e 62. Defesa a fls. 64 a 68. Testemunhas a fls. 80 a 84. Na audiência de julgamento, foram ouvidas as testemunhas da fls. 90 a 93, seguindo-se os debates orais. O Dr. Promotor pediu a condenação do primeiro e segundo réus, e a absolvição da terceira. A defesa, pelo magistério de ilustres advogados, pediu a absolvição dos três acusados, requerendo, a juntada de um memorial Ilustrado oferecido pela testemunha de um memorial ilustrado oferecido pela testemunha e médico Dr. Kroner.  

             Foi tudo visto e examinado.

             A denúncia atribui aos três acusados a prática de curandeirismo, e ao primeiro réu e à segunda ré também o crime de exercício ilegal da medicina.

             No que concerne ao delito de curandeirismo imputado aos três réus, faltam-lhe os elementos que formariam figura do curandeiro emprestada aos três acusados. Por definição, curandeirismo é a atividade ou a prática do curandeirismo, isto é, daquele que cura sem títulos nem habilitações, utilizando-se de rezas e feitiçarias, ou no verbete do consagrado filólogo e dicionarista Antenor Nascentes. “indivíduo que se mete a curar, sem títulos nem habilitações, usando, às vezes, de meios charlatanescos”. Os acusados não praticavam nem rezas nem feitiçarias, nas atividades a que se entregavam na ocasião, e a que se propõe, desde há muito, o “sensitivo”, “médium” ou "aparelho" do Dr. Fritz, como é o primeiro acusado.

             Não receitam, não prescrevem, inculcam o uso de vitaminas e que tais, coisas que se usam sem indicação médica, as mais das vezes.

             Quanto ao exercício ilegal da medicina, crime atribuído ao primeiro e segundo réus, não ocorre, no caso. O primeiro réu é um dos da grande família dos “sensitivos”, desses novos “iniciados” em conhecimentos que escapam à observação e à experimentação. É o primeiro réu - Oscar Wilde Oliveira Silva da mesma linhagem espiritual de José Pedro de Freitas (Zé Arigó), Evaldo de Oliveira Silva, Lourival Freitas. Salvino Mariano da Costa, Antônio José Sales, lzaltina e outros, cujos nomes só a gratidão sabe guardar. São eles “aparelhos” de grandes médicos do passado e, em estado de transe, fazem o que lhes ditam os que deles se servem como seus instrumentos ou na linguagem exata dos entendidos, como seus “aparelhos”. Operam por meios e métodos espirituais, “fluidicamente”. Não é a cirurgia comum de técnicos e consagrados cirurgiões. São emanações de energia consciente, são forças para psicológicas que resultam da liberação de energia consciente e de que se utilizam esses chamados “médiuns” ou “aparelhos” de egrégias figuras da medicina do passado, como o cirurgião Ambroise Paré, ele quem se dá como “aparelho” o sensitivo Lourival de Freitas.

             Não é exercício ilegal da medicina, nos termos definidores de medicina humana. É um tipo de medicina medicamentosa e curativa mas de ordem espiritual. É para os que crerem e tiverem fé.

             Os fatos que estes autos mostram são daqueles que exigem interpretação e estudo detido pelos que lhes conhecem a importância e a transcendência. Diante deles, fica-se na fronteira do mistério, onde acaba a Ciência e começa a Fé. Não tenho por criminoso esse iniciado e sensitivo Oscar Wilde Oliveira Silva nem como crimes de curandeirismo e ilegal exercício da medicina o que ele realiza. Fazer o bem, diminuir as dores humanas, não podem ser consideradas atividades que incorrem na censura nem leiga, nem legal.

             Testemunhas maiores de qualquer suspeita e dúvida vieram dizer dos benefícios que receberam, das curas realizadas.

             Está o julgador diante de fatos que refogem ao ordinário, ao conhecido pelos sentidos do comum das criaturas humanas. São fenômenos espirituais que exigem estudo pelos homens de boa vontade e de fé, que respeitam os fatos e sua veracidade.

             Não encontro crime a punir na conduta de Oscar Wilde Oliveira Silva, e, pois, não o posso encontrar na segunda acusada, nem na terceira, para quem, aliás, foi pedida a absolvição pelo eminente Dr. promotor.

             Por derradeiro: se se houvesse de qualificar de criminosa a conduta do réu Oscar Wilde de Oliveira Silva, haveria primeiro de deixar-se provado o dolo, o que não seria possível porque os “sensitivos”, “médiuns” ou “aparelhos” como o primeiro acusado, agem em estado de transe.

             Absolvo os réus porque não encontro crime a punir. Não posso entrar nesse novo e maravilhoso mundo que será aquele onde dominar a liberação da energia consciente e seu aproveitamento para o bem dos homens; mas, embora fora dele, deixo manifestado o respeito que merecem os que procuram, por meio da fé, diminuir o sofrimento humano e fazer renascer nos rostos amargurados um largo e generoso sorriso, porque a dor passou, o doente melhorou e a paz retornou à casa do aflito. Eu também creio que o Bem não faz mal.  P. I.

            Rio de Janeiro, 26 de novembro de 1975. Eliézer Rosa - Juiz de Direito”

 


Ainda um pouco de tempo...

Ainda um Pouco de Tempo         

 16,16  “-Ainda um pouco de tempo, e já não Me vereis e, depois, mais um pouco de tempo  e Me tornareis a ver, porque vou para junto do Pai” 

16,17  Nisso, alguns de seus discípulos,  perguntavam   uns   aos   outros: -Que é isso que Ele diz: Ainda um pouco de tempo e não Me vereis, e, depois, mais um pouco de tempo e Me tornareis a ver?  E que significa também: -Vou para o Pai! 

16,18 Diziam então: -Que significa este “pouco de tempo” de que fala? -Não sabemos o que Ele quer dizer! 

16,19 Jesus notou que Lho queriam perguntar e disse-lhes: “-Perguntais uns aos outros acerca do que Eu disse: Ainda um pouco de tempo e não Me vereis, e depois mais um pouco de tempo e Me tornareis a ver. 

16,20  Em verdade, em verdade vos digo, haveis de estar tristes mas, a vossa tristeza se converterá em alegria. 

16,21 Quando a mulher está para dar a luz, sofre porque veio a sua hora mas, depois que deu a luz à criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido seu filho 

16,22 Assim também vós, sem dúvida, agora estais tristes, mas hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria. 

16,23 Naquele dia não Me perguntareis mais coisa alguma. Em verdade, em verdade vos digo, o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo dará”

             Para Jo (15,20) -Alegria Cristã -  vejamos  “Caminho, Verdade e Vida” (Ed. FEB), de Emmanuel, com psicografia de Francisco C. Xavier:

             “Nas horas que precederam a agonia da cruz, os discípulos não conseguiram disfarçar a dor, o desapontamento. Estavam tristes. Como pessoas humanas, não entendiam outras histórias que não fossem as da Terra. Mas,  Jesus, com vigorosa serenidade, exortava-os: “Na verdade, na verdade, vos digo que vós chorareis e vos lamentareis; o mundo se alegrará e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria.”

            Através de séculos, viu-se no Evangelho um conjunto de notícias dolorosas - um Salvador abnegado e puro conduzido ao madeiro destinado aos infames, discípulos debandados, perseguições sem conta, martírios e lágrimas para todos os seguidores...

            No entanto, essa pesada bagagem de sofrimentos constitui os alicerces de uma vida superior, repleta de paz e alegria. Essas dores representam auxílio de Deus à terra estéril dos corações humanos. Chegam como adubo divino aos sentimentos das criaturas terrestres, para que de pântanos desprezados nasçam lírios de esperança.

            Os inquietos salvadores da política e da ciência, na crosta planetária, receitam repouso e prazer a fim de que o espírito chore depois, por tempo indeterminado, atirado aos desvãos sombrios da consciência ferida pelas atitudes criminosas. Cristo, porém, evidenciando suprema sabedoria, ensinou a ordem natural para a aquisição das alegrias eternas, demonstrando que fornecer caprichos satisfeitos, sem advertência e medida, às criaturas do mundo, no presente estado evolutivo, é depor substâncias perigosas em mãos infantis. Por esses motivo, reservou trabalhos e sacrifícios aos companheiros amados, para que se não perdessem na ilusão e chegassem à vida real com valioso patrimônio da estáveis edificações.

            Eis por que a alegria cristã não consta de prazeres de inconsciência, mas da sublime certeza de que todas as dores são caminhos para júbilos imortais.”

 


sábado, 24 de outubro de 2020

Tentação de Jesus

                            

Tentação de Jesus

A Redação  Reformador (FEB) 16 Junho 1919

             “Aí permaneceu quarenta dias e foi tentado pelo diabo; nada comeu durante esses dias e, passados eles, teve fome...” Lucas Cap. IV:2

             De uma facundia (eloquência) prodigiosa só igualável à própria puerilidade e ousadia, são os argumentos e conceitos de ordinário empregados pelos adversários da doutrina espírita.

            Há poucos dias, era um confrade cioso dos créditos do nosso proselitismo, que chamava a nossa atenção para o trecho de um sermão católico, no qual se pretendia inferir da passagem evangélica da “tentação de Jesus” a existência e, mais do que isso - a ascendência do demônio.

            Ora, a quem quer que se dê ao trabalho de filosofar medianamente com a própria inteligência, não será difícil, já agora, concluir que essa entidade individualizada na acepção comum que lhe empresta o catolicismo romano, colide – substancialmente com os atributos de suprema bondade e onisciência de Deus.

            Porque de duas uma:-ou Deus criando os anjos não os fez íntegros em sua pureza, ou não os fez essencialmente iguais. No primeiro caso haveria imperfeição técnica da obra; no segundo, flagrante injustiça, tanto mais odiosa quanto irreparável na consumação dos séculos.

            Deste dilema não há fugir e quando os que levianamente estadeiam esses princípios, completam tão falho raciocínio com palavras ocas de sentido como: - Deus assim quis - esquecem-se de que são eles, simplesmente eles, que estão querendo que Deus assim quisesse.

            E é por estes e outros absurdos correntes em religião, pela falsa noção de Deus, da criação e dos seus destinos que a humanidade desvaira e procura em reivindicações de força bruta a solução do problema de sua felicidade ou infelicidade na Terra.

            Que se nos não atribuam exageros de sectarismo ao afirmarmos que, do conflito incoercível da religião com a filosofia, no que elas têm até agora realizado, se originam os males da nossa época.

            Ninguém há que, na ignorância ou, pelo menos, na incerteza de alguma coisa para além desta vida, possa imolar-lhe abnegada e inteiramente o seu ideal de felicidade.

            Ninguém pode compreender um Deus onipotentemente voluntarioso, que deixa morrer os filhos à fome, imperturbável na sua glória, para que outros filhos realizem desde logo quanto lhes farte, na terra como no céu.

            Aí, porém, os divinos procuradores e privilegiados da Verdade são lógicos: este pandemônio terreno não deixa de ter analogia com a sua gênese abstrusa, salvo quanto às perspectivas.

            Na Terra, a anomalia é temporária e no mundo espiritual ela é eterna e definitiva; mas na Terra como nos arcanos do infinito, há seres ingenitamente privilegiados, homens ou anjos votados ao eterno suplício ou à eterna felicidade!

            Razão de sobra para que os libertários contemporâneos, os equalitaristas de todos os matizes proclamem que as religiões têm sido e são os maiores inimigos do homem, da sua liberdade, da sua fraternidade.

            É preciso, portanto, proclamar bem alto, também, que a Religião, indestrutível em si, e inalienável também da natureza humana, como princípio causal, está pervertida no seu curso, adulterada nos seus fins, incapaz, em suma, de satisfazer os reclamos da consciência humana nos seus legítimos ditames.

            Não somos nós, porém, os criadores de uma nova religião, não somos sequer, os tarefeiros dessa obra reparadora no que ela tem de mais elevado e positivo; são os espíritos do Senhor, são os que falam de um mundo extreme de paixões rasteiras, de prejuízos mesquinhos, que vêm, não já pela palavra mas pelo fato incontrastável, proclamar e provar a sua oportunidade, reconciliando a fé com a razão, e integrando Deus nas consciências justamente combalidas ou simplesmente revoltadas.

            A isto pretendem opor-se os doutos teólogos, de modo gratuito e com a só autoridade da sua tradição. É justo e por tal não os malsinamos, cônscio de que têm o seu papel assinalado na evolução que se intensifica e precipita. Da história do mundo, conhecemos o suficiente para saber quanto custa a demolição de consagrados privilégios e regalias. Basta lembrar o sangue dos mártires do Cristianismo, sem esquecer o que por “amor” ao mesmo Cristianismo, se derramou nas guerras religiosas ou por sentenças da truculenta inquisição.

            E tudo para que? Para que ainda hoje “O Cristo” se conserve desconhecido, inconcebível, ao ponto de o julgarem a ele – Deus - passível de tentação do maior êmulo (adversário) de Deus, ou seja de si mesmo.

            Quanta puerilidade! Quanta incoerência! Mas não no alonguemos na explicação do texto evangélico que é o que de perto diz com a nossa tarefa nesta tribuna doutrinária. Jesus, homem, não poderia jejuar 40 dias no deserto, impunemente; Jesus, Deus, não poderia ser tentado. As suas palavras ao povo tinham, como de resto muitos dos seus ensinamentos, um sentido emblemático, visando o futuro das gerações que ele presidiu e preside do alto da sua glória. Deixando e retomando a vida (no caso o corpo) quando queria, o Divino Mestre por satisfazer a tradição do povo judeu (1) rarefez os fluidos que lhe davam a corporeidade tangível e deu, com a sua ausência aparente, mais uma dessas lições que precisam ser compreendidas em espirito e verdade.

                 (1) Os profetas se preparavam para as suas missões por meio da meditação, da prece e do jejum, no deserto. (Roustaing VI pag. 315 - edição 1918)

             O jejum é preceito salutar relativamente, no seu aspecto físico. Todos sabemos as virtudes de uma bem e entendida frugalidade. Do ponto de vista moral, porém, ele é absoluto e neste sentido é que Jesus o prescrevia, maximé (principalmente) para os nossos tempos. O demônio existe, não como êmulo do Pae, personalizado e votado ao mal eterno, mas simbolizado nos espíritos inferiores, que se aproveitam das fraquezas humanas para cevar a suas paixões desordenadas. E o jejum do mal, é a abstinência dos maus atos, dos maus pensamentos flui afugentam e neutralizam a tentação, enquanto os sentimentos contrários, as obras e pensamentos de amor e caridade atraem os bons espíritos e nos fortalecem para vencer os próprios arrastamentos. De mais, se, como dizem os mesmos Evangelhos, os espíritos imundos os espíritos das trevas luziam espavoridos à simples aproximação do Messias de Deus, não há admitir esse colóquio monstruoso, essa hipótese infirmativa da própria divindade de Jesus que a igreja tão ciosamente defende, mas não explica.

            Os tempos aí estão, porém, chegados para a elucidação dos Evangelhos enterrados há mais de dezesseis séculos, e tanto mais promissores se nos afiguram os tempos, quanto, para essa obra de remodelação religiosa, os mensageiros do alto não vão bater às portas de bronze dos templos de pedra, mas às dos templos vivos nos quais há um altar que se chama - razão, para um só pontífice que se chama - consciência.

            Pontificando nesse altar em ritualismo comprovado por fatos transcendentes à própria vontade, a humanidade cônscia da perenidade e grandeza dos seus destinos concluirá logicamente que eles se não resolvem a bombas de dinamite nem a tiros de canhão, porque há uma justiça indefectível e sobranceira, que pauta e gradua a sua escalada na realização de todas as conquistas, individuais ou coletivas, na Terra, no espaço, na Universo enfim.

            E dizer-se que isto lá está nesses Evangelhos que a igreja conhece mas sofisma há vinte séculos!



sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Espiritismo religioso

 

Espiritismo Religioso

por Hernani T. Sant’Anna

Reformador (FEB) Julho 1954

             Se o Espiritismo guarda a finalidade precípua de transformar a face moral do Planeta, pelo esclarecimento das massas populares elevando o nível de entendimento e vida dos povos, não podemos entende-lo sem o aspecto religioso, porque somente a Religião é capaz de propiciar à multidão os recursos necessários à reforma dos costumes à ascensão positiva dos valores sociais.

             Esta é, aliás, a grande lição que a História nos ensina, quando nos coloca face a face com os grandes movimentos coletivos de todos os tempos. Penetrar a alma do povo, atingir a sociedade no que ela possui de mais íntimo, modificando lhe a própria ética de viver, é privilégio da Religião. A Ciência só atinge a técnica, não chega aos sentimentos. E as teorias filosóficas, quando divorciadas do ideal que age, não vão além do círculo das elites intelectuais, para mero gáudio da fina dialética e honra inócua de estantes e museus.

             Valham, pois, os esforços honestos e bem intencionados de quantos lidam por fazer penetrar o Espiritismo na consciência coletiva, semeando nas almas humanas os pólens das concepções superiores. Compenetrando-se da eternidade da vida, da responsabilidade individual perante a lei, da necessidade do esforço próprio para a conquista da felicidade, da lei de cooperação fraternal, da justiça perfeita que pontifica em todos os quadrantes do Universo, irá o povo, espontaneamente e por seus próprios atos, inaugurando uma era nova de entendimento e paz social, com trabalho digno e farto para todos.

             Numa época como a que vivemos, tão repleta de inquietações e violências, não pode haver trabalho mais nobre e produtivo do que esse, de acender a luz a luz do espírito por sobre a noite de angústias e dos desesperos humanos, à custa de renúncia e abnegação, amor e sacrifício.

             Afinal, é dessa lide silenciosa de arregimentação do bem, sem virulências e extremismos, objetivos de dominação ou de avassalamento, que nascerá a grandeza do futuro, a paz das nações e a felicidade dos povos deste orbe.


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Espiritismo

 



Espiritismo

por Carlos Imabassahy   Reformador (FEB) Junho 1924

 

            O Espiritismo não se resume, a meu ver, unicamente, num corpo de doutrina.

            Esta é, sem dúvida, a parte principal, a mais importante do edifício em construção. Mas, não é a única; há outras, no grande todo, que não podem ser postas à margem.

            Todas elas, as partes, as vigas do grande monumento espiritualista se acolchetam, formando um conjunto harmônico.

            Tende tudo para um fim único: - a convicção, nos homens, que devem praticar a lei do amor.

            É esse, necessariamente, o alvo a que miram os espíritos superiores, encarregados pelo Mestre da missão grandiosa de regenerar o planeta.

            Mas, esse edifício, que se principia a erigir com um pouco de boa vontade aqui na Terra e com maravilhosa energia no Espaço, precisa de alicerces; são neles que assenta o organismo que agora começa a desenvolver-se.

            Os alicerces do Espiritismo são a parte experimental, são os fatos mediúnicos, que surgem por toda a parte, trazendo à pobre humanidade sofredora a prova da sobrevivência, com todas as consequências que dela dimanam: -as tristezas, as angústias, as dores para os maus; a paz, as alegrias, a felicidade para os bons.

            Sem os casos da mediunidade, não teria surgido o Espiritismo. Existisse somente a doutrina, bela, não obstante, como é, e não passaria de uma abstração filosófica, pouco mais valiosa que a de Sócrates ou Platão, cuja recordação histórica nos impressiona ainda, mas de pequenos frutos para o progresso do gênero humano.

            Na sua onisciência, o Criador achou que já era tempo de revolver, de sanear esse marnel (lodaçal) em que vivemos. E mandou-nos, então, a Nova Revelação pelo Espírito da Verdade; transmitiu-nos e transmite-nos os ensinamentos do Além, pela comunicação dos Espíritos.

            E que são as comunicações dos Espíritos? -São as mensagens, são o intercâmbio entre vivos e mortos, são o fenômeno espirita.

            É esse fenômeno que, a meu ver, se não pode abandonar; pelo contrário, todos os espíritas deveriam estudá-lo, ampara-lo, encaminha-lo, promove-lo, com os recursos de que dispomos, auxiliando por um lado a ciência, em vez de hostiliza-la, e, por outro, procurando trazer a todos os experimentadores, os ensinamentos de Allan Kardec, que se encontram no Livro dos Médiuns, para que seja de bons resultados, celeiro de provas fecundas, a parte prática, base onde assenta toda essa obra divina.

            Na ‘Vie d'Outre Tombe’, órgão da Federação Espírita Belga, o brilhante colaborador da Revue Spirite, Sr. Luiz Gastín, publicou interessante artigo, há pouco traduzido e remetido à ‘Aurora’ pelo confrade C. de Brito.

            Nele se lê o seguinte tópico, de acordo com as ideias que vimos de expor:

             “É fácil compreender que, se deixarmos perpetuar-se esse desmembramento da Ciência da Alma- ou Espiritismo científico, os psicólogos, psiquistas e metapsiquistas criarão - cada um no seu terreno - um corpo de doutrina separado, isolado, tendendo por consequência para rejeitar como inútil e vã a contribuição superior e sintética do Espiritismo propriamente dito.

            Não é exagero supor que os desmembramentos acima citados têm sido de setenta anos para cá - suscitados, inspirados ou favorecidos pelos adversários do Espiritismo, querendo enfraquece-lo destruindo sua unidade, procurando diminuir seu poder de ação, a importância de seu movimento social e seu alcance, encurralando-o, limitando-o à comunicação entre os vivos e os mortos.

            Era incontestavelmente estreitar o campo dos estudos espíritas, ao mesmo tempo que sua influência na evolução do pensamento contemporâneo. O domínio do Espiritismo sendo restringido de diversos lados e desmembrado, ele ficaria logo reduzido a não ser mais que uma teoria filosófica ou uma tese religiosa explicando o que se passa depois da morte.

            Semelhante situação, à medida que os ramos destacados do Espiritismo fossem crescendo com um caráter quase exclusivamente científico, concorreria para que o Espiritismo fosse absorvido pela metapsíquica - como o magnetismo foi absorvido pelo hipnotismo - suprimindo, bem entendido, todas as conclusões filosóficas e morais da nossa doutrina.”

             De fato, se ao Ciência e a Religião não só procurarem unir e abraçar, cooperando ambas, cada qual do seu lado, para o Progresso; se elas continuassem afastadas, como o têm sido até agora, e se nós, espíritas, contribuíssemos para esse afastamento, aqueles que se supõem sábios, cada vez mais engolfados no materialismo, esforçar-se-iam por separar das cogitações científicas todo o lado moral, todo esse facho de luz que Jesus veio fincar no coração do planeta e que o Espiritismo veio reativar no coração dos homens.

            Aos espíritas incumbe o dever de trazer a colaboração do seu esforço e de suas luzes, onde quer que haja um movimento, onde quer haja manifestações espíritas, surjam elas por meio da ignorância e tome o nome de feitiço, apareçam no seio do orgulho e do ceticismo e se rotule com o nome de Ciência.

            O que colimamos, nós, espiritas, é o Bem. Vamos procura-lo, alimenta-lo, robustece-lo, onde se encontre, esforçando-nos por que se não apaguem essas fagulhas que nos principiam agora a iluminem e donde surgirá mais tarde o grande clarão, o imenso incêndio que abrasará em amor puro e desinteressado todas as criaturas da terra.

            Deveríamos aproveitar tudo o que concorresse para a demonstração dessa grande verdade: - que só pelo Amor podem os homens ser felizes.

 *

             As dúvidas que se notam ainda nas reuniões em que se fazem trabalhos práticos de Espiritismo; o pouco conhecimento da doutrina - auxiliar necessário, imprescindível nesses trabalhos práticos; os percalços e os perigos que, força é convir, os acompanham, perigos inevitáveis em todos os ramos da atividade humana e sobretudo naqueles que estão em começo, levam-nos a recear entrar em contato com o mistério e ouvir as vozes do Além. E daí o se aconselhar não só prudência, senão o afastamento completo das sessões espíritas.

            A prudência é uma virtude, mas o recuar é medo.

            Deixamos de mão aquilo que não é possível enfrentar. Mas isso se não dá com as experiências psíquicas, que sabemos onde ir estuda-las, que temos onde aprende-las. E se Kardec nos ensinou como pratica-las, não me parece curial pô-las à margem pelos contratempos a que nos podemos expor.

             Tirados os elementos onde se encontram as provas do que afirmamos; esgotada a fonte de ensinamentos, que deve ser perene, porque nós marchamos e aprendemos sempre; retirado o sopé do edifício, que fica?

            Um corpo de doutrina, muito belo, mas insulado, parado, estagnado, no meio do caminhar constante da Natureza. Com os tempos, os seus raios irão perdendo o brilho, como ja se extingue o das religiões do passado. 

                E quando chegasse o Futuro, com os ensinamentos acumulados pelos séculos, encontrariam os pósteros apenas, de nossa passagem pela Terra, pálida e fugitiva lembrança, perdida, como lenda, nas páginas da história universal.

                Felizmente tal não se dá. Quando nos entibiem (entorpeçam) os perigos da mediunidade, quando nos tragam o desânimo a sua má aplicação; quando nos façam esmorecer e fraquejar o muito que há por fazer, por construir, aí estão os nossos amigos do Além para amparar-nos e alimentar a fé vacilante; aí estão os fatos psíquicos surgindo continuamente como a demonstrar que é por esse meio que o Criador pretende ferir a atenção dos homens; aí está toda a fenomenologia espírita, aparecendo, provocada ou espontaneamente, pela vontade ou sem a vontade das criaturas, embora oponham-lhe ainda as maiores barreiras os seres que povoam a Terra, deste lado ou do outro lado da vida.

            O movimento que se iniciou não pode parar.

            A cada um a sua tarefa: a este, as pesquisas científicas; àquele, a propaganda pela pena ou peja palavra. Tal dedicar-se-á à experimentação, tal outro à doutrinação. Todos, porém, como vários rios que se dirigem para o mesmo estuário, tendem para o mesmo fim - o Progresso.

            Aos construtores do grande edifício foram confiados misteres diferentes: cabe a cada um sua missão.

            Mas a obra, no seu conjunto, é uma única; todos concorrem para o Bem, todos contribuem com a sua quota parte, para que possa ser colocado no topo do monumento a formosa inscrição, que já liam os antepassados no coração de Jesus:

             - Amai-vos uns aos outros.