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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Senso Moral



O Senso Moral
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Agosto 1946


            Pessoas há inteligentes, cultas, mas de uma indiferença absoluta pelo problema máximo da existência: saber se a vida termina no túmulo ou se o ser humano sobrevive ao sono da morte e que sonhos pode haver nesse sono, como interroga Shakespeare. No entanto, a resposta a essa questão é básica, porque determina as regras de conduta para a vida inteira. 

            Outras têm curiosidade, mas se limitam aos fenômenos e desinteressam-se pelas consequências das comunicações dos Espíritos. Ficam no primeiro degrau da escada e não pensam em galgar o segundo.

            Ainda depois, há as que procuram nas comunicações resolver seus pequeninos problemas materiais da Terra, sem cogitar do futuro espiritual.

            Existe a categoria das que se agarram fanaticamente ao Codificador e tentam evitar a evolução da Doutrina, recusam tudo que já não tenha sido ensinado por Allan Kardec, e fazem tentativas apaixonadas de ver nas obras de Kardec - contrariamente aos ensinos dessas mesmas obras - o ponto final da Revelação; quando o Autor mesmo nos ensina que ainda estamos no A B C e temos um infinito a aprender em Espiritismo.

            Uma classe existe dos combativos, para os quais a Revelação é lábaro de guerra: só lhes interessa o Espiritismo pelas oportunidades que lhes possa fornecer de lutar contra as Igrejas, contra os materialistas, e, quando já derrotaram ilusoriamente todos os adversários, tentam fazer o expurgo em nossas fileiras, atacando quantos não entendam a Doutrina em todas as minúcias como eles a concebem, sem perceberem que eles mesmos e todos os outros têm muitas limitações e todas diferentes umas das outras.    

            Quem melhor explica essas anomalias é Kardec:

            "Provém isso de que a parte por assim dizer material da ciência somente requer olhos que observem, enquanto que a parte essencial exige um certo grau de sensibilidade, que se pode chamar a maturidade do senso moral, maturidade que independe da idade e do grau de instrução, porque é peculiar ao desenvolvimento, em sentido especial, do Espírito encarnado." (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XVII, 4).       

            Bozzano o explica dizendo que a observação puramente científica pode existir sem o senso filosófico. Podem observar-se muito bem certos fenômenos, registra-los com precisão, mas não saber remontar-se às causas ou indagar das consequências próximas e remotas dos fatos. Cientificamente uma carta é um pouco de papel sobre o qual foram escritas letras que formam palavras e frases comunicando pensamentos. Mas o filósofo não se detém aí, quer saber porque foi feita a carta, qual a sua origem, e para que foi escrita, qual sua finalidade, e por quem foi escrita e em que estado se acha quem a escreveu e que pensamentos e sentimentos revela e que efeitos produzem essas revelações sobre a alma do destinatário. Suas indagações ultrapassam de muito as do cientista, mas ainda não chegam ao fim, porque este está além do domínio da Filosofia, nas esferas silenciosas do Espírito, na síntese da intuição, nas vibrações do sentimento superior que independe da palavra, da análise da verdade objetiva, porque possui a verdade subjetiva.

            A esse grau de evolução em que o Espírito pode captar logo a essência do conhecimento de modo sintético, intuitivo, Kardec deu o nome de senso moral. Seria um sentido a mais que o simples cientista não possui, que o filósofo só parcialmente vislumbra e sabe que existe, quando define o termo de sua técnica, intuição, com estas palavras: "Conhecimento direto, sem necessidade de raciocínio, sem experiência empírica, por faculdade especial do espírito". (Kamaryt - Filozofia Vortaro) .

            Mas não chegaremos a esse estado só pela inteligência, só pela pesquisa da verdade; é necessária a evolução moral, o aprimoramento dos sentimentos, o cultivo do Amor. Faz-se mister que o coração e o cérebro, reunidos, sob a direção do Espírito, colaborem harmonicamente. A tarefa do advogado que examina autos para proclamar limites à verdade, é aquela parte somente material da Ciência, à qual fica ele limitado sem alcançar a essência. É um período perigoso de intolerância e combatividade, durante o qual o homem tenta impor aos outros suas limitações, nomeando-se líder de seus irmãos e traçando lindes ao pensamento; esforça-se por padronizar os conhecimentos dentro de limitados cânones e anatematizar tudo que ultrapasse suas fronteiras. Penoso exemplo desse estado de consciência tivemos no Brasil há, anos, quando um dos nossos irmãos promoveu um plebiscito para decidir certo ponto delicado do Evangelho por meio de votação e estabelecer um dogma negativo, obrigatório para todos, quando a questão só pode ser decidida de cada um para si mesmo. Ganhou o plebiscito e a coisa deveria estar terminada para sempre, mas a verdade é que tudo continuou como dantes, porque não poderia ser de outro modo: voto alheio não altera um estado de consciência, de convicção íntima.

            Recentemente, outro tomou a si o mesmo ponto por outro processo: em vez de recorrer ridiculamente à votação, examinou como acusador os "autos" e apresentou "relatório" ou "libelo" em mais de quatrocentas páginas de papel caríssimo: Não resta dúvida que o resultado será o mesmo do anterior plebiscito: o libelo só conservará mentalidade negativa nos que ainda a tenham, mas deixará livres os outros.

            Se assim é, porque o senso moral ainda não chegou à maturidade na imensa maioria dos homens, e essa falta de senso moral está fora de dúvida, fica cabalmente demonstrada pela indiferença dos terrícolas quanto aos assuntos de seu máximo interesse, pela prática de costumes opostos à sua própria felicidade, como os ódios partidários, a guerra, os assaltos, a vingança; então, como proceder para não cairmos a cada momento em erros de funestas consequências? Qual a regra de conduta mais segura ou menos perigosa neste caos de limitações contra limitações?

            É simplesmente tomar atitude afirmativa, não aceitar às negações; preferir as afirmações, mesmo ingênuas, às mais pomposas e retumbantes negações. O negador provavelmente é o que mais erra e mais induz a erros; porque se inspira no orgulho, na convicção de ver mais; e melhor do que os outros. 

            Não podemos ficar estáticos eternamente esperando que tais sábios decidam por nós o que temos de aceitar como bom; porque vemos pelas Escrituras que eles estão debatendo orgulhosamente há mais de três mil anos os mesmos temas, nunca chegaram a acordo, e provavelmente outros três mil anos passarão até o amadurecimento do senso moral a que se refere Kardec. E note-se que, estão debatendo, não estudando ou tentando aprender; porque, sem o senso moral, eles se presumem possuidores de todo o saber e não se esforçam contra sua própria ignorância, visto que sua primeira negação é justamente contra esta poderosa limitação.

            Tomemos, pois, atitude positiva, tentemos fazer alguma coisa, ainda que imperfeitamente, mas com mentalidade afirmativa, com fé no futuro da Humanidade. Há um infinito de trabalho a fazer-se, de serviços à nossa espera, e não seria possível perdermos a encarnação ouvindo a voz lúgubre dos negadores. O Espiritismo é a Revelação mais grandiosa que os homens já possuíram; forma um corpo de doutrinas encantadoras pela sua beleza e mágicas pelos efeitos de sua aplicação à vida. A nossa literatura afirmativa, recebida pelos bons médiuns do mundo inteiro, cresce dia a dia e está destinada a estabelecer um mundo novo, de mentalidade positiva e superiormente idealística. Os Espíritos superiores já tomaram atitude a favor do Esperanto e alguns deles já nos dão suas mensagens no idioma internacional, assentando as primeiras pedras para a grande construção do mundo futuro: de um mundo em que todos se compreendam, em que as mensagens descidas dos Céus falem igualmente a todos os habitantes do planeta sem as barreiras linguísticas. Há uma obra imensa a realizar-se: a transformação total da nossa civilização numa outra que terá compreensão mais alta da vida eterna; não podemos deter-nos para ouvir a leitura dos libelos dos eternos negadores.

            Em cada grupo espírita há pessoas bondosas e desejosas de aprender, esperando auxílio dos pregadores e dos escrevedores doutrinários. Envenenar- lhes a alma com negações, seria falta imperdoável, seria po-Ias em afinidade com as trevas. Mostremos-lhes, ao contrário, o brilhante futuro que nos espera a todos; ponhamos ao seu alcance a sublimidade da Doutrina para que sintam as vibrações amorosas dos nossos Maiores que caridosamente descem até nós para nos socorrer e levantar de nossas quedas. Pintemos-lhes o quadro do mundo futuro, no qual a guerra será substituída pela colaboração amistosa de todos os povos, de todos os homens, unidos uns aos outros como uma só família pelo conhecimento da Doutrina e compreendendo-se em uma língua comum de todos. Pela compreensão e pela colaboração, a pobreza e a ignorância serão banidas da família humana e reinarão o Amor e a Verdade. Mostremos-lhes o ideal de Zamenhof:

"Ni inter popoloj Ia murojn detruos,
Kaj ili ekkrakos kaj ili ekbruos
Kaj falos por êiam, kaj amo kaj vero
Ekregos sur tero." (1)

                  (1) Destruiremos as muralhas que separam os povos; elas estalarão, estrondarão e cairão para sempre, e o amor e a verdade começarão a reinar sobre a Terra.


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24. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'




24

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            Entretanto, a ignorância religiosa já vai perdendo hoje, até mesmo no clero, alguns de seus clientes. A ciência crítica independente serenamente demonstrou, sem outra paixão além do amor à verdade, a absoluta gratuidade, senão a completa falsidade de tais e tais afirmações ainda mantidas como oficiais no ensino eclesiástico. Assim é que, sem falar nos dois volumes especiais de Monsenhor Duchesne sobre as "Igrejas separadas" e sobre os "primeiros tempos do Estado pontifício", ou da "História da Inquisição", pelo padre Vacandard, algumas Histórias gerais da Igreja, clássicas ao tempo de Leão XIII, como a de Kraus, a de Funk e Hemmer, embora guardando prudente silêncio a cerca de certos fatos ou de certos textos muitíssimo embaraçosos e repetindo, por ordem superior, certas interpretações utilitárias do Evangelho, indicam bem claramente, aqui e ali, inovações, quais, por exemplo, as ‘Falsas Decretais’ que serviram de base aos papas romanos para pouco a pouco estabelecerem a sua autocracia.

            Há, porém, um livro muito recente, intitulado Christus, obra cooperativa de alguns doutos jesuítas, que, talvez ainda melhor, dá testemunho do progresso que a ciência leiga impôs aos seus adversários, mesmo os mais qualificados. Como o fizera Monsenhor Duchesne em sua História antiga da Igreja (29), também esses senhores falseiam, confesso-o, o texto de S. Paulo aos Gálatas (30), onde S. Tiago vem mencionado, antes de Pedro, entre "as colunas da Igreja" e colocam Pedro em primeiro lugar (31). Noutras passagens, e bastante numerosas, deixam transparecer a verdade.              

            É aos grandes doutores gregos do quarto século, lê-se ali, à página 795, linha 18, que se deve recorrer para "conhecer o Cristianismo antigo", confissão explícita de que o Cristianismo da Igreja Romana data, não dos apóstolos do primeiro século, e sim do Episcopado cesariano do quarto século. E os mesmos escritores confessavam ingenuamente, algumas linhas antes, que os três grandes doutores capadocianos são "inferiores a Orígenes, pelo gênio" (página 794, linha 22) e lembram, um pouco abaixo (página 795, linha 12) que S. João Crisóstomo foi tratado de origenista. Não assinalam que Orígenes, nascido muito antes do quarto século, em 185, era muito mais conhecedor, do que os bispos de Niceia, da doutrina de Jesus Cristo, que ele recebera diretamente de um discípulo autêntico de São João Evangelista, mas ingenuamente sublinham que os quatro grandes doutores gregos designam o Cristianismo de que eram sabedores, dizendo: "a nossa filosofia". É, com efeito, uma filosofia e filosofia deles, pela qual os doutores do século IV substituíram o Cristianismo original. Ora, esses ilustres Pais do Dogmatismo Católico, confessam-no os autores de Christus, à páginas 797 e 798, eram, não tanto filósofos, como S. João e Orígenes, mas "literatos na alma", de sorte que, "talvez, também responsáveis em parte por esse não sei que de irreal e enfático, de que o púlpito sempre teve dificuldade em se libertar".

            (29) VoI. I, pág. 44.
            (30) II, 9. I
            (31) Christus, edição de 1913, pág. 730, linha 7.

            Com relação ao Cristianismo latino, as páginas 797 e 798 contêm indicações não menos sugestivas. Ai se lê: "O ideal romano era, antes de tudo, um ideal de sabedoria positiva (Mauras diz, com mais clareza, "positivista"), de disciplina enérgica e perseverante, com tendência ao formalismo jurídico." Pouco mais adiante, páginas 799 e 800, confessam os autores: "Assim é que não, há, até ao enunciado dos mais misteriosos dogmas, o que não revele a mesma tendência. Enquanto que os Gregos, para falarem da Trindade, alteravam o vocabulário filosófico, imprimindo-lhe um sentido novo, à língua do direito é que os Latinos foram buscar a palavra persona, para aplicá-la aos diferentes termos das relações divinas".

            Nesses dizeres creio que o leitor inteligente encontra fundamento bastante para deplorar que o ensino de tais mistérios faça parte da instrução que é ministrada às crianças e, também, que, diante de ouvintes mais amadurecidos, a explicação dos mesmos mistérios seja confiada a pregadores, em sua maioria, tão pouco versados na metafisica, quão incapazes inteiramente de discernir o sentido jurídico do termo persona e o sentido filosófico do termo pessoa. Não! um espírito sensato não admitirá que tais transcendências sobre a Trindade divina, com a teologia, que daí decorre, do Cristo encarnado, possam ser assunto de catecismo para todos, nem, para quem quer que seja, objeto de fé as explicações que a respeito formularam, em grego, há séculos de séculos, os Padres Capadocianos e os Concílios bizantinos. A vida de Jesus, segundo os Evangelhos, constituirá de certo leitura mais útil e prédica mais realmente cristã.

            Falando da Idade Média, os muito ortodoxos autores de Christus confessam que, no suposto triunfo alcançado pelo Catolicismo, "as declamações contra os males da Igreja e contra a decadência do clero, tanto regular, como secular, não passam de lugares comuns da "literatura" (pág. 834) e, à página 835, nota 1, citam textos de S. Bernardo mais duros do que os por mim reproduzidos há pouco. Quanto à forma religiosa daquela época tão glorificada nas Histórias Eclesiásticas, escrevem eles: "A Igreja maternal é branda para com os povos infantis e os nutre abundantemente com o leite da religião exterior (págs. 835 e 836)."

            Não mencionam, todavia, a forma um pouco menos maternal de que usavam o papa e o clero para com os "espirituais" que, como Joaquim de Fiore e os milhares de seus discípulos, reclamavam alguma coisa mais do que simples infantilidades.

            São mais explícitos os honrados jesuítas a cerca das inovações da Teologia. Lê-se, por exemplo, às págs. 836 e 837: "Mas, é de admirar-se como, de um extremo a outro daquele período, progressivamente se aperfeiçoa a excelente mistura do sensível e do espiritual, que constitui a disciplina católica. Dogma e sistema sacramentários se acentuam. O número de sete sacramentos é explicitamente reconhecido, pelo menos no século XII... assim como a eficácia ex opere operato, isto é, eficácia espiritual pelo gesto puramente material."

            Lê-se mesmo, um pouco mais longe, a págs. 841 e 842: "Santo Agostinho considera a luta pela verdade e pela santidade, antes de tudo, como questão pessoal entre a alma individual e Deus; foi desse modo que, se assim pode dizer-se, que ele "interiorizara" Deus. Mas, a humanidade do Cristo se conserva, para ele, em plano um pouco recuado. Na Idade Média, o Verbo encarnado se torna... , interior à alma, mesmo quanto à sua humanização; é o esposo da alma, atuando com ela e nela" (pág. 843). E essa confissão prossegue, à medida que a narrativa vai passando de um século a outro. Lemos, por exemplo, a págs. 931 e 932: "Certamente... o sagrado Coração é uma devoção que as multidões compreendem... sendo, no entanto, certo que essa devoção teve origem nas visões da irmã Margarida Maria", "muito diferente de Santa Teresa", confessam os bons padres, sem, contudo, citarem a passagem do "Castelo da Alma" (32), em que a grande reformadora escreve serenamente, falando das suas religiosas: "Muitas tenho conhecido, cujo espírito é tão fraco, que elas imaginam ver tudo o que pensam, estado esse muito perigoso."

            Iríamos longe demais se houvéramos de citar, do livro a que nos referimos, os numerosos lanços que comprovam as alterações feitas, de século em século e ainda nos dias atuais, no Cristianismo do Cristo e dos seus primeiros discípulos. Detenho-me nessa confissão que nos mostra a Igreja Romana, hoje como na Idade Média, maternalmente apaixonada pelos seus filhinhos e ocupada em criar novas devoções para o povo.

           (32) Quarta morada, cap. III



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Joio e o Trigo




O Joio
e o Trigo

13,24 Jesus propôs-lhes outra parábola: “O reino dos céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo; 1
3,25  Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo; semeou joio no meio do trigo e partiu.
13,26 O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio.
13,27  Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo?  Donde  vem,  pois,  o  joio?     
13,28 Disse-lhes ele: Foi um inimigo que fez isso! Replicaram-lhe: Queres que vamos e o arranquemos?
13,29 Não, disse ele, arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo;      
13,30 Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: Arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes  para o queimar, depois o trigo no meu celeiro.      

             Para Mt (13,24-30) -O Joio e o Trigo - Parábola , encontramos a palavra de  Sayão, em “Elucidações Evangélicas”:        

            “Nem todos os espíritos se encontram no mesmo grau de desenvolvimento. Dos encarnados na Terra, uns são elevados, outros apenas iniciam suas provações morais. Vê-se daí não ser cabível que, para operar-se a renovação de nossa geração espiritual, se condenasse toda a geração material de que somos parte a perecer num dilúvio semelhante ao de que falam os antigos. É evidente, pois, que tal dilúvio não se deu com o caráter de universalidade que lhe atribuíram as narrações escriturísticas.

            O joio cresce de par com o bom grão. Depois, em cada colheita, aquele, para se depurar, é lançado ao fogo da expiação, ao mesmo tempo que o bom grão é guardado nos celeiros do Senhor.

            Desde que saiu do estado de fluidez, incandescente, a Terra tem passado por transformações sucessivas, tem sofrido renovações parciais, para o efeito de preparação e progresso graduais dos reinos mineral, vegetal e animal, mesmo do reino humano, efeito a que de futuro hão de seguir-se, por outros meios, as depurações e transformações, também graduais, dos aludidos reinos da Natureza.

            Dizendo que o “pai de família” não consentira que seus servos arrancassem, do campo que ele semeara, o joio, com receio de que simultaneamente tirassem o trigo, quis o divino Mestre refrear o zelo dos apóstolos e dos que lhe sucedessem como continuadores da sua obra, os quais, levados pelo desejo de fazer progredir a Humanidade, poderiam ir longe demais. À força de quererem reprimir abusos, poderiam chegar ao extremo de amedrontar os homens retos, porém, simples, e de os afastar.

            Conviria não perdessem de vista este ensinamento os que, nos tempos atuais, apregoando zelo da pureza do Espiritismo, pregam a necessidade da extinção completa, por todos os meios, dos centros onde ele é falseado e que representam o joio a crescer entre o bom grão. Não esqueçamos nós, os espíritas, que foi invocando um zelo semelhante que a Igreja se tornou perseguidora e abriu a interminável série dos seus atentados à liberdade de pensamento e de crença, a todas as liberdades, afinal, atentados que cada dia mais profundamente a divorciaram da doutrina cristã, do espírito dos Evangelhos, para cuja interpretação ela acabou proclamando-se a única habilitada, a fim de esconder aquele divórcio.

            A lição que a parábola do joio e do trigo encerra mostra que toda a ciência, para aquele que se propõe a pregar as verdades eternas, a difundir as da Doutrina dos Espíritos, a fim de que bem apreendidas sejam as daqueles mesmos Evangelhos, está em apropriá-las às inteligências que as tenham de receber. Se não for assim, um, por exemplo, que teria aceitado a moral evangélica, se lha houveram apresentado sob aspecto condizente com o seu ponto de vista (e por isso é que Jesus a maior parte do tempo ensinava em parábolas e símiles), a repelirá, ou ofuscado pela intensidade da luz que dela se irradia, ou atemorizado com as grandes dificuldades que ela lhe deixa entrever.

            A ceifa, de que fala a parábola, se dá na ocasião em que o Espírito volta à sua condição de origem, isto é, em que volta ao estado de Espírito liberto da matéria, por se haver despojado do seu envoltório carnal. Ao retornarem a esse estado, eles se encontram, ou na condição de joio a ser queimado, o que se verifica pelo fogo do remorso, das torturas mentais, a que se segue a reencarnação neste mundo, ou em mundos inferiores à Terra, de acordo com as tendências que revelam  e com o grau da sua culpabilidade; ou na condição de trigo, caso em que passam a habitar mundos superiores ao nosso, onde continuarão a aperfeiçoar-se, a progredir.  

            Encarada assim, como o deve ser, a ceifa tem sido feita sempre e ainda continuará por longo tempo. Quando terminará? Quando chegar a época da ceifa definitiva. Com relação ao nosso mundo, essa época será a em que não mais se permita ao joio crescer aqui de envolta com o trigo, em que aquele será arrancado e lançado fora, isto é, em que os Espíritos que se tenham conservado obstinadamente culposos e rebeldes se verão compelidos a deixar de encarnar no planeta terreno, para o fazerem em mundos colocados abaixo dele na escala dos orbes. A Terra, então, terá passado a fazer parte do reino de Deus, o que quer dizer: ter-se-á tornado, exclusivamente, morada de Espíritos bons.

            Os ceifeiros, no caso, são os Espíritos superiores, aos quais incumbe velar pelas expiações dos Espíritos culpados, na erraticidade, e classificar os que, por terem bem cumprido suas provas, mereçam ascender a mundos mais elevados do que o nosso.”



                                       


23. 'o Cristianismo do Cristo e o do seus vigários''



23

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris

  
            Quando os imperadores e os reis, em vez de a sustentarem, atacaram a organização dos prefeitos eclesiásticos chamados bispos e do imperador deles, chamado papa, foi-lhes necessário achar outro apoio. Então, uma ordenação papal, publicada pelo sínodo de Verona, em 1184, instituiu a Inquisição que, até ao XIV século, fez, como sabeis, milhões de vítimas. Mas, quando a Revolução, começada no XVI século e definitivamente vitoriosa no principio do XIX, arrebatou aos Inquisidores o poder de condenar, torturar e queimar, que força haviam de empregar contra os intelectuais, contra os inspirados e os doutores independentes?

            A tática empregada foi a mesma do século IV e com eficácia mais completa. Contra o escol - a multidão! Chamaram para representar a ciência teológica, não mais os teólogos, não mais os sábios, porém a multidão ignara, que nem mesmo ler sabia. Por toda parte, havia séculos, essa multidão, denominada "o povo cristão”, dava maravilhosas provas da sua inteligência teológica. Pelo ano de 1250, para citar um fato entre milhares, os fiéis da ortodoxia romana, na Sicília, em protesto contra Joaquim de Fiore e contra o Evangelho de S. João, suprimiram do sinal da cruz, ou persignação, o Espírito Santo, e se assinavam devotamente: "em nome do Pai, do Filho e, .. de S. Mateus" (28). Lícito, pois, era contar de maneira absoluta com a compreensão filosófica daqueles denodados crentes. Não havia mais que acrescentar às orações cotidianas, que constituíam até então toda a ciência religiosa do povo cristão, uma iniciação popular em todos os grandes mistérios reservados outrora aos intelectuais.

            (28) Gebbart – “A Itália Mística”, pág.206

            A exemplo de Lutero - pois foi Lutero quem redigiu e publicou o primeiro catecismo --fabricaram os bispos esses manuais clássicos de teologia, de história santa, de metafísica religiosa que bem intencionados catequistas fazem que as crianças de seis anos recitem de cor. As afirmações sem provas, as fórmulas ininteligíveis foram declaradas "dogmas de fé", sob a ameaça, não mais das fogueiras, das quais já não podiam fazer tão piedoso uso, mas do inferno eterno.

            Estava ganha a vitória. Ah! foi e ainda é, nos países ditos "católicos", um dilúvio de ignorância e de credulidade universais, com proibição de construir-se uma arca, onde se pudessem refugiar a ciência, a inteligência religiosa.




22. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'


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 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            "Que é o Terceiro Estado? Nada! Que deve ele ser? Tudo!" bradava Síéyès nos Estados Gerais, em 1789, Evidentemente, Siéyès não era matemático, pois o terço não é o todo e, para fazer o todo, são precisos os dois outros terços. Mas, Siéyès era padre e fora educado pelos Jesuítas. Tinha, a cerca da Igreja, a noção que definitivamente seus mestres lhe incutiram e se propunha a aplicá-la ao Estado.

            Na primeira hora da história da Igreja, diziam os apóstolos: "Somos delegados para pregar a palavra de Deus. Quanto às coisas administrativas, escolhei dentre vós sete homens inteligentes e cheios do Espírito de Deus, aos quais confiaremos esse encargo" (27).

                        (27) Atos dos Apóstolos, VI

            Como já tive ocasião de dizer, foram as reclamações dos cristãos helênicos que ocasionaram essa criação eclesiástica. Um pouco mais tarde, ainda por causa dos Gregos, foram precisos doutores capazes de apresentar o Cristianismo como uma filosofia e não apenas como moral religiosa. Achavam-se assim constituídos, quando S. Paulo escreveu aos Coríntios, por volta dos anos 53 e 54, as três ordens incumbidas de dirigir os fiéis:

          1º Os inspirados: apóstolos, profetas, evangelistas.

          2º Os intelectuais: doutores e instrutores.

          3º Os administradores: diáconos, presbíteros, bispos.

            Assim o título, como as funções de bispo, muito menos honorÍficas do que hoje, eram atribuídas, não a um só; mas a muitos, em cada comunidade cristã um pouco numerosa .

            Esses administradores eram, então, na Igreja - abaixo dos profetas e dos doutores - o que eram na França, quando da Revolução, os a quem se chamava "o Terceiro Estado", denominado hoje "a Burguesia".

            Assim, quando a Igreja realizava o sentido de seu nome - Igreja é uma palavra grega que significa Escol - havia, acima dos bispos, não um papa - São Paulo, em sua Epístola aos Gálatas, mostra, muito claramente, que ele se reconhecia no direito e, algumas vezes, no dever de resistir S. Pedro - mas os inspirados de Deus e os doutores. Inspiração, ciência, administração eram as três forças diretoras da Igreja e todos limitavam suas ambições, segundo o mandato conferido por Jesus Cristo, a ser "o sal da terra".

            Porém, como já eu vos disse, como já vos demonstrei positivamente, quando, mais tarde, foram trazidos ao Cristianismo, não por inspiração do Espírito Santo, sim por agradar ao imperador Constantino, multidões cuja quantidade fatalmente excluía a qualidade, os administradores também fatalmente assumiram maior importância e logo, modelando a organização da Igreja pela do Império, fizeram no Catolicismo uma revolução precisamente às avessas da que em 1789 foi feita na França, porquanto, em vez de destruir a realeza, que não existia na Igreja, arranjaram as coisas de modo que ela constituísse uma realeza. Unicamente a luta entre Roma e Constantinopla retardou a realização da empresa. Desde, porém, a primeira reunião, sob a presidência de Constantino, daqueles Estados Gerais chamados Concílios Ecumênicos, os 318 bispos que compuseram o de Niceia, isto é, os administradores
eclesiásticos, fortes pela proteção do imperador, para nitidamente significarem que, dali em diante, tudo na Igreja lhes pertencia, cortaram oficialmente as questões filosóficas, que o espírito de potência dos Gregos suscitara, a propósito da unidade de Deus. Mais tarde, continuaram a fazer o mesmo em Constantinopla, em Êfeso, na Calcedônia, etc., a propósito de todos os mistérios: Trindade, Encarnação, Redenção, etc., até que, em 1870, o último dos Estados Gerais eclesiásticos, abdicando todos os direitos, os enfeixou oficialmente nas mãos do Soberano Pontífice.

            Como foi que, dos 318 autoritários do ano 313, o poder eclesiástico passou ao único administrador de 1870 e de agora? Eis de que modo as coisas se deram.




21. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'


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 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            Todos vós, minhas Senhoras e meus Senhores, conheceis de nome esse monge, nascido em 1091 e morto em 1153, que pregou a segunda cruzada - 1147 a 1149 - e que nunca se pode consolar do desbarato dos Latinos pelos Turcos. Quis Deus guardar o triunfo para os cismáticos gregos, no ano 1912. Poucos dentre vós, porém, ao que suponho, terão lido a dissertação que ele dirigiu ao papa Eugênio - 1145 a 1153 - e que foi publicada sob o titulo nada significativo de De Consideratione - "Tratado da Consideração". Permiti-me, peço, que eu dela vos cite algumas passagens. 

            Livro II, capítulo VI, Seleção de Obras Místicas, por Buchon, págs. 345 e 346:

            "Pode-se, é certo, fazer bom uso do poder e do dinheiro, santíssimo padre. Podereis, sem dúvida, encontrar algum pretexto para granjear um e outro. Mas, não podereis tirar do apóstolo o vosso direito, pois que o apóstolo não vos pode haver dado o que não tinha. Ele vos deu o que tinha, isto é, a solicitude em cuidar de todas as igrejas, porém não a dominação, visto que diz em termos formais: "Não "pretendemos ter dominação sobre o clero, porquanto fomos instituídos para ser o modelo do rebanho" (I Petri, V, 3). - E, para que não suponhais que isto haja ele dito mais por humildade do que por verdade, a voz do Senhor se faz ouvir assim no Evangelho: "Os reis das nações as tratam com império e seus governadores tiram delas benefícios; não seja assim entre vós" (Lucas, XXII, 25). - Donde manifestamente se vê que a dominação é defesa aos apóstolos. Tende então, agora, a coragem de juntar a dominação ao apostolado. Ai está, parece-me, uma associação que vos é defesa. Portanto, se quiserdes possuir simultaneamente as duas coisas, ambas vos serão arrebatadas ... "

            E por muitas páginas prossegue S. Bernardo nessa condenação da dominação papal.

            Depois, retoma - Livro IV; capítulos 2 e 3 de Buchon, páginas 366 e 367:

            "Passemos a outras coisas. Pretenso pastor, andais todo coberto de ouro e todo rebrilhante de soberbos ornamentos. Que bem resulta daí para as vossas ovelhas? Se eu ousasse, dir-vos-ia que com tudo isso dais pasto aos demônios, não às vossas ovelhas. Tratava-as dessa maneira S. Pedro? E S. Paulo zombava assim dos fiéis? Vemos agora todo o zelo da cristandade aplicado unicamente em exalçar a dignidade dos seus chefes: dá-se tudo às honrarias e ao fausto, nada ou quase nada à virtude. Permiti, pois, que eu não vos poupe, a fim de que vos poupe Deus. É preciso que desaproveis tudo isso, se não quiserdes ser desaprovado por aquele cujo lugar ocupais: quero dizer - S. Pedro, a quem nunca ninguém viu carregado de pedrarias, nem vestido de seda, nem coberto de ouro, nem transportado sobre uma facaneia branca, nem cercado de soldados, nem acompanhado de uma multidão de oficiais... Em tudo isto, sois antes sucessor de Constantino, do que sucessor de São Pedro."

            Referindo-se, em seguida, à corte romana, à do século XII, que foi, dizem as Histórias Eclesiásticas, a mais gloriosa época do papado, continua o intrépido doutor:

            "Falarei inutilmente, mas falarei livremente. Porque inutilmente? porque os grandes da Igreja porão "o máximo cuidado em não me ouvir!"

            Ah! sim, acrescento eu: Deus mostrou que era do parecer de S. Bernardo, retirando ao papa o poder temporal e permitindo que os Romanos dessem hoje a si mesmos por chefe, não um cristão, mas um judeu. A cúria romana, como corretivo único, declara ímpios e apóstatas os cristãos que se lembrem de ser, quanto a este ponto, do parecer de Deus. Escutemos ainda S. Bernardo:

            "Os pontífices de outrora uma só coisa sabiam: "dar tudo o que tinham e dar-se a si mesmos...” todo o proveito que cogitavam de tirar dos que se submetiam à doutrina santa consistia em acharem meios de dispor os povos a servir a Deus perfeitamente. Era no que trabalhavam de todas as maneiras, muitas vezes com o coração despedaçado e o corpo em sofrimento, "com fome e sede, mal vestidos sob o frio", como diz S. Paulo. Mas, onde está agora essa moda antiga? Veio outra, algum tanto diferente, não é? As práticas do presente não são inteiramente as do passado. Confesso que o cuidado, a inquietação, o zelo, a solicitude ainda se fazem perceptíveis; mas, se não diminuíram, recaem sobre outros objetos. Sim, posso dar testemunho de que agora ninguém se poupa ao trabalho mais do que antigamente: o emprego do trabalho, o objetivo é que se tornaram menos admiráveis . Vedes, papa Eugênio, todos esses olhos postos sobre vós? Que é o que observam? Serão os vossos lábios, para melhor apanharem os vossos ensinos? Não! Olham as vossas mãos, e não sem motivo, pois que agora são as mãos que fazem todos os negócios do papado. Mostrai-me, peço-vos, em toda a vossa cidade, alguém que vos haja reconhecido por papa, sem a intervenção ou a esperança de alguma soma em dinheiro. E esses protestos, que vos fazem todos os prelados romanos, do seu devotamento ao vosso serviço, têm outro fim que não seja obter autoridade para prejudicar? Peço acrediteis que conheço bem o gênio e a maneira de agir desta nação. Hábeis para o mal, incapazes para o bem; odiosos ao céu e à Terra, por terem posto mãos sacrílegas sobre uma e outro; sem piedade real para com Deus, exploradores das coisas santas; rixentos e invejosos uns dos outros, hostis aos forasteiros; querendo que toda gente trema diante deles; infiéis aos seus superiores e insuportáveis aos seus inferiores; importunos, desavergonhados, até obterem de vós o que desejam; ingratos, desde que o tenham obtido, ninguém os pode amar, porque eles a ninguém amam... Como vedes, sei qual é a vossa camarilha: os incrédulos e os destruidores formam a vossa companhia; sois guardador oficial de lobos e não de ovelhas. Convertei-vos, peço-vos, para que não vos pervertam.

            Mas, como transformá-los?

            Confesso que até ao presente esse povo pareceu extremamente endurecido e indomado. Estais, porém, certo de que eles são absolutamente indomáveis? Se tem uma frente dura, endurecei a vossa ainda mais do que a deles: não há nada tão duro que não ceda ao que o é mais. Se tendes procedido assim, sem nada conseguir, ainda vos resta fazer uma coisa: Deixai a morada dos Caldeus!" é o que Vos clama o profeta. Persuado-me de que não vos arrependereis do vosso banimento, tomando para vossa habitação a terra inteira, em vez de uma cidade apenas." (Livro IV, capítulo III, tradução de Buchon, pág. 363).

            Porém, não! Volto ao meu primeiro ponto: a vós mesmo é que deveis imputar o que fazem aqueles que vos cercam, pois eles nenhum outro poder têm, senão o poder que lhes destes, ou que os deixastes tomar. Corre-vos por isso o dever de compordes a vossa comitiva, chamando para tão importantes funções, não esses jovens, mas os velhos, verdadeiros Anciãos do Povo, a exemplo de Moisés: velhos, quero dizer: pela sabedoria e pela virtude, mais do que pelos anos, e não apanhados unicamente ao vosso derredor, mas buscados em todas as partes do mundo, porquanto, afinal, em todas as partes do mundo devem ser escolhidos aqueles que hão de julgar das coisas que interessam ao mundo inteiro... A não ser assim, os últimos tempos porão a nu o mal interior que os primeiros tempos haviam ocultado... Muito vos enganais, com efeito, se credes que a vossa autoridade apostólica promanou de Deus para ser única, não apenas soberana. Toda pessoa, diz o Livro Sagrado, deve ser submissa às potências superiores." Não diz: "à potência suprema", como se fosse uma única; mas': "às potências superiores", como sendo muitas. O vosso poder, pois, não é o único instituído por Deus; há outros menores, inferiores, que também o são. Faríeis um monstro se, destacando um dedo da mão, o ligásseis à cabeça. O mesmo se dará com esse corpo, que é a Igreja de Jesus-Cristo, se colocardes os seus membros de modo diverso do em que ele os dispôs; visto que, afinal, não imagino cometais o erro de crer que não foi Jesus Cristo quem estabeleceu na sua Igreja, como diz S. Paulo, uns para serem apóstolos, outros para serem profetas, outros evangelistas, doutores e pastores outros, para trabalharem no criar santos e em construir o corpo da Igreja ... Oh! infeliz esposa de Jesus Cristo, que te achas presentemente confiada a condutores que não se envergonham de guardar para si exclusivamente o que, segundo a ordem determinada por Deus, reverteria para a Igreja inteira!" (Livro III, capítulo V, págs. 362, 364).

            Mas, basta destas citações, que eu poderia prolongar mediante outras ainda mais desagradáveis. As que aí ficam são suficientes para demonstrar que não constitui impiedade o não se fecharem os olhos às chagas da Igreja, nem constitui blasfêmia o denunciá-las ao único médico que as pode curar, porquanto, na Igreja de Jesus Cristo, o médico do clero é o leigo, como o médico do leigo é o padre: Mandavit Deus unicuique de proximo suo - "Deus deu a cada um o encargo do seu próximo", diz o Livro Sagrado chamado precisamente Eclasiástico (XVII, 12).

            Com efeito, a desgraça das enfermidades que os profetas e todos os santos denunciam na Igreja Católica é que os enfermos se apegam às suas enfermidades. Não serão, pois, a corte romana, nem o clero que reformarão a corte romana. Eis porque os leigos tinham voto na Igreja, no primeiro século depois de Jesus Cristo, porquanto, afinal, não é um livro herético, mas o livro sagrado dos Atos dos Apóstolos que nos mostra S. Pedro pedindo a opinião de todos os fiéis, a fim de eleger, dentre eles, um substituto para Judas. E sempre, nos dez primeiros séculos, e disso dá testemunho a história autêntica, os bispos foram eleitos pelo sufrágio universal, não apenas dos padres, mas dos leigos. Sabeis, por exemplo, que S. Martinho foi nomeado arcebispo de Tours, pela vontade do povo, que violentou os bispos e os forçou a renunciar àquele que queriam nomear. Os leigos, pouco a pouco, se deixaram despojar de todo direito, de toda intervenção, mesmo a mais devotada, nos negócios da Igreja. O deplorável resultado, que já no século XII S. Bernardo denunciava, com o tempo se agravou e os católicos, ainda os mais corajosos na defesa de todos os seus outros direitos e no cumprimento de todos os seus outros deveres, se dobram covardemente - peço perdão do termo - ante a usurpação eclesiástica que lhes proíbe falar e agir e só lhes concede uma função, a de obedecer e calar. Esse o grande mal donde nascem todos os outros, na Igreja Católica. Já não estamos, contudo, nos séculos da Inquisição e não é preciso ter a coragem de um Savonarola ou de um Luís de Lyon para ousar agir e falar como se pensa, tanto mais quanto, entre os católicos intelectuais e mesmo entre os padres, são legião os que pensam hoje o que São Bernardo ousava dizer.

            - Mas, se esses ousarem falar, como faço esta noite, não serão tratados como modernistas, como protestantes, etc., pelos beneficiários do mal que eles tiverem a ousadia de denunciar? não serão desconsiderados aos olhos dos ignorantes que, na Igreja, como alhures, são em número considerável?


            Ah! sim! É essa precisamente a tática desde que livros e revistas se tornaram objeto de exploração. Em vez de refutarem, injuriam: afirmar ou negar basta, sem necessidade de prova autêntica do que avançam. Um grande pontífice de não sei que revista judaica, um destes Dias, me censurava o ter ousado pretender que o Talmud é posterior ao Evangelho. Não é que ele ignore que mesmo a primeira parte do Talmud, a Michna, só ficou terminada depois do século II da nossa era (25); é que ele sabe que o seu público o acreditará sobre palavra e disso se aproveita. Os rendeiros do clericalismo se utilizam mais habilmente da confiança de seus fiéis: criaram uma palavra, da qual fazem ficha de excomunhão: "modernista, liberal, protestante", etc. Logo que os pregoeiros públicos da ortodoxia, "com os olhos postos na mão pontifical que os tem de pagar", como diz S. Bernardo, lançam o qualificativo oficial sobre os adversários da exploração ou da opressão na Igreja, a causa está julgada. Porque, como também o diz São Bernardo, "não é da cabeça, mas da cauda do escorpião que se deve temer" (26).

            (25) Rabino Elias Soloweyczyk - "A Bíblia, o Talmude e o Evangelho", pág. 7, nota 1.
            (26) Livro IV, 4, pág. 369

            Não sei se em História Natural é exata essa asserção; na história da Igreja, porém, é tristemente justa.




terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Melhor que não seja...




A Tragédia
de Santa Maria

            Verão de 1943 – Um trem se aproxima do campo de concentração de Auschwitz. Lotado. A carga? Seres humanos socialmente apartados por sua origem e formação religiosa. Amontoados, sofriam de sede, fome e doenças. Destino? Ignorado por todos. Alguém dissera que seria um local de trabalho e que, finalmente, seriam tratados com alguma dignidade. Outros, com uma sensação desagradável, esperavam o pior: a morte. Ao chegar, soldados do nacional socialismo os receberam. O tratamento foi ríspido. Cães obrigavam a todos a permanecer próximos aos vagões de carga.

            Começa o processo de seleção. Velhos, doentes e crianças foram separados e colocados em fila. Diziam os soldados do nacional socialismo que seria necessário que passassem por um banho onde seriam tratados contra infestação de piolhos e outras moléstias.

          Ficaram nus. Um constrangimento a mais num ambiente cercado de ódio, rudeza e maus tratos.

            Entraram na sala. Amontoados. Sentiram um cheiro de gás. Era o Zyklon B que começava a espalhar-se pelo ambiente. Gritos. Muitos gritos. Gritos de socorro. Um a um, foram rapidamente se calando deixando-se levar pelo efeito do gás.

            Todos morrem.

            Semelhanças com a tragédia de Santa Maria? - Muitas.

            Verdadeiro?  

            - Não sei...  Melhor que não seja. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A Tragédia da Chapecoense



       Se você está buscando os motivos para uma tragédia tão dolorosa, talvez você encontre explicação e consolo na leitura dos textos sob marcação 'A Chapecoense'. Busque na coluna ao lado. Deus é, sempre foi e sempre será soberanamente bom e justo.  Rezemos por todos, os que partiram e os que ficaram. O Blog

domingo, 27 de janeiro de 2013

20. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'


20
 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris



Neste ponto interromperemos a postagem do livro, face suas dimensões, e buscaremos os capítulos  ‘O Catolicismo Romano’‘A Questão Decisiva’ que se estendem das páginas 343 até a 389, quando do final do livro.

XIX

o Catolicismo Romano


            Como sabeis, minhas Senhoras e meus Senhores, a Igreja Romana comemorou, em 1913, o décimo sexto centenário do edito de Milão, pelo qual Constantino, em 313, com o seu colega Licínio, fez cessassem as perseguições aos cristãos (Do Blog: Essas comemorações se renovam neste ano de 2013) . Não creio que no decreto pontifício, nem nos discursos eclesiásticos que à porfia glorificaram "esse glorioso aniversário", uma só frase tenha ousado lembrar que o edito, tão ardentemente celebrado pela Corte Romana, fundamenta essa inovação contrária às tradições imperiais, não pela vontade dos dois Augustos, senhores do Império, mas pela doutrina de liberdade religiosa que pregavam, havia dois séculos, os Pais da Igreja: "pois, formula o documento imperial, pareceu-nos sistema muito bom e racional não recusar a qualquer de nossos súditos, seja ele cristão ou pertença a outro culto, o direito de seguir a religião que mais lhe convenha. Desta maneira, a Divindade Suprema, que cada um de nós daqui em diante cultuará livremente, poderá conceder-nos seu favores e sua benevolência" (1) .

            (1) Gaston Boissier - "O Fim do Paganismo", 2.' ed., tomo I, pág . 42

            É que, ah! depois desse Iongínquo edito do primeiro imperador cristão, o espírito religioso e o espírito político se modificaram um pouco na Igreja. Segundo a doutrina dos Césares romanos, a religião é coisa política, não filosófica, domínio de autoridade não de liberdade, e em nome dessa doutrina é que eles haviam proibido o Cristianismo, "lei de liberdade", como lhe chamavam S. Paulo e S. Tiago, e que perseguiriam tão duramente os cristãos. Enquanto a autoridade lhes foi contrária, os seguidores de Jesus Cristo se conservaram fiéis às instruções do Mestre, segundo quem somente o Espírito faz os cristãos e somente a prédica pode dar a fé, não a imposição de um lado e a obediência de outro: Fides ex auditu... Ite, praedicate. " Qui potest capere capiat! (2). E foi em nome da liberdade que eles protestaram contra a interdição, contra a excomunhão que lhes decretavam a autoridade política e a autoridade religiosa. Mas, depois da conversão de Constantino, bem depressa começou a perversão, no espírito dos administradores eclesiásticos.

            (2) Epístola aos Romanos X, 17; Evangelho segundo S. Mateus, X, 7; XIX, 12 etc.

            "O direito comum, a lei natural, escrevia Tertuliano, querem que cada um adore o deus em que crê. Não cabe a uma religião violentar outra. Uma religião tem que ser abraçada por convicção e não pela força, porquanto as oferendas à Divindade exigem o consentimento do coração ." Lactâncio, um século mais tarde, diz mais ou menos a mesma coisa: "Não é matando os inimigos da sua religião que alguém a defende: é morrendo por ela. Se julgais servir à causa da vossa religião derramando sangue em seu nome, multiplicando as torturas, muito vos enganais. Nada deve ser mais livre do que a religião" (3).

            (3) Gaston Boisssier - I, pág. 49.

            Rápida foi a mudança e a "lei de liberdade" do Novo Testamento (4) teve de pronto a substituí-la a lei levitica do Antigo Testamento, quando os humildes presbíteros nomeados outrora pelos fiéis, para o serviço da comunidade cristã, foram mudados em tribo sacerdotal, depois pontifical, com privilégios, honras, rendas, poder e autoridade religiosa maiores do que as que, em qualquer tempo, tivera o Sacerdócio Judeu, graças à proteção dos imperadores e à ambição dos pontífices.

            (4) Epístola de S. Tiago, n, 12; I Epistola aos Coríntios, X, 29, etc.

            Por isso mesmo, curiosa é a comparação dos textos de Tertuliano e de Lactâncio, por mim há pouco citados, com o tratado ‘Do erro das religiões profanas’, que Firmicus Maternus endereça aos dois filhos de Constantino, feitos imperadores. Tira ele da Bíblia o seu principal argumento: "Aquele que sacrifica aos deuses deve ser arrancado da terra que vos pertence", diz, com efeito, o Deuteronômio, no capitulo XlII. "É-vos defeso ter qualquer piedade para com ele. Teu dever é dar-lhe morte, ainda que seja teu irmão, teu filho, ou tua mulher, que dormem no teu regaço. Tal a sentença de Deus", ensina, segundo a Bíblia, o feroz teólogo romano, esquecido de que o Novo Testamento revogou o Antigo e que, pela graça do Cristo, "a lei de amor" substituiu "a lei do temor". Em vão pregaram os apóstolos: "As coisas antigas estão peremptas, tudo daqui por diante' é novo; quem quer que seja da religião de Jesus Cristo é uma nova criatura ... Fazendo conosco aliança nova, Deus perimiu a antiga; o antigo tem que desaparecer" (5).

            (5) II Epístola aos Coríntios, V, 17; Epístola aos Hebreus, VIII, 13, etc.

            Já não é "pela graça de Jesus-Cristo", é "pela graça do imperador" que o Cristianismo de então por diante existirá. Estão mortos os apóstolos; ressuscitaram pontífices e teólogos. Pouco importa a doutrina de S. Pedro e S. Paulo, ou mesmo a de Jesus Cristo sobre "o único necessário", sobre as "vãs disputas teológicas" (6). Depois de haverem obtido dos imperadores a destruição dos templos pagãos e enquanto esperavam o massacre do admirável neo-platônico Hipatia (7) por monges sórdidos e ineptos, os neo-cristãos, suprimindo o Evangelho e instituindo a Igreja Cesariana, sob o nome de Igreja Católica, não se contentaram com excomungar seus irmãos em Jesus-Cristo, por motivo de opiniões teológicas imperialmente declaradas heréticas, pois que logo obtiveram do imperador Honório, em 414, uma lei que ordenava fossem tomadas à mão armada as igrejas dos donatistas, culpados, primeiro (311), de não terem aceitado como bispo de Cartago um traidor e covarde; depois, por terem atraído para a sua resistência quase toda a África cristã (8). A mando da autoridade imperial, seus bispos foram banidos - em 330, eles tinham reunido um concílio de 270 bispos - seus bens eclesiásticos foram confiscados. "Quanto aos simples fiéis, se colonos ou servos, eram azorragados, tiravam-lhes a terça parte de seus pecúlios; aos homens livres era imposta uma pena pecuniária, que variava, conforme a condição ou os haveres de cada um, e os punham, por assim dizer, fora do direito civil, proibindo-lhes que fizessem testamento ou recebessem heranças".

            (6) Lucas, X, 42; II Epístola de S. Pedro, III,16; I Epístola aos Coríntios, XI, 16, etc.
            (7) Duchesne - "História Antiga da Igreja", tomo II, pág, 301.
            (8) Funk Hemmer - "História da Igreja", 3ª edição, tomo I, págs. 221 a 224.

            Tal era o contágio dessa tirania apresentada oficialmente, dali em diante, como sendo o Cristianismo único, (que até o ex-donatista Agostinho de Hipona se deixou por ela seduzir. Como diz Gaston Boissier, "uma razão havia para que ele fosse brando com os transviados. Não participara também ele desse transviamento? Poderia esquecer que, durante toda a sua mocidade, se conservara obstinadamente fora da ortodoxia?" Dizia aos heréticos: "Maltratem-vos os que não sabem quão penoso é encontrar-se a verdade (9) e quanto se tem de suspirar e gemer para conceber ainda que de modo imperfeito o que é Deus; persigam-vos os que nunca se hajam enganado! Eu, que partilhei dos vossos transviamentos, posso lamentar-vos, mas não me posso irritar contra vós. Ao contrário, sinto-me obrigado a vos suportar hoje, como a mim me suportaram; devo ter para convosco a mesma paciência que tiveram para comigo, quando eu, como cego e em fúria, adotava os vossos perniciosos erros" (10). Mudou, entretanto, de sentimentos e de linguagem e acabou apoiando os que queriam se empregasse a força para converter os heréticos. Ele, que começara pela heresia e que teria de acabar pelas "Retratações", que a morte infelizmente interrompeu, se tornou o grande dogmatizador teológico que todos os teólogos romanos hão cegamente acompanhado e imposto, que ainda impõem, se bem suas doutrinas, forçoso é confessá-lo, sejam, notadamente sobre a liberdade e a graça, as mesmas que a Igreja Romana foi obrigada a condenar, no século XVII, em o Neo-Augustinismo de Jansenius" (11).

            (9) Uma verdade tão difícil de encontrar-se não pode ser a religião universal, a religião necessária a todos.
            (10) Contra epistolam Fundari, III, 3; Gaston Boissier, tomo I, págs , 74, 75.
            (11 ) Duchesne - "História Antiga da Igreja", tomo II, pág. 656.

            Com efeito, Santo Agostinho - 354 a 430 - se acha colocado na curva do caminho, nessa mudança de rumo que fez passasse a Igreja do sistema cristão ao sistema cesariano. Tinham-no suportado, confessa ele, quando era donatista, porque a tradição evangélica ainda resistia vitoriosamente à tendência jurídica e porque os próprios bispos se lembravam da parábola em que Jesus mandou que deixassem crescer juntos o joio e o bom grão, até ao Juízo derradeiro, porque os servidores do Pai Celestial poderiam muito bem enganar-se e arrancar o trigo, crentes de que arrancavam o joio (12). - Eles tinham, assim na África como em Roma, bastante bom senso para se não acreditarem infalíveis e para sentirem que a inteligência é negócio de inteligência, a ciência negócio de ciência, e que nem a autoridade, nem a obediência tem que fazer no domínio do conhecimento. Mas, os bispos, tornados cesarianos logo que César se tornou cristão, persuadiram o imperador convertido de que também devia converter o Império e "não só convertê-lo, como fazer da nova religião o que fora feito da antiga, uma instituição universal e oficial, uma religião de Estado" (13). Infelizmente, os cristãos, desde muito tempo, haviam introduzido na Igreja questões de partidos ou de pessoas e querelas teológicas e pequenas igrejas se tinham separado das igrejas principais. Constantino, informado das divisões interiores do Cristianismo, decidiu, desde o primeiro momento, que seus favores só seriam dispensados à grande Igreja, cuja sede era a capital mesma do Império e essa foi a que ele reconheceu como autêntica, porque lhe agradava encontrar nela o poder religioso já constituído de forma administrativa. "Mas, afora os privilégios, os heréticos isto é, os cristãos não submissos à autoridade administrativa - tinham tido, a principio, como todos os cristãos, o direito de restabelecer suas igrejas e de efetuar de novo suas reuniões" (14).

            (13) Veja-se: ‘Christus’, edição de 1913, páginas 920 e 921.
            (14) Duchesne – ‘História Antiga da Igreja’, págs. 650, 148, 157   

            Depois do concílio de Niceia, Constantino, que oficialmente o presidira, deu ciência a todo o Império das decisões conciliares e tomou a peito reconduzir à uni-
dade as igrejas dissidentes (15). "Estava absolutamente decidido a não transigir, no tocante ao concílio: era o seu concílio, ao qual ele assistira e, até, dirigira um pouco", confessa de modo discreto o historiador romano; "manteve, pois, resolutamente a sua decisão" (16). Ário e os bispos que se lhe conservaram fiéis foram exilados, inclusive o próprio bispo de Niceia, sendo condenados ao fogo seus escritos. Mais alguns séculos de progresso eclesiástico tiveram de passar, para que se chegasse a queimar, não apenas os escritos, mas também os homens declarados heréticos.

            (15) Idem, idem (14)
            (16) Idem, idem (15)

            Algum tempo depois, o episcopado ortodoxo sofreu e protestou, quando sobrevieram imperadores heréticos, que entenderam de impor o gênero de ortodoxia que adotavam. Clamaram então os Donatas: "Que vem fazer o imperador nas coisas da Igreja?" "Quando, todavia, as coisas iam bem, observa Monsenhor Duchesne, ninguém se escandalizava por intervir o imperador. Que interviesse no bom sentido, era tudo o que lhe pediam" (17).

            (17) Duchesne – ‘História Antiga da Igreja’, tomo II, pág. 657. 

            Entretanto, também aÍ um progresso se tinha de realizar, para chegar-se ao estabelecimento do Cesarismo espiritual e o simplório lrineu de Lião, numa discussão puramente eclesiástica, o indicara de antemão, declarando que, para cessarem as divisões, era necessário que todas as igrejas se unissem em torno da Igreja de Roma, que, pela sua posição no centro politico do Império, estava designada naturalmente para centro eclesiástico (18). Esse texto de lrineu é o primeiro testemunho que os teólogos romanos invocam a favor da ancianidade do primado universal da Igreja de Roma. Peço perdão a esses Senhores, mas, ou eles ignoram o latim, ou fingem não compreender.

            (18) O texto é citado por Kraus, “História da Igreja”, I, pág. 180, nota 2.

            O texto não diz que toda a Igreja, totam Ecclesiam, como se falasse de um corpo já unificado, mas "toda igreja, todas as igrejas", omnem ecclesiam". Não diz: "toda a Igreja depende da Igreja de Roma", porém que: "todas as igrejas façam unidade em torno da igreja romana, se quiserem que cessem as discussões", Ainda nesse ponto, ele profetizava mal, porquanto a supremacia que Roma reivindicava produziu, em vez da união de todas as igrejas, a separação das Orientais, primeiro, depois, entre os cristãos do Ocidente, divisões igualmente consideráveis e obstinadas.

            "Fazer remontar a primazia cristã aos primeiros séculos do Cristianismo é, pelo menos, desconhecer as leis e as condições do desenvolvimento cristão" (19), confessam hoje, discretamente, os historiadores ortodoxos e confessam "forçados pela ciência crítica, que, notadamente, em S. Cipriano, testemunha incontestável da doutrina contrária, os partidários do primado romano interpolaram textos a favor da tese que sustentavam (20). Digamos, por desencargo deles, que não citam a carta em que S. Firmiliano, metropolitano da Capadócia, escrevendo, no ano 256, a S. Cipriano, qualifica de "tolo", stultus, o papa romano Estêvão, o primeiro a intitular-se "sucessor de S. Pedro", atribuindo sentido exclusivo a essa qualificação (21). São Gaudêncio, pelo ano de 396, ainda honra com esse título o bispo de Milão, Santo Ambrósio, porque, na opinião daqueles tempos, a cadeira de São Pedro estava
por toda parte, na Igreja, e todo bispo era tido como sucessor de S. Pedro, do mesmo modo que todo bispo era chamado "papa", isto é, "pai", datando apenas do século VIII o sentido exclusivo atribuído hoje a esse título.

            (19) Kraus, I, 180. Devera dizer: do desenvolvimento eclesiástico, para ser absolutamente exato.
            (20) Idem, I, 181, linha 3 e nota 2.
            (21) Migné - "Patrologia Latina", tomo III, colunas 1201 a 1226.

            Até então, o bispo de Roma, eleito como os outros, pelos cristãos da sua cidade episcopal, pagava uma soma bastante elevada ao imperador de Constantinopla, do qual se reconhecia, tributário, como claramente o atestam o requerimento do papa Agaton, pedindo, em 680, por intermédio dos seus legados ao VI Concílio Ecumênico, convocado para aquela capital, pelo imperador Constantino Pogonato, uma diminuição do foro anual, e a resposta imperial, especificando que o eleito do povo romano para o episcopado não seria ordenado, antes que o imperador aprovasse a eleição, "de acordo com o costume antigo". Quando a invasão dos bárbaros subtraiu o Ocidente ao imperador de Constantinopla, o privilégio daquela confirmação foi transferida para os imperadores do Ocidente, pelos próprios papas. Somente Gregório VII - 1073 a 1085 - conseguiu libertar-se desse privilégio, como conseguiu, ou quase, que todos os bispos se curvassem à sua dominação única.

            A partir desse sétimo Gregório romano, foi-se a doutrina proclamada por S. Gregório I - 590 a 604 - contra o patriarca bizantino João, o Jejuador, de que "o título de bispo universal é contrário aos direitos de todos os bispos" (22). Já Teodoro I - 687 - pouco satisfeito com o titulo de "Servo dos servos de Deus", que Gregório I humildemente tomara, adotou o de "Soberano Pontífice", que os outros bispos até ali tinham usado com os de "papa" e "vigário do Cristo", indistintamente, para se destacarem dos padres de segunda ordem (23). Gregório VII quis comandar não só os bispos, como os reis e o imperador. Os escândalos e os crimes dos 32 papas que se haviam sucedido no trono pontifical, durante 107 anos, de 896 a 1003, e as revoluções, as incessantes guerras a que, ainda por mais tempo, deu causa a nomeação do bispo de Roma pela aristocracia e pela populaça romanas, justificam evidentemente a indomável energia de que usou Gregório VII, para conquistar a independência e regularizar o funcionamento da autoridade espiritual, mau grado mesmo aos reis e aos imperadores.

            (22) Kraus, tomo I, pág. 347,
            (23) Funk Hemmer, tomo I, pág. 269.

            No futuro, porém, não menos do que no passado, a santidade e o gênio não se mostraram inseparáveis da soberania pontifícia. Era fatal o declive por onde os papas, desde Inocêncio III - 1198 a 1216 - seriam arrastados à ambição e à realização da autocracia absoluta.

            Foi persistente a resolução e habilmente conduzida a realização. O papa Bonifácio VIII - 1294 a 1303 - juntou uma segunda coroa à de que os seus predecessores haviam ornado a tiara que usavam, imitando os sumo-sacerdotes judeus. Benedito XII - 1334 a 1342 - acrescentou uma terceira e, assim, desde o século XIV, estava completa a declaração da tríplice autoridade que os pontífices romanos se atribuíam, para igualarem, não à santidade, ah!' não, mas à potestade divina. "Não à santidade", disse eu. É que as pretensões não geram o mérito e o poder não é a virtude.

            Mesmo durante esse período triunfal a que se chama a "Idade Média", além de que muitos papas não foram santos, os mais virtuosos, apesar da sua boa vontade, não lograram impedir que a Corte Romana fosse exatamente o oposto de um Colégio Apostólico e de um Sacro Colégio, como piedosamente ela se intitula. E foi, sobretudo, Roma, que maculou aquela cristandade mesma dos séculos XII e XIII, que as Histórias da Igreja glorificam, como de maravilhosa floração de todas as virtudes e de todas as instituições cristãs.

            Pelos resultados é que se julgam as instituições: "é pelos frutos que se julga de uma árvore", disse Jesus-Cristo. Porventura os frutos da árvore pontifical, os resultados da organização cesariana em Roma dão testemunho de que as mudanças introduzidas pelo papado na obra de Jesus-Cristo são obra do Espírito-Santo? Querer atribuir A inspiração divina as ideias e os atos da autoridade pontifícia é pretensão que não logra êxito em nossa época. Verdadeiramente, bom é que, por honra de Deus, não se seja obrigado a dar-lhe a paternidade da instituição da Inquisição, do Diretório dos Inquisidores que o Papado não se descuidou de fazer fosse reeditado em Roma, nos anos de 1578, 1587 e 1597, e que, desde Alexandre IV - 1254 a 1261 – até ao XVIII século, multiplicaram por toda a Europa torturas e fogueiras, fazendo tantos mártires quantos anteriormente haviam feito os perseguidores pagãos dos séculos II e III, Não! os chefes da Igreja, como os outros homens, conservam a sua liberdade, debaixo das sugestões e inspirações divinas. Nas palavras e nas obras dos papas, como nos dizeres e atos dos pregadores ou dos ministros do Evangelho, a, razão tem o dever, que não apenas o direito, de discernir e de julgar, como o recomendava S. Paulo no começo do Cristianismo: Omnia probate; quod bonum est tenete! "Experimentai tudo, apreciai tudo, para unicamente guardardes o que for bom" (24). "Separai-vos, apartai-vos de tudo o que tenha aparência de mal", continua o apóstolo, falando aos seus cristãos de ontem, apenas instruídos nos rudimentos do Cristianismo.

            (24) I Epístola aos Tessalonicenses, V, 21.

            A corte romana, depois, entendendo sem dúvida, e com razão, que os cristãos, após séculos e séculos de Cristianismo, mais capazes já eram de julgar do bem e do mal, tomou suas precauções e, por meio da Inquisição e do Índex, proibiu, até mesmo ao santo de Fogazzaro, se achasse que nem tudo é absolutamente perfeito, nem no passado, nem no presente, quanto, sobretudo, “ao santíssimo e infalível papado latino".


            Assim pois, como, segundo o preconceito que os interessados habilmente criaram, só um ímpio ou um orgulhoso pode deixar de admirar tudo em a "nossa Santa Madre Igreja", não apelarei para o meu próprio juízo, nem, ainda menos, para as asserções de algum inimigo da Igreja, mas para um grande doutor da Idade Média, que Roma declarou santo, para o ilustre e virtuoso sábio S. Bernardo.