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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Grande Missionário

Autor: Pedro Richard

            
            O século XVIII terminava o seu curso sob as mais violentas convulsões a que jamais a Humanidade assistira.

            Em nome da liberdade, em nome desse princípio altruísta e santo, cometeram-se as maiores atrocidades e os mais violentos atentados contra a sua própria essência.

            O espírito das trevas baixou sobre a França e, invadindo o coração do mundo, sobre ela descarregou todo o seu ódio e toda a sua maldade.

            Em nome da liberdade tolheu- se o livre arbítrio do homem, amesquinhou-se o direito de livre pensamento, em uma palavra, anulou-se a própria liberdade humana! Infelizes que foram e que são! Não compreendem que a liberdade é função imediata do amor, porque só o amor, princípio gerador da caridade, é que conduz a criatura a não fazer a outrem o que não quer que se lhe faça.

            Cumpra-se a lei, e ter-se-á liberdade. E a lei é: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

            Dentro deste escrínio divino, encontra-se toda a felicidade imaginável. Aí também está a liberdade bela e santa que fará a felicidade dos homens quando a souberem praticar.

            Mas infelizes que são, quando confundem os abusos e licenças com o dom sublime e grandioso da liberdade!

            Não se lembram de que os opressores de hoje serão os oprimidos de amanhã; e então conservarão em seus espíritos todos os sentimentos contrários à liberdade.

            Os déspotas são outros tantos Simão, que, de sapateiro que era, se tomou diretor político da culta França, quando diabolicamente convulsionada sob as inspirações tirânicas de Marat.

            Foi assim que o déspota de outrora, não querendo subordinar-se às suas condições humildes de simples proletário de então, audaciosamente se fez chefe revolucionário e apoderou-se do Delfim, o pequenino príncipe, pobre criança indefesa, que, para o novo déspota, era réu de lesa-liberdade: era filho do rei! E, por isso o sapateiro de então, mas o déspota de outrora, em nome da liberdade reduz o inocente filho de Maria Antonieta a seu escravizado!

            O tufão do crime, arrastando em sua impetuosidade todo um cortejo de males, arrancara dos corações daqueles infelizes o sentimento de piedade pelas misérias e de respeito por tudo quanto era santo, pois que o próprio Deus, o Criador do Universo, foi, por uma arrogante ironia, sacrilegamente substituído pela deusa "Razão".

            Em nome dessa deusa eles praticaram desmandos e desvarios tais que tocaram à meta. Pararam porque não mais puderam prosseguir.

            Se Deus consentira que aqueles homens, no uso de seu livre-arbítrio, pudessem servir de pedra de escândalo na punição necessária de uns tantos culpados, nem disso se conclua que Ele abandona a Humanidade.

            Não; Ele afastou do cenário do mundo os principais instrumentos de escândalo, e ao mundo enviou uma legião de missionários para desfraldarem a bandeira da liberdade com o amor, em substituição da liberdade com o crime.

            À frente de tal legião era mister colocar-se um Espírito já bastantemente provado nos sentimentos da caridade e da abnegação, um Espírito capaz de pregar e de exemplificar a doutrina do seu amado Filho, N.S. Jesus Cristo, como sendo capaz de sanar tão grande mal, e o único lenitivo às dores cruciantes que sofria à Humanidade, em virtude dos seus desvarios e crimes.

            Espírito de escol, tirado dentre os da elite celestial, deveria naturalmente ser aquele que em sua anterior encarnação dera provas exuberantes de abnegação e de profundo amor pela liberdade e pela verdade, síntese da doutrina do seu amado Filho.


            Foi chamado João Huss que, em defesa da verdade, fora lançado em uma fogueira!

            João Huss era um espírito de têmpera moral capaz de resistir, como resistiu, aos vendavais das perversidades humanas.

            E assim foi que, efetivamente, ele soube afrontar galhardamente as chamas de uma fogueira ainda mais temível: a fogueira dos escárnios, das injúrias e das calúnias.
           
            Assim, por determinação do Senhor, encarnou Allan Kardec.

            Dizer-se o que foi este missionário é, caro leitor, tarefa incomparavelmente superior às nossas exíguas forças.

            O que sabemos é que o homem é o fruto de suas próprias ações, é idêntico às suas próprias obras. Quereis conhecê-lo? Estudai os seus feitos, examinai as suas obras.

            Estudai Allan Kardec na sua obra, e lá encontrareis a alma diamantina do seu grande autor.

            Vereis, então, abrirem-se aos vossos olhos as duas brilhantes páginas do grande poema em que estivera encerrado todo o seu espírito: numa admirareis o saber de sua rutilante mentalidade, noutra vos extasiareis diante das virtudes que foram o apanágio da sua vida de peregrino.

            Difícil será dizer-se qual das duas é mais digna da nossa contemplação, da nossa admiração; qual das duas inspira mais veneração e desperta maior entusiasmo pelo seu autor.

            Assim, n' "O Livro dos Espíritos" encontra-se o filósofo ultra transcendente; no "O Evangelho segundo o Espiritismo" depara-se o espírito profundamente bom e amoroso, a fazer compreender a grandeza do amor de Jesus. Salve! Salve, Mestre!

O Grande MIssionário
por Pedro Richard

Reformador (FEB) Outubro 1904 

Esforços Esparsos Unificados



            Escrevendo certa vez aos Coríntios (II Cor. 6, 11 e seg.), dizia Paulo:
           
            "Coríntios! temo-vos falado com toda a franqueza; nosso coração se abriu de par em par. Não está fechado o nosso coração para vós; os vossos, sim, é que estão fechados para nós. Correspondei-nos; falamo-vos como a filhos; abri-vos também. Não vos junteis aos infiéis. Pois que relação há entre a retidão e a iniquidade? Que união, entre a luz e as trevas? Que harmonia, entre o Cristo e Belial?
Que participação, entre o fiel e o infiel? Que conformidade, entre o santuário de Deus e o dos ídolos? Porque nós somos santuário de Deus vivo."

            Divergências e desvios doutrinários começavam a infiltrar-se sutilmente no meio dos seus amados coríntios e ele não podia estar pessoalmente entre eles para aconselhar, advertir, corrigir e ensinar. A segunda carta, tanto quanto a primeira, ou qualquer outra do Apóstolo dos Gentios, revela o seu carinho pelos inexperientes cristãos das primeiras comunidades, seu cuidado em preservar a pureza da doutrina do Cristo. Já naqueles tempos tão recuados, o gênio multiforme de Paulo podia claramente discernir os dois conceitos fundamentais em que se apoiam os impulsos ideológicos do homem: o movimento e a doutrina. A doutrina é a alma do movimento, o seu conteúdo, a sua substância, o seu ideário, a sua filosofia. O movimento é estrutura de apoio, o instrumento, a ferramenta de trabalho, o corpo físico da doutrina. O corpo precisa mais da alma do que a alma do corpo. A doutrina pode sobreviver sem o movimento, preservada no coração dos homens de boa vontade ou em papiros, pergaminhos, livros e folhetos, e um dia tornar a eclodir para reiluminar o mundo que nos cerca; mas o movimento esvaziado da parte doutrinária perde-se completamente em desmandos e se avilta, convertendo-se em núcleo de poder, nada mais. O exemplo da História é dramático e veemente. A Igreja dos Apóstolos é o casamento sagrado entre movimento e doutrina. A doutrina atuante se apoia em estruturas ainda embrionárias, mas firmes na sua concepção, harmonizadas no coração de seus componentes. A Casa do Caminho é o centro nervoso daquele movimento doutrinário ou, se quiserem, da doutrina cristã pura em movimento. A doutrina viva e a sua ferramenta de trabalho estão unidas, como corpo e alma, num só propósito: implantar na Terra a filosofia do amor, em substituição à prática desumana do olho por olho, dente por dente. Para isso era preciso amar e instruir a todos, indistintamente. Esse mesmo conceito básico, fundamental, o Espírito de Verdade repetiria a Kardec, em mensagem subscrita em Paris, em 1860 ("O Evangelho segundo o Espiritismo", capo VI, número 5, pág. 124 da 57ª edição da FEB):

            "Espíritas! amai-vos, este é o primeiro mandamento; instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo se encontram todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram."

            A Casa do Caminho praticava o amor e procurava instruir, pois só na disseminação da palavra do Mestre que partira havia esperança de propagar o amor, que sempre foi a tônica da pregação de Jesus, através dos milênios. Amar é o primeiro mandamento, aquele que não exige condições, não se esconde em ressalvas, nem se mancha de insinceridade: é o amor sem reservas, sem desejo de recompensas, nem de gratidões, nem de reconhecimentos; amor, puro e simples, que em si mesmo encontra a sua razão de ser. Esta a força que impulsiona e sustenta a doutrina; o resto, como dizia o Cristo, é comentário. Recebendo Estêvão doente, ardendo em febre, Pedro cuidou primeiro de amá-lo e servi-lo; só depois o instruiria. A instrução é a segunda parte da equação da verdade. Apoia-se no movimento, na organização. Alguém tem de transmitir a alguém o conhecimento adquirido, sob alguma forma, em algum lugar, no tempo certo. O amor sem o conhecimento é muitas vezes inativo, com frequência incompleto, inconsciente de seus objetivos, limitado pelo desconhecido, e comprometido com o egoísmo ou pela ausência de uma formulação consciente de sua força e de suas possibilidades. O conhecimento sem o amor é instrumento perigoso, porque tanto serve para oprimir como para libertar para construir, como para destruir, para levantar das suas angústias o que sofre ou para mergulhá-lo mais fundo nelas.

            No Cristianismo se encontram todas as verdades.

            Eis uma declaração de tremenda responsabilidade, partida de quem dispõe de plena autoridade para fazê-la. Todas as verdades. Estarão, porém, essas verdades no movimento cristão? Certamente que não pelo menos em sua totalidade, e o Espírito falou em todas e movimento cristão hoje - vamos examiná-lo mais de perto - é um dos grandes centros de poder político, econômico e social. Sabendo disso, o Espírito de Verdade acrescentou que "são de origem humana os erros que nele se enraizaram". Há, pois, erros que criaram raízes profundas ao longo do tempo. Existe ainda amor no Cristianismo? Sim, muito amor na doutrina cristã. Para se certificar disso basta abrir em qualquer ponto a mensagem do Cristo preservada nos Evangelhos. Enquanto escrevo isto, abro "ao acaso", a "Bíblia de Jerusalém" e leio, em Mateus (19:16 e seguintes), o episódio do jovem rico que desejava seguir o Mestre, encantado que se achava com a figura e a pregação de Jesus. Que lhe competia fazer? Era muito simples, ensinou-lhe o Cristo:

            - Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe e ama ao teu próximo como a ti mesmo.

            O jovem disse que isso tudo ele observava e perguntou:

            - Que me falta?

            Faltava a renúncia. Teria de vender tudo quanto possuía e distribuir o produto pelos pobres. Assim teria um tesouro no céu.
- Em seguida, vem e segue-me.

            A conclusão é melancólica:

            "Ao ouvir estas palavras, o jovem retirou-se tristemente, porque possuía muitos bens."

            O Cristo não exige a sua presença, nem o censura porque ainda não está pronto para atender ao chamado. Deixa-o partir, certamente com uma prece e um bom pensamento. Quando e onde o jovem rico ouviria novamente o chamado? Também o Cristo não lhe diz que ele não está preparado. Apenas lhe demonstra, sutilmente, sem ferir, que ele ainda não tinha o amor implantado no coração. Assegurou ele ao Mestre que cumpria toda a lei, até mesmo aquela que mandava amar ao próximo como a si mesmo, mas, quando se tratou de converter o amor platônico em ação, falhou. É fácil amar a humanidade, disse alguém, mas é difícil amar aquele que está ao nosso lado. Está perto demais.

            Tudo isso era preciso ensinar. Amar e instruir.

            O amor está, pois, intacto e vivo na doutrina cristã, mas só restam dele vestígios no movimento cristão. Não procuremos somar tudo numa palavra só - Cristianismo -, que estaríamos cometendo grossa injustiça em relação àquele que nos trouxe pessoalmente a sua mensagem.

            O Cristianismo atual - o movimento, bem entendido - está interessado nos processos modernos da massificação, do proselitismo que se traduza em crescimento estatístico, adotando técnicas publicitárias bem estudadas para arregimentar as multidões, porque o poder vem delas. Acreditamos na sinceridade de muitos desses líderes, que procuram almas para o Cristo e realmente encaminham muitas para as especulações superiores do bem, mas discordamos dos processos utilizados que se apoiam em técnicas de venda, como se o Cristo e sua mensagem fossem produtos de consumo. Jesus não é mercadoria para se vender às multidões que, impressionadas pelo impacto da palavra vibrante dos grandes líderes e oradores, levantam a mão em sinal de adesão, mas continuam presas às suas insuficiências, sem nenhum esforço para se libertarem delas. São muitos hoje os que entram para o Cristianismo, mas são poucos os que permitem que o Cristianismo entre neles, porque não aprenderam a fazer a distinção entre doutrina e movimento.

            Por isso não cremos em movimentos de massa em termos de Espiritismo. Muitos são os que nos acusam de elitistas, ou seja, iniciados presunçosos de um círculo fechado, voltado para dentro, e hostis ao mundo que nos cerca. Nada disso. Assim como entramos, todos podem entrar. Tanto o movimento como a Doutrina Espírita estão abertos a todos, como estava e sempre esteve o verdadeiro Cristianismo. O Espiritismo não busca adesões em massa simplesmente para engrossar fileiras e fortalecer as suas estatísticas. O Espiritismo não busca ampliar-se quantitativamente, fazendo concessões doutrinárias e posicionais; aspira, antes, apurar-se qualitativamente. Daí a insistência incansável no estudo da Doutrina. A estrutura do movimento é apenas a manifestação exterior, a materialização de uma contraparte muito mais sutil, que são os princípios doutrinários, ensinados pelos livros básicos e complementares da codificação de Allan Kardec.

            Pregamos, sim, a Doutrina Espírita a quem quiser ouvir, a quem desejar ler, mas estamos longe do desejo insaciável de arrastar multidões que, como o jovem de que nos fala Mateus, não estejam ainda prontas para a renúncia. Aos que hoje nos perguntassem o que lhes competiria fazer para seguir os ensinamentos de Kardec, poderíamos repetir o Cristo e recitar lhes o Decálogo. E se nos dissessem que isso já fazem e nos perguntassem o que lhes faltava, responderíamos com uma pergunta:

            - Estais prontos para a renúncia?

            Não tanto a renúncia ao dinheiro que o Cristo pediu ao jovem, mas ao poder, ao brilho, à glória. Para o Espiritismo moderno, seria esta a alternativa escolhida. Aqueles que aderem ao movimento espírita precisam estar bem certos de que já aderiram à sua doutrina, porque o movimento pode ser hoje, e é, especialmente no Brasil, um novo núcleo de poder que se acumula. E está ainda em muitos de nós, pobres seres imperfeitos, a sede do mando, o desejo da manipulação das massas para a satisfação pessoal da triste e miserável vaidade pessoal de seres que ainda não sabem ser grandes, porque ainda não aprenderam a ser humildes. A renúncia do poder, sim; o domínio sobre as próprias paixões, tão facilmente redespertadas porque apenas dormem em nós, mas ainda não se extinguiram. Para isso é preciso começar pelo amor fraterno, incondicional, porque, amando de verdade, não precisamos dominar. O trabalho na seara espírita é uma bênção, mas também um teste, porque representa um crédito de confiança que o mundo espiritual nos concede. Respondemos ao apelo dos nossos amigos maiores que sim, que estamos em condições de vender os nossos bens terrenos, ou seja, livrar-nos de nossas paixões inferiores e segui-los. Será, porém, que conseguiremos cruzar a ponte que une os dois ciclos evolutivos de nossas vidas? A ponte está ali e é só atravessá-la para encontrar os primeiros clarões da redenção e da paz. Conseguiremos fazê--lo? Certamente, se não buscarmos dominar e sim servir.

            Há riscos enormes para nós; não nos outros, mas em nós mesmos, porque ainda somos aqueles que vieram de erros clamorosos e que buscam repetir-se. Quantas vezes, no passado, tomamos de assalto estruturas de poder, sem a mínima intenção de servir aos outros, mas com a de curvar-nos servilmente às nossas próprias paixões insaciáveis?

            Parafraseando a expressão famosa de John Kennedy, deveremos nos perguntar não o que pode o Espiritismo fazer por nós, para nos projetar, para nos proporcionar poder de opressão e condução das massas (quem somos nós, para conduzir alguém?), mas o que podemos nós, a despeito dos aleijões espirituais que se mostram a cada momento, fazer de bom pelo Espiritismo. Se não pudermos ainda ajudar, pelo menos não atrapalhemos. Se não soubermos ainda o que fazer, tenhamos a humildade comovente de Saulo que, num - momento de grandeza, saltou por cima dos séculos e se transformou de perseguidor implacável que buscava as massas, porque lhe davam poder, no último dos servidores do Cristo. Sua renúncia total e imortal ficou condensada numa só pergunta, que ressoa até hoje:

            - Senhor, que queres que eu faça?

            Certamente que o Cristo não deseja o nosso personalismo, nem a nossa vaidade, nem a ânsia do poder. Ele quer trabalhadores que se amem e que procurem instruir-se nas grandes verdades da vida. Onde estão essas verdades? Segundo sua própria palavra autorizada, estão todas no Cristianismo.

            O mundo espiritual nos tem advertido inúmeras vezes e amorosamente que são muitos os que, ainda seriamente comprometidos com um passado de erros, tentarão se apossar do movimento para usá-lo, abandonando a doutrina à sua própria sorte, como já o fizeram alhures, com a doutrina cristã, que, em vez de estar no apogeu da sua prática, está precisando ser restaurada por um novo movimento. É preciso, no entanto, uma parada para meditação. Quando lemos essas advertências amigas do mundo espiritual, pensamos sempre, cegamente seguros de nós mesmos:

            - Isto não é comigo... É com os outros.

            Acontece que pode ser com a gente mesmo, porque ainda somos aqueles que trazemos as taras e os carmas de muitas falhas passadas. Fomos fanáticos, impulsivos, dominadores, agnósticos, brilhantes figuras vazias de compreensão e amor, ignorantes dos ensinamentos evangélicos, julgando-nos superiores a eles, "libertados" de crendices infantis, desobrigados da prática da caridade, interessados apenas em nós mesmos, na nossa projeção, no nosso poder, nas nossas paixões. Fomos tudo isso. Fomos? Ou será que ainda não somos assim? Estaremos realmente curados, prontos para abandonar tudo e seguir o Cristo? Estaremos curados do auto-endeusamento? Estaremos preparados para deixar viver os que não pensam como nós?

            É preciso estudar bem as nossas verdadeiras e íntimas intenções, para que não sacrifiquemos a doutrina ao movimento.  Paulo nos adverte para que não nos juntemos aos infiéis. E se um dia descobrirmos que os infiéis somos nós mesmos? A voz amiga do Apóstolo nos alerta, através de dezenove séculos, que não existe relação entre a retidão e a iniquidade, que não há união entre a luz e as trevas, que não pode existir harmonia entre o Cristo e Belial, nem participação entre o fiel e o infiel, ou conformidade entre o santuário de Deus e o dos ídolos, porque somos nós mesmos o santuário do Deus vivo. Seremos, sim, sempre que o puro amor governar os nossos impulsos, mas é preciso estarmos bem certos de que estamos realmente do lado da retidão e não da iniquidade, na luz e não nas trevas. É hora de conclamar todos os trabalhadores da seara, ajustar as diferenças naturais devidas às nossas impurezas e não a imperfeições da doutrina que professamos. É claro que em nossas mãos o movimento pode falhar e prejudicar novamente a implantação da doutrina do amor na Terra. Outros nos virão substituir, porque os planos divinos não se apoiam irremediavelmente nas nossas imperfeições. A ponte continuará lançada entre a luz e a treva e outros irão atravessá-la, mas nós teremos perdido a nossa oportunidade.

            - Não vos junteis aos infiéis - dizia Paulo.

            Sim, mas não é para desprezá-los, como impuros e irrecuperáveis; é para não seguir os caminhos da infidelidade. Paulo não os desprezava; ao contrário, ia busca-los corajosamente nas sinagogas, nas praças, à beira dos caminhos, no recesso de seus lares. Ao dizer da impossibilidade de participação entre o fiel e o infiel, afirmava a impraticabilidade de uma conciliação, enquanto cada um não respeitasse a posição do outro. No momento, porém, em que os corações se abrissem um para o outro e se entendessem, um novo mundo se revelaria aos olhos do infiel. Mesmo, porém, que não fosse ainda possível o entendimento, que pelo menos prevalecesse o amor e que cada um seguisse o seu caminho. O Cristo não obrigou o jovem a voltar sobre seus passos e vender suas coisas. Ele sabia muito bem que não chegara a hora; ainda não estava maduro para a renúncia. O jovem queria juntar-se ao movimento cristão, mas não estava doutrinariamente preparado. O Cristo não tentou "vender-lhe" a adesão a qualquer preço, apenas para engrossar fileiras. Nem pretendeu fazer-lhe concessões. As condições eram aquelas. Com suas inúmeras concessões posteriores, o Cristianismo tornou-se movimento poderoso que em dois séculos empolgou até o Império Romano, mas, à medida que avultavam as estatísticas, crescia o poder e ampliava-se a máquina política, econômica e social de compressão em nome do Cristo, a doutrina abandonou mansamente o movimento, tal como se retira o espírito de um corpo que não mais lhe serve aos propósitos. A doutrina continuou viva no coração de muitos, pois a alma é imortal. Ela até mesmo se reencarnou no Espiritismo, em nova -e última - tentativa de reimplantar o amor na Terra. A doutrina vai seguir em frente. Estamos prontos para ir com ela, ou preferimos novamente a opção trágica de ficar com o corpo de um movimento que, crescendo em poder, pode esvaziar-se de amor?

            A hora é de exames de consciência, para todos nós. Estamos nos lembrando agora daqueles que há um quarto de século procuraram unificar os esforços esparsos, dando estrutura ao movimento, para que a doutrina do amor se ampliasse por toda parte. Estejamos certos, porém, de que eles queriam o movimento sujeito à doutrina pura e não como força em si mesmo, para atrair corações ainda não bem estabilizados na renúncia ao exercício do poder. Estejamos vigilantes e em prece, para não sermos daqueles que se juntam ao movimento espírita, mas aos quais ainda falta a adesão à Doutrina Espírita, que ensina o amor, a tolerância o entendimento.            

            - Contudo - dizia o Cristo a João (12:35) -, por algum tempo estará a luz entre vós. Caminhai enquanto tendes a luz para que não vos surpreendam as trevas; o que caminha nas trevas não sabe aonde vai. Enquanto tendes a luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz.

            E dito isto - conclui João -, caminhou Jesus e se ocultou de sua vista.

            Será que aprendemos a lição? É tão simples: caminhar humildemente e de coração grato, enquanto temos a luz que nos ilumina o caminho. Com o tempo virão as trevas e aquele que anda pela escuridão não sabe aonde vai. Enquanto podemos ver-nos e reconhecer-nos na luz que nos cerca, esquecemo-nos das nossas trevas interiores e talvez até consigamos expulsá-las de nós. Enquanto temos a luz. Procuremos antes o que nos une e não o que nos separa. Enquanto temos luz. Somente assim seremos, um dia, filhos da luz. Ou será que deixaremos partir o Cristo e ocultar-se das nossas vistas?

Esforços Esparsos Unificados
Hermínio C. Miranda

Reformador (FEB) Outubro 1974

domingo, 25 de outubro de 2015

Creio, espero e amo...



             “Ainda choro; mas não blasfemo nunca.

            A sede e a fome que me torturavam, diminuem à proporção que recebo os clarões do Evangelho.

            Creio, espero e amo.”

            Preito a Allan Kardec (trecho)
José Petitinga

Reformador (FEB) pág. 312 ano 1917

sábado, 24 de outubro de 2015

Sem Vacilações




            Ante a volúpia com que os aficionados do niilismo moderno proclamam a morte da fé, do conhecimento religioso e a desnecessidade da comunhão espiritual entre a criatura e o Criador, já que para eles todo o Universo resulta de leis mecânicas e inconscientes, aglutinadas e desarticuladas por fluxos e refluxos da casualidade, a que atribuem recursos divinatórios que tomam à própria Divindade, convém recordar o exemplo multissecular, ocorrido com São Jerônimo, e que pode servir para sensatas e oportunas reflexões.

            Recolhido à intimidade da sua cela, no monastério em Belém, o monge concluíra a tradução das Escrituras para o Latim e se encontrava traçando os Comentários adicionais, quando foi informado de que Alarico I, rei dos Visigodos, invadira Roma, saqueando-a depois de haver assolado o Oriente, e prosseguia investindo cruel contra o mundo cristão, deixando após a passagem das suas hordas a destruição, a morte, e reduzindo cidades inteiras a amontoados de ruínas e cinzas...

            Era, então, o ano de 410 da era cristã.

            Desanimado, acreditando desnecessário o seu imenso esforço e nobre trabalho, Jerônimo escreveu: “Que fica, se Roma passa?!”


            Logo depois, Alarico morreu em Concença e ficaram as trevas de uma noite intérmina de 700 anos de amarguras, inquietudes, desaires...

            Embora a dolorosa desilusão do pai da Vulgata Latina, a Humanidade se soergueu da Idade Média e os Descobrimentos alargaram os limites da Terra, iluminados pelo Conhecimento que, com as suas luzes, acendeu as claras antemanhãs dos séculos porvindouros.

            Epidemias lamentáveis que ameaçaram não poucas vezes a Civilização foram expulsas e vencidas; a ignorância paulatinamente tem sido rechaçada; a criminalidade não encontra amparo legal nos diversos países; “o direito divino dos reis” não mais foi considerado; “os direitos do homem” se impuseram; a criança e a mulher passaram a ser respeitadas e os animais hoje encontram defensores em toda a parte; a guerra é repelida com estoicidade e o mundo respira esperança em todas as frentes, anunciando-se um período de paz que não tardará... Organismos Internacionais estudam e defendem as liberdades dos povos minoritários, estabelecendo acordos de entendimento e justiça; fiscalizam os crimes de genocídio e outros, e buscam impedi-los ; interferem contra o tráfico de entorpecentes e de criaturas humanas, e cuidam de fazer-se respeitar...

         
   Os direitos do chamado “terceiro mundo” são examinados em igualdade de condições, e, embora os nimbos borrascosos que eriçam as cristas das águas encapeladas dos oceanos da Civilização, aqueles direitos exigem respeito, convocando, quando necessário, a opinião mundial que se sensibiliza e arregimenta valores em ação socorrista, através de órgãos específicos, tais a ONU, a UNESCO, a Cruz Vermelha Internacional, ou por meio de tratados que enobrecem o gênero humano, qual o de Genebra que cuida dos prisioneiros de guerra... 

            Indubitavelmente muitos crimes são ainda cometidos contra a Humanidade, à luz do beneplácito de governos desalmados, ou à socapa, nas sombras de hediondos conciliábulos.

            Há, sem dúvida, muita anarquia, muita libertinagem e ondas de pavor crescem ameaçadoras, em todos os quadrantes...

            O homem, no entanto, continua libertando-se do instinto para levantar-se na inteligência e alcançar a angelitude.


            A princípio vagarosamente, depois com mais celeridade, podem observar-se os resultados do investimento “homem” e as belas conquistas do “respeito pela Vida”.

            Esse mesmo homem já foi além da Terra, conheceu a constituição do seu satélite e estabelece no momento a ponte para outros e audaciosos voos por todo o Sistema Solar.

            As matemáticas puras e aplicadas, a Física, a Química, a Biologia, as Ciências Psíquicas, a Cirurgia e a Cibernética assinalam recordes e todos os conhecimentos sofreram graves revoluções nos conceitos passados ante o impacto desbravador das conquistas recentes. 

            Todos eles, no entanto, ao invés de negarem Deus e matarem a fé, mais os atestam, por abrirem perspectivas então mais grandiosas, exigindo imediata revisão filosófica, porque reduzindo todas as manifestações no campo da forma a ondas, vibrações, mentes e energia.

            O espírito humano recebe embate cada hora mais violento, enquanto o homem prossegue intimorato e sonhador no rumo do Infinito e da Eternidade.

            Fita as noites estreladas com interrogações não menos pungentes do que as fazia seus antepassados primitivos, na alvorada dos tempos, e diante da morte formula inquietantes quesitos que lhe nublam o semblante de angústia e de amargas frustrações.

        
    “Uma religião científica” - proclamam sociólogos, psicólogos, cientistas.

            “Uma religião da ciência, uma religião da filosofia, uma religião da razão” - afirmam com ênfase os novos partidários do Conhecimento, a fim de atender-lhes a sede científica de investigação.

            Conferindo, porém, os resultados tíbios a que chegaram os partidários da “religião da
Humanidade” ou Filosofia Positivista, elaborada por Augusto Comte, que não resistiu à revolução tecnológica, somos convidados a considerar a Religião Espírita que há mais de cem anos estabelece as pontes de luz entre ciência e fé, razão e fé, técnica e fé.

            O Espiritismo tem fundos vínculos com todos os ramos do Conhecimento, por tratar da “origem, destino dos Espíritos e as relações existentes entre o Mundo Espiritual e o Mundo Corporal”, como bem o definiu Allan Kardec,  assinalando que “se prende a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e da Moral”.

            Elucida a velha problemática da Filosofia e clarifica muitas das afirmações claudicantes da Antropologia; da Paleontologia, da Eugenia, da Embriogenia e, “caminhando ao lado da Ciência no campo da matéria, admite todas as verdades que a Ciência comprova; mas, não se detém onde esta última para: prossegue nas suas
pesquisas pelo campo da Espiritualidade.”

            Longe de se constituir num corpo de Doutrina estática, parasitária, reveste-se de conceitos dinâmicos e progressistas, evoluindo com o próprio Conhecimento, assentando as bases das suas afirmações nos pontos capitais e irreversíveis: Deus, imortalidade, comunicabilidade dos Espíritos, reencarnação e pluralidade dos mundos habitados, podendo enfrentar sofismas, “modernismos” e descobertas, pois que “avançando com o progresso jamais será ultrapassado (o Espiritismo) porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro a cerca de um ponto, ele se modificará nesse ponto, se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”, como esclareceu com profundo senso racional o incomparável Codificador, ficando o verdadeiro espírita com o fato científico, sem qualquer dano para a convicção, assentada igualmente em fatos confirmados também pela Ciência.

            Por tais razões, não diremos; ante as dimensões do momento científico, que a fé passará, e não concordamos com os apressados pessimistas dos dias modernos que assim o creem ou fazem crer. Antes, pelo contrário, a palavra de Jesus, clara e forte, roteiro da maioria das Nações da Terra, hoje se avulta e se afirma, graças à comunicabilidade dos Espíritos que a confirmam em todo lugar, inspirando a sociedade hodierna a avançar, proclamando, ao mesmo tempo, a Era venturosa da Humanidade feliz que logo advirá.

Sem Vacilações
Vianna de Carvalho por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Julho 1970

Literatura e Espiritismo


            Quando Napoleão fez a campanha do Egito, levou um grupo de sábios para estudar, cientificamente, a terra dos Faraós.

            Uma noite, em que as estrelas realçavam no céu profundo, mais fotogênicas do que as stars de Hollywood, viajava Napoleão e sua comitiva sobre o Nilo, a bordo de um pequeno barco. Em dado momento, os sábios pegaram uma discussão a respeito da existência de Deus.

            Enquanto isso, Napoleão passeava no tombadilho, cenho franzido e destra sobre o coração - nesse gesto clássico que a História registou - preocupado com os problemas da campanha.

            Daí a pouco, os sábios chegaram a um acordo: Deus não existia. Ouvindo essa conclusão unânime, Napoleão parou junto deles, e indagou:

            - Então, afirmam os senhores que Deus não existe?

            - Sim, general. É uma hipótese inútil no mecanismo do Universo.

            Napoleão olhou demoradamente o céu em plena floração estelar, e voltando-se para os sábios, perguntou:

            - AIors, qui a donc fait ces étoiles? (Quem foi, então, que fez essas estrelas?)

            Os sábios emudeceram, e Napoleão continuou o passeio ao longo do tombadilho.

            O problema do Além nunca esteve ausente das cogitações dos grandes mestres da literatura universal. Todos eles possuem o sentido da Espiritualidade. A obra de Shakespeare, como se sabe, está povoada de Espíritos, a começar pela mediunidade de Hamlet.

            Lê-se em Montaigne: “Se eu ouvia falar dos espíritos que voltam, das feiticeiras ou de qualquer outra história que não podia entender, vinha-me compaixão pelas pobres criaturas iludidas. Hoje, acho que, pelo menos, devia eu ser igualmente lamentado.”

            A visão espiritual de Balzac fê-lo declarar certa vez: “Tudo o que somos está na alma.”

            Ninguém ignora que toda a vida psíquica de Dostoievski foi dominada pela tortura de Deus. O sentimento divino impregna os seus romances mais expressivos, notadamente ‘Os Irmãos Karamazov’, que foi o livro de cabeceira de Tolstoi, às vésperas de deixar este mundo.

            Kafka, considerado um dos filósofos do absurdo, e cujas personagens se movem numa atmosfera de realismo fantástico, talvez não se tenha apercebido da grande verdade que lhe clareou o pensamento heterodoxo no instante em que lançou estas palavras no seu Diário: “Não há outro mundo senão o mundo espiritual. O que chamamos o mundo sensível é o Mal no mundo espiritual, e o que chamamos mal, é a necessidade de nossa eterna evolução.”

            Eis aí um trecho que qualquer espírita assinaria, a principiar por Allan Kardec. Esse mesmo Kafka, em conversa com o seu amigo e confidente Gustav Janouch, disse que “escrever é, na realidade, uma forma de evocar os espíritos”. 

            O gênio de Proust anteviu o nascimento de nossa consciente imortalidade após as núpcias com a morte, nesta passagem de “Les Plaisirs et les Jours”: Et de nos noces avec Ia mort qui sait si pourra naitre notre consciente immortalité.  
mortalité.

            E Joyce não afirmou, pela boca de uma personagem de Ulisses, que “a morte é a mais alta forma de vida”?

            Mas há o reverso da medalha, como tudo na vida. Há os modernos filósofos do desespero, como Sartre, Albert Camus e outras autoridades competentes no assunto, que chafurdam no submundo do chamado Existencialismo, armazenando compromissos cármicos. Piores do que estes, só mesmo os cultores de um certo tipo de Parapsicologia à Ia diable, que Indalício Mendes classificou, espirituosamente de espiritismo sem alma.

            São os “inocentes úteis” do Materialismo. 


 Literatura e Espiritismo
Alberto Romero
Reformador (FEB) Julho 1971

O Perispírito



O Perispírito
José Monteiro Lima
Reformador (FEB) Julho 1970

            “Há corpo animal e há corpo espiritual.” diz São Paulo (I Cor. 15 :44). Com efeito, esse
corpo espiritual de São Paulo é o perispírito dos espíritas de hoje. O perispírito, aliás, não
é coisa nova. No Antigo Egito os sacerdotes ensinavam que além do “ka”, o Espírito, emanação divina, havia uma forma imaterial “sahu”, o fantasma propriamente, que reproduzia exatamente os traços do corpo físico e que se manifestava aos encarnados.

            Na Grécia antiga, a doutrina inspirada pelos hinos órficos ensinava: “Amai a luz e não as trevas. Lembrai-vos da finalidade da vossa viagem. Quando as almas voltam ao mundo espiritual trazem marcadas sobre os seus corpos etéreos, em manchas horrendas, todas as faltas da sua vida e, para as apagar, é necessário voltar à Terra. Mas os puros e os fortes se vão para o sol de Dionísio.

            Na Índia se fala também desse corpo espiritual, porque ele próprio se impõe como uma realidade incontestável.

            Mas não desejamos deter-nos em detalhes nem em considerações dos antigos filósofos. Preferimos abordar rapidamente as importantes funções do perispírito no plano material, assim como as suas consequências no plano espiritual.

            O corpo espiritual, isto é, o perispírito está em cada um de nós intimamente ligado ao corpo físico e é tanto mais sutil quanto mais elevado se acha o ser na escala da perfectibilidade.

            Vaporoso para nós encarnados é, no entanto, bem grosseiro ainda para os desencarnados; contudo, os Espíritos purificados podem elevar-se com ele na atmosfera e transportar-se aonde queiram.

            As suas funções no corpo físico são múltiplas e preside a todos os fenômenos fisiológicos da respiração, da alimentação e assimilação dos alimentos, extraindo toda a matéria aproveitável, afeiçoando-a a cada órgão e eliminando do corpo todos os elementos que lhe sejam inúteis ou nocivos. Com efeito, o nosso organismo é uma complicada máquina que funciona à nossa revelia, sem que, nem de leve, suspeitemos da sua complexidade.

            Um elevado Espírito, respondendo numa sessão a um jornalista inglês que lhe perguntara sobre o perispírito, disse: “Tenho um corpo que é uma reprodução do que tive na Terra: as mesmas mãos, pernas e pés, que se movem como o fazem os vossos. Na Terra eu tinha o corpo físico interpenetrado do corpo etéreo que ora tenho. O etéreo é o corpo real e é cópia perfeita do corpo terreno. Por ocasião da morte, emergimos de nossa cobertura de carne e continuamos a nossa vida no mundo etéreo, funcionando aqui por meio do corpo etéreo, exatamente como funcionávamos na Terra, metidos no corpo físico. O corpo etéreo é aqui tão substancial para nós como o era o corpo físico quando vivíamos na Terra. Temos as mesmas sensações. Sentimos e vemos como na Terra. Embora não sejam materiais, conforme entendeis esta palavra, os nossos corpos têm forma, aspecto e expressão.”

            É  ainda no perispírito que ficam registradas as nossas ações e os nossos atos, bons ou maus. De fato, todos os acontecimentos da nossa vida são maravilhosamente registados em nosso perispírito, nos seus mínimos detalhes; nada se perde.

            Segundo recente declaração do Dr. Wilder Penfield, diretor do Instituto de Neurologia de Montreal, Canadá, o nosso perispírito grava, como num filme, todos os acontecimentos da nossa vida. A recordação é de tal modo viva que é como se o indivíduo voltasse a reviver as mesmas cenas, os mesmos fatos.

            Pelos fatos registados nas obras espíritas já sabíamos que em momentos críticos, como nos acidentes graves, nas quedas perigosas, na asfixia por afogamento, etc., o indivíduo pode rever, com incrível nitidez, a sua vida até aquele momento, como se assistisse a um filme no qual ele próprio tomasse parte.

            Naturalmente os seus atos bons são motivos de satisfação para o seu Espírito, enquanto os atos maus são motivo de tristeza e arrependimento. Por aí se pode avaliar a situação dolorosa de certos Espíritos libertos da carne, tendo diante de si, permanentemente, os acontecimentos deploráveis que desejariam esquecer.

            Eis um fato significativo que comprova as afirmações do Dr. Penfield. O almirante Beaufort, quando ainda jovem, caiu de um navio à água do porto de Portsmouth. Antes que fosse possível ir em seu socorro, desapareceu; ia morrer afogado.

            Depois de algumas considerações sobre a angústia do primeiro momento, diz ele: “Com o enfraquecimento dos sentidos coincidiu uma super excitação extraordinária da atividade intelectual; as ideias sucediam-se com rapidez prodigiosa. O acidente que acabara de dar-se, o descuido que o motivara, o tumulto que se lhe deveria ter seguido, a dor que iria alcançar meu pai e outras circunstâncias intimamente ligadas ao lar doméstico, foram o objeto das minhas primeiras reflexões. Depois, veio-me à memória o último cruzeiro, viagem acidentada por um naufrágio; a seguir, a escola, os progressos que nela fizera e também o tempo perdido, finalmente, as minhas ocupações e aventuras de criança. Em suma, a subida de todo o rio da vida, e quão pormenorizada e precisa!”

            E acrescenta: “Cada incidente da minha vida atravessava-me sucessivamente a memória, não como simples esboço, mas com as particularidades e acessórios de um quadro completo! Por outras palavras, toda a minha existência desfilava diante de mim numa espécie de vista panorâmica, cada fato com a sua apreciação moral ou reflexões sobre suas causas e efeitos. Pequenos acontecimentos sem consequências, há muito tempo esquecidos, se acumulavam em minha imaginação como se tivessem passado na véspera. E tudo isso sucedeu em dois minutos(Léon Denis, “O Problema do Ser”, pág. 173).


            Com efeito, todos os atos da nossa vida são maravilhosamente registados em nosso perispírito. Os menores detalhes são cuidadosamente guardados para, no momento preciso, aflorarem nítidos, inconfundíveis. Eis porque Jesus, estabelecendo a nossa responsabilidade diante da vida, diz: “Até os cabelos da vossa cabeça estão contados.”

Transposição de Umbrais




Transposição de Umbrais
parte 1 de 2 partes
Leal de Souza
Reformador (FEB) Julho 1970

                                   (Conferência pronunciada pelo Dr. Leal de Souza)
na FEB, e publicada em "Reformador" de 1924)

            Ó Espíritos de luz, que pondes nos lábios dos médiuns as armas antigas de Júpiter, dando ao pálido verbo humano as fulgurações de raios que iluminam sem fulminar; ó mensageiros benignos, que amparais, nos seus desfalecimentos, as fraquezas humildes; e vós, irmãos meus, que já vos habituastes aos clarões de verdades novas para mim, envolvei-me na atmosfera dos vossos eflúvios simpáticos, assisti-me nesta hora de transposição de umbrais, quando o meu ser se desdobra, como se o meu Espírito incorpóreo pairasse librado nesta sala, e buscando-o, para integrar-se, o meu corpo pesadamente subisse as escadarias deste edifício, trazendo heranças bárbaras no legado de sangue de nossas tribos, músculos atrofiados de charrua em arcabouço rijo de luso, e encontrando, na alma imortal, reminiscências de longas vidas extintas, lembranças de costumes perdidos em paisagens transformadas, saudades de civilizações sepultas sob as ruínas de milênios mortos.

            Assombro! Maravilha! Deslumbramento! Dilataram-se os horizontes da vida, abrangendo os horizontes da morte, e nessa rasgada imensidão, sem limites no espaço e sem fronteiras no tempo, em continuidade incessante, alternam-se as existências renovadas, como os panoramas das mesmas regiões.

            Os planetas ignotos, os astros afundados no infinito, os mundos inacessíveis à luneta investigadora da ciência orgulhosa, desvendados pelas revelações dos Espíritos, oferecem às nossas esperanças, em escala sideral de aperfeiçoamento, vidas mais suaves em pátrias mais belas!

            Ai de mim! Na grandeza dessas magnitudes que se multiplicam no indefinido das criações nascentes e renascentes, por onde se espraia a glória de Deus, ai de mim! sou a pedra que leva ao fundo da ribeira as impurezas da superfície, embutida nas areias do leito, fica a lavar-se sob o arrulho trêmulo das águas! Obrigado, Senhor, obrigado pela graça de permitirdes que sobre as minhas imperfeições escorram as claras águas lustrais, em que hoje me inundo e lavo!

            Há duas semanas, eu não ousaria alimentar a pretensão de subir a esta tribuna. Comparei-a, entrando pela vez primeira nesta casa, a uma cova aberta, de onde surdissem fantasmas, arrastando o livor funéreo das mortalhas. Julguei-a, mais tarde, atentando na excelsitude dos Espíritos que a orientam, e sob a influência de antigas concepções, a um pedaço azul de nuvem estrelada, entapizando pés radiantes de arcanjos. Se hoje não encontro expressões dignas dela, compreendo, ao menos, a sua majestosa responsabilidade, pois as palavras proferidas nesta eminência, ou são ditadas pelos mensageiros divinos, ou por eles testemunhadas.

            Ao atingi-la, cheio de sacra emoção, em obediência a um convite da importância de um chamamento, eu deveria, inicialmente, procurando elevar-me acima de mim mesmo, agradecer à bondade misericordiosa de Deus os favores de sua graça, derramados em meus caminhos, ainda quando eu o desconhecia, e a piedade com que me conduziu à crença e à fé, sem transitar pela desventura.

            Não cheguei às praias da fé como um náufrago envolto na espuma da tempestade, agarrado a um destroço de nau, sob os tufões da desgraça. Levaram-me a Deus o estudo sereno, em horas tranquilas, o raciocínio, em períodos frios de análise, e, na normalidade regular da vida, a demonstração anormal dos fatos. Por essas mesmas escalas meditativas, em lógica progressão, cheguei, no Espiritismo, às puras convicções que me irmanam aos vossos princípios.

            Passei pela Igreja de Roma à maneira de um monge que ao vestir o burel tombasse à entrada da cela e, deixando o corpo morto na gelidez do claustro, seguisse, em Espírito, para outro destino. Adotei-a por um erro de cálculo, para fins de utilidade social, mas logo reconheci, com amargura, que o sacerdócio católico não tinha o sentimento cívico necessário para auxiliar a consolidação da unidade política brasileira, e não possuía a solidez de fé indispensável para o serviço de Deus entre os homens.

            O Catolicismo, como quase todas as religiões, é uma construção humana levantada sobre bases divinas, e é a segurança dos alicerces que ainda lhe sustenta as paredes arruinadas. As catedrais são, sem dúvida, templos, mas templos da arte, que abrigaram, através de séculos, sob os seus tetos doirados, as esperanças e as ansiedades dos corações voltados para Deus.

            Quando se abaterem, um dia, esses altos muros ornados de gemas custosas, e subirem aos ares, em poeira, os seus escombros, envolvamos as velhas igrejas em generoso respeito, e, olvidando culpas e erros de casta, oremos pela redenção de seus últimos adeptos.

            Autor de uma sátira sobre o clero, e só tendo aceito o Catolicismo, num instante de ilusão patriótica, em Setembro de 1919, não tenho deveres especiais de defesa para com uma religião de que fui, por cinco anos, o hóspede constrangido, mas devo encará-la sereno, com elevação e justiça.

            Não há mal em ser católico. O mal está em não o ser com sinceridade; em não praticar, na conduta individual, a austereza das regras baseadas no reconhecimento da existência de Deus, no princípio da imortalidade da alma, e nas dez prescrições divinas recebidas por Moisés, no Monte Sinai. Cumpre-nos reconhecer que a Igreja pode, e talvez ainda possa, orientar, sob o saiote do clero, almas iluminadas como Santo Antônio de Pádua ou S. Francisco de Paula.

            Os processos espíritas de propaganda diferem essencialmente dos métodos católicos de conversão. O Espiritismo examina e discute; analisa e raciocina; propaga-se estudando e ensinando. A Igreja romana, inspirada pelo profissionalismo sacerdotal, dogmatiza e anatematiza; adensa trevas e confunde em sombras as evidências reais; inverte princípios ou detrata indivíduos, e despenha sobre as verdades demonstradas, a trovoar entre nuvens de intransigências, os raios platônicos da excomunhão.

            Em relação aos fenômenos mediúnicos, ou às manifestações das almas dos mortos através dos médiuns, incidem em contradição os padres que as consideram impossíveis e que as proíbem em nome da legislação moisaica, pois só se proíbem as coisas de possível realização.

            Quanto à proibição decretada por Moisés, devemos considerá-la como lei transitória, imposta, em dado momento, a um determinado povo, pelas circunstância locais, e não como preceito divino, de eterna vigência, pois Deus não o insculpiu entre os dez mandamentos que constituem a sua lei.

            O Catolicismo estabelece diferença entre puros Espíritos, criados perfeitos, e as almas dos defuntos, e todos os seus livros relatam os numerosos casos, popularmente conhecidos, de anjos reveladores ou salvadores, aparecidos, em visíveis corpos materiais, a homens e mulheres, em sítios inumeráveis. Sendo, porém, na verdade, aqueles Espíritos e estas almas, entidades da mesma natureza e origem, os primeiros representando a evolução e o progresso das segundas, achamos assim, na trama sutil das concepções teológicas, emaranhada em novelo de doutrina, a confirmação dos fenômenos mediúnicos operados por almas ou Espíritos não demoníacos.

            Ainda que se persista em considerar os anjos como Espíritos de natureza diversa da de nossas almas, a Igreja católica, em seus anais, regista incontáveis casos de aparecimentos visíveis e tangíveis de almas de defuntos materializadas.

            Os puros Espíritos criados perfeitos, segundo a teologia, são os de mais alta hierarquia, os Serafins, os Querubins e os Tronos; os da segunda categoria, as Dominações, as Virtudes e as Potências; e os da terceira e última classe, os Principados, os Arcanjos, e os Anjos de Guarda, incumbidos, estes, de acompanharem as pessoas, garantindo-as e encaminhando-as à santificação.

            Os santos não são, pois, puros Espíritos criados perfeitos e, consequentemente, são, na vida corpórea, almas da mesma natureza das dos outros homens, e, depois da morte, almas da mesma essência das dos outros defuntos.

            Se quiserem, não obstante a classificação teológica, considerá-los como puros Espíritos criados perfeitos que se corporizaram na Terra, teremos de admitir que os puros Espíritos criados perfeitos deixam de o ser, sem que se transformem em demônios, e, sujeitos às contingências da matéria, assumem efêmeros corpos mortais, constituídos trivialmente, conforme as leis comuns da natureza humana. Sofreriam, assim, aquelas privilegiadas entidades espirituais, sem terem cometido crime, um perpétuo rebaixamento, não compensado pela santificação, dependente de cerimoniais burocráticos que não os retirariam da classe das almas dos defuntos, para restaurá-los em sua primitiva natureza angélica.

            Se disserem que as almas dos santos, por se haverem purificado na Terra, ou por graça especial de Deus, subiram à condição de puros Espíritos, reconhecerão como verdadeira a doutrina espírita, proclamando que quantos procederem, como procederam os santos, ascenderão, com a graça divina, à ordem feliz dos Espíritos superiores.

            Se, porém, as almas dos santos, após a morte, continuam a ser da mesma natureza das outras almas de defuntos, terão os párocos de confessar que as almas dos defuntos podem comunicar-se com as pessoas vivas, ou encarnadas, porque os santos, depois de mortos, segundo os relatos da Igreja, têm, vezes incontáveis, revestidos de visíveis corpos materiais, aparecido na Terra, como em Lourdes, a Bernadette, que viu a Virgem Maria, ou a frades de certas ordens, que recebem, todos os anos, simultaneamente, nos seus conventos do mundo inteiro, a visita de S. Cosme.

            Assim, irmãos meus, não precisamos sair do Catolicismo para aceitar, na translúcida pureza de sua verdade, o Espiritismo.

            Dir-se-á, porém, negando-se o princípio das reencarnações, que as outras almas de defuntos, nunca mais voltando à vida terrestre, jamais poderão chegar à perfeição das que foram santificadas e constituem uma casta privilegiada, com poderes inerentes aos seus foros especiais.

            Ora, irmãos meus, a santificação é um ato meramente eclesiástico e exclusivamente humano, em que se apassiva a soberania divina, permitindo monstruosas iniquidades, seculares e até perpétuas. Vejamos.

            Condenada como herege por um tribunal de bispos, Joana d'Arc foi queimada viva. Dobados séculos sobre as labaredas que a consumiram, a Igreja, ao termo trabalhoso de longos inquéritos e pesquisas, reconheceu que não  soubera distinguir entre uma santa e uma pecadora, e confessou que martirizara a santa, supondo castigar uma herética. Reparando tardiamente o seu erro, colocou-lhe uma auréola à cabeça e uma espada à cinta, ergueu-a num altar, e mandou adorá-la.

            Mas, perguntamos, nos extensos séculos decorridos entre o martírio e a santificação, onde esteve a alma de Joana? No Paraíso? Não, que o Paraíso não é lugar de heréticos, e Joana foi oficialmente queimada, pela Igreja, como herética. Esteve, pois, no inferno, ou no purgatório.

            E Deus - a suma bondade e a suma justiça - só porque os bispos erraram, conseguiu que, por séculos, um santo padecesse no inferno ou penasse no purgatório, ou então, sendo a suma sapiência, precisou que se fizesse um inquérito na Terra, para saber que havia uma santa abandonada às fúrias infernais. Absurdo! Blasfêmia!

            Outro exemplo. Quando, pela força vitoriosa das armas e pela vontade entusiasta do povo francês, Napoleão Bonaparte ascendeu ao trono imperial, descobriram os seus áulicos, entre os seus ancestrais, um pobre clérigo falecido na obscuridade, e, dispondo-se a santificá-lo, a Igreja iniciou o inquérito basilar da canonização. Solicitou-se ao monarca sem nobreza de sangue os emolumentos para a marcha do processo canônico, e, negando-os, o guerreiro coroado explicou:

            - Se descobrem um santo entre os meus parentes, podem roubar-me as glórias, atribuindo-lhe a fundação da minha dinastia.

            O processo parou e Deus, na sua bondade e na sua justiça, em homenagem ao orgulho despótico de um soldado, permitiu que se deixasse um santo apagado no silêncio e no olvido, sem resplendor e sem culto! Absurdo! Absurdo!

            Assim, catolicamente, a Igreja é quem faz o santo, sem a intervenção de Deus, avisando o céu e a terra: “Desta data em diante, Pedro ou Paulo, é santo”. Segundo o Espiritismo, os Espíritos superiores, que correspondem aos santos, não atingem o seu grau de superioridade mediante inquérito ou concessão de contingentes criaturas terrenas, mas pela força natural do seu aperfeiçoamento, e a sua hierarquia independe do nosso reconhecimento, sendo eles próprios, com a graça paternal de Deus, que nos revelam a sua elevação, sem que se declarem santos ou iluminados.

            No esforço empregado para dar às manifestações dos Espíritos explicações consentâneas com os interesses do profissionalismo sacerdotal, atribuem-nas os púlpitos e os confessionários a sacrílegas artes do demônio. Ora, sendo o demônio o mal, e a faculdade mediúnica servindo única e exclusivamente para aquelas manifestações, não é admissível que Deus, a suprema bondade e a justiça suprema, desse aos seus filhos uma faculdade que só servisse para perdê-los, entregando-os ao demônio.

            Grandes homens da ciência contestam e negam as verdades espíritas. Poderemos avaliar a importância dessas contestações ou negativas, pelas contradições dos negadores entre si, que uns aos outros se combatem eles, provando-se os erros de cada qual. Enquanto os negativistas contendem ou discordam, outros grandes nomes da ciência, celebrizados, alguns, por descobertas notáveis, chegam, através de severas pesquisas, no rigor dos laboratórios experimentais, ao conhecimento e reconhecimento de verdades que os alistam entre os adeptos do Espiritismo.

            A teoria não produz o fato, e a transcendência imponderável da mais complexa teoria jamais destruirá o fato mais simples. O Espiritismo é o fato criando a teoria.


Transposição de Umbrais
parte 2 de 2 partes
Leal de Souza
Reformador (FEB) Julho 1970

            (Conferência pronunciada pelo Dr. Leal de Souza)
na FEB, e publicada em "Reformador" de 1924)
           
            Na esfera positiva dos fatos, as minhas observações datam de longos anos.

            Em 1911, AIcides Maia, membro da Academia de Letras, e, mais tarde, em duas legislaturas, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, alegando necessitar, numa crise de alma, da constante assistência moral de um amigo, pediu-me para mudar-me da rua Senador Vergueiro para a casa de pensão existente, naquele tempo, na rua Buarque de Macedo, n" 52, onde ele residia. Era natural que o atendesse. Instalei-me em um segundo andar, dividido em quatro quartos, habitados, o da frente, amplíssimo, por Alcides; o segundo, por Ezequiel Ubatuba, que mo cedeu, transferindo-se para o último, nos fundos, e o terceiro pelo Sr. Francisco Marcondes, então presidente da Assembleia do Estado do Rio e depois deputado federal.

            No próprio dia da minha instalação, às dez horas da noite, estando eu no quarto, com a porta semicerrada, ouvi que batiam, e convidei: “Entre”. Soaram nítidos passos, da porta ao lugar em que me achava, mas, não vendo entrar alguém, supus, despreocupando-me, que as passadas fossem no aposento contíguo. Fechei a porta do corredor, mas, na que comunicava o meu com o quarto do deputado Marcondes, retumbaram violentas pancadas, enquanto a mesa de cabeceira oscilava, inclinando-se. Tão desprevenido estava eu, que atribuí absurdamente essa inclinação aos golpes que imaginava dados sobre a outra face da porta, no quarto de Marcondes. Saí para falar ao incômodo vizinho, mas, não o encontrando, pensei que, depois de bater, o barulhento havia saído. Deitei-me, e logo, inexplicavelmente, levantando-se comigo, a cama ergueu-se do solo. Saltei ao chão, e esse leito, que era de ferro, desceu docemente, assentando os seus pés nas tábuas, sem barulho. Não perdi a calma. Deitei-me pela segunda vez, e, pela segunda vez, suspendeu-se a cama, pairando.

            Sem receio algum dos Espíritos e sem pensar neles, passei para a alcova de Alcides, e, contando-lhe o ocorrido, disse-lhe julgar-me em estado de grave desequilíbrio nervoso, e pedi-lhe para assistir-me, com a sua companhia, até a manhã seguinte, em que eu iria consultar um especialista em moléstias nervosas.

            Disse-me, então, o meu excelente amigo, que, sendo aqueles fenômenos constantes naqueles quatro quartos, fora buscar-me, como pessoa de sua confiança, para ver se eu, sem ser avisado, também os constatava, pois ele, positivista, estava em dúvidas quanto à realidade de tal inverossimilhança.

            No dia imediato, Ubatuba, cujo sono fora perturbado por anomalias semelhantes, abandonou a casa, ocupando o quarto, por ele deixado, um inglês que fora procurar cômodos na pensão, e que se despediu pela manhã, dizendo que por aquele quarto passavam luzes que o aborreciam.

            Fui, então, para esse compartimento, e, tendo Marcondes emigrado para uma fazenda, ficamos sozinhos no segundo andar, separados por dois aposentos, eu e Alcides. Uma noite, talvez às 9 horas, estando eu deitado, a ler, e, portanto, com a luz acesa, senti nos pés uma sensação de frio, e, para agasalhá-los, desviando os olhos do livro, que era “MlIe. Joffre”, vi, com estranheza, uma coluna de luar leitoso a alvejar sobre a cama. E esse luar, condensando-se, gelatinoso, aos poucos parecia desenhar-se em forma de figura humana. Não sabendo como proceder, deixei a cama e o quarto.

            Os fenômenos começavam a ocorrer, de ordinário, às duas horas da tarde, prolongando--se, às vezes, até alta madrugada. Iam pessoas estranhas a casa para verificá-los. Constatavam, mas ninguém os explicava. Uma tarde, às quatro horas, na presença de um pastor protestante, tomávamos mate chimarrão, à moda gaúcha, no quarto da frente, Alcídes, Ubatuba e eu, quando, de súbito, pesado sofá em que se assentava Alcides, numa ascensão vagarosa, sem que mãos visíveis o levantassem, ergueu-se e pairou no ar, à altura dos nossos peitos.

            Alcides saltou ao chão, e, como o sofá permanecesse no ar, discutimos o caso.

            É o efeito de um abalo sísmico, disse o pastor.

            - Não pode ser, objetou o positivista, um tremor de terra sacudiria os outros móveis e abalaria as paredes.

            E o sofá, descendo lentamente, pousou no solo, sem ruído. Então, o protestante opinou:

            - Meus amigos, só há uma explicação para o caso. Este sofá não se levantou. Nós tivemos um momento de alucinação.

            E durante vinte e seis dias esperamos, Alcides e eu, que o mistério se desvendasse, espontaneamente, ermando, depois, o campo das investigações, porque as vigílias da noite prejudicavam a nossa atividade diurna. Deserto o segundo andar, cessaram os fenômenos, porém, meses mais tarde, habitando-o outros inquilinos, uma noite, justamente quando para lá voltara Alcides, saíram os novos moradores a fugir, em trajes menores, gritando que estavam a sacudir e a quebrar os móveis.

            E assim principiaram, irmãos meus, sem que eu as procurasse, as minhas observações no mundo dos Espíritos.

            Em 1915, em Junho, nesta capital, pereceu, atingido por uma bala, o poeta Aníbal Teófilo.

            Por esse tempo, eu e Goulart de Andrade, Martins Fontes, Heitor Lima, Alexandre Lamberti Guimarães e, não raro, Gregório da Fonseca e Luiz Murat, costumávamos jantar diariamente em companhia de Olavo Bilac, em qualquer dos restaurantes da cidade, e, uma ou duas vezes por semana, em casa de Alexandre, cunhado do poeta.

            Estávamos numa quadra radiosa de ventura pessoal e evidência literária. Nada deixava entrever o próximo desaparecimento trágico de um dos nossos companheiros diletos e, inexplicavelmente, alguns dias antes da morte de Aníbal, tornou-se pesado, sombrio, enchendo-se de presságios, o nosso ambiente. Os nossos jantares, que o talento e o sonho matizavam de alegria e de brilho, ficaram, num repente, fúnebres, e as nossas palestras, sempre fulgentes e álacres, tornando-se lúgubres, arrancaram, certa vez, à observação merencoria de Bilac, esta reflexão augural: - Parece que a morte paira sobre nós.

            Certa manhã, Aníbal, que não tinha crença religiosa alguma, surgiu em minha casa para dizer-me que, sentindo-se gravemente enfermo e esperando morrer em breve, ia constituir-me em depositário de suas vontades extremas. Ouvi-o, e, de acordo com Alcides Maia, fiz examiná-lo, contrariando-o, pelo médico de sua família, Dr. Hernani Lopes, que, poucos dias depois, confirmado pela autópsia policial, declarou ser perfeito o estado de seu vigoroso organismo.

            Nas antevésperas do dia fatal, se me permitis a expressão, jantávamos em casa de Alexandre Lamberti Guimarães e, de pronto, encruzando os talheres, a face ensombrada, Olavo Bilac declarou sentir-se indisposto, pediu que não nos inquietássemos com a sua indisposição e recomendou que não lhe fizéssemos perguntas. Ao fim do jantar, chamando Alexandre e outros dos seus amigos, disse-lhes o poeta: - Eu vi, repentinamente, naquele canto, o Aníbal cair ensanguentado.

            E, aflito, enquanto Aníbal, na sala próxima, conversava com uma senhora, Bilac afirmava:

            - Vejo-o, de novo, naquele canto, caído e ensanguentado.

            E dois ou três dias depois dessa extraordinária visão, Aníbal, ensanguentado, caía no saguão do “Jornal do Commércio”.

            A explicação de sua visita, quando foi constituir-me em depositário de suas vontades extremas, tivemo-la, após o seu traspasse, em carta endereçada a uma pessoa residente em São Paulo, e guardado hoje o documento, por Gregório da Fonseca. Nessa missiva, descrevia ele um sonho que tivera.

            Era noite cerrada, de espessa treva. Caminhando ao longo da muralha do cais da Glória, Aníbal ouviu um barulho de remos batendo na água, e, parando-se, viu encostar-se ao paredão um bote negro, de onde saltaram marinheiros vestidos de negro, que o cercaram.

            - Tens medo? perguntou-lhe um deles.

            - Não! respondeu-lhe Aníbal.

            - Vem conosco.

            Embarcando no bote funéreo, Aníbal, com os marinheiros enlutados, atravessou, sobre as águas cheias de sombras, o silêncio escuro da noite, e longe, no meio da Guanabara trevosa, passou-se para um navio inteiramente negro, a cujo lado, junto à escada, encostara o bote.

            Ao percorrer o interior desse navio funerário, Aníbal constatou, com surpresa, que os seus camarotes e beliches eram túmulos com epitáfios, e lendo, numa lápide, o nome de seu pai, abriu-a.

            Apareceu-lhe, então, a amada figura paterna, que lhe disse:

            - Meu filho, está próxima, muito próxima, a tua última hora. Fiz quanto me foi possível para salvar-te, mas nada consegui. Vai, e prepara-te para morrer.

            Disse e desapareceu. Aníbal, afastando-se desse camarote, ou sarcófago, regressou, no mesmo bote, à terra, onde o deixaram os marinheiros misteriosos. Então despertou.

            As manifestações do Espírito de Aníbal tem sido, aquelas que eu conheço, de uma semelhança que lhes assegura a autenticidade. Ouvi-o eu, certa noite, em sonho, sem vê-lo, dizer-me que estava no escuro, sentindo-se devorado pelos vermes. Em estado de vigília, e ignorando o que comigo ocorrera, o Sr. João Fontoura recebeu, psicograficamente, uma comunicação em que Aníbal lhe descrevia, nos mesmos termos, a sua situação no espaço, e, há dois meses, manifestando-se em uma sessão particular, entre pessoas que desconheciam aquelas anteriores demonstrações, que datam de alguns anos, o seu Espírito, ou ele próprio, já em condições de felicidade, descrevendo o período imediato à sua passagem para a outra margem da vida, recordava que “estivera no escuro, sentindo-se devorar pelos vermes”.

            Pertencem ao domínio público os resultados das observações por mim feitas no decorrer de um inquérito realizado com intuitos meramente jornalísticos. Encerrando-o, na imprensa, continuei, paciente, os meus estudos e pesquisas, e, com tão benigna proteção das potências espirituais, que tive todas as provas desejáveis da imortalidade da alma, da realidade de suas comunicações, de sua sabedoria e poder: - diagnósticos exatos, curas instantâneas, visões a distância, transporte de objetos, materializações de Espíritos.

            Ombro a ombro com Coelho Neto, consultando-nos sobre o que os dois testemunhávamos, vi repetir-se, muitas vezes em poucas horas, o transcendente fenômeno da materialização. Plenamente materializados, Espíritos identificados pelos circunstantes tocaram as nossas mãos, ofertaram-nos flores, produziram luzes para que lhes examinássemos a carnação, os tecidos das roupagens, a maneira de andar. Seria eu indigno desses incomparáveis favores, se, para alardear enganosa superioridade intelectual, recusasse aceitar os resultados e as consequências das minhas próprias investigações.

            - Aceito-as e, como vós e convosco, sob a invocação protetora dos mestres e dos guias desencarnados, levando, agradecido e súplice, o coração a Deus.


            Deus, princípio sem origem e fim sem acabamento, envolve na tua luz os Espíritos dos nossos mortos, os Espíritos de todos os mortos; acrisola e embalsama os nossos sentimentos, enlaçando-nos, pelo amor, aos nossos irmãos dispersos nos teus sistemas de mundos; alivia e consola, na terra e no espaço, os enfermos e os desgraçados; orienta os desorientados e conserva a alegria dos felizes; faze dos nossos lares, de todos os lares, em todos os orbes, templos de harmonia, para que possamos adorar-te sem lágrimas na face, e, condoído das nossas misérias, levantando-nos em nossas quedas, acolhe, Pai Magnânimo, a insignificância dos nossos tributos, na humildade de nossas preces!