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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Reformador (FEB)

Francisco Thiesen



"Em 1883, Augusto Elias da Silva, na sua posição humilde, lançava o Reformador, coadjuvado por alguns companheiros e com o apoio das hostes invisíveis."
(Espírito Humberto de Campos,
"Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho",  9ª ed. FEB)

            Reformador, em sua longa e exuberante existência, virtualmente se confunde com a própria história do Espiritismo e da Casa de Ismael, no Brasil. Paulo de Tarso, (1) definindo a atuação dos cristãos no século I, no âmbito do Cristianismo nascente -- “instituição invisível e universal”-, declarou que o objetivo dela era “dar feição visível à obra divina”. Quanto ao Reformador, podemos afirmar ser ele    porta-voz firme e seguro, perseverante e ativo da Espiritualidade Superior que projeta, do ápice à base da pirâmide da Revelação, nas tarefas sagradas da revivescência do Cristianismo, as luzes da orientação evangélica formadora, no presente, da mentalidade sublimada da Humanidade feliz do futuro.


            Órgão da Casa de Ismael, o Reformador obedece ao comando de Cima, cumprindo sua missão, serena e confiantemente, seguindo a estrada inconfundível traçada do Invisível pelo Anjo que a dirige. Guillon Ribeiro, em 1940, no Relatório publicado em suas páginas de setembro, registrava: “Subordinado sempre, com absoluta fidelidade, à orientação doutrinária da instituição cujo pensamento lhe cabe exprimir, continuou ele a esforçar-se por bem servir, por servir o melhor possível à causa espírita, sem jamais dissociar do Evangelho o Espiritismo, antes timbrando invariavelmente em propagar a Terceira Revelação como simples desdobramento da Revelação Cristã, sem esquecer, todavia, de dispensar a atenção devida à fenomenologia que serviu de base à estruturação da Doutrina dos Espíritos.”

            Sobre publicidade, divulgação, difusão, comunicação, vejamos o que adiantam os Espíritos quando tratam da Imprensa Espírita e do Livro Espírita, pois os programas de uma e de outro são um só. André Luiz (2) assim se exprime: “Para não se desviar das finalidades espíritas, selecionar, com ponderação e bom senso, os meios usados na propaganda, mormente aqueles que se relacionem com atividades comerciais ou mundanas. Torna-se inútil a elevação dos objetivos, sempre que haja rebaixamento moral dos meios.” “Uma palavra inadequada pode macular a bandeira mais nobre.” “Arredar de si qualquer ansiedade, na modificação rápida do ponto de vista dos companheiros. A fé significa um prêmio da experiência.” “A Doutrina Espírita prescinde do proselitismo de ocasião.” “Purificar, quando não se puder abolir, o teor dos anúncios comerciais e das notícias de caráter mundano. A imprensa espírita cristã representa um veículo de disseminação da verdade e do bem.” “Declarar a qualidade doutrinária das programações, sem disfarces sutis ou mesmo poéticos, com lealdade à própria fé. Sem definição declarada, ninguém vive fiel a si mesmo.”Os bons e os maus pensamentos podem nascer de composições do mesmo alfabeto.” “Divulgar, por todos os meios lícitos, os livros que esclareçam os postulados espíritas, prestigiando as obras santificantes que objetivam o ingresso da Humanidade no roteiro da redenção com Jesus. A biblioteca espírita é viveiro de luz.” Imprensa Espírita, na sua significação mais alta e mais profunda, Reformador continua granjeando viva simpatia e legítima confiança do público espiritista que nele identifica a diretriz de Ismael, insofismável na veiculação do pensamento puro do Alto e indene
do empirismo das improvisações apaixonadas dos homens.


            Se é por alguns transitoriamente incompreendido ou atacado, por “tolerar os homens, sem transigir com os princípios”, nem por isso deixa de seguir compreendendo e perdoando, “convertendo toda tendência à lamentação em mais trabalho, e transfigurando muitas palavras de auto justificação, que desejaria dizer, em mais serviço”. “Ouve a todos, trabalhando e trabalhando. Responde a tudo, servindo e servindo.” (3)

            Há 32 anos, (4) o Espírito Bittencourt Sampaio, pelo médium J. Celani, ditava:

            “Quantas vezes, e como isso é consolador para nós outros que colaboramos convosco nesta obra cristã! quantas vezes, por esses rincões afora, numa humilde choupana, o rústico lavrador do campo, de inteligência rude, mas de coração aberto às verdades divinas, soletra, à luz mortiça de uma lamparina de petróleo, as linhas do Reformador, com a alma cheia de encantamento por essa dádiva divina! São esses os nossos estímulos.
             É nossa alegria tocar essa alma, inspirar-lhe à rude compreensão a ideia de alcandorar-se às alturas onde pairam o Espírito sublime e o coração transbordante de amor do Divino Mestre. Entretanto, que sabeis vós disso? Nada. É a obra anônima da Casa de Ismael.

            Emmanuel, na obra A Caminho da Luz, (5) dissertando sobre o apogeu da Renascença, lembra: “A invenção da imprensa facultava o mais alto progresso no mundo das ideias, criando as mais belas expressões de vida intelectual. A literatura apresenta uma vida nova e as artes atingem culminâncias que a posteridade não poderá alcançar. Numerosos artífices da Grécia antiga, reencarnados na Itália, deixam traços indeléveis da sua passagem, nos mármores preciosos. Há mesmo em todos os departamentos das atividades artísticas um pronunciado sabor da vida grega, anterior às disciplinas austeras do Catolicismo na idade medieval, cujas regras, aliás, atingem rigorosamente apenas quem não fosse parte integrante do quadro das autoridades eclesiásticas. A essas atividades reformadoras não poderia escapar a Igreja, desviada do caminho cristão. O plano invisível determina, assim, a vinda ao mundo de numerosos missionários com o objetivo de levar a efeito a renascença da religião, de maneira a regenerar seus relaxados centros de força. Assim, no século XVI, aparecem as figuras veneráveis de Lutero, Calvino, Erasmo, Melanchthon e outros vultos notáveis da Reforma, na Europa Central e nos Países Baixos.” E, em O Consolador, (6) Emmanuel revela: “A Reforma e os movimentos que se lhe seguiram vieram ao mundo com a missão especial de exumar a “letra” dos Evangelhos, enterrada até então nos arquivos da intolerância clerical, nos seminários e nos conventos, a fim de que, depois da sua tarefa, pudesse o Consolador prometido, pela voz do Espiritismo cristão, ensinar aos homens o “espírito divino” de todas as lições de Jesus.”


            Não sabemos se o título Reformador, ao ser inspirado a Augusto Elias da Silva, o foi em função dos movimentos da Reforma, embora nos pareça que sim. De qualquer maneira, porém, o certo é que o título é excelente e revela o fim do veículo, que é o da Revelação, o da Doutrina dos Espíritos e da Casa de Ismael. Porque esta, desde a sua fundação, outra coisa não tem feito senão trabalhar em função da divulgação do Evangelho integral, em espírito e verdade, por ter compreendido muito cedo a enorme responsabilidade que lhe cabe, agindo na Terra em nome do Espiritismo, para cuja presença entre nós o Alto programou e fez executar, antes, programas outros de longa envergadura, sendo um deles a Renascença religiosa, a Reforma iniciada por Martinho Lutero.

            De janeiro de 1883 em diante, Reformador vem à luz, normalmente, sem jamais ter sofrido interrupção. Em dezembro deste ano, completa ele 90 coleções anuais. É revista e já foi jornal. Não nasceu nem é, hoje, perfeito: evoluiu sempre, acompanhando o caráter progressivo da Revelação e do programa de Ismael. Durante 54 anos foi bimensal; hoje é editado mensalmente. Aos 90 anos, completará 1.728 edições. As tiragens, nos últimos anos, têm sido da ordem de 40.000 exemplares mensais.

            A vinculação do Reformador com o Livro Espírita é perfeita. No início, quando editar um livro constituía mais sonho que realidade, face às enormes dificuldades a serem vencidas pelos pioneiros do movimento espírita, Reformador transcrevia obras e romances espíritas, por capítulos, em suas páginas.

            A literatura espírita, no Brasil, há meio século, não era tão rica quanto se revela na atualidade. Mas, Reformador oferecia sempre muito, e do melhor que havia, visitando quinzenalmente os seus leitores. Ele foi livro.


            De uns decênios para cá, é ele plataforma do lançamento do livro espírita. Através dele, o espírita sabe tudo o que se passa no campo do saber espiritual, mantém-se atualizado com as diretrizes da Casa de Ismael e acompanha o movimento espírita.

            Mas Reformador tem história. Suas lutas e realizações exigiriam um volume para que fossem narradas. Há 33 anos surgiu a oficina própria. Eis parte do que escreveu, na oportunidade, (7) o venerando engenheiro Guillon Ribeiro, então Presidente da FEB: “... peça importante que muito lhe facilitaria o funcionamento (da Livraria, que antes da criação do Departamento Editorial se responsabilizava pela editoração das obras espíritas), além do mais, por libertá-la da dependência de terceiros, a cujas conveniências e imposições não lhe era possível forrar-se. Aludimos à oficina gráfica que ela agora, graças a Deus, possui e da qual, desde os primeiros tempos da Federação, cogitaram seus Estatutos, atestando a clarividência dos que os elaboraram. Constituída, conforme a descreveu o Reformador de novembro do ano passado”, “... entrou a funcionar regularmente desde 4 daquele mês, data a partir da qual pouco mais precisou a Federação mandar imprimir em outras. De acordo com a norma invariavelmente seguida na Casa de Ismael, de evitar todo arruído em torno do que faz, toda e qualquer retumbância para os seus atos ou realizações, o início, no dia acima indicado, do trabalho de sua oficina impressora não deu lugar, como é de regra geral, a nenhuma inauguração festiva ou solenizada de qualquer forma”.

            Da oficina gráfica do Reformador, que também editou muitos livros para a FEB, por evolução chegamos ao moderno parque gráfico do Departamento Editorial, criado há quase um quarto de século para substituir a Livraria na parte de elaboração do livro espírita. É a linha planificada do trabalho progressista que em tudo se revela na Casa de Ismael.

            Informa-nos André Luiz (8) que “todos os canais da publicidade respeitável são caminhos pelos quais a ideia espírita precisa e deve transitar. Nossa tarefa, porém, na hora que passa, é a de reavivar a chama dos princípios doutrinários. Convite ao pensamento. Apelo ao raciocínio. Achamo-nos à frente de um mundo em reforma. Casa de transição e refazimento. Entre as acomodações do antigo e os desafios do novo, somos trazidos a erguer um cenáculo para os valores da alma. Agitar opiniões seria distrair, perder a oportunidade na extroversão. O Espiritismo evangélico pede seareiros decididos a revolver as leiras da verdade. Silêncio e construção”.

            Reformador é órgão que cumpre um programa e dele não se afasta, quaisquer que sejam as manifestações que observe às margens da trilha que lhe foi determinado seguir.


            Ele avança continuamente, difundindo o conhecimento espiritual. Progressiva e progressistamente. Modernamente, a propósito, todos deveriam reler o magnífico trabalho pu- blicado em março de 1971, (9) intitulado “Técnica da Comunicação Espírita”, do Doutor Hermínio C. Miranda. Depois de análise abalizada e tranquila do tema, de inconteste atualidade, dentre outras, oferece-nos o seu autor estas conclusões: “Temos, pois, de estudar os métodos do mundo e aperfeiçoar cada vez mais a nossa técnica. Seja o nosso falar sim, sim; não, não, como queria o Mestre. Seja a linguagem direta, sem floreados, que a época não mais comporta, mas com um conteúdo legítimo de autenticidade, apoiado na coragem moral de declarar alto e bom som a nossa posição. Se falharmos na transmissão dessa mensagem, quem poderá estimar o retardamento das conquistas maiores que nos esperam na frente, lá no alto!

“Reformador”: Porta-Voz da espiritualidade superior
Francisco Thiesen

Reformador (FEB) Outubro 1972

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