Translate

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Devotos de Superfície



                                   "E eu rogarei a meu Pai, e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco." Jesus (João, 14:16).

            A Doutrina Espírita, em sua destinação de Consolador Prometido, apresta-se, diante da Humanidade, em atendimento ao seu desiderato, abraçando a responsabilidade histórica na marcha da civilização.

            Não se detém unicamente particularizando conforto e consolo, socorro e estímulo aos encarcerados nas dores dos resgates indispensáveis. Descerra às criaturas os infindáveis campos  da renovação interior, na lavoura do apoio recíproco e da fraternidade verdadeira, promovendo, intensamente, o conúbio de forças dos dois planos da vida, num sintomático e decisivo apelo ao Amor.

            Paulatinamente, a Revelação Espírita desdobra-se em informações e ensinamentos dosados e adequados aos nossos níveis de compreensão e maturidade.

            Instrutores do Infinito Bem, apóstolos da perfeição moral, benfeitores da luz divina integram-se no mesmo afã evangélico de lastrear os caminhos humanos com a palavra do bom ânimo e da transformação para melhor.

            O ensino espírita faz-se respeitado no seio das comunidades, pela contínua atualidade de seus conceitos quanto pelo acervo inalienável de seu patrimônio educacional.

            Lamentavelmente, entretanto, temos observado que dilatado número de corações abeira-se da fonte conservando os odres vazios...

            Impulsionados, muitos deles, pelos dolorosos acicates do sofrimento, encontraram o bálsamo para suas chagas íntimas, postando-se, ainda hoje, de mãos estendidas e corações súplices, quais indigentes da viciação sistemática, que abarrotam os saguões de instituições socorristas terrestres. Mostram-se incapazes de refletir e raciocinar; porém, são ávidos em receber.

            Outros, quais frágeis avezinhas pressentindo o sopro das adversidades, pousaram suas esperanças nos troncos robustecidos do amparo moral que a Doutrina a todos proporciona e aquietaram-se, quais filhotes implumes, à espera do alimento pronto, sem a mais leve intenção de reanimarem-se para as realidades do esforço próprio. Louvam a excelência do amparo dos Benfeitores Celestes, embora não se distanciem da inércia espiritual onde se acotovelam.

            Outros mais, que se achegaram aos esteios luminosos do Espiritismo, quais cigarras estonteantes de entusiasmo e gratidão ante a fenomenologia abundante e convincente, experimentam as vacilações da fé passageira que não recebeu senão as insuflações das primeiras horas, satisfazendo-se, tão-só, à tepidez do arrebol, em observações de superfície, sonegando o imprescindível apoio à fornalha da razão pelo exercício do estudo sistematizado. Cantaram louvores à imortalidade comprovada, contudo, deixaram-se cair, exangues, incapazes de pressentir, na ação do tempo, as vizinhanças do inverno na alma.

            Quantos espíritas ainda não se dignaram adentrar o vasto campo do conhecimento que a Doutrina lhes oferece, pervagando, indiferentes ou tumultuosos, entre as superficialidades do trivial e do passageiro! Há de lhes chegar o momento grave, quando difícil abatimento ou decepção lhes espicaçará a tibiez espiritual que os impediu à boa marcha, sob o império da vontade resoluta, no estudo e no conhecimento das verdades superiores.

            São eles os devotos de superfície, desejosos de se repletarem nos favores imediatistas.

            Os celeiros do Espiritismo estão abarrotados, sim, de consolo e de esperança, de estímulo e de bom ânimo, trazendo, igualmente, as advertências em torno do valor do tempo e das oportunidades que a vida nos confere, para que nos fortaleçamos no conhecimento e na sabedoria que nos equilibrarão, frente ao amor, para os Cimos da Vida.

            Quem adia o esforço pessoal na dinâmica das horas não assimilou, por enquanto, a verdadeira noção do tempo.

            Temos os espíritos ainda tão carentes de entendimento e disciplina, quanto reconhecemos nossas organizações somáticas necessitadas de pão.

            Aprofundemo-nos na Doutrina Espírita, valorizando, em nós, as bênçãos do livre-arbítrio em nome do estudo enobrecedor que nos alimenta os espíritos.

            O passe ser-nos-á valioso auxílio de refazimento e alívio; a água fluidificada será o veículo propício aos benefícios suscitados em preces; as notícias dos familiares ou amigos domiciliados no além arregimentar-nos-ão júbilos espirituais e trégua às saudades lancinantes; a orientação medicamentosa nos proporcionará justo alívio à enfermidade pertinaz; o núcleo assistencial surgira a nossa frente como indispensável oficina de adestramento de corações; mas, tudo isto não passará de recursos de superfície, se o espiritista, cônscio de seus deveres fundamentais diante da vida, não enriquecer o mundo íntimo no conhecimento indispensável e sustentador.

            Não se pode substituir a cirurgia enérgica por paliativo de barbitúricos intoxicantes, quando a extirpação do mal é indispensável ao equilíbrio físico. O bisturi fará a assepsia definitiva onde a droga é impotente para agir. De igual modo, não poderemos adiar o aprofundamento na instrução espírita, reconhecidos de que somente o esforço próprio, despendido no estudo e na meditação eficaz, nos removerá os óbices à nossa saúde integral... E o Livro Espírita aí está, como instrumento oportuno do Consolador Prometido, qual fórceps sublime, desentranhando-nos das sombras de nossa mediocridade evolutiva para os luzeiros da consciência esclarecida, sob a escolta do coração operoso.

Devotos de superfície
Guillon Ribeiro
por Júlio Cezar Grandi Ribeiro

Reformador (FEB) Março de 1977

Espiritismo sem Mescla



            Repisar pontos básicos de Doutrina - inadmissibilidade de cultos exteriores, reencarnação, etc. - é trabalho que continuará em ritmo imodificável, enquanto soubermos da existência de algum companheiro interessado no burilamento íntimo e disposto a esforços múltiplos na captação da inadiável problemática do Espírito, em nossa época.

            Séculos XIX e XX levaram ao ápice o problema da temporalidade do ser humano, angústia apresentada sob forma de trilogia: Quem sou? De onde venho? Para onde vou?

            Como novo Renascimento, a própria Ciência ativa as pesquisas múltiplas, reconhecidamente impulsionada por novos hálitos, renovação edificante que se impõe como necessidade da própria existência.

            Nas Artes - onde o campo de ação é igualmente amplo - a produção romântica rasga novos véus, trazendo diferentes harmonias e nova concepção de mecânica instrumental. Enquanto Chopin cria o tipo de "ondas de som", Franz Liszt revoluciona a técnica pianística, exigindo dos intérpretes não somente agilidade global, mas também uma inusitada resistência física, deixando transparecer, acima de tudo, a descrição musical, a melodia impressionista, onde a imagem se dilui em um conjunto de percepções sublimes, desvendando horizontes novos no sentido da evolução do próprio Espírito. Na poesia, Vítor Hugo dizia de si, em franco processo de interação social, e aqui no Brasil Cecília Meirelles, já modernamente, captava de modo perfeito a imperiosidade de "vestir o homem novo", asseverando:

            - "Dos meus retratos rasgados me recomponho... "

            Mudanças políticas, avanço na Arquitetura, nova concepção do belo (com maiores luzes?..), profunda modificação nas ideias, com evidentes repercussões nos usos e costumes, derrogação e revogação de leis, criação de novos textos legislativos, mais lógicos, em sua maioria; surgimento do Direito do Trabalho, produto do esforço de muitos homens... Enfim, um complexo feito de complexos menores, espécies de um gênero ainda mais complexo do que a própria complexidade universal: o homem em franca evolução.

            E após um preâmbulo tão extenso, mas necessário à situação do assunto, como entender a Doutrina Espírita mesclada com os problemas do dia-a-dia? É justamente em virtude disso que surge o erro do espírita insipiente: o fanatismo.

            Baseado em quê, perguntaríamos nós, se pode afirmar que o Espiritismo
pressuponha de nossa parte uma pureza que ainda não possuímos? E, ainda pior, quem pode afirmar, em sã consciência, que o Espiritismo esteja vinculado à necessidade do enclausuramento, sumamente egoístico? Nenhum preceito doutrinário proíbe ao espírita o relacionamento sadio com a sociedade, necessário a nosso próprio equilíbrio e que deve e precisa ser moldado nos padrões da verdadeira evangelização e da lógica real. Os Espíritos superiores nunca nos impuseram macerações e privações, em absoluto condizentes com a grandiosidade da Lei Suprema. Também o Codificador, em seus arrazoados sobre a palavra do Mestre Jesus (in "O Evangelho segundo o Espiritismo", ed. FEB) , não prega o isolamento e o cilício. Em suma: a Doutrina - que entrelaça lógica e sentimento, elevados a gradações sublimes - não faz a apologia da cristalização intelectual e do entorpecimento da sensibilidade.

            Do mesmo modo, o verdadeiro Espiritismo - Cristianismo redivivo - não exalta a futilidade, o alheamento das coisas do Alto, situações essas que fustigam a humanidade de hoje. Naturalmente compreendemos, com os Mentores Amigos, serem todos estes acontecimentos necessários à evolução do próprio homem, face à situação a que ele mesmo se lançou no decorrer dos milênios, questões, aliás, que encontramos fartamente elucidadas nas obras da Codificação e em Roustaing.

            Se forcejarmos para ser realmente espíritas, na mais completa e grandiosa acepção do termo, isto é, se "estivermos no mundo sem sermos do mundo", se dele extrairmos a verdadeira torrente de ensinamentos edificantes que nos pode proporcionar, se nele participarmos do bem, procurando esclarecer o mau, lutando para incentivá-lo rumo à elucidação maior, somente assim estaremos sendo verdadeiramente espíritas. Porque a Doutrina, em cujo universo gravitamos - o Espiritismo é por si só um universo inteiro -, não prega o conformismo, no sentido em que o mundo o entende, mas na significação da paciência e da fé raciocinadas.

            E, por ser assim, conforme nos lembra Emmanuel ("Vinha de Luz", págs. 91, ed. FEB) "a árvore da fé viva não cresce no coração miraculosamente", pelo que ela nos reclama esforço, e muito esforço, pois só se estabelece solidamente através da ponderação. E assim compreendemos porque, partidários da síntese - posição ideal, segundo os próprios Espíritos superiores -, entendemos que intelectualidade e sentimento podem e devem mesclar-se, gerando a posição integradora exigida pela perfeição.

            Não nos fanatizemos, desprezando o raciocínio com que o Pai de Misericórdia nos brindou, como medida justa e inerente à própria evolução. Saibamos utilizar o livre arbítrio, pedra de toque da Doutrina, recordando sempre que o mau uso das próprias forças impôs-nos a primeira encarnação material: falimos. Mas, a Misericórdia Divina é infinita e, mais de uma vez, novas oportunidades nos têm sido concedidas quotidianamente.

            Lembremo-nos daqueles cientistas e daqueles artistas que viveram intensamente, "estando no mundo sem serem do mundo", contribuindo para o seu progresso, trazendo a Revelação Divina à humanidade inteira. Recordemo-nos do Cristo de Deus, que não se enfurnou egocentricamente na couraça de exacerbada autoproteção, mas que, ao contrário, aproximou-se dos homens, estendendo-lhes as mãos sublimes e saciando lhes a sede de esperança, justiça e amor; o mesmo Cristo que, espontânea e ternamente, foi ao poderoso Publius Lentulus, exemplificando-Ihe a verdadeira caridade; o mesmo Jesus-Cristo que suportou o martírio da cruz, as basófias e humilhações dos orgulhosos centuriões, demonstrando que o Cristianismo e, portanto, o Espiritismo é atividade racionalmente fundamentada: é ordem, é amor, é caridade, é luz, é fraternidade, é desinteresse, é desprendimento, é burilamento.

            E, pelo mesmo Cristo, nosso Mestre, que nos ama intensamente, adotemos a atitude de proscrição dos excessos, como nos dizem mentores da Alta Espiritualidade, através da mediunidade de Mme. Collignon, na obra compilada por Roustaing:

            - "Convirjam todos os vossos esforços para libertá-lo (o Espírito), desde a atual existência humana, dos laços que o prendem ao bruto. Nada, porém, de excessos, quer se trate do Espírito, quer do corpo" (in "Os Quatro Evangelhos", vol, 1, pág. 451, edição FEB).

            Em outras palavras: conheçamo-nos, cuidando de marchar em segurança. Não nos fanatizemos. Vivamos a vida com lógica, com amor, com moderação e equilíbrio, lembrando que tudo no mundo deve ser interpretado "em espírito e em verdade".

            Este o Espiritismo verdadeiro. O Espiritismo sem mescla.

 Espiritismo Sem Mescla
Gilberto Campista Guarino

Reformador (FEB) Outubro 1972

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Como desenvolver a Mediunidade?


             P.        Como desenvolver a mediunidade?

            R.        Desenvolver significa, na  informação do dicionário: fazer crescer. E, como exemplo, ainda ali se informa:  “clima desenvolve as sementes":

            Mediunidade é convite para espiritualizar-nos.

            Para que cresça, na direção dos Céus, para que se desborde em frutos abençoados, o médium deve viver no clima da caridade legítima, renovando inteiramente o seu mundo interior, desenvolvendo as suas virtudes de amor ao próximo.

            Além, pois, da prática mediúnica, mediunidade pede coração renovado no Evangelho do Senhor, valendo repetir a afirmação do Espírito da Verdade ,no “Evangelho segundo o Espiritismo": “Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.”

Posta Restante - 1b
por Sólon Rodrigues

Brasil-Espírita / Reformador (FEB) Setembro 1971

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A vida que se leva...



Trova de Irmão

Agora, depois da morte,
Percebo, de alma sofrida,
Que a vida que a gente leva
É o que se leva da vida.

Chiquinho de Moraes
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Março 1973

Espiritismo e Política



            “- O Espiritismo não prega o conformismo do ponto de vista em que o conformismo é interpretado. Ele nos pede paciência para esperar os processos de evolução e as ações dos homens dignos que presidem os Governos. O Espiritismo Evangélico não se sente inclinado a qualquer participação no partidarismo de ordem política, para solucionar os problemas da vida material.”

Espiritismo e Política
por Chico Xavier

Brasil-Espírita / Reformador (FEB) Setembro 1971           

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O sacrifício mais agradável a Deus



            Lembro-me da assertiva feliz de um grande pensador, que escreveu: procurai até a raiz a razão das vossas desditas, dos vossos fracassos, das vossas enfermidades e a encontrareis no mal que fizestes a alguém, criando, assim, um adversário.

            E acrescentaremos: e tanto mais se agravará nossa situação se não nos dermos pressa de perdoar esse adversário, procurar fazer com ele as pazes, enquanto estamos em caminho com ele na mesma prova remissiva...

            Porque, depois, o mal será maior, por descobrir ele nossos pontos fracos, vulneráveis...

* * *

            Antes de ser espírita, sentíamos tonteiras, nossos sonhos eram sempre dolorosos, com perseguições constantes de inimigos invisíveis, às vezes, até, em forma de animais, provando-nos sua agressividade e más intenções.

            Aí é que sentimos, em cheio, como somos endividados diante do Grande Amor, que sempre perdoou e perdoa nossos erros, nossas faltas, possibilitando-nos felizes reabilitações, nem sempre entendidas...

            Tornando-nos espírita, logo de início recebemos conselho providencial de uma Entidade amiga, que, à moda de um Pai amantíssimo, nos guia e nos inspira para o Bem.
           
            Disse-nos, então:

            - Meu filho, é preciso cultuar o Evangelho em seu lar, pelo menos uma vez por semana, em hora certa. Formará, com o tempo, duas assembleias, uma de encarnados, com seus familiares, e outra de desencarnados, com seus amigos e adversários do passado. Somente, assim, poderá catequizá-los, mercê da misericórdia de Jesus, através das lições medicamentosas, curadoras, salvadoras de seu Livro Divino!

            Colocamos em prática o evangélico conselho e até hoje, decorridos 42 anos desse culto, somente temos recebido graças e mais graças, sentindo mesmo que muitos de nossos inconquistáveis adversários, contagiados pela palavra de luz e amor do Amigo Celeste, vêm deixando de nos perseguir e, muitos deles, se tornaram nossos amigos e protetores...

            Que nosso humilde artigo, feito com sincera intenção de divulgar algo útil à felicidade de nossos prezados irmãos de romagem redentora, possa concorrer para divulgar a necessidade de perdoar, realizando o sacrifício mais agradável a Deus, que é o perdão com o esquecimento dos agravos e das mágoas.

            Foi realizando o perdão, fechando com chave de ouro sua tarefa redentora, que Jesus se despediu do mundo que o crucificou, que o não entendeu e que lhe pagou com o mal todo o bem recebido!

            O mundo, que aí está, precisa de perdão, precisa de que exemplifiquemos Jesus nessa explosão de sua misericórdia e seu imenso amor por nós!

O sacrifício mais agradável a Deus
Ramiro Gama

Brasil-Espírita/ Reformador (FEB) Julho 1971

Posta Restante 1a


P. - Deverão os pais, a fim de não causar lesões ao caráter de seus filhos, deixa-los entregues a todas as suas vontades? 

            R. - Em Espiritismo temos aprendido que a reencarnação nos reduz à condição de fragilidade, nos primeiros anos de vida terrena, para que sobre nós atue beneficamente a  experiência paterna e materna, refundindo desvios e corrigindo enganos dolorosos de outrora.
            A disciplina equilibrada não traumatiza.
            Ninguém, após a sementeira, abandona o trato de terra, sem a certeza de que a erva daninha se multiplicará e afogará os tenros brotos que nos custaram suor e lágrimas.

Posta Restante - 1a
por Sólon Rodrigues

Brasil-Espírita / Reformador (FEB) Setembro 1971

domingo, 22 de novembro de 2015

Nascimento e Morte


             "No momento de encarnar, o Espírito sofre perturbação semelhante à que experimenta ao desencarnar? Muito maior e sobretudo mais longa. Pela morte, o Espírito sai da escravidão; pelo nascimento, entra para ela."  ("O Livro dos Espíritos")


            Muito clara a explicação dos Espíritos à pergunta 339, de Allan Kardec, inserida no livro básico da Codificação.

            Reencarnar e desencarnar, ou seja, nascer e morrer, na linguagem usual, são processos de transição de um plano para outro, gerando repercussões que variam segundo o estado evolutivo da alma.

            É maior ou menor, mais ou menos duradoura a perturbação que se segue a um e outro processo. Os que estudam Espiritismo, analisando-lhe os princípios, sabem que as reencarnações e desencarnações diferenciam-se de indivíduo para indivíduo. Situemos, inicialmente, a reencarnação, isto é, a concessão ao Espírito, pela divina misericórdia, de um novo corpo.

*

            A ligação da alma ao corpo tem seu começo no momento da fecundação. A partir desse instante, de suma importância para o progresso e a felicidade do Espírito, apertam-se os laços, na proporção do desenvolvimento do corpo do reencarnante no organismo materno.

            É um aprisionamento em escala crescente, que se prolonga além do nascimento, sendo lícito crer, não só pelo que preceitua a questão 385 de “O Livro dos Espíritos", mas também pelo que observamos na paisagem humana, que somente na adolescência se fixam e consolidam, em definitivo, valores e tendências específicas:

            “Que é o que motiva a mudança que se opera no caráter do indivíduo em
certa idade, especialmente ao sair da adolescência? É que o Espírito se modifica?

            É que o Espírito retoma a natureza que lhe é própria e se mostra qual era" (...)

            Embora a ligação principie no ato concepcional, previamente se verificam, no plano espiritual, providências tendentes a adaptar o Espírito ao ambiente doméstico, para evitar reações e transtornos psicológicos.

            A questão 351 esclarece:

            "(...) A partir do instante da concepção, começa o Espírito a ser tomado de perturbação"
(...) que se diversifica, conforme ressaltamos, de alma para alma.

            Espírito de mediana evolução, ou que a tenha em grau bem limitado, logo após a fecundação vai perdendo a noção das coisas, sequencionando esquecimento já iniciado na fase pré-reencarnatória, quando a forma perispiritual fora reduzida. Lembranças e ideias apagam-se. Sobrevém o nascimento. E, com o nascimento, o olvido de tudo...

            Com um Espírito de grande evolução o fenômeno é diferente: guarda ele consciência clara até pouco tempo antes do nascimento. Dependendo do seu gabarito, pode até comunicar-se em reuniões mediúnicas, antes do renascimento. Pode mesmo lembrar-se (após este) de detalhes que lhe antecederam à chegada. São bem raros esses casos, convém frisar.

            Situemos, agora, o problema desencarnatório, tão importante e delicado quanto o nascimento.

*

            Na desencarnação, isto é, ao deixar o Espírito a veste corpórea, que lhe fora cárcere durante anos, o fenômeno é o mesmo: o Espírito terá, igualmente, reações e abalos correspondentes ao seu estado evolutivo.

            Como regra geral, vem o torpor. O sono mais ou menos longo. Despertando, as ideias começam a clarear, as lembranças da vida física subindo à tona. É o Espírito que se reequilibra, paulatinamente. A lucidez vai sendo recuperada, à maneira de um alvorecer, quando homens e coisas deixam de ser silhuetas diante de olhos humanos:

            " (...) a alma se desprende gradualmente, não se escapa como um pássaro cativo a que se restitua subitamente a liberdade. Aqueles dois estados (vida e morte) se tocam e confundem, de sorte que o Espírito se solta pouco a pouco dos laços que o prendiam. Estes
laços se desatam, não se quebram." (Questão 155)

            É a alma eterna que se reajusta para a compreensão do seu novo estado e para a continuidade do aprendizado. Essa regra sofre alterações, também segundo o grau de aperfeiçoamento do desencarnante.

                        O Espírito realmente evoluído, com potência mental capaz de superar impressões da vida física, recobra a consciência em pouco tempo, adaptando-se, com rapidez, a seu novo habitat.  Conhecimentos doutrinário e evangélico pesam, favoravelmente, no comportamento do desencarnante. O ensino espírita influencia sobre a perturbação.

            "(...) por isso que o Espírito já antecipadamente compreendia a sua situação.
Mas, a prática do bem e a consciência pura são o que maior influência exercem."
 (Questão 165)

            A luz virá mais cedo, evidentemente, para quem retorna ao plano espiritual com excelente bagagem de valores morais.

            A missão da Doutrina dos Espíritos não é preparar o homem apenas para a morte que se avizinha, mas, sim, educá-lo para a vida eterna.

            Sua obra renovadora ir-se-á concluindo aos poucos, na mente e no coração da humanidade, eis que a Terra, mundo de provas e expiações, recebe como habitantes almas vergastadas pela dor, comprometidas com a Lei. É necessário que os disseminadores das verdades espíritas as façam conhecidas e exemplificadas aqui e alhures. Em todos os continentes... Nos vales e nos montes. Nas encostas e nas planícies. É imprescindível, aconselha  Emmamuel, estudar educando, e trabalhar construindo.

            Estudando Allan Kardec e trabalhando construindo, acolhamos a palavra esclarecida de Emmanuel, lídimo divulgador da obra do missionário lionês, convictos de que, no corpo físico ou fora dele, a renovação nos dará alegria e paz:

            "Sigamos, pois, à frente, destemerosos e otimistas,
seguros no dever e leais à própria consciência,
na certeza de que o nome de Nosso Senhor Jesus-Cristo
está empenhado em nossas mãos."


Nascimento e Morte
J. Martins Peralva

Reformador (FEB) Janeiro 1976

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Apontamentos Correlatos




A vida física é empréstimo divino.
Na carne, quem começa a viver, 
também começa a dever.

*

Só a caridade substitui o amor na obra da redenção humana,
Caridade que ajuda é amor que revigora.

*

A reflexão constitui estação de madureza.
Quem não reflete, age desastradamente.

*

A escola, continuando o lar, apresenta os pródromos da vida em coletividade. Na sociedade encontramos os deveres de uma escola maior.

*

O dever é o amigo que melhor ajuda, estando sempre presente.
Um compromisso liberado enseja deveres novos.

*

A consciência jamais concorda com o crime.
A intuição do certo e do errado é patrimônio inalienável da mente.

*

A fé legítima sempre aponta o pórtico da liberdade espiritual.
Crescimento de alma é medida de liberação.

*

A luz define com exatidão a verdade.
Pode comungar com o lodo e permanecer pura.

*

O Espírito nunca involui.
Na jornada evolutiva, entretanto, estacionar significa seguir na retaguarda.

*

O Espiritismo é sublime renascimento da Doutrina Cristã.
Aceitá-lo na feição de Ciência ou Filosofia somente, 
é desfigura-lo na face mais legítima.


Apontamentos correlatos
Marco Prisco
por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Agosto 1961

Mediunidade Latente


            Causa-nos pena ver certas criaturas, dotadas de apreciável vitalidade, a par de uma mediunidade incipiente que, por ignorância, preconceito religioso ou má vontade, se descuram de exercitar, decorrendo, para elas, em consequência, sérios prejuízos de ordem moral e física, além de privar muita gente necessitada de seus benefícios.

            Geralmente, essas criaturas padecem de inquietações, provenientes da própria mediunidade desprezada ou ignorada, São impacientes, irritadiças e de difícil trato. Vivem a se queixarem de enfermidades que, as mais das vezes, só existem nos próprios Espíritos ignorantes ou maus que as envolvem e lhes incutem tais pensamentos enfermiços.

            Em nossas reuniões mediúnicas, tivemos oportunidade de libertar algumas criaturas de supostas enfermidades, depois da doutrinação dos Espíritos que as afligiam. E subsequente desenvolvimento de suas faculdades medi únicas, juntamente com o estudo metódico das obras kardequianas, fortaleceu lhes o bem-estar geral.

            A causa das perturbações a que acima aludimos, por parte dessas criaturas, prende-se ao fato de elas não movimentarem grande soma de fluidos de que são possuidoras, em direção ao Bem. Assim, esses fluidos, estagnados por falta de dispersão, no sentido de aliviar, confortar, ensinar e curar os que sofrem, que é a sua finalidade precípua, congestionam o sistema nervoso de seus detentores, propiciando o avizinhamento de Espíritos infelizes que os arrastam, assim, à perturbação. Muita vez, essas criaturas são levadas, ainda, a se chafurdarem no lodaçal dos vícios ou à criminalidade, e, não raro, à demência, quando são enleadas por entidades espirituais perversas e pertinazes.

*

            A mediunidade é um dom que Deus concedeu às suas criaturas, a fim de se reabilitarem, através de sua prática honesta e desinteressada, de seus erros de passadas existências, concorrendo, ainda, para a elevação espiritual de seus semelhantes. Ninguém a conspurca ou a relega, impunemente. Segundo a Doutrina Espírita, os seus portadores responderão pelo uso que dela fizerem.

            Por isso, quando defrontarmos com indivíduos desavisados, com indícios de mediunidade, não titubeemos em esclarecê-los quanto à necessidade de seu desenvolvimento, e encaminhá-los para uma sociedade espírita idônea, onde possam receber toda a assistência de que carecem.

            Assim procedendo, estaremos contribuindo - e disso temos muitos exemplos - para que essas criaturas não venham a ser vítimas de quedas morais em virtude de alguma obsessão, ou vítimas da loucura, da qual o Espiritismo é o imunizador por excelência.

Mediunidade Latente
Demetri Abrão Nami

Reformador (FEB) Agosto 1961

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Moeda Perdida



A Moeda Perdida
Parábola

         15,8  “ -Ou qual é a mulher que, tendo 10 dracmas e perdendo uma delas, não acende a lâmpada, varre a sala e a busca diligentemente, até encontrá-la. 15,9  E, tendo-a encontrado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, achei a dracma que tinha perdido. 15,10  Digo-vos que haverá muito júbilo entre os anjos de Deus por um só    pecador que se arrependa”

         Para Lc (15,8-10) -A Moeda Perdida - leiamos  A. Sayão, em “Elucidações Evangélicas”:

            “O mesmo é o pensamento que ditou as parábolas da ovelha desgarrada (Mateus 18,10-14 - Uma Ovelha em Cem) e a da dracma perdida. Visam ao mesmo fim os ensinamentos que derivam de ambas. Apenas, a da dracma objetiva, de modo especial, os pobres a quem Jesus se dirigia. Ele viera em socorro dos que fraquejam, ou que, apavorados com os obstáculos do caminho, retrocedem. O pai de família cuida com ternura do filho doente e o coração se lhe alvorota de ventura quando o vê restabelecido.

            Foi o que fez o Filho bem amado do Pai durante a sua missão terrena. Era o que fazia, antes que descesse a desempenhar essa missão, desde que o homem surgiu no planeta, o que continuou a fazer, depois do desempenho daquela missão, e faz ainda agora, por intermédio dos Espíritos do Senhor, que sempre trabalharam e trabalham pelo progresso da nossa Humanidade. Todos os seus cuidados se hão sempre concentrado e concentram nas suas ovelhas; exerce, porém, maior vigilância sobre as que sofrem e as que um mau pastor deixou se perdessem. Ele as procura e, quando a sua voz amorosa chega a ecoar no coração daquela que se perdera, oh! então, o bom pastor corre para essa que respondeu ao seu chamamento e, tomando-a nos braços, a reconduz ao aprisco, para que não mais se aparte do rebanho.


            Quanto ao símile da moeda perdida e achada, perfeitamente se justifica que Jesus se haja servido dele, desde que atentemos em que suas palavras eram dirigidas aos pobres, para os quais a mais insignificante quantia tem grande importância, pelas dificuldades com que logram ganha-la. Nada mais natural, portanto, do que a figurada alegoria da mulher, ao encontrar a dracma cujo desaparecimento representaria talvez a perda de uma parte do trabalho exaustivo a que se entrega o marido, para dar sustento a uma porção de míseros filhinhos. Assim, o sentimento da mulher, na parábola, sentimento que é desta o mecanismo, tem o maior interesse, porque visa tornar compreensível à classe pobre que tudo o que estiver perdido, do ponto de vista espiritual, deve ser buscado com ardor igual ao que a anima a procurar uma moeda de pequeno valor e deve causar, quando encontrado, alegria idêntica à que produz o achar-se a moeda que se perdera. Daí decorre que o arrependimento por havermos desprezado as virtudes e, conseguintemente, por termos alimentado os vícios que as substituíram, constitui o meio e o caminho de tornarmos a encontrar o que se perdera e fará que nos sirvamos do que havíamos perdido e de novo achamos, para alimentar nossa alma, a fim de que progrida moral e intelectualmente. Quão grande não será  a alegria que, assim fazendo, proporcionaremos aos nossos protetores, aos nossos guias, aos Espíritos do Senhor, anjos de Deus, na frase do nosso Divino Mestre, Jesus Cristo! 

Lição de Humildade



Lição de Humildade


         14,7 Observando também como os convivas escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes   a   seguinte   parábola: 14,8 “ -Quando fores convidados às bodas, não se sentem no primeiro lugar, pois pode ser que seja convidada outra pessoa de maior consideração do que tu; 14,9  E, vindo o que te convidou, te diga: Cede o lugar a este. Terias, então, a obrigação de  ocupar o último lugar. 14,10  mas, quando fordes convidado, vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo,  passa  mais  para  cima.  Então, serás honrado na presença de todos os convivas. 14,11  Porque, todo aquele que se exaltar, será humilhado e, todo aquele que se humilhar, será exaltado.” 14,12  Dizia igualmente ao que o tinha convidado: " -Quando deres alguma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem os parentes, nem os vizinhos ricos. Porque, por sua vez, eles te convidarão e, assim, te retribuirão. 14,13  Mas, quando deres uma ceia, convida aos pobres, aos aleijados, os coxos e os cegos. 14,14  Serás feliz porque eles não tem com que te retribuir; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.”


         De  “O Evangelho...”, de Kardec, Cap. VII,  coletamos o trecho que se segue:

            “...O Espiritismo nos  explica  os  versículos adiante  citados (Lc 14,7-11) - Tomar Lugar nas Bodas.. -através da lei das encarnações sucessivas, onde aqueles que foram os mais elevados numa existência, são rebaixados à última posição numa existência seguinte, se forem dominados pelo orgulho e pela ambição. Não procureis, pois, o primeiro lugar na Terra, nem vos colocar acima dos outros, se não quereis ser obrigados a descer; procurai, ao contrário, o mais humilde e o mais modesto, porque Deus saberá vos dar um lugar mais elevado no céu, se o merecerdes.”

            A mesma fonte, em seu Cap. XIII, complementa seus ensinamentos sobre o trecho bíblico contido em Lc (14,7-14) -Aquele que se exaltar, será humilhado...:

             “ ... “Quando fizerdes um festim, disse Jesus, para ele não convideis vossos amigos, mas os pobres e os estropiados.” Estas palavras absurdas se tomadas ao pé da letra, são sublimes se nela se  procura o espírito. Jesus não podia ter querido dizer que, em lugar dos amigos, é preciso reunir à sua mesa os mendigos da rua; sua linguagem era quase sempre figurada, e os homens incapazes de compreenderem as nuances delicadas do pensamento, seria preciso imagens fortes, produzindo o efeito de cores berrantes. O fundo do pensamento se revela nestas palavras: “Sereis felizes porque não terão meios para vo-lo retribuir”; quer dizer que não se deve fazer o bem com vistas a uma devolução, mas pelo único prazer de fazê-lo. Para dar uma comparação surpreendente, disse:

            -Convidai para vossos festins os pobres, porque sabeis que estes não poderão nada vos retribuir; e por festins é preciso entender, não o repasto propriamente dito, mas a participação na abundância de que desfrutais.” 

            Para  Lc (14,11) - ...e  aquele que se humilhar será exaltado!  -    leiamos o
 “Livro da Esperança ”  de Emmanuel por Chico Xavier:

            “ Não aguardes aparente grandeza para ser útil.

            Missão quer dizer incumbência.

            E ninguém existe aos ventos do acaso.

            Buscando entender os mandatos de trabalho que nos competem, estudemos, de leve, algumas lições de coisas da natureza.

            A usina poderosa ilumina qualquer lugar, à longa distância, contudo, para isso, não age por si só. Usa transformadores de um circuito a outro, alterando, em geral, a tensão e a intensidade da corrente. Os transformadores requisitam fios de condução. Os fios recorrem à tomada de força. Isso, porém, ainda não resolve. Para que a luz se faça, é indispensável a presença da lâmpada, que se forma de componentes diversos.

            O rio, de muito longe, fornece água limpa à atividade caseira, mas não se projeta, desordenado, a serviço das criaturas. Cede os próprios recursos à rede de encanamento. A rede pede tubos de formação vaiada. Os tubos exigem a torneira de controle. Isto, porém, não é tudo. Para que o líquido se mostre purificado, requer-se o concurso do filtro.

            O avião, transporta o homem, de um lado para o outro da Terra, mas não é um gigante auto suficiente. A fim de elevar-se precisa combustível. O combustível solicita motores que o aproveitem. Os motores reclamam os elementos de que se constituem. Isto, porém, ainda não chega. Para que a máquina voadora satisfaça aos próprios fins, é indispensável se lhe construa adequado campo de pouso.

            No dicionário das leis divinas, as nossas tarefas têm o sinônimo de dever.

            Atendamos à obrigação para que fomos chamados no clima do bem.

            Não te digas inútil, nem te asseveres incompetente.

            Para cumprir a missão que nos cabe, não são necessários um cargo diretivo, uma tribuna brilhante, um nome preclaro ou uma fortuna de milhões. Basta estimemos a disciplina no lugar que nos é próprio, com o prazer de servir.”    

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Cura de um doente


Cura de um Doente

         14,1  Jesus entrou num sábado na casa de um fariseu notável, para uma refeição. 14,2 Havia, ali, um homem hidrópico. 14,3 Jesus dirigiu-se aos doutores da lei e aos fariseus: “-É permitido ou não fazer curas nos dias de  sábado?” 14,4 Eles nada disseram. Então, Jesus, tomando o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 14,5 Depois, dirigindo-se a eles, disse: “-Qual de vós que, se lhe cair um jumento ou um boi num poço, não o tira imediatamente, mesmo em dia de sábado?” 14,6 A isto, nada lhe podiam replicar.

* Hidropsia - Acumulação anormal de um líquido seroso em alguma parte do corpo.


Para Lc (14,1-6) -Cura de um Doente  - 
cabe recorrer Antonio Luiz Sayão, 
em “Elucidações Evangélicas”:

            “O hidrópico fora levado à presença de Jesus pelos doutores da lei, pelos escribas e fariseus, para verem se o apanhavam em culpa, ou por violar o sábado, caso, cedendo aos piedosos impulsos do seu coração, o curasse naquele dia, ou por faltar à caridade, se, para guardar escrupulosamente o sábado, não o fizesse. Porém, Jesus, que lhes lia no íntimo os pensamentos, efetuou a cura, inibindo-os de formular contra Ele qualquer acusação, mediante as perguntas que lhes dirigiu e a que eles se viram impossibilitados de responder.

            Quanto à cura, o Mestre a operou, como todas as outras que os Evangelhos registram, pelo poder da sua vontade, exercendo sobre o doente uma ação magnética, que lhe saturou o organismo dos fluidos apropriados a restabelecer ali o equilíbrio desfeito.

            A hidropsia tem a sua causa num empobrecimento do sangue, cujo quilo diminui, sendo substituído pelas partes aquosas que ele contém, devido isso a uma alteração dos princípios vitais, por efeito de privações ou de excessos.

            Bem dirigida, a ação magnética humana pode deter os progressos dessa decomposição do sangue e mesmo fazê-la cessar; mas, só com tempo e perseverança, porquanto os instrumentos ainda não são bastante puros, para não alterarem ou apoucarem, pelo seu contato, os fluidos de que possam dispor.

            Jesus, magnetizador perfeito, empregava os princípios curativos em toda a sua pureza e, conseguintemente, no máximo grau de eficácia.

            Não diz o evangelista que a tumefação produzida pela enfermidade cessou inopinadamente; diz apenas que a enfermidade foi curada. Significa isso que a causa do mal foi destruída, restabelecendo-se o equilíbrio como conseqüência da ação magnética exercidas, da ação dos fluidos de que Jesus impregnava o organismo do enfermo.

            O mal chegara a uma de suas últimas fases e a fraqueza obstava a que o hidrópico fizesse qualquer esforço. Jesus, entretanto, o mandou embora. É que lhe deu forças, para se retirar, e esse era o prenúncio da cura visível: a desinchação.”