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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

19b e final. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz





19b
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924



            E nem é outro o Consolador prometido para ensinar todas as coisas, senão a intervenção espiritual exercida no nosso meio, quando a época é a do apogeu para as conquistas intelectuais, e a do perigeu para os sentimentos morais.

            Propícios tempos, portanto, são estes para recebermos os mensageiros do Senhor. Lúcida está a nossa razão para apreendermos os seus ensinamentos e deles sentimos necessidade premente olhando o fundo do abismo a que iríamos de roldão parar, se a fúria dos nossos ímpetos de besta humana não tivesse de ser contida e sofreada.

            “Eu vou mandar-vos o dom que vos está prometido por meu “Pai”, disse Jesus aos apóstolos.

            Não é claro que eram os espíritos superiores que viriam assistir aos discípulos em suas missões? Não será isso um “dom” do Pai?

            O próprio Lucas afirma que escreveu o seu Evangelho por inspiração “dos que desde o principio viram as coisas com seus próprios olhos e foram os ministros da palavra”. Esses espíritos, pois, seriam demônios que inspiraram o evangelista sobre as narrações dos ensinos do Mestre?

            Quando os discípulos foram enviados a pregar a lei, Jesus lhes disse: “Não vos inquieteis com o que ides responder à presença dos governadores e dos reis porque o Espírito Santo falará em vós o que haveis de dizer”. Não é claro que os discípulos eram médiuns que seriam influenciados pela assistência dos bons espíritos?

            O Espírito Santo, tem-se que admitir por força de lógica, é um nome coletivo para exprimir a falange de espíritos luminosos, que são os anjos. Considera-lo Deus ou um terço de Deus que baixasse às paragens terrestres para vir ditar palavras aos apóstolos, seria presumir que o Senhor dos mundos, Todo Poderoso, fosse o mais pobre de poderes, que em ninguém mandasse, que de um servo, ao menos, não dispusesse para transmitir as suas ordens.

            A Escritura Sagrada nos diz ainda que, no devido tempo, os velhos profetizariam, os filhos teriam visões, os moços sonhariam, etc. É a mediunidade servindo de veículo às comunicações entre os vivos e os mortos que se está dando por toda a parte do mundo, porque estamos nos tempos preditos.

            Militas outras provas da lei de comunicação podem ser verificadas no Evangelho, por isso deixamos de cita-las aqui. Estas são bastantes para fazer compreender que se Jesus, os anjos, os profetas e os mortos se revelaram em aparições ou visões, falando e ensinando aos homens, fica definitivamente provada a comunicação entre o mundo visível e o invisível; portanto os que asseveram ser somente o diabo que se comunica procedem de má fé e faltam com o respeito até mesmo para com espíritos superiores.

            Essa descortesia tem concorrido para afastar os sensatos das doutrinas incoerentes, pois não é possível ser a inteligência de hoje equiparada a da época em que se organizou a igreja de Roma.

            Demais, começa o tempo do progresso a substituir o do atraso e a protervia (petulância) cede lugar à ciência.

            Na Espanha, um grupo de padres abandonou a igreja romana e constituiu uma Associação Espírita dando publicidade a todas as hipocrisias eclesiásticas no livro “Roma e o Evangelho”.

            Por toda parle sucede o mesmo, quase diariamente, com os que, ávidos de liberdade e fartos de servir ao papa, mandam a religião às urtigas.

            Aqui, nas plagas de Santa Cruz, o Catolicismo caminha num declínio espantoso. É que o povo vai perdendo a fé nos sacramentos remunerados. Os homens vivem cansados de dar dinheiro à igreja, e as mulheres, entediadas de ouvir latim, desertam os templos.

            Os seminários permanecem às moscas, porque a mocidade atual é animada por espíritos clarividentes que buscam a liberdade e o progresso pelo trabalho. A batina é o ergástulo da inteligência e o padre já se torna um motivo de chufas e pilherias para os próprios que vão às igrejas.

            É surpreendente o número de sacerdotes romanos que, atualmente, frequentam centros espíritas.

            São os que, confundidos por se verem ministros de Deus, preferem se tornar agora discípulos de Cristo.

            À proporção que o Espiritismo intensifica as suas fileiras, a religião de hóstias e rosários vê, atônita, debandar o seu exército. É a vitória da luz contra as trevas, “separando o joio do trigo” e “os bodes das ovelhas.”

            De todos os lados. atritam-se as armas do progresso com as do atraso e, de quando em vez, estrondeia do Vaticano a voz de comando:

            Avante! Firam! Firam com a palavra escrita e falada, visto não ser mais possível matá-los com o veneno e a fogueira!

            Então cresce o fervet opus. O pavor domina e encoleriza todas as batinas e batinistas. Sua eminência resolve esmagar o “Colosso” atirando-lhe bulas ou bolas de papel. Irrisão! O “Colosso” sobe sempre, o “Colosso” se tornará infinitamente grande e um dia, símbolo realizado da escada de Jacó, ligará terra e céu - o homem e Deus.

            Em todos os templos ribombam as vozes iracundas dos vassalos do papa, que esquecendo as palavras e os exemplos de amor e perdão do Cristo, atassalham (fazer em pedaços) a honra e a dignidade dos espíritas, chamando-os de bandidos, ladrões e quejandos (similar) epítetos (postos de lado).

            Outros publicam “Catecismos anti espíritas” para derrocar a nova doutrina, mas em vez de combate-la com a ciência e o raciocínio, apresentam estas armas ferrúginas e bolorentas: Adão e Eva, serpente do Paraiso, diabos e milagres.

            O livro é trocista e mal educado, pois nele, os espíritas são também acoimados de broncos, estúpidos, desonestos e até de coiceiros (pessoa grosseira que responde com maus modos) . É um vocabulário próprio do seu autor de batina. Em todo caso, pode estar certo de que alguma coisa conseguiu:  Acumulou a compaixão de todos os detratados.

            Os beatos obedecem, também, é imposição romana e entram na liça.

            Aparece para logo os ”Casos reais a registrar” com o fim de demolir a Ciência de Luz. O autor, porém, não foi mais comedido que o seu colega de estola: distrata, igualmente, os espíritas e faz pilhéria de pantomina. Contudo alguma coisa do opúsculo se aproveita, ficando como se fica sabendo de proclamar o autor! “que os seus talentos são já bastante conhecidos”, que é erudito em latim e “sobrinho de um bispo”. Retire a maior utilidade desse parentesco e, dos outros dons, são os nossos votos e ainda nos sirva o ensejo para louva-lo na habilidade revelada do aproveitamento do tempo quando se inculca sumidade médica para melhor reclamo do seu consultório.

            Mas, apesar dessa pugna ingente, titânica, encarniçada, o Espiritismo recrudesce, avulta, fortifica-se, irrompe, e, por toda a parte se estende: invade templos, devassando trevas e mistérios, penetrando até no próprio Vaticano onde foi levado por um médico de Sua Santidade - o Dr. Lapponi. 

*

            É o sinal dos “tempos” preditos. E o Brasil está inscrito entre as nações para ser um dos pioneiros no advento espiritual. Proclamamos isto, sem ligação alguma a ideais nacionalistas, que nos seria vedado possuir pelos conhecimentos que temos da reencarnação; mas porque não há negar que nenhum outro povo nos excede em sentimentalismo - o que já quer dizer Espiritualismo. Dentro em pouco o nosso caro país dará o exemplo ao mundo, mostrando que não é por acaso que se acha sob a égide de um CRUZEIRO DE ESTRELAS.

*

            Mas, elevemos os nossos corações!..

            Ofertemos este livro aos irmãos de todos os credos.

            Há de nossa parte a maior sinceridade na dedicatória. Uma ou outra vez, sentimos bem, a nossa voz aumentou de timbre. Teve exaltações. Que nos perdoem estes excessos e os atribuam só à imperfeição humana que se deixou tomar de assomos de vaidade, arrogando-se primazia de irmão mais velho, a quem os outros devem ouvir os ralhos.

            Dos sumos pontífices da igreja católica não há que apelar para a sua misericórdia: Excomungados somos por atos e pensamentos.

            Louvado seja o Senhor por tanta graça! Louvado seja o Amantíssimo Pai que permite ao mais obscuro dos filhos executar os seus conselhos, humilhando-se no amor aos inimigos: Por eles roga, por eles intercede a sua fraca súplica.

            Claridade, Pai, em nossos espíritos e possa em breve chegar até Vós o cântico de amor desferido em prece, uníssono de sentimento, acorde na harmonia do texto bíblico “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!” 


Fim






segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

19. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz


19
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


A COMUNICAÇÃO DOS ESPÍRITOS

            A comunicação do mundo espiritual com o da matéria produzindo o encadeamento perpétuo entre o visível e o invisível, constitui a causa eficiente do nosso progresso moral e intelectual.

            As descobertas, os inventos e as ciências de hoje e de todos os tempos, a ela devem o grande desenvolvimento atingido.

            No entanto, ainda existe quem repudie as manifestações espirituais, em obediência às ordens impostas pelos papas e seus prepostos.

            Ai deste nosso planeta se, de outros mais adiantados, não lhe chegassem notícias instrutivas através das comunicações espirituais. Quando de um a outro país é necessário o intercâmbio de ideias, que extensão terá essa necessidade, pois, de um a outro mundo?

            Felizmente, porém, todas as leis de Deus foram instituídas, em exclusivo beneficio de suas criaturas. Por isso, os submissos à igreja de Roma, enfastiados já de bater no peito e desfiar rosários, sem conseguir coisa alguma substancial com que saciem a sede de progresso dos seus espíritos, vão, dia a dia, desertando a religião em busca da verdadeira Fonte de Luz.

            A esses, pois, é que nos dirigimos, visto já estarem aptos para o raciocínio e para a boa vontade de progredir:

            Sabendo-se que a alma é inteligente e age por si só, é evidente que pense nos que amou na terra; podendo estar em toda a parte, pode também achar-se junto de nós; sendo possível atuar sobre a matéria, em virtude do seu corpo fluídico, o perispírito, é racional que ele se comunique com os vivos e os faça escrever, falar e transmitir-lhes pensamentos.

            É irrisório que os negadores sistemáticos achem de ver néscios ou beócios em todos os sábios que aceitaram, como verdades irrecusáveis, os fenômenos espíritas obtidos e estudados nos Congressos científicos, exclusivamente organizados para esse fim; e, mais interessante é ainda que esses negativistas tenham um argumento que consideram arrasador: não creem.

            Além disso, a razão nos dita que uma crença não poderia ter aceitação por toda a parte do mundo, se não tivesse por base um sólido fundo de verdade cujas provas estão sobejamente conhecidas até pelos próprios livros sagrados que as sancionam.

            Antes de penetrarmos o âmago da doutrina das comunicações espirituais, diremos que todos tem aptidões para a mediunidade, porque ela é uma faculdade inerente ao ser humano e que se revela de modos diferentes, apresentando também diversas ordens de fenômenos. Todavia, há médiuns mais ou menos desenvolvidos, segundo a organização de cada um.

            O médium perfeito, portanto, deve ser despido de orgulho, egoísmo, vaidade e de todas as más paixões e viver saturado da boa moral, visto que tem responsabilidade perante o Criador, a quem deve essa faculdade auxiliadora do seu próprio aperfeiçoamento.

            Não obstante, há ainda muito abuso entre alguns médiuns, assim como em sociedade, encontram-se homens que não se prezam; mas nem por isso se devem julgar todos os que a constituem pelo mesmo padrão.

            A própria igreja de Roma estaria incursa na desmoralização total se todos os seus componentes fossem igualados ao que ela tem de pior.

            Todavia, ninguém poderá negar que há espíritas verdadeiros, cujo caráter está acima de qualquer suspeita.

            Conhecida que foi a natureza dos espíritos, as propriedades semi materiais do perispírito e a ação que exercem os espíritos sobre a matéria, resta saber como podem eles produzir os fenômenos que o Catolicismo assoalha de milagrosos.

            Os espíritos superiores explicam isso de maneira racional e muito diferente da que se julgava: Sendo o fluido universal um elemento do fluido elétrico, é encontrado no espaço mais ou menos simples em estado que chamamos fluido magnético animal porque ele só dá vida à matéria, mas não inteligência.

            Assim, o espírito, combinando uma parte desse fluido universal com o que retira do médium, consegue a formação e transporte de objetos.

            Esse mesmo fluido não só nulifica o peso dos objetos e os oculta às nossas vistas mas também produz sons secos, uníssonos ou articulados, imitando a voz humana e qualquer ruído.

            A ciência dos que se julgam sábios na Terra, será um dia confundida, porque os homens estão ainda muito longe de conhecer todas as leis da natureza; mas, assim mesmo, não abandonam o orgulho, apesar de serem todos os dias advertidos por Deus, a que desconfiem de sua ignorância.

            Há quem julgue derrogação da lei de gravitação o fato de um objeto se manter suspenso, sem contado visível; no entanto, a bala que sobe ao ar, expelida pelo canhão, não derroga essa lei? E não se dá o mesmo com os aviadores que viajam no espaço?

            Dirão que as causas destes exemplos já estão conhecidas: é, pois, um incentivo para procurar conhecer as que ainda ignoram.

            Sempre que um acontecimento sensacional se realiza aparecem logo opiniões divergentes que pretendem demonstrar a verdadeira causa que o determinou: foi o que se deu com o Espiritismo.

            Admitidos os fenômenos espíritas, visto não ser mais possível nega-los, os adversários dividiram-se em sistemas, cada qual mais antagônico entre si e, afora o poder inventivo exercitado na criação de um ou outro termo técnico, com que aumentaram o mealheiro da já multimilionária tecnologia científica, nada mais conseguiram que pudesse desvirtuar a verdade das manifestações espiritas.

            Mas há também os que se não filiam a nenhum sistema e decidem a priori: Espiritismo é loucura. Estes seriam para nós motivo de risos, se não fosse de lástima a sua ignorância.

            Com isso fogem a toda e qualquer discussão séria no terreno da ciência. Os espíritas, porém, consolam-se com o apoio dos homens de merecimento incontestável que tem por companheiros.

            Demais, é preciso ter pouco escrúpulo e menos raciocínio, para acreditar que a loucura ataque de preferência a classe ilustrada que constitui a maioria adepta do Espiritismo.  Se é verdade que têm ocorrido casos de alienação entre os adeptos dessa doutrina, não se deve negar que os houve sempre e muitos em qualquer meio religioso.

            Nem sequer, ao menos, cabe à religião, seja ela qual for, o privilégio de conferir a loucura aos seus adeptos. O materialismo terá feito, talvez, maior número de alucinados. Materialista profundo, fazedor de escola até, foi Niestche - o Super Homem, e acabou imbecil.

            Se quiserem, porém, dizer que o fanatismo nas religiões conduz à demência, concordamos, mas isto entra como modalidade nos casos vários de monomania ou ideia fixa.

            Há quem tenha ensandecido, julgando-se anjo ou santo, mas há também os que regridem a gato, cachorro e outros irracionais e até a estátuas, pote de barro. etc. De inventores está o manicômio cheio e, mesmo a fortuna e o amor, coisas muito gratas ao sentimento humano,  estão constantemente aumentando o número dos monomaníacos.

            Por mais que se quisesse encobrir a intervenção do espírito no mundo corporal, não foi possível, diante da evidência dos fatos. Era preciso, pois, procurar afastar os não conhecedores dessa doutrina e traze-los contidos pela ignorância.

            Destarte, apegaram-se os interessados ao sistema diabólico, e afirmam: só o diabo é que se pode comunicar com os homens. Esses propagandistas vieram trazer, inconscientemente, grande auxílio ao Espiritismo, pois, embora a princípio tivessem inúmeros adeptos, mais tarde foram eles diminuindo, em virtude da persuasão de que, se os demônios se comunicam, sendo eles seres incorpóreos, já com isso fica provado existir, de fato, a comunicação do mundo visível com o invisível.

            Daí a destruir a invencionice das manifestações diabólicas, era um passo, apenas, que precisava dar o raciocínio. Dado tal passo, chegou-se à conclusão de que sendo o diabo inimigo do Criador e dos homens, não seria esperto e nem sabido trabalhasse ele contra si próprio, cometendo a tolice de nos dar bons conselhos, pedir que orássemos pela nossa salvação e nos submetêssemos a Deus, praticando todos os preceitos evangélicos, etc. Ora, em tais condições, bem seria preferível lidar com o diabo, a ouvir os que ensinam ser Deus mau e vingador.

            Depois, a própria igreja católica reconhece como verdadeiras certas manifestações da Virgem e dos Santos, nas aparições, comunicações orais, etc. Ora, sendo os santos, espíritos dos que viveram na Terra, ou a igreja não merece fé quando tal afirma ou se deixa apanhar em contradição se tem como certo que só o diabo se comunica.

            Sendo a comunicação uma lei que une o mundo espiritual ao corpóreo, é preciso que o seu conhecimento seja generalizado entre o ser humano a quem ela mais aproveita. Sua existência é revelada desde o princípio do nosso planeta.

            Moisés proibiu a invocação dos mortos. Portanto está provado que eles se comunicavam sem o que seria absurdo proibir ele fazer uma coisa que não existisse.

            Deve-se, porém, esclarecer que, se Moisés a proibiu foi tendo em vista a época de aspirações baixas do povo hebreu que invocava os espíritos inferiores visando a prática do mal.

            Todos os profetas, pítons e pitonisas da Escritura, nada mais eram do que médiuns que recebiam ensinos e previsões dos espíritos.

            Os Evangelhos do cristianismo estão pejados de provas da existência das comunicações. Vejamos se, ao menos, eles merecem fé por parte dos incrédulos.

            O anjo que apareceu a Maria para avisa-la do nascimento de Jesus; o que ele viu quando foi ao sepulcro do Cristo; os que apareceram, em sonho, a José e, no templo, a Zacarias; os que avisaram os magos do nascimento do Menino, não foram manifestações espíritas? Estes anjos não eram deuses, nem santos da igreja e nem cremos que o Catolicismo afirme fossem demônios; logo, a igreja não é sincera com os seus fieis, ensinando-lhes que só o diabo dá comunicações.

            As aparições do anjo a Jesus em Getsêmane e de Elias e Moisés no monte Tabor, como se devem compreender? Os dois últimos não eram espíritos de mortos? Então os que morrem podem comunicar-se. Logo, a igreja vive a enganar a sua gente quando afirma que só o diabo se comunica.

            O próprio Jesus aparecendo diversas vezes aos apóstolos e a Paulo no caminho de Damasco, prova que o espirito pode se comunicar. Os mortos que foram vistos a andar pela cidade, quando Jesus ressuscitou não eram os espíritos dos que viveram? Não se tornaram visíveis para provar o júbilo de haver o Mestre completado a sua obra de regeneração? Portanto, os espíritos podem se manifestar, logo, a igreja abusa da boa fé porque não ensina a verdade.


domingo, 9 de dezembro de 2012

18b. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz



18b
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


A REENCARNAÇÃO



            A doutrina da reencarnação, quando mesmo não pudesse o homem dedutivamente encontra-la, tinha já por si a afirmação de Jesus em muitas passagens do Evangelho.

            Respondendo a Nicodemos disse o Mestre:

            “Em verdade te digo que se o homem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus” Nicodemos lhe disse “Como pode o homem nascer sendo já velho?” Jesus respondeu: “Em verdade te digo que se o homem não renascer da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que nasce da carne é carne e o que nasce do espirito é espirito.”  

            “Não te admires de eu te dizer: É preciso que tornes a nascer.”

            Para quem dispõe de um pouco de bom senso, não pode haver nada mais claro. Só faltou a Cristo dizer: Tu tens que reencarnar, isto é, nasceres outra vez, tomando novo corpo, para expurgares todas as tuas faltas, com o teu espírito subjugado à matéria. Isto, porém, naquela época, seria incompreensível a Nicodemos que apesar de “doutor” não alcançaria  tanto. Tal qual como os há hoje ainda a quem vai certa a exprobração de Cristo a Nicodemos:

            “Pois tu és doutor em Israel e desconheces estas coisas?”

            Israel aqui, também pode ser figurada nos domínios papais, onde os respectivos doutores desconhecem tudo quanto é racional, sublime e verdadeiro.  Continuemos, porém, volvendo o olhar para as passagens evangélicas.

            Quando Jesus perguntou aos apóstolos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Responderam-lhe: “Uns dizem que João Batista, outros que Elias, Jeremias, ou algum dos profetas.”

            Isto revela, evidentemente, a crença na reencarnação, que existia entre o povo; e essa opinião estava já consagrada, pois que, Jesus não a repeliu, como fazia sempre que os seus discípulos incorriam em atos ou crenças absurdas. Bem ao contrário, porém, ele sancionou a verdade da reencarnação, com o seu silêncio.

            Quando ainda os discípulos lhe perguntaram: “Porque dizem os escribas e fariseus que Elias deve vir primeiro?”

            Jesus retrucou:

            “Digo-vos que Elias já veio e eles não o conheceram.”

            Compreendendo os discípulos que ele se referia a João Batista, também não foram dissuadidos dessa compreensão pelo Mestre. Em vez disso Jesus fortaleceu a velha crença do renascimento, confirmando, sem equívoco possível, a reencarnação do espírito de Elias no corpo de João Batista: “Se quereis compreender o que vos digo, é Ele mesmo, que é o Elias que há de vi”. E, por mais que os interessados na cegueira humana se esfalfem em negar, esconder e mutilar essa lei impecável da reencarnação, será cada vez mais infrutífero tal esforço. Ela é como um rio caudaloso: se por um lado se pretende barrar-lhe a passagem, ela extravasa pelo outro. Criação de Deus, que poder maior se lhe pode contrapor?

            O raciocínio é também um grande agente na percepção das causas transcendentes; vamos, pois, emprega-lo neste problema:

            O próprio Cristo, segundo afirma a igreja romana, encarnou na terra. Ora, é claro que o seu espírito não foi criado exclusivamente para animar o corpo do qual se servira, porquanto era adulto e perfeito quando aqui nasceu. Porque razão, pois, outros espíritos também adultos, embora não aperfeiçoados, não podem igualmente tornar a nascer, tomando outro corpo?

            A igreja quer secar o oceano, retirando-lhe as águas a colherinhas de chá.

            Ainda outra prova de reencarnação se evidencia nesta previsão de Jesus, por ocasião da Ceia pascoal, dirigindo-se aos apóstolos:

            “Em verdade vos digo que um de vós me trairá; mas, ai daquele por quem será entregue o Filho do Homem: melhor fora a esse não ter nascido.”

            Tomando-se a criação da alma especialmente para cada corpo, seria incompreensível que Jesus assim falasse, visto que, se Judas não tivesse nascido, ficaria o seu espírito criado, inutilmente, sem animar nenhum corpo.

            Vejamos, no entanto, de que modo a doutrina da reencarnação esclarece aquela sentença do Cristo e prova a sabedoria e a verdade com que foi ela proferida.

            Judas, do mesmo modo que todos os apóstolos, Maria, José, João Batista e demais personagens que aparecem no Evangelho, pediram para vir à Terra auxiliar a missão de Jesus; era para eles uma felicidade trabalhar em beneficio do Mestre.

            Judas, porém, embora advertido de não levar a cabo tão espinhosa missão, em virtude de suas tendências, ainda não curadas, para o erro, insistiu e veio a baquear com a traição, que a ganância pelo dinheiro o obrigou a praticar.

            Ante semelhante queda, é que Jesus disse: “ser melhor não ter ele nascido”- isto é, não haver reencarnado na terra, pois teria de encarnar em outra ocasião, neste, ou noutro planeta, ficando isento da consequência desta nova falta.

            O crime de Judas não é maior porque incorre numa traição contra o Cristo. Judas, reencarnado, que foi, ignorando as qualidades divinas do Mestre, praticou uma grave deslealdade de amigo e como tal é que se o deve julgar.

            Demais, tudo tinha que se passar assim pela vontade do Altíssimo. A tragédia estava escrita e precisava ser representada. Coube a Judas um ingrato papel mas era o que lhe estava distribuído.

            Outro raciocínio conduziria a diminuir o poder de Deus quando tivesse de lidar com Herodes e Pilatos...

            Daqui, pois, um apelo aos homens de boa vontade: Reabilitai Judas em vossos corações! Não permitais que, nos sábados de aleluia, continuem os vossos filhos, na sua inconsciência, apupando um comparsa do drama que se desempenhou a contento do Autor. Sem ele, notai bem, a obra de amor, humildade e perdão que veio Cristo pregar ao mundo, resultaria incompleta, faltando-lhe o exemplo edificante do Pregador.

            Além disso, tantos séculos são decorridos após estas cenas, que Judas, reabilitado já pelas sucessivas reencarnações, é hoje um espírito de luz, digno do nosso amor e maior respeito.

            A reencarnação, em suma, é uma lei estabelecida, comprovada e aceita pela maioria dos homens de bom senso. O Evangelho está repleto de advertências que ressaltam ao espírito, sobre a existência dessa lei e só não as percebe quem está interessado em tresler (ler trocado ou às avessas).

            Negar a reencarnação é negar a palavra de Cristo: ademais se ela não existisse, nem valia a pena ter Jesus descido à Terra para ensinar a um resumido número de homens, cuja vida seria extinta em breve. O Evangelho, portanto, restaria inútil, visto que, não sendo ele cumprido, como devia ser pela religião romana, bastava à gente permanecer simplesmente católico para ganhar o reino do Céu.

            Não. Jesus veio para premunir (acautelar) o futuro dos existentes que haviam de voltar. É isso o que tem acontecido e acontecerá, mesmo em relação aos doutores da igreja de Roma, pois, embora contra a vontade hão de tornar a nascer. Não se atemorizem, porém, porque voltarão com melhores ideias. Esse é, aliás, um castigo merecido, pois, já hoje, não se lhes dará crédito que, de boa fé, perseverem no erro, mas sabe-se bem que, só por interesses inconfessáveis, dissimulam a sua irredutibilidade.

sábado, 8 de dezembro de 2012

18. "À Luz da Razão' por Fran Muniz






18
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


A REENCARNAÇÃO


            A reencarnação, lei sublime do Criador, reveladora da sua infinita bondade, tem suscitado dúvidas e controvérsias, não obstante a clareza do seu texto e não obstante, mais, estar o Evangelho cheio de parábolas que a ela fazem alusão.

            Sem o conhecimento de tal lei, que hoje temos revelada pelo Espiritismo, permaneceriam essas parábolas com o seu sentido obscuro.

            E é bem de notar que, em todas elas e só nelas pôs Jesus a observação: Ouçam os que tem ouvidos para ouvir.

            Nem foi por menos que a igreja se viu embaraçada para explicar a passagem em que se apresenta a Jesus um cego de nascença...

            A igreja católica, que desconhece a reencarnação, saiu-se desastradamente a esclarecer estas palavras ela que admite só uma alma novinha para cada corpo) e afirmou:  horresco referens! (tenho horror em ter que dizê-lo) que aquela criança vinha assim punida por haver pecado no ventre materno!         

            Para o Catolicismo, especialmente, essa Lei é um terrível escolho de que ele procura afastar-se por todos os meios, a fim de evitar que a sua nau afunde com toda a carga de dogmas e sacramentos.

            Não se atemorize, porém, a igreja de Roma, porque o seu barco há de soçobrar, fatalmente, não sobre o parcel da reencarnação, mas, de encontro ao recife da própria consciência dos seus adeptos. Não está longe esse naufrágio: aguarde-o com calma e resignação.

            Mas, em quanto a doutrina espírita não começa a prestar o salvamento desses náufragos, colhidos pelas ondas vorazes da ambição e da ignorância, tentemos, em breve resumo, esclarecer as vantagens e a justiça da reencarnação, e vejamos se, ao menos, os católicos criteriosos podem compreende-la:

            Deus na sua infinita bondade, “não quer que nenhum dos seus filhos se perca”; por isso estabeleceu a Lei da reencarnação, para que os perdidos, hoje, possam ser salvos, amanhã. Chamando a todos “seus filhos”, não pode permitir que a dor se perpetue para uns enquanto desfrutam outros a felicidade eterna. A crença de semelhante iniquidade só podia germinar no cérebro dos que desconhecem os infinitos atributos do Criador.

            A alma que não atingiu o grau de aperfeiçoamento numa existência, reencarna tantas vezes quantas forem precisas para o complemento da purificação inerente a cada planeta. Isso é justo e racional; um pai não atira ao fogo o filho que tiver defeitos, mas procura meios de corrigi-lo e aperfeiçoa-lo.

             A reencarnação tem por fim lapidar o espírito. É a lei da evolução a que tudo obedece.

            De reencarnação em reencarnação, sempre se avança um passo na longa estrada do progresso; destarte, o que mais se esforça, mais depressa termina as provações num planeta para galgar a outro e assim sucessivamente, até chegar a espírito puro ou bem aventurado.

            O espírito embora reencarnado em mundo superior, pode voltar a reencarnar na Terra, não só para desempenhar uma missão que é, aliás, um progresso próprio, como também por expiação. É precisamente isso a figura do Paraíso perdido por Adão, e cujo sentido real consiste em ser o espírito, que prevarica,  expulso de um planeta superior para encarnar na Terra ou outro mundo equivalente; todavia, pode o espírito deixar de habitar todos os mundos, visto que, sendo estes muitos e solidários entre si, o que não se realiza nuns, pode se realizar em outros.

            Para atuar sobre a matéria, os espíritos são revestidos de matéria. É o corpo astral, no dizer de S. Paulo e a que chamamos perispírito, o qual é conservado em todos os mundos onde estiverem os espíritos; mas essa matéria é sempre relativa á atmosfera de cada planeta, isto é, mais ou menos material.

            “Há muitas moradas na casa de meu Pai”,  mas não podemos ainda conhecer o estado físico e moral de cada uma; a nossa inferioridade nos perturba a inteligência ao tentarmos penetrar nesse segredo para o qual não dispomos de sentidos suficientes.

            Nessas moradas que são os mundos em diversos graus de superioridade, a matéria que serve de corpo aos espíritos, é menos densa e eles não se arrastam na superfície do solo, para se locomoverem; as necessidades físicas são menos grosseiras e não há destruição de seres vivos para o alimento; os espíritos são mais livres e tem percepções que nos são desconhecidas.

            As paixões animais desaparecem e o egoísmo é substituído pelo sentimento fraternal. As guerras são desconhecidas; os ódios e as discórdias não existem, porque os espíritos vivem em sociedades mais perfeitas.

            Os espíritos que habitam mundos elevados, podem se transportar a outros planetas, desde que isso lhes seja permitido pelo seu respectivo grau de elevação.

            Em urna nova encarnação, pode o espírito sofrer um estacionamento, mas nunca, retrogradar. Assim, a alma de um homem de bem jamais poderá revelar sentimentos de bandido; mas pode, ao contrário, a alma deste revestir-se de qualidades superiores. Neste caso, dá-se uma recompensa do arrependimento.

            Os espíritos elevam-se gradualmente na hierarquia e nunca descem do ponto a que chegaram. Nas diferentes reencarnações, a alma que tivesse animado um soberano na Terra, pode, mais tarde, animar o mais humilde operário e vice versa; temos disso a mais eloquente prova na disparidade entre Herodes, que era rei e Jesus, simples carpinteiro.

            O espírito de uma criança é, às vezes, mais adiantado do que o de um adulto; vemos a cada passo, crianças com discernimento superior ao dos próprios pais. As que morrem em tenra idade podem pertencer ou não aos graus superiores: depende do adiantamento que possuíam antes da última existência. Não quer isso dizer, porém, que se achem isentas das provações que tiverem de sofrer, pois voltarão novamente, se tanto for necessário ao seu aperfeiçoamento.

            A morte da criança pode ser o complemento de uma existência anterior interrompida ou causada por descuido ou livre arbítrio próprio ou de outrem, mas é sempre uma provação para os pais ou para quem deva merece-la.

            A teoria de uma única existência, ficando a alma com a sorte futura para sempre fixada, tiraria o mérito de uma parte da espécie humana que morre na infância, para gozar, sem nenhum custo, da felicidade eterna, quando a outra parte, para fruir as mesmas regalias, é submetida a duros sofrimentos. Tal condição não se poderia coadunar com a  justiça de Deus. Não. A lei da reencarnação distribui um futuro comum, porque há igualdade para todos, sem exceção nem favor para ninguém. Os retardatários só podem queixar-se de si mesmos.

            Vemos, por toda a parte, crianças que, precocemente, demonstram o instinto da astúcia, da hipocrisia, da perfídia, do latrocínio e até do homicídio, não obstante os bons exemplos que as cercam. Isso é uma prova evidente de que tais perversidades são o estigma da inferioridade do espírito, provindo de existências anteriores, visto que a educação atual nada influiu no caso.

            Esses espíritos pouco adiantados, porém, com a nova encarnação, sofrem as consequências dos seus vícios de outrora e ao mesmo tempo se aperfeiçoam à proporção que se vão desfazendo dos seus erros passados e presentes.

            Assim a lei é a mesma para todos e a justiça de Deus se estende com perfeita igualdade.

            Os espíritos não tem sexo como nós o entendemos, porque, entre eles, o amor e a simpatia são sentimentos superiores ao amor fraterno, que nós conhecemos. Pouco importa se os espíritos encarnaram homem ou mulher: isso depende da espécie de provação que tem de passar. Além de que, eles devem progredir em tudo, evoluir por todos os meios.

            A teoria de que a doutrina da reencarnação destrói os laços da família, é o maior dislate que tem sido proclamado pelos detratores do Espiritismo, pois bem, ao contrário disso, a lei das sucessivas existências, estreita mais esses laços e concorre para a fraternidade universal. O nosso parentesco remonta a quem e além da nossa atual existência: as simpatias que experimentamos por certas pessoas que nos parecem estranhas, demonstrem perfeitamente a possibilidade de que houvessem sido nossos parentes em outras existências.

            Ao homem orgulhoso não convém admitir que tivesse sido irmão, filho ou pai de um indigente atual: isso lhe traria rubor às faces; mas quer queira quer não, assim tem de ser porque Deus não lhe virá pedir opinião para organizar suas leis.

            Os pais transmitem aos filhos a semelhança física mas não moral porque os espíritos de ambos são individuais e diferentes; o corpo provém do corpo, mas o espírito não procede do espírito. Quando, há, porém semelhança moral - entre pai e filho, é que ambos são espíritos simpáticos que se atraem pela afinidade de sentimentos.

            O espírito do pai tem por missão desenvolver o do filho, pelos exemplos e pela educação: aqueles que prevaricam nessa tarefa serão culpados e portanto, responsáveis.

            Se a aproximação dos espíritos se faz por simpatia, a vida em comum, para eles, torne-se feliz. Daí a identidade de caráter que existe entre irmãos. Quando, porém, entre diversos irmãos existe dissemelhança de sentimentos, indica isso que espíritos perversos ou atrasados quiserem também vir lutar juntos na vida terrena, para tirar maior proveito da boa aproximação, mas que não resistiram às suas mais tendências.

            A afinidade de caráter reúne em grandes famílias as diversas nações; eis como se explica a semelhança de costumes que distingue cada povo de per si.

            Durante a encarnação, os espíritos podem esquecer. a principio, os conhecimentos obtidos em cada existência: mais tarde, porém, tem dessa aprendizagem a intuição para os auxiliar no progresso e, em cada nova existência, tomam por ponto de partida o último grau de conhecimento deixado na anterior, sem o que estariam sempre a recomeçar e, portanto, sem progredir.

            Não é, porém, imprescindível haver constante analogia entre duas existências sucessivas, podendo o espírito vir muito mais adiantado, visto que haverá aprendido no intervalo de uma a outra encarnação.

            Diz-se, falando de certas criaturas, com aprendizado fácil para determinados conhecimentos, que tem a ‘bossa’ da ciência, das artes, etc.

            Que significação poderia ter isso, se não dispuséssemos da lei da reencarnação?

            De fato, quem mais facilidade encontre em aprender é que está apenas recapitulando a lição. O consagrado artista de hoje, foi um medíocre poeta na existência última.  E o benemérito descobridor de um serum, e o genial inventor de um grande benefício para a humanidade, há quantos séculos viriam preocupados com essas ideias?

            O instinto que tem o selvagem da existência de um Deus é uma recordação do que ele conservou como espírito, antes da encarnação. Devidas ainda à recordação, são certas crenças da doutrina espírita que é tão velha como o mundo: essa consciência da vida espiritual é, porém, falseada pelo orgulho e conveniências interesseiras.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

17b. 'À Luz da Razão' por Fran Muniz



17b
“À Luz da Razão”

por   Fran Muniz

Pap. Venus – Henrique Velho & C. – Rua Larga, 13 - Rio
1924


O INFERNO E OS DEMÔNIOS

            Esse inferno, cujo fogo também faz milagres, em represália aos santos católicos, permanece em completa escuridão e as “suas chamas nada alumiam mas produzem uma luz que permite ver os objetos...

            Se alguém entender isso, palavra que somos capazes de acreditar no Catolicismo! parece até a anedota daquele militar que tendo perdido o braço direito conquistando, por isso, uma promoção, puxou da espada e cortou o esquerdo para novamente ser promovido.

            Com semelhante teoria a igreja obriga os seus fieis a desconfiarem desse inferno, porque assim como esse fogo sem “alumiar produz claridade”, também pode não ser quente o que não admira, visto ser ele milagroso; e como o milagre é a chave de todos os problemas absurdos, conclui-se que a igreja acaba “trabalhando para o bispo”.

            Saltemos, porém, a outras passagens tanto ou mais desopilantes, sem mesmo nos preocuparmos com o “mar de fogo” que é um “cárcere estreito” em “trevas claras” e “escuridões iluminadas”.

            Para que servirá uma cama no inferno, a quem se debate mergulhado no fogo? Será para descansar das fadigas do dia? Poder-se-á dormir envolto em labaredas?

            Para que se precisará comer cobras e lagartos e beber fel de dragões? Será para não morrer de fome e de sede? Será com o fim de fortalecer o corpo para suportar as chamas eternas? A bicharada e o fel dos dragões serão também de fogo? No caso afirmativo, não há necessidade deles, visto ter lá fogo por toda a parte para ser comido. Se não o são, o tal inferno é mesmo milagroso!

            Ora, uma criatura a debater-se nas labaredas eternas; a estorcer-se na dor e na agonia de um suplício sem tréguas: a gemer em contorções cruciantes, nas vascas de uma morte horrível que nunca tem fim; terá acaso ocasião e vontade de alimentar-se e dormir?

            Sejamos sinceros! Só a ambição de uma doutrina gananciosa poderá afirmar tais baboseiras e lança-las como escárnio ou debique à boa fé alheia.

            Contudo façamos ainda um apelo à consciência, construindo a seguinte parábola:

            Dois irmãos recebem do pai todos os confortos e carícias; mas, apesar dos bons conselhos e exemplos paternais, se desavêm por qualquer futilidade. Impelido pela raiva, o mais forte avança sobre o mais fraco, maltrata-o com pancadas e inutiliza lhe os
brinquedos.

            Diante de tal iniquidade, o pai apresenta-se e diz: Filho maldito, foste mau para teu irmão! Fizeste-o sofrer e por isso eu te amaldiçoo! Desde já retira-te desta casa, porque és indigno dela! Não te quero ver mais! Serás levado ao deserto para que sejas devorado pelas feras! És um desgraçado e a minha vingança é irrevogável.

            Aqui temos a cópia da injustiça e da maldade divinas, figuradas no inferno católico.

            Tomemos agora os mesmos personagens e o mesmo incidente.

            Aqui, porém, o pai se dirige ao filho vencedor e diz:          

            Meu filho, foste mau para teu irmão. Obrigaste-o a verter lágrimas de dor e de desgostos pela perda dos seus brinquedos. Não sabes, meu filho, que amo a ti, como a teu irmão? Que tudo quanto faço por ti também o faço por ele? Foste injusto!

            Agora, como reprovação ao teu ato, de agora em diante, não terás mais os meus beijos, porque estou zangado contigo!

            Levarei só o teu irmão aos divertimentos, enquanto que tu, meu filho, permanecerás sem os meus carinhos, até que te arrependas.

            Para isso, é necessário que voltes a amar teu irmão, abraçando-o e beijando-o, como fazia teu pai contigo - Mas, para que fique provado o teu arrependimento sincero, é preciso ainda inutilizares também os teus próprios brinquedos, para que passes pelos mesmos desgostos, sintas as mesmas faltas e vertas as mesmas lágrimas que acarretaste a teu irmão.

            Só assim, meu filho, voltarás aos meus braços, terás novamente os meus afagos, pois eu tanto quero a ti como a ele, porque tu e ele são meus filhos.

            Eis a justiça e a bondade de Deus figurada na doutrina sublime e bendita da reencarnação.

            Desnecessário, pois, será perguntar ao leitor qual dos dois procedimentos é o mais justo e racional. Estamos a ouvi-lo optar pelo ato do pai da segunda   comparação.           

            Ora, se um pai humano, procede com seu filho com tanta bondade, tanta brandura, como poderá o Pai infinito, o Pai do amor, proceder diversamente, mandando seus próprios filhos para o inferno, onde terão de permanecer eternamente?

            Semelhante monstruosidade só é concebida para atemorizar os pusilânimes e assustar as crianças medrosas, enquanto que, para outros, é motivo de compaixão e para a maioria, uma provocação à hilaridade.

            Dizem, porém, os insensatos, que Deus manda para o inferno aqueles que, até á hora da morte não se arrependem do mal praticado. Ora, isto seria clamorosa injustiça com os que morrem inesperadamente, sem o devido tempo de se arrependerem.

            Se o espírito sobrevive ao corpo é racional que possa fazer, depois da morte, o que deixou de fazer antes. Porque, então, faria Deus essa questão fechada, de só querer perdoar antes, quando o espírito, podendo salvar-se pelo arrependimento, que poderia vir mais tarde, ficava tolhido dessa graça, para lhe ser dado o sofrimento eterno?

            Demais, um Deus que tivesse um limite para ser bom, não podia ser “infinitamente bom”.

            Triste condição faz da grandeza do Criador, o orgulho ignorante de uma parte de seus filhos!

            É bem certo que Jesus, algumas vezes, empregou a palavra “inferno” para dar uma ideia dos sofrimentos; mas foi impossibilitado de demonstrar o estado das coisas do universo, que seriam incompreendidas, numa época de crenças inveteradas e atraso intelectual. A igreja que partilha ainda desse intelecto da prisca idade, traduziu aquele inferno ao “pé da letra”, atulhou-o de “demônios”, e o circunscreveu em um determinado lugar que, até hoje, ainda ninguém soube dizer onde é.

            E enquanto os sensatos desopilam o fígado com a ideia desse “escalda-mundo”, familiarize-mo-nos com esses ”demônios”' cabrioleiros (cambalhota, salto, pulo), pois, que eles não são incorrigíveis como se propala.

            A estulta perspicácia dos doutos papalinos, descobriu, em diversas discussões de Concílios, que a virtude e o vício, não poderiam emanar de uma mesma fonte e, havendo já obtido o manancial das virtudes representadas nos anjos, tendo por chefe o próprio Deus, entendeu que os vícios só poderiam ser obra exclusiva dos “demônios”, para cuja chefia  “criou” um Satanás, também poderoso e agindo com independência.

            Esta outra parvoice (tolice) tem sido bastante rebatida e, hoje, já é muito pouco aceitável: todavia nunca será demasiado insistir no assunto.

            Assim, não hesitaremos em refutar essa insípida teoria diabólica que a igreja procura, ainda hoje, manter, em oposição ao adiantamento intelectual do século.

            Mesmo aqueles, cuja cultura espiritual não está preparada para compreender o real valor da bondade e justiça de Deus, basta um pouco de reflexão para repelir a possibilidade desse Belzebú católico.

            A própria igreja, aliás, tem a sua dúvida se Satanás existe ou não, de toda a eternidade, como deus, pois nunca explicou a genealogia dessa entidade infernal.

            Na verdade, se Satanás é incriado, forçosamente, é igual a Deus e, nesse caso. Deus “não é único”, visto haver um deus do mal; se é posterior, é fatalmente, uma criatura de Deus, logo, Deus “perde a bondade e a justiça” criando um ser exclusivamente destinado ao mal e incapaz de arrepender-se; se, ainda, Satanás criou-se a si mesmo, é evidente que tem poder igual a Deus e, por consequência, Deus “não é Onipotente”, além de “não ser único, nem bom, nem justo”.

            Este raciocínio obriga a responsabilizar, mais uma vez, a igreja, pelo crime de negar e ensinar a negação dos atributos de Deus; e, quando ela é levada ao tribunal do Bom Senso, para dar explicações desse novo atentado clamoroso, serve-se de uma defesa que qualquer criança inteligente seria incapaz de apresentar.

            Nessa defesa a igreja procura provar, afirmando que parece certo, a lenda da revolta dos anjos contra as ordens do Criador, em virtude de alguns desses rebeldes não se conformarem com a vinda de Jesus, como homem, ao planeta Terra, o que consideraram um rebaixamento à natureza angélica. Daí a expulsão dos arcanjos delinquentes que, amaldiçoados por Deus, transformaram-se em demônios habitantes do inferno e chefiados por Lúcifer, cabeça da sublevação celeste.

            Como vemos, o diabo é muito novo... tem apenas dois mil anos! Que sorte dos que viveram antes de Cristo, com um inferno acéfalo e vazio e quando a “Empresa Catolicismo” não tinha ainda organizado o serviço de viação para lá!

            De modo que, com tal teoria, a igreja desmente a felicidade eterna do reino da Glória, visto os que lá estão, viverem sobressaltados e sujeitos a novas e consecutivas sedições, como acontece aqui neste nosso mundinho pobre e torturante.

            Além disso, a igreja confirma e reincide no crime de que é acusada, pois assevera que Deus não pode ou não soube criar os anjos perfeitos e enganou-se completamente, supondo te-los criados dóceis e exclusivamente bons, quando, no entanto, lhes deu a maior soma de ira, rancor e desobediência, a ponto de se revoltarem contra seu próprio Criador.

            Assim, segundo a igreja, Deus continua falível, ou seja, insciente e impresciente.

            Esta crença de inferno é, em suma, o mais atoleimado disparate de todos os dogmas do catolicismo, instituído para satisfação do orgulho, da ambição e, sobretudo, da ganância das glórias e das posições salientes que os seus organizadores ocupam entre os pobres e fracos da terra.              

            Deixemos crenças tão tolas dos tempos antiquados, porque a Nova Ciência que aí está ganhando terreno palmo a palmo. Veio nos trazer a luz para o desenvolvimento intelectual.
           
            Por ela, ficamos sabendo que não pode haver sorte estacionária dos espíritos, sem o que não poderia haver progresso. Sendo, pois, o progresso uma lei estabelecida pelo Criador, é lógico que existem no universo espíritos em todos os grãos da escala dessa lei; portanto, podemos compreender, perfeitamente, a intenção de Jesus, quando disse:

            “Há muitas moradas na casa de meu Pai.”

            Assim, o inferno, se tal expressão quisermos empregar, é, para os infelizes, o mesmo universo que o céu para os afortunados, porque, aí, os espíritos são encontrados nos sofrimentos e desgostos em diversos grãos, segundo a culpabilidade de cada um; essas penas, porém, não são eternas, pois isso desmereceria os atributos de Deus que, nesse caso, seria infinitamente vingativo, quando a razão nos diz ser Ele infinitamente bom e misericordioso.

            Contudo. se ainda e apesar do raciocínio, os católicos continuarem a admitir o inferno-espantalho e seus respectivos Satã e caterva, devemos lembrar-lhes que, visto os “demônios” terem o dom de tomar a aparência de tudo que lhes aprouver, podem, portanto, se transformar, também, em padres. Nesse caso, toda a precaução é pouca, pois é bem possível que os fiéis, supondo frequentar a casa de Deus, estejam, no entanto, iludidos com todos os diabos.

            Sosseguem, porém, que nem esta última hipótese, apesar, de lógica, pode prevalecer diante do texto incisivo do Evangelho:

            “O Pai não quer que nenhum dos seus filhos se perca.”

            Ora, sendo as palavras de Jesus a reprodução das que foram ensinadas pelo Pai, é claro que aquela frase significa uma vontade de Deus e os crentes humildes e sinceros entendem que a vontade de Deus é imutável e irrevogável.

            Mas, a igreja bateu o pé, cerrou os punhos e num acesso furioso, ainda uma vez, se opôs ao Absoluto e continua a pregar o inferno e a perdição dos filhos de Deus, afirmando, assim, que Deus não tem querer nem vontades.

            Respondam os católicos: Terá ela competência para contrariar Deus? Se concordarem... Deus que os perdoe!

            Felizmente, porém, dentro em pouco, quando o Evangelho estiver ao alcance de todos e a inteligência de todos ao alcance do Evangelho, as igrejas, então, em ruínas, serão apontadas como um lugar maldito de heresias e sacrilégios contra o Supremo Gestor
dos Universos.