Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Pedagogia Espírita. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedagogia Espírita. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de abril de 2015

Aprender sem Escolas


Aprender sem Escolas
Tobias Mirco / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Abril 1971

            É ponto pacífico, entre os espíritas verdadeiramente familiarizados com a Doutrina, que o caráter desta é essencialmente progressivo, mas que, não obstante a sua tolerância, exige reflexão, prudência e critério analítico, “e evitar ir de cabeça baixa ao encontro dos devaneios da utopia e dos sistemas”, buscando sustar iniciativas inovadoras nem sempre convenientes. E, na verdade, isso tem sido feito sempre, “a tempo, nem muito cedo, nem muito tarde, e com conhecimento de causa”, segundo as palavras do Codificador. “Aliás, a experiência já comprovou o acerto dessa previsão. Tendo marchado sempre por esse caminho desde a sua origem, a Doutrina avança constantemente, mas sem precipitação, verificando sempre se é sólido o terreno onde pisa e medindo seus passos pelo estado da opinião. Há feito como o navegante que não prossegue sem ter na mão a sonda e sem consultar os ventos.(1)

            Compreende-se, portanto, a responsabilidade de todos os espíritas na salvaguarda do inavaliável patrimônio que nos deixou Allan Kardec, legatário eleito de nobres Espíritos. Com o peso incontestável de sua autoridade, Emmanuel afirmou que Doutrina Espírita “quer dizer Doutrina do Cristo”. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos” (2), razão primacial para que a Federação Espírita Brasileira, e concomitantemente todos os espíritas, permaneçam vigilantes, resguardando-a, preservando-a, para que ela conserve a pureza dos seus preceitos e o vigor que até hoje eles possuem, assegurando os benefícios que proporcionam à criatura humana oportunidades de compreender a vida terrena, porquanto, disse Léon Denis, “o homem tem tanta necessidade de uma crença como de uma pátria, como de um lar”. E é o Espiritismo que nos dá o conhecimento pleno da religião, ao mesmo tempo que esclarece o porquê da vida terrena, sua correlação com a vida espiritual, a razão dos problemas humanos, dentro e fora do lar, assim como a causa dos sofrimentos, os meios de que podemos dispor para melhor entender o mundo em que vivemos, a importância do nosso comportamento moral, etc.

            Como não há milagres, obviamente o Espiritismo não faz nem poderá fazer milagres.

            Dá-nos os elementos imprescindíveis à correção dos nossos rumos na vida, à melhoria da nossa posição em face dos nossos semelhantes, mas tudo dependerá principalmente de nós, embora possamos contar com o beneplácito dos Espíritos amigos, prontos a nos ajudar, sem, contudo, interferir no nosso livre arbítrio. Justamente por tudo isso, ressalta a responsabilidade de cada indivíduo, porque as palavras são de Léon Denis “o Espiritismo será o que dele fizerem os homens. Similia similibus! Ao contato da Humanidade, as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Podem constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai, continua sendo pérola ou se transforma em lodo”. (3)

*

            Companheiros de crença, imbuídos, sem dúvida alguma, dos melhores propósitos, tem procurado introduzir no ambiente espírita ideias e ações que consideram úteis e de extraordinárias consequências para o progresso do Espiritismo. Empolgados, não se apercebem da possibilidade de inconveniências ocultas sob o entusiasmo de que se deixam possuir. Eis o motivo pelo qual nem sempre a Federação Espírita Brasileira concorda com determinados procedimentos e iniciativas. Nem sempre também as atitudes da Casa de Ismael são imediatamente compreendidas, ainda que, ulteriormente, o tempo venha sempre comprovar o acerto das suas prudentes resoluções, como a História o demonstra.

            Escreveríamos um livro se nos aprofundássemos na exposição dos fatos justificativos do que vimos de asseverar. Há alguns anos, por exemplo, foi criada uma faculdade brasileira de estudos psíquicos. Tudo muito solene, muito acadêmico, muito intelectual. O conhecido malogro da iniciativa dispensa maiores comentários. Mas a ideia ficou bailando na mente de alguns confrades, que a transmitiram a outros entusiastas, direta ou indiretamente, de modo que, volta e meia, surgem planos idênticos. Até se pretende elaborar uma “pedagogia espírita”, como já se criaram escolas espíritas, escolas de médiuns, institutos espíritas de educação, cursos de introdução a uma pedagogia espírita, etc., culminando tudo isto com uma publicação de educação espírita. Sem dúvida nenhuma, isso é belo e sedutor, mas traz em seu bojo desvantagens que um exame atento revelará, uma das quais está no fato de nos levarem aos mesmíssimos caminhos já percorridos por outras doutrinas, por outros movimentos de caráter religioso ou filosófico. Os mesmos esquemas, as mesmíssimas estruturas vigentes no setor materialista ou pseudo espiritualista.

            Entenda-se: não somos nem podemos ser contra a educação, mas a Doutrina Espírita nos sugere rumos diferentes para a sua aprendizagem, por sua maleabilidade e natureza. A Doutrina sofrerá deturpações e mutilações, dentro de uma didática formal, materializada, fruto de um intelectualismo que tem sido nocivo até mesmo a doutrinas políticas. Considerando, portanto, com Kardec, que “princípio do melhoramento está na natureza das crenças, porque estas constituem o móvel das ações e modificam os sentimentos”; que “também está nas ideias inculcadas desde a infância e que se identificam com o Espírito”; que “está ainda nas ideias que o desenvolvimento ulterior da inteligência e da razão podem fortalecer, nunca destruir”, concluiremos, ainda com Allan Kardec, que é pela educação, mais do que pela instrução, que se transformará a Humanidade”. (4) Mas a educação espírita terá de continuar sendo feita pela própria Doutrina, sem currículo escolar, sem professores em Espiritismo, sem alunos habilitados em Espiritismo, sem os perigosos resvalamentos que conduzem à indiferença pelos problemas morais inerentes aos ensinos dos Espíritos, porquanto o Espiritismo Evangélico é fundamental e essencialmente democrático, já que não veio para segmentar, mas para unir, unir sempre. A pedagogia espírita está nas obras do Codificador, iluminadas pelo Evangelho de Jesus, na realidade o único Mestre, a quem Clemente de Alexandria chamou, com felicidade, “Pedagogo da Humanidade”. A legítima “pedagogia” espírita emana da identidade da Doutrina com o Evangelho, dispensando, por essa mesma razão, sistemas criados e mantidos pelo materialismo, em ambiente capaz de desespiritualizar qualquer esforço destinado a enquadrar em seus moldes rígidos (influenciando-os negativamente, deturpando-os) os preceitos da Terceira Revelação. (grifo do Blog)

            O que é preciso - disse eminente correligionário espiritista - é imunizar o ambiente espírita do vírus materialista, é espiritualizar métodos e expressões em uso nos trabalhos de pregação da Doutrina, para que se fortaleçam cada vez mais os princípios dela constantes. Se cotejarmos os conceitos de Espíritos de escol, como Emmanuel, André Luiz, Bezerra de Menezes e outros, com os pontos de vista emitidos por Allan Kardec, verificaremos sua absoluta concordância, no que concerne ao processo aconselhável para  a divulgação e o ensino da Doutrina. Emmanuel afirma: “Os estabelecimentos de ensino, propriamente do mundo, podem instruir, mas só o instituto da família pode educar. É por essa razão que a universidade poderá fazer o cidadão, mas somente o lar pode edificar o homem. A MELHOR ESCOLA AINDA É O LAR, ONDE A CRIATURA DEVE RECEBER AS BASES DO SENTIMENTO E DO CARÁTER.” (5)

            Conta-se que um camponês fora à instituição de Pestalozzi para visitar seu filho  e, ao chegar, exclamou surpreendido: “Oh! isto não é uma escola, mas uma família!” Encantado, Pestalozzi replicou: “Este é o maior elogio que vós me poderíeis fazer. Eu consegui, graças a Deus, mostrar ao mundo que não deve haver um abismo entre o lar e a escola.” (6) Infelizmente, o materialismo desfigurou a ideia de Pestalozzi e, hoje, há um objetivo inocultável de destruir a família, pois está em crise aguda a autoridade dos pais ante a crescente rebeldia dos filhos, sugestionados por teorias exóticas, que, apelando para a liberdade, nada mais estão fazendo do que esmagá-la pela indisciplina e o desregramento. O estudo formalizado do Espiritismo, segundo o figurino materialista, fere frontalmente a nossa Doutrina, que, então, passará a ser uma matéria de estudo como qualquer outra, subordinada a esquemas didáticos que a situarão em plano secundário, constringindo-a em processos convencionais, quando ela é, por si mesma, um extraordinário e completo curso, cuja amplitude e profundeza decorre da sua tríplice condição de - Religião, Ciência e Filosofia. (grifo do Blog) Sujeita ao tipo didático materialista, que é o vigente, ela perderá, por força das circunstâncias, o vigor que possui, caindo na vulgaridade, ficando, quando muito, emparelhada a ensinamentos outros, indiscutivelmente menos relevantes, porquanto estaria condenada a render-se ao modelo clássico das escolas terrenas.

*

            Lembramos uma vez mais o esclarecido Emmanuel: “Porque a Doutrina Espírita é em si a liberalidade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula.(7) O intelectualismo exagerado sempre cria problemas. A ele se devem os impulsos “progressistas” dos que desejam andar mais depressa, na presunção, talvez, de que o Espiritismo avança... muito devagar. Esquecem-se de que “o próprio interesse do Espiritismo exige que se apreciem os meios de ação, para não ser forçoso parar a meio do caminho”. (8)  Essa posição de prudência não faltou jamais à Federação Espírita Brasileira, sentinela indormida e positiva da pureza e integridade da Doutrina, posição sólida para assegurar a vitalidade do Pacto Áureo, pela qual lhe será possível evitar se repita o lendário episódio do “cavalo de Tróia”. Não ignoramos que “o progresso geral é a resultante de todos os progressos individuais; mas o progresso individual não consiste apenas no desenvolvimento da inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos. Nisso mais não há do que uma parte do progresso, que não conduz necessariamente ao bem, pois que há homens que usam mal do seu saber. O progresso consiste, sobretudo, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos maus gérmens que em nós existem. Esse o verdadeiro progresso, o único que pode garantir a felicidade ao gênero humano. Muito mal pode fazer o homem de inteligência mais cultivada; aquele que se houver adiantado moralmente só o bem fará. É, pois, do interesse de todos o progresso moral da Humanidade”. (9)

            Fora de dúvida, o Espiritismo deve ser também sempre estudado como ciência, e não só como ciência, mas em todos os seus aspectos. Todavia, parafraseando Léon Denis, e consoante o pensamento de notáveis espíritas, como Adolfo Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, Pedro Richard, Guillon Ribeiro e outros, além dos já mencionados Espíritos Emmanuel e André Luiz, direi: “O Espiritismo ou será evangélico, ou não subsistirá”, porque, no Evangelho está tudo quanto figura no âmbito essencialmente espírita, inclusive os fenômenos, que atestam, positivamente, a realidade inconcussa das manifestações espirituais, das manifestações psíquicas, no mundo físico.

            Principalmente aos espíritas militantes cabe o dever de evitar tudo quanto possa contribuir para deslustrar o conteúdo espiritual das atividades que desempenham, pretendendo conduzir por vias materializadas, naturalmente hostis ao Espiritismo, o que este possui de mais característico. Não estamos adotando atitude polêmica, mas apenas, com a humildade que reveste a nossa intenção, alertando os companheiros de atividade na seara, para que reflitam e retitiquem o rumo tomado com entusiasmo e, acreditamos, com os mais puros propósitos, para que a Terceira Revelação, cada vez mais, se robusteça e amplie o seu raio de ação e penetração na consciência dos homens ainda à espera do “estalo” que sacudiu o Padre Vieira.

 (1) Allan Kardec - "Obras Póstumas", página 316.
(2) Emmanuel - "Religião dos Espíritos", página 193.
(3) Léon Denis - "No Invisível", página 8.
(4) Allan Kardec, ob. cit., página 348.
(5) Emmanuel - "O Consolado r", página 67, pergunta nº 110.
(6) Frederick Eby "História da Pedagogia Moderna", página 380.
(7) Emmanuel - "Religião dos Espíritos", página 192.
(8) Allan Kardec, ob. cit., página 337.
(9) Idem, ibidem, página 349.


Academias

Emmanuel
"Acreditam muito mais em títulos transitórios do academicismo e em facilidades
econômicas do que no valor substancial das pessoas."
("Estude e Viva", 1ª ed., pág. 142, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.)

"A intelectualidade acadêmica está fechada no círculo da opinião dos catedráticos, como a ideia religiosa está presa no cárcere dos dogmas absurdos."
("Emmanuel", 7ª ed., pág. 178, médium Francisco Cândido Xavier.)


Demétrio Nunes Ribeiro 
"Jesus desempenhou o mais alto apostolado da Terra sem uma cátedra de academia."
("Falando à Terra", 2- ed., pág. 85, médium Francisco Cândido Xavier.)

André Luiz 
"O Lar e o Templo são as escolas da fé."
("Estude e Viva", 1ª ed., pág. 119, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.)

Jesus Cristo
"Vós, porém, não queirais ser chamado Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos."
("Evangelho de Mateus", cap. XXIII, vers. 7-8.)


domingo, 12 de abril de 2015

Palavras que confundem

Palavras que confundem
Editorial
Reformador (FEB) Maio 1971

            Se há aviso que não pode ser esquecido pelo espiritista é aquele que adverte: “a letra mata; o espírito vivifica”. Isto quer dizer, em suma, que o estudioso da Doutrina deve libertar-se, a começar da leitura do Evangelho, do significado literal das palavras e das locuções verbais, desprezando o vocábulo grafado para apreender e reter o seu conteúdo espiritual.

            Ante recomendação de tal importância torna-se óbvio, em contrapartida, que o espiritista deve alertar-se quanto ao modo de falar e, em especial quanto à maneira de escrever. Ele precisa cuidar-se no emprego das palavras, evitando que se transponham para a área das atividades doutrinárias ideias e conceitos estratificados no significado dos termos e expressões da linguagem comum.

            Espiritismo não é somente uma maneira renovada de interpretar e desvendar os problemas de ordem espiritual. Ele é também um renovador vigoroso das concepções que os homens formam da vida e das circunstâncias imperantes na crosta planetária. Em virtude disso, é de ponderar que nem sempre as palavras consagradas pelo uso do mundo são apropriadas para traduzir o sentido espiritual das exteriorizações doutrinárias, por oferecerem o perigo da deturpação ou do amesquinhamento.

             Quando enunciamos o propósito de difundir a Doutrina, será que a ideia que queremos expressar é exatamente aquela que a palavra difusão sugere? Se a Doutrina tem uma mensagem a veicular, como faze-lo? Nos nossos próprios círculos essa atividade se tem desdobrado sob a prevalente feição de ensino. Todavia - é forçoso reconhecer - o vocábulo ensino pressupõe, no mundo, o professor de um lado e, do outro, o aluno... Ora, ninguém poderá sustentar, neste plano da vida, o título de professor de Espiritismo. Concebemos que os haja, porém, somente no plano dos invisíveis, uma vez que, na carne, somos todos estudantes e, por sinal, muito bisonhos...

            Se estamos certos de que é, ou é bom, aprender o Espiritismo (ou, no Espiritismo? ou, com ele?), subentenderemos incoercivelmente que se faz necessário haja quem ensine a quem quer aprender; e ensinar a quem quer aprender implica métodos didáticos e pedagógicos que só encontram ambiente propício em recintos denominados escolas, as quais, por sua vez, tem seu significado estreitamente ligado a currículos, séries, classes, aulas, aprendizado, disciplinas, cursos, que finalizam normalmente (ou ainda que virtualmente) com a expedição de um certificado declarando seu portador habilitado a exercer uma atividade profissional ou uma especialização técnica. Mas esta, todos concordarão, não é a meta do estudante do Evangelho.

            Não se pode negar que o adepto do Espiritismo deve ser um estudioso. Isto implica absorver conhecimentos, mediante uma dada técnica ou método de transmissão, de assimilação de cabedais já sistematizados e coordenados. Os métodos racionais e provados devem, é bem verdade, ser utilizados. Porém, não menos inegável é que os espíritas estão conclamados a encarar esses problemas de maneira totalmente renovada, sobretudo para equaciona-los em moldes diametralmente opostos às convenções reinantes no mundo.


            As palavras de ordem hão de ser, por certo, fraternidade e solidariedade, que nos impõem o dever de ajudar-nos uns aos outros. Ajudemo-nos, pois, a instruir-nos, de acordo com a recomendação do Espírito da Verdade. E - quem sabe? - seja o espírito de semelhante recomendação o de que saibamos estudar, aprendendo a “estudar sem mestre”... 

domingo, 29 de março de 2015

Escolas de Espiritismo

Escolas de Espiritismo

por Roque Jacintho


Reformador (FEB) Maio 1971

            Cada reencarnação representa, para a alma, parte de um longo e laborioso curso de sabedoria, na Universidade da Vida. No espaço que medeia entre o berço e o túmulo, estaremos submetidos a um bombardeio de estímulos, organizado pelos Planos Superiores, a fim de que, a pouco e pouco, atinjamos a maturação do senso intelectivo e do senso moral.

            Trazemos, em decorrência, de acordo com as experiências a que nos submeteremos, uma bagagem de interesses inatos, que sempre nos conduzirão a fechar o circuito da atenção com a aprendizagem programada e, quase sempre, nunca além desse programa. Evidentemente que, pelo exercício de nosso livre arbítrio, poderemos alterar de modo substancial o rumo de nossas lições, quer incorporando-as de modo substancial, quer adiando e transferindo aulas inestimáveis.

            No campo religioso, essa disposição é notável.

            Conserva paridade, em alguns ângulos, com a aprendizagem intelectual ou manual a que nos adestramos, para definir uma profissão.

* * *

            Na área de conhecimentos de fenômenos palpáveis, visíveis, chamados materiais por impressionar-nos os sentidos comuns, ninguém se atreveria, na atualidade, a programar um curso integral de todos os ramos do saber, ali colocando criaturas medianas ou inframedianas, como somos.

            Pela complexidade da cultura, amiúde frequentamos cursos de especialização, preferentemente seguindo a linha de nossos impulsos ou tendências naturais.

            Impossível ser músico, poeta, compositor, matemático, químico, biólogo, poliglota, astrofísico, pedreiro, torneiro, mecânico, tipógrafo, tecelão, médico, psicólogo, padeiro, sociólogo... ao mesmo tempo!

            Seria atingir as raias do absurdo!

* * *

            No campo moral, a complexidade não é menor.

            Impossível voltar-nos integralmente para vencer, duma só vez, a rapina, a avareza, o egoísmo, o orgulho, a vaidade, a preguiça, o desânimo, a maledicência... e adquirir a fraternidade, o amor ao trabalho, a dedicação às tarefas, a humildade legítima, a intuição ampla da imortalidade, a fé religiosa, a penetração dos segredos das leis espirituais, a mediunidade, a bondade, a gentileza, a ternura, a renúncia, o amor ao próximo, o amor ao Pai... numa única reencarnação!

            Assim como trazemos ideias inatas, que nos definem a preferência por esta ou aquela atividade profissional, transportamos no íntimo os impulsos que nos colocam frente a frente com expiações e provações capazes de arejar e enriquecer o mundo espiritual, levando-nos a vencer, um a um, os degraus de nossa imperfeição anímica.

* * *

            É mais do que comprovado, pela Ciência, que duas ou mais criaturas colocadas diante da mesma situação, recolhem experiências e conclusões diferentes. Vemos o mundo pelos nossos olhos. A coleta de dados, a sua computação nos departamentos de nossa alma, a elaboração de respostas aos estímulos externos, estão condicionados à maturidade de nosso senso moral.

            Observemos no cotidiano:

            - no anúncio de uma calamidade pública, uns ficam indiferentes, outros se regozijam pela dor alheia, alguns choram desesperados e outros auxiliam;

            - na ocorrência de pequeno desastre familiar, cada componente do círculo consanguíneo reage em comportamento diferenciado;

            - em resposta a um apelo de caridade, poderemos anotar o espocar da ironia, a indiferença ao chamamento maior, a preguiça de vencer os compromissos rotineiros, a surdez súbita e conveniente e a adesão incondicional.

            O Evangelho do Senhor, a exemplo, é um roteiro de luz, igual para todos e decantado por todos nós. Penetrar-lhe o sentido singelo de imortal verdade,  aceitá-lo por único caminho, descobrir o espírito que se encontra sob a letra, no entanto, é uma questão de maior ou de menor amadurecimento nas coisas da Vida Eterna.

***

            O Espiritismo, corporificando-se entre os homens através da genialidade de um Allan Kardec, encontrou um mundo que se caracteriza pela disparidade e até pelo conflito evolutivo. Almas iluminadas misturam-se conosco, criaturas que nos arrastamos penosamente pelas aleias da existência. Grandes rasgos de amor ao próximo são enxovalhados pelo egoísmo avassalante. O orgulho que campeia à solta ombreia, repetidamente, com a humildade que constrói a pedra angular do mundo novo. Nesse panorama, a Doutrina surgiu para renovar a criatura. Longe, porém, de ser uma ginástica mental, à semelhança de credos e seitas seculares, aparece-nos como um exercício espiritual vivo, autêntico. Sem criar um modelo artificioso de comportamento para o homem, exigindo que cada um se ajuste ao inusitado figurino, procura desenvolver as qualidades profundas de cada um de nós, assegurando-nos que em cada pecador existe um santo.  É o método de Jesus que se revive.

* * *

            Pela disparidade evolutiva que nos caracteriza e por destinar-se a todos, sem exclusão de ninguém, a Doutrina Espírita traz uma dinâmica diferente para a sua aprendizagem, muito diversa das habituais. Cada um deve aprender por si. Não que se dispense, é claro e evidente, a permuta de experiências, que recolhemos nos estudos coletivos. Essas reuniões, contudo, não substituem a vivência pessoal e própria.

            Assim é que escolas e cursos formais de Espiritismo são inviáveis. O autodidatismo moral não é um mal. É insubstituível!

            A maior aquisição espírita, hoje e sempre, é a reforma íntima. Sem ela, todos os conhecimentos de Doutrina não passariam de meros exercícios de inteligência, ilustrando-nos a mente, sem iluminar o coração.

            Se frequentássemos um curso de Espiritismo, decorando regras morais, memorizando a mecânica de leis, devorando pontos e apostilas, respondendo presente a cada aula, não estaríamos autorizados a exigir ou receber um certificado de conclusão do curso.

            O Espírito da Verdade, em "O Evangelho segundo o Espiritismo", remete-nos um conceito que invalida qualquer pretensão nesse campo: "Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más".

* * *
            Nos cursos comuns de nossas escolas, hoje, procuram agrupar alunos pelo seu quociente intelectual, a fim de tentar dinamizar e tornar mais econômica a aprendizagem.

            Numa escola de Espiritismo, teríamos de estabelecer uma seleção de quociente espiritual classificando os mais virtuosos ou com mais condições de interiorizar ensinamentos.

            Quem se atreveria a tal seleção?

            Quem nos asseguraria - se pusermos de lado a vaidade e o orgulho - que não rejeitaríamos, nesse inusitado vestibular, uma aluna chamada Maria Madalena, por falta de dotes morais; um Simão Pedro, por ser iletrado e pela vulgaridade de suas explosões; um Saulo de Tarso, por estar cego de paixão no exigir o cumprimento de leis ultrapassadas?

            Chico Xavier, de há quarenta anos, seria reprovado. Era um mero caixeirinho de armazém, sem curso médio.

            E onde ficaria um Arigó, com sua rudeza?

            E nosso Batuíra, dono de casas de aluguel, metido a jornalista, enterrado num porão escuro a compor artigos "sem nenhum gosto refinado"?

            Bezerra de Menezes já haveria passado da idade.

* * *

            Espiritismo é bom, por ser dos Espíritos.

            Somos coadjuvantes e não o papel central na peça.

            Se tentarmos sistematizá-lo, condicioná-lo a programas didáticos, organizá-lo em moldes imediatistas ou pelos padrões vigentes em nós mesmos, transformá-lo em mais uma seita ou igreja a disputar a direção de nosso mundo - a limitação
 imensurável de nossa evolução- terminará por inaugurar uma nova e dolorosa fase de profissionais do Espiritismo, vivendo da Doutrina e não para a Doutrina, liquidando uma de suas mais belas e profundas expressões que é o trabalho gratuito e a condição de sacerdotes no altar de nossa consciência.