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terça-feira, 21 de abril de 2015

Aprender sem Escolas


Aprender sem Escolas
Tobias Mirco / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Abril 1971

            É ponto pacífico, entre os espíritas verdadeiramente familiarizados com a Doutrina, que o caráter desta é essencialmente progressivo, mas que, não obstante a sua tolerância, exige reflexão, prudência e critério analítico, “e evitar ir de cabeça baixa ao encontro dos devaneios da utopia e dos sistemas”, buscando sustar iniciativas inovadoras nem sempre convenientes. E, na verdade, isso tem sido feito sempre, “a tempo, nem muito cedo, nem muito tarde, e com conhecimento de causa”, segundo as palavras do Codificador. “Aliás, a experiência já comprovou o acerto dessa previsão. Tendo marchado sempre por esse caminho desde a sua origem, a Doutrina avança constantemente, mas sem precipitação, verificando sempre se é sólido o terreno onde pisa e medindo seus passos pelo estado da opinião. Há feito como o navegante que não prossegue sem ter na mão a sonda e sem consultar os ventos.(1)

            Compreende-se, portanto, a responsabilidade de todos os espíritas na salvaguarda do inavaliável patrimônio que nos deixou Allan Kardec, legatário eleito de nobres Espíritos. Com o peso incontestável de sua autoridade, Emmanuel afirmou que Doutrina Espírita “quer dizer Doutrina do Cristo”. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos” (2), razão primacial para que a Federação Espírita Brasileira, e concomitantemente todos os espíritas, permaneçam vigilantes, resguardando-a, preservando-a, para que ela conserve a pureza dos seus preceitos e o vigor que até hoje eles possuem, assegurando os benefícios que proporcionam à criatura humana oportunidades de compreender a vida terrena, porquanto, disse Léon Denis, “o homem tem tanta necessidade de uma crença como de uma pátria, como de um lar”. E é o Espiritismo que nos dá o conhecimento pleno da religião, ao mesmo tempo que esclarece o porquê da vida terrena, sua correlação com a vida espiritual, a razão dos problemas humanos, dentro e fora do lar, assim como a causa dos sofrimentos, os meios de que podemos dispor para melhor entender o mundo em que vivemos, a importância do nosso comportamento moral, etc.

            Como não há milagres, obviamente o Espiritismo não faz nem poderá fazer milagres.

            Dá-nos os elementos imprescindíveis à correção dos nossos rumos na vida, à melhoria da nossa posição em face dos nossos semelhantes, mas tudo dependerá principalmente de nós, embora possamos contar com o beneplácito dos Espíritos amigos, prontos a nos ajudar, sem, contudo, interferir no nosso livre arbítrio. Justamente por tudo isso, ressalta a responsabilidade de cada indivíduo, porque as palavras são de Léon Denis “o Espiritismo será o que dele fizerem os homens. Similia similibus! Ao contato da Humanidade, as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Podem constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai, continua sendo pérola ou se transforma em lodo”. (3)

*

            Companheiros de crença, imbuídos, sem dúvida alguma, dos melhores propósitos, tem procurado introduzir no ambiente espírita ideias e ações que consideram úteis e de extraordinárias consequências para o progresso do Espiritismo. Empolgados, não se apercebem da possibilidade de inconveniências ocultas sob o entusiasmo de que se deixam possuir. Eis o motivo pelo qual nem sempre a Federação Espírita Brasileira concorda com determinados procedimentos e iniciativas. Nem sempre também as atitudes da Casa de Ismael são imediatamente compreendidas, ainda que, ulteriormente, o tempo venha sempre comprovar o acerto das suas prudentes resoluções, como a História o demonstra.

            Escreveríamos um livro se nos aprofundássemos na exposição dos fatos justificativos do que vimos de asseverar. Há alguns anos, por exemplo, foi criada uma faculdade brasileira de estudos psíquicos. Tudo muito solene, muito acadêmico, muito intelectual. O conhecido malogro da iniciativa dispensa maiores comentários. Mas a ideia ficou bailando na mente de alguns confrades, que a transmitiram a outros entusiastas, direta ou indiretamente, de modo que, volta e meia, surgem planos idênticos. Até se pretende elaborar uma “pedagogia espírita”, como já se criaram escolas espíritas, escolas de médiuns, institutos espíritas de educação, cursos de introdução a uma pedagogia espírita, etc., culminando tudo isto com uma publicação de educação espírita. Sem dúvida nenhuma, isso é belo e sedutor, mas traz em seu bojo desvantagens que um exame atento revelará, uma das quais está no fato de nos levarem aos mesmíssimos caminhos já percorridos por outras doutrinas, por outros movimentos de caráter religioso ou filosófico. Os mesmos esquemas, as mesmíssimas estruturas vigentes no setor materialista ou pseudo espiritualista.

            Entenda-se: não somos nem podemos ser contra a educação, mas a Doutrina Espírita nos sugere rumos diferentes para a sua aprendizagem, por sua maleabilidade e natureza. A Doutrina sofrerá deturpações e mutilações, dentro de uma didática formal, materializada, fruto de um intelectualismo que tem sido nocivo até mesmo a doutrinas políticas. Considerando, portanto, com Kardec, que “princípio do melhoramento está na natureza das crenças, porque estas constituem o móvel das ações e modificam os sentimentos”; que “também está nas ideias inculcadas desde a infância e que se identificam com o Espírito”; que “está ainda nas ideias que o desenvolvimento ulterior da inteligência e da razão podem fortalecer, nunca destruir”, concluiremos, ainda com Allan Kardec, que é pela educação, mais do que pela instrução, que se transformará a Humanidade”. (4) Mas a educação espírita terá de continuar sendo feita pela própria Doutrina, sem currículo escolar, sem professores em Espiritismo, sem alunos habilitados em Espiritismo, sem os perigosos resvalamentos que conduzem à indiferença pelos problemas morais inerentes aos ensinos dos Espíritos, porquanto o Espiritismo Evangélico é fundamental e essencialmente democrático, já que não veio para segmentar, mas para unir, unir sempre. A pedagogia espírita está nas obras do Codificador, iluminadas pelo Evangelho de Jesus, na realidade o único Mestre, a quem Clemente de Alexandria chamou, com felicidade, “Pedagogo da Humanidade”. A legítima “pedagogia” espírita emana da identidade da Doutrina com o Evangelho, dispensando, por essa mesma razão, sistemas criados e mantidos pelo materialismo, em ambiente capaz de desespiritualizar qualquer esforço destinado a enquadrar em seus moldes rígidos (influenciando-os negativamente, deturpando-os) os preceitos da Terceira Revelação. (grifo do Blog)

            O que é preciso - disse eminente correligionário espiritista - é imunizar o ambiente espírita do vírus materialista, é espiritualizar métodos e expressões em uso nos trabalhos de pregação da Doutrina, para que se fortaleçam cada vez mais os princípios dela constantes. Se cotejarmos os conceitos de Espíritos de escol, como Emmanuel, André Luiz, Bezerra de Menezes e outros, com os pontos de vista emitidos por Allan Kardec, verificaremos sua absoluta concordância, no que concerne ao processo aconselhável para  a divulgação e o ensino da Doutrina. Emmanuel afirma: “Os estabelecimentos de ensino, propriamente do mundo, podem instruir, mas só o instituto da família pode educar. É por essa razão que a universidade poderá fazer o cidadão, mas somente o lar pode edificar o homem. A MELHOR ESCOLA AINDA É O LAR, ONDE A CRIATURA DEVE RECEBER AS BASES DO SENTIMENTO E DO CARÁTER.” (5)

            Conta-se que um camponês fora à instituição de Pestalozzi para visitar seu filho  e, ao chegar, exclamou surpreendido: “Oh! isto não é uma escola, mas uma família!” Encantado, Pestalozzi replicou: “Este é o maior elogio que vós me poderíeis fazer. Eu consegui, graças a Deus, mostrar ao mundo que não deve haver um abismo entre o lar e a escola.” (6) Infelizmente, o materialismo desfigurou a ideia de Pestalozzi e, hoje, há um objetivo inocultável de destruir a família, pois está em crise aguda a autoridade dos pais ante a crescente rebeldia dos filhos, sugestionados por teorias exóticas, que, apelando para a liberdade, nada mais estão fazendo do que esmagá-la pela indisciplina e o desregramento. O estudo formalizado do Espiritismo, segundo o figurino materialista, fere frontalmente a nossa Doutrina, que, então, passará a ser uma matéria de estudo como qualquer outra, subordinada a esquemas didáticos que a situarão em plano secundário, constringindo-a em processos convencionais, quando ela é, por si mesma, um extraordinário e completo curso, cuja amplitude e profundeza decorre da sua tríplice condição de - Religião, Ciência e Filosofia. (grifo do Blog) Sujeita ao tipo didático materialista, que é o vigente, ela perderá, por força das circunstâncias, o vigor que possui, caindo na vulgaridade, ficando, quando muito, emparelhada a ensinamentos outros, indiscutivelmente menos relevantes, porquanto estaria condenada a render-se ao modelo clássico das escolas terrenas.

*

            Lembramos uma vez mais o esclarecido Emmanuel: “Porque a Doutrina Espírita é em si a liberalidade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula.(7) O intelectualismo exagerado sempre cria problemas. A ele se devem os impulsos “progressistas” dos que desejam andar mais depressa, na presunção, talvez, de que o Espiritismo avança... muito devagar. Esquecem-se de que “o próprio interesse do Espiritismo exige que se apreciem os meios de ação, para não ser forçoso parar a meio do caminho”. (8)  Essa posição de prudência não faltou jamais à Federação Espírita Brasileira, sentinela indormida e positiva da pureza e integridade da Doutrina, posição sólida para assegurar a vitalidade do Pacto Áureo, pela qual lhe será possível evitar se repita o lendário episódio do “cavalo de Tróia”. Não ignoramos que “o progresso geral é a resultante de todos os progressos individuais; mas o progresso individual não consiste apenas no desenvolvimento da inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos. Nisso mais não há do que uma parte do progresso, que não conduz necessariamente ao bem, pois que há homens que usam mal do seu saber. O progresso consiste, sobretudo, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos maus gérmens que em nós existem. Esse o verdadeiro progresso, o único que pode garantir a felicidade ao gênero humano. Muito mal pode fazer o homem de inteligência mais cultivada; aquele que se houver adiantado moralmente só o bem fará. É, pois, do interesse de todos o progresso moral da Humanidade”. (9)

            Fora de dúvida, o Espiritismo deve ser também sempre estudado como ciência, e não só como ciência, mas em todos os seus aspectos. Todavia, parafraseando Léon Denis, e consoante o pensamento de notáveis espíritas, como Adolfo Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, Pedro Richard, Guillon Ribeiro e outros, além dos já mencionados Espíritos Emmanuel e André Luiz, direi: “O Espiritismo ou será evangélico, ou não subsistirá”, porque, no Evangelho está tudo quanto figura no âmbito essencialmente espírita, inclusive os fenômenos, que atestam, positivamente, a realidade inconcussa das manifestações espirituais, das manifestações psíquicas, no mundo físico.

            Principalmente aos espíritas militantes cabe o dever de evitar tudo quanto possa contribuir para deslustrar o conteúdo espiritual das atividades que desempenham, pretendendo conduzir por vias materializadas, naturalmente hostis ao Espiritismo, o que este possui de mais característico. Não estamos adotando atitude polêmica, mas apenas, com a humildade que reveste a nossa intenção, alertando os companheiros de atividade na seara, para que reflitam e retitiquem o rumo tomado com entusiasmo e, acreditamos, com os mais puros propósitos, para que a Terceira Revelação, cada vez mais, se robusteça e amplie o seu raio de ação e penetração na consciência dos homens ainda à espera do “estalo” que sacudiu o Padre Vieira.

 (1) Allan Kardec - "Obras Póstumas", página 316.
(2) Emmanuel - "Religião dos Espíritos", página 193.
(3) Léon Denis - "No Invisível", página 8.
(4) Allan Kardec, ob. cit., página 348.
(5) Emmanuel - "O Consolado r", página 67, pergunta nº 110.
(6) Frederick Eby "História da Pedagogia Moderna", página 380.
(7) Emmanuel - "Religião dos Espíritos", página 192.
(8) Allan Kardec, ob. cit., página 337.
(9) Idem, ibidem, página 349.


Academias

Emmanuel
"Acreditam muito mais em títulos transitórios do academicismo e em facilidades
econômicas do que no valor substancial das pessoas."
("Estude e Viva", 1ª ed., pág. 142, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.)

"A intelectualidade acadêmica está fechada no círculo da opinião dos catedráticos, como a ideia religiosa está presa no cárcere dos dogmas absurdos."
("Emmanuel", 7ª ed., pág. 178, médium Francisco Cândido Xavier.)


Demétrio Nunes Ribeiro 
"Jesus desempenhou o mais alto apostolado da Terra sem uma cátedra de academia."
("Falando à Terra", 2- ed., pág. 85, médium Francisco Cândido Xavier.)

André Luiz 
"O Lar e o Templo são as escolas da fé."
("Estude e Viva", 1ª ed., pág. 119, médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.)

Jesus Cristo
"Vós, porém, não queirais ser chamado Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos."
("Evangelho de Mateus", cap. XXIII, vers. 7-8.)


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