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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Os que ignoram que estão mortos



Os que ignoram que estão mortos
por Amado Nervo  (tradução)
Reformador (FEB) Dezembro 1919

            “Os mortos”, havia-me dito várias vezes o meu amigo, um velhinho espirita, vindo de encontro ao que, de minha parte, já havia encontrado várias vezes em minhas leituras – “os mortos, senhor meu, ignoram que tenham morrido. Ignoram-no até certo tempo, até quando um espírito caritativo os desperta, para se desvencilharem definitivamente das misérias deste mundo."

            Geralmente se creem afetados ainda da enfermidade que lhes motivou a morte; lamentam-se, pedem remédio, permanecem numa espécie de adormecimento geral, de bruma, do qual se vai desprendendo pouco a pouco a divina crisálida da alma. 

            Os menos puros, os que morrem mais apegados a terra, vagam em derredor de nós, presos de um desconcerto e de uma desorientação supremamente angustiosa.

            Sentem dores, fome, sede, exatamente como si vivessem, pois que o amputado sente possuir e ainda lhe doer o membro segregado.

            Não falam, interpõem-se em nosso caminho e desesperam ao presumirem que os vemos e e não lhes fazemos caso. Creem-se então vítimas de um pesadelo e desejam despertar.

            Porém, a impressão mais poderosa - como também a mais próxima - é a de que eles acompanham, doentes, aquele que os matou.

            E, com efeito, uma tarde em que, por curiosidade, assisti certa sessão espirita, pude comprová-lo.

            O médium era falante (sabe você que há médiuns auditivos, videntes, materializadores, etc.). As almas dos mortos se servem da boca do médium para conversar com os presentes, ou, por outra, falam por “boca de ganso” (dizer o que outros sugerem).

            Deram início à sessão sem apagarem as luzes e a médium caiu em transe.

            Momentos depois exclamava:

            - Estou ferido; socorram-me! - e apertava com ambas as mãos o flanco direito.

            - Quem é você? Interrogou o que presidia a sessão.        

            “Sou Valente Martinez, e me feriram aqui na Praça de Carmen; feriram-me a traição. Estou tombado; venham levantar-me”!

            E o semblante da médium demonstram sinais de dor e de agonia.

            Eu e muitos dos ali presentes experimentávamos grande surpresa porque os periódicos da última semana haviam noticiado e comentado o assassinato de Valente Martinez, cometido traiçoeiramente por um celoso (invejoso). Assim, pois, a sessão se tornava interessante.

            -Você está equivocado - insinuou então o presidente da sessão - e presume estar ferido e abandonado na rua; porém, na realidade, você está morto!

            - Morto, eu? Exclamou surpreendida a médium, digo-lhe que estou apenas ferido!        
            E continuava apertando o flanco direito.

            -Está você morto e bem morto. Morreu em consequência de uma punhalada, na sexta-feira última, no hospital de São Lucas...

            A médium se impacientava: - É uma falta absoluta de caridade deixar-me atirado à rua como um cão! Como um cão sim, abandonado em meio da rua!  

            E retorcia-se em seu assento.

            -De sorte que, continuou o presidente - você insiste em que está vivo?

            -Sim, e ferido! Ajudem-me, quero levantar-me. Não sejam maus!

            - Pois vou provar-lhe que está morto.

            Qual o seu sexo?' Homem ou mulher?

            -Eis uma pergunta tola... Sou homem!

            -Você está seguro?

            A médium fez um movimento de contrariedade.

            - Que? Se estou seguro? Que pergunta!

            -Bem, pois toque no seu peito e no rosto.

            A médium levou a mão direita ao queixo e uma expressão indecisa de pasmo anuviou lhe o rosto. Valente Martinez (que, segundo os retratos estampados nos periódicos, era barbado) encontrava-se agora imberbe...

            A sua mão, trêmula, pousou em seguida no lábio superior à procura do farto bigode, mas passou pela decepção de não encontra-lo. Depois, mais trêmula ainda, desceu ao peito e, no sentir a carne turgida dos seios, a médium deixou escapar um grito agudo, horrível, enquanto frios suores lhe molhavam a fronte, lívida de tortura, em que se lia o supremo espanto da convicção!  

            Seguia-se então largo e imperturbável silêncio, durante o qual a médium, imóvel,  murmurava não sei o quê, com os lábios convulsos.

            Por fim, o presidente lhe disse:

            - Veja bem como está bem morto!

            Tirei-o da ilusão, para que não penses mais em coisas da terra e procure, doravante, elevar seu espírito a Deus.

            -Tem razão, murmurou penosamente a médium.

            Depois, após pequena pausa, suspirou:

            Graças!

            E não proferiu mais palavra até sair do transe.      


Solilóquio



Solilóquio
por Mó de Job
Reformador (FEB) Dezembro 1919

            Espíritos e companheiros de lutas, que tendes, como o que na hora presente vem confabular convosco, necessidade de paz e de progresso; encarcerados do mundo que, na aspiração da Verdade, da Justiça e do Direito, evocais os Mensageiros de Jesus, em nome deste suplicando a misericórdia do Pai Espiritual; almas que propendeis para a Luz, vidas que desejais a Eterna Vida para lenitivo das dores que vos experimentem; vinde ouvir a dolorosa história de uma vida que vos acompanha, tendo o pensamento voltado para o Infinito num soluço de dor e na súplica de uma esmola, para que, de ânimo forte, substituindo tendências que reprova por sentimentos bons que a edifiquem e recomendem a imortalidade, possa distribuir pelo exemplo de abnegação, de humildade, de fé, elementos de perseverança que vos animem e sustentem a coragem, quando tiverdes de atravessar os estreitos caminhos da maioria que punge, que a alma precipita para o abismo das tremendas dores, em cujo fundo entanto, mister se faz que o homem, a semelhança do Cristo, saiba agradecer ao Pai a graça que assim lhe conceda para a sua evolução espiritual.

            Vinde ouvir os episódios da vida de um companheiro vosso, que aplaudido ontem, quando os elementos materiais lhe sorriam e desdenhado hoje pelos que já lhe não reconhecem prestígio, nem por isso deixa de vos endereçar fraterno e festivo olhar, inda que este lhe possa ser levado à conta de atrevimento ou de imbecilidade...

            Vinde e meditai a tristonha história do pobre que vos bate à porta. Ei-lo que se aproxima. Vede-o. É um mendigo que se apresenta com o sorriso nos lábios. Não se revolta à indiferença dos que não o queiram ouvir, nem se deixa arrastar pelo desânimo quando o estômago lhe exige pão e as sociedades fartam gargalham... É um convencido da vida espiritual e, como se não queira deixar conduzir pelas sugestões mundanas e sim para a vitória da alma, ama e recebe compassivo e grato o que lhe dão de bom e o que lhe dão de mal...

            Em tempos idos, quando melhores dias lhe acenavam, distribuía com os que o cercaram o que era seu; e os que o cercavam, engrandecendo-se com o que recebiam dele, em luz, animação e conhecimento, progrediram e, aos assomos do orgulho, diante do mundo que os aplaudia, abandonaram-no dizendo: “Vamos aniquilá-lo, para que amanhã não tenhamos de confessar que a luz nos foi manifesta por ele: seria vexatório, pois teríamos de permanecer na dependência dele, escravizados e sem merecimento, o que, alem de vergonhoso, nos ofenderia o amor próprio.”

            Ele se apercebeu da conspiração dos que o rodeavam e lhes disse: “Sou vosso irmão e companheiro. Nada vos tenho dado e tudo tenho recebido de vós. Também, por isso, tendes prosperado e eu me sinto feliz, porque o Pai me fez; portador da luz que vos transmiti quando éreis pequenos: vós a tendes aumentado e nada me estais devendo, porém, sim, ao Pai.”

            Os conspiradores ouviram-no e disseram: “Impostor! -Fingindo-se de justo e bom, com um desprendimento que não possui, ei-lo a evidenciar a presunção de nos haver guiado os primeiros passos! Não tivéssemos Inteligência, capacidade para o trabalho, e nunca teríamos conseguido a posição em que nos achamos. Que luz nos trouxe ele para se apregoar intermediário do Pai? Conselhos? Presunção de nos haver instruído quando éramos pequenos? É um louco!”

            E, desde então, numa campanha surda, a soberba, a ingratidão e a intolerância movem guerra de extermínio ao mendigo que vos vem bater à porta!

            Espíritas, sede unidos! Transformai as vossas almas em templos de oração pela prática do Bem, da Caridade, do Amor, do Bem que se não orgulha, da Caridade que se não proclama, do Amor que se não envaidece!

            Sede unidos e compassivos uns para com os outros e todos para com a humanidade. Trabalhai para a organização de uma só família e amparai-vos mutuamente! Sede filhos de Deus, que, pelos lábios de Jesus, quando vos disse: “Amai-vos uns aos outros”, também quis significar que só reconheceria como dignos de sua Graça os que se unissem e lhe acatassem a recomendação. Uni-vos, pois, e sabei agora: o pobre que vos apresento, que vos vem bater à porta, é o que se sente fraco para violar a Lei de Deus e da fraternidade exemplificada pelo Cristo, e forte para sofrer resignadamente o desamor dos que se fazem grandes para o mundo e, escravizados à matéria de que se hão de despojar, não veem que se fazem pequenos perante a Eternidade!

            Espíritas, atendei ao pobre que vos bate à porta: dai-lhe amor, dai-lhe coragem, dai-lhe confiança em vossa fé pelo exemplo de humildade.

            Cristo, para que os humildes se não envergonhassem e melhor compreendessem o amor fraterno, lavou os pés a seus discípulos. Vós sois discípulos do Cristo e como discípulo se deve reconhecer menor que o Mestre, se o pobre vos vem aos pés, colhei-o em vossos braços e assim, não tereis de que vos envergonhar no dia da separação.


Casamento espírita?



Casamento espírita?
Editorial
Reformador (FEB) Dezembro 1919

            O matrimônio não tem, nem pode ter para os crentes do Espiritismo, o caráter de sacramento, que lhe atribui a teologia católica.

            Ele representa, contudo, o cumprimento de uma lei natural, e pela magnitude das responsabilidades que acarreta, constitui um dos atos mais sérios, senão o mais sério, da vida terrena.

            Assim sendo, não pode nem deve ser realizado, conscienciosamente, à revelia da sanção divina.

            E sendo de espíritos que não de corpos a união, na mais lata acepção do termo, é claro que essa união dispensa formalidades quaisquer além das que a legislação civil criou e a que todos nos devemos submeter, pois que O Cristo mandou dar a César o que era de César.

            Para dar a Deus o que a Deus pertence, fica ao espírita a liberdade de o fazer como bem lhe aprouver e a ninguém é licito tolher os reclamos do seu foro íntimo.

            Nada mais natural, portanto, de que para esse ato, em perfeita comunhão de ideias e sentimentos, os crentes se reúnam, e, em testemunho de sua própria Fé, exorem a benção de Deus e a proteção de seus Guias para que fortaleçam a união de duas almas que se propõem progredir juntas, dando frutos de amor e exemplos de virtude, através de todos os percalços da vida de relação.

            Esse procedimento, só se justifica, entretanto, pela intenção e aos que o tenham como brado espontâneo d'alma, não há de que os increpar. Preciso é, contudo, dizer que ele não se torna indispensável e pode ser nocivo e perigoso fazendo-nos resvalar para os domínios de um ritualismo inócuo, sem outro alcance que o de satisfazer vaidades e preconceitos sociais oriundos de ancestral atavismo pagão.

            De fato, melhor que os frutos ocasionais de cerimônias de convenção, ainda mesmo as mais singelas, o que santifica o matrimônio são os sentimentos e os atos os que o contraem, procurando cumprir o dever comum dentro da moral evangélica, à face de Deus e dos homens.

            Ora, para superar todas as vicissitudes da vida conjugal - e importa dizer que elas são, muitas vezes intrínsecas, representando sagrados compromissos de anteriores encarnações - sabemos que de nada valem as consagrações formais de um ato inicial, mas preciso se faz o esforço constante de todos os dias na escola real da abnegação, da renúncia, do sacrifício recíprocos - padrão legítimos, que são do verdadeiro amor na constituição da lídima família espiritual.

            Subentendido que o casamento é de espíritos, que o seu ascendente é de ordem espiritual e moral, claro fica que não há nem pode haver cerimônias e ritos que o legitimem.

            Esta, a noção que corresponde a índole da Doutrina, pela pureza da qual nos cumpre velar, afim de não incidirmos na imitação grosseira de seitas que tudo materializam, num esdrúxulo hibridismo de fórmulas pagãs e preceitos religiosos.

            Em suma: é necessário que o amor às formulas não desvirtue o amor aos princípios.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Do Mestre ao discípulo - A providência do Invisível - Partes 1 e 2





Do Mestre ao discípulo
- A Providência do Invisível - Parte 1
por Angelo Aguarod
Reformador (FEB) Novembro 1919 

            Meu querido, 

            Sempre acharam eco em mim os teus anelos de elevação moral que constituem a principal preocupação da tua alma, e as objecções que esta te sugere em tuas meditações, terão da minha parte pronta e adequada resposta. Agora vou responder pressuroso as duas últimas que te dignaste formular.

            Eis a primeira:

            “Como, tendo dito o Divino Mestre que tudo o que pedimos orando, nos será concedido, não se dá assim numa multidão de casos?

            Estais equivocado, meu querido discípulo. O Mestre, que é o caminho, a Verdade e a Vida, esteve certo - como em tudo - ao afirmar que nos seria dado tudo quanto pedíssemos na oração. Mas, a falsa posição em que o homem se coloca, para observar os efeitos da súplica faz que não veja todos os casos em que o pedido é correspondido.

            Vós outros sentis uma necessidade, acariciais um desejo, e estando uma e outra fora de vosso alcance, vos dirigis a Aquele que é a fonte de todo o poder, solicitando sua  satisfação e Deus os ouve e os atende sempre; porém não em todos os casos, na forma e no tempo desejados.

            As vezes, a dor amargura vossa vida e pedireis a Deus saúde. Vós vos conformaríeis com a saúde do corpo; mas nosso Pai que dá cento por um, como o bom grão atirado em terra fecunda o dá ao semeador, não vos devolve a saúde do corpo; deixa que vossos sofrimentos tenham curso, porque eles são necessários para o vosso progresso espiritual. Então vos manda o auxílio do Alto para o tornar mais leve infundindo a resignação e a paciência e vos saturando do espírito de conformação à vontade divina, deixa que a enfermidade dê o fruto correspondente, que é ao fim a saúde de vossa alma, benefício mui superior à saúde de vosso corpo que era somente o que havíeis pedido em vossas preces. Obtiveste, em consciência muito mais do que tínheis pedido em oração, porém não na forma nem no tempo que queríeis, mas na forma e no tempo impostos pela Lei.

            Vossa atuação no plano físico, quando não vossa miopia espiritual vos impede de ver vosso passado, as consequências que pesavam sobre vós como resultado da vossa conduta anterior, já na atual ou em outras passadas existências, e, por conseguinte, não podeis sujeitar a uma norma traçada por nossa imaginação, as decisões do Eterno de que aqui cabem aquelas palavras do bom Jesus: “Busca o reino de Deus e sua justiça e tudo o mais virá depois.”

            Assim só te deves preocupar em ajustar toda tua conduta à moral mais pura
que conheces, e em tua relação com a Divindade quando quiseres pedir alguma coisa ao nosso celeste Pai, toma cuidado que o pedido esteja sempre de acordo com a lei moral, e descansa, que em seu tempo e na forma que corresponda, receberás do Pai a resposta devida, que satisfará sempre tuas necessidades espirituais, enriquecendo teu tesouro espiritual, que é o único tesouro legítimo, que ladrões não podem roubar nem ferrugem e traça consumir.

            Tem por certo que Deus nunca desatende a quem com sincero coração se dirige a Ele, ainda que se peça o impossível; Ele satisfaz sempre todo legítimo bom desejo, dando maior quantidade do bem verdadeiro do que pode querer e compreender o peticionário.

Do Mestre ao discípulo
- A Providência do Invisível - Parte 2
por Angelo Aguarod
Reformador (FEB) Dezembro 1919 


            Tua segunda objeção se limita a supor por que os Mestres ou Guias Espirituais
invisíveis não estendem sua ação protetora a muitos casos em que ela é necessária.

            É uma suposição destituída de fundamento, efeito daquela falta de compreensão e miopia espiritual a que antes me referi.

            Não esqueças que tudo quanto acontece no mundo são efeitos fatais, de uma fatalidade opressora e indesviável. E contra o que é fatal, que queres que façam teus Guias e Mestres? Forçosamente, tem que deixar produzir-se as consequências indeclináveis das coisas que os homens geraram.

            Nem contra o aborto das causas, que efeitos tão desastrosos como os que amargam tua existência hão de produzir, podem eles exercer uma ação mui eficaz; porque não está em suas faculdades cortar o precioso dom do livre arbítrio com que dotou o Criador o ser humano; e esse livre arbítrio, ainda que seja certamente limitadíssimo em seres de minguado adiantamento, como o são a generalidade dos terrícolas, exercitado por estes nos limites do que podem, que queres que produza? A geração de causas há de certo trazer como consequência dissabores, dores e amarguras, flagelos que não podem evitar os guias espirituais, porque os impede não somente a Lei senão também o próprio interesse de seus protegidos. Estes se acobertam tais amarguras, obras deles mesmos, e a experiência que o sofrimento lhes proporciona, os induz à retificação de conduta. Quando dá-se este aso, é aproveitado pelos protetores invisíveis, que, ao calor das novas e boas disposições de seus guiados, inspiram uma melhor conduta a observar, coisa que só conseguem pela maior eficácia que tem sua intervenção, verificada em semelhantes condições.

            Como os Guias e Mestres invisíveis sabem que, quanto acontece aos encarnados na terra, por doloroso que seja, há de redundar em beneficio para estes, não têm pressa em precipitar reações, que forçosamente hão de vir, e deixam os seus guiados navegar no mar dos efeitos produzidos pelas causas que eles geraram; porém, permanecendo sempre alerta nos naufrágios para lhes estender a tábua salvadora no momento oportuno.

            Os Mestres e Guias espirituais velam sobre todos os passos dos seus protegidos e estão sempre prontos a intervir, em casos de necessidade, nas ações destes, porém sem coagir-lhes a liberdade. Eles não abandonam nunca os espíritos encarnados; são estes que se separam dos seus Guias, e não ouvem sua voz paternal, protetora, quando os chama ao bom caminho.

            E quando o homem aberta e repetidamente se rebela contra as boas inspirações de seus Guias, estes o deixam entregue às suas forças exclusivas, para que o peso da dor o chame a juízo, já que repelem a proteção paternal disposta pela Divina Providência.

            Por isso há tantos espíritos encarnados na Terra que, não obstante a amorosa solicitude de seus Guias e Mestres invisíveis, vivem entregues ao delito, à dissipação, à uma existência horrorosamente culpada.

            Os passos desses espíritos delinquentes são veludos, da mesma maneira que os dos seres que se acham colocados numa altura moral invejável. Dia virá, para aqueles, em que a mesma Lei, com seus açoites, conseguirá pô-los em disposição de ouvir a voz protetora de suas Guias, e então começará para aqueles o período de regeneração,

            Por isso, não acredites que, quando os seres sofrem e experimentam contrariedades sem conta, são desatendidos por seus Mestres e Guias. São sempre atendidos, instruídos, sustentados e convenientemente, e com amor, em suas rudes provas; porém é preciso que que se esgotem em sua totalidade as consequências dos atos delituosos de outros tempos e que os desagradáveis efeitos dos erros cometidos sigam seu curso, pois essas amarguras também são mestres e guias.

            Pelo que resulta que, quando o homem se crê mais abandonado de seus guias, os tem por partida dobrada, já que a providência do que, invisível, segue seus passos para aproveitar qualquer circunstância que o permita favorece-lo, se une o flagelo, mestre que, de urna maneira convincente, ensina aos recalcitrantes, obrigando-os, pela dor e desenganos, a entrar na vereda.

            Os Mestres e Guias espirituais invisíveis dos terrícolas, são sempre a providência, destes, que vela até o menor de seus pensamentos. Não os desamparam nunca, como repetidamente tenho dito; somente obram na forma do tempo que o homem não compreende, e por isso se crê mais desamparado, quando maior é a ação de seus Guias invisíveis sobre ele, pondo a Luz ante sua inteligência e oferecendo-lhe um apoio seguro para vencer as dificuldades e evitar os abismos.

            Convence-te, de uma vez por todas, filho meu: A providência do Pai não deixa nunca em abandono a nenhum dos seus filhos, por culpado que seja, e ainda o delinquente é seguido com a solicitude e essa providência se manifesta em forma de Mestre e Guia espiritual de Anjo bom, cuja solicitude pana seu protegido é inesgotável.

            Assim, filho meu, não te consideres nunca desamparado de teus Guias e Mestres espirituais sempre estes estão à espreita para te prestarem os auxílios de que necessitas, porém, não esqueças que deves ser tu, e não eles, o artífice de tua perfeição e, portanto, que muitas vezes terás que ficar entregue às tuas próprias forças para que, deste modo, conseguido o objetivo de tua vida terrestre, possas gozar, como teu, e bem teu, o fruto de teu labor.

            Esta espécie de abandono também é providencial, porque, mediante ele, o espírito aperfeiçoe sua individualidade, a qual, aperfeiçoada, há de converte-lo, um dia, em um semideus, fazendo-o por sua vez, Mestre e Guia de seus irmãos menos evoluídos.

Instruções Espíritas



Instruções Espíritas
por Lux
Reformador (FEB) Dezembro 1920

Resposta a uma Carta:

            Sofres? Tens a alma sangrando? Pois bem: volve o teu pensamento para o Alto, pede a Deus que te conceda a graça da assistência de seus Mensageiros, suplicam-Lhe, em nome de Jesus, a orientação de que necessites para que te possas colocar ao abrigo do desespero e do desânimo. Considera que na terra também o Mestre sofreu martírios e mede bem a distância em que te achas do Instrutor Divino. Porque O perseguiram? Porque O condenaram nos suplícios da cruz? Porque era justo e bom. Porque, norteando o homem para a vida espiritual, escandalizavam os que se presumiam doutos e tinham os olhos voltados unicamente para as coisas da terra. E em que condição vivias nessa época?...

            A vida, meu amigo, não desaparece com a matéria, com o corpo terreno que
lhe serve de instrumento para o trabalho e para as grandes lutas que trava em proveito de seu desenvolvimento. A sepultura por onde lhe desaparece o invólucro material que se vai transformar e constituir o corpo de novos elementos, é uma porta que se fecha para lhe dizer:

            “Teu reino não é deste mundo.”  

            Quando se chega a este resultado, também se chega ao conhecimento de existências passadas e, a vida do que hoje sofre, sentindo-se presa às que agitara anteriormente no plano material, apercebe-se do grande atraso em que estivera quando, nos tempos idos, associando-se aos perseguidores do Cristo, contra Ele orgulhosamente se fazia nas campanhas do ódio e da difamação!

            Pensa, pois, que não o que hoje procuras ser, quando, animado por sentimentos bons desejas contribuir para o esclarecimento dos ignorantes, para o conforto dos que soluçam e para o bem estar da humanidade.

            Foste a ignorância e o atraso, o orgulho e a ferocidade, de que te desvencilhas
nos momentos de repulsa, de exortações cristãs e de elevados surtos de espiritualidade em procura de Deus.

            Vê, agora, a distância que te separa do amado Mestre. Ele tudo sofreu por amor à  humanidade e os sofrimentos que te pungem provém, apenas, da necessidade que tens de progredir, reparando faltas, educando o sentimento para a conquista da paz e da sabedoria.

            Volve, pois, teu pensamento para o Alto, entrega-te a Jesus e aguarda, serenamente, o DIA DA PASSAGEM.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A Razão e a Fé


 A Razão e a Fé
Dr. Alfredo Haanwinckel
Reformador (FEB) Fevereiro 1920

            Nunca na igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane, que é isto? Assim como Deus não é hoje menos Onipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa, do que dantes era.   Padre Antônio Vieira (Sermão da Sexagésima - Ano de 1655).

            Uma crença é um ato de fé de origem inconsciente que nos força a admitir em bloco, ou no todo, uma ideia, uma opinião, uma explicação, uma doutrina. A razão é estranha, nós o veremos, à sua formação. Dr. Gustave Le Bom (Les opinions et les croyances).

            Parece, a primeira vista, considerando-se o abismo em que se precipita a belíssima e humaníssima religião do Crucificado impelida, empurrada, tão violentamente empurrada, pelos seus egoísticos executores, que estes executores perderam a razão por estarem repletos de fé. Mas, apreciando-se convenientemente os fatos, há de chegar-se a consequência de que eles perderam a razão por terem perdido a fé; fé que, mesmo raciocinada, também se ampara, também se firma na palavra sagrada para muitos, desde muito, palavra perdida, no meio de tantas palavras sempre, e cada vez mais, acrescidas. Sim, razão não é, não pode ser incompatível com a fé, nem a ciência com e o progresso inimigos da religião.

***

            “Custa-se compreender, disse Chateaubriand, o desenfreamento desta geração contra o cristianismo.”

            Ainda hoje, um século depois, prega-se, de modo mais ostensivo, o mesmo
pensamento por mais incisivas palavras.
             
            Frequentei igrejas protestantes, lojas teosóficas e centros ou grupos espíritas; todos condenados, todos anatematizados e ainda desapiedadamente zurzidos (espancados) como deturpadores, conspurcadores dos ensinamentos do Cristo.

            Entretanto, o que todo o mundo pode verificar, o que todo mundo há de verificar, querendo, é exatamente o contrário, o diametralmente oposto.

            A Teosofia, ciência divina, sabedoria de Deus tendo por escopo a verdade e por fundamento a fraternidade universal; o Protestantismo seguindo à risca os ensinamentos da Bíblia, onde se encontra o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo isento de inovações; e o Espiritismo que, pregando e praticando o mesmo Evangelho em espírito e verdade, toma incremento assombroso, maravilhoso por todo o Universo; longe, muito longe de rebaixarem elevam, e de mais em mais, o Cristianismo, esse belo e incomparável Cristianismo!

            Sim: Cristianismo, porque Cristianismo não é Catolicismo.

            Há requintada má fé no impingir um enxerto mal pegado pela árvore que lhe
empresta vida.

            Há erro e erro crasso, e por vezes conscientes, no empregar, como sinônimo, palavras de significação diferentes e até opostas, como o de Chateubriand em um dos seus memoráveis livros, precisamente naquele do qual extraí o trecho há pouco citado, quando, referindo-se ao Catolicismo, raramente usa este vocábulo, empregando centenas de vezes o outro - Cristianismo - que se encontra desde o título da dita obra.

            0ra, religião católica não é religião cristã.

            O teosofista, praticando a fraternidade universal, é cristão. O protestante, tendo a Bíblia por evangelho, é cristão. O espirita, sendo a personificação da caridade, é cristão.

            O suposto católico que não venera relíquias de santos, que não aceita em absoluto os dogmas da igreja, e que divisa no Evangelho o espírito que vivifica além da letra que mata, é cristão; é mesmo espírita sem o supor, porém, não é católico como o supõe ser.

            Sim: todos estes são cristãos porque são ovelhas do mesmo rebanho que só
reconhecem um Pastor: - Jesus, o Cristo.

            Aqueles, porém, que aceitam as inovações que, há mais de dezesseis séculos
vêm desfigurando, desvirtuando e subvertendo a doutrina do Divino Mestre
ensinada e praticada, na sua máxima simplicidade, nos três séculos anteriores; aqueles que julgando-se os melhores, os mais nobres e os únicos possuidores daquela chave de ouro que temperada no sangue de Jesus Cristo fechou o inferno e abriu o céu e patenteou à alma humana o seio benéfico de Deus..., chave de que nos fala Alves Mendes e da qual mais tarde tratarei; aqueles enfim que, por estes e outros privilégios, evitam o contacto com os que deviam considerar irmãos, esquecendo deliberadamente o – Amai ao próximo como a vós mesmo - de todas as religiões esses não são cristãos, são puramente, simplesmente, unicamente católicos ou católicos romanos.

            Católico romano!

            Híbrido paradoxo! Enigma misterioso que quase ninguém compreende e decifra.

            Se é católico, que significa universal, como é, como pode ser nominalmente,
nomeadamente, particularmente, individualmente de Roma? Se é católico e, portanto universal, como é que conta, com é que possui tão insignificante número de fiéis em relação as muitas centenas de milhões de adeptos de todos os outros credos?

            O Cristianismo, sim, poderá ser universal, tomando-se na devida conta as
palavras de S. Pedro de quem, na verdadeira, inabalável, resistente e pétrea fé, Cristo edificou a sua igreja.

            S. Pedro considerando na visão e no que lhe disse o Espírito (Atos dos Apóstolos X, 19) seguiu aos que vieram chama-lo em nome do centurião Cornélio, e ao encontra-lo em Cesaréia cercado de seus parentes e mais íntimos amigos (Atos X: 24 e 27) disse-lhes – “Tenho na verdade alcançado que Deus não faz acepção de pessoas. Mas que em todas a nação aquele que o teme, e obra o que é justo, esse lhe é aceite.” (Atos X: 34 e 3ó). Isso é positivamente universal, mas, não é absolutamente católico de Roma!

            É universal porque tem sido invariavelmente ensinado, se bem que por outras palavras, por todos os grandes instrutores do mundo, desde Rama, Krishna, Moisés, Zoroastro, Cakyamouni, o Buda, até Jesus, o Cristo. E não é católico- aí vai o paradoxo- isto é: universal - precisamente por ser católico, isto é: universal e portanto grande demais para caber nos estreitos limites de círculo romano. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Perdão e Vida



Perdão e Vida
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Julho 1975

            Perdão é requisito essencial no erguimento da libertação e da paz.

            Habituamo-nos a pensar que Jesus nos teria impulsionado a desculpar "setenta vezes sete vezes" unicamente nos casos de ofensa à dignidade pessoal ou nas ocorrências do delito culposo; entretanto, o apelo do Evangelho nos alcança em áreas muito mais extensas da vida.

            Se somarmos as inquietações e sofrimentos que Infligimos a nós mesmos por não perdoarmos aos entes amados pelo fato de não serem eles as pessoas que imaginávamos ou desejávamos, surpreenderemos conosco volumosa carga de ressentimentos que nada mais é senão peso morto, a impelir-nos para o fogo inútil do desespero.

            Isso ocorre em todas as posições da vida.

            Esquecemo-nos de que nenhum ser existe imobilizado, que todos experimentamos alterações no curso do tempo e não relevamos facilmente os amigos que se modificam, sem refletir que também nós estamos a modificar-nos diante deles.

                                                                                   ***

            Casamento, companheirismo, equipe, agrupamento e sociedade são instituições nas quais é forçoso que o verbo amar seja conjugado todos os dias.

            Na Terra, esposamos alguém e verificamos, muitas vezes, que esse alguém não é a criatura que aguardáramos; entregamo-nos a determinados amigos e observamos que não correspondem ao retrato espiritual que fazíamos deles; ou abraçamos parentes e colegas para a execução de certos empreendimentos e notamos, por fim, que não se harmonizam com os nossos planos de trabalho, e passamos a sofrer pela incapacidade de tolerar as condições e realidades que lhes são próprias.
           
***

            Reflitamos, no entanto, que os outros se alteram à nossa frente, na medida em que nos alteramos para com eles.

            Necessário compreender que se todos somos capazes de auxiliar a alguém, ninguém pode mudar ninguém através de atitudes compulsórias, porquanto cada criatura é uma criação original do Criador.

***

            Aceitemos quantos convivam conosco, tais quais são, reconhecendo que, para manter a bênção do amor, entre nós, não nos compete exigir a sublimação alheia, e sim trabalhar incessantemente e quanto nos seja possível pela sublimação em nós.


Paulo majora canamus




Paulo majora canamus (*)
Editorial
Reformador (FEB) Nov 1919

(*) Significa literalmente "Cantemos coisas mais altas".
Significa deixar as coisas pequenas e passar às mais elevadas.

            Já deve ter cessado, oficialmente ao menos, o período de hostilidades que o clero patrício pela voz autorizada e grave de S. E. o Cardeal Arcoverde abriu contra nó: e os nossos irmãos protestantes.

            Diante da insólita arremetida, serenos e confiantes na misericórdia divina, em vez de nos preocuparmos com os doestos, perfídias e baldões que, de certo seriam e foram bolsados contra nós outros do alto de vistosos púlpitos, com mais retórica que sinceridade,
traçamos a nossa conduta como cumpria, em face da consciência cristã à luz dos ensinamentos vivos que a Doutrina nos faculta.

            Procuramos, em vez da rebatida consonante, ouvir a voz autorizada dos nossos Guias, a palavra desapaixonada dos nossos amigos do espaço, emancipados de preconceito e sobranceiros sempre ao fermento das paixões mundanas.

            E quanto folgamos em registar que, da mansão beatifica da verdade, nem uma palavra de cólera, nem um gesto de enfado nos chegou de permeio às lições analíticas da lamentável ocorrência!

            Lamentável, importa dize-lo, em relação aos seus provocadores e jamais em relação a família espírita segura do seu mandato, e que -com prazer o proclamamos - teve uma feliz oportunidade de aferir a elevação dos próprios sentimentos de benevolência e tolerância, além de uma implícita coesão de ideias que muito a recomenda aos pósteros, quando estes acontecimentos houverem de ser apreciados como pródromos verdadeiros da renovação moral do planeta.

            Falando para o seu consuetudinário auditório, o clero poderia ter a presunção de aconchegar mais ao seu desfalcado aprisco quaisquer ovelhas tímidas e recalcitrantes.

            Ele é, porém, bastante arguto para não supor que nos fosse converter a nós outros com a sua atoarda de imprecações e blasfêmias, que outra coisa não é, perante o senso comum, esse delírio de monopolizar à força a consciência humana.

            E o resultado de tudo isso foi que, fora das rodas de sacristia e talvez dos serões duvidosos de um duvidoso beatério, essa campanha inócua, pueril e ridícula, não teve repercussão em nosso meio social.

            Destarte se verifica que a medida mais que anti política só nos trouxe benefícios e novos estímulos, considerando-nos a nós, pobres mentecaptos de ontem, desclassificados e réprobos, uma força coletiva capaz de alarmar e mover o exército clerical.

            Demos graças a Deus!

            Há vinte anos, se tanto, não mereceríamos mais que um solene desprezo.

            Daqui há outros vinte anos, Deus sabe o que poderemos valer, como fator moral no cômputo da evolução que se acelera, máxime se, desprezando rivalidades e mesquinhas competições pessoais, nos colocamos dentro do Evangelho de N. S. Jesus Cristo.

            Esse é, não o esqueçamos nunca, o baluarte inexpugnável que o ultramontanismo impenitente em nome de privilégios e regalos seculares, e através de uma política de fogo e sangue, manteve em sequestro até a Reforma de Lutero, e, na impossibilidade de iludir ainda, tenta arrasar a golpes truculentos como se estivéssemos na idade média e num país  segregado de cultura filosófica e de evolução política normal.

            Porque a verdade é que o movimento espiritualista tendente a emancipação do dogmatismo romano é hoje universal, e não nos consta que algures os representantes da Tiara houvessem recorrido a tais extremos de um exotismo já agora digno de piedade.

            Se nós acreditássemos no demônio tal como o inculca pro domo sua a igreja católica diríamos que ele a empolgara em toda a sua potestade.

            Acreditamos, entretanto, no espírito rebelde, de todos os tempos, à lei do progresso e sabemos que é esse mesmo espírito farisaico que manobra a fraqueza, a ambição, o orgulho dos nossos irmãos católicos, a ponto de não verem que o terreno lhes foge de sob o pés, não por força de humanas vontades, mas de vontades divinas, que se concretizam em fatos, fatos que são da essência mesmo da sua primitiva igreja apostólica e que suscitam à consciência humana energias nova para a definitiva consagração do reino de Jesus.

            A força do nosso proselitismo está justamente nessa espontaneidade incoercível que a igreja católica lida por não ver e que é altamente significativa.

            Cada um de nós representa um voluntário da Fé, sem outro constrangimento ou ficção convencional, impulsado da própria consciência.

            Os que não buscaram a teoria para conhecer do fato, asfixiados pelas nebulosidades da Teologia católica, contramarcharam do facto para a teoria em homenagem a própria razão.

            É um fenômeno natural, esse, que depõe a favor da evolução progressiva do espírito e ao qual a igreja católica, ou qualquer outra, não tem poder nem força de invalidar.

            Dia virá, disse O Cristo à Samaritana, em que não adorareis o Pai nem em Jerusalém nem neste monte, mas em que os verdadeiros adoradores o adorarão em espirito e verdade. (1)   (1) João Cap. IV. Vv. 21 a 23.

            Esse dia se aproxima, conclamam e provam-no os mensageiros do mesmo O Cristo, eletrizando corações, vivificando inteligências.

            Pois bem: a igreja que se diz cristã, porque não interpreta os Evangelhos, porque não os prega ao povo em espírito e verdade, em sua tocante singeleza e sobretudo com aquela convicção que, mais que todas as pompas litúrgicas, toca os corações, sensibiliza as almas e faz das pedras filhos de Deus?

            Pois isso, ao menos em parte e honra lhes seja, procuram fazer com sinceridade os nossos irmãos protestantes, e com o mérito que de tal sacerdócio lhes advém, incorrem como nós, nas iras do romanismo.

            Mas é positivamente extraordinário!

            Os homens que raciocinam, os que não procuram iludir a consciência em acomodações efêmeras de uma vida falaz, esses diante de atitudes como essa do clero Romano, hão de forçosamente convir que não somos na liça os suspeitos, quando reivindicamos apenas a liberdade de crer em Deus e servir ao próximo como podemos.