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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Fraternidade



Fraternidade
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Março 1952

            “Amemo-nos uns aos outros.” João, I João, 4:7

            Nem um só monumento do passado revela o espírito de fraternidade nas grandes civilizações que precederam o Cristianismo.
            Os restos do Templo de Karnac, em Tebas, se referem à vaidade transitória.
            Os resíduos do Circo Máximo, em Roma, falam de mentirosa dominação.  
            As ruínas da Acrópole, em Atenas, se reportam ao elogio da inteligência sem amor.
            Santuários e castelos, arcos de triunfo e muralhas preciosas, hoje relegados à miséria
ao abandono, atestam a passagem da discórdia, da prepotência e da fantasia.
            Antes do Cristo, não vemos sinais de instituições humanitárias de qualquer natureza, porque, antes d'Ele, o órfão era pasto à escravidão, as mulheres sem títulos eram objeto de escárnio, os doentes eram atirados aos despenhadeiros da imundícia e os fracos e os velhos eram condenados à morte sem comiseração.
            Aparece Jesus, porém, e a paisagem social se modifica.
            O povo começa a envergonhar-se de encaminhar os enfermos ao lixo, de decepar as mãos dos prisioneiros de vender mães escravas, de cegar os cativos utilizados nos trabalhos de rotina doméstica, de martirizar anciãos e zombar dos humildes e dos tristes.
            Um novo mundo começa...  
            Ao influxo do Divino Mestre, o homem passa a enxergar os outros homens.
            O lar, a maternidade, o berçário, a escola, o hospital, o asilo, são recintos sagrados e um novo gênio de luz ergue-se muito acima daqueles que se faziam respeitar pela espada, pelo sangue, pela sagacidade e pela força, para governar as almas na Terra.
            Sem palácio e sem trono, sem coroa e sem títulos, o gênio da Fraternidade penetrou o mundo pelas mãos do Cristo, e, sublime e humilde, continua, entre nós, em silêncio, na divina construção do Reino do Senhor.



"Cultos" espíritas / "Templos" espíritas




“Cultos” espíritas / “Templos” espíritas
Reformador (FEB) Agosto 1943

            Pelo que toca ao Cristianismo primitivo, uma observação se impõe a quem faz a leitura refletida do Novo Testamento: a da ausência completa de uma lei de culto. Jesus pratica a seu modo as festas judaicas; os judeus cristãos continuam a frequentar o templo de Jerusalém; mas, em parte nenhuma prega S. Paulo sobre essas festas, nem sobre esse culto aos gentios que ele converteu à fé em Jesus Cristo. Enquanto o Cristianismo foi perseguido, ninguém pensou, é obvio, em lhe consagrar edifícios, nem cultos públicos. As cerimonias cultuais e os templos só mais tarde surgiram, quando a conversão dos imperadores induziu a um Cristianismo mais exterior do que real toda essa multidão de idólatras, incapazes do “culto em espírito e verdade” que o Evangelho de S. João recomenda. (Padre ALTA, “O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigáriosEd. FEB).

terça-feira, 2 de junho de 2020

Kardecista, roustainista ou espiritista?



Kardecista, roustainista ou espiritista?
por Roberto Macedo
Reformador (FEB) Outubro 1948

            Procuremos, preliminarmente, fixar os contornos da palavra “kardecismo”, determinando-lhe o verdadeiro conteúdo. Que é “kardecismo”? Ao pé da letra, o partido de Kardec. Nesse sentido, seremos “kardecistas”, isto é, partidários religiosos daquele que se tornou universalmente famoso sob o pseudônimo de Allan Kardec? Impõe-se a resposta afirmativa. Todo espiritista ou espírita (para usarmos a expressão que a lei do menor esforço veio tornar usual) é partidário de Kardec, reconhece-o como codificador da doutrina e pioneiro da sua dialética. A própria Federação Espírita Brasileira, tão serena em pleno tumulto, realiza, todas as sextas-feiras, estudos públicos alternados sobre “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”. A efigie de Kardec ilumina não só os papeis oficiais da Federação, como a Capa do "Reformador", seu órgão representativo. Infelizmente, porém, não é nesse sentido amplo, legitimado pela etimologia, que se costuma empregar o vocábulo “kardecismo”. Em ambiente mais teosofista do que propriamente espírita, já ouvi a definição seguinte: “Kardecismo é a doutrina que não permite trabalhos práticos.” Sem intuito de polêmica, peço licença para discordar. Kardecismo não é doutrina específica sobre trabalhos práticos, restrita aos horizontes da mediunidade. É todo um sistema, admiravelmente desdobrado através de vários livros. Seus reflexos se estendem às fronteiras da filosofia, da ciência, da religião. Os que assim definem o kardecismo exageram o escrúpulo revelado por Kardec, em relação aos trabalhos práticos. Exigir cuidados especiais não é condenar. Urge apresentar o argumento pelo avesso: tanto Kardec aceitou os trabalhos práticos, que até procurou rodeá-los de requisitos assecuratórios da sua utilidade moral. Demais, compreende-se bem que Kardec fosse avaro na propaganda de intercâmbios particulares entre encarnados e desencarnados, numa fase por assim dizer infantil do Espiritismo cristão, mal interpretado e mal praticado ainda hoje, quando adulto.

            Não menos prejudicial e inverídico é confundir kardecismo com a tese da corporeidade material de Jesus.

            Em primeiro lugar, tenho dúvidas de que Kardec houvesse repelido formalmente a corporeidade fluídica de Jesus. Aceitando o fato como possível, definiu-o como hipótese, parecendo inclinar-se pela sua inviabilidade e inoportunidade, naquela época.

            Em segundo lugar, dando de barato que Kardec houvesse rejeitado In totum a corporeidade fluídica, nem por isso estaríamos autorizados a simbolizar nesse acidente todo o conjunto da sua obra. Suponhamos - para aventar um exemplo, perante o qual a ninguém será lícito subterfugir - que se tenha em vista definir "getulismo"; ora, o Sr. Getúlio Vargas afirmou algures que o maior poeta do Brasil é Gonçalves Dias; logo, estaria autorizada a definição: "getulista é aquele que admite Gonçalves Dias como o maior poeta do Brasil" ... Não. A obra do Sr. Getúlio Vargas é profunda demais para caber nesse juízo rasteiro; a opinião sobre Gonçalves Dias não passa de acidente topográfico no panorama do conjunto.

            E, em terceiro lugar, lembremo-nos do caráter evolutivo do Espiritismo, proclamada por Kardec, Roustaing e outros bandeirantes da ideia nova. Kardec vacilou a respeito da fluidicidade, faz quase um século; outros vacilam agora, impressionados com o arrojo aparente do fenômeno. Por que seremos tolerantes para com estes e não para com o missionário, em cuja boa vontade encontraram os Espíritos terreno propício à veiculação do Espiritismo? Se Roustaing “sempre considerou a Kardec o verdadeiro fundador da Doutrina Espírita.” (“Os Quatro Evangelhos”, vol. 1, pág. 79), se o mesmo Roustaing encontrou em “O Livro dos Espíritos” – “uma moral pura, uma doutrina racional, de harmonia com o espírito e o progresso dos tempos modernos” ("Os Quatro Evangelhos", voI. I. pág. 8), isso não empresta a Kardec o dom da infalibilidade ou da imprescritibilidade. Quanto aos discípulos de Roustaíng e de Kardec, talvez nem sempre tão cordatos entre si quanto deveram, creio que se sentiram empolgados por esse grandioso estado de consciência que é a posse da verdade, mesmo contingente. Criaturas humanas... O Cristo perdoou a Pedro faltas mais graves e nem por ter sido faltoso sentiu o apóstolo lhe minguarem as forças, no momento supremo, para a gloriosa humilhação do madeiro. Tais discípulos voltarão - se já não voltaram alguns - aliados naturais da evangelização, fraternalmente ligados pelo vínculo superior do Espiritismo, quer dizer, do Cristianismo moderno.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

A Vinda do Reino de Deus


Vinda do Reino de Deus  Ei-lo aqui! ou...Ei-lo ali!          
17,20 Interrogado pelos fariseus quando viria o Reino de Deus, Jesus lhes respondeu: “ -Não vem o Reino de Deus com visível aparência”;  
17,21 nem se dirá: -Ei-lo aqui! -Ei-lo ali! Pois o Reino de Deus já está no meio de vós!” 
17,22  Mais tarde Ele  explicou aos discípulos: “-Época virá em que desejareis ver um só dia do Filho e não o vereis; 
17,23  Então vos dirão: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! Não deveis sair nem os seguir, 
17,24  pois, como o relâmpago, reluzindo numa extremidade do céu, brilha até à outra, assim brilhará o Filho no seu dia; 
17,25 É necessário, porém, que primeiro Ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração; 
17,26 como ocorreu nos dias de Noé, acontecerá, do mesmo modo, nos dias do Filho.” 17,27  Comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. Veio o dilúvio e matou a todos.

                Do livro “Segue-me!”, de Emmanuel por Chico Xavier, extraímos o trecho a seguir, para Lc (17,20) Não vem o Reino de Deus com visível aparência:

            “A Terra de hoje reúne povos de vanguarda na esfera da inteligência. Cidades enormes são usadas, à feição de ninhos gigantescos de cimento e aço, por agrupamentos de milhões de pessoas.

            A energia elétrica assegura a circulação da força necessária à manutenção do trabalho e do conforto doméstico. A Ciência ganha a higiene. O automóvel ganha tempo e encurta distâncias.

            A imprensa e a radiotelevisão interligam milhares de criaturas, num só instante, na mesma faixa de pensamento. A escola abrilhanta o cérebro. A técnica orienta a indústria. Os institutos sociais patrocinam os assuntos de previdência e segurança. O comércio, sabiamente dirigido, atende ao consumo com precisão.

            Entretanto, estaremos diante de civilização impecável? À frente desses empórios resplandecentes de cultura e progresso material, recordemos a palavra dos instrutores de Allan Kardec, nas bases da Codificação do Espiritismo.

            Perguntando eles “por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa”. através da Questão nº 793, constante de “O Livro dos Espíritos”, deles recebeu a seguinte resposta:

            “Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito adiantados porque tendes feito grandes descobertas e obtido maravilhosas invenções; porque vos alojais e vos vestis melhor do que os selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram  e quando viverdes, como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.” 

            Espíritas! Irmãos! Rememoremos a advertência do Cristo quando nos afirma que o reino de Deus não vem até nós com aparências exteriores; para edificá-lo não nos esqueçamos de que a Doutrina Espírita é luz em nossas mãos. Reflitamos nisso.”

            Ainda para Lc (17,20)- leiamos em “Bênção de Paz”, de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Dominarás a gramática, adquirindo fino lavor verbalista na ciência da expressão, mas enquanto não articulares a própria linguagem na luz da sinceridade e da compreensão, a tua palavra, conquanto primorosa, não renovará a ninguém.

            Indicarás a trilha exata da beneficência através de preciosos conselhos, mas enquanto não te dispuseres a percorrer a estrada do desprendimento, no auxílio aos semelhantes, embora ajudes indiretamente a quem te ouça, andarás órfão de teus próprios avisos.

            Pregarás tolerância, movimentando conceitos sublimes, mas enquanto não deres de ti mesmo em abnegação e humildade, na desculpa que ofertas, não farás claridade no coração a fim de acertar com o próprio caminho.

            Levantarás magnificentes construções terrestres, mas enquanto não ergueres em ti próprio o templo da paz, alicerçado no dever nobremente cumprido, não encontrarás em teu benefício o pouso interior da genuína tranqüilidade.

            Honrarás os teus familiares e amigos como seres extremamente queridos, mas quando não compreenderes que as esperanças e as necessidades deles são iguais às do próximo, com o mesmo direito à bênção de Deus, não conquistarás em favor de ti a cidadania do Universo.

            Desfrutarás admiração e apreço, com espetáculo de prestígio e renome, mas enquanto essas realizações não te repercutirem na vida íntima, em forma de alegria oculta pelas obrigações irrepreensivelmente atendidas, ainda mesmo à custa de supostos fracassos e prejuízos, no campo das experiências materiais, nenhuma demonstração de estima pública te adiantará no reino do espírito, onde, em verdade, se te vincula a vida real.

            Melhoraremos o mundo em derredor de nós, aperfeiçoando a nós mesmos. Capacita-te de que, depois das tarefas executadas no plano físico, possuirás tão somente a extensão e a quantidade de céu que houveres edificado dentro de si.”

          De “Caminho, Verdade e Vida”, de Emmanuel por Chico Xavier, coletamos o trecho que se segue, para Lc (17,23) -Ei-Lo aqui! ou Ei-Lo Alí!:
       
            “As exortações do Mestre  aos discípulos são muito precisas para provocarem qualquer incerteza ou indecisão.

            Quando tantas expressões sectárias requisitam o Cristo para os seus desmandos intelectuais, é justo que os aprendizes novos, na luz do Consolador, meditem a elevada significação deste versículo de Lucas.

            Na propaganda genuinamente cristã não basta dizer onde está o Senhor. Indispensável é mostrá-lo na própria exemplificação. Muitos percorrem templos e altares, procurando Jesus. Mudar de crença religiosa pode ser modificação de caminho, mas pode ser também continuidade de perturbação. Torna-se necessário encontrar o Cristo no santuário interior.

            Cristianizar a vida não é imprimir-lhe novas feições exteriores. É reformá-la para o bem no âmbito particular.

            Os que afirmam apenas na forma verbal que o Mestre se encontra aqui ou ali, arcam com profundas responsabilidades. A preocupação de proselitismo é sempre perigosa para os que se seduzem com as belezas sonoras da palavra sem exemplos edificantes.

            O discípulo sincero sabe que dizer é fácil, mas que é difícil revelar os propósitos do Senhor na existência própria. É imprescindível fazer o bem, antes de ensiná-lo a outrem, porque Jesus recomendou ninguém seguisse os pregoeiros que somente dissessem onde se poderia encontrar o Filho de Deus.”   

Vinda do Reino de Deus           
                 
 17,28 Também, do mesmo modo como aconteceu nos dias de Lot, os homens festejavam, compravam e vendiam, plantavam e edificavam;    
17,29  No dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminaram todos eles;
17,30 Assim será no dia em que o Filho  se manifestar. 
17,31  Naquele dia, quem estiver no terraço e tiver os seus bens em casa, não desça para os tirar; da mesma forma, quem estiver no campo, não torne atrás; 
17,32  Lembrai-vos da mulher de Lot;   
17,33  Todo o que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; mas, todo o que a perder,   encontrá-la-á;
17,34  Digo-vos que, naquela noite, dois estarão numa cama: Um será tomado e o outro será deixado; 
17,35  Duas mulheres estarão moendo juntas; uma será tomada e a outra será deixada; 17,36  Dois homens estarão no campo: Um será tomado e o outro será deixado. 
17,37 Perguntaram-lhe os discípulos: -Onde será isto, Senhor? Respondeu-lhes: “ -Onde quer que esteja o corpo, ali se reunirão as águias.”

         Para  Lc (17,33) -O  que procurar salvar sua vida perdê-la-á... - leiamos a Antônio Luiz Sayão em “Elucidações Evangélicas”(Ed. FEB): 

            “Compreendamos bem, em espírito e verdade, o pensamento de Jesus, dizendo, de um duplo ponto de vista, o que consta neste versículo. Aquele que só vive para o presente, preocupado unicamente em conservar a vida material, virá, mais cedo ou mais tarde, a perdê-la, pois que morrerá. Mas, como, ao perdê-la, não tenha cuidado do seu progresso espiritual, que é o em que consiste a salvação da alma, terá de recomeçar, achando assim de novo a vida que perdera e pela qual se lhe reabre a estrada que o conduzirá  a meta. Aquele que trata de salvar a vida espiritual perderá a vida material, mas achará do outro lado do túmulo a que não tem fim, a que ambicionava.”

            Para Lc (17,34-35) -Um será tomado e outro será deixado...- ainda desta fonte:

            “Como nem todos se acharão no mesmo grau de adiantamento, na época da purificação do planeta, forçoso será que haja uma escolha dos que possam continuar a reencarnar na Terra, uma vez concluída a separação do joio e do trigo.”

            Para  Lc (17,36-37) -Onde estiver o corpo aí se reunirão as águias... - leiamos, uma vez mais, da mesma fonte:

            “À sua resposta deu Jesus uma forma evasiva, pela mesma razão que muitas vezes falava servindo-se de figuras emblemáticas, isto é, porque os discípulos o não compreenderiam, se respondesse de modo preciso. Hoje, pela nova revelação, sabemos que as palavras do Mestre querem dizer: Por toda parte onde haja na Terra humanidade, haverá progresso e mudança e onde quer que a depuração se tenha completado, aí se reunirão os Espíritos purificados, os guias, os águias.” 

                           
                                   
                                  


domingo, 31 de maio de 2020

Tua fé te salvou!


O Leproso Agradecido  /  Tua Fé te Salvou!          
                  
         17,11 Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus passava pelos confins da Samaria e da Galiléia. 17,12 Ao entrar numa aldeia, vieram-lhe ao encontro dez leprosos que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando: 17,13 -Jesus! -Mestre! -Tem compaixão de nós! 17,14 Jesus viu-os e disse-lhes: “ -Ide, mostrai-vos ao sacerdote!”
17,15 Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz. 17,16 Prostrou-se aos pés de Jesus e Lhe agradecia. Era um samaritano. 17,17 Jesus lhe disse:
“ -Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? 17,18 Não se achou senão este estrangeiro que voltasse para agradecer a Deus?” 17,19 E acrescentou:
“ -Levanta-te e vai, tua fé te salvou!”


         De  “A Gênese”, de Allan Kardec, no seu Cap. XV,  extraímos o trecho que se segue, para
Lc (17,11-19) -O Leproso Agradecido / Tua fé te salvou!:
       
            “Os samaritanos eram cismáticos, mais ou menos como os protestantes com relação aos católicos, e os judeus os tinham em desprezo, como heréticos.

            Curando indistintamente os judeus e os samaritanos, dava  Jesus, ao mesmo tempo, uma lição e um exemplo de tolerância; e fazendo ressaltar que só o samaritano voltara a glorificar a Deus, mostrava que havia nele maior soma de verdadeira fé e de reconhecimento, do que nos que se diziam ortodoxos.

             Acrescentando: “-Tua fé te salvou”, fez ver que Deus considera o que há no âmago do coração e não a forma exterior da adoração.

             Entretanto, também os outros tinham sido curados.

             Fora mister que tal se verificasse, para que ele pudesse dar a lição que tinha em vista e tornar-lhes evidente a ingratidão.

            Quem sabe, porém, o  que daí lhes haja resultado; quem sabe se eles terão se beneficiado da graça que lhes foi concedida?

            Dizendo ao samaritano: “-Tua fé te salvou” dá  Jesus a entender que o mesmo não aconteceu aos outros.”
           
           

sábado, 30 de maio de 2020

A Guerra



A Guerra
José Petitinga
Reformador (FEB) Fevereiro 1918

            É possível que eu seja um retrógrado, que não compreenda bem as leis da Evolução, que desconheça todos os matizes da palavra - Progresso -, e daí a minha oposição à Guerra e o meu desacordo com o modo de pensar dos seus partidários, ou dos que a julgam necessária ao progresso humano.
            Ela serve, é verdade, pelas dores que nos proporciona, de instrumento vingador das nossas infrações ao código divino.
            Mas assim como a forca e o carrasco tornaram-se obsoletos e reclamam, para
substitui-lo, uma educação baseada nos ensinos do Cristo, do mesmo modo a Guerra, que é um monstruoso arcaísmo, deve ser substituída pela Fraternidade, ou, se quiserem, pelo   altruísmo, que é vocábulo mais moderno e, por isto, mais agradável a muitos ouvidos.
            Se o homem progride pelo conhecimento da Lei natural, se o perfeito conhecimento dessa lei nos dá a posse da verdadeira ciência, como a sua prática nos conduz à verdadeira felicidade penso que não pode ser considerado progresso aquilo que se opõe a essa lei.
            O código mosaico, que Jesus não revogou, mas somente amenizou lhe os pontos ásperos, necessários à época de sua promulgação, conservando lhe a essência divina, que é eterna e imutável, diz claramente: “- Não matarás!”; a Guerra, ao contrário, tendo por princípio a destruição, sem a qual não poderá existir, recomenda a matança e faz dos mensageiros da Morte os seus heróis, os seus distinguidos.
            É progresso o que está em desacordo com a Lei?
            Deve-se considerar conquista da civilização o que é contrário aos mandamentos divinos?
            Pode-se logicamente, dentro dos princípios da Moral, considerar benemérito o homem que mata?
            A afirmativa, que eu não subscrevo e contra a qual protesto, será a revogação do Decálogo, a proscrição do Evangelho e a apoteose da Guerra pelo retrocesso do homem à barbárie, retrocesso esse que modificaria - se a Lei pudesse alterada - o valor de todos os termos do vocabulário humano, confundindo a Virtude e o Vicio, a Luz e as Trovas, o Bom e o Mal.
            Creio, portanto, que é dever de todo cristão, e especialmente dos que seguem
o Espiritismo, fazer guerra à Guerra. O orgulho gerou-a, o egoísmo concebeu-a, e como estes mesquinhos sentimentos - origem de todo os males, causa de todas as desgraças - são contrários a moral evangélica, a Guerra, deles diretamente derivada é anticristã e deve ser repudiada por aqueles que se esforçam por seguir os preceitos do Nazareno.
            Ninguém, podendo evita-la, submete-se a uma operação cirúrgica; assim devemos evitar prudentemente as efusões de sangue, acautelando-nos quanto possível contra essas operações violentas que, embora não desintegrem o organismo social, deixam-no sempre  depauperado.
            A Guerra, mesmo quando se nos afigure justa, parecendo que tem por base um princípio elevado, - é má. Esse princípio é um pretexto ou um simulacro. Se, o estado físico do momento não permite uma análise vigorosa, se a paixão dominante cega os homens vedando lhes o discernimento, o futuro, com a calma de um frio analista, virá mostrar que somente o orgulho e o egoísmo agiram, ocultando a natural hediondez sob a máscara da Honra e da Justiça.
            A História está pejada de exemplos: as guerras que no passado foram chamadas “santas”, o presente chama-as “Maldita” e o futuro talvez as julgue simplesmente ridículas. 
            Esforcemo-nos, pois, para conquistar a Paz pelo Amor que salva e pelo Trabalho que dignifica, lembrados de que o “Não matarás” do Decálogo encontra o seu complemento no «Amai-vos reciprocamente do Evangelho.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A ciência mundana

                                                                                                                                                     Bezerra de Menezes

A ciência mundana
Bezerra de Menezes
Reformador (FEB) 1º de Julho de 1918

            Em um agrupamento espírita que funciona em casa de distinta família, em Botafogo, frequentada por um lente da Faculdade de Medicina, antes de uma das últimas sessões conservava-se sobre a lei das vidas sucessivas, assegurando o médico e professor poder provar a reencarnação cientificamente positivada em livros que possuía.

            Aberta a sessão, o médium A. L. recebeu a seguinte comunicação escrita:  

            “Paz e humildade”.

            Como é difícil reunir na Terra essa condição da alma e essa virtude que lhe é  inerente! Na Terra o homem vive continuamente em luta com os preconceitos do meio social e não quer submeter-se ao cadinho do estudo em que ele precisa curvar a cerviz à verdade, quando ela lhe vem tolher as suas aparições à superioridade.
            Todos querem ensinar, poucos se submetem à aprendizagem. Os mais ousados são os que melhor querem dominar as consciências e os outros, os que ainda procuram algo para satisfazer as aspirações da inteligência, veem descontentes com o que lhes surge de novo no campo das especulações científicas, porque essas novas teorias vem controverter aquilo que eles aprenderam nos livros legados por outros pseudo mestres.
            Entretanto, o livro da eterna Verdade – o Evangelho cristão – repositório infinito da ciência e da moral, de filosofia e de amor, de virtude e de luz – esse é posto para o segundo plano nas livrarias dos institutos acadêmicos, para deixar que sejam só abertas as páginas dos compêndios da ciência mundana.
            Ciência mundana, sim, que é como se se dissesse inconsciência mundana porque todos os tratados e compêndios, todos os infolios (Folhas dobradas em uma encadernação) onde os míseros sábios da Terra pretenderam encerrar teorias contraditórias ao pensamento do Mestre dos mestres, não pode edificar o homem moderno, torna-lo feliz, libertá-lo dessas terríveis amarguras e pesadelos em que ele se debate no doloroso instante porque a Terra passa. Esses mesmos, que não quiseram capitular para virem humilde e passivelmente buscar, sem ânimo preconcebido, a verdade espiritual, não se amoldaram ao feitio de que se deve revestir o verdadeiro apóstolo em busca de melhor orientação para a sua vida futura.
            Negar a alma, a sua sobrevivência, a sua nova volta ao mundo através da carcaça da carne, e destruir o único elemento de convicção sobre a justiça e a bondade de Deus, pois que só um novo estado, numa nova posição, num novo meio, numa nova forma de trabalho, de desenvolvimento, de atividade, de conquistas pela fortuna ou de lágrimas pela miséria pode o homem, atualmente indeciso, desejoso de algo melhor e mais confortador - pode o homem ter a explicação incontestável, perfeita, absoluta, racional, mesmo da razão da sua própria existência.
            Oh, meus irmãos e amigos! Crede em Deus, mas crede-o assim perfeito na sua sabedoria, como perfeitas são as suas leis admiráveis, sublimes, magistralmente concebidas!
            De mais, se tivésseis de negar uma só de suas leis, admiravelmente reveladas pelos seus magníficos emissários, teríeis de negar todas. Da harmonia do conjunto dessas leis solidárias e perfeitas, depende a harmonia dos seres e dos mundos, e nenhuma lei é mais de molde a impressionar a retina espiritual do que a da reencarnação – perfeito símile da grandeza, da bondade e da justiça do Criador, Sim, de nenhuma outra forma de argumentação pode, nem esclarecer, nem adoçar a alma, do que essa que o próprio Jesus deixou vagamente entendida no ensino sobre Elias vindo na forma de João Batista.
            Que mais quereis, estudantes do Evangelho, de claro e perfeitamente e legitimamente demonstrado? Acreditais no Evangelho? Então crede no ensino ali consagrado. Não credes em Jesus? No Grande sábio, no único sábio? Então crede no ensino lamentai-vos, mas não o negueis nem às leis que Ele nos trouxe, para não aumentardes a vossa amargura, o vosso desânimo, direi mesmo a vossa amargura, o vosso desânimo, direi mesmo a vossa infelicidade, pois bem infeliz é aquele que duvida de Jesus!

Aonde vamos


Aonde Vamos
Editorial
Reformador (FEB) 1º de Agosto de 1918

            "Nons pensons avec Bacon que si "un peau de raison, une‘etude superficielle de la physique conduit á l’atheisme (levis degustatio), des connaissences plus approfondies (pleni haustos) ramènent aux idées et aux sentiments religieux.”      (Psychologie de Ia croyance -Camille Bos, pag. 157)

            Os que não se forram ao superior tributo da Razão e para além dos âmbitos estreitos do materialismo, na entrosagem da existência coletiva colimam algo de mais nobre que a simples satisfação do ego contingente e confinado a formas perecíveis, esses, perguntam licitamente para onde vamos.
            Vivemos de fato? Pensamos e atuamos?
            De boa-fé, parece que ninguém o contestará.
            Mas porque viver, pensar e atuar? Se existimos, quem nos criou?
            A fatalidade de um mecanismo indefinido e cego?
            Energia universal?
            Que é isso, que será isso substancialmente considerado?
            Acaso, dizermos que o fenômeno vital se rege por leis que tais presumidas será definir intrinsicamente a vida?        
            Mas, a consciência também no lo diz: - a lei pressupõe legislador e a lei apreendida pela inteligente, se nulo não é o postulado de que o efeito é idêntico à causa.
            Com os ateístas impenitentes e sistemáticos, sempre que abordamos a questão “ab initio”(desde o início), pretendem eles infirmar-nos a crença alegando não haver provas provadas da existência de Deus.
            Quereriam, assim, que lhes definíssemos a Suprema Inteligência do Universo de um modo concreto, mas esquecem-se de que, da sua própria inteligência que não é suprema e muito menos universal não poderiam, na sua inopia (indigência) relativa, dar jamais uma prova absoluta e definida.
            Estas considerações vêm de molde e a propósito de afirmativas ainda há pouco feitas “ex-cathedra” (com conhecimento) por um de nossos publicistas, que não negava nem afirmava Deus, simplesmente porque não haveria corno demonstra-lo.
            Entretanto, para logo reconhecia e proclamava a perpetuidade da vida e a lei de evolução.
            Constatava o sofrimento e relegava ao futuro a solução do problema, que, a despeito de tudo, remanesce da mentalidade e do esforço de muitos séculos e gerações.
            Nós poderíamos, por conseguinte, argumentar com o ilustre articulista que o nosso Deus reside na sua própria Hipótese de Passado e Futuro, que só por analogia se infere e não se define, nesse QUID que escapa e recua, em regra, a “mens cogitatio” (coisa que pensa?) por mais perspícua (nítida) que ela seja, mas que também o faz amplificando-se e definindo-se nas suas leis.
            O erro, o grande erro dos filósofos negativistas está no quererem julgar Deus através do prisma antropomorfo, locando na Terra a fonte imane das origens e o centro das possibilidades universais. 
            Certo, desse ponto de vista precário eles não deixam de ter razão, porque o conhecido histórico dessa falida caravana - a Humanidade planetária considerada à luz da Nova Revelação – é um acervo de vicissitudes tremendas, de incongruências monstruosas, desde que, por considera-la nos insulamos no já agora exótico conceito de uma existência singular, sem antecedentes e consequentes, o que tanto vale dizer - sem causa nem fins.
            E daí as aberrações assinaladas, aliás inteligentemente pelo escritor a que nos vimos reportando, nos deuses mais ou menos teratológicos, guerreiros, vingativos, incríveis em suma, porém mais ou menos amoldados e apassivados a todos os crimes e tiranias, e de que é atenuada variante e bênção oficial de católicos e protestantes a cada qual de seus exércitos, que se defrontam e aniquilam na mais iníqua das guerras.
            Esta concepção clássica da Divindade tende, contudo, a modificar-se mercê das novas fontes da psicologia experimental, que a tese espírita veio precipitar, ao menos para os investigadores despreconcebidos de fanatismos e má vontade.
            Nem se estranhe que assim nos expressemos tratando de homens de ciência, porque há também um fanatismo científico tão rotineiro, tão temeroso e contumaz quanto o religioso, o político.
            Aquele, porém, broqueado (ulcerado) de continuo na sua arquitrave (vigas horizontais) e mercê dos ascendentes espirituais que propulsam as ideias novas a seu tempo, vai rareando e mais de um Saulo a caminho da nova Damasco surge armado em Paulo para afirmar a estupenda realidade da sobrevivência do ser, íntegro e autônomo, eterno e progressivo, um estado “ab material” (não material) da consciência humana.
            São perspectivas novas, arcanos até aqui mal suspeitados em nebulosidades metafísicas, que se afirmam e se tocam como para solidarizar aa leis universais. E encarada sob este novo aspecto a Humanidade nada tem de inconsequente e anômala em sua origem e fins.
            Deus não é mais a síntese de privilégios e absurdos, mas o Pai de todas as humanidades, a todas provendo e a tudo prevendo integral e logicamente.
            O homem encontra a razão de si mesmo e já não é o Prometeu de um Cáucaso indefinível, um acidente inexpressivo no conjunto do problema, mas um fator consciente na equação do Infinito que se lhe impõe na evidência de quanto o cerca. Afinal, quando afirmamos que as religiões dogmáticas são os melhores veículos do ceticismo contemporâneo não emitimos nenhum paradoxo, porque a verdade, - justiça se lhe faça - é que o materialismo contemporâneo brotou de espíritos de escol nos últimos tempos, os quais com a lógica das demonstrações positivas, esmerilhando o micro e o macrocosmo derrubaram a dogmática ancestral de mitos e lendas.
            Era, portanto, preciso que a Fé - patrimônio inalienável do espírito - evolvesse com os novos métodos, acessíveis à experimentação.
            Por isso, os espíritos manifestam, dão testemunho da sua sobrevivência e afirmam unânimes a existência de um Deus, que não definem, mas que sentem melhor e mais compreendem na imperecibilidade da própria condição.
            Vamos admitir que assim não fosse, que tudo não passasse de um abstruso fenômeno anímico?
            Que de melhor e mais positivo no apresentam os sábios da Terra com as suas engenhosas estruturas de hipóteses e sistemas, para explicar a vida que não podem negar?
            Com eles, com as suas teorias sibilinas, a que se reduz a entidade pensante neste mundo? ,
            Naturalmente, ao que aí vemos - egoísmo e força bruta mascarados em direito, moral de convenção, terror de fracos, abuso de fortes, escravidão, covardia, miséria, desespero e... ruínas.
            Há templos, altares, museus, academias, laboratórios, parlamentos, mas não há Fé, nem Esperança, nem Altruísmo, porque não há consciência do Destino.
            E assim, cada qual faz o seu deus, acomoda-o às contingências da sorte, se é que o não nega para afirmar-se!
            O Deus? - é ele.
            A Verdade? - é a sua inconsciência.
            E depois... depois... depois... a morte, o nada!
            E assim se compreende o apotegma (palavra memorável) de Claude Bernard a Victor Cousin, quando este lhe perguntava se de alguma coisa não conhecia tudo:
            “Se de alguma coisa eu conhecesse tudo, eu tudo saberia.”
            Mas demos graças a Deus, ainda assim, porque se Ele na sua Infinita misericórdia se não impõe a todos, pela grandiosidade das suas leis, a nós outros já se afirma nas leis da nossa consciência.
            Nem malsinemos, tão pouco, esse impenitente antagonismo de ideias, já por que das suas fileiras egressos aqui chegamos, já porque ele pode ser considerado como essas tonalidades escuras que melhor destacam as belezas da tela em conjunto, consagrando o artista que a concebeu e executou.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Doutrina - Condições e graus de Estudo



Doutrina - Condições e graus de Estudo
Editorial
Reformador (FEB) 1º de junho de 1907

            O prometido é devido. Vamos, pois, cumprir a promessa formulada na nossa última edição, no sentido de oferecermos alguns respeitosos cumprimentos ao artigo do nosso prezado colega “A Revelação”, do Pará, epigrafado “Conheçamo-nos primeiro”, no qual, ocupando-se da questão relativa à corporeidade de Jesus, em torno da qual “estabeleceram-se duas correntes de opiniões contrárias, sem nenhuma luz para a doutrina” entende ele que, de preferência a nos empenharmos os espíritas em tais sutis e, por enquanto, prematuras indagações, deveríamos preocupar-nos “mais intimamente conosco mesmos, microscópio cheio de fundos mistérios incompletamente desvendados.”  

            Em tese, não temos que dissentir do criterioso entender do nosso colega paraense. No domínio da investigação, com efeito, deve o homem proceder como a natureza: gradativamente. O estudo, pois, que o deve conduzir aos diferentes e sucessivos graus do conhecimento, tem que ser forçosamente subordinado a condições. E a primeira destas, como bem a faz notar o nosso amável interlocutor, é a análise de si mesmo, o exame introspectivo do eu individual, como base indispensável e ponto de partida do conhecimento ulterior - os fatos externos, as coisas visíveis, em seus diferentes modos de manifestação, o universo, em suma, na estrutura de suas leis, as verdades divinas em sua essência.

            Porque, sendo o homem uma redução do universo, o microcosmo, portanto, a expressão é perfeita e adequada – nenhuma noção exata e verdadeira poderá ele adquirir acerca das coisas e seres desse universo, antes de conhecimento, tão completo quanto possível, de si mesmo. Um é a chave misteriosa e explicativa do outro. Desvendado o mistério, está obtida a explicação, isto é, a posse da Verdade.  

            E foi neste sentido que o definiu Sócrates, no corpo de doutrina formulada por seu discípulo Platão:

            A alma, quando contempla a sua própria essência, dirige-se para o que é puro, eterno e imortal; e como é da mesma natureza, aí se demora por todo o tempo que lhe é possível. Então seus desvarios cessam, por estar ela unida no que é imutável. A esse estado d'alma é que se chama sabedoria.”

            A falta dessa iniciação na fonte primária do conhecimento, é que vemos tantos adeptos flutuando ao sabor de desencontradas sugestões. Não temos, por isso, a mínima relutância em subscrever a opinião do nosso colega do Pará, no sentido de que os espíritas devemos começar um estudo aprofundado do nosso eu interno, da essência de que é constituído o nosso ser imortal.

            É verdade que esse estudo nos reserva ao começo as mais acabrunhadas decepções. Tocado, com efeito, o nosso espírito pelas inusitadas e fulgurantes claridades da Revelação, quando dirigimos as nossas vistas, à maneira de sonda em mar desconhecido, para os abismos ignorados da nossa alma, empolga-nos ora o assombro, ora o desgosto de nos reconhecermos tão pequenos, tão distanciados do ideal que nos fora apresentado; ao mesmo tempo que palpitando de nobres e generosas aspirações, sentimo-nos bruscamente desviados pela solicitações de inferior tendência - misto, em suma, de clarões e trevas, de bem e mal, exatamente como o universo, em que essas duas modalidades se hostilizam, se conflagram e produzem o equilíbrio! E que titânicos esforços não se fazem necessários, que luta formidável e sem tréguas não se empenha no campo silencioso da própria consciência, até que a tendência para o bem, convenientemente sistematizada, consiga levar sempre de vencida as tentações e arrastamentos para o mal!

            Muitos descoroçoam logo ao começo dessa pugna. Outros – e é tão grande o número deles – nem ao menos se apercebem para a sustentar. Aqueles que, porém, compreendem que, para ser-se verdadeiramente espírita, não basta ter notícia do que dizem as obras da doutrina, nem ainda menos andar a apregoar a excelência dos seus princípios, com os quais, todavia, não tratam de conformar a sua conduta moral, dando lhes assim um desmentido vivo; aqueles que, longe de pretenderem adaptar a doutrina a suas vistas pessoais, forcejam por elevar-se tão alto o seu coração e o seu pensamento que os possam adaptar a doutrina a suas magníficas regras desse novo código, e assim, começam por aquele exame e consequente reforma de si mesmos, e nesse trabalho não se admiram de ter que empregar anos e anos, até ao fim de sua vida (ah! e de outra sorte é impossível, são os únicos que se podem considerar em vésperas de possuir aquela chave de que falamos, para com ela abrir as portas misteriosas da Sabedoria.

            Integral? – Ai de nós! Seres perfectíveis e finitos, mais ainda, habitando de um mundo inferior de expiação e provas, podemos acaso, pelo menos enquanto aqui permanecermos, aspirar à posse completa da Verdade?

            Daí, entretanto, será legítimo concluir que, antes de atingirmos aquele grau ideal de perfeição, possível sobre a Terra, devemos renunciar a toda pesquisa no domínio geral do conhecimento?

            De modo algum. Sem dúvida – insistiremos nisto – o primeiro estudo que se impõe ao adepto é o de si mesmo, o conhecimento do mistério vivo que é o homem, ao qual deve suceder de perto a modificação, a transformação de seus hábitos e tendências, a regeneração gradual do seu modo de ser e de agir, por pensamentos, palavras e atos. Sem esse trabalho preparatório, não haverá realmente possibilidade de efetivos e duradouros progressos. Vencidas, porém, as resistências de começo, que são as mais tenazes, da própria rebelde natureza, passados os primeiros anos (sim, que são necessários alguns anos para essa primeira paciente iniciação), à medida que a consciência se for tornando mais reta e o julgamento mais seguro, nada se opõe a que o crente vá paralelamente dilatando o campo de seus conhecimentos, penetrando mais longe na esfera das verdades superiores. E ele aí penetrará com tanto maior segurança, quanto é um fato de evidência para todos os que tenham tido a fortuna de o observar em si mesmos, que a cada conquista que o homem obtém sobre a sua natureza inferior, a cada esforço que realiza no sentido de elevar-se mais alto, acima das solicitações e arrastamentos subalternos, corresponde uma dilatação de suas percepções interiores. Dir-se-ia que a luz da Sabedoria incriada, que palpita em torno dos seres, espreitando o momento de se lhes comunicar, penetra os seios da alma, iluminando gradativamente a consciência então desperta.

            É isso o que, efetivamente, a nosso ver, se dá. E se assim é, e se por outro lado falecem a cada um de nós outros os elementos para conhecer e determinar o estado de consciência dos nossos semelhantes, como estabelecermos arbitrariamente, e de um modo Geral, que tais estudos são lícitos e tais outros prematuros ou inacessíveis?

            “Pretender-se resolver pelo Espiritismo – disse o nosso prezado colega d’A Revelação, citando Allan Kardec - aquilo que não está ao alcance da humanidade, é desviá-lo do seu fim.”

            Nunca - tolere-nos a irreverente contradita - teria menos apropriada aplicação essa sentença do iluminado codificador do Espiritismo, que relativamente à questão da corporeidade de Jesus.

            Pois se o Espiritismo nos vem fornecer, pela observação dos seus fenômenos e pela dedução das leis que os regem, o conhecimento dos fluidos, em suas propriedades e na imensa variedade de suas aplicações, é precisamente por ele que chegaremos a resolver esse caso, que a tantos surpreende, da corporeidade fluídica do Cristo. Ao demais convém não separar o ensino relativo a essa circunstância, da Revelação integral de que faz parte, indispensável ao seu completo entendimento. N’Os Quatro Evangelhos, com efeito, também denominado “Espiritismo Cristão, ou Revelação da Revelação” deram os evangelistas a Roustaing, não somente a explicação, em espírito e verdade, dos ensinos morais do Cristo, dos atos de sua vida, do seu papel, missão e poderes em relação à Terra, como também os mais altos e importantes ensinos acerca da criação, da evolução e destino dos espíritos, formando com isso uma obra admirável em 3 volumes, de que muitos falam, mas que poucos terão lido e muito menos estudado.

            Dessa obra – acrescentaremos de passagem, como informação – está sendo feita sob os auspícios da nossa sociedade, uma cuidadosa tradução, que não tardará muito a vir a lume, e que, vulgarizando-a entre nós, permitirá o estudo amplo, minucioso e analítico de que é digna.

            Assim pois, se os espíritos julgaram oportunas tais revelações, - e trata-se, como se sabe e o acabamos de assinalar, de uma revelação - com que direito proscreveríamos nós outros, ainda que a título provisório, o seu exame e comentário? Sem dúvida, para o perfeito entendimento das transcendentes questões ali expostas, exige-se alguma coisa mais que o espírito de curiosidade, o prurido de crítica ligeira; por isso não será aos neófitos, aos recentemente convertidos, não habituados ainda, em sua indisciplina mental, à profunda e amadurecida cogitação de altos ensinos (*), que o seu estudo será recomendável, ou que entre eles aliciará convicções. Tais ensinos, entre os quais o relativo à corporeidade de Jesus, para serem bem compreendidos, reclamam condições de iniciação, perseverante e demorada, que se não podem improvisar.

            (*) Salvo certos casos de predisposição inata, mesmo em alguns moços, de que temos tido conhecimento pessoal.

            Quais são os espíritas que se acham nessas condições? Poderemos sabe-lo porventura? É um caso que cada um resolverá segundo a sua própria consciência.

            Enquanto isso, não nos sobressaltemos por que aquela, entre outras questões interessantes, seja trazida para a tela dos debates, contanto que - não há que dissentir - se mantenham estes na esfera pacífica e cortês. Ainda agora, nesta mesma edição da nossa folha encontrará o colega do Pará um artigo firmado pelo nosso esclarecido colaborador Dr. Fernando de Alencar, terceiro de uma série provocada pelo estudioso confrade Arthur Baptista, de S. Paulo, acerca da corporeidade fluídica do Cristo.

            A permuta de ideias entre dois irmãos em crença tem-se mantido, com grande edificação para todos nós, no domínio sereno das doutrinas, sem a mais ligeira quebra dos laços de fraternidade e deferência a que mutuamente e legitimamente, se consideram obrigados. Deus permita – e assim o esperamos – que nesse terreno se conservem. E, assim sendo, onde estará o mal?

            É possível que nem um nem outro cedam uma linha de suas pessoais convicções: o nosso prezado colaborador, por certeza de estar na verdade – e nós com ele; o nosso não menos prezado confrade Arthur Batista, por acreditar inexpugnáveis as suas objeções, filhas, entretanto – tolere-nos ele esta fragilíssima ingerência – de um incompleto estudo da questão.

            Como quer que seja, porém, acreditamos que nem tudo será perdido: na pior das hipóteses, os leitores, que devem ter acompanhado com interesse o debute, terão por igual colhido, em sua intercorrência, pelo menos alguns subsídios de proveitoso estudo.

            E sempre se terá lucrado alguma coisa.

            Não terminaremos contudo, sem agradecer ao nosso amável colega d’A Revelação a generosidade dos conceito que em seu escrito externa acerca do modo por que a nossa modesta folha discutiu, há tempos, aquela questão da “personalidade de Jesus”, e nem ao mesmo tempo pedir-lhe, não somente que nos releve a deficiência do nosso arrazoado, como também que me perdoe, se no que acima fica dito acaso descobrir o quer que seja que de leve ao pareça discrepar da estima e do afetuoso respeito de que é digno, e que de todo o coração lhe tributamos.

            Creia que tal, de nossa parte, não terá sido a intenção.