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sábado, 28 de novembro de 2020

O futuro está em nossas mãos

 

O futuro está em nossas mãos

Tasso Porciúncula (Indalício Mendes)    Reformador (FEB) Abril 1963

           

            Cada ser humano tem de trabalhar pela própria felicidade. Se o seu carma é pesado, poderá amortizá-lo em tantas encarnações quantas sejam necessárias à sua reabilitação. Por sobre a Humanidade paira o Cristo vigilante, caridoso, terno, que estimula os fracos, encoraja os tíbios, suaviza as dores dos enfermos, acalma os desesperados, iluminando-lhes a jornada com a esperança. Nunca, porém, concedendo privilégios a este ou àquele, por ser desta ou daquela religião, por professar este ou aquele credo. Nunca, porém, impedindo que cada qual se levante por si mesmo e por si mesmo busque, à custa de lutas e sacrifícios, se necessário, a redenção final.

            Ninguém ficará eternamente condenado ao sofrimento, ninguém padecerá de penas eternas, porque a todos é dado o ensejo de melhorar, de compreender a diferença que há entre o bem e o mal. As provações representam o compromisso cármico de cada um, compromisso que terá de ser cumprido integralmente, através das encarnações. Portanto, o Espírito terá diante de si, como uma estrada aberta a seus passos, o Tempo. Quanto mais depressa resgatar seus débitos, mais depressa conhecerá a ventura. Dependerá de si próprio o destino que cumprirá em cada estágio reencarnacionista.

            Dizer-se que Jesus morreu para salvar a Humanidade é uma burla, porque nunca a Humanidade sofreu tanto quanto depois do sacrifício brutal imposto ao meigo Nazareno. Se fosse verdade a assertiva, o mundo não conheceria guerras, os homens seriam felizes, viveriam em paz, amar-se-iam sinceramente, abominariam a hipocrisia, a intriga, a falsidade, a felonia (deslealdade), a traição. Jesus veio ao mundo para deixar o seu Evangelho - roteiro de paz, amor e felicidade - e firmar o exemplo grandiloquente de coragem e fé nos ideais que pregou e defendeu. Se todos seguissem esses ideais, com a mesma fé, a mesma coragem, o mesmo entusiasmo e a mesma determinação, o mundo não estaria hoje sofrendo mil e uma torturas. O homem não continuaria sendo escravo do homem e reinaria na Terra a fraternidade aconselhada por Jesus. Ele nos traçou o caminho.

            Nós, no Espiritismo, não ensinamos que Jesus morreu para redimir a Humanidade, porque, decorridos quase dois mil anos da implantação de um cristianismo que não revela a verdadeira estrutura do pensamento do Cristo, não há paz na Terra, nos lares, onde quer que haja agrupamentos humanos. Enche-se a boca de prédicas bonitas, pendura-se Jesus nos lábios, mas os corações nem sempre o admitem lá dentro. Os que se afirmam herdeiros do Cristo muitas vezes espalham o fermento da desarmonia, acendendo as fogueiras da intolerância, do desamor e do sectarismo.

            O que ensinamos, no Espiritismo, é o modo de seguir o itinerário traçado pelo Mestre no Evangelho, mas sem fantasia nem mistério. A Doutrina Espírita é um farol que leva ao infinito a luz do conhecimento acerca do destino do homem na Terra e do Espírito no Além. Esse itinerário nos deixará um dia no porto da redenção espiritual através dos esforços que realizarmos para conquistar, palmo a palmo, o terreno perdido em encarnações mal orientadas, e para expungir do nosso “eu” os vícios e defeitos que retardam a nossa evolução.

            Jesus deu o exemplo de irmos até ao sacrifício, se preciso, na defesa dos ideais de aperfeiçoamento moral, fazendo o bem, exercendo a tolerância e sem nos vingarmos daqueles que nos fazem mal. Só assim alcançaremos a melhoria e o fortalecimento da nossa condição cármica. Temos, pois, de persistir na luta para lhe seguir as pegadas gloriosas, sem lamúrias nem desesperos. É mister, contudo, distinguir o Espiritismo do “espiritismo”. Ninguém pode ser espírita à sua moda. Somente pode ser espírita quem conforma sua conduta pelas normas doutrinárias, procurando delas não se afastar, haja o que houver, reerguendo-se sempre que cair.

            Ser espírita é obedecer à Doutrina codificada por Allan Kardec, fugindo ao sectarismo, à intolerância e a tudo quanto desvirtue o conceito ético do Espiritismo. Ser espírita é manter-se fiel a essa Doutrina, mostrando-se absolutamente isento de influências de outras religiões incompatíveis com os princípios que adotamos. Ou somos peixe ou somos carne. Não podemos ser as duas coisas ao mesmo tempo. Devemos evitar a “miscigenação” que se vai insinuando em nosso meio, sem, entretanto, cairmos na ortodoxia, que é fonte geradora da intolerância. Assim, não teremos mais tarde que lamentar as consequências do descaso e sô assim imporemos limites ao mistifório (confusão) “doutrinário” que está aflorando em Centros mal dirigidos.

            No Espiritismo, o fundamental é sua Doutrina, porque somente através dela, e só com ela, será possível o progresso moral e espiritual do homem. Não interessa aparentar erudição, mas conhecimentos seguros da Doutrina e subordinação a seus princípios. O que interessa é doutrinar, educar, orientando, fazendo que retifiquem seus passos aqueles que se desencaminharam na vida terrena, para que experimentem o reconforto do coração esclarecido. O Espiritismo ensina ao homem o porquê da vida terrena, dos sofrimentos, das desigualdades sociais. Mostra a vida espiritual, feliz, não como um Paraíso destinado aos favorecidos pelo “pistolão” de credos supostamente privilegiados, mas como um direito que cada qual pode conquistar por seu próprio mérito. É um direito que se terá de adquirir pelo trabalho, nunca por dinheiro.

            Até hoje o Espiritismo tem sido coerente com os seus princípios fundamentais, não obstante o esgalhamento que se observa, alheio a essas normas indispensáveis e insubstituíveis. É preciso que continue coerente, embora os obstáculos sejam cada vez maiores, pois, à medida que se aproxima o advento do Terceiro Milênio, mais fundas e demoradas serão as dores do mundo. E os que não estiverem preparados para suportar o que ainda está por vir, demonstrando coragem e resignação valorosa, soçobrarão fatalmente no mar revolto dos entrechoques ideológicos e sociais.

            “O Livro dos Espíritos” contem os “Princípios da Doutrina Espírita”. Estudá-lo sempre e sempre, na ânsia louvável de assimilar-lhe os ensinamentos, é dever de cada um de nós. Só se define como espírita quem saiba exemplificar as normas doutrinárias, pautando suas ações terrenas, na vida íntima do lar e na vida fora do lar, pelas lições prodigiosas da Doutrina codificada por Allan Kardec.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Em torno da liberdade


Em torno da liberdade

Emmanuel por Chico Xavier    Reformador (FEB) Abril 1963

             Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Mas não useis da liberdade para dar ocasião à carne: antes, pelo amor, servi-vos uns aos outros."

- Paulo. Gálatas 5:13.

 

            Quanto mais se agiganta a evolução intelectual da Terra, mais se propalam reclamos em torno da liberdade.

            Há povos que se batem por liberdade mais ampla.

            Aparecem os chamados campeões da liberdade, levantando quartéis de opressão e esfogueadas legendas de rebeldia.

            Fala-se em mais liberdade para a juventude.

            Pede-se liberdade para a criança.

            No entanto, basta uma vista de olhos, nas máquinas aperfeiçoadas do mundo moderno, para que se reconheça o impositivo inevitável da disciplina.

            O automóvel chispa, vencendo barreiras, mas, se o motorista foge do equilíbrio ao volante ou se desobedece aos sinais do trânsito, o acidente sobrevem.

            O avião devora distâncias, transportando o homem, através de todos os continentes, no espaço de poucas horas; todavia, se o piloto não atende aos planos traçados na direção, o desastre não se faz retardio.

            Louvemos a liberdade, sim, mas a liberdade de construir, melhorar, auxiliar, elevar...

            Ninguém, na Terra, foi mais livre que o Divino Mestre. Livre até mesmo da posse, da tradição, da parentela, da autoridade. Entretanto, ninguém mais do que ele se fez escravo dos Desígnios Superiores para beneficiar e iluminar a comunidade.

            Eis porque nos adverte o apóstolo, sensatamente: “Fostes chamados à liberdade, mas não useis a liberdade, favorecendo a devassidão; ao invés disso, santifiquemos a liberdade, através do amor, procurando servir.”


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Tais quais somos

 


Tais quais somos

Emmanuel por Chico Xavier

Reformador (FEB) Fevereiro 1963

             Declaras-te no sadio propósito de buscar evolução e aprimoramento, luz e alegria; entretanto, em várias ocasiões, estacas, recusando a estação de experiência e resgate em que ainda te vês.

            Deitas aflitivo olhar para fora e frequentemente cobiças, sem perceber, as condições de amigos determinados, perdendo valioso tempo em descabidas lamentações.

 *

             “Se eu contasse com mais saúde...” - alegas em tom amargo.       

            Em corpos enfermos, todavia, há Espíritos que entesouram paciência e coragem, fortaleza e bom ânimo, levantando o padrão moral de comunidades inteiras.

            “Se eu conseguisse um diploma distinto...” - afirmas com menosprezo a ti próprio.

            Não te é lícito desconhecer, porém, que o dever retamente cumprido é certificado dos mais nobres, descerrando-te caminho a conquistas superiores.

            “Se eu tivesse dinheiro...” - reclamas, triste.

            Mas esqueces-te de que é possível socorrer o doente e abençoar o próximo, sem acessórios amoedados.

            “Se eu possuísse mais cultura...” - asseveras, mostrando verbo desapontado.

            E não te aplicas ao esmero de lembrar que nunca existiram sábios e autoridades, sem começos laboriosos e sem ásperas disciplinas.

            “Se eu alcançasse companheiros melhores...” - dizes, subestimando o próprio valor.

            Entretanto, o esposo transviado e a esposa difícil, os filhos-problemas e os parentes complicados, os colaboradores insipientes e os amigos incompletos são motivos preciosos do teu apostolado individual, na abnegação e no entendimento, para que te eleves de nível, ante a Vida Maior"

            Errados ou inibidos, deficientes ou ignorantes, rebeldes ou faltosos, é necessário aceitar a nós mesmos, tais quais somos, sem acalentar ilusões a nosso respeito, mas conscientes de que a nossa recuperação, melhoria, educação e utilidade no bem dos semelhantes, na sustentação do bem de nós mesmos, podem principiar, desde hoje, se nós quisermos, porquanto é da Lei que a nossa vontade, intimamente livre, disponha de ensejos para renovar o destino, todos os dias.

            Ensinou-nos Jesus que o Reino de Deus está dentro de nós.

            Fujamos, pois, de invejar os instrumentos de trabalho e progresso que brilham na responsabilidade dos outros. Para superar as dificuldades e empeços (obstáculos) de nossos próprios limites, basta abrir o coração ao amor e aproveitar os recursos que nos enriquecem as mãos.


Eles, antes.

                

Eles, Antes

Emmanuel por Chico Xavier

Reformador (FEB) Março 1963

             Quando derdes um festim, disse Jesus, não convideis para ele os vossos amigos, mas os pobres e os estropiados.”

            Decerto que o Divino Orientador não estabelecia a desistência das relações fraternais, nem o abandono do culto às afinidades do coração. Considerando, porém, a Humanidade por família única, induzia-nos a observar os irmãos menos felizes, na categoria de credores principais de nossa atenção, à maneira de enfermos queridos, que esperam no lar a prioridade de assistência por parte daqueles que lhes comungam o mesmo sangue.

            Nas celebrações da alegria, é inútil convocar os entes amados, de vez que todos eles se encontram automaticamente dentro delas. Recorda os que jornadeiam no mundo sob as algemas de austeras privações, e partilha com eles as vantagens que te felicitam a vida.

 *

             Se exerces autoridade é natural te disponhas à sustentação dos companheiros honestos que te apoiam a luta. Antes deles, no entanto, pensa no amparo que deves a todos os que padecem aflição e injustiça.

            Obtiveste merecimentos sociais elevados, pelos títulos de competência que granjeaste a preço de trabalho e de estudo, e, com semelhantes valores, é razoável te empenhes no reconforto a beneficio dos que viajam no carro de tuas facilidades terrestres. Antes deles, contudo, atende à cooperação em favor dos que jazem cansados nas provações sem remédio.

            Desfrutas extensa possibilidade econômica, na qual ê compreensível te devotes a obsequiar os amigos do teu nível doméstico. Antes deles, todavia, socorre os que esmorecem de fadiga e penúria, para quem, muitas vezes, a felicidade reside num sorriso amistoso ou num pedaço de pão.

            Amealhaste conhecimento e, nos tesouros culturais que adquiriste, é justo te aprazas, nos torneios verbais de salão, enriquecendo o cérebro dos ouvintes que te respiram as normas superiores. Antes deles, porém, divide a luz que te clareia o mundo mental com os irmãos do caminho que se debatem, ainda, na noite da ignorância.

 *

             Jesus não te pede a deserção dos círculos afetivos.

            Ele próprio, certa feita, asseverou aos companheiros de apostolado: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamo-vos, amigos, porque vos revelei tudo quanto ouvi de meu Pai.”

            Com os amigos, entretanto, consagrou-se primeiramente a aliviar a carga de todos os sofredores, como a dizer-nos que todos podemos cultivar afeições preciosas que nos alentem as energias, mas à frente dos que choram, nos transes de dolorosas necessidades, é preciso adotar a legenda - "eles, antes."


Doutrinar, intensa e profundamente

 

Doutrinar intensa e profundamente

Tasso Porciúncula (Indalício Mendes)    Reformador (FEB) Março 1963

             Há cada vez maior necessidade de se propagar o estudo metódico e a explicação clara e paciente da Doutrina Espírita, que constitui o instrumento primordial da preparação do homem para compreender a vida no plano material e no plano espiritual.

            De pouco vale a assiduidade no recebimento de passes e no comparecimento fiel a reuniões de trabalhos práticos e de palestras, se a tudo isso não se juntar o conhecimento real da Doutrina e o consequente esforço - continuado e crescente - para exemplificar as lições aprendidas.

            O Espiritismo recebe diariamente novos reforços de elementos que, desiludidos com as religiões que professavam, buscam na Terceira Revelação o que não encontraram nos credos anteriormente abraçados, Esses reforços, por muito bem intencionados que estejam, trazem, quase sempre, com o seu natural entusiasmo pela nova crença, uma bagagem de ideias feitas e de hábitos herdados das antigas religiões em que militavam. Não será exagero acrescentar que alguns jamais conseguem despir-se de costumes sectários e preconceitos mantidos no ambiente religioso de que provieram.

            Então, vamos verificando a infiltração de ideias, pensamentos e hábitos incompatíveis com os princípios tradicionais do Espiritismo. Se um Espírito, se manifesta e transmite ideias tipicamente católicas, há quem as aceite sem exame, sem verificar estarem em antagonismo com o que se ensina e se aconselha em face da Doutrina Espírita. O fato de a ideia provir de um comunicante desencarnado não quer dizer deva ser aceita passivamente, sem análise. Hoje, quanta coisa se diz e se faz em certos centros espíritas, que representam uma mistura de práticas espíritas e ideias católicas! Já ouvimos de um adepto do Espiritismo a expressão “Menino Deus”; de outro, até o vezo muito católico de considerar Jesus como Deus. Leiam “Jesus, nem Deus nem homem”, de Guillon Ribeiro; “O

Cristo de Deus”, de Manuel Quintão; “Elos Doutrinários”, de Ismael Gomes Braga, ou, então, obras de maiores proporções, como “Os Quatro Evangelho”, de Roustaing, e “Elucidações Evangélicas”, de Sayão. Neles, por exemplo, ver-se-á o erro, em que certos espíritas já estão incidindo, de atribuir divindade a Jesus, de aludir ao dogma humano da “santíssima trindade” e outras excrescências que pseudo-espíritas, desconhecedores da Doutrina, acolhem e mantêm, colhidas no mistifório católico.

            Precisamos, pois, ter cuidado como adverte Manuel Quintão, em “0 Cristo de Deus", com o “ensino duvidoso e fragmentário que do Além nos chega, sem visos de iniludível autenticidade”.

            Não deixamos de reconhecer e salientar a elevadíssima hierarquia espiritual de Jesus, um dos Cristos, ou Enviados, que Deus disseminou no Universo, cada qual com a responsabilidade de instruir, educar e orientar o Planeta sob a sua imediata direção.

            Não vemos Jesus inerte, eternamente pregado à cruz, o corpo dilacerado e ensanguentado. Vemos Jesus vivo, envolto num manto radiante de luz, a amenizar as dores da Humanidade com a sua ternura inexcedível. Para nós, espíritas, Jesus está vivo, presente aos destinos da Terra, atento aos problemas humanos, mas também fiel à observância purificadora do Carma, que, através das reencarnações, prepara cada Espírito para os serviços de assistência aos sofredores e desorientados,

            Não amamos o cadáver de Jesus, mas o Jesus-Espírito, o Jesus-vivo, derramando pelo mundo a sua bondade, o seu altruísmo, a sua extraordinária capacidade de amar o próximo, a sua fecunda tolerância, o seu intenso labor em favor dos fracos e oprimidos, a sua luta incessante pela recuperação dos maus, para que, um dia, nesta ou em outras reencarnações, se tornem eles também devotados e exemplares trabalhadores efetivos da sua abençoada Seara.

            Para evitar todas as infiltrações prejudiciais à unidade do pensamento espírita, é indispensável o estudo público, com a respectiva explicação de cada período, de toda a Doutrina Espírita.

            Abramos os braços a quantos nos procurem e busquem conforto em nossa religião, mas não os deixemos ficar sem os ensinamentos indispensáveis a que se tornem realmente espíritas, conhecedores da Doutrina, para que possam desfazer-se definitivamente da bagagem de hábitos, ideias e preconceitos que, involuntariamente, tragam das religiões de onde promanem.


A igreja se adapta

 

A Igreja se adapta

por M.S.       Reformador (FEB) Fevereiro 1962

 

            Quando o Espiritismo anunciou, há 106 anos, que eram milhões os mundos habitados e que foi a esses mundos que Jesus se referiu, ao falar nas várias moradas do Pai, toda a Igreja, do seu mais alto dignitário ao menor vigário de aldeia, combateu essa “heresia” tal qual o havia feito no passado condenando Galileu à prisão, Giordano Bruno à fogueira, etc. Os discípulos de Kardec não foram para as fogueiras, porque, em 1857, já não tinha o Clero, ao seu dispor, o apoio dos césares e os cárceres da “Santíssima” Inquisição; todavia, o combate se manifestou através de excomunhões, de calúnias e de perseguições de todo o gênero, inclusive com o açulamento de fanáticos, qual ainda vem acontecendo, queimando-se Centros Espíritas e apedrejando-se residências de espiritistas.

            Agora, o Jornal do Vaticano - Osservatore Romano – (segundo noticia “O Globo” à página 8 de sua edição de 17 de Dezembro de 1962), à frente das façanhas astronáuticas desses últimos tempos, diz, docemente: “não existe razão teológica que negue a possibilidade de existência de vida em outros planetas além da Terra.”

            O mais interessante, porém, é que a Igreja, que sempre se disse inspirada pelo Espírito Santo, no mesmo artigo assevera: “A questão de saber se de fato existe vida em outros planetas do nosso sistema não pode ser resolvida tomando-se por base considerações de natureza filosófica ou teológica.”

            Dessa forma, os dogmas por ela criados também não merecem crédito, porque foram tomados por considerações de natureza teológica.

            Tudo isso é contraditório e evidencia que o chamado Espírito Santo, guia da Igreja, nunca esteve presente às deliberações dos concílios e dos papas, dirigidos, isso sim, por espíritos “santos” encarnados, de carne e osso.

            Dia a dia a Igreja vai “entregando os pontos”, procurando adaptar-se ao que ensinam e fazem os espiritistas. Até o antigo hábito de os espiritistas se reunirem em família, em prece, até este vem sendo imitado e recomendado. As reuniões vespertinas, que sempre foram realizadas pelos Centros Espíritas, serviram de modelo para as suas missas a qualquer hora da tarde. Tudo isto, e muita coisa mais vem sendo, e será cada vez mais, copiado do Espiritismo, mas cremos ser muito tarde para a Igreja reconquistar o coração do povo.

            Quanto a nós, espíritas, concluam os homens de ciência de hoje dessa ou daquela forma, continuaremos a afirmar: Há milhões de mundos habitados. Jamais poderemos conceber um Deus que crie trilhões de mundos para deleite apenas da sua vaidade entre os homens da Terra.


Companheiros mudos

 

Companheiros mudos

Emmanuel por Chico Xavier     Reformador (FEB) Março 1963

 

            Com excelentes razões, mobilizas os talentos da palavra, a cada instante, permutando impressões com os outros.

            Selecionas os melhores conceitos para os ouvidos de assembleias atentas.

            Aconselhas o bem, plasmando terminologia adequada para a exaltação da virtude.

            Estudas Filologia e Gramática no culto à linguagem nobre.

            Encontras a frase exata, no momento certo, em que externas determinado ponto de vista.

            Sabes manejar o apontamento edificante, em família.

            Lecionas disciplinas diversas.

            Debates problemas sociais.

            Analisas os sucessos diários.  

            Questionas serviços públicos,

            Indiscutivelmente, o verbo é luz da vida, de que o próprio Jesus se valeu para legar-nos o Evangelho Renovador.

            Entretanto, nesta nota simples, vimos rogar-te apoio e consolação para aqueles companheiros a quem a nossa destreza vocabular não consegue servir em sentido direto.

            Comparecem, às centenas, aqui e ali...

            Jazem famintos e não comentam a carência de pão.

            Amargam dolorosa nudez e não reclamam contra o frio.

            Experimentam agoniadas depressões morais, sem pedirem qualquer reconforto à ideia religiosa.

            Sofrem prolongados suplícios orgânicos, incapazes de recorrer voluntariamente ao amparo da Medicina.

            Pensa neles e, de coração enternecido, quanto puderes, oferece-lhes algo de teu amor, através da peça de roupa ou da xícara de leite, da poção medicamentosa ou do minuto de atenção e carinho, porque esses companheiros mudos e expectantes que nos rodeiam são as criancinhas necessitadas e padecentes que não podem falar.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Reencarnação - Lei de justiça

Reencarnação – Lei de Justiça

Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Março 1963

             A Humanidade vai, a pouco e pouco, aprendendo as verdades relacionadas com a reencarnação. As barreiras levantadas contra ela, principalmente nos países europeus, estão sendo desfeitas e dia virá em que todos compreenderão a necessidade de um melhor policiamento de suas existências, a fim de que o seu futuro espiritual não seja afetado profundamente, em obediência à Lei do Carma.

            Grandes e numerosas têm sido as provas da reencarnação, mas os Tomés de todos os tempos não aceitam a lógica nem o raciocínio. Querem ver, pôr o dedo no caroço, para terem a sensação de que se trata mesmo de caroço...

           Quem quer que examine a opinião de eminentes vultos da Humanidade, encontrará o ponto de vista da reencarnação explícita ou implicitamente exposto em suas ideias. Por exemplo: Baruch Spinoza, o filósofo do panteísmo, não temeu afirmar que "temos em nossa experiência a percepção de que somos eternos. Para o espírito não é sensível só o que ele compreende mas o que ele recorda... Entretanto, ainda que não nos lembremos de que existimos antes do corpo, percebemos, contudo, de que o nosso espírito é eterno, de tal sorte distante que leva a essência do corpo a ficar sob a categoria de eternidade e isto quer dizer que a sua existência, não pode ser definida pelo tempo nem interpretada pela duração.” (“Ética”).

            Outro grande vulto das letras e da filosofia - François Marie Arouet, o imortal Voltaire, fez, a respeito da reencarnação, a seguinte e muito interessante observação: “É  muito menos surpreendente nascer duas vezes do que nascer uma vez só. Tudo na Natureza é ressureição."

            Todos sabemos que Voltaire foi adversário tenaz da Igreja, que o acusou de impiedade e ateísmo. Voltaire, entretanto, nunca foi uma coisa nem outra. Recusou apenas aceitar o Deus antropomórfico que a Igreja apresenta ao mundo. Não acreditou jamais que o homem seja a imagem de Deus, porque isto, a seu ver, importava numa diminuição do Pai, até mesmo num sacrilégio.

            Há povos ateus”, assevera Bayle em suas “Pensées Sur les Comètes”, e continua: "Os cafres (infiéis) hotentotes, tupinambás e muitas outras pequenas nações não têm Deus." “É possível - acrescenta Voltaire. Mas isso não quer dizer que neguem Deus: não o negam nem o afirmam, porque nunca ouviram falar em tal. Dizei-lhes que Deus existe, e crê-lo-ão facilmente. Dizei-lhes que tudo se faz pela natureza das coisas, e crê-lo-ão da mesma forma. Pretender que sejam ateus é o mesmo que pretender que sejam anticartesistas: não são nem contra nem a favor de Descartes. São verdadeiras crianças. Uma criança não é ateia nem teísta: não é nada.”

            Mas, não saiamos do objetivo deste artigo. Outro filósofo, Davíd Hume, também autorizado historiador, confessou acreditar na reencarnação: “A alma, se imortal existiu antes do nosso nascimento, O que é incorruptível é ingerável.” Mas, como era muito comum no passado, quando a ideia de reencarnação se confundia com a de metempsicose, Davíd Hume, embora falando nesta, claramente se vê que fazia referência àquela: “A metempsicose é o único sistema de imortalidade que a filosofia pode aceitar.”

            Aqueles que não se demoram um pouco mais no estudo dos problemas do espírito. muitas vezes confundem a reencarnação com a transmigração e a metempsicose. Compreende-se, peja leitura do que escreveram, que querem referir-se à reencarnação.

            Outros filósofos eminentes, como Fichte, Lessing, Schlegel e Herder foram indiscutivelmente reencarnacionistas. Se não se aprofundaram mais no estudo do problema, dever-se-á talvez a que o ambiente filosófico da época não comportava o debate profundo sobre semelhante assunto, tanto a mais que o Catolicismo e o Protestantismo criavam, como criam ainda, todos os obstáculos imagináveis à difusão dessa manifesta verdade. E o fazem de maneira paradoxal, porque nada mais evidencia a imortalidade da alma do que a reencarnação. Se a alma é eterna, logicamente a reencarnação é um fato.

           Se a reencarnação é um fato, como aceitamos que o é, logicamente a alma é eterna. Dizemos alma quando melhor fora dizermos espírito, porque, para nós, kardequistas, espirito é a alma desencarnada; alma é o espírito encarnado.

            Em “Destino do Homem”, o célebre filósofo Fichte desenvolve comentários favoráveis à reencarnação, Schlegel descreveu a Natureza como - a “escada da reencarnação”.       

            Vejamos outro nome de escol: Benjamim Franklin, que foi o primeiro grande filósofo das Américas. Disse ele, com aquela franqueza bem-humorada constante de seus trabalhos: “Deste modo, achando que eu existo no mundo, acredito que, de uma maneira ou de outra, Sempre existi. E, com todas as inconveniências decorrentes da vida humana, não farei objeção a que volte aqui em uma nova edição de mim, desejando, contudo, que seja feita antes uma revisão correta da edição anterior.”

            O grande poeta Walt Whitman também acreditava na reencarnação. Escreveu: “E a você, Vida, eu considero como a soma de inúmeras mortes (Não tenho dúvida de que já morri antes, dez mil vezes)."

            O chamado “pai da antropologia moderna”. Dr. E. B. Tylor, admite aceitar o princípio reencarnacionista, neste trecho: “Parece-me que a ideia original de transmigração é honesta e razoável, porque as almas dos seres humanos renascem em novos corpos humanos.”

            A. J. Anderson escreveu um artigo sob o título “Proofs of Reincarnation” (Provas da Reencarnação), em que cita uma passagem referente a Napoleão Bonaparte, o Corso: “Napoleão foi um exemplo. Homem, nascido na mais humilde e condição de vida, elevou-se até dominar impérios e destronar reis com uma simples palavra. Erguer-se da obscuridade aos pináculos do poder humano. Um homem que, nas estranhas e anormais condições em, que se encontrou várias vezes, gritou para os seus marechais: “Eu sou Carlos Magno. Vocês sabem quem sou eu? Sou Carlos Magno.”

            Os exemplos são numerosíssimos. Estamos apenas mencionando alguns nomes de relevo na vida dos povos. A reencarnação se manifesta em todas as camadas sociais, porém os incrédulos, se sorriem quando os testemunhos são de pessoas de projeção, que não fariam se fossem citadas criaturas humildes, do seio do povo? Mas, continuemos.

            O professor Thomas H. Huxley, um dos maiores biólogos e pensadores do século dezenove, admitiu a razoabilidade da reencarnação, nestas palavras; “Conforme a doutrina da evolução, a da transmigração tem raízes tem raízes no mundo da realidade e pode reivindicar igual apoio com o grande argumento que a analogia é capaz de fornecer.”

            Poderíamos citar nomes como Gandi, Tagore e outros. É preferível, entretanto, apresentar somente a opinião de ocidentais, pois os orientais já se acham perfeitamente integrados na ideia da reencarnação.

            Convém repetirmos que frequentemente há confusão entre os termos  “transmigração” e “reencarnação”. Quando dizem “transmigração", querem referir-se à “reencarnação”. O mesmo acontece, às vezes, acerca da palavra “metempsicose”. Por isso, onde se lê “transmigração”, leia-se, porque o próprio sentido das frases o indica, “reencarnação”.

            Sir H. Ridder Haggard, famoso novelista inglês, em sua autobiografia "The Days of my Life”, no capítulo destinado à religião, escreveu:  “Compreendo o Juízo Final, depois de muitas vidas de crescimento para o bem eu para o mal - e, na verdade, a fé que eu sigo o afirma.”

            Ridder Haggard ergueu sua voz contra a revoltante crença de que o nosso futuro eterno depende apenas do que fizemos numa única vida.

            O célebre industrial Henry Ford foi positivo ao declarar:

            “Adotei a teoria da reencarnação quando tinha 26 anos”, acrescentando: “Um trabalho banal não me dá completa satisfação. Todo trabalho será fútil se não pudermos utilizar a experiência, que recolhermos numa vida futura. Quando descobri o que era a reencarnação, isso foi para mim como se descobrisse um plano Universal. Compreendi que havia uma oportunidade para trabalhar por minhas ideias. O tempo não é demasiadamente limitado. Eu não era mais um escravo do relógio. Havia tempo bastante para planejar e criar.

            “A descoberta da reencarnação pôs o meu espírito em sossego. Senti-me firme. A ordem e o progresso se achavam presentes no mistério da vida. Nunca mais procurei em  outros lugares solução para o enigma da vida.

            “Se vocês conservarem a lembrança desta conversa, escrevam-na para deixar  tranquilo o espírito dos homens. Desejo transmitir a todos a calma que a visão ampla da vida nos traz.

            “Todos nós guardamos, embora debilmente, a lembrança de passadas existências. E frequentemente sentimos que testemunhamos uma cena, ou a vivemos, em dado momento de alguma existência anterior. Mas isso não é essencial. A essência, o fundamento, o resultado das experiências, são experiências, são aquisições valiosas e permanecem conosco.”

            Quem quer que se dê ao trabalho de verificar, encontrará no Velho e no Novo Testamentos numerosas citações em favor da reencarnação, que é lei de justiça e de progresso. Aceitem-na ou não, ela se fará sentir pelos séculos afora, porque é parte inseparável do “mecanismo” da evolução humana.


A conversão de Jubamba

 


A Conversão de Jubamba

por José Brígido (Indalício Mendes)  

Reformador (FEB) Fevereiro 1963


             - Tire daí essa garrafa, meu amigo. Não bebo álcool.

            - Deixe disso, Estou festejando hoje o meu aniversário e todos aqui têm de beber a minha saúde. Uma recusa como a sua representa um insulto e eu não gosto de ser insultado. Vamos, beba! – concluiu o interlocutor com certa irritação na voz.

            Namiba olhou tranquilamente para o homem que o intimava a beber e retrucou, sem vacilar:

            - Desejo que Deus lhe dê muita saúde e, sobretudo, muito esclarecimento, meu amigo. Estou alegre por participar involuntariamente dessa inesperada festa de aniversário. Seja feliz, muito feliz, mas não insista, porque não beberei álcool em hipótese alguma.

            Jubamba, assim se chamava o homem, fechou a cara, cerrou os punhos e desferiu potente soco na mesa, gritando:

            - Aqui ninguém me desobedece! Hoje é um dia diferente. Você beberá à minha saúde, nem que seja forçado, ouviu?

            Namiba ficou sério, mas não deixou transparecer a preocupação que o assaltava. Olhos para Jubamba e procurou dar à voz, sem perda da energia indispensável, um tom de cordialidade.

            - Não briguemos. Não há razão para isso. Beberei à sua saúde, desde que troque o álcool pela água. Respeite o meu gosto. Não perturbemos um dia como este, que assinala a sua data aniversário. É, portanto, um dia de amizade, de alegria e de congraçamento, meu amigo. De acordo?

            Antes que pudesse defender-se, Namiba sentiu o punho poderoso de Jubamba na sua face desprotegida.

            Caiu com os lábios sangrando, meio tonto, por conta da passividade que a covardia impunha a quantos ali se encontravam, temerosos da reação de Jubamba, o desordeiro. Namiba ergueu-se, endireitando a cadeira para sentar-se quando Jubamba voltou a falar:

            - Como é? Você vai ou não vai beber o que está nesta garrafa? - e apontou para a mesa.

            - Quando Jubamba quer, faz-se. Aprenda isso.

            - Pois bem, Jubamba. Você está habituado a ser obedecido servilmente. Mas não serei eu que, para satisfazer a um capricho seu, vou renunciar a um hábito que sigo desde pequeno. Não beberei, nem que você me mate. Mas, ouça, se você crê em alguma coisa que está no plano invisível e acompanha todos os nossos pensamentos e todos os nossos atos; se você continuar assim, estará plantando dores para o futuro. Assim é a lei.

            Jubamba rugiu e avançou para ele, erguendo raivosamente o braço. Mas, quando o punho forte ia descer sobre Namiba, que não se afastara um centímetro, Jubamba soltou um gemido, que era mais um urro desesperado:

            - Uuuui! - E o braço continuou suspenso.

            Jubamba, olhos fora das órbitas, gritando:

            - Dei um jeito no braço! Ai! Ai! Ai!

            Todos, menos Namiba, correram para ele. Arranjaram unguentos e começaram a friccionar o ombro e o braço do agressor que cada vez parecia sofrer mais.

            - Isso não é gente, é o diabo! – esbravejou Jubamba fora de si – É o diabo! Fora com ele, fora!

            Mas ninguém ousou aproximar-se de Namiba.

            Passados alguns momentos, este se aproximou de Jubamba, que recuou, apavorado:

            - Saía daqui! Não se aproxime de mim! Você pagará caro o que fez!

            - Amigo, ouça: não lhe quero mal, não lhe fiz nada nem desejo que sofra. Quero apenas que seja compreensivo. Tomos somos irmãos ou pelo menos nos devemos considerar e tratar-nos como tal. Se me permitir, tentarei aliviar suas dores...

            Mas, ao aproximar-se, Jubamba, raivoso, explodiu:

            - Saia! Não quero nada com o diabo! Nada, nada, nada!

            E, antes que Namiba pudesse tomar qualquer atitude, foi ele, Jubamba, que se retirou, o braço erguido, sem poder baixa-lo, e sofrendo, cada vez sofrendo mais.

            Algumas pessoas ficaram na casa em que se encontrava Namiba. E, embora um tanto esquivos, procuraram conversar com ele. Então, Namiba foi franco:

            - Realmente, não fiz nada para molestar Jubamba. Ele está pagando o que comprou pela violência. Na vida, todos nós colhemos sempre o que semeamos. A violência é uma expressão e uma manifestação do mal. Somente seremos felizes se adotarmos a não – violência como norma de nossas resoluções. O homem paciente triunfa das dificuldades, quando se guia pela inteligência esclarecida.

            Fez um pequeno intervalo para prosseguir:

            - O álcool desfigura a personalidade humana, atira a criatura nos braços da violência e da miséria. Pode conduzi-la ao crime, através da estrada da degradação. Quanto mais nos prendemos à Terra, mais nos distanciamos da legítima felicidade. Sei o que aconteceu a Jubamba, Mas não fui eu quem o provocou... Foi ele mesmo que, atraindo sobre si forças maléficas que se identificavam com a sua injustificada revolta, acabou presa do infortúnio.

            Jubamba fora conduzido a um médico que o examinou detidamente, sem encontrar meios de explicar o que lhe havia acontecido. Procurou definir o caso com palavras esquisitas, fora do alcance daquelas pessoas de condição humilde. Mas, ao fim de duas ou mais, Jubamba continuava sem apresentar melhora.

            Já não gemia mais. Chorava também.

            - Ai! Ai! Ai!, que dor terrível! Não aguento mais!

            E as lágrimas lhe desciam pela cara de barba hirsuta.  

            Já alta hora da noite, quando o desespero de Jubamba havia atingido o auge, alguém a medo sugeriu:  

            - Quem sabe que aquele homem que o enfeitiçou, poderá quebrar o feitiço?

            - Não sei, não sei... – respondeu titubeante o infeliz Jubamba. Em seguida, ajuntou quase como uma insinuação: - É mesmo, quem sabe?

            - Se quer vou procura-lo já - ofereceu-se alguém.  

            - Então ... então, vá... - Concordo, desconcertado, o violento Jubamba.

                                                                                   *

             Muito tempo depois, o emissário retornou, informando:

            - Custei a encontrar o homem, Ele estava dormindo na hospedaria de Koluba. Quando lhe disse que você o desejava ver, ele levantou-se depressa, solícito, respondendo:  "- Onde está Jubamba! Bem, pode ir que eu sairei daqui o mais depressa possível.” Então, eu saí. Mas ele está demorando tanto!

            - Talvez não venha – atalhou Jubamba entre dois gemidos. – Talvez tenha medo de mim... Se eu não estivesse assim, ele seria estraçalhado.  

 *

             Nesse comenos, Numiba, concentrado, realizava uma prece profundamente sentida. Era médium e costumava sempre, antes de qualquer trabalho espiritual, entregar-se a grande meditação, a fim de recolher mais positivamente influências benéficas do Alto, que lhe dessem orientação mais segura.

            Compreendeu que não poderia atender ao sofrimento de Jubamba sem um auxiliar adequado. Foi quando se lembrou de que vira, na tarde anterior, uma jovem franzina, com todas as características de mediunidade. Foi busca-la. Obteve de seus pais autorização para acompanha-lo:

            - Tenho que ir ver Jubamba que está sofrendo muito. Mas preciso de alguém que me auxilie. Mas preciso levar em minha companhia a jovem Tilena?

            Depois de algumas dificuldades, teve o assentimento dos pais da mocinha.

 *

             Logo que chegou ao tegúrio (casebre) de Jubamba, disse Namiba o seguinte:

            - Receba-me como seu amigo, Jubamba. Estou aqui como um irmão que visita outro irmão. Só  lhe peço que você ponha o pensamento em Deus...

            - Em Deus? E você não é o diabo em pessoa? Indagou, surpreendido, o impulsivo Jubamba.

            - Não. Sou apenas humilde servidor de Deus, no roteiro do Cristo. O diabo só existe na imaginação das pessoas. O diabo simboliza o mal e todos aqueles que são maus e toleram o mal, esses sim, podem personificar essa figura lendária. Diabos somos todos quantos nos afastamos do bem, acredite.

            - Quem fez “isto”, então? – perguntou Jubamba.

            - Em, última análise, foi você mesmo. Quando falamos e agimos, trazemos para junto de nós influências boas ou más, segundo o nosso estado d’alma. O mundo invisível é habitado por Espíritos de várias condições morais. Depende de nós, exclusivamente, chamarmos os bons Espíritos ou os Espíritos que ainda não encontraram o caminho luminoso do Bem. Todos, porém, um dia, sereis bons, porque não há castigos eternos. O facínora de hoje poderá ser o santo de amanhã. Jubamba: olhe para mim como para um irmão que lhe quer muito bem. O que se passou, passou. Se você me ajudar com a sua boa vontade, talvez possa ficar livre desse sofrimento muito depressa.

            - Como? – indagou Jubamba.

            - Obedecendo cegamente ao que eu lhe determinar que faça.  Antes, porém, preciso ficar somente com você e Tilena.

            - E que vem essa franguinha fazer aqui? Não gosto que mulher veja um homem gemer... E eu sou um homem!

            - Jubamba: seja humilde, aceite tudo quanto se passar aqui, com tranquilidade e confiança. Veja o que ver, ouça o que ouvir, não diga nada, não faça nenhum gesto.  Espere. Espere sempre. Sei que você não tem medo nem há razão para medo. Está certo? Faça um esforço e pense fortemente no Cristo ou em Deus. Está de acordo?

            - Sim.

*

             Namiba e Tilena, silentes, realizam uma prece intensa.

            De repente, Tilena sofreu um estremecimento ligeiro e saudou Namiba: - Irmão, aqui estou, atendendo ao seu chamado. Sabe quem é?

            - Sei: o irmão Tanaka.

            - Estou com a falange inteira, pronto a trabalhar. Aquele pobre irmão (e apontou para Jubamba) está “carregado”. A falange de Aismã o acompanha de longa data. É um obsidiado. Hoje, porém, vamos libertá-lo de uma vez. Vou deixar a médium, mas estarei a seu lado, protegendo-a. Seu “aparelho” servirá para trazer à sua presença. Numiba, aqueles que perturbam Jubamba. Doutrine-os e o resto deixe por nossa conta.  

            Foi um trabalho terrivelmente fatigante. 0s obsessores pareciam invencíveis, mas, afinal, enfraquecidos pela doutrinação cerrada de Namiba, afrouxaram um pouco a ação perniciosa exercida sobre Jubamba. Envolvidos pela falange de Tanaka, retornaram ao mundo invisível depois de se manifestarem pela incorporação em Tilena. E partiram.

            Namiba aplicou passes no braço de Jubamba e, logo depois, ele não mais sentia dor alguma e movimentava aquele membro com desenvoltura, maravilhado. Notava-se também que seu estado d’alma se modificara. Não estava ali o homem violento, agressivo e mau, mas um outro, humi1de e acessível.

            - Amigo - disse ele a Namiba - estou sentindo um alívio inexplicável. Parece que mudei de alma. Estou mesmo confuso. Não sei bem o que me sucedeu, a não ser que sofri muito.

            - Você foi vítima de obsessores, Jubamba. Está livre e ficará livre enquanto permanecer fiel ao programa que, mais tarde, traçarei para você. É muito mais grave do que certas pessoas supõem, o abandono do espírito e do corpo às coisas materiais, aos vícios, à revolta e à violência.

            Ficarei nesta terra durante dois meses, pois tenho aqui compromissos ligados à minha profissão. Durante esse tempo, se o quiser, estudaremos juntos, porque somente o estudo, ligado à perseverança e à fé, pode levar-nos a bom rumo.

            E assim foi feito.

            Dois meses após, quando Namiba se despediu, os olhos de Jubamba estavam deslizando em lágrimas de de tristeza. Era outro homem. Adquira virtudes que antes desconhecia. Tornara-se um exemplo: não bebia, não brigava, não altercava. Forte como um touro, era humilde como um cordeiro. Aprendera que, podendo esmagar alguém com as mãos possantes, preferível se tornava solucionar as dúvidas com brandura. Os verdadeiros valentes são aqueles que, podendo punir, contentam-se em perdoar, esclarecendo. A legítima valentia não está no exercício da superioridade física, mas no emprego da tolerância construtiva, da paciência edificadora, da humildade consciente, que se faz de força moral, que se multiplica para que o bem não deixe ao mal nenhuma oportunidade.

            E dava gosto ouvir-se Jubamba, anos mais tarde, diante de numerosos jovens, alguns impetuosos e impertinentes, rematar suas lições com estas palavras:

            - Se vocês querem ser fortes, perdoem! Se querem ser fracos, castiguem!

            E apanhando um livro que estava aberto sobre a mesa, concluiu:

            - Está finda, por hoje, a nossa lição.

            E saiu sobraçando “O Evangelho segundo o Espiritismo”...