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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Aristocracia Intelecto-Moral


Aristocracia intelecto-moral
por Cristiano Agarido (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Julho 1947

Kardec estudou as formas de domínio e demonstrou que sempre o mundo foi governado por uma aristocracia, embora muitas vezes o sentido etimológico da palavra tenha variado.

A palavra vem do grego: aristos, o melhor, e kratos, o poder; logo, etimologicamente, aristocracia é o poder ou o governo dos melhores; mas os melhores, a juízo dos homens, numa classificação humana, podem ser simplesmente os mais valentes, os mais ricos, os menos escrupulosos. Na recente aristocracia alemã os melhores foram enforcados pelos aliados como grandes criminosos, isto é, melhor e pior foi questão de ponto de vista.

No interessante estudo do Mestre, aparecem como primeira aristocracia a dos patriarcas, como segunda a dos guerreiros e cleros, a terceira foi a do dinheiro, a quarta e atual é a da inteligência. Prevê o Codificador o advento de uma quinta aristocracia, a que ele dá o nome de intelecto-moral, a qual consistiria dos mais inteligentes e moralmente mais elevados.

Examinando-se bem essa classificação, vemos que só a primeira realmente desapareceu, porque a segunda ainda exerce muita influência: a terceira é quase onipotente e a quarta só opera conjugada com a terceira. Portanto, estamos longe do pleno domínio da quinta, que fará o mundo feliz. Essa classificação tem que ser examinada em diversos lugares, porque os povos não caminham no mesmo ritmo. Talvez se possa dizer que, na França, a quarta domina mais do que a terceira; nos Estados Unidos, a terceira é mais forte do que todas as outras; na Alemanha, domina mais a segunda, e, no Brasil, nenhuma delas se definiu com clareza.

De qualquer sorte, nunca dominou no mundo uma democracia, palavra tão do gosto dos nossos contemporâneos; nem é prevista sua existência futura por Allan Kardec. É realmente utópica a existência da democracia. Há sempre uma elite que domina e governa, e o máximo de democracia que conseguimos é que o povo eleja seus dirigentes dentro dessa aristocracia dominante pelo saber, pelas armas, pelo dinheiro, pela moral, mas não que promova membros da massa a governadores. Quando um homem saído do povo, do mais humilde nascimento, chega a um alta posição em sua pátria, temos a impressão de que dominou a democracia, mas na verdade tal homem era intelectualmente ou espiritualmente mais elevado do que os outros, pertencia a uma aristocracia, não foi feito pelo povo, este apenas obedeceu a um princípio superior: colocou no justo lugar o homem que merecia esse posto, pelas suas qualidades demonstradas.

Como o nosso planeta é um mundo de expiações e provas, as classes dominantes ainda não pertencem à categoria idealizada por Allan Kardec: a de homens superiores em saber e moralidade; mas esta categoria aparecerá, quando o planeta for promovido, como anunciam as comunicações de Espíritos superiores há mais de setenta anos:

A recente guerra mundial contra a "aristocracia totalitária" declarou-se como luta da democracia contra o despotismo e pôs muito em voga o ideal democrático que realmente é o que de mais elevado, concebemos em administração material do mundo. Pela democracia supomos que a maioria pode governar e substituir governos pacificamente, sem o recurso das armas; daí nosso anseio de viver num mundo democrático, de eleger realmente os homens que hão de administrar os interesses gerais do país. Mas em Espiritismo tomamos conhecimento com uma ordem de coisas inteiramente oposta à democracia: a organização hierárquica no mundo espiritual.

No mundo espiritual não há eleições, o número não tem expressão, tudo obedece a uma hierarquia infinita, que vai desde o verme até Deus, em linha ascendente, e desce desde Deus até o verme, em linha descendente, agindo cada indivíduo com a parcela de autoridade e responsabilidade que lhe pertence individualmente pelo seu grau de progresso, mas independente das opiniões alheias de eleitores, da propaganda eleitoral, das convicções pessoais.

Não é raro lermos em bons pensadores espíritas a opinião de que o Espiritismo é uma democracia. Devemos entender essa expressão no sentido de que não temos um clero, não há privilegiados em nosso movimento, todos temos os mesmos deveres e os mesmos direitos e cumprimos deveres ou exercemos direitos em plena liberdade, sem coação alguma exterior, guiados somente pela nossa consciência; todos os nossos pregadores e mestres são leigos e pertencem à massa popular com a qual trabalham; independemos de autorizações ou diplomas, de ordenações ou direção humana... Nesse sentido dizem que o Espiritismo é uma democracia, como poderiam dizer os idealistas da anarquia, que ele é a realização perfeita da anarquia, no bom sentido do termo; porque os anarquistas imaginam um mundo sem tiranias e classificam toda autoridade de tirânica. Os anarquistas sonham com uma liberdade que em parte nós realizamos em Espiritismo, mas enganam-se em seu ideal de liberdade ilimitada no tempo e no espaço, porque também nós temos superiores hierárquicos que nos privam da liberdade absoluta, limitam nosso livre arbítrio por períodos mais ou menos longos, em nosso próprio benefício.

Tanto se poderia dizer que o Espiritismo é uma democracia, como se poderia dizer que é uma anarquia, mas sempre limitando muito o sentido dessas palavras cunhadas para expressar outras ideias, senão, as palavras induziriam a erros tremendos. Em certo sentido ele é a negação absoluta de democracia e de anarquia. De democracia, porque o processo característico da democracia é elevar o homem para o poder, retirando-o da massa, de baixo para cima sempre, pela força dos votos; em Espiritismo toda autoridade vem de cima para baixo, por hierarquia, dominando sempre as minorias aristocráticas. Em outras palavras: os espíritas não podem eleger seus Guias, não podem substituir o Governador do planeta, não podem criar médiuns nem destituí-los, são obrigados a aceitar uma hierarquia espiritual antidemocrática. De anarquia, porque o livre arbítrio é estreitamente condicionado, as autoridades espirituais aplicam leis inflexíveis, existe um governo espiritual perfeito e rigoroso, logo, todo o ideal de liberdade ilimitada dos anarquistas encontra barreiras tremendas no Espiritismo.

Se tanto democracia como anarquia aplicadas a Espiritismo podem induzir a graves erros, também aristocracia e hierarquia, embora mais próximas da verdade, podem levar-nos a ideias falsas pelas noções humanas aplicadas a essas palavras. O mais seguro será dizermos que Espiritismo é Espiritismo mesmo e nada mais.

Quanto à organização do movimento espírita sobre a Terra, temos que seguir os princípios democráticos em tudo que concerne à administração material: eleger diretorias, decidir por maioria, mas esforçando-nos o máximo possível por entender e seguir o Plano superior dos Altos Dirigentes do movimento, os Espíritos superiores que ditam livros doutrinários e superintendem a propaganda da Doutrina. Esse Plano superior no Brasil é profundamente cristão e o percebemos em toda a literatura mediúnica publicada no país. Estaríamos, pois, errados e nossas decisões mesmo por maioria ficariam sem efeito, se decidíssemos coisas como:

1º - Atacar a maior obra evangélica recebida mediunicamente, a que comenta versículo por versículo os quatro Evangelhos; daí a não prosperarem no Brasil todas as instituições e pessoas que abrem luta contra a obra de Roustaing, como se nota nos 70 anos de nossa propaganda.

2º - Proclamar que o Espiritismo é somente ciência e não religião.

 3º - Abolir o emprego da prece.

Tais decisões, contrárias ao Plano superior exposto pelos Guias em seus livros, não têm o apoio do mundo espiritual superior e por isso fatalmente falham. Portanto, em nossas decisões "democráticas", por maioria, devemos lembrar sempre que o Espiritismo é dirigido pelos Espíritos e não pelos homens, como sempre insistiu Kardec, e que nossas deliberações só prevalecem quando estejam em harmonia com a Alta Direção do movimento, com essa Aristocracia Intelecto-Moral que ainda não existe em nosso mundo, mas já governa o mundo espiritual.


Todas as tentativas de organização, de trabalho, mesmo obtidas por unanimidade de votos humanos, quando desprezam a orientação superior dos Guias, têm falhado sempre. Logo, nossas decisões "democráticas" são bem limitadas em seu alcance, porque dependem da aprovação dos Guias, e, quando previamente vetadas por eles, por estarem em oposição ao seu Plano de trabalho, já nascem mortas. Muitas decepções e desilusões teriam sido evitadas por entusiastas do nosso movimento, se houvessem auscultado primeiramente os Guias e obedecido às diretrizes gerais dos Dirigentes espirituais do movimento 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Eu sou o que sou


Eu sou o que sou
Carlos Buchele Jr
Reformador (FEB) Janeiro 1940

Um dos males que mais retardam a ascensão espiritual é a vaidade do homem em querer parecer o que não é. E, nesse desejo de parecer, quantas não são as almas que vão beber, no belíssimo e grandioso princípio da reencarnação, o veneno que as leva a se julgarem a encarnação de vultos que a história guarda com verdadeiro carinho e amor.

O homem é o que é: não adianta sofismar.

Infelizmente, dentro da seara espírita, há os que alimentam tais pensamentos: uns, porque, um dia, sonharam que haviam sido um gênio ou um missionário; outros, porque receberam do Alto essa revelação.

O maior perigo vem das revelações. É lamentável, quando são recebidas como oriundas de fontes dignas de crédito.

Obtém alguém a revelação do passado: fora um gênio ou um grande missionário, Absorvido este corrosivo, que é o que lhe não abrolhará, depois, na alma? Por certo, surgirão sentimentos de superioridade e um cortejo de vaidades humanas.

Jamais se deve aceitar revelação de tal natureza, venha de onde vier. Os Espíritos elevados conhecem muito bem as fraquezas humanas e, portanto, não seriam eles que viriam colocar em nossa estrada mais uma pedra de tropeço.

Pode, no entanto, tal revelação, não despertar aqueles sentimentos e ser aceita como verdadeira.

Haverá, ainda aí, algum mal? Sim e muito grande.

Se verídica fosse, os traços característicos que definiam a elevada individualidade surgiriam, na nova encarnação, gravados indelevelmente no Espírito. E muitas vezes, em contraposição aos argumentos irrefutáveis dos fatos e à opinião dos que o rodeiam, coloca-se o que recebeu a revelação em situação verdadeiramente infeliz: a do ridículo.

Essas fictícias revelações só trazem embaraço ao progresso espiritual.

Quando os Espíritos elevados levantam uma ponta do véu que encobre os mistérios da vida, é porque o homem já está amadurecido para compreende-los e benefícios espirituais daí lhe advirão, com o poder alongar as vistas através das gerações que se sucederam.

O que é extemporâneo, desnecessário e prejudicial jamais promana de fontes divinas: é do homem ou das trevas.

Nós somos o que somos; um missionário voltará com maiores possibilidades para a continuação de sua obra.

Se alguém foi, de fato, em uma de suas vidas pretéritas, um benfeitor da humanidade, não nos iludamos, um sinal divino o tornará conhecido: as obras, que atestarão, pelo seu vulto, o prosseguimento da missão que, porventura o Espírito venha desempenhando.


Que as obras são um sinal divino, Jesus o demonstrou, antes de o fazer por palavras, quando os dois emissários de João lhe perguntaram: "És tu mesmo o Cristo esperado?" Depois de curar a muitos de moléstias, de flagelos e de Espíritos malignos; de dar vista a muitos cegos, disse-lhe o Mestre: "Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres se lhes anuncia o Evangelho." 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Belo ideal


Belo ideal
Camilo Silva
Reformador (FEB) Janeiro 1940

A célebre frase: errare humanum est tem lata aplicação a tudo o que se refere ao gênero humano, pois, não podemos estender o olhar a qualquer ponto do horizonte terreno, nem perscrutar as páginas da história de qualquer época do mundo, sem que vejamos confirmada essa triste e desconsoladora realidade, isto é, o patrimônio de trevosa ignorância, a passar de geração em geração, causando todas as desgraças e as mais horríveis decepções.

Nem assim, porém, a empedernida criatura planetária procura fugir-lhe.

Entretanto, uma só palavra tudo explica claramente - o orgulho, o fator principal dos males que achacam a humanidade. E, se dentro da prolongada noite escura que tem amortalhado o nosso orbe, aparece, como de fato tem aparecido em todos os séculos, desde os mais remotos, algum luzeiro, esforçando-se por espargir as suas centelhas pelo ambiente que a Providencia lhe permite ou determina abranger, logo mil e um obstáculos lhe surgem, inúmeros tropeços lhe são colocados no caminho, tentando impedir-lhe a ação beneficente, a marcha gloriosa, em demanda do objetivo que a sua missão lhe aponta: - a felicidade de seus semelhantes!

Orgulho! Como é difícil ao homem terreno abandonar, ou, antes, despojar-se dessa capa tétrica, tecida de fios coloridos, oriundos de uma planta que nenhum agrônomo ainda pode descobrir em qualquer campo, ou floresta, nem, tampouco, químico algum, mesmo dos mais exímios, conseguiu descobrir, no seu laboratório, em qualquer das substâncias, que manuseia, como capaz de compor essa roupagem de aspecto bizarro, que apresenta prismas diferentes, conforme a vontade ou o caráter de seu possuidor, em todos os atos de sua existência. O químico que descobrisse tal essência ganharia, por certo, todos os lauréis e o agricultor que encontrasse aquela fibra seria indubitavelmente aquinhoado com uma soma, em dinheiro, mais vultosa, do que aquele que descobre minas em suas propriedades!     

Sim, é difícil, porque essa vestimenta não nasce na terra, como, talvez, haja quem julgue. Ela tem sua origem no próprio espírito, que a foi tecendo, insensível e lentamente, por atos e pensamentos injustos, por infrações à Lei Divina, devido a se julgar o que não é e a se considerar o único fator de tudo quanto tem conseguido adquirir, em conhecimentos ou apropriações, sem admitir, apesar de advertido por outras entidades ou por guias espirituais, que tudo quanto de bom, de belo e de útil obtemos, devemo-lo sobretudo à clemencia e onipotência do nosso Criador e Pai - Deus!

Custar-nos-á muito despojar-nos dessa horrenda roupagem, porque ela não envolve unicamente a parte exterior da nossa personalidade, mas, todos os tecidos e filamentos do nosso ego real - a alma - pois que não só reveste, como, penetra todo o
nosso ser.

Assim, com justa razão, o grande Padre Germano, nas suas excelentes "Memórias", exclama: - "Os prejuízos de cem séculos não se despem num só dia".

É curioso observar, nos homens, o cuidado, a atenção, o carinho e o devotamento que prestam a esse dragão infernal -o orgulho! Orgulho, que todos alimentam com a presunção e adornam com a vaidade, sem compreenderem que estão nutrindo uma fera, que, mais cedo ou mais tarde, os maltratará ou devorará sem piedade, fazendo--os sofrer- a maior das decepções e a mais tremenda das desilusões, que é o tempo perdido, o aviltamento do caráter. Oh! como somos insensatos! Entretanto, o oposto, a humildade, quase a ninguém parece interessar! Há criaturas que pensam ser esta virtude uma espécie de mendiga, que nos deprime e envergonha, se a conduzimos conosco, ou lhe vestimos o traje... É grave erro pensar assim. A humildade (não a humilhação) é, ao contrário, uma joia de tão alto preço, que é bem possível não se encontre na terra criatura alguma, por mais inteligente que pareça, capaz de lhe estipular o valor real. É que nós, pobres pigmeus, com os olhos muito próximos do solo, cheios de poeira da estrada que palmilhamos, poucas vezes os dirigimos para o Alto, buscando compreender que pertencemos ao infinito. Deixamo-nos facilmente iludir pelas aparências: aí o nosso erro, daí o nosso fracasso.

Entretanto, quer no campo da ciência, quer no da virtude, os maiores vultos que deixaram pegadas luminosas no mundo estavam saturados de humildade. Krishna, na Índia, espelhando o ensino da imortalidade; Confúcio, na China, fundador de uma religião e de um ideal elevado; Sócrates e Platão, na Grécia, pregando as reencarnações como purificadoras do espírito: todos eles e ainda outros, muito antes do Cristo, assim se mostravam. Depois, os doutros ramos: Galileu, na Itália: Kepler e Goethe, na Alemanha; Flammarion e Victor Hugo, na França; assim como Kardec, cientista e codificador do Espiritismo, não esquecendo Roustaing, compilador da magistral obra: "Os quatro "Evangelhos", ou "Revelação da Revelação"; W. Crookes, na Inglaterra. Na poesia: Camões e Junqueiro, em Portugal. Na aviação, Santos Dumont; na ciência, na literatura e na verdadeira filosofia; Bezerra de Menezes e Bittencourt Sampaio, no Brasil. Todos estes e outros mais, foram, pela humildade, estoicos e persistentes no triunfo dos seus ideais. O que, por mercê e graça do Onipotente, comprova de modo inconteste que até aos planetas de treva e maldade, como a Terra, descem verdadeiros gênios do saber e da virtude, para destruírem os tropeços e prejuízos oriundos do orgulho, que tem entravado o progresso moral das criaturas.

Deixamos para o término do nosso modesto artigo o vulto excelso de Jesus, o maior expoente do saber e do amor, que à Terra baixou há quase vinte séculos.

Todo o esplendor da humildade nos apresentou aquele Espírito sublime, nos seus exemplos e ensinamentos prodigiosos e dignificantes, que começaram pelo seu aparecimento num curral escuro de animais domésticos, para finalizar, 33 anos depois, crucificado numa cruz entre dois delinquentes, quando só o bem havia feito a todos os necessitados! A humildade - disseram os Apóstolos e Evangelistas a Roustaing - é uma luz que tudo esclarece; o orgulho, uma treva que tudo obscurece. Seja, pois, a humildade o nosso mais belo ideal.

Humildade, palavra santa! fonte única de todas as virtudes. Sentindo-me pesaroso por ainda te não possuir, eu, profundamente contrito, curvo os joelhos em espírito ante o esplendor de teu fulgor radiante, almejando que tuas centelhas possam ser lançadas por toda a face da terra, afim de que as criaturas, envoltas nas trevas do orgulho, consigam fugir a essa horrível noite e, saturando-se de tua divina essência, ver e sentir, em todos os seres e em todas as criações, a encantadora harmonia do universo, ao som da harpa maravilhosa do Evangelho em espírito, com que o mavioso cantor, Jesus, inebriando-nos de suas melodias, nos arrebata os espíritos nas asas cândidas da prece, em direção a regiões mais altas e mais puras, de onde poderemos contemplar o surpreendente panorama da natureza, glorificando a grandeza de seu autor - Deus!



domingo, 11 de fevereiro de 2018

Paradoxos


Paradoxos
por Wantuil de Freitas
Reformador (FEB) Junho 1943

O Espiritismo, que é a religião por ser o próprio Cristianismo, visto que a sua doutrina trás o caráter de universalidade deste último; que não pode deixar de ser, ao menos, pelos que se neguem a considerá-lo assim, uma religião como as demais, diferindo destas unicamente pela sua extrema simplicidade, idêntica à do
Cristianismo inicial, simplicidade que exclui a existência de cerimônias cultuais em seu seio e de liturgias tomadas ao paganismo e ao judaísmo, ensina que, em geral, as enfermidades que atormentam as criaturas humanas são oriundas de males com sede no espírito e que tanto essas enfermidades, como as que entre elas não se classificam, podem servir de meio, e servem muitas vezes, para a ação de espíritos atrasados e, por isso, malfazejos, os quais lhes intensificam a gravidade, tornando-as dolorosíssimas, ou dificultando-lhes a cura.

Em qualquer religião, esse ensino é mais ou menos dogmático, como o é o do "diabolismo", a que ele se acha intimamente ligado, e, como dogmático, é escudado pelas leis humanas, cuidadosas sempre em recomendar o maior respeito para com as religiões, sobretudo para com aquelas que estabelecem relações estreitas com os
poderes temporais.

De outro lado, depois de provar, pela elucidação completa dos textos evangélicos, que, com referência às enfermidades humanas, o mesmo ensinou e exemplificou Jesus, curando, quase, ininterruptamente, durante a sua breve passagem pela Terra, toda sorte de doentes só com o lhes impor as mãos, isto é, transmitindo-lhes o fluido magnético que Ele manejava com poder supremo, conforme depois fizeram seus apóstolos e discípulos, o Espiritismo aconselha e ensina, demonstrando o fundamento do seu ensino, que aqueles a quem Deus outorgou o dom de serem verdadeiros reservatórios de magnetismo humano e, como tais, veículos apropriados ao magnetismo espiritual, portanto médiuns, também transmitam o fluido magnético, que os Espíritos do Senhor lhes forneçam, aos que dele necessitarem.

Vê-se, pois, que a cura pela imposição das mãos, hoje dita pela aplicação de passes, ou, seja, a cura pela transmissão do fluido ou agente magnético, faz parte integrante do Cristianismo, ou, por outra, da prática da caridade conforme a preceitua o Cristianismo do Cristo, desde a sua instituição, prática de que posteriormente se valeram, com êxito completo, vários dos chamados "santos". Se presentemente ela se mostra inócua, quando utilizada pelos que se dizem sucessores desses "santos", que mais não foram do que verdadeiros cristãos, o fato somente se pode atribuir a que semelhante dom não é concedido para satisfação de interesses quaisquer de grupos religiosos, mas, indistintamente, a todos quantos, segundo as vistas do Senhor, forem capazes de o receber e aplicar sem nenhum interesse, exclusivamente por amor ao próximo.

Ora, assim sendo, não se pode considerar justo, nem admissível que, pela circunstância de se verem hoje privados do dom divino de que falamos, o qual, aliás, eles já possuíram e não souberam cultivar e conservar, os componentes de alguns grupos religiosos se lancem, por despeito, a incitar os homens, ainda, em sua maioria, ignorantes destas coisas, a combater e perseguir os que atualmente possuem e dão bom uso à faculdade que lhes foi retirada a eles e que hoje, entre eles, só se manifesta num ou noutro dos mais humildes, o que concorre para aumentar a perturbação de seus chefes hierárquicas, por lhes contravir às ambições.

Considerado do ponto de vista meramente humano, o passe pode ser equiparado a um ato de culto religioso, como a aspersão com água benta, a aposição dos "santos óleos" e outros, que as leis humanas consideram dignos de todo o acatamento, havendo, apenas, entre o primeiro e os demais, a diferença de que aquele é ministrado sem remuneração de nenhuma espécie, sem qualquer pagamento ou retribuição material a quem o aplica, porque esse obedece tão só ao preceito do Cristo - dai de graça o que de graça recebestes, o que não acontece com relação aos demais.

Estas considerações nos vêm à mente através da leitura da brilhante promoção judiciaria firmada pelo Dr. Alcides Gentil, publicada no "Diário da Justiça" e transcrita no Reformador de maio último. Nesse documento, o eminente Promotor, luminar do Direito, depois de comparar as práticas do Espiritismo com as de outras religiões, assim conclui:

"Atender a fiéis, sem o intuito de remuneração, equivale, sem dúvida, a dar uma assistência espiritual muito mais generosa do que aquele que cobra, a dinheiro de contado, a missa, o batismo, ou a encomendação dos mortos. Trata-se de ato ligado a determinada crença. Não há, portanto, nestes autos, crime nenhum que punir.”

Diante do que se observa aqui, ali, acolá; diante das interpretações várias que se dão aos textos legais; diante dos fatos e dos termos categóricos da Constituição Brasileira, parecem-nos paradoxais todas as medidas que visem proibir aos espiritas, aos profitentes do Espiritismo, a observância de um dos pontos capitais do Cristianismo, que aquele veio restaurar na sua pureza. Tais medidas só seriam comparáveis, se tentadas, às que outrora se empregaram contra o mesmo Cristianismo, na esperança de o poderem sepultar ainda no nascedouro, mas que não o impediram de, embora deformado e fraudado, fazer progredir a humanidade durante vinte séculos.

Sob a sua égide ela continuará a progredir a evolver. Confiemos, pois, em que a evolução, dará aos homens a compreensão da Verdade e o sentimento da única felicidade com que devem e podem contar e, confiantes, não cessemos de orar para que não tarde o dia em que o Cristo efetivamente reine em todos os corações.


Be yourself




A Derrubada


A Derrubada
Casimiro Cunha
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1943


Rangem troncos seculares
À força do lenhador.
É o machado formidando
No impulso renovador.

Toda a floresta se agita
Nas terríveis convulsões,
Continua a derrubada
Que precede as plantações,

Sol quente. Suor. Serviço.
E as árvores vigorosas
Estraçalham com fragor
As frondes cariciosas.

Após o trabalho ingente,
A invasão do fogaréu,
Fumo espesso devorando
A doce amplidão do céu.

Gritam aves assustadas,
Sem ninho, sem paz, sem guia.
Animais inferiores
Vão fugindo em correria.

Depois, ainda, é a coivara,
Completando a grande prova,
É o termo da derrubada
A favor da vida nova.
Somente aí são possíveis
Pasto verde, espiga loura,
Pomares e sementeiras.
Celeiro, casa e lavoura.

Já observaste que o homem,
Ao longo de toda estrada,
Precisa também, por vezes,
Das foices da derrubada!

É a dor proveitosa e rude,
Surgindo em golpes violentos,
A força que retifica
A mata dos sentimentos.

Sem trabalho, não teremos,
No caminho universal,
Nem casa com Jesus Cristo.

Nem pão espiritual.

Tolerância e Intolerância



Intolerância e tolerância
por Lino Teles (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Junho 1943

Chega ao nosso conhecimento um caso expressivo de tolerância, a par da mais extrema intolerância. Vamos tentar resumi-lo em poucas palavras, para nossa meditação quanto ao perigo dos extremismos, sempre tendentes a cegueira da razão...

Relatou-no-lo uma dama de boa sociedade, de fina educação, de majestosa beleza, no vigor de seus cinquenta janeiros. Reduzamos a sua longa historia à parte que nos interessa.

Disse-nos ela:

"Sou casada há quase trinta anos e fui das mais felizes. União decorrente só do amor, encontrei no meu esposo todas as qualidades que eu idealizava: bondade espontânea e sem afetação, amor ao dever e ao lar, repartindo seu tempo entre o trabalho e a família. Foi sempre pai extremoso e marido fiel. Vivemos felizes e aumentamos sempre o nosso patrimônio. Nossas filhas são a nossa alegria, pela dedicação ao estudo, pela devoção religiosa, pela elevação de princípios. Nosso único filho é um jovem prudente e virtuoso, com pronunciada vocação para o sacerdócio e Deus fará dele um digno servidor da religião. Assim correu sempre minha vida, cheia de fé e de esperança, a despeito dos pequenos sofrimentos que tive com enfermidades dos filhos na primeira infância.

"Agora, porém, toda a minha felicidade se desmorona. Sou completamente infeliz, há quase um ano. Tive que me separar do meu marido por que ele abandonou a nossa fé e se tornou espiritista. Súplicas, rogos, lágrimas, nada conseguiu afasta-lo dessa fatalidade. Finalmente, conhecendo o imenso afeto que nos votava a mim e aos filhos, lancei-lhe um grande repto, que deveria vencê-lo. Exigi que optasse entre o Espiritismo e a família. Apesar de toda a minha fúria, ele sorriu tristemente e me respondeu sem se alterar: "Jamais abandonarei o Espiritismo e nunca amarei menos à minha família".

"Tive que cumprir a palavra e retirei-me com os filhos para esta pensão. Aqui estamos há três meses e só o vemos aos domingos, quando nos vem visitar. Não é mais meu esposo, é uma visita..."

- E quanto à vocação do jovem, não faz o pai oposição? perguntamos à pobre senhora que nos falava de olhos úmidos.

- "Não; e nisso mesmo me demonstra que está alterado, que já não tem claro o raciocínio. Disse-me textualmente: "Se é sincera, como parece, a vocação do rapaz, deixemo-lo seguir a vida sacerdotal; é um dos caminhos para servir a Deus e aos nossos irmãos em humanidade". Interrompi furiosa, diante dessa indiferença pela sorte de nosso filho: "És contraditório; se o Espiritismo, como dizes, é a restauração do Cristianismo, é a verdade em religião, como podes admitir que teu filho seja sacerdote de uma Igreja que já não consideras a legítima expressão do Cristianismo?" Com a indiferença de lunático, respondeu-me: "Sempre haverá tempo para ele receber as luzes do Espiritismo; uma existência a mais ou a menos na eternidade pouco significa; o caminho para ele, agora, parece mesmo ser o sacerdócio..."

"Como é triste tudo isso! Que tortura horrível!  Um lar feliz desfeito, uma família sem pai e com o pai vivo! E que pai! Um dos melhores e mais amorosos que se poderiam conceber..."

-  Interrompemos de novo: Então, seu esposo, ao que se nos afigura, é um homem de bem.

- "Diga antes, meu Senhor, é um santo; perdoa a tudo e a todos; não nos guardou o mínimo ressentimento, por havermos abandonado o lar, e emprega todos os esforços para nos tornar a vida aqui mais tolerável, cercando-nos de carinho, visitando-nos todas as semanas".

- E, com as suas novas crenças, deixa ela inteira liberdade religiosa às filhas? ousamos interrogar.

- "Sim; anima-nos em nossas práticas piedosas; não desaconselha as filhas que se confessem e até insiste com elas para que se confessem bem, melhorando de conduta após a confissão..."

- Minha Senhora, seu esposo é um modelo raro de tolerância religiosa. Dificilmente se encontra tanta elevação moral num pai de família. E a consciência de V. Ex. julgará se de sua parte existe tolerância.

Aí fica o diálogo, sem os coloridos vivos das interrupções lacrimosas, sem a sua vida própria que não sabemos reproduzir. Agora, nossas reflexões.

Quanta razão tinham os antigos romanos ao nos dizerem que a virtude está no meio termo (In medio consistit virtus) e nunca nos extremos! O excesso de zelo religioso, nessa mãe de família, tornou-se extremismo, sectarismo fanático, intolerância violenta. Pelas suas próprias mãos, destrói ela toda a sua felicidade e se projeta com os filhos num abismo de sofrimentos, num verdadeiro inferno, privando-se e a todos os seus filhos, em angustiosa tirania, de um lar feliz e da presença constante de um esposo e pai amado e digno de todo o respeito e afeição.

A religião de amor, o Cristianismo, que a todos os seres humanos abraça como filhos do mesmo Deus; o Cristianismo, que tudo perdoa e ama até aos inimigos; a religião daquele que amou e visitou até os publicanos e pecadores e na cruz do suplício, esquecido de si mesmo, implorava perdão para seus algozes; o Cristianismo, transformado em seita intolerante que desfaz um lar feliz! Que tristeza, meu Deus, a
a nossa incompreensão! Quão longe estamos do modelo que nos enviaste!
De tudo fazemos um extremismo, porque em tudo metemos o nosso doentio orgulho; o nosso egoísmo é tão estreito, que nos isola num mundo de sofrimentos; nossa vaidade é tão infantil que exige tudo para sacrificar em seu altar. As dádivas mais sublimes que o Céu nos envia para nossa salvação, para nossa felicidade, nós as
transformamos em bandeira de lutas dolorosas e estéreis. Seremos sempre assim, meu Deus, nunca nos corrigiremos, nunca aprenderemos a ser felizes, cultivando as virtudes que de toda a eternidade nos são ensinadas pelos Enviados do teu amor?

Não; não seremos sempre assim. A nossa intolerância terá fim, o nosso egoísmo será substituído pela compreensão de que só podemos ser felizes colaborando para a felicidade alheia.

Virá tempo em que aboliremos, como irreligião, todos os pormenores religiosos que nos afastem de nossos irmãos, gregos ou troianos, judeus ou samaritanos. E talvez não venha longe esse tempo, Por toda parte as vozes do Céu se fazem ouvir e repetem sempre o mesmo ensinamento: "amai, amai sempre, amai a todos, amai aos vossos inimigos, porque pelo amor e pelo sacrifício é que chegareis com mais segurança ao Reino de Deus, à felicidade perfeita e inalterável, do que por todas as formas de culto externo".

Essas tristes reminiscências do paganismo, dos deuses ciumentos e ferozes, ainda existem no vigésimo século do Cristianismo e promovem a intolerância nos espíritos mais violentos; é dura verdade; mas, rara já se vai tornando essa intolerância barbara. Os deuses falsos e mentirosos vão sendo substituídos nos corações pelo Deus único, pai e criador de todos os seres, que nos foi revelado por Jesus. Esse Deus imenso, que palpita em toda a criação e anima todos os seres, não conhece as nossas divisões em seitas e partidos ridículos e infantis.

Tudo marcha para a unidade. Nossa ciência materialista já é uniforme no planeta todo. Nossa técnica industrial já se padroniza por toda parte. Nossos meios de comunicações já são os mesmos em toda a superfície do globo. Nossa civilização materialista ruma para o universalismo em futuro próximo. Porque então, só nos domínios superiores do pensamento não rumamos todos para a unidade divina? Porque nos apartamos em seitas que não se compreendem e se hostilizam, se no fundo de todas elas, despida a roupagem das formas, a verdade revelada é sempre a mesma?

O espírito de seita desaparecerá também. Grande passo já vai sendo dado pelas comunicações dos Espíritos superiores, recebidas em todas as línguas e em todos os pontos do planeta, dentro e fora das sociedades espíritas, nos meios mais cultos, como nos mais obscuros.

O Monoteísmo será uma realidade viva no futuro e ninguém mais poderá crer nas histórias tristes como essa que relatamos acima. Hão de supor que mentimos ou fantasiamos. Que assim seja muito em breve! 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Profissão de Fé


Profissão de Fé
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Junho de 1943

Afastadas, por dimanantes (originário) todas da generosidade de um coração bondoso, onde impera o sentimento da fraternidade cristã, as referências pessoais contidas na carta que abaixo inserimos, muito encerra a profissão de fé constante dela, como demonstração da relativa facilidade com que a iluminação interior se produz para o espírito que busca sinceramente a verdade, sem ideias preconcebidas, de pontos de vista isentos de personalismos, cheio de boa vontade e cônscio de que somente a humanidade consegue que o veio da inspiração superior, ou das intuições claras e sãs se abra para fazer que um raio de luz brilhe onde antes tudo era obscuridade.

Tal a razão única por que, agradecendo sensibilizado as palavras do signatário, alusivas à Casa de Ismael, transcrevemos a sua profissão de fé, espontaneamente feita. Pela característica que lhe apontamos, ela, sem dúvida, será de proveito para muitos que procuram a verdade por amor à verdade, certos de que jamais lograrão encontra-la, se se fiarem tão só na força de suas inteligências, por mais pujantes que as suponham.

Ilustre confrade, Dr. Guillon Ribeiro   M. D. Presidente da "Federação Espírita Brasileira".

Paz,

Cumpro o grato dever de vos testemunhar, por este meio, sinceros agradecimentos pela transcrição do meu modesto artigo - "Kardec e Roustaing", em o "Reformador", órgão que espelha fielmente a orientação superior da "Casa de Ismael", de que sois seguro e bem inspirado timoneiro. Agradeço-vos, igualmente, as benévolas referências feitas ao meu humilde nome, assegurando-vos que tão generosa resolução constitui valioso e confortador estímulo para o meu espírito, desejoso de poder juntar o seu microscópico grão de areia à portentosa obra que estão realizando no Brasil os "espíritas concienciosos", consoante o dizer de Allan Kardec.

Em outubro do ano passado, ao ouvir as vossas instrutivas considerações evangélicas, tive a atenção atraída para um detalhe a que, incidentemente aludistes, quanto ao corpo fluídico de Jesus. Interessou-me o assunto a ponto de me animar a vos dirigir desalinhavada carta, a 2 do mesmo mês, subscrita por - Um novo associado da Federação, que aguarda as luzes do vosso esclarecido espírito. Não bati à vossa porta em vão, nem vos pedi infrutiferamente. O modo pelo qual veio a vossa resposta foi já uma réstea de luz que o meu espírito recebeu. Hoje, reputo frívolas as razões daquela carta, mas é preciso recordar que, até então, era completa a minha ignorância a respeito da teoria do corpo fluídico do Divino Mestre, tanto que só de nome conhecia eu "Os Quatro Evangelhos", não sabendo que esta prodigiosa obra continha revelações da mais alta importância. Na Bíblia encontrara determinados trechos obscuros ou absurdos, porque envoltos no negro véu da letra, mas perfeitamente explanados, através da teoria do corpo fluídico, na obra mediúnica divulgada por J. B. Roustaing. Longe estava de supor que "Os Quatro Evangelhos" fossem a mesma Bíblia explicada em espírito e verdade. Seguindo vosso conselho, dediquei-me logo ao estudo desse alentado trabalho, confiante na solidez dos "meus" pontos de vista. Não tardou, entretanto, que a verdade triunfasse, não só desfazendo a relutância que eu demonstrara, inicialmente, em aceitar tão cristalina exposição, como levando-me à certeza de que, efetivamente, Jesus não poderia ter vindo à Terra senão com um corpo fluídico, adaptado às condições de vida deste planeta; nunca, porém, com uma vestidura carnal de natureza idêntica à nossa. Admirei-me muito de que tão simples e racional teoria houvesse encontrado resistência da parte do meu espírito. Muitas vezes reli as páginas que o meu entendimento não assimilara prestemente, mas, ao cabo de persistente estudo, todas as minhas dúvidas acerca do corpo fluídico se dissiparam e experimentei a mesma agradável sensação de quem, fugindo ao ambiente sufocante dum ergástulo, pode, enfim, livremente, respirar o ar puro da aromatizados vergéis.

Conforme tão bem ensinais em "Jesus, nem Deus, nem homem", o meigo Rabbi da Galileia, "sendo um puro Espírito, um Espírito de pureza perfeita e imaculada, o fundador,  o protetor, o governador do planeta terreno, não podia e não estava adstrito, de acordo com as leis imutáveis da natureza, a tomar o corpo material do homem terrestre, corpo de lama, incompatível com a sua natureza espiritual. A encarnação humana é expiação, prova, meio, portanto, de efetivação de progresso moral. A ela, pois, não podia estar sujeito, e não estava, aquele que, antes de constituir-se a Terra, já alcançara, moralmente, a perfeição absoluta. No entanto, cumprindo-lhe, para aparecer entre os homens e desempenhar na Terra a sua missão superior, revestir um corpo, tinha Ele que, de conformidade com as leis imutáveis da natureza, mediante aplicações e apropriações dessa lei, pois que a vontade inalterável de Deus jamais as derroga, tomar um corpo compatível com a sua natureza espiritual e em relativa harmonia com o globo terráqueo, tal que aos homens desse a ilusão de ser um corpo humano".

O misoneísmo (hostilidade para com o novo) é mimético (disfarce). Toma as formas que parecem convenientes para ludibriar-nos o raciocínio, levando-nos a sustentar preconceituosas tradições, engendradas nas sombras do apriorismo impenitente. Assim tem sucedido relativamente a errôneas interpretações dos Evangelhos. Dia virá, no entanto, em que a luz se espalhará por sobre todos os espíritos, apagando as nódoas do obscurantismo traiçoeiro.

Posso dizer-vos agora: graças a Deus! Sim, Dr. Guillon, graças a Deus, porque estou compenetrado da realidade do corpo fluídico de Jesus e é a vós que devo o início da elucidação que, a esse propósito, recebeu o meu espírito. Hoje sei que, pretender-se a possibilidade dum Espirito como Jesus, de pureza absoluta, isto é, que jamais fraquejou, ter mergulhado na podridão dum corpo carnal como o nosso, será ofender-lhe a majestade. Não! Jesus não sofreu o ultraje da encarnação a que estamos sujeitos, nós, espíritos falidos, imperfeitos, impuros. Se muitos se apegam ao argumento de ser a teoria do corpo fluídico derrogatória das leis naturais, é porque - vistas curtas - supõem conhecer todas as leis da Natureza... Graças a Deus, comecei a despertar, ilustrando o meu ignorante espírito com outras obras de idoneidade incontestável, como "Elucidações Evangelicas", "A Personalidade de Jesus", "Jesus - nem Deus, nem homem", "Jesus perante a Cristandade", todas de irrefragável autoridade exegética.

Concluindo, caro irmão, renovo meus agradecimentos à cristã acolhida que recebi. Que o Pai que está nos céus vos devolva em bênçãos os benefícios que me propiciastes.

Está finda esta profissão de fé.

Do mais humilde dos vossos condiscípulos


Indalício H. Mendes 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Coisas que não sabíamos


Coisas que não sabíamos
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Junho 1943

Não há dúvida de que o livro do padre Zioni foi um prestimoso trabalho, que não só veio ensinar muitas coisas aos seminaristas do Ipiranga como a nós mesmos, espiritistas.
Assim é que ele esclarece:

"Bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo. (Todos os grifos são do reverendo). A filosofia espiritualista crê na existência de um Deus todo poderoso, Criador e Providência do mundo, Pessoal e absolutamente distinto de suas obras. O Espiritismo identifica o efeito com a causa, Deus com o mundo!"

Vejam lá! E ninguém sabia disto até hoje! O Espiritualismo a crer na existência de um Deus todo poderoso, Criador, providência do mundo, pessoal, distinto de suas obras. E nós, espiritistas, a crer no contrário, visto que "bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo". E nós, espiritistas, a crer que Deus não é poderoso, nem é Criador, nem é providência do mundo, nem é distinto de suas obras, e é impessoal. Pensamos, além de tudo, que efeito e causa, Deus e o mundo é tudo a mesma coisa.

(“O Espiritismo identifica o efeito com a causa.") 

Nós, espiritistas, cremos nisto, disse-o o padre Zioni aos seus alunos e proclamou-o à face do Brasil, no seu famoso livro.

Bem é que nos viesse agora iluminar o entendimento, porque nós criamos que acreditávamos justamente no contrário do que afirma o padre que nós cremos.

Mas, quem nos enganou foi o Kardec. Diz ele, logo na 1ª linha, do 1º capitulo, como 1ª resposta dos Espíritos no Livros dos Espíritos:

"Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas".

Por isso não esperávamos. O Kardec a dizer que Deus é a suprema causa e a suprema inteligência, nós a crermos que era nisso que acreditávamos! Supúnhamos até hoje que tínhamos Deus como Criador, visto que é causa primária, e como causa não se podia confundir com o efeito, que é a sua obra, e como Inteligência Suprema é o todo poderoso...

Nada! No que acreditamos quem o sabe, quem o diz, quem o ensina é o padre Zioni.

Ainda nos engana e atrapalha Allan Kardec, quando estabelece no nº 13, Livro dos Espíritos, que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.

Mas que patranha!

Dir-se-ia que isto é que é o ensino dos Espíritos, o que proclama o Espiritismo, aquilo em que cremos. Lá está que Deus é único, imutável, onipotente.  

Mas não importa. A verdade vive palpitando pela pena do reverendo: "São bem claras as diferenças." O Espiritualismo, de que ele é representante, crê num Deus poderoso, criador, pessoal, distinto de suas obras ...

Cá conosco é o contrário - cremos no oposto - o Kardec é p'ros tolos. E se não é a providencial interferência do padre, iríamos por aí afora naquele engano d’alma.

No capítulo Panteísmo, Kardec, para reforçar o engodo em que vivíamos, declara que Deus é um ser distinto, porque, se fosse a resultante de todas as forças e de todas as inteligências, não existiria, porquanto seria efeito e não causa. (L. dos Esp., nº 14).

Mas não é isso o que cremos, di-lo o padre Zioni - nunca é demais repetir - em respeitável obra, que corre o Brasil inteiro, explicando o que é a infausta doutrina do Espiritismo. E entre, o padre Zioni e o Kardec... "tollitur quaestio". (e acabou a questão).
Outro esclarecimento e outra coisa que não sabíamos:

"O Espiritismo pretende possuir todos os segredos da natureza e julga-se capaz de explicar todos os mistérios."

Ainda aí, que ilusão a nossa! ...

Pensávamos, nós os espiritistas, que esbarrávamos em todas as causas primarias. Não há tal. O Espiritismo sabe tudo, explica todos os mistérios ou pretende isto.

Sabe de onde veio Deus, como é que veio, como é que se formou, onde acaba o Infinito, isto sem já falar em coisas mais próximas: - porque a água se solidifica a Oº grau, porque o mercúrio é liquido à temperatura normal e o ouro é solido, porque uns metais são duros e outros moles, porque há corpos que emitem irradiações, porque o ferro se magnetiza, porque as pontas atraem os raios e não as bolas, porque o coelho é manso e o tigre é bravo, porque a barriga das pernas está atrás, quando devia estar na frente para proteger as tíbias, porque os dentes só nascem duas vezes e as unhas crescem indefinidamente, porque... etc., etc., etc ...

Nós sabíamos tudo isto! Ha muita gente que supõe saber o que não sabe. Em Espiritismo a cantiga é outra: - não sabemos o que sabemos! Desta vez, obrigado, padre!

Mais coisas que não sabíamos:

"O Espiritismo repousa nesta comunicação com os desencarnados e estabelece como base essencial a crença na sobrevivência dos espíritos e sua comunicação com os vivos, seja qual for a explicação, porquanto a filosofia espírita consiste em comparar todas as filosofias já existentes, com a revelação espírita. "        

Ah! consiste nisto?

Aí têm o que é a filosofia espírita - é uma comparação com todas as filosofias existentes.

Quem faz a revelação é o Arnauné, que eu não sei quem é; mas quem a endossa é o reverendo.

O trecho está claro como azeite: - a base do Espiritismo é a crença na sobrevivência, seja qual for a explicação.

E esta base é porque a filosofia espírita consiste em comparar a revelação espirita com as filosofias já existentes.

O Arnauné, com a aprovação, senão com a admiração de Zioni, levou a explicação aos maiores extremos: - a comparação é com as filosofias existentes. Não se fosse supor que se tratava de comparação com filosofias inexistentes.

E nós a crermos que a filosofia espírita versava sobre a origem, a dor, o destino dos homens!

Nada disso: - é uma comparação.

*

Não sabíamos, ainda, que Mateus, no capíulo XVIII, nº 17, se referia à Igreja Católica.

Elucida-nos, neste ponto, o padre Zioni:

"É pena que o Sr. Allan Kardec e seus dIscÍpulos nunca leram ou não querem ler na Sagrada Escritura os anátemas proferidos pelo mesmo noso Senhor Jesus Cristo: - Aquele que não crer será condenado, porque já está julgado. Aquele que não ouve a Igreja (isto é a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, por ele fundada) esse tal deve ser reputado pagão ou publicano, isto é, apóstata, herege, excomungado."

Apesar do muito que para mim vale a palavra do reverendo, fui dar uma espiadela em Mateus, e o que lá encontrei foi o seguinte: "Se contra ti pecou o teu irmão, vai e o repreende, mas a sós com ele. Se te atender, te-lo-as ganhado. Se, porém, não te atender, faze-te acompanhar de uma ou duas pessoas, a fim de que tudo seja confirmado pela autoridade de duas ou três testemunhas. Se também não as atender, comunica-o à Igreja; e se também à Igreja não atender, trata-o como gentio e publicano." (Mateus, XVIII, 15-17) .

Se meus olhos não me enganam, está diferente da citação do padre.

O que inferíamos do texto é que o Mestre, no seu amor às criaturas, nos ensinara a brandura, em vez de aconselhar-nos os anátemas, e, destarte, mandara que, quando tivéssemos de repreender ou censurar alguém, o fizéssemos em segredo, a sós com ele, com palavras persuasivas. Se ele nos não atendesse, buscássemos outros para reforçar nossos conselhos. Os espíritas pediriam o auxílio dos bons Espíritos. Não atendidos, ainda levariam o caso à Igreja, e a Igreja era a assembleia dos doutos, dos probos, era a Autoridade. No nosso caso seria a comunidade cristã.

O conselho do Divino Pastor visava - assim o supúnhamos - evitar a desonra do infrator, a publicidade do erro. Só em último caso, na impossibilidade da corrigenda, e corrigenda do pecado, seria considerado o pecador gentio e publicano, isto é, insuscetível de emenda, e então, deixado à sua sorte, consequentemente ao desprezo público, como se ele fora publicano ou gentio.

Mas o padre ajeitou os textos. Em boa hora, porque ficamos sabendo assim que, se um chinês não ouvir a outro chinês, tem que rumar ambos à Igreja Católica. Se um japonês não atender a outro japonês, está perdido, a menos que não consiga romper o bloqueio da esquadra britânica e forçar o canal de Suez, em caminho de Roma.

E então, -antes da fundação da Verdadeira Igreja, a Católica? Era ficar esperando num ponto azul da Eternidade!

Não se compreende, nem se sabe como, mas está bonito.

Não para aí ou não parava a nossa ignorância. Leiamos mais um lanço esclarecedor do reverendo Zioni:

"O Espiritismo Moderno, filho legítimo do Individualismo, Liberalismo e Racionalismo Protestantes, é, em si mesmo, falacioso e enganador. Pretende ser uma verdadeira Ciência, Filosofia e Religião, quando, na realidade, não é mais do que uma
pseudo revelação dos princípios subversivos da ordem e da moral, sob a roupagem santa e ideal da verdadeira caridade."

Está injurioso. Mas em se tratando de Espíritos, Espiritismo e Espiritistas, o padre
não tem muita cerimonias. Já vimos isto.

Todo o livro é uma como arcada de contrabaixo, vibrada por mão de mestre. Profunda e vigorosa.

Ora no Espiritismo, o que se ensina é o Evangelho do Senhor Kardec lhe dedica um livro inteiro. Roustaing apresenta, transcreve, estuda, comenta, versículo por versículo. A doutrina roustainiana se cifra em todo o Evangelho do Divino Mestre. Onde está a imoralidade, a desordem? ...

O Evangelho, filtrado pela boca do reverendo, iluminado pelas chamas do Inferno, apavorante pelos anátemas, anti fraterno pelo predomínio exclusivo de uma Igreja, vingativo pela eternidade das penas, obscuro pela insondabilidade dos mistérios, impenetrável pela proibição do exame, da investigação, é, que é a fonte da ordem e da moral, onde nós devemos todos abeberar.

Mas o Espiritismo, que nos apresenta Jesus cheio de bondade e de amor, que ensina a remissão do pecado pelo esforço próprio, que apregoa a bondade do Criador pela salvação de todos, que nos dá como lei suprema a da Justiça, como princípio geral a Equidade, que não proíbe o Conhecimento, nem estiola a Razão, este, sim, é um obstáculo a ordem, é um empeço a moral.

Num ponto, porém, acordamos com o ilustrado sacerdote. Convimos em que há ali uma doutrina funesta - é o dai de graça.

Imoral, não há dúvida, porque vai de encontro à moral consuetudinária, à moral de  os tempos e de todos os homens, com raras exceções. Anárquica, porque foge à ordem estabelecida, pelo menos à ordem econômica.


E o Espiritismo prega essa perigosa doutrina. Tem razão o padre: - "Princípio subservivo da ordem e da moral!'" 

Acabamos por uma conciliação.