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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Carta aberta ao Dr. Carlos Imbassahy



Carta aberta ao Dr. Carlos Imbassahy
por Souza Prado
Reformador (FEB) Outubro 1942

Meu caro Imbassahy:

            Fiquei pasmado ao ler o seu excelente livro "Religião"; e o que me boquiabriu não foi aquela irônica dedicatória, em que Você, com a maldade que o caracteriza, e que todos fazem a justiça de lhe reconhecer, me chama "jovem Sousa, risonho e esperançoso como um Prado florido", sem se lembrar, ou talvez mesmo porque se lembrou de que é ... infinitamente mais velho que eu. O que me embasbacou foi o pretexto de que Você se serviu para escrever uma obra, que é das melhores que já li sobre Espiritismo. Com efeito, nela se nota muita erudição, muita sinceridade, muita fé, um raciocínio claro e lúcido, lógica irretorquível, além do belo estilo, que todos nós lhe conhecemos. Isto, é claro, a não falarmos das entrelinhas, que são muito mais importantes ainda ...


            Mas, de tudo isso, nada me surpreendeu; desde que o conheço, o que me poderia surpreender seria a ausência de tais predicados em uma obra sua.

            Aquele pretexto é que foi o Diabo... com maiúscula! Pois Você escreve um livro de tal porte, para responder ao despacho do digno e sincero Diretor do Ensino, de S. Paulo?! Que queria, então, Você que ele tivesse feito?!

            Pois, se ele sabe, tanto lá do íntimo, que “...todas as Igrejas sempre protestaram contra a subordinação da fé ao raciocínio”; e se está sinceramente convencido disso; por outras palavras: se, em seu conceito, religião é sinônimo de estupidez e ignorância, queria Você que ele considerasse o Espiritismo uma religião?! . .. É claro que não podia ser. O honrado Diretor do Ensino sabe perfeitamente - está-se vendo - que religião é o Catolicismo; e, portanto, segundo o seu modo de ver, somente este poderá e deverá ser ensinado, como religião, nas escolas. Essa é a opinião sincera e franca do ilustrado e culto Diretor do Ensino, de S. Paulo. E ele procedeu, pois, de perfeito acordo com o que lhe indicava o seu esclarecido critério.

            Agora, nós, que sabemos que tal conceito, a respeito do que seja religião, está errado, temos que admitir que ele esqueceu o que deve ter aprendido na escola primaria - naturalmente enquanto fez o curso superior; - e, assim, é claro que Você não deveria ter perdido o seu tempo a escrever uma obra de tanto valor, mas antes se deveria ter limitado a fazer o que eu faria, se ainda existisse o meu Heraldo, de saudosa memória, e que se resumiria em aconselha-lo a que fosse de novo para a escola primária relembrar o que esqueceu, ou, quando menos, recomendar-lhe a consulta de dicionários, desde os melhores aos mais "vagabundos"...

            Então, ele veria que religião e estupidez são coisas que nem sempre andam a par, e que, muito ao contrário, a verdadeira fé é precisamente aquela em que entra o raciocínio, como sucede no Espiritismo. E ficaria sabendo que fé ou religião sem raciocínio são simples fanatismo religioso, e nada mais...

            Aliás, seja dito de passagem, a lei não deveria permitir que pessoas absolutamente ignorantes de um assunto pudessem opinar sobre ele, e julgar, sob tal aspecto, os requerimentos de cidadãos que têm absoluto direito de verem respeitadas as suas prerrogativas, que não podem nem devem estar sujeitas ao arbítrio, prepotência e faccíosísmo de quem quer que seja.

*

            Mas, afora o pretexto de que Você se serviu para escrever o livro, não há dúvida de que ele veio prestar assinalados serviços à doutrina; porque não é somente o Sr. Diretor do Ensino que ignora que o Espiritismo seja religião - o que se compreende perfeitamente por nada entender ele do assunto, apesar a presunção que o levou a escrever: “Por não ser uma religião (o Espiritismo), como se acaba de demonstrar...” , isso depois de não ter demonstrado coisa nenhuma; - entre os que se dizem espiritistas também há quem afirme a mesma enormidade, fazendo-o mesmo alguns de boa fé. E é para estes que o livro era uma necessidade, a não falarmos em que, com ele, Você divulgou inumeráveis conhecimentos, que, para noventa e nove por cento dos que o lerem, serão verdadeiras novidades. A maioria, porém, dos pseudo espiritistas, que negam ao Espiritismo a característica de religião, fazem-no de má fé, por despeito e por oposição sistemática à Federação Espirita Brasileira. Esses procuram hostilizar, por todos os meios, a Federação, servindo-se, para isso, de todos os pretextos, mesmo os mais tolos. Ainda há pouco, um deles, em artigo que me mostraram, e a que eu não respondi por uma questão de higiene moral, afirmava que: “recentemente, muito se disse e se vem dizendo insistentemente de outrem (este outrem, sublinhado pelo autor do artigo, sou eu) quanto a uma presusida dissensão com alguns membros da Federação...”

            Ora, Você sabe perfeitamente que tal asserto (não confundir com acerto) rima, mas não verdade, é tudo quanto há de mais bobo, e só serve para demonstrar o que acima afirmei; isto é: que há, aí, um grupo de despeitados, que se servem dos pretextos mais tolos para hostilizar sistematicamente a Federação.

            E, seria o caso de se saber, antes do mais, em que poderia afetar à Federação, ou aos seus dirigentes, qualquer dissensão entre eles e a minha importantíssima pessoa, apesar da diferença moral que existe entre mim e os do tal grupo... E, depois, a verdade é que, entre mim e os Diretores da Federação nunca houve dissensão nenhuma, no sentido, caviloso em que o referido cavalheiro empregou o termo. Se algum dia houve discordância no nosso modo de ver sobre alguns pontos de doutrina, e se ainda continua a havê-la, isso só prova que, sendo o Espiritismo uma doutrina em que se raciocina livremente, nenhum de nós aceita isto ou aquilo somente porque outrem o diga; e, aí, estamos todos dentro da doutrina.

            Aliás, Você lembra-se da sinceridade e lealdade com que então discutimos, e que fazia que Você lesse os meus artigos, e eu os seus, antes de serem publicados. Mais ainda: o que os do tal grupo ignoram, e não poderão mesmo compreender, é que quem levava, para o jornal em que foram publicados, os artigos com que Você respondia aos meus, era eu mesmo; e, no fim de tudo, ria-mo-nos ambos, como amigos bons e leais, que sempre fomos, como ainda hoje continuamos a rir-nos de tudo isso, não obstante estarmos em desacordo sobre alguns pontos de doutrina... E o que também ignoram, e é bom que saibam os do tal grupo, é que - embora divergindo, neste ou naquele ponto, do modo de ver de alguns dos Diretores da Federação, e admitindo, como não poderia deixar de admitir, que eles, como eu e todos nós, estão sujeitos a errar - sempre considerei, os que compõem a diretoria da Federação, pessoas honradas, sinceras e dignas, que é o que, infelizmente, não posso dizer de muitos dos que os atacam sistematicamente... a eles e a mim.

*

            De forma que a tal dissensão entre mim e a Federação Espírita Brasileira é do mesmo gênero da ignorância e má fé que os levam a defender o ponto de vista do Sr. Diretor do Ensino, de S. Paulo; e todos eles têm muito que aprender no seu livro, embora ele seja, sob tal aspecto, muito mal empregado.

            Acho mesmo que Você se desviou muito do preceito escriturístico , que nos aconselha a "não deitar pérolas aos porcos"... em sentido figurado, já se vê...

            E faça favor de me não tornar a chamar "jovem Sousa", nem "Prado florido" ...

            Quanto ao mais, um afetuoso abraço do seu de sempre

SOUSA do PRADO.
Rio, 3 de Outubro de 1942

Atribulações



Atribulações
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1942

            No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.
                                                           Jesus (João, 16:33)

            Se há crentes aguardando vida fácil, privilégios e favores na Terra, em nome do Evangelho, semelhante atitude deve correr à conta de si mesmos.

            Jesus não prometeu prerrogativas aos seus continuadores. O Mestre foi, aliás, muito claro, nesse particular. Não estimulou a preguiça, nem criou falsas perspectivas no caminho do aprendizado. Asseverou que os discípulos e seguidores teriam aflições, que o mundo lhes ofereceria ocasiões de luta, sem esquecer a recomendação de bom ânimo.

            Seria inútil induzir-se alguém à coragem, nos lugares e situações onde fosse dispensável. Se o Mestre aludiu tanta vez à necessidade de ânimo sadio, é que não ignorava a expressão gigantesca dos trabalhos que esperavam seus servidores.

            A experiência humana ainda é um conjunto de fortes atribulações que costumam multiplicar-se à medida que se eleve a compreensão. O discípulo do Evangelho não deve esperar repouso, quando o Mestre continua absorvido no espírito de serviço. Para ele, férias e licenças na luta deveriam constituir cancelamento de oportunidades.

            Alguns se queixam das perseguições, outros se alarmam, quando incompreendidos. Suas existências parecem ilhas de amargura e preocupação, cercadas de ondas revoltas do mundo. Aqui, parentes humilham, acolá, fogem amigos. A ironia perturba-os, a calúnia persegue-os. Mas, justamente nesse quadro é que se verifica a promessa do Salvador. Responsabilidades e compromissos envolvem sofrimentos e preocupações. Certo, não pediríamos trabalho a Jesus, nem o receberíamos de sua bondade infinita, para fins de ociosidade ou brincadeira. Estamos em serviço e testemunho. Aprendizes do Evangelho, encarnados ou desencarnados, teremos aflições nas esferas terrestres; mas, tenhamos fé e bom ânimo. Jesus venceu o mundo.

Inverno


Inverno
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Setembro 1942

                                   “Procura vir antes do inverno”. - Paulo (II Timóteo, 4:21)

            É claro que a análise comum do versículo revelará a prudente recomendação de Paulo de Tarso, para que Timóteo lhe fosse ao encontro, antes da estação difícil da chuva e frio forte. Na época recuada da Epístola, o inverno não oferecia possibilidades à navegação. Podemos, entretanto, ir mais longe, além da letra, acima do problema circunstancial de local e tempo.

            Movimentemos a nossa interpretação espiritual.

            Quantas almas se recordam da necessidade do encontro com os emissários do Mestre Divino, apenas por ocasião do inverno rigoroso de sofrimentos? Quantos lembram o Salvador somente em hora de neblinas espessas, de tempestades ameaçadoras, de gelo pesado sobre o coração? Em momentos assim, o barco da esperança costuma vagar sem rumo, ao sabor da onda revolta. Os nevoeiros ocultam a meta, tudo tende à desordem, ou à desorientação. É preciso procurar o Mestre, ou aqueles que já se ligaram definitivamente ao seu amor, antes dos períodos difíceis e amargos, a fim de buscar-se o pouso da paz, o refúgio da segurança.

            A disciplina em tempo de fartura e liberdade é benfeitora das criaturas; mas, aquela que se recebe por imposição, em épocas de escassez e dificuldade, se converte em martírio.

            O discípulo fiel do Cristo não deve marchar no mundo ao sabor de caprichos satisfeitos e sim de conformidade com a temperança e compreensão.

            O inverno é necessário, é útil e intransferível, como tempo de prova benéfica e renovação precisa. Procure, pois, cada um o encontro com o Cristo antes dele.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Universalidade do Espiritismo




Universalidade do Espiritismo
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Novembro 1942

            Um amigo muito culto, portador com dignidade de diploma de uma das nossas escolas superiores, católico-romano praticante relatou-nos dois fatos por ele verificados, de comunicações de mortos, fora de rodas espíritas. São estes os fatos: alguns meses depois de falecido o chefe de uma família católica, a viúva admitiu a seu serviço uma criadinha que não conhecera o morto e nada sabia dos negócios dos esposos. Certo dia essa jovem criada caiu desmaiada. Socorrida pelas pessoas da família, pôs-se a falar com a voz, os modismos, os pensamentos do morto, sobre assuntos materiais do Inventário de seus bens. Não só declarou que era o falecido chefe da família, como o demonstrou pelos conhecimentos que revelou de todos os negócios e interesses da viúva. Se bem todos na família desconheçam o Espiritismo, não ficou dúvida de que tenham recebido longa comunicação de seu chefe, por intermédio de uma pessoa que não sabia coisa alguma de mediunidade.

            O nosso relator, igualmente, não duvida da autenticidade da comunicação e limita-se a dizer que não quer aprofundar-se nesses assuntos.

            Ainda o mesmo cavalheiro nos relata o caso de uma pessoa conhecida, que no momento da morte falou em voz direta com uma senhora amiga e dela se despediu, em outra cidade. Ambos os casos ocorreram entre pessoas dignas de toda a fé e boas católicas.

            Esses dois relatos nos trouxeram à lembrança uma multiplicidade de casos semelhantes, que temos ouvido em rodas católicas, de pessoas que desconhecem o Espiritismo. Quase que todas as famílias possuem um ou alguns casos de manifestações de Espíritos. São aparecimentos, vozes diretas, sonhos premonitórios, incorporações espontâneas e outras modalidades dos mesmos fenômenos que o Espiritismo estuda e classifica. É assim e não poderia ser de outro modo, porque os fenômenos espíritas são eternos e universais deram-se e dão-se em todos os lugares e em todos os tempos. Foram a base inicial de todas as religiões e são igualmente o alimento de todas as crenças religiosas em todos os tempos. Sem esses fenômenos, que confirmam os livros sagrados, as ideias religiosas teriam morrido no mundo, o materialismo absoluto teria dominado todas as consciências.

            Portanto os fenômenos básicos do Espiritismo se dão sempre e mantêm vivas as religiões em toda a face do planeta. São as comunicações de santos que enchem a literatura católico-romana e sustentam a fé nos fieis. Uma das formas de comunicação mais comuns entre os católicos são as curas de enfermidades obtidas por intercessão de um santo. Cada santo tem a sua história de curas milagrosas bem documentada. É a mais comum, mas não a única. As aparições de mortos aos vivos são registradas nos anais da Igreja e em muitos processos de canonização.

            Fora de discussão, pois, está que os mesmos fenômenos do Espiritismo são igualmente do Catolicismo e de todas as religiões. Outra coisa, porém, é a filosofia propriamente dita. Os Espíritos sempre se comunicaram em todos os meios e em todos os tempos mas a formação da filosofia espírita é recente e foi elaborada pelo confronto das comunicações de muitos Espíritos em muitos lugares, não em fatos isolados de indivíduos que se manifestam.

            Virá a ser universalmente aceita a filosofia espírita, assim como está aceita a "ciência", isto é, o conhecimento das manifestações de mortos? A ciência consiste no conhecimento da verdade bem verificada e não passa além. A filosofia, porém, vai muito além e justifica a religião, esclarece os caminhos a percorrer, estabelece regras de conduta, transforma o indivíduo e consequentemente as coletividades.

            A universalidade dos mesmos fenômenos até agora não conduziu à unidade de crenças, deixou a humanidade dividida em múltiplas seitas, que reciprocamente se hostilizam e cada uma delas pretendendo o monopólio exclusivo da verdade. Virá o Espiritismo a reunir todos os filhos de Deus sob uma única bandeira no futuro? Para
esta pergunta procuramos resposta nas comunicações dos Espíritos superiores. Em 1857 apareceu a primeira edição de "O Livro dos Espíritos"; logo há mais de 85 anos que foram escritas as palavras que vamos ler.

            Sob o número 798, Allan Kardec pergunta: "O Espiritismo se tornará crença comum ou ficará sendo partilhado, como crença, apenas por algumas pessoas?"

            Resposta dos Espiritos:

            "Certamente que se tornará crença geral e marcará nova era na história da humanidade, porque está na natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos. Terá, no entanto, que sustentar grandes lutas, mais contra o interesse, do que contra, a convicção, porquanto não há como dissimular a existência de pessoas interessadas em combate-lo, umas por amor próprio, outras por causas inteiramente materiais. Porém, como virão a ficar isolados, seus contraditores se sentirão forçados a pensar como os demais, sob pena de se tornarem ridículos".

            A essas palavras ditadas do Alto há perto de um século, poderíamos juntar hoje a luz da experiência. O número de estudiosos do Espiritismo cresceu sempre e vem formando uma literatura imponente. Nota-se pelos serviços de livraria que os intelectuais, os pensadores, tomam interesse cada vez maior por esse estudo. A literatura dos adversários, contestando o Espiritismo, tem diminuído sempre. Hoje no Brasil não há um livro, contra o Espiritismo, em pleno vigor, esgotando edições. Todos os que apareceram, viveram pouco tempo e desapareceram. Ao contrário, os livros de defesa do Espiritismo se contam sempre vivos, sempre no cartaz, esgotando edições, há mais de meio século. Há obras espíritas em português que já alcançaram muitas edições e continuam em pleno vigor. Há obras novas que já esgotaram diversas edições. Referimo-nos somente ao Brasil, por falta de dados seguros para examinar o assunto noutros países; mas, a situação em outros países é muito semelhante à nossa: o combate contra o Espiritismo diminui e a propaganda cresce. Não seria exagero dizermos que, sobre o Espiritismo, se esgotam mais livros do que sobre todos os outros movimentos religiosos juntos, com exceção somente da Bíblia entre os protestantes. A Bíblia, porém, é aceita pelos espíritas como obra de interesse a favor do Espiritismo, e não como obra contrária.

            Esse crescimento constante da literatura espírita e sua aceitação cada dia maior demonstra que o nosso movimento ganha terreno entre os intelectuais, entre os pensadores, isto é, entre os homens que consciente ou inconscientemente dirigem a humanidade. Em outras palavras: como movimento intelectual, o Espiritismo já ocupa
um dos primeiros lugares entre os movimentos religiosos do mundo, se bem que como movimento social, sua posição ainda seja modesta.

            A influência social do Espiritismo é ainda pequena e disso temos prova nas guerras que se desencadeiam por toda parte. Quando a influência social do Espiritismo for grande, a guerra será abolida da face da terra. Ninguém pode supor que os espíritas de um país se reúnam de armas na mão para atacar os espíritas de outro país. O triunfo do Espiritismo será o estabelecimento da paz universal. Talvez esse futuro esteja longe, mas virá um dia.

            Para o momento, o que mais nos interessa é verificar se o Espiritismo tem assegurado o seu futuro, se não está sujeito a que algum Constantino o ponha a serviço de sua política, matando-o assim.

            Em muitos países a propaganda do Espiritismo é proibida e nisso não há grande mal, porque seria impossível harmonizar o ideal espírita com o ideal político de tais países. É mesmo preferível desaparecer da propaganda pública, a ter que se submeter a ideologias completamente opostas às do Cristianismo. Dizemos da "propaganda pública" porque a propaganda privada é feita pelos Espíritos e não está sujeita a limitação alguma dos Estados. Na Alemanha, na Itália, na Rússia, no Japão, apesar, de todas as proibições, os Espíritos se comunicam e não podem ser presos, nem fuzilados, nem queimados. Somente, as comunicações não podem ser publicadas, permanecem nos lares, nas rodas íntimas, esperando o tempo oportuno para se divulgarem.

            Semelhante proibição, e mais violenta ainda, teve o Cristianismo nos primeiros séculos, mas isso não impediu a sua perpetuação no mundo. Mais perseguido ainda do que o Cristianismo tem sido o Judaísmo, e não desapareceu do mundo.

            O Espiritismo igualmente não desaparecerá nem mesmo nos países onde é violentamente perseguido, e sempre permanecerá a liberdade em alguns pontos do planeta para conservar a nossa literatura. Hoje em todos os países da América, na Grã-Bretanha e em outros lugares, é livre a propaganda espírita. Assim, pois, o futuro do Espiritismo está assegurado no mundo todo, porque não cremos que o mundo todo venha a cair em poder da tirania, e porque a tirania é impotente para impedir as manifestações dos Espíritos.

            Graças a Deus, em nossa Pátria, desde os tempos do Império até os nossos dias, foi sempre assegurada aos espíritas ampla liberdade de propaganda. Nem durante os estados de guerra, quando todas as liberdades individuais sofrem limitações em favor do bem comum, sofremos qualquer limitação de ensinar e pregar da tribuna e da imprensa as consoladoras verdades do Espiritismo. Cumprem-se, portanto, as profecias escritas há 85 anos passados e o Espiritismo se vai incorporando aos conhecimentos humanos que hão de estabelecer uma nova era para a humanidade. Os fenômenos multiplicam-se dentro e fora das nossas fileiras; e os fenômenos são fatos e os fatos não se destroem com palavras.


Psicologia e Espiritismo



Psicologia e Espiritismo
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Outubro 1942

            Dir-se-ia, diante da crise que atravessamos, que uma onda de materialismo, de selvageria, de destruição varre o nosso pequeno orbe. A onda é impulsionada por um energúmeno-assú, acolitado por outros energúmenos mirins.

            E tanto bastou para que toda a atmosfera planetária ficasse intoxicada. Parece que, como consequência, procura-se arrancar do seio da humanidade as noções, os sentimentos capazes de tornarem o indivíduo menos feroz.

            Há, por exemplo, uma doutrina que aconselha a paz, que proíbe a destruição, que prescreve o altruísmo, que ensina a tolerância, que estabelece como lei a caridade.

            Se a seguíssemos, as criaturas, em vez de se odiarem e trucidarem, amar-se-iam umas às outras, porque os seus mandamentos são aqueles que se contêm nos ensinos de Jesus...

            Eles têm a vantagem de vir esclarecidos, documentados, alicerçados na prova dos fatos.

            Essa doutrina é o Espiritismo. Entretanto, contra ela se adunam cidadãos de todas as cores e de todas as classes, que a apresentam como um perigo tenebroso, assim para o indivíduo como para a sociedade. Quem lhes vê as descrições, enche-se de horror, como se já sentisse pela frente as hordas destruidoras de um desses muitos guerreiros, que tomaram a peito redimir a humanidade, assolando-a.

            O Espiritismo divide-se em duas partes principais: uma, a científica, que é a pesquisa, a observação do fenômeno; outra, a religiosa, que é a aplicação do fenômeno ao nosso progresso moral. Todo o Espiritismo tem por base, Deus; por demonstração, o fato; por finalidade, o aperfeiçoamento do ser.

            Mas, vêm as Igrejas e dizem: - não, isto não é religião, e o jogam para o lado científico, ou não jogam para lado nenhum; vêm os cientistas e dizem: não, isto é um perigo. Temos, a breve trecho, o Espiritismo, sem que se saiba o que ele é, nem a forma por que deva ser encarado.

            Há, ainda, o firme propósito de afirmar que em Espiritismo não há Espíritos, e os que creem, mesmo, na comunicabilidade dos mortos, não passam de ingênuos, quando não de uns ignorantes de marca, senão de uns velhacos de força.

            Tomemos para exemplo um artigo publicado por ilustre professor, o eminente psicólogo Dr. A. Piccarolo, a quem estou longe, aliás de envolver na ambiência de que acima tratei. Diz o provecto articulista:

            “0s ignorantes, os audaciosos (ao contrário de Lombroso) e os praticantes do Espiritismo afirmam que a interpretação espírita não pode mais provocar discussões e sobre ela pretendem firmar uma nova religião, urna nova moral, uma nova consciência humana. O resultado mostram-nos as crônicas dos jornais e melhor o poderia dizer uma estatística em torno das causas que enchem os manicômios dos países onde reina esse espiritismo vulgar e criminoso; enquanto se tratado com método cientifico poderia dar a solução do grande problema da alma humana.”

            Temos, pois, os praticantes do Espiritismo, ao contrário de Lombroso, audaciosos e ignorantes, ou os audaciosos e ignorantes, juntamente com os espíritas, a aceitarem Espíritos e a firmarem uma nova religião.

            Há mais:

            “Compreende-se que é muito fácil e muito cômodo explicar tudo com uma hipótese que não está sujeita a nenhuma colação positiva. Move-se a mesa sem que nenhuma força conhecida a faça mover? É um espírito que move ou levanta essa mesa. Ouve-se um rumor, um som, do qual não se
conhece a origem? Atribui-se esse rumor, esse som, a um espírito. Aparece um corpo qualquer, mais ou menos semelhante a um indivíduo humano? É ainda um espirito que se apresenta envolvido no seu períspirito, que, porém, ninguém sabe dizer em que consiste. Apresenta-se um indivíduo em condições anormais, em estado psicopatológico, falando como os antigos oráculos e pitonisas nas quais ninguém mais acredita? Não é preciso estudar as causas fisiológicas e somáticas desse sujeito: um espirito complacente explica comodamente tudo. Há casos de sugestão, de transmissão do pensamento, de telepatia, "et similia."? Não é o caso de estudar, de perder tempo em observar esses fenômenos desconhecidos para descobrir lhes as causas; os espíritos sempre os espíritos, estão
aí prontos e condescendentes para nos dar toda e qualquer explicação. Muito simples, não há dúvida, muito cômodo. Mas não muito lógico e científico.”

            Os espíritas, pesquisadores, ou coisa que que o valha, deveriam ser, pensa ainda o Professor completamente diferentes de Lombroso, o qual “chama a isso de simples hipótese, reconhecendo que estamos bem longe (o grifo é meu) da pretensão de ter conseguido a certeza”.

            Em primeiro lugar, cumpre indagar porque, estando Lombroso bem longe da certeza, deveríamos nós acompanhar-lhe os passos nessa longitude, como se estivesse dada, indubitavelmente, a última palavra.

            Veremos, entretanto, se a certeza estava tão longe de Lombroso, como nós deveremos estar dos Espíritos, por nos livrarmos da pecha de ignorantes e audaciosos, ou se o grande mestre, como lhe chama o psicólogo, acreditava tão só nos fatos, como este parece dar a entender:

            “Lombroso era, pois, um perfeito espírita - exclamam a este ponto, com ar de maior triunfo, aqueles que no espiritismo têm uma cega ou sincera fé, ou por ele são atraídos por segundos fins: - Lombroso é um espírita, porque admite como indiscutíveis os fatos espiritualistas."

            Temos os espíritas acreditando no Espiritismo de Lombroso, porque este tem como indiscutíveis os fatos espiritualistas. Dir-se-ía, pois, que para o criminologista só os fatos importavam, e, como ele admitia os fatos, supunhamos que acreditava no Espiritismo.

            Mais adiante, porém, o ilustre escritor contramarcha e expõe: "Declara (Lombroso) que em uma parte, os fenômenos podem ser explicados com teorias experimentais positivas mas outros não podem, e a hipótese espírita é até hoje a única que dá uma explicação possível...

            Logo, Lombroso, além de admitir os fatos como indiscutíveis, aceitava a possibilidade da "hipotese espírita",    

            Então, seria pela aceitação dessa possibilidade que os espíritas de fé sincera, cega ou qualquer outra fé, acreditavam no Espiritismo de Lombroso, e não pela sua aceitação de fatos.

            Não são, pois, tão pacóvios os espiritas, como parece ao ilustre escritor. É claro: se Lombroso aceitava a possibilidade da "hipótese espírita", porque a indiscutibilidade dos fatos é que iria fazer acreditassem os espiritistas no Espiritismo de Lombroso?      

            Primeiro cochilo. Há outros, e para não sair, por enquanto, das ideias do antropólogo, a quem o professor Piccarolo tece tantos, e aliás merecidos, encômios, vamos ver se ele estava muito longe da certeza, se achava tolice ver Espíritos nos fenômenos, se se comportava, enfim, com aquela "circunspeção e escrupulosidade" que "somente um grande e verdadeiro cientista como Lombroso" poderia ter.

            Abramos a obra citada pelo douto articulista, Ricerchi sui fenomeni ipnotici e spiritici, e leiamos algumas de suas passagens:

            No capítulo - Limites à influência do médium: "O Espirito de Spencer Stattforde revelou o telefone, trinta anos de sua invenção ... "

            Em "Experiências fjsiológicas: "São obra de John (John era o Espírito) ou do duplo de Eusápia, não seguramente de Eusápia, que tinha ambas as mãos seguras pelos fiscalizadores."

            Em Fotografias transcendentes: - "O médium tinha por guia, Vincent ... "

            Em Identificação: “No livro de Josie se encontra longa série de Espíritos que deram seus nomes e provas de identidade... Tal, por exemplo, Garcia Moreno, que revelou a única palavra por ele pronunciada no momento do seu assassínio."

            ... Muitos outros fatos podem ser citados, com relação à Sra. Piper e a outros médiuns, os quais provam a identidade dos Espíritos defuntos". 

            "Outras comunicações demonstram a identidade dos Espíritos, quando revelam fatos ignorados e de grande importância judiciária."

            "O morto tinha, pois, comunicado o fato unicamente conhecido dele."

            "Há casos em que a identidade dos defuntos foi provada pela revelação de fatos desconhecidos do médium - e da assistência e confirmados em seguida."

            "Uma promessa jurada ou uma viva paixão parecem ter grande influência sobre o fenômeno e, em todo o caso, provam a identidade das pessoas aparecidas."

            "Estes gestos, estes diálogos fragmentários, mas característicos, que se corrigem uns aos outros, são, como o nota Bozzano, em sua bela Identificação dos fenômenos espíritas, duma evidência que exclui a ideia de fraude e completa os sinais de identidade."            

            Em Casas assombradas: - "Esta influência de uma casa determinada, outrora habitada pelo defunto e a qual esta o Espírito quase indissoluvelmente ligado, mostra-se em muitos outros casos."       

            "Essa aderência a determinada casa explica porque tantos Espíritos se manifestam em ruínas desabitadas."       

            "Aqui, evidentemente, os dois médiuns não fizeram mais que servir de instrumento ao Espírito que tinha o seu plano e o seu fim, contrário aos desejos e aos interesses de M. e V."

            "Há que notar, nestes últimos casos, o cunho pessoal e o caráter intencional da ação dos Espíritos, o que não se poderia encontrar na ação dos médiuns."

            Em Esboço de uma biologia dos Espíritos: -"... Eles provam que os Espíritos se materializam a expensas do médium." 

            "Nas casas assombradas, em consequência de mortes violentas, os Espíritos podem, ao que parece, provocar ruídos e movimentos..."

            "Às formas humanas que os Espíritos tomam, ao se materializarem, não correspondem às de sua vida espiritual....

            "Os Espíritos podem transmitir ao médium sua faculdade de transformação."

            "Os Espíritos são atraídos para suas antigas moradas..."

            "Cada Espírito tem suas formas próprias de raps..."

            "Parece, em geral, que os Espíritos têm um vivo desejo de se fazerem conhecer aos vivos."

            "Citamos o caso do Dr. Dexter, obrigado a converter-se ao Espiritismo e a se prestar às sessões, pela perseguição feroz dos Espíritos..."

            "Os membros da família Fox, obsidiados pelos raps, acusados de fraude, excomungados pela Igreja, procuraram fugir aos Espíritos, mudando de casa e de cidade."

            "Os Espíritos não gostam de dizer os seus nomes."

            "Parece que o Espírito do defunto recente tem dificuldade em manifestar-se.”

            "Os Espíritos conservam a mentalidade e o caráter que tinham em vida."

            "Faihofer refere-se a Espíritos que contrariam as sessões, ofendidos por consultarem outro Espírito em seu lugar."

            "Não se podem compreender todos esses fatos, sem admitir que, à força do médium, vem juntar-se outra força, a qual, embora momentânea, possui as faculdades, ausente nos vivos, de ler o futuro, improvisar-se artista, etc."

            A linguagem do psiquiatra, como se vê, não parece, como acredita o psicólogo Piecarolo, "ter aquela circunspeção e escrupulosidade" que cabem "somente a um grande e verdadeiro cientista.”

            Ele fala de Espíritos, muito naturalmente, como coisa assente. Não usa de metáforas, de circunlóquios para designar a entidade comunicante, a exemplo, justamente, dos que, por medo de perderem o título de verdadeiro cientista, mantêm aquela escrupulosidade e circunspeção, tão do sabor do psicólogo articulista.

            É perfeitamente claro. Assim nos diz na mencionada obra, edição de 1909, o que vimos, e o que passamos a ver no original, para que não haja sombra de dúvida:

            "E come si spiega che lo spirito de Stattforde riveli il telefono trent'anni prima della sua scoperta?" p. 167.

            "Il fantasima comunicó due fatti di cui l'uno era noto a lui solo." p. 224.

            "Stead dá provo deli identitá degli spiritu." p. 230.

            "Ed alla cui presenza é legato quasi indissolubilmente lo spirito." p. 255.

            "Ma a poco e poco uno spirito incomincio a parlare." p. 263.

            "In quel tempo vivevano nel castello due signorine, cui lo spirito pertava affezione.”
p. 264.

            “Il che proveró che lo spirito aveva per medium una delle due donne." p. 265.  

            "Lo stretto rapporto di questi corpi (materiais) cor defunti vien confermato da alcune prove." p.. 292.

            "Gli spiriti ci si riveIano"... p. 292.

            "Molte fantasime nel modo di vestire comservano traccia deI Ioro tempo." p. 293.

            "...I quali provano come le materializzazioni degll spiriti ... " p. 293.

            "Pare che gli spiriti dei defunti possano provocare fenomeni... p. 294.

            "Spesso gli spiriti dei sono attratti dalIa casa." p. 295.

            "Ogni spirito adopera un suo raps speciale." p. 296.

            "In genere pare che gli spiriti vivamente desiderano di farsi conoscere.” p. 296.

            "E abbiamo vísto dott. Dexter costretto a convertirsi allo spiritismo da persecuzione degli spiriti..." p. 297.

            "Le Fox tentarono di sottrarsi agli spiriti"... p. 297.

            "Hanno gli spiriti una strana avversione..."  p.297.

            "Discrivendo il momento della propria morte, Pesham (Espirito) dettava: tutto si oscurece per me." p. 297.

            "Morton dopo morto non riconosceva alcuno.” p. 297.

            "Gli spiriti conservano Ia mentalitá e Ia tempra che avevano in vita.”   p. 298.

            "Quando si tratta di spiritl di pazzi Ie comunicazioni, nota Hodgson, sono strambalate."   p. 298.

            "I bimbi, quando sono morti, riproducono Ie parole ed i gesti infantili.” p. 299.

            "Lo spiriti de Hyslop dice..." p. 30.

            “L’interrogante e lo spirito sono come due prigionieri."    p. 301.

            É suficiente, por enquanto. Os pequenos excertos bastariam para demonstrar que ao eminente autor não repugnavam tanto os Espíritos. Nem tão longe andavam eles da sua mente.

            Há, ainda, outros trechos que provam estar aquele mestre mais próximo da convicção do que julga o prof. Piccarolo.

            Diz ele, destarte, à pag. 63, que as energias que se manifestam dão a entender a intervenção de uma inteligência que não a do médium. A pg. 168 declara que há casos em que se deve excluir a influência dos presentes.

            Afirma que as respostas dos Espíritos de Kant e de Schopenhauer não eram indignas desses autores. (148).

            Que a completa explicação do fenômeno se pode obter com a combinação da força mediúnica e uma outra. E esta outra, segundo a tradição e a observação, é a dos defuntos. ( ...Ci è additata nell azione residua dei defunti.) (171).

            Que, junto à ação do médium, se manifesta outra, presumivelmente, dos defuntos. (185).

            E entre muitos outros trechos, vamos a este, para finalizar, que os limites do presente artigo não comportam delongas:

            "É de ótimo aviso para a vida tranquila acadêmica a tendência a dissimular, a negar os fatos rebeldes a qualquer explicação, como precisamente aqueles pouco aceitáveis da influência de além tumulo. Repito, entretanto, apesar dos perigos em que incorro, que nenhuma explicação dos fenômenos espiritas será possível, senão admitindo-se que os defuntos conservem a energia capaz de se desenvolver sob a influência dos médiuns." (p. 188).

            Como viram ou como veem os enxovedos (patetas), nossos correligionários, na opinião do prof. Piccarolo, nada menos cientifico, nada mais pueril do que atribuir a Espíritos movimentos de mesa, rumores, aparecimentos de corpos, adivinhações e oráculos; até, mesmo, fenômenos que nunca ninguém se lembrou de lançar à conta de Espíritos, como os de "sugestão, transmissão de pensamento e telepatia", passaram, na catalogação do psicólogo, a lhes serem por nós atribuídos, ou pelos "condescendentes", como diz.

            Entretanto, o sábio Lombroso mais não fez, em sua citada obra, do que estudar todas as causas naturais, fisiológicas ou psicológicas possivelmente imputáveis aos fenômenos espíritas, e afastá-las do caminho, para que se impusesse a dos defuntos.

            E isto o que ele tinha em mira e o acentuou no prefácio; mas, fez melhor: Não se desdoirou de falar em Espíritos por todo o livro, fugindo àquela "circunspeção e escrupulosidade" próprias de cientistas, no aviso do professor de S. Paulo.           

            Finalmente, Lombroso, tão justamente elogiado, tão dignamente distinguido e tão profundamente respeitado pelo discípulo; ele que é apontado como um modelo a seguir; o figurino talhado para o verdadeiro molde, por onde se deviam orientar e espelhar "os ignorantes, os audaciosos e os praticantes do Espiritismo"; o que deveria estar na vanguarda dos negadores de Espíritos em matéria de movimentos de mesa, de ruídos, de oráculos;-aquele para quem o Espiritismo não passaria de uma hipótese e que estaria muito longe da pretensão de ter conseguido a certeza; ele, Lombroso, o Mestre, o cientista, o professor do sociólogo Piccarolo, não só censura o comodismo acadêmico, senão que julga impossível qualquer explicação dos fenômenos supranormais ou espíritas,. fora da ação e da energia dos mortos.

*

            Aí têm!

            Por forma que, vendo Lombroso falar em Espíritos; apresentar os fatos de maneira a que o leitor só possa concluir pela teoria espírita, ou, seja, achanar (aplainar) o caminho, para que lá se chegue facilmente; acusar os seus colegas de tímidos, e notar na intransigência deles um perigo para a livre manifestação do seu parecer; vendo-o afirmar, finalmente, sem qualquer vacilação ou figura metafórica, que o fenômeno só será explicável pela presença do morto, justo é que os nossos fracos amigos o tenham como um propugnador, um defensor, um sustentáculo das ideias de sobrevivência e da comunicabilidade. E nós pensamos que não é tão grande a ignorância deles, visto que está com eles o mestre do professor Piccarolo.

            Provavelmente, o honrado professor se deixou embair (seduzir) pelas palavras do prefácio em que o referido mestre fazia crer não tiraria conclusões, deixando-as ao leitor.

            O que pretendia, já vimos; mas, não se conteve, no correr das páginas, e acabou por se enganar a si e ao ilustre lente de psicologia.

            Há muito, ainda, que dizer.  


Armai-vos



Armai-vos
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Setembro 1942

            “Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficai firmes". Paulo (Efésios, 6:13.)

            O movimento da fé não proporciona consolações tão somente. Buscar em suas expressões apenas conforto seria proceder à maneira das crianças que nada enxergam senão guloseimas.

            É indispensável tomar as armaduras de Deus nas casas consagradas ao labor divino. Não seria lógico aproximar-se o filho adulto de seus pais, somente com a preocupação viciosa de receber carinhos. Esse filho necessita aprender os modos paternais, aceitar a educação que lhe é oferecida, revestir-se dos poderes que vibram em sua casa, a fim de que os progenitores se sintam correspondidos na sua incessante dedicação.

            A sede de ternura e de afeto é característica em todas as criaturas; porém, não se deve esquecer o trabalho que enrijece energias comuns, a responsabilidade que define a posição justa, o esforço próprio que enobrece os caminhos.

            Em todos os templos de pensamento religioso elevado, Deus está oferecendo armaduras aos seus filhos. Os crentes, num impulso digno e louvável, podem entregar-se naturalmente às melhores expansões afetivas, mas não esqueçam que o Pai lhes oferece instrumentos espirituais para a fortaleza de que necessitam. Somente na posse dessas armaduras pode a alma resistir nos maus dias do caminho terrestre, mantendo a serenidade própria nos instantes dolorosos e guardando-se na couraça da firmeza em Deus...