Translate

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mediunidade e Trabalho


Mediunidade e Trabalho
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Julho 1954

Nunca é demasiado insistir sobre a necessidade de incrementar o trabalho de desenvolvimento mediúnico. Ele pode ter influência marcante na vida individual, porquanto, desde que o médium se apresente em condições de exercer atividade, diante dele se abrirá vasto campo de realizações fecundas. A retenção de mediunidades, isto é, a falta de exercício do dom mediúnico, pode trazer perturbações diversas, inclusive de natureza nervosa. Via de regra o médium é indivíduo de grande sensibilidade psíquica. Se adquire o domínio relativo da força que possui, pode orientá-la de modo a alcançar os resultados mais produtivos e benéficos. Se se desinteressa desse poder, ele acaba por lhe prejudicar o equilíbrio nervoso e pode trazer consequências danosas a todo o organismo.

A situação de médium independe de crenças e opiniões, bem como da condição social. Naturalmente, o médium que se vota a uma vida sadia, moralmente elevada, inclinado à prática de ações louváveis estará naturalmente protegido de surpresas desagradáveis. A mediunidade é um fluido, admitamos, como a eletricidade: conhecido, mas de difícil definição. O médium atua como um instrumento, como uma antena, capaz de captar todas as manifestações psíquicas que lhe sejam afins. Nestas condições, precisa de estar sempre preparado para realizar espontaneamente a seleção das influências que o acometem. Desde que se desenvolva suficientemente e se oriente de modo superior, dará mais facilmente passagem às manifestações de Espíritos de boa moral do que a Espíritos ainda em grau evolutivo inferior. Ninguém desconhece, entre os espiritistas, que “os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico uma ação incessante. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados e que não encontram solução racional senão no Espiritismo.” (“O Livro dos Espíritos” - Introdução.)

Ao contrário do que muitos opinam, devem ser cultivados todos os aspectos da mediunidade. Não há razão para se desprezar o desenvolvimento da mediunidade relacionada com os fenômenos físicos. Ela é de enorme utilidade e importância. O que se deve evitar é a preferência pelos fenômenos, com o abandono da parte moral, indispensável à melhoria espiritual dos indivíduos. Qualquer setor da mediunidade é digno de estudo e de cultivo: a mediunidade curadora, a mediunidade psicográfica, a mediunidade intuitiva, a medi unidade auditiva, a mediunidade mecânica, a mediunidade de efeitos físicos (incluindo-se neste ramo os trabalhos de materialização e desmaterialização, de desintegração e reintegração da matéria, de transportes, de voz direta, de escrita direta, etc., etc.) .

Evidentemente, qualquer trabalho de natureza mediúnica deve ser realizado com o maior escrúpulo, com todos os cuidados possíveis, além de um serviço de controle efetivo, que não dê margem a dúvidas e contribua para a obtenção de elementos progressivamente mais amplos de verificação. Julgar-se que tudo já esteja feito ou descoberto no setor do Espiritismo é parar no meio do caminho. O Espiritismo é, por excelência, uma doutrina evolutiva. Não se prende a dogmas estreitos, não tem a presunção de haver já conquistado a plenitude dos conhecimentos, não presume haver dominado a verdade inteira. Precisamos convir que a vida não cessa, assim como não se detém o impulso investigador da Humanidade. O muito que já se conseguiu até hoje talvez nada seja diante do que ainda aguarda os homens do futuro.

O dom mediúnico é de excepcional importância no porvir da Humanidade. Impõe-se, todavia, que se desenvolva metodicamente, que possa ir, ainda que lentamente, ampliando sem interrupção seu campo de ação. Nada se perde, pelo contrário, tudo se terá a ganhar, com a persistência e a boa vontade no progresso do trabalho espiritual.

As sessões mediúnicas familiares são úteis, desde que à sua testa se encontre alguém com real capacidade moral e suficiente experiência para controlar e orientar os trabalhos. Sem se afastar da ambiência evangélica, podem ser efetuados todos os serviços relacionados com as experiências mediúnicas, sejam estas de que natureza for.

          O trabalho de caráter cientifico não é incompatível com o ambiente religioso, porque, na realidade, os dois se completam. Para muitos, o caráter religioso de uma reunião espírita (ou de qualquer outro credo) prescinde de experimentações científicas, porque religião subentende revelação. Não devemos, nós, os espíritas, adotar semelhante atitude. As experimentações científicas estão perfeitamente acordes com o espírito religioso, porque os homens jamais poderiam entregar-se a investigações no ramo da Ciência sem o beneplácito das forças espirituais superiores. E cada conquista científica não deixa de ser uma revelação e essa revelação, a História no-Ia mostra, muito embora inicialmente combatida, acaba por ser aceita no mundo e passa a constituir um dos elementos da vida humana, caindo na rotina.

Sabemos que muitas conquistas da Ciência foram impugnadas por credos mal esclarecidos. O clero se insurgia, acusando-as de obras do demônio, mas o tempo acabou por destruir inteiramente os argumentos cavilosos de pretensos donatários da verdade absoluta... Olhemos para o passado. Se hoje a Humanidade se debate no espiritismo e no materialismo, devemo-lo à diretriz defeituosa daqueles que, em nome de Deus e de Jesus, pretenderam, a ferro, fogo e sangue, cortar os voos da inteligência humana, esquecidos de que, em muitos dos heróis da Ciência, vicejava a mediunidade mais bela e fecunda. Sacrificaram corpos, mas não puderam destruir as almas. O pior é que se falava em nome de Deus para consumar tragédias que hoje atestam a falta de substância moral daqueles que tentaram infrutiferamente jugular o avanço da Ciência.

O Espiritismo não está nesse molde. É Ciência-Religião-Filosofia. Cresce em todos os sentidos porque sua doutrina, evolucionista por excelência, ampara o homem, esclarece-o, encaminha-o e lhe dá a força moral de que necessita na vida humana, para a compreensão de seu importante papel na Terra e na vida espiritual.

Mesmo em seu seio, o Espiritismo tem de progredir sempre, porque esta é a sua lei, esta é a determinação de sua própria origem. Allan Kardec, o grande mestre, codificou os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos. Em seguida, Jean-Baptiste Roustaing, também assistido por forças espirituais respeitáveis, trouxe novos e preciosos esclarecimentos, que reuniu em notável obra denominada “OS Quatro Evangelhos”.

Temos; pois, como pedestal do Espiritismo os livros notáveis de Kardec: “0 Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho segundo o Espiritismo», “A Gênese”, “O Céu e o Inferno”- além do seu ingente trabalho como desbravador, numa época em que ainda era forte e perigoso o poder do clero católico no mundo. Depois, surge Roustaing, como díscípulo de Kardec, digno também do maior respeito, com os ensinamentos recebidos do Alto pela médium ColJignon. Então, passaram “Os Quatro Evangelhos” a constituir uma obra também indispensável ao estudo do Espiritismo, da qual testemunhou A11an Kardec (“Revue Spirite”, Junho de 1867): “Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com o auxílio de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar em contradição, por qualquer dos seus pontos,  com a doutrina ensinada no “O Livro dos Espíritos” e no dos Médiuns. As partes correspondentes às de que tratamos n” O Evangelho segundo o Espiritismo” o são dum sentido análogo. Ai está a palavra de Kardec, que dispensa, por sua autoridade, maiores comentários. Assim como as obras do Codificador foram devidas a excelente e idôneo trabalho mediúnico, também “Os Quatro Evangelhos”, recebidos por via idêntica, mediante um médium autorizado, como Mme. Collignon, tiveram em Roustaing o apoio de que necessitavam no ambiente terreno em que apareceram, já que essa grande figura do movimento espírita era pessoa de absoluta inteireza moral, possuidora de sólida cultura e perfeitamente identificada com a essência e os objetivos da doutrina que professamos.

Quaisquer que sejam as modalidades do mediunismo, todas revelam a ação formidável dos Espíritos, que, se mais não fazem, é porque nem sempre podem contar com médiuns perfeitamente à altura dos trabalhos, médiuns que se encontrem realmente integrados em sua importante missão terrena. Isto põe em relevo a necessidade primordial de serem dispensadas atenções cada vez maiores aos médiuns, para que eles possam, com segurança e orientação superior, adquirir as condições imprescindíveis ao trabalho traçado no plano invisível.

Para que o esforço mediúnico ofereça resultados excelentes devem os médiuns encará-lo com a máxima seriedade possível, escorados no exemplo evangélico e nos princípios da doutrina espírita. Se, em qualquer atividade, a persistência, o esclarecimento e a boa vontade obram prodígios, no campo da mediunidade, então os efeitos são insofismavelmente magníficos. Portanto, desenvolver o trabalho mediúnico, seguindo os métodos prescritos pelo Espiritismo, consoante Kardec, é estabelecer bases sólidas para farta e valiosa colheita futura. Os médiuns, pelo fato de serem dotados dessa valiosa faculdade, devem aceitar com coragem e fé a missão que lhes for destinada, buscando cumpri-la com devotamento, santificando-a pelo exemplo e pela
resignação em face dos obstáculos comuns ao itinerário humano. Não há dúvida de que o mediunismo não necessita de estudos para desabrochar no espírito dos seres humanos. Todavia, o ideal será que o médium estude, enriqueça os seus conhecimentos e leve uma vida simples e pura, fugindo o mais possível do que possa contribuir para o enfraquecimento de suas reservas morais.


Renovação


Renovação
Hernani T. Sant’Anna
Reformador (FEB) Junho 1954

Filho meu, se do erro te alevantas
Empolgado por nobres sentimentos,
E tomado por altos pensamentos
Reajustas antigas decisões.
Não te vexes de amargas conjeturas,
Qual se fosse na liça abandonado,
Pois o bem reavido e renovado
É sementeira de reflorações.

A noite negra se dilui na auro (ouro),
O orvalho amigo retempera a terra,
E o bem redime sempre a alma que erra,
Renovando-lhe as flamas do ideal.
Olvida, pois, as sombras já vencidas
Na alvorada feliz de outras porfias.
Há sempre dias sucedendo aos dias,
E bens que nascem quando cessa um mal.

Levanta o próprio coração e segue!
A vida é mesmo ingente aprendizado,
Onde o aluno, por vezes desavisado,
Tem sempre ensanchas (oportunidades) de recomeçar...
Não te abata, portanto, algum fracasso
Colhido por vigílias descuidosas.
O espinho quase sempre indica rosas,
E o erro ajuda, as vezes, a acertar.

O preciso é seguir de alma sincera,
No trabalho do bem que nos convoca.
A mentira campeia, o mal sufoca.
E é mister acender alguma luz.
Fracos ou fortes, tristes ou felizes.
De saúde precária ou bem dispostos,             f
Precisamos guardar os nossos postos,

Leais soldados do Senhor Jesus!

O Supremo Bem


O Supremo Bem
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Junho 1954
                                                                                          
"Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo semelhante a este; Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas." – Mateus 22:37 a 40.

O amor de Deus é a força misteriosa da vida: cria, conserva, e transforma a vida no Universo. Tudo quanto vive é animado pelo amor divino. Sem ele nada existiria; nenhum Ser viveria. Ele é a energia que engendra, organiza e governa tudo quanto existe, visível ou invisível, mutável ou perpétuo. É o poder universal e eterno que em tudo e todos se manifesta numa variedade infinita de formas.

As leis de coesão, atração, gravitação, repulsão, reprodução, são manifestações materiais do amor divino que tudo governa de toda a eternidade e por toda a eternidade.

A sede desse amor se manifesta inconscientemente nos seres inferiores e conscientemente nos mais adiantados.

Como todas as formas de vida física da Terra recebem e refletem do Sol a luz e o calor vivificante; assim também todos os seres do Universo recebem e refletem o amor divino, que é a vida mesma em toda a sua gloriosa manifestação. A luz e o calor do Sol que se projetam sobre a Terra são os mesmos, mas a recepção e a reflexão podem ser em parte impedidas por obstáculos materiais. Igualmente o amor divino é o mesmo para todos os seres, mas encontra obstáculos morais e intelectuais, em grau maior ou menor, que o forçam a refletir-se de modos diferentes nos seres vivos, sedentos de individualização ilusória e de monopólio da vida.

Somente os seres muito avançados em perfeição recebem e refletem em toda a plenitude o amor de Deus, e amam com todas as veras de sua alma o Criador e a todas as suas criaturas, sem distinguir entre bons ou maus, isto é, entre felizes e infelizes, adiantados e atrasados na escala do progresso. Essa capacidade de receber e distribuir em toda a plenitude o amor divino, é a suma felicidade, a bem aventurança indizível na pobre linguagem humana, incompreensível para nós, retrógrados terrícolas, calcetas do pecado e da ignorância.

Só podemos por enquanto gozar as formas muito menos elevadas do amor, formas quase materiais, como o amor materno, o amor conjugal, ainda muito próximos da animalidade; porém, mesmo estas formas elementares já nos permitem imaginar a suprema ventura dos seres que já podem cumprir literalmente o primeiro mandamento; porque amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo, significa viver a vida superior na plenitude do amor divino, haver-se identificado com Deus e realizado o Cristo em seu próprio ser, possuir em si a Eternidade e o Infinito; ter o pleno gozo da força, da bondade, da compreensão, da vida completa e indestrutível; gozar toda a luz que irradia de Deus; estar integrado em tudo que vive; ser uno com O Criador e com todas as Suas criaturas.

Tristes calcetas do pecado, ligados à roda dos renascimentos expiatórios em mundos inferiores: ousando julgar, pelas aparências enganosas do curto momento de uma encarnação, as criaturas de Deus; esquecidos do passado e apavorados diante do porvir; preocupados com o que havemos de comer e com o que havemos de vestir; famintos e sedentos de aprovação e simpatia; tentando egoisticamente monopolizar em nosso favor as coisas que nos parecem boas, em detrimento dos nossos companheiros de peregrinação; divididos pelo medo em grupos que se hostilizam; confundindo o cárcere do corpo com ai vida. Contudo isso, somos os beneficiários do amor divino que nos não abandona um momento e nos faz caminhar para a plenitude da vida, para a plenitude do amor, para a Bem aventurança dos eleitos do Pai; somos as ovelhas do rebanho confiado a Jesus, e nunca seremos abandonados, porque ele é o bom pastor que disse: Dou a minha vida pelas ovelhas (*), e nos levará um dia ao supremo bem.
(*) João 10:15


A fada que corre..


Fada que corre... (parte)
Suzane Misset-Hopês
Reformador (FEB) Junho 1954

Ofereço, com confiança, aos nossos leitores, o simples fragmento de uma grande obra, que eu direi ser a visão sandiana de "a fada que corre"
aromatizando a verdade, de maneira tão agradável.

"Encontrei certo dia uma boa fada que corria como louca, apesar de sua avançada idade.

- Estais tão apressada em deixar-nos, senhora Fada?

- Ah! não me faleis - respondeu ela -; há algumas centenas de anos que não revia vosso pequeno mundo, de maneira que agora não compreendo mais nada.

Ofereço a beleza às moças, a coragem aos rapazes, a. sabedoria aos velhos, a saúde aos enfermos, o amor à juventude, enfim, tudo o que uma fada
honesta pode oferecer de bom aos humanos, e todos recusam essas minhas dádivas.

- Tendes ouro ou prata? - perguntam-me eles.

- Não.

- Então passa adiante, a nós só interessa a riqueza.

Ora, eu fujo, pois receio que as pequenas rosas dos espinheiros alimentem a pretensão de irem de carro às campinas.

- Não, não - gritaram as rosas que haviam escutado o seu queixume -, temos gotas de orvalho em nossas pétalas.

- E nós - disseram rindo, as borboletas - temos ouro e prata em nossas asas!

Aí tendes, declarou a fada, os únicos seres judiciosos que encontrei em minha viagem.” (27 de Novembro de 1859.)

Que diria a boa fada se voltasse em nossos dias?..

Obrigada, grande George Sand (*), por essas linhas de cristal, salientando com rara beleza a ambição nefasta (as riquezas materiais, e a sabedoria viva dos ornamentos da Natureza. )

Felizes os que, entre os humanos, sabem dar valor às riquezas inatas, tesouros espirituais que existem ocultos em toda alma voltada para Deus!

(*) Pseudônimo da escritora Amandine-Lucie-Aurore Dupin, que nasceu em Paris, e morreu em Nohant, em 1876.


Traduzido da revista "La Tribune Psychique", de Paris. Número de Abril - Maio - Junho 1954.

Uma personalidade inconfundível


Uma personalidade inconfundível
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Junho 1954

Frequentemente os que ainda não lograram vislumbrar as luzes do caminho cometem equívocos ao pretenderem julgar a personalidade de Jesus. Os materialistas costumam insistir no ponto de vista falso de que os princípios do Cristianismo enfraquecem o caráter humano, roubando-lhe a virilidade, porquanto ensinam o homem a ser simples e humilde. Não compreendem que a simplicidade não é sinal de fraqueza e que a humildade não revela, de modo algum, carência de energia moral. Pelo contrário, o homem simples é um homem forte, desde que saiba situar na devida posição a sua simplicidade. O homem humilde é poderoso, porque se revela senhor de si mesmo, dominador de seus instintos, pois sabe jugular seus impulsos e agir consoante as determinações de uma vontade esclarecida. Por conseguinte, o homem humilde, antes de ser um fraco, é uma criatura possuidora de grande poder volitivo.

Ensinando os homens a conduzirem sua vida na simplicidade, o Cristianismo tem por fim formar caracteres pobres e limpos; apontando-lhes o rumo da humildade, procura engrandecer o espírito humano, predispondo-o à tolerância consciente e ao perdão construtivo. Os simples não se envilecem ante as tentações do mundo. Os humildes não se amesquinham jamais, porque conservam o coração fechado ao orgulho e sussurram suavemente, ainda quando poderiam gritar. A humildade não envergonha: enaltece. O orgulho e a vaidade não redimem; destroem o que de melhor o homem pode possuir no coração. Jesus é grande porque a sua simplicidade é imensa e é imenso porque a sua humildade é infinita. Entretanto, quanta expressão na sua meiguice quanta força na sua conduta serena e-imperturbável! A sua aparente fragilidade tem resistido aos séculos e prevalecerá por todos os tempos vindouros. Deixando-se supliciar e levar à cruz, sem um protesto, sem um queixume, espantou a Humanidade com a força incoercível dessa fragilidade que os materialistas interpretam tão mal. Pregando o amor, sofrendo o ódio cego dos homens empolgados pela maldade, rasgou com o próprio sangue o itinerário luminoso que há de propiciar à Humanidade a felicidade ansiada!

Fraco não é o Cristianismo, mas são fracos aqueles que não puderam ainda abrir os olhos para as verdades que estão nos Evangelhos. Jesus foi de urna bravura inigualável, ao opor sua doutrina amorosa aos princípios duros do judaísmo. Com a cordura sem par do seu sentimento fraterno, cresceu de tal maneira que as sinagogas tremeram e o poder romano se abalou, vindo, mais tarde, a desmoronar ruidosamente. Enquanto isto, o Mestre se expandia, levando aos homens, a todos os homens, sua mensagem de paz e amor, mesmo àqueles que o sacrificaram, mas que, através das reencarnações sucessivas, encontrarão um dia a redenção almejada, porque Jesus não fecha jamais as portas do perdão a ninguém!

Onde a fraqueza de quem opôs a fé esclarecida ao poder violento e homicida de criaturas animalizadas pelo egoísmo e pela ambição? Onde a fraqueza de quem, sabendo os riscos que corria, enfrentou-os com admirável tranquilidade, escudado na fé e escorado na certeza de que sua missão messiânica teria de ser cumprida? Foi Jesus o fraco ou fracos foram aqueles que, temerosos da sua humildade, se juntaram para sacrificá-la, ainda que muitos, como Pilatos, se acovardassem diante das conveniências humanas, permitindo fosse imolado um justo para que a maldade se aplacasse transitoriamente? De quem o maior poder: de Jesus, amparado por Deus em sua gloriosa peregrinação terrena, ou dos potentados da Terra, que lhe venceram o corpo, mas não lhe dominaram o espírito maravilhoso? De quem o poder maior: de Jesus, que adquiriu maior vida ao sofrer o insulto da cruz ou dos homens transitoriamente poderosos, de existência limitada por exigências biológicas? Jesus ainda hoje vive no coração das criaturas de boa-vontade, cujas palavras não desmentem os sentimentos agasalhados no coração. Ele reina cada vez mais na Terra e os poderosos de um dia se confundiram já no volutabro (devassidão imunda) e para lá ainda se encaminham os espíritos trevosos do passado e do presente. Mas, tão grande é a misericórdia do Mestre, que a sua bondade penetra a lama dos charcos e oferece aos infelizes desviados da verdade repetidos ensejos para a conquista da reabilitação.

Jesus, o simples; Jesus, o humilde. Digamo-lo com alegria, porque Jesus é, sem dúvida, a personificação da simplicidade e da humildade. Mas Jesus é forte pelo seu infinito amor à Humanidade; é poderoso, pela Sua desmedida misericórdia, na obra de tornar os bons ainda melhores e fazer dos maus figuras exemplares de bondade.

Está nos Evangelhos, que Jesus é o caminho, a verdade, a vida. Está no Espiritismo que não há condenações irremissíveis e que para todos os pecadores há possibilidade de salvação, através dos testemunhos que as reencarnações sucessivas propiciam. O inferno e o purgatório estão dentro daqueles que renunciaram à companhia do Mestre. São figuras simbólicas que definem os sofrimentos a que o homem se subordina por sua inferioridade moral. Uma vez que cada criatura comece a lutar pela renovação de suas condições morais, poderá ir paulatinamente destruindo o inferno e o purgatório que criou para si mesma, porquanto Deus jamais castigou, jamais lançou seus filhos a sofrimentos eternos.

Sua infinita sabedoria, sua infinita misericórdia, sua infinita bondade se refletem na personalidade encantadora de Jesus-Cristo, que resume, em suas virtudes, a perfeição a que poderão chegar um dia todas as criaturas que se disponham a identificar-se com Deus.

Ao dizê-lo não nos abismamos na beatice que frustra o raciocínio livre. Longe de nós a escravidão beata, porque, reconhecendo os incontestável realidade de Deus e a evidência de Jesus, nos tomaremos livres na proporção em que se dilatar esse reconhecimento. Deus e Jesus apenas podem ser reconhecidos através do sentimento. À medida que avançamos e ampliamos a nossa compreensão das verdades espírito evangélicas, diminuímos a distância que nos separa de Deus e de Jesus. Todavia, não basta compreender, porque é imprescindível demonstrar essa compreensão através do exemplo cotidiano.

Compreender e exemplificar são, nesse caso, como que sinônimos. Daí a grandiosidade do sacrifício de Jesus, porque ele foi o coroamento da mais soberba exemplificação das verdades divinas. E o foi porque, exemplificando, o Mestre revelou a sua profunda compreensão de Deus.


A meditação diária facilita a comunhão da nossa alma com os invisíveis trabalhadores da Seara do Cristo. Ela nos leva a oportunidade de experimentar o grau de sensibilidade psíquica que possuímos, pela sensação de alívio e bem-estar que nos traz. E é necessária à preparação do espírito para o aprendizado evangélico de todos os dias. O estudo da Doutrina Espírita, compilado com o dos Evangelhos, arma-nos para a defesa de que necessitamos nas surpresas mais sutis da vida de relação. Todavia, é meditando que poderemos tornar o nosso espírito mais dócil às lições do Evangelho, porque nos ofereceremos melhor à influência benéfica dos nossos irmãos desencarnados. E à proporção que o meditar se for tornando um hábito para o nosso espírito, iremos encontrando menos dificuldade para sentir a grandeza moral de Jesus e os encantos da sua personalidade realmente forte e irresistível.

Na Palestina


Na Palestina
José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Janeiro 1954

Conta antiga lenda persa que, certa vez, chegou Jesus a vetusta cidade, à hora em que a. terra ainda repousava envolta nas brumas da madrugada. Tudo era silêncio. Por isto, encaminhou-se ele para pequena colina e lá de cima aguardou que o dia amanhecesse. À proporção que o Sol fazia emergir da névoa matutina as ruas estreitas e :irregulares, os habitantes iam despertando para as lutas habituais. Desceu Jesus do monte e seguiu o rumo do mercado, onde se misturava gente de toda espécie. Os mercadores começavam a armar suas barracas, em algazarra ensurdecedora. Mais adiante, viu o Mestre, sentado no chão úmido, uma mulher pálida, que trazia ao colo o filho faminto. A criança, chupando-lhe inutilmente o seio ressequido, chorava, desesperada. Acercando-se dos infelizes, Jesus passou as mãos sobre a cabeça de ambos, que estremeceram. Prolongado suspiro partiu do peito da pobre mãe e logo ela sentiu que a criança sugava avidamente a mama até então vazia. O leite era farto. A desgraçada espantara-se, ignorando a razão do bem-estar que experimentava. Reanimara-se e o filhinho lhe traduziu no olhar meigo a alegria que o visitava. Jesus permaneceu invisível, amparando-os com os seus fluidos magníficos. Nisto apareceu um mercador de bom coração. Vendo a mulher, disse-lhe, satisfeito:  
         
- Sabes? Meu filho faz hoje um ano!

Está ficando homem! Acho-me contente, contentíssimo. Deixa-me ver o teu. Que anjo! É tão bonito quanto o meu. Toma este dinheiro e este cabaz de frutas. Quero que festejes também o aniversário de meu filho. Pede a Deus por ele, assim como eu, neste instante, peço também a Deus que dê saúde a ti e a teu filho e que ele cresça forte para um brilhante futuro!

E seguiu seu caminho, alegre. Ela ficou tão comovida que nada pode dizer. Seus grandes e belos olhos, no entanto, afogaram-se em lágrimas. Era a resposta silenciosa da gratidão.

*

Jesus continuou sua rota. Encontrou, além, dois homens que altercavam por fútil razão. Alegava um que o lugar ocupado pelo outro lhe pertencia, pois chegara primeiro ao mercado. Respondia o segundo que ali estivera em outras ocasiões, adquirindo, pois, prioridade pelo local disputado. Estavam quase a atracar-se quando o Mestre interveio:

- Amigos: o mundo é tão grande e estais brigando por tão pequeno espaço; o tempo é tão curto e estais pondo fora preciosos momentos da existência. Porque não tentais resolver fraternalmente a questão? Vejamos: são iguais as mercadorias que vendeis?

- Não. Eu vendo frutas.

- E vós?

- Eu? Vitualhas... (alimentos)

- Então, porque se hostilizaram, quando, unidos, podeis formar ambiente mais favorável aos vossos negócios? A paciência facilita a compreensão, a ira a perturba.

Dizendo isto, Jesus se afastou.

Os dois homens se entreolharam com mais simpatia e compreenderam que havia cabimento no que dissera aquele homem, para eles desconhecido. Não tardou que trocassem ideias sobre a arrumação das respectivas mercadorias, cada qual mais solícito que o outro.

E assim foi Jesus disseminando a fraternidade, pregando o bem, desfazendo conflitos, restabelecendo a harmonia, insuflando a caridade no coração dos homens e perfumando com a gratidão dos favorecidos o espírito dos benfeitores sinceros.

*

Durante algumas horas pervagou o Mestre o velho marcado, até que viu um grupo de homens em torno de um cão morto, de cujo pescoço saía uma corda longa com a qual, certamente, o haviam arrastado. Era insuportável o mau cheiro daquele corpo já em decomposição.

- Isto está podre! Faz-nos mal-estar respirando este ar pestilento!  protestava um dos presentes.

- Que ideia estúpida, trazer para aqui um cão morto! Que nojo! O diabo que o leve!, atalhou outro.        

Não presta nem para botar fora! Está com o couro rasgado! - acrescentou um terceiro que farejava a possibilidade de aproveitar alguma coisa do inditoso animal.

- O melhor é queimá-lo. Deve ter sido um cão vadio e ladrão. Para ladrão, só fogo! - rematou outro.

Jesus, que ouvira tudo em silêncio, curvou-se sobre os restos do pobre cão e fez também seu comentário:

- Entretanto, que belos são os seus dentes! Mais brancos que as mais caras pérolas do Oriente!

Sua voz se tornara mais impressionante na profunda ternura de seu tom e o brilho de seu olhar invariavelmente meigo adquiriu indefinível doçura. Afastou-se mansamente, por entre olhar os de surpresa e respeito. Entretanto, suas palavras ecoaram no íntimo daqueles indivíduos e um deles ponderou, admirado:

- Quem será esse estranho? Tanta nobreza no porte, tanta simplicidade no gesto, tanta pureza no semblante ... Ninguém senão Jesus, o Nazareno, seria capaz de se compadecer até de um cão morto, de descobrir num animal putrefato alguma coisa digna de piedade e louvor... Garanto a vocês como é o Nazareno que ali vai!

Foi quando muitos reconheceram que, na verdade, era o Mestre excelso que ali estivera. Tentaram segui-lo, mas seu perfil inconfundível se diluiu à curta distância... Arrependidos e confusos, os homens arrastaram o cão para um terreno baldio e Já o enterraram sem maiores apreciações.

Assim, com sabedoria e humildade, Jesus deixara no mundo mais uma de suas prodigiosas lições de amor e tolerância, para a meditação das criaturas de boa-vontade. Seu exemplo foi uma reprovação à maledicência e um incentivo à caridade. Quisera demonstrar que sempre há alguma coisa de aproveitável no que nos parece ruim. Pode mesmo ser um quase nada de bondade, mas o suficiente para justificar um pensamento e uma palavra de simpatia.


domingo, 21 de maio de 2017

O que é a verdade?


Que é a Verdade? 
Alexandre Dias
Reformador (FEB) Dezembro 1938

Reuni em torno de vós um bando de crianças e, traçando a imagem de Deus segundo vários credos, vereis que poder de penetração possui a inocência para descobrir a verdade.

Jesus, o maior dos psicólogos, assinalou essa faculdade, quando disse: “Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o reino do Céu”.

De fato, só a inocência poderá distinguir, pelos atos de justiça, o verdadeiro juiz.

Tentai, portanto, a experiência, propondo à meninada o seguinte teste:

Na religião A (oculta-se sempre o nome do credo religioso), Deus constrói uma alma nova para cada criança que nasce. Às vezes, porque a obra saiu mal acabada, a Criança vem ao mundo cega, disforme ou até idiota. Mas, quando mesmo chegue perfeita no corpo, com o correr dos tempos, crescendo, acontece, muita vez, que ela se torna moralmente defeituosa. Dá para assassino, ladrão, desonra pai e mãe, enfim comete crimes horrorosos.

Que faz então o Deus da religião A, quando essa criatura morre e tem que lhe prestar contas de suas ações?

Procede de dois modos:

1º.- Se ela, antes de morrer, confessou os seus crimes a certas pessoas na terra, que são os representantes desse Deus, e se mostrou arrependida do mal praticado, esses representantes concedem-lhe o perdão e Deus, em segundo lugar, confirma a sentença. Não tem mesmo autoridade para discordar das decisões dos seus representantes. Absolvida, por mais monstruosos que sejam os seus crimes, a alma, ali apertada, vai morar eternamente; de mistura com os bons, com os que só fizeram o bem, num lugar onde não se trabalha, não se sofre, onde tudo são delícias e só se ouvem músicas sacras e se respira o aroma do incenso por todos os lados. Esse lugar é o céu. Deus ali sentado num trono de ouro e pedrarias, em meio a uma corte de anjos e serafins, que o embalam com os cânticos de louvor, enquanto os multimilhões de almas Já existentes se conservam de joelhos numa adoração perpétua a esse rei, que vem descansando desde o sétimo dia da criação do mundo. Salvo o trabalho, que não transfere a outrem, de modelar almas para os recém nascidos da terra.

2º - Dando-se, porém, o caso da criatura, que morre em pecado, não levar consigo a prova de absolvição, as portas do céu não lhe serão abertas e ela, atirada a uma região que se chama inferno, sofrerá por toda eternidade, sem repouso de um só instante, a tremenda tortura do fogo que lhe queima as carnes do espírito, para alegria e divertimento de um sujeito feroz chamado Satanás - soberano daqueles domínios.

Apresentemos, em seguida, à criançada, outra imagem de Deus na conformidade da religião B.

Então lhe faremos notar que, de acordo com esse credo, também é ainda Deus que faz uma alma nova para cada um de nós. Possui essa religião, igualmente, representantes de Deus na terra, não com poderes discricionários como os da religião A. É-lhes vedado Intervir na concessão do perdão aos faltosos e tudo quanto fazem consiste em exigir dos crentes estrita observância às recomendações baixadas de Deus, contidas em livros que se chamam Escrituras Sagradas. Acontecendo, porém, que tais recomendações nem sempre são muito fáceis de entender, os representantes do Deus da religião B as interpretam para os confrades menos esclarecidos. O céu, como prêmio e o inferno como castigo, é tudo o que espera aqueles que deixarem este mundo. Se seguirem à risca todas as prescrições, isto é, se foram criaturas que deixaram na terra a impecável tradição de um Jesus Cristo, o céu lhes será assegurado. Ao contrário, se infringiram as leis divinas, por menor que seja essa infração, por mais leve que se considere a falta, não têm outro destino a tomar que não seja o caminho do inferno.

Será bom elucidar que, ao menos, a religião A foi mais inteligente, criando uma parada intermediaria entre o céu e o inferno, a que chamou de purgatório, para ali estagiarem as almas carregadas de pequenos pecados, que ainda podem passar ao reino do céu, assim, daqui de baixo, intervenham em seu favor os representantes de Deus, fornecendo-lhes os bilhetes de ingresso, apelidados
“missas”.

Finalmente, esbocemos a figura de Deus conforme um terceiro credo, que denominaremos C.
´´
Aí já não é Deus quem esculpe uma alma nova para cada corpo, mas, pelas leis naturais que ele decretou, da transformação constante da matéria, essa alma surge, como se fosse ainda uma centelha, da passagem do mineral ao vegetal, deste transmigra para o animal na forma mais rudimentar, até atingir a espécie humana, terá atravessado todas as escalas dos três reinos da Natureza, formando um reservatório de conhecimentos que irão do chamado instinto à mais lúcida inteligência.

No mineral, se a manifestação de vida, ou, o que o mesmo quer dizer - a alma, é ainda um tênue fluido magnético que, como acontece com os cristais, dá apenas para reconstituir a sua primitiva forma geométrica quando venha a esfacelar-se uma de suas facetas, já no vegetal revela um lampejo de inteligência, pugnando pela propagação da espécie. É assim que se vê a piteira, por exemplo. nascer de preferência nos cômoros de um terreno para que daí possam rolar as suas sementes em forma de bulbos, fugindo à sombra materna, que não as deixaria germinar.

Em relação aos animais, mesmo aqueles que se possam considerar inferioríssimos na escala zoológica, essa revelação de inteligência é patente, chegando por vezes a causar pasmo. A organização social da vida das formigas e das abelhas é um exemplo edificante, que bem poderia servir de modelo à desorganização da humanidade.

Nascer, morrer e renascer é o trabalho contínuo a que está sujeito o espírito, passando por todas essas transições, desde o minério até o homem e, daí por diante, desde o tipo boçal ao gênio. Não importa saber quantos milhares de anos foram precisos para tomar as feições humanas, o tempo que demorou na raça indígena e na preta, até chegar à branca, e nem as várias nacionalidades que adotou na sua trajetória; mas o que se não deve ignorar é que foi a custa do seu próprio esforço que o espírito formou uma consciência capaz de distinguir o bem do mal, a justiça da iniquidade. Desse modo torna-se responsável pelos seus atos, e, como o bem atrai o bem e o mal chama o mal, cedo ou tarde, terá ele a recompensa ou a punição devida. Céu e inferno para o credo C não são lugares, não são pontos finais em que vai esbarrar o espírito para estacionar preguiçosamente ou derreter-se ao calor de fogueiras; mas são, apenas, estados de consciência. O espírito se sentirá feliz, felicíssimo, mesmo, e achará o céu dentro de si, quando se veja despojado de todas as imperfeições; ao contrário, o inferno reinará no seu íntimo, enquanto se lembrar de que ainda não resgatou a menor maldade com que partiu deste para o outro mundo. Mas, como lhe é permitido, pela religião C, baixar à terra tantas vezes quantas forem necessárias para o seu completo aperfeiçoamento, um dia, afinal, ele conseguirá a iluminação do céu dentro da sua consciência.

Das escrituras sagradas, Que são o código comum a essas três religiões, posto que divirja, de uma para outra, a interpretação dos seus textos, o credo C tem por princípio básico a sentença: “Não faças a outrem o que não desejas que fizessem a ti; e, por cominação de pena, no caso de transgressão - Quem com ferro fere com ferro será ferido. Um sintônico automatismo liga a falta à punição, seguindo-se uma imediatamente a outra, como o efeito sucede à causa.

Convencidos, portanto, os crentes da religião C de que nenhuma interferência estranha os livrará da penalidade, e que só a eles compete evitar as reações punitivas de suas ações maléficas, o instinto de defesa, quando não seja já a boa índole e o caráter superior, terá que elevar, cada vez mais, o nível de sua mentalidade. Orgulho, ódio, vingança e egoísmo serão varridos do seu coração e, desse modo, amando aos semelhantes como a si mesmos, já não haverá questões de raças que os separem, nem antagonismos de pátrias capazes de incita-los ao morticínio, quando eles sabem que já pertenceram e devem sua evolução a todas as raças e a cada uma dessas pátrias. Enfim, o sentimento da fraternidade universal - objetivo máximo do ser humano - está conseguido e o espírito passará a outro planeta mais adiantado. Daí, em escala sempre ascensional, de planeta em planeta, enriquecendo, cada vez mais, a sua inteligência e aprimorando o seu moral, ele será um infatigável colaborador da obra de Deus.

A pequenada, neste ponto do vosso teste, estará pensando que tantos são os deuses quantas as religiões existentes. Será preciso explicar-lhes que o Deus de qualquer dessas três religiões tomadas para exemplo (e foram essas as preferidas por constituírem os seus postulados as confissões predominantes no nosso pais), ... dizíamos será preciso esclarecer a dúvida da pequenada, fazendo notar que esse Deus é um único e o mesmo, tanto para a religião A como para a religião
B, como para a religião C. Ele é definido por todas com idênticos atributos: possui bondade maior do que o mais bondoso dos pais; reúne sabedoria tão grande, que todo o saber dos nossos sábios juntos, em cotejo com a d'Ele, pode ser comparado à figura de um estudantezinho que ainda pão passou da cartilha.

Essa bondade que, por não ter limite, se chamou de “infinita”, e essa sabedoria que, pela sua amplitude, se nomeia “onisciências”, bradarão à alma ingênua das crianças e elas, isentas das paixões que desnorteiam os homens, desconhecendo ainda preconceitos que fazem dissimular as nossas convicções mais sinceras, sem hesitar, espontaneamente, desassombradamente, identificarão o verdadeiro Deus.


Tentai, pois, a experiência e vos surpreendereis que, ao inverso da dificuldade do um reservatório de conhecimentos que irão do chamado instinto à mais lúcida inteligência com que lidam tantos cérebros adultos de raciocínio já formado para atingir a concepção de Deus, a criança vai logo direita ao fim, confirmando a sentença: “Ex ore parvulorum veritas”, ou, traduzindo para os nossos leitores esquecidos do latinório: “ A verdade sai da boca das crianças”.

Da Esperança à certeza da Imortalidade



Da Esperança  à certeza da Imortalidade 
por Kleber Harfeld

Reformador (FEB) Julho 1994


            - Corresponderia semelhante afirmativa a realidade por parte do eminente fisiologista?

            João Teixeira de Paula, em sua obra "Enciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo", escreve ser atualmente Metapsíquica (recorde-se que Richet escreveu um tratado sobre essa matéria) termo que

            "muitos autores condenam, já por não corresponder à verdade etimológica, já
mesmo por não corresponder der à ideia que lhe quis dar o criador. Aliás o próprio Richet, ou por considerar melhor o assunto, ou por acatar a crítica dos entendidos, reconheceu, muito mais tarde (o que poucos leitores hão percebido), não ser absolutamente correta a palavra
".

            Entretanto, ao mar o termo, baseara-se ele em Aristóteles, pois escreveu:

            "Em 1905 propus o termo metapsíquica, que foi unanimemente aceito. Tem ele por si (o que não é para desprezar) a autoridade de Aristóteles. Tendo tratado Aristóteles das forças física, quis escrever em seguida um capítulo acerca das grandes leis da natureza, as quais ultrapassam as as coisas da física e chamou então o livro: Além das coisas física (Meta ta fisick).  

            Atentos às definições levantadas por Richet à Metapsíquica, podemos imaginar hoje que ao criá-la, definindo-a de acordo com seu entendimento e escorado no grande sábio da Antiguidade, terá suscitado à época um questionamento:

            - O que seriam em realidade as "forças que parece serem inteligentes (...) ou poderes desconhecidos latentes na inteligência humana", forças e poderes que influíam em variados fenômenos? (Logicamente deveriam divergir as opiniões, sobretudo se considerarmos nesse tempo a existência do Espiritismo como doutrina codificada.)

            É verdade, não deixou Richet de referir-se ao Espiritismo. Em seu trabalho "O sexto sentido" (já mencionado) no livro IV, dissertando a respeito das hipóteses da telepatia, da vibração da realidade, da criptestesia pragmática, da hiperestesia, entra ele na área espírita, embora sempre aduzindo algumas ressalvas:

            "( ... ) Assim, pois, para nós prolongar esta discussão, poderíamos classificar os fatos da maneira seguinte, sob o ponto de vista da hipótese espírita:

            1º)  Casos nos quais tanto pode admitir a hipótese espírita como a hipótese de uma vibração da realidade. Todas as alucinações e sonhos verídicos fazem parte desse grupo. Demais a hipótese do sexto sentido não está absolutamente em desacordo com a hipótese espírita.

            2º)  Casos - pouco numerosos - nos quais a hipótese espírita é a mais cômoda, mas também podem ser explicados pelo sexto sentido.

            3º)  Casos numerosíssimos, os mais numerosos certamente, nos quais nenhuma hipótese espírita pode ser seriamente invocada, não comportando outra explicação senão a da existência  de um sexto sentido, isto é, a percepção de certas vibrações (desconhecidas) da realidade.

            Eis por que me parece não dar fé a hipótese espírita. Talvez chegue a tê-la algum dia (quem sabe?). Mas ela me parece ainda (pelo menos hoje) pouco provável, pois está em contradição (pelo menos aparente) com os dados mais precisos da fisiologia, enquanto que a hipótese do sexto sentido é uma noção fisiológica nova que não contradiz nada do que a fisiologia nos ensina.

            Portanto, conquanto em certos casos raros, o Espiritismo forneça uma explicação de aparência mais simples, não posso resolver-me a admiti-lo." (...)

            (Ressaltemos aqui a sincera franqueza do grande fisiologista.)

            O último parágrafo da obra "O sexto sentido" é bem curioso, deixando em nosso íntimo um mundo de divagações. Escreve Richet, incriminando um trabalho que levantou acirradas polêmicas:

            "Parece-me que o sexto sentido é uma pequena (extremamente pequena) janela aberta para essas forças misteriosas."

            Toda a inteligência desse sincero trabalhador, desse famoso fisiologista, todas as facilidades que teve no desempenho de suas atividades são ressaltadas por Humberto de Campos em sua obra "Crônicas de Além-Túmulo".

            Consoante observação que os próprios leitores já terão feito, tenho recorrido a esse fecundo autor espiritual quando da elaboração de trabalhos pertinentes a alguns vultos de projeção mundial. Assim aconteceu com estudos alusivos a D. Pedro II, Papa Pio XI, Marilyn Monroe, Tiradentes, Hauptmann, Erich von Ludendorff, e outros.

            Na apreciação, embora rápida, sobre a vida e obra do criador da Metapsíquica, e em particular com referência à sua passagem para o Plano Espiritual, usa o cronista de construções bem elucidativas (1).

(1) “Crônicas de Além Túmulo”, Capítulo ‘A passagem de Richet’, pelo médium Francisco Cândido Xavier, 11ª Ed. FEB

            Um diálogo estabelecido entre o "Senhor que toma lugar no tribunal de sua justiça" e um Anjo solicito às perquirições que lhe são dirigidas, e após menção feita àqueles que nos meados do século XIX partiram do Espaço prometendo trabalhar no plano terrestre no sentido de levantar o moral dos homens e suavizar-lhes as lutas. e depois de se referir a Charles Richet que era no Além "um inquieto investigador, com as suas análises incessantes, e que se comprometeu a servir aos ideais da Imortalidade adquirindo a fé que sempre lhe faltou", disserta o Anjo sobre as incontáveis facilidades concedidas ao detentor do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1913.

            Finda a sua palavra, é inquirido:

            - E em matéria de espiritualidade (...), que lhe deram os meus emissários e de que forma retribuiu o seu espírito a essas dádivas?

            Escreve o Espírito Humberto de Campos:

            "-Nesse particular - exclamou solícito o Anjo, muito lhe foi dado. (...) Em Carqueiranne, em Milão e na ilha Roubaud, muitas claridades o bafejaram junto de Eusápia Paladino, quando seu gênio se entregava a observações positivas com os seus colegas Lodge, Myers e Sidgwick. De outras vezes, com Delanne, analisou as célebres experiências de Argel, que revolucionaram os ambientes intelectuais e materialistas da França, que então representava o cérebro da civilização ocidental.
            "Todos os portadores das vossas graças levaram as sementes da Verdade à sua poderosa organização psíquica, apelando para o seu coração, a fim de que ele afirmasse as realidades da sobrevivência; povoaram-lhe as noites de severas meditações, com as imagens maravilhosas das vossas verdades, porém, apenas conseguiram que ele descrevesse o ''Tratado de Metapsíquica" e um estudo proveitoso, a favor da concórdia humana, que lhe valeu o Prêmio Nobel (...), em 1913, (...)
            "(...) Dentro da espiritualidade, todos os seus trabalhos de Investigador se caracterizam pela dúvida que lhe martiriza a personalidade. Nunca pode, Senhor, encarar as verdades imortalistas senão como hipótese, mas o seu coração é generoso e sincero. Ultimamente, nas reflexões da velhice, o grande lutador se vejo inclinado para a fé, até hoje inacessível ao seu entendimento de estudioso. Os vossos mensageiros  conseguiram lapidar-lhe um trabalho profundo, que apareceu no Planeta como "A Grande Esperança" e, nestes últimos dias, sua formosa inteligência realizou para o mundo uma mensagem entusiástica em prol dos estudos espiritualistas.”

            Retorna a palavra ao Senhor, resolvendo este determinar ao Anjo a volta imediata de de Richet à Espiritual idade, justificando: "Se, após oitenta e cinco anos de existência na face da Terra, ele (Richet) não pode adquirir, com a sua ciência, a certeza da Imortalidade, é desnecessária a continuação da sua estada nesse mundo ." (Grifamos.)

            As palavras realmente são duras, embora plenas de realidade. Mas o Senhor promete a bênção de uma glória ao velho pesquisador:

            "Como recompensa aos seus esforços honestos em benefício dos irmãos em humanidade, quero dar-lhe agora, com o poder do meu amor, a centelha divina da crença, que a ciência planetária jamais lhe concedeu, nos seus labores ingratos e frios. "

            O retorno do eminente homem de ciência ao Plano Espiritual, cercado das presenças de Gabriel Delanne, Léon Denis, Camille Flammarion, e ainda de antigos colaboradores da "Revista dos Dois Mundos" e dos "Anais das Ciências Psíquicas " é deveras emocionante.

            Relata Humberto de Campos que o recém desencarnado, de início, tem impressão de estar regredindo no tempo, alcançando a época das materializações da Vila Cármen. Mas, ao mesmo tempo percebendo os próprios despojos, desperta para a grande realidade, sentindo claramente estar agora no Além, no mundo dos "verdadeiros v i vos".

            Continua o autor escrevendo que nesse momento urna voz suave e profunda, vinda do Infinito, ressoa no íntimo de Richet. Interpela da razão pela qual não afirmou ele a imortalidade para o mundo que acompanhava seu trabalho; fala das oportunidades materiais que lhe haviam sido outorgadas: considera, finalmente, da longa expectativa do mundo espiritual, esperançoso de que a fé pudesse emergir de seu coração. Entretanto, em contrapartida, recordando o esforço dele, Richet, e a sinceridade de seu coração em todos os dias de sua existência terrestre, na decifração de muitos enigmas dolorosos e ainda as torturas da morte que experimentara, embora o grande acervo de conhecimento haurido nos livros, considera em tom confortador:

            - E agora, premiando os teus labores eu te concedo os tesouros da fé que te faltou, na dolorosa estrada do mundo!

            E falando sobre um coração tocado de luminosidade infinita e misericordiosa, que as ciências nunca lhe haviam dado, termina o escritor espiritual escrevendo:


            "Formas luminosas e aéreas arrebatem-no pela estrada de éter da eternidade e, entre prantos de gratidão e de alegria, o apóstolo da ciência caminhou da grande esperança para a certeza divina da Imortalidade." (Grifamos.)