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sábado, 15 de junho de 2019

Mediunidade latente



Mediunidade Latente
Demetri Abrão Nami
Reformador (FEB) Agosto 1961

            Causa-nos pena ver certas criaturas, dotadas de apreciável vitalidade, a par de uma mediunidade incipiente que, por ignorância, preconceito religioso ou má vontade, se descuram de exercitar, decorrendo, para elas, em consequência, sérios prejuízos de ordem moral e física, além de privar muita gente necessitada de seus benefícios.

            Geralmente, essas criaturas padecem de inquietações, provenientes da própria mediunidade desprezada ou ignorada, São impacientes, irritadiças e de difícil trato. Vivem a se queixarem de enfermidades que, as mais das vezes, só existem nos próprios Espíritos ignorantes ou maus que as envolvem e lhes incutem tais pensamentos enfermiços.

            Em nossas reuniões mediúnicas, tivemos oportunidade de libertar algumas criaturas de supostas enfermidades, depois da doutrinação dos Espíritos que as afligiam. E subsequente desenvolvimento de suas faculdades medi únicas, juntamente com o estudo metódico das obras kardequianas, fortaleceu lhes o bem-estar geral.

            A causa das perturbações a que acima aludimos, por parte dessas criaturas, prende-se ao fato de elas não movimentarem grande soma de fluidos de que são possuidoras, em direção ao Bem. Assim, esses fluidos, estagnados por falta de dispersão, no sentido de aliviar, confortar, ensinar e curar os que sofrem, que é a sua finalidade precípua, congestionam o sistema nervoso de seus detentores, propiciando o avizinhamento de Espíritos infelizes que os arrastam, assim, à perturbação. Muita vez, essas criaturas são levadas, ainda, a se chafurdarem no lodaçal dos vícios ou à criminalidade, e, não raro, à demência, quando são enleadas por entidades espirituais perversas e pertinazes.

*

            A mediunidade é um dom que Deus concedeu às suas criaturas, a fim de se reabilitarem, através de sua prática honesta e desinteressada, de seus erros de passadas existências, concorrendo, ainda, para a elevação espiritual de seus semelhantes. Ninguém a conspurca ou a relega, impunemente. Segundo a Doutrina Espírita, os seus portadores responderão pelo uso que dela fizerem.

            Por isso, quando defrontarmos com indivíduos desavisados, com indícios de mediunidade, não titubeemos em esclarecê-los quanto à necessidade de seu desenvolvimento, e encaminhá-los para uma sociedade espírita idônea, onde possam receber toda a assistência de que carecem.

            Assim procedendo, estaremos contribuindo - e disso temos muitos exemplos - para que essas criaturas não venham a ser vítimas de quedas morais em virtude de alguma obsessão, ou vítimas da loucura, da qual o Espiritismo é o imunizador por excelência.


O Corpo de Jesus


O Corpo de Jesus
Ramiro Gama
Reformador (FEB) Fevereiro 1971

            Há certos assuntos a que chamamos chaves, subestimados entretanto por alguns confrades, que neles veem assuntos-problemas 
e que não devem ser dilucidados.

            E que, geralmente, leem e absorvem esses assuntos, no dizer do venerando Doutor Bezerra de Menezes, com espírito de sistema, isto é, 
de olhos fechados às verdades neles expostas e opulentadas.

            Referimo-nos ao corpo de Jesus, 
que aceitamos como sendo fluídico, 
logo assim penetramos o Espiritismo; 
e isto espontaneamente, 
sem haver lido, até aí, nada a respeito.

            Acontece que fomos eleito Presidente do Grupo Espírita Fé e 
Esperança, de Três Rios, no Estado do Rio, no ano de 1932, 
quando residíamos naquela cidade fluminense.

            E começamos a conviver, intimamente, 
com os companheiros de Diretoria do Grupo, 
muitos dos quais nos procuraram experimentar os conhecimentos
 com relação ao Espiritismo e saber se estávamos mesmo à altura do cargo.

            Um deles, o 1.° Secretário, José Magno da Silva, 
professor de Matemática, 
era o mais versado nos assuntos da Terceira Revelação. 
De uma feita, assistimos à palestra sua sobre a 
Virgindade de Maria Santíssima e 
achamos que dissertou com acerto e mestria sobre o delicado tema.

            E foi ele, justamente, o escalado para nos arguir.

            Logo de início, perguntou-nos:

            - Que acha o confrade do Corpo Fluídico do Cristo?

            Ficamos alguns instantes surpreso, 
pois não esperávamos tal pergunta. 
E, talvez, por intuição ou inspiração caridosa do Alto, 
respondemos assim.:

            Somos a favor. 
Sem que tenhamos lido ainda algo a respeito, 
acreditamos no corpo fluido de Jesus. 
Achamos que Ele não tivera um corpo igual ao nosso. 
Foi, em verdade, pura e claramente, um agênere.

            E concluímos:

            - Entretanto, lendo os Evangelhos, 
recordamos uma afirmativa de Jesus, 
que tudo nos fala de seu corpo: 
"dos nascidos de mulher, João Batista é o maior". 
Para nós isso é o bastante. 
Não precisamos de nenhuma outra documentação 
para vitoriar o asserto do Divino Mestre.

            O querido confrade, hoje na Espiritualidade, 
deu-se por satisfeito: Também para ele isso bastava.

            Recebemos, depois, de Manoel Quintão
seu precioso "O Cristo de Deus", 
em que ele esgota o assunto, 
com citações autorizadas, 
calcadas todas na lógica e na razão,
 transcrevendo e apreciando várias passagens evangélicas 
e vitoriando, assim, o magno problema. 
Depois fomos obsequiados com
 "Jesus nem Deus, nem Homem", 
de Guillon Ribeiro, que também focou e 
ressaltou a verdade toda inteira do corpo de Jesus, 
sempre com aquela superioridade de espírito e
 inspiração costumeira de seus valiosos Guias, 
dando-nos exemplos vários com relação à incorporeidade 
do Amigo Celeste e à luz da terceira explosão 
da bondade de Deus, 
que é o Espiritismo.

            Lemos ainda "Elos Doutrinários", 
de Ismael Gomes Braga
"A Vida de Jesus", de Antônio Lima
os livros eruditos de Leopoldo Cirne, Sayão 
e outros queridos seareiros, 
habituados todos a ler e compreender o 
Espiritismo Consolador sem o espírito de sistema e
 com olhos de ver, 
coração de pensar e inteligência de amar. 
Portadores que eram e são 
do AMOR que SABE e do SABER que AMA.

            E começamos, desde daí, a ver em Jesus um Ser à parte, 
um Espírito imaculado, tão grande e tão lindo, 
que jamais seremos capaz, nesta vida, 
de Lhe traduzir o valor, 
a culminância espiritual, tão longe nos consideramos 
d’Ele e tão endividados, ainda, diante dEle...

            E, por não considerarmos de pouca valia o seu corpo, 
mas chave para traduzir,
embora palidamente, a Sua gênese, 
é que O vemos com respeito e coração ajoelhado.
Quando, durante o Culto no Lar feito por nós há 42 anos, 
abrimos Seu Livro, o Livro
da nossa redenção, 
"O Evangelho segundo o Espiritismo", 
buscamos n’Ele e com Ele o clima da Luz Acima, 
da defesa espiritual, 
da legítima vitória,
 no exemplo da humildade, 
a prol da nossa tarefa de trabalhadores da última hora!

.....................................


Do Blog: 5 livros e um só tema.

Cabe lê-los para formar sua opinião a respeito.
Por qual vamos começar?


'Jesus - Nem Deus nem Homem' (FEB) - Guillon Ribeiro
'Elos Doutrinários' (FEB) - Ismael Gomes Braga
'O Cristo de Deus' (FEB) - por Manoel Quintão
'Elucidações Evangélicas' - (FEB) - Antônio Luiz Sayão
'Vida de Jesus' (FEB) - Antônio Lima



                           




quinta-feira, 13 de junho de 2019

Do Espiritismo



“O fim do Espiritismo é tornar melhores os que o compreendem.” 
– Allan Kardec, Revue Spirite - 1863, pág. 343.

Do Espiritismo



“O lado mais belo do Espiritismo é o lado moral. É por suas consequências morais que ele triunfará, porquanto aí está a sua força. Por esse lado que é Invulnerável.”- A. Kardec, Revue Spirite, 1865. Pág. 12.

A família de Jesus




A família de Jesus
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Abril 1925

Discursando Jesus à multidão eis que se aproximam sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe, E disse-lhe alguém: Estão aí fora, tua mãe e teus irmãos querendo falar-te. E o mestre respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Em seguida, estendendo a mão para seus discípulos, acrescentou: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está no céu, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Evangelho)

Eloquentíssima lição. Os laços que verdadeiramente ligam os seres entre si, na constituição da família, não são os da carne, nem do sangue, mas sim os do Espírito.  

Os laços da carne e do sangue são contingências da vida terrena: afrouxam com o atrito das paixões, rompem-se no momento da morte. Não podem, por sua natureza, irmanar e confundir os corações, fazendo da coletividade uma unidade. Só os laços do Espírito logram tal resultado.

A prova desse fato está nas desinteligências que se verificam comumente no seio das famílias cujos membros se acham ligados somente pelos frágeis e tênues vínculos da carne e do sangue.

Há irmãos - filhos do mesmo pai e da mesma mãe - que mutuamente se repelem e até se hostilizam. Há cônjuges que se acham radicalmente divorciados, aparentando vida conjugal apenas para salvar as exterioridades.

Na organização da família, como na organização da pátria, só s de ordem moral podem estabelecer aquela coesão indispensável que dá a tais organizações solidez, vitalidade e permanência.

É no equilíbrio de aspirações comuns que se funda a base da família. Onde as almas não vibram no mesmo diapasão, onde os ideais não conjugam, obedecendo a afinidade que se atraem, poderá haver conúbios híbridos, mais ou menos duradouros, jamais haverá família, nem pátria.

Escusado é dizer que os ideais que deveras congraçam são os puros e nobres, escoimados de rasteiros interesses. O egoísmo é dispersivo. Só o amor, perfeitamente compreendido, gera vínculos indissolúveis.
           
Daí o dizer de Jesus: “Aqueles que fazem a vontade de meu Pai, esses são os meus irmãos, irmãs e mãe.”

Fazer a vontade de Deus é agir segundo a suprema lei do AMOR, fora da qual tudo é efêmero, fugaz e insustentável.

Há leis que regem o bem, mas não existe nenhuma para reger o mal. Este, como efeito da ignorância humana, vai se dissipando a medida que a luz se vai fazendo nos cérebros e nos corações.

Nada pode ser estável no mal. Quanto mais fora da lei mais perto da dissolução.  Quanto mais dentro da lei, mais perto da consolidação.

Entre Jesus e Deus há íntima e perfeita comunhão.

“Eu e o Pai somos um." Semelhante ideal que visa tão completa identificação, confundindo as individualidades numa unidade, representa o alvo supremo do Cristianismo, como se infere desta sentença da oração sacerdotal do divino Mestre: “Pai, quero que todos (seus discípulos de então e de todos os tempos) sejam um em mim comigo como eu já sou um contigo. Eu nele e Tu em mim para que, desse modo, todos se aperfeiçoem na unidade.”

A verdade unifica. O erro dispersa. Se os homens conhecessem e procurassem obedecer à lei da organização da família, evitariam inúmeros dissabores e dolorosos sofrimentos. Infelizmente, porém, quando tratam de o fazer, cuidam de tudo, menos dos fatores de natureza espiritual.

Casam-se corpos, não se casam almas. Previnam-se os interesses temporais, menosprezando-se por completo os interesses espirituais.

Consequência: o lar, em vez de ser o doce remanso da paz, onde se retemperam as forças, é pandemônio, onde se querela, noite e dia, ou, então, é masmorra, onde todos vegetam e ninguém vive com alegria, de viver.

O lar, organizado sob a égide sagrada da lei, há de ser a verdadeira igreja do
Cristo, conforme a promessa: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei Eu no meio deles.

Cada chefe de família, assim constituída, será o sacerdote desse templo augusto. A esposa e mãe - cônscia dos seus deveres - será o anjo que protege esse ninho abençoado, abrindo sobre ele suas brancas asas, a fim de abriga-lo das intempéries do mal. Os filhos serão discípulos que, em tal meio, se exercitarão na aprendizagem da virtude, no cumprimento do dever, na disciplina e santa do trabalho e da mútua dedicação.   

Tal é a família, como a quer Jesus, e da qual ele se considera membro.


É assim a vida...



É assim a vida (conto premonitório)
por João Fontoura
Reformador (FEB) Novembro 1923

-Mamãe, porque estás triste? É saudade de papai..., Ele disse que voltava breve e há tanto tempo que está fora!..

Não, meu filho, não estou triste; estava pensando em ti...

- Eu estou contigo, mamãe, não precisais pensar em mim; em papai, sim, que está longe...

A luz do sol atravessando a folhagem do caramanchão tornava a poeira em es-
trias de oiro. Uma abelha fulva passa zunindo, enreda-se numa teia de aranha, o araquinídio apanha-a e o himnóptero estremece, imobiliza-se, morre.

É assim a vida: um momento de alegria, contrabalançado por outro de tristeza. A pedra rola de leito em leito, levada pelas águas cantantes, mas, um dia, encontra um olho de rocha, onde cai para não mais sair; as árvores enfeitam-se na primavera, mas, depois, vem o vento, vem o frio, vem a geada e elas se despem, a folhagem verde vai-se, seus galhos ficam nuas; as águas do arroio fazem rumor quando chove muito para as cabeceiras, depois, tudo é silêncio e no espelho da linfa miram-se as nuvens que passam e os galhos lânguidos do salso e do chorão.  

Um jasmim cai. A criança apanha-o:

-Tom mamãe, como é cheiroso!..

- Hoje de madrugada, quando ainda dormias, meu filho, essa flor tinha mais
perfume, agora, quase não tem...

................................................................

Andorinhas voam chilreando:

- Mamãe, porque é que os pássaros voam e nós não podemos voar?

-Se eu pudesse voar, era tão bom! Iria onde está o papai...

Uma garça, muito branca, passa, asas pandas, cortando serenamente o espaço:
-Olha, mamãe, que linda garça...

Sonhei, esta noite, que um anjo me tinha vindo buscar... e eu...

- Meu filho, deves ter fome, vamos para dentro, vamos jantar, sim?

Em redor da luz da vela volitam mariposas:

- Quanta mariposa, mamãe!.. oh! que pena, morreu uma queimada, pobrezinha!...

- Deixa as mariposas, meu filho, come, antes que a comida esfrie...

- Mamãe! vou apagar a vela para os bichinhos não morrerem.

- Não, meu filho, queres então que fiquemos no escuro?
           
            - -Mamãe, quero dormir, estou com frio.

- Estás com frio?.. Estás com febre... vem... vem deitar-te.
           
- No dia seguinte, pela madrugada, chegava o pai e a criança morria ...

É assim a vida: quando ele veio, tanta alegria... , foi-se, tanta tristeza, tanta saudade!

É assim a vida.

Psicografia

Pedro Richard


Psicografia
Pedro Richard
Reformador  (FEB) Novembro 1923
                             
Ainda a luta da treva contra a Luz

“Meus caríssimos companheiros. Que a paz do Manso Cordeiro e Deus, que tira os pecados do mundo presida ao vosso estudo são os meus votos.

A luta acérrima de que vos vimos falando está cada vez mais oprimindo as consciências de todos os lavradores da seara. E sabeis por quê? É porque sois homens, viveis num mundo onde tudo é treva e nem sempre alçais a vista acima de vós a procura do olhar dos vossos guias amorosos. Aquele que está em contato com o seu mentor espiritual sabe calar as próprias paixões, para atender aos conselhos do amigo vigilante que a misericórdia do Senhor lhe deu para auxiliá-lo no caminho da cruz.

Meus caros, a época deve ser para os espíritas de oração e vigilância constantes se não quiserem servir de instrumentos uns contra os outros, em detrimento da causa que devem defender e na qual precisa permanecer, custe o que custar, para poderem progredir.

Abri os ouvidos às vozes que vos falam do bom combate e abri os olhos para não enveredardes por caminho errado, que vos levaríeis às mais tristes contingências. A vossa força está na união, o vosso arrimo deve ser a humildade, para poderdes receber a palavra dos grandes.

Considerai-vos sempre que vos puserdes considerados grandes pelo único que pode julgar com acerto espíritos e homens.

As hostes contrárias trabalham, sabeis, pois que sentis a sua ação, porém o seu maior esforço é despendido nas trevas e dela só chegareis a conhecer os terríveis efeitos quando sofrerdes as suas consequências. Isto, porém, só se dará se os vossos ouvidos permanecerem surdos aos nossos conselhos e advertências.

Trabalhai confiantes na nossa assistência, que é real, como tendes constantemente a prova; trabalhai com maior cuidado os vossos sentimentos, porque aí é que está o perigo maior para vós, não para causa.

Estuda a vossa página do Evangelho e ao terminares elevai os vossos rogos à Virgem suplicando o seu amor para aquele que nos serve de instrumento.”

Deus vos abençoe,
RICHARD (Espírito de Pedro Richard)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Mundo desconhecido



O mundo desconhecido

Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Abril 1925

Os fatos supranormais se vão impondo. Atualmente, à atenção do estudioso. É debalde que uns se fazem indiferentes e outros irritados. As coisas extraordinárias se vão manifestando progressivamente e sucessivamente desnorteando quem as procura interpretar fora do Espiritismo. As soluções explicativas que se apresentam são quase tantas quanto os seus autores. Poucas vezes tem sido tão certo o ditado:  Cada cabeça, cada sentença.

Os casos de curas, quais as que se referem como operadas por intermédio do Sr.
Mozart, do Sr. Hickson e outros instrumentos dos Espíritos pela complexidade com que se mostram, entram na categoria dos que embaraçam os observadores.

Não obstante, há muitos que pensam, como o Sr. Medeiros e Albuquerque, que
é vergonhosa a atitude dos que exploram tais curas, que não passam de casos banais de sugestão.

Ora, uma coisa é apreciar o fato de perto e outra comenta-lo de longe.

Com os predicados do taumaturgo brasileiro têm havido e há muitas criaturas por quem o mundo científico já se interessa. O neurologista francês, Dr. Eugene Osty, que se vem dedicando, há longos anos, ao estudo da fenomenologia paranormal, apresenta vários exemplos, mais ou menos idênticos ao de Mozart e essa atitude não pareceu vergonhosa a ninguém.

Também se não desdourou o Prof. Richet de falar das curas miraculosas que
poderiam ser introduzidas na ciência metapsíquica. É assim que diz: “peutêtre y aurait-il lieu d’introduire dans la Science métapsychique quelques unes de ces guérisons miraculeuses e authentiques.”

O Dr. Karl Happich, de Darmstadt, neurologista, fala da mediunidade de certo cavaleiro leigo em medicina que curava e fazia diagnósticos.  Chegou a publicar isso e não se enrubesceu.

            Mas, se estas curas existem, se se lhes pode chamar miraculosas, se a elas se acham ligadas outras faculdades que “touchent à la méthapsychique”, como dIjz Richet, não é de causar pejo deixar-se aqui de ver casos banais de sugestão nas que se atribuem a Mozart e que escapam, em absoluto, àquela hipótese.

É que a sugestão tem a vantagem de barrar o caminho das hipóteses temerárias, de torna-lo inacessível às ideias novas que principiam a invadir o planeta para alguns, assustadoramente.

É essa a razão porque o interessante cronista, que fez tal assunto entrar na Ordem do Dia, se refere ufanamente ao 2º Congresso de Pesquisas Psíquicas. O seu júbilo provém de ter esse Congresso declarado que a hipótese da sobrevivência é apenas uma das interpretações possíveis dos fatos chamados espíritas.  

Ora, pela declaração de princípios desse 2º Congresso, o que ao verifica é justamente o contrário. Se se tratasse de crentes, de adeptos que chegaram a tais restrições, poder-se-ia afirmar que esses, com aquele apenas, estavam afrouxando, que suas convicções começavam a empalidecer. Mas, nada disso. Eram, na sua grande maioria, os do Congresso, perquiridores indiferentes, ou materialistas declarados. Vieram da negativa categórica. Julgam, agora, que a sobrevivência é possível. Indubitavelmente, deram um passo para a a espiritualidade. A evolução tinha que se fazer por aquele caminho. Nem se poderia compreender que caíssem de chofre no seio da doutrina de Allan Kardec. Seria a natureza em saItos, o que talvez não agradasse muito aos admiradores de Leibnitz.

Há sempre nessas questões uns tantos enganos que se repetem axiomaticamente. Um deles é o de que a Grande Guerra, pela saudade dos mortos, tem trazido a conversão ao Espiritismo.

A causa deve ser procurada alhures. País em que essas conversões têm tomado grande vulto é o nosso. Calcula-se, mesmo, em três milhões o número dos adeptos das novas doutrinas, isto é, do Espiritismo. Não sabemos, porém, onde a Grande Guerra produziu aqui essa devastação que deixou tanta gente saudosa.

É nos fatos, no grande acervo dos fatos, que devemos achar a procurada explicação.

Dos patrícios nossos, ultimamente conversos, só de um se poderia dizer que a saudade é que o encaminhou à conversão:  mas, ainda aí, o que contribuiu para essa conversão foram os fatos, na sua espantosa realidade.

Crê o escritor a quem nos vimos referindo, que as referidas conversões têm um motivo ferozmente egoísta.

Tal não há. Egoísmo é o daqueles que fecham os olhos à luz dos ensinamentos. Para que aqueles não lhes tragam a certeza de que Deus existe, de que sua justiça é verdadeira, que as nossas faltas são passíveis de penas e que a nossa vida deve ser a do amor ao próximo.

Ora, isso implicaria uma série de restrições, uma grande reforma nos costumes, o sacrifício do interesse, das paixões, dos gozos materiais da vida, dos prazeres nefandos do mundo.

A certeza de uma justiça infalível trás nos muitos sustos, porque poucas consciências se podem julgar isentas de culpa. E a ideia de erros no passado, com abstenções no presente e castigos no futuro não será a muitos grandemente sedutora. Daí a grande acolhida de toda e qualquer hipótese que ponha de lado a da imortalidade, com suas consequências, mesmo que essa hipótese seja praticamente indemonstrável e teoricamente insustentável.


sábado, 8 de junho de 2019

O Espiritismo







“Os fenômenos, longe de constituírem a parte essencial do Espiritismo, são-lhe, apenas, a parte acessória.

O Espiritismo está sobretudo na aplicação de seus princípios morais.”

Allan Kardec (Revue Spirite 1859 pág. 182)


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Psicografia



Psicografia
Luís Gastin
Reformador (FEB) Novembro 1923


Comunicação recebida, na sessão pública de estudo do Evangelho na FEDERAÇÃO, a 17 de Julho findo, pelo médium audiente A. Celeste. (Aura Celeste?)

“Louvada seja a misericórdia do Senhor, que me permitiu chegar até vós; que a sua santa Paz penetre em vossos corações, que aí permaneça e não me desampare.

Durante todo o tempo da vossa sessão, meus caros amigos, estudei, aprendi, meditei o sofrimento. Sou talvez o mais sofredor entre todos vós, os que aqui estais. Não me refiro aos meus irmãos da terra, mas aos que comigo baixaram a este recinto. Trago dentro de mim amarguras profundas, tristezas incontidas e mágoas que não sei exprimir.

Há bem pouco tempo, amados irmãos meus, vivi entre vós, fui acatado por todos, estimado e querido de muitos, e a vida não me correu adversa. No entanto, eu, que tinha tido do espaço a tarefa de ser fiel cumpridor das leis santas do divino Mestre, baixando à Terra, carregado de pesados compromissos assumidos em encarnações outras, mais uma vez fali, não se lembrando sequer o meu espírito dos encargos tomados na erraticidade. Mas, uma leve reflexão acudiu ao meu cérebro, chamando-me ao cumprimento do meu dever, para afastar-me das coisas que praticara, conscientemente, em detrimento da lei do meu Criador!

Fui estimado, tive posição de destaque, mas nunca soube refrear os ímpetos do meu gênio, que, mais uma vez, me atirou aos abismos profundos em que me encontrei até há poucos momentos.

Almas piedosas têm a mim; muitos dos que se mostram têm elevado suas orações ao céu em meu favor. A todos sou muito grato e imploro que sobre todos baixem as bênçãos do Senhor para que sejam felizes e tenham sempre diante dos olhos o quadro das suas responsabilidades, a fim de não assumirem compromissos que, posteriormente, terão de ser resgatados à custa de sacrifícios que não podeis calcular.

Tenho sofrido imenso. Minha alma suspira pela luz do céu e diante do meu Deus me reconheço o maior dos criminosos. Eu, que recebi aquilo que não merecia, eu que não soube zelar os dons celestiais!

Meus prezados irmãos, se a alguém ofendi quando na Terra, se alguém de mim guarda ressentimento, peço me perdoe, no mesmo momento em que faço a minha confissão pública perante vós, suplico-vos: não me desampareis nas vossas preces, para que a luz do Senhor, penetrando nos antros profundos da minha consciência, possa cada vez mais esclarece-la, muito embora cresça a minha dor, com o arrependimento da falta cometida na minha última encarnação.

Pedi por mim, meus irmãos, para que a minha fé não vacile, quando novamente baixar à Terra.”

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Espiritismo



O Espiritismo             
por Tomaz de Aquino
em “Roma e o Evangelho" (Ed. FEB)
Conforme citação em Reformador (FEB) Janeiro 1924

“O Espiritismo, meus amigos, bem o compreende algum de vós, vem de cima e, porque vem de cima triunfará. É o Evangelho revelado pelos Espíritos que recebem a palavra de Deus e explicado conforme as necessidades morais dos tempos e das gerações. Porque o Evangelho é o manancial de luz e de vida em todas as idades da humanidade e para todas as humanidades.”

A incredulidade e a razão



A incredulidade e a ciência
João Fontoura
Reformador (FEB) Janeiro 1924

Tratando da incredulidade dos homens, que tudo negam, sem estudar os fatos, assim se exprime Camillo FIammarion, em interessante artigo publicado na Revue Spirite:

O desconhecido de ontem será a verdade de amanhã. A ciência nos mostra grande número de homens eminentes que pararam na senda do progresso, imaginando que a sua ciência tinha dito a última palavra no assunto.

O imortal Lavoisier, que tinha revolvido a Flogística e que criou a química, ficou solidário com as ideias de seu tempo. Encarregado pela Academia de Ciências de apresentar um relatório sobre a queda de um aerólito, aliás muito bem observado, redigiu em 1769, um documento em que declarava o seguinte, sob o título: Relatório sobre uma pedra que se pretende tenha caído do céu durante uma tempestade.

“Se a existência de pedras do raio sempre foi olhada como suspeita em um tempo em que os físicos não tinham nenhuma ideia da natureza do raio, com mais forte razão o deve ser hoje que os físicos modernos descobriram que os efeitos desse meteoro são os mesmos da eletricidade.”

Depois de descrever a maneira por que, foi vista a queda do aerólito e preocupado com a lenda popular que dava essa pedra como produto do raio, acrescentou:

”Cremos poder concluir que a citada pedra não tem sua origem no raio, que ela não caiu do céu.”

No entanto várias testemunhas viram a pedra cair em pleno dia 13 de setembro de 1768 em campo raso. Ela lá estava, examinaram-na, analisam-na e concluíram... que não tinha caído do céu.

O testemunho humano é aí considerado como nulo, e, em nossos dias, certa escola continua a ensinar que as testemunhas, quaisquer que sejam, não tem nenhum valor probante.

Ora, não era a 1ª vez que se via cair do céu uma ou muitas pedras, Para citar a mais célebre, lembremos que a 1° de novembro de 1491, em Ensisheim uma pedra enorme caiu diante de todo um exército, perto de Maximiliano I, rei dos romanos.

Os seres humanos pensam ainda que os fenômenos metafísicos não são admissíveis, pela razão de que admiti-los seria pôr em dúvida certos princípios do ensino clássico.

*

Não é necessário remontar a um século para nos certificarmos desse espírito tão funesto ao avanço do saber humano.

Eu vi com meus olhos o fonógrafo negado, na Academia de Ciências pelo célebre Dr. Bouilland. Tive por mestre o não menos célebre Babinet que negou a possibilidade dos cabos submarinos; conheci o célebre geólogo Elias de Besumont, secretário perpétuo da Academia de Ciências, que sempre negou o homem fóssil.

Chevreul, Faraday, Tyndall, Huxley, sábios igualmente eminentes, nunca compreenderam nada dos fenômenos psíquicos e os rejeitaram cegamente.

Em 1831, o Dr. Castel dizia à Academia de Medicina, em seguida à leitura de um relatório de uma com missão dessa Sociedade, sobre o magnetismo animal:

“Se a maior parte dos fatos enunciados fossem reais, eles destruiriam a metade dos conhecimentos adquiridos em física. É pois necessário que evitemos propagá-los, imprimindo o relatório.”

Mme. Blavatsky conta (Isis dévoilée, t. IV, p. 366), uma anedota que corria entre os amigos de Daguerre, entre 1838 e 1840. Mme. Daguerre consultou uma das celebridades médicas da época a respeito da condição mental de seu esposo. Ella declarou, com as lagrimas nos olhos, que a prova mais evidente da loucura de seu esposo era a sua firme convicção de que conseguiria pregar a própria sombra na parede ou fixa-la em placas metálicas mágicas. O Dr. respondeu, por seu turno, que tinha observado ultimamente em Daguerre sintomas de loucura. Terminou aconselhando a esposa a que mandasse o marido para Bicêtre.

Dois meses depois um profundo interesse era despertado em todo o mundo das artes e da ciência pela exposição de imagens apanhadas pelo novo processo. As sombras haviam sido fixadas, não obstante, sobre as placas metálicas e a fotografia estava estabelecida.
           
Que dificuldades não tem a verdade que vencer para se impor!

Pois o grande físico inglês lord Kelvin não escreveu isto:

“Tenho que repelir toda a aparência de qualquer tendência para aceitar o magnetismo, a clarividência, as pancadas. Não há um 6° sentido de espécie mística. A clarividência e o resto são o resultado de más observações, misturadas com um espírito de impostura voluntária, agindo sobre almas incoerentes e confiantes. “
  
Tal o grau de cegueira que foi levado um dos maiores espíritos da nossa época.

Temos que juntar o nome de Ernesto Haeckel à lista dos sábios cegos por um
falso orgulho, que negaram os fenômenos inexplicáveis.

Em uma página infeliz de sua obra “Os Enigmas do Universo”, fala da leitura
do pensamento nesses termos: “O que se chama telepatia não existe mais que os espíritos e os fantasmas.” Em que pese a Haeckel e seus colegas, a transmissão do pensamento, o hipnotismo e muitas outras manifestações psíquicas tem a sanção de homens eminentes e a psicologia ousa aprofundar problemas em um terreno outrora considerado como um amálgama de embustes e mistificações.

A incredulidade é devida, parece-me - diz ainda Flammarion - à imensa e universal ignorância. É sobretudo nas questões psíquicas que essa ignorância é notável e lamentável, porque todos nós somos nelas interessados. O mundo psíquico é mais vasto que o mundo físico e ninguém deveria desdenhar o seu estudo.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Telepatia - a sentinela do coração



A Telepatia – a sentinela do coração
por Canuto Abreu
Reformador (FEB) Agosto 1923

            É engraçada esta época! Quando alguém, com critério e imparcialidade, afirma que os fenômenos espíritas pertencem a uma ciência nova, que até já tem um nome grego (1), as classes prejudicadas, bojo repleto e alma vazia, deixam escorrer um sorriso de desdém ou de rancor. No entanto, a pouco e pouco, sem perceber a incongruência e muita vez o desproposito, essa interessante época, que nos cobre de ridículo, vai lançando como científicos estes ou aqueles dos fenômenos que o Espiritismo coordenou e interpretou.
           
            (1) Metapsíquica ou metapsiquismo (da prep. gr. META - além de-, sub. gr. PSUKHE – “alma” e terminação cismo.

            Procede, todavia, como o agiota que espeta na gravata a pérola de valor, cuidando que os olhares enlevados esquecem o processo pelo qual ele a adquiriu.

            Pouco importa, porém, a deslealdade avassalante que vem lambendo há meio
século as muralhas espíritas e fazendo em seu terreno incursões desonestas.

            Seus pórticos continuarão abertos de par em par e seus tesouros expostos a
todas as cobiças. A perspectiva da enchente não apavora os que estão abrigados na arca evangélica. Ao contrário. Esse momento futuro em que o dilúvio espírita inundará todos os sistemas e todas as teorias humanas, será um grato espetáculo. A fortuna que hoje nos cabe reunir será partilhada então por todos os que se salvarem, como agora é repartida entre todos os que a procuram. Por isso é que não bradamos, quando vemos as melhores economias do edifício espírita carregadas as ocultas em dorsos de jumentos, para as cavernas dos ali-babás da ciência-indústria e da religião-comércio.

*

            Um dos primeiros pecúlios que nos levaram foi a telepatia. Meteram-na no quadro das ciências e no âmago das religiões (1). Como o onzenário (juro  extorsivo), não explicam por que porta entrou ali, nem por que janela penetrou aqui, pois essas revelações confundem. Seja hospedando-a, seja perfilhando-a, o fato é que se apropriaram dela, pelo processo que outrora usaram os piratas e hoje empregam os bolchevistas.

            E a nossa, a muito nossa telepatia, que se tem arrastado por toda a parte, vive agora metida até em aventuras policiais!

            O polônio (polonês) PRAGLOWSKY está desde há alguns dias fazendo em nossa terra experiências com ela. O Correio da Manhã, o estimado matutino carioca, começou por sujeita-lo a uma complicada descoberta telepática do esconderijo dum testamento falso. O relatório dessa prova foi publicado no rosto do Correio de 17 de julho com o espetaculoso título: A ciência ao serviço da investigação criminal.

            Não perderíamos o tempo em perguntar ao Correio que espécie de ciência
é essa...

            Quão poucos se lembram, mesmo entre os estudiosos, que justamente nesse dia 17 de julho se comemorava, em Londres, numa sessão solene, o 41º aniversário da fundação da Society for Psychical Research. (2), o sábio e formidável reduto do Espiritismo cientifico, que, pelo seu grande vogal MYERS (3) criou a palavra telepatia para designar as transmissões de pensamentos, ideias e sensações de vivo a vivo!

            (1) Os católicos admitem-na entre vivos. O médico Van der ELST, que fez um curso no Instituto Católico, em Paris, sobre o ocultismo, lhe reconheceu a existência. Osprotestantes, representados por 252 bispos, sob a presidência do arcebispo de Canterbury, na conferência de 5 de julho a 7 de agosto de 1920, na Inglaterra, realizada a propósito do Espiritismo, concluíram: “A conferência reconhece que os resultados de algumas pesquisas têm levado muitas pessoas a crer na supervida. Estamos prontos a aceitar as pesquisas, as críticas e as investigações científicas, nos limites que a razão sã admite. Apenas queremos resguardar-nos e ao mesmo tempo impedir que outros admitam, na prática, teorias que não estejam assentes em bases sólidas e Indiscutíveis. Esta convicção já está firmada no que concerne à telepatia e à subconsciência.” (WARCOLLlER, ob. cit., pág. 344.) Os Israelitas aceitam-na (BERNARD LAZARE, La télépathie et le néo-spirttualisme, artigo Indépendant.) Os bramanistas e budistas, bem como os teosofistas, fazem dela um artigo de fé. (ANNIE BESANT e LEADBEATER, Les Formes-pensées.)
            (2) A Society for Psychchal Research foi fundada no dia 17 de julho de 1882, em Londres, para examinar os fenômenos espíritas.
            (3) MYERS publicou, em colaboração com GURNEY e PODMORE, a grande obra “Phantoms of the Living.”

***

            Será de fato o Sr. PRAGLOWSKY um grande médium “percipiente” (que percebe com facilidade) ? Vimo-lo em casa do nosso companheiro FIGNER, no dia seguinte à publicação do Correio. Perante sociedade numerosa, fez uma demonstração que ele mesmo denominou de telepática. Um molho de chaves foi ocultado dentro dum filtro, na copa, enquanto o Sr. PRAGLOWSKY palestrava na sala nobre, explicando como devia agir mentalmente o guia. Escolheu depois para esse fim o Dr. PIRES, engenheiro brasileiro. (O guia como se sabe, é o agente, que deve transmitir o pensamento.) Com ele a mão, encaminhou-se para a sala de jantar. Foi uma partida rápida, agitada, com indecisões de itinerário, como acontece em todas as experiências desse gênero exibicionista. Chegando à sala de jantar, marchou resoluto para a cristaleira, cujas portas abriu. E, diante dos finos cristais demorou-se, ora acocorando-se, ora inclinando-se para os lados, braços na atitude litúrgica do Dominus vobiscum. (significa "O Senhor esteja convosco", cuja resposta é: Et cum spiritu tuo ("E com o teu espírito") é um sacramental) De vez em quando passava nervosamente as mãos por sobre a cabeça. Contamos oito minutos, durante os quais ele várias vezes recorreu ao agente, segurando o braço do Dr. PIRES e pedindo que “pensasse fortemente”. Sentindo-se extraviado, mudou de guia. Veio substituir o Dr. PIRES um cavalheiro do qual ignoramos o nome e a nacionalidade, porque não nos foi apresentado mas que parecia alemão... E o Sr. PRAGLOWSKY pode, graças ao novo agente, descobrir em cinco minutos a copa, o filtro e o molho de chaves.

            Foi a única manifestação que deu em casa do Sr. FIGNER. Tão somente com ela era impossível ajuizar bem da sua mediunidade. Intentamos, por isso, uma palestra. Perguntamos-lhe se conhecera em Varsóvia, donde ele é natural, o grande psícometra OSSOWIECKI, o maior vidente masculino da atualidade, bem assim o mundialmente afamado psicólogo OCHOROWITZ, autor da A sugestão Mental. Respondeu-nos afirmativamente. Assegurou-nos também que trabalhara por diversas vezes sob a inspecção do prof. RICHET e do Dr.GELEY, este diretor e aquele membro notável, do Instituto Metapsíquico Interacional e ambos da Sociedade Polonesa de Estudos
Psíquicos. Quando, entretanto, lhe perguntamos que espécie de trabalho fizera,
nada respondeu, antes mudou de assunto e de interlocutor.

            Quer o Instituto, quer a Sociedade registram em anais os seus trabalhos.
Possuímos, a exceção de poucos números, essas revistas metapsíquicas e em
nenhuma encontramos referência a trabalhos do Sr. PRAGLOWSKY. Isso, aliás, nada significa, pois é bem possível que tenham sido publicados justamente nos números que nos faltam.

* * *

            Essa muito nossa conhecida telepatia de salão nenhuma novidade é para a
sociedade carioca. Um sem número de profissionais do hipnotismo e da prestidigitação lha tem apresentado em empolgantes sessões. Vários são mesmo os nossos patrícios que gozam da faculdade “percipiente.” Recordemos um.

            Em casa do senador F..., anos atrás, assistimos a uma prova telepática muito
Curiosa. Mais de trinta pessoas notáveis de ambos os sexos, se lessem estas linhas,
haviam de recordar-se dela ainda com espanto. Pena é que a situação católica da ilustre família nos impeça de lhes citar os nomes. Só o fazemos com relação ao simpático e inteligente médium, que nunca mais vimos. O Dr. ROLLI, brasileiro, de pais italianos, residente no Sul, formado em engenharia, achava-se de passeio pelo Rio e foi levado á recepção. Ali, anuiu à experiência. O rabiscador destas linhas, a pedido da Sra. F...aplicou dois tampões de algodão sobre os olhos de ROLLI, apertando-os em seguida com um lenço de seda preta várias vezes dobrado. Esse pequeno trabalho foi muito fiscalizado; uma pintora paulista de justa fama fez questão de apertar ela própria o laço, que julgava meio frouxo. ROLLI foi conduzido a uma poltrona para a sala de música. A Sra. B. C ... , que deixara a janela nesse momento, para reunir-se às senhoras que, num canto da sala, cogitavam do objeto a ocultar, propôs que se escondesse a luva, que apresentava. Onde? Sobre o aparador havia um relógio “Luís XV”, de mármore. Colocada a luva atrás dele, retiraram-se todos para o ângulo oposto. ROLLI, avisado que estava oculto o objeto, levantou-se e dirigiu-se ao salão sem auxílio de ninguém. Estávamos prevenidos de que, se ele marchasse de encontro a um obstáculo, nos cabia dizer mentalmente: olha a cadeira, ou olha a parede, etc. Transposta a larga porta de vidros à catedral, ROLLI parou e o sorriso que trazia dissipou-se.

            - Vejo muitas correntes luminosas para a esquerda. . . Esses raios morrem sobre um objeto... erguido metro e meio do chão... Tenho facilidade de ir até lá, mas, ao que parece, o objeto que vejo não é o que devo descobrir... É muito grande... Queiram pensar um instante na exclusiva natureza do objeto oculto, repetindo-lhe mentalmente o nome.

            Após alguns segundos, voltado para o aparador, continuou:

            - Não há harmonia nos pensamentos. Vejo confusamente um mostrador de horas, uma espécie de cofre de joias... muitas sombras de mão... Queiram pensar somente no objeto que devo descobrir... Sim... Multiplicam-se as mãos. Será uma luva? Deve ser.... É realmente uma luva. Vejo-a por traz do mostrador de horas...

            E encaminhando-se para o aparador:

            - Luva delicada, perfumada... mas indiscreta ...

            - Extraordinário! Extraordinário! exclamou duas vezes o prof. C. M., que a princípio não estava levando a experiência a sério.

            A conversa generalizou-se, trocaram-se comentários e interjeições. ROLLI alcançou o aparador, deslizou a mão pelo mármore e, como se estivesse vendo, pegou a luva.

            A Sra. B. C., aproximando-se de ROLLI, que já estava sem o lenço preto, ao receber a luva, perguntou-lhe:

            - Indiscreta, porque?

            ROLLI, sorridente, beijou delicado a ponta dos dedos de pelica branca e replicou, apresentando a luva:

            - Porque este não foi o primeiro beijo que ela recebeu hoje.

***

            Todos sabem o que seja a telepatia. Queremos dizer: todos sabem que o fenômeno existe. Quantos, procuram indagar do seu mecanismo? A curiosidade dos fúteis não vai até lá. Quando muito, ensaiam compreender a palavra, e ficam satisfeitos com descobrir que Tele’ significa “longe”, ‘Pathos’, moléstia. Para eles, ROL.LI, PRAGLOWSKY e tantos outros são enfermos elegantes que padecem da moléstia de adivinhar o que a gente pensa.

            É tempo, contudo, de dizer alguma coisa séria a respeito dos trabalhos do Sr. PRAGLOWSKY.

            Não querendo passar por suspeito, vamos, para esse fim, recorrer a uma grande autoridade europeia no assunto, o Sr. WARCOLLIER, que também é engenheiro químico, Vejamos o que ele diz em seu importante livro ‘La Télépathie’ (Alcan-1921), a propósito de Cumberlandismo. (1)

            (1) Como os espirítistas sabem, o nome proveio do celebre CUMBERLAND que por muito tempo entusiasmou a Europa com experiências telepáticas no gênero das do Sr. PRAOLOWSKV.

            “Trata-se de adivinhar onde está o objeto, pela interpretação dos movimentos musculares de uma pessoa-que sabe onde o objeto está escondido - incumbida, pela assistência, de guiar, segurando-lhe a mão, aquele que vai fazer a descoberta. Este, geralmente, tem os olhos vendados; escondido o objeto, uma moeda, uma medalha, um anel, a procura não é demorada, porquanto estas experiências facilmente alcançam bom êxito, muitas vezes logo às primeiras tentativas. Se assim não acontecer, substitui-se o paciente ou o seu guia, o que permite proceder-se a uma seleção de pessoas sensitivas e mesmo encontrar-se muitas, tão bem dotadas, que podem tentar a experiência, não mais segura pela mão, mas por intermédio de uma bengala ou de uma corda e, até, sem nenhum contato. Basta, então, que alguém acompanhe o paciente a poucos passos de distância, para que ele seja guiado por murmúrios inconscientes ou mesmo, parece, por telepatia . (1)

Aqui ficamos por hoje.

(1) Ob. cit., pág. 178.