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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Humildade e fraternidade


Humildade e fraternidade
Luiz Gomes da Silva
Reformador (FEB) Abril 1943

Ao relermos os Evangelhos de Jesus, afigura-se nos que as lições ali contidas são mais belas do que quando as estudamos pela primeira vez. São sublimes todos os ensinos evangélicos; mas, o que Jesus nos deu, de humildade e fraternidade, ao se dispor a lavar os pés dos seus discípulos, não encontra paralelo na história da humanidade. É tão grandioso que desejáramos o tivessem de contínuo todos os espíritas em suas mentes, para que o Espiritismo não fosse desviado do curso por Deus traçado.

Não há quem ignore que diariamente as fileiras espiritas se engrossam de novos crentes que, recrutados pela dor no seio do materialismo, onde predominam o orgulho, a vaidade, o egoísmo, trazem para os meios espiritas toda essa bagagem, da qual dificilmente consegue desembaraçar-se o homem. Dessas criaturas não seria cabível esperar-se que seus atos se caracterizassem, desde o primeiro momento, pelo cunho da humildade e da fraternidade. Fora querer o impossível. O que é inacreditável é que os espíritas militantes, que já perlustraram centenas de vezes o Evangelho e propagam a sua doutrina ainda manifestem, através de seus escritos, falta de fraternidade para com aqueles que tudo sacrificam, na intenção de servirem a Jesus. Isto somente porque entendem ser sábio, justo e infalível o critério de que usam, devendo, pois, todos orientar-se por ele.

A história da santa inquisição está cheia de atentados à liberdade de pensamento. Precisamos não esquecer que o Mestre, Allan Kardec, foi vítima dessa santa inquisição; que foi ferido no íntimo da sua alma de missionário, ao receber a notícia de que seus livros, enviados para Barcelona, seriam aí queimados em praça pública, por ordem do bispo daquela cidade, como obras heréticas, Ninguém duvida de que o bispo de Barcelona fosse um homem culto e se considerasse fervoroso servo de Jesus; mas, como todas as criaturas humanas, não era senhor de toda a verdade, razão por que, não podendo compreender as que se continham nas obras espíritas, sobre estas lançava anátema.

Não estarão no caso do bispo de Barcelona os nossos irmãos que com tanta aspereza combatem a obra de Roustaing? Não conterá ela verdades que ainda escapam aos seus Espíritos, por não as poderem assimilar? Deixemos que os espíritas não só leiam o Roustaing, como também tudo quanto possa contribuir para a evolução de seus espíritos, a fim de que, se Allan Kardec novamente reencarnar em nosso planeta, não sejamos nós os primeiros a apedrejá-lo, pelo dizer coisas que na sua encarnação anterior não disse, por não nos acharmos em condições de as compreender.

Jesus, ao lavar os pés dos apóstolos, bem sabia que eles ainda não estavam à altura de compreender a lição que lhes dava, que só mais tarde a entenderiam, como também as gerações futuras, ás quais se dirigiam sempre seus ensinos. Mediante o lava-pés, firmou Ele, com grande relevo, o dever de serem humildes e fraternos todos os homens. Apesar de ter consciência de que era um Espírito superior, nivelou-se aos seus apóstolos, dizendo: "Não é o servo mais do que o Senhor, nem o Senhor mais do que o servo". Quando disse a Pedro que, se lhe não lavasse os pés, esse apóstolo não teria parte com Ele, foi como se houvera dito, antecipadamente, que sem o amor fraterno nós, os espíritas, também com Ele não teríamos parte.

Até há pouco, foi-nos dito que "fora da caridade não há salvação", a fim de abrirmos mão de algumas migalhas guardadas pelo nosso egoísmo e as darmos aos chamados pobres. Hoje, dar de comer a quem tem fome, vestir os nus e velar pela velhice desamparada constitui obrigação de que nem os ateus se esquivam; o amor ao próximo, porém, como a nós mesmos, a lealdade e a sinceridade em nossas expressões para com os nossos irmãos, o apertar-lhes a mão e abraçar, como se abraça um filho que esteve ausente, com a alma a vibrar de amor, como fez Jesus, isto ainda é difícil. Faz-se apenas na aparência, pois temos observado haver
criaturas que, quando se encontram, não dispensam o aperto de mão e o abraço, como expressão de estima fraternal, mas que, dias depois, se voltam umas contra as outras, como se foram sempre inimigas.

É de lastimar-se que tal aconteça; infelizmente, porém, ainda tem que ser assim, por mal nosso, devido à nossa grande inferioridade moral. Anima-nos, entretanto, o podermos reconhecer que nem tudo está perdido. Como disse Jesus, já se veem ao longe os campos a branquear. Graças a Deus e ao mesmo Jesus, já vemos nalguns lugares os espíritas darem prova de amor fraterno. Em vários pontos do nosso país, esboça-se entre os espíritas um movimento no sentido de se organizarem, conjugando esforços em prol dos ideais cristãos, movimento esse que implica uma aproximação fraterna, que necessariamente há de produzir bons frutos, a atestarem a edificação de suas almas nos ensinos evangélicos.

Permita o Senhor possam esses irmãos prosseguir na tarefa empreendida, pois que seus esforços certamente serão abençoados e servirão de estímulo a muitos outros, que ainda se comprazem no isolacionismo e no separatismo, que nada têm de espíritas, nem de cristãos, em face dos Evangelhos em espírito e verdade, onde
rebrilha a palavra de Jesus, pregando a união, a fraternidade, a humildade, a tolerância, sem as quais não pode haver o amor reciproco, que Ele declarou ser a característica única dos seus verdadeiros discípulos.


O Panteísmo de Allan Kardec


O panteísmo de Allan Kardec
Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Abril 1943

No seu livro de ataque ao Espiritismo, descobriu o muito digno Sr. padre Zioni que Kardec é panteísta. E se bem o disse, melhor o provou.

Vejam, agora, a documentação que ele apresenta, deixando no ânimo dos leitores, em geral, em especial no dos alunos do Seminário, a convicção do panteísmo de Kardec. Assim, transcreve ele de “Le Spiritisme à sa plus simple expression.”:

"Deus atrai todos a si mesmo”.

Entre parênteses, acrescenta o professor: "Note-se a ideia panteísta".

Notaram? Agora, por exemplo, diz alguém: O mestre chamou a si todos os alunos. É uma ideia panteísta, notaram?

A Irmã Paula chamou a si todos os necessitados... Quem não notará o panteísmo da irmã Paula?

"O reverendo foi de porta em porta e, procurando encaminhar aquelas almas para Deus chamou-as todas a si".

Panteísmo no caso.

O professor, a irmã Paula e o reverendo estavam emitindo ideias panteístas. Note-se.

É muito comum e as histórias estão cheias de tais relatos, dizer alguém, quando invoca auxilio ou socorro: - "A mim, a mim!" "é: mim, os mosqueteiros do rei!".

Os pedintes, sem o saberem, provavelmente estão fazendo panteísmo.

Notará, entretanto, na frase atribuída ao Kardec (quem não tiver preconceitos eclesiásticos, que a Deus se atribuía a bondade de chamar ao seu seio, ou ao seu reino ou a mansão da felicidade, indistintamente, todas as criaturas.

É isto o que é chamar a si.

Outro lanço em que o reverendo deixa irretorquivelmente provado o panteísmo kardecista:

"Pela morte do ser orgânico os elementos que o formavam sofrem outras combinações para construírem outros seres, os quais tiram da fonte universal o princípio da vida e atividade absorvendo-o e assimilando-o para o restituírem a esta fonte, quando cessarem de viver.

Notaram? Eu, com franqueza, não consegui notar coisa nenhuma.

Que é que tem aquilo com panteísmo? 

Porque as diversas combinações sofridas pelos seres orgânicos importariam em ideias panteístas? Ou o padre ensinará aos seus alunos que seres orgânicos são seres espirituais?

Orgânico é aquilo que tem órgãos. Refere-se a corpos, corpos organizados.
Todos sabem, os que têm ligeira tintura de história natural - que os corpos vegetais e animais nascem, crescem, vivem e morrem. Mortos, voltam ao laboratório da natureza, onde se transformam em novos corpos. O cadáver decompõe-se e nos imensos fornos da natura transmuda-se, e o corpo disforme, infecto, pútrido renasce em cotilédones, em hastes, em folhas, em galhos, em flores, em frutos...

Qualquer colegial sabe disto, provavelmente com exceção dos seminaristas do Central do Ipiranga. Kardec, consequentemente, não ensinou coisa nenhuma de panteísmo; apresentou, apenas, uma noção que se encontra, com pequenos acréscimos, em qualquer epitome de ciências físicas e naturais.

Outra demonstração. Transcreve do Kardec o reverendo:

"Deus sendo eterno, deve haver criado incessantemente. Deus, espírito e Matéria constituem o princípio de tudo o que existe - a trindade universal.

Fomos procurar onde Kardec teria dito aquilo, pelo menos para saber se ele tinha, de fato, escrito, ou porque escrevera espírito com ‘e’ pequeno e Matéria com ‘M’ grande.

Baldado empenho.             

A citação é de Justino Mendes. O padre Zioni cita Allan Kardec através do Padre Justino.

Qual o processo de verificar o que disse o Kardec, onde o disse, como disse? Não o sabemos.

Já Ruy Barbosa censurava esse processo de citar, principalmente quando tais citas constituíam prova.

Assim se exprimia o notável jurista:

"O costume que o professor seguiu, de citar unicamente o nome do clássico, sem a obra e o lugar onde se acha a passagem transcrita, não satisfaz, nem se explica. Admite-se nos manuais escolares, por não os carregar de notas e lhes avultar o porte. Mas, em trabalhos de crítica, maiormente nas polêmicas, é injustificável. Ou o escritor cita de primeira mão, e nada lhe custará declarar de onde o faz; ou de segunda e terceira, e então, se o livro de onde tirou, for igualmente omisso, os seus documentos não estão verificados, nem são verificáveis; o que os priva inteiramente de valor." (Réplica, 14.)

Cabe inteira a carapuça no ilustre reverendo.

Qualquer, porém, que fosse a mão em que ele houvesse apanhado o texto que transcreveu, o que não notamos é onde ressumbra ali algo de panteísmo.
O que diria o Kardec é que existe Deus, espírito e matéria, e tudo no Universo se resume nessa trindade. Pois não é?..

Pois não sabe o reverendo e não sabe todo o mundo que existe Deus, que existe o espírito, e que existe a matéria?

E há alguma coisa fora da matéria, espírito e Deus?

A existência de Deus não a negará o reverendo.

Que tudo o mais que existe ou é matéria ou é espirito, ou promana de uma ou de outro, proclama-o a ciência, a filosofia e a religião.

Kardec, pois, não fez mais que repetir um axioma velhíssimo, estafadíssimo. Se o reverendo acha que isto é panteísmo - doutrina interessante pela sua originalidade - a culpa não cabe ao Kardec.

*

Se em questões de tão pequena monta, e tão triviais, tropeça, claudica e erra o professor do Seminário, imagine-se o que poderá ser a sua ofensiva aos conceitos, aos ensinos, aos postulados do Espiritismo.

Temos um pequeno exemplo na maneira por que trata do perispírito e o discute.

Vejamos as suas proposições:

"A função do Perispírito é servir de substratum para as materializações..."

Pelo dito, parece que o perispírito só tem essa finalidade: servir de substratum às materializações.

Temos ainda:

O Perispírito prende-se ao corpo, pelo chamado cordão umbilical, visível nas sessões como um fio luminoso. Este último torna-se visível se leva consigo moléculas do corpo do médium.

Esta visibilidade do cordão umbilical quando leva consigo moléculas do corpo do médium foi ensinada pelo padre Lacroix e por d. Otavio Chagas de Miranda.

O que não sabemos quem ensinou é o trecho que se segue:

"Sua finalidade (a do perispírito) é prender a alma ao corpo. Não pode portanto separar-se do seu espírito, sem que advenha a morte do indivíduo."

O que nós sabemos é que o perispírito nunca se separa do espírito. A hipótese de que se possa separar, palpita-nos que seja teoria ou ensinamento do reverendo Lacroix ou de Monsenhor Miranda, nunca de Allan Kardec.

"Os presentes a uma sessão espirita que têm vibrações iguais às do médium, podem fornecer parte do seu Perispírito para as materializações."


Os presentes a fornecerem parte do seu perispírito para as materializações, deve ser ainda, um luminoso ensino de d. Miranda ou do padre Lacroix; nunca, porém, de Allan Kardec ou espírita que saiba alguma coisa. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Práticas Religiosas


Práticas Religiosas - 1
Theophilo Siqueira
Reformador (FEB) Novembro 1941

Em certos meios paulistanos, o Espiritismo, parece, vai romanizando-se e os que têm espírito crítico mais ou menos independente devem dar o sinal de alarma.

"Política dos espiritistas", dirão; mas, o Espiritismo não tem política, diremos. Deixem-se tais inovações aos credos materializados ou materialistas, como o romanismo, que quase nada mais tem de espiritualidade; é romanismo civil... A Santa Madre, agora, multiplica seus Congressos Eucarísticos e encarrega os jornais oficiosos de dar-lhes larga publicidade, com enormes clichés, onde se veem as autoridades civis sempre acompanhadas dos senhores bispos, padres, etc. Ela, a Igreja, já recebeu a sua parte, consoante diz o Evangelho, pois que vive unicamente desse exibicionismo, dessa exterioridade, desse formalismo ritualístico, que é o que lhe basta.

Mas, entre nós, espiritistas, precisa não ser assim, por isso que só devemos homenagens à Igreja viva, do Senhor Jesus, qual a estabeleceu Ele, e não a Igreja morta, material, que para subsistir necessita da mão forte do Estado, das muletas do mundo político-oficial.

A Igreja viva do Senhor Jesus, sempre e cada vez mais vivo e vivificante, não é a que se encontra nas dioceses, arquidioceses, paroquias, mas aquela que está dentro de cada ser, aquela cujo templo é o próprio indivíduo. E tanto assim é que Jesus disse: "onde duas ou mais, pessoas estiverem reunidas em meu nome, aí estarei". A nossa fé deverá viver sentida e não mostrada. Mostrar-se, ela o deve, porém, unicamente nos atos da vida quotidiana e sobretudo no exemplo.

Aqui em S. Paulo, ao que parece, generalizam-se as concentrações como as que já se realizaram no Estádio do Pacaembú. E dizemos concentrações, para não dizer Congressos...

Nos nosso salões ou centros já se encontram enormes quadros com a efigie de Jesus Cristo e não será difícil verem-se amanhã andores, acompanhados por caravanas, incenso, banda de música, etc.

A tendência do homem, neste mofino planeta, é para corporificar tudo em forma material, transformar os símbolos em realidades palpáveis, tangíveis e práticas, sempre esquecido de que se deve adorar a Deus em espírito e verdade, isto é, em consciência, em atos enquadrados naqueles cânones indicados pelo seu divino Enviado.

Realmente, é difícil combaterem-se as tendências, herdeiros que somos de vasto acervo de hábitos, usos e costumes. Em religião, então, a coisa ainda é mais séria. Uma ideia, quando desce ao coração, ou ao subconsciente e se torna instinto, só mesmo uma força maior, maior sensação pode arrancá-la dali, motivo pelo qual a dor; o sofrimento, o desamparo são elementos de primeira ordem - única linguagem empregada por Deus para se fazer entender pelos homens.

Mas, para, bem compreendermos essa linguagem de Deus, faz-se mister ainda uma certa evolução espiritual. Os que têm olhos de ver encontram na doutrina espírita a equação prática do problema, retendo-a, transubstanciando-a, fazendo-a carne de sua carne, vida de sua vida. Felizes os que não perdem as lições.

Dissemos, linhas atrás, que é muito difícil combater-se, em religião, a tendência que temos herdado e realmente assim é. O paganismo, o politeísmo, que eram praticados em Roma e na Grécia, antes do advento do Cristo, continua latente, a imperar na humanidade, graças ao "Cristianismo' das Igrejas, que não passa de prolongamento daqueles.

Aos deuses familiares dos gregos, que eram seus antepassados, seus heróis, deuses esses que, igualmente, foram adotados pelos romanos, ajuntaram-se outros que, em vez de serem heróis, ou ascendentes, eram os elementos físicos da natureza: o Sol, a Lua, o trovão, o vento, etc. O altar - doméstico agrupava a família; o marido, o pai era o sacerdote desse altar. Como várias famílias adoravam, às vezes, os mesmos deuses, criou-se um aglomerado que foi a cidade. Temos, pois, fundada a cidade, cujas famílias praticavam os seus ritos no mesmo altar, no recinto fechado duma edificação - pritaneu na Grécia, templo de Vesta em Roma - lugares esses que eram os mais respeitados e venerados da cidade, pois que neles ardia o fogo sagrado.

Na Grécia enfraqueceu-se logo esta veneração, com o haver a imaginação grega levantado templos suntuosos aos seus deuses, segundo diz De Coulanges, cujo tratado estamos seguindo.

Ainda e sempre, observa-se aqui como a forma, o culto, a observância aniquilam a ideia. Efetivamente, quando se observa o culto da forma, a substância vai passando a um plano secundário.

Já, por isso, o divino Mestre fez sentir à Samaritana que Deus é espírito e como tal é que os seus verdadeiros adoradores o devem adorar!




Práticas Religiosas - 2
Theophilo Siqueira
Reformador (FEB) Fevereiro 1942

A virtude, o caráter principal do Espiritismo está em elevar a inteligência humana à concepção do absoluto de Deus, e não o de estacionar em pequenos ritos, pequenas práticas em que nada há para refletir e aprender.

Comer-se uma refeição preparada sobre um altar consistia o principal culto do paganismo grego e romano. Essa a primeira forma que o homem deu ao ato religioso.

O "Cristianismo" de Roma e o de Lutero não se libertaram da velha influência pagã a que continuam jungidos, escravizados, no dogma imutável. O romanismo come, deglute o próprio Cristo. O protestantismo, se bem que um tanto mais simples, tem igualmente o seu repasto.

Na observância de práticas e ritos demoram as religiões que, por Isso mesmo, caem nesse automatismo que delas faz um meio de vida, criando-se assim os profissionais da fé. E as consequências aí estão: religião hoje, para toda gente, consiste em atos de culto exterior, em sacramentos, etc., que, uma vez cumpridos, põem a criatura em harmonia com Deus ... O substratum da doutrina do Cristo é pouca coisa; as práticas religiosas o mais importante ... Preenchidas umas tantas fórmulas e formas, está-se bem com Deus. Dele não se pode ter mais medo, porquanto, a sua exigência - o culto material - foi satisfeita.

Os espiritistas precisam estar vigilantes para não jogarem a doutrina na vala comum das outras religiões, cristalizando-a em formas litúrgicas, em cerimônias que só servem para abafar a manifestação intima e pessoal do nosso espírito. Daí o nosso grito de alarma contra os congressos, ou melhor, as concentrações públicas, as imagens do Cristo etc., que observamos na capital paulista. A observância da forma abafa, repita-se, o sentimento da substância.

O paganismo grego e romano tinha as regras estabelecidas, suas formas sacramentais para evocar a alma dos antepassados; uma palavra que faltasse na recitação de uma fórmula era o suficiente para o fracasso do que se pedia. Essas fórmulas haviam de ser repetidas ipsis litteris. Veja-se a influência que a forma exerce!

Quanto os bons espiritistas terão de lutar contra esse acervo de superstições acumuladas! O Espiritismo tem que preparar a humanidade para a implantação do reino do Senhor Jesus na terra, motivo pelo qual cada indivíduo tem que ser um sacerdote, sem, todavia, o sacerdócio das religiões que instituíram um esoterismo para si e um esoterismo para os outros.

Mas, todas as "religiões" nascem, vivem e morrem porque são plantas que Deus não plantou. Larguemos nós, os espiritistas, essas sementes que Deus não semeou. Tirem delas bom proveito as elites censoras do romanismo sibarita.



Práticas Religiosas - 3
Theophilo Siqueira
Reformador (FEB) Abril 1942

Ao ilustrado e incansável batalhador Dr. Romeu de Camargo.

Celebra-se este ano o primeiro centenário de William James, que, herdando o misticismo de Swedenborg, através de seu Pai, aderiu ao Espiritismo.

W. James é incontestavelmente o maior filósofo da América. Coordenador do pragmatismo, doutrina filosófica que, salvo melhor juízo, consiste em estabelecer o critério da verdade de uma proposição na medida da utilidade de suas consequências, merece as homenagens de todos os espiritistas.

W. James é adorado na América do Norte, onde o Espiritismo avança a passos largos - a terra dignificando seu filho, seguindo-lhe as pegadas. Este exordio, que fugiu ao assunto do estudo que temos feito, sobre a contrafação do Espiritismo, que se nota em certos meios, foi a título de desencargo de consciência e, também, para convidar os confrades a fazerem somente Espiritismo inteligente, baseado em ciência e não correrem ansiosos, como faz muita gente, atrás de adeptos, o que é mais política do que religião.

Entre as contrafações, uma se avoluma, a que leva os membros da família espírita a discutirem entre si a natureza do corpo do Senhor Jesus. Que mal há que esta entidade ou aquele individuo aceite o divino Mestre num corpo carnal ou fluídico? Fique cada um com o seu ponto de vista, com a sua concepção e não discutamos o modo íntimo de sentir do crente. O conceito de liberdade deve estar, principalmente no espiritista, muito acima de melindres pessoais. O essencial é que procuremos exemplificar a doutrina, objetivando-a em nossa conduta. Que importa que se aceite o Salvador sob a indumentária carnal, físico-material, ou etérea, fluídica? Não é o habito que faz o monge ...

Em vez de nos determos numa questão que, na hora presente, é de Iana caprina, demoremo-nos em meditar a substância da maravilhosa doutrina que Ele ensinou, estudando-a em sua plenitude, pois que, assim, faremos que ela exsurja na harmonia e beleza de sua estrutura.

O homem quanto mais cultiva a forma menos serve à substância. A forma é a substância em ato, ensinava Aristóteles, e todos sabemos que essa forma é passageira, morre, transforma-se, dissolve-se no turbilhão da vida universal. O culto da forma é a geratriz dos automatismos; é a ideia passando do dinamismo do cérebro para a estagnação do subconsciente.

Não nos demoremos no exame das vestes do Senhor Jesus. Deixemos isto para as sutilezas da Escolástica, que só tem servido para complicar e aristocratizar o conhecimento de Deus. O luminoso Espírito de Emmanuel nos conta, pela pena de Francisco Candido Xavier, que, "os romanos, ao contrário dos atenienses, não procuravam muitas indagações transcendentes em matéria religiosa ou filosófica, atendendo somente aos problemas do culto externo (o grifo é nosso), sem muitas argumentações com a lógica, e foi por isso que, com a evolução da cidade, o Panteon, seu templo mais aristocrático, chegou a possuir mais de trinta mil deuses". O romanismo atual, com o seu número astronômico de santos, tem razões com a sua tradição, que lhe é tão cara...

Conhecemos e admiramos ótimos caracteres kardecistas, como admiramos e conhecemos excelentes amigos roustainistas. Aliás, Kardec e Roustaing jamais tiveram a pretensão de dizer a última palavra sobre o Espiritismo. Sejamos coerentes
com a doutrina, em cujo conhecimento apenas aprendemos as primeiras letras.

Seja-nos permitido voltar às sublimes lições de Emmanuel, endereçando-as aos litigantes do corpo do Senhor Jesus. "A grandeza da doutrina não reside na circunstância do Evangelho ser de Marcos ou de Mateus, de Lucas ou de João; está na beleza imortal que se irradia de suas lições divinas atravessando as idades e seduzindo os corações". Não há vantagem nas longas discussões, quanto à autenticidade de uma carta de Inácio de Antióquia, ou de Paulo de Tarso, quando o raciocínio absoluto não possui elementos para a prova concludente e necessária. "A opinião geral rodopiará em torno do crítico mais eminente, segundo as convenções". Todavia, a autoridade literária não poderá apresentar a equação matemática do assunto.

"É que, portas a dentro do coração, só a essência deve prevalecer para as almas e, em se tratando das conquistas sublimadas da fé, a intuição tem de marchar à frente da razão, preludiando generosos e definitivos conhecimentos" (1).

(1) A caminho da luz, pag. 100


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Será crime a caridade?



Será crime a caridade? Parte 1

Reformador (FEB) Dezembro 1942

Jesus, reunindo os doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expelirem e para curarem todas as doenças e enfermidades, relata Mateus, no cap. 10 do seu Evangelho. Disse-lhes o Senhor: "E pondo-vos a caminho pregai, dizendo: que está próximo o reino dos céus.

Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; dai de graça o que de graça recebestes".

Mais tarde, nas últimas instruções que dava aos seus discípulos, Jesus de novo afirmou: "Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará as mesmas obras que eu faço e fará outras ainda maiores". (São João, cap. 14, v. 12). O fato é que os discípulos, pondo-se a caminho, pregavam os ensinos do Cristo e confirmavam a sua pregação com as curas que produziam, curando toda classe de enfermidades, impondo as mãos sobre os doentes.

E não se diga que Jesus tenha escolhido os seus discípulos entre a elite da sociedade israelita; eram eles homens iletrados, pescadores que ganhavam a sua vida pescando e vendendo o produto do seu labor.

Além dos doze, Jesus escolheu outros 70 entre a turba que o seguia atônita e mandou-os dois a dois e ordenou que fizessem o mesmo que os 12 e quando eles voltaram, muito alegres, disseram: "Senhor, até os mesmos demônios se nos
submetem em virtude do Teu nome".

Jesus lhes respondeu: "Eis aí vos dei eu poder de pisardes as serpentes, e os escorpiões, e toda a força do inimigo; e nada vos fará dano. E contudo, o sujeitarem-se-vos os espíritos não é de que vós vos deveis alegrar, mas sim deveis alegrar-vos de que os vossos nomes estão escritos nos céus". E exultando disse: "Graças Te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos". (São Lucas, cap. 10).

Ainda disse Jesus, momentos antes de sua ascensão: "E estes sinais seguirão aos que crerem em mim: Expulsarão os demônios em meu nome; porão as mãos sobre os enfermos e os sararão". (São Marcos, cap. 16, v. 17 e 18).

Há quase 80 anos, desde a introdução do Espiritismo no Brasil, tem-se pregado o Evangelho em espírito e verdade e confirmado a pregação com as curas de milhões de enfermos, dando-se de graça tanto as receitas, como os remédios, e a mão que traça estas linhas, por graça de Jesus, tem dado vista a cegos e curado milhares e milhares de doentes com a imposição das mãos, seguindo o preceito de Jesus. Milhares de outros têm feito o mesmo em todo o Brasil.

Não sei com que intuito se tem procurado, e procura-se cercear a prática dessa caridade cristã que a tantas criaturas tem felicitado em todo o território brasileiro.

O Sr. presidente da República que tão sábias providências tem sabido tomar para favorecer os desprovidos da sorte, os necessitados de socorro, a classe que trabalha, que luta para criar a sua prole, certamente não teve ainda ocasião de se inteirar do que se passa com referência à religião espírita e as dificuldades que se antepõem à sua livre prática.            

Apelamos, pois, para S. Excia., para que nos seja dada a mesma liberdade de que gozam todas as outras religiões no nosso pais. Que nos seja concedida a liberdade de "dar de graça o que de graça e por acréscimo, Nosso Senhor Jesus Cristo nos outorga". 

Inserto no "Correio da Manhã" de 6 do corrente como objeto da "Crônica Espírita" que esse diário costuma publicar aos domingos, o artigo que vimos de transcrever é da lavra do velho trabalhador da Seara de N. S. Jesus Cristo, Fred Figner, que, há muitas dezenas de anos, como médium curador, tem posto os dons mediúnicos que o Senhor lhe outorgou ao serviço do bem, curando um sem número de irmãos seus, presidiários, como ele, da carne, aliviando os sofrimentos de inúmeros outros e iluminando a muitos que, já evadidos dessa prisão, ainda escravizados se conservam ao mal, que é filho da ignorância e do erro, sempre fiel, o caridoso obreiro, ao preceito evangélico que manda se dê de graça o que de graça é recebido da munificência do Pai celestial.

Assim, a frase interrogativa que ele tomou para epígrafe do seu articulado não significa, nem poderia significar, é bem de ver-se, que no seu espírito paire qualquer dúvida sobre a legitimidade da prática da caridade cristã, sob todos os seus aspectos. Fora absurdo supô-lo, por um instante sequer, pois ninguém, melhor do que ele, sabe quão profunda e absolutamente verdadeira é a sentença que serve de lema à Doutrina Espírita, estabelecendo que ela é a mesma doutrina do Crucificado, ou do puro Cristianismo. O que a sua interrogação exprime, legitimando-se plenamente, é antes um brado de angústia da sua alma de crente sincero, angústia de que também a nossa participa, diante de circunstâncias e conjunturas que somente se justificariam, ou, pelo menos, explicariam, se de alguma forma se pudesse capitular de delituoso o exercício da caridade.

Entretanto, por muito que repugne à razão e a consciência desanuviadas admiti-lo, de tal natureza se tornou a mentalidade geral dos homens, no seio das sociedades ditas civilizadas e qualificadas de cristãs, que unicamente pela afirmativa pareceria possível responder-se à pergunta com que o nosso estimado companheiro de labor cristão encimou o seu artigo. Dir-se-ia, com efeito, que, por se haver tornado substancialmente cética e materialista, entremeada exclusivamente de egoísmo, de orgulho, de vaidade, de superlativa presunção, aquela mentalidade acabou, como aliás o estão revelando os fatos que há três anos se desenrolam em quase toda a superfície do planeta, por escravizar inteiramente as almas aos interesses mais subalternos e às ambições mais grosseiras, a uma cupidez tal, que as desvaira e cega para a visão do que quer que não esteja no âmbito da mais sórdida materialidade.

Ora, a caridade é filha primogênita do amor, sentimento de ordem puramente espiritual, composto de devotamento, de desinteresse, de abnegação, de renúncia, numa palavra: de altruísmo integral e, assim sendo, desde que sentimentos opostos ao amor são os que dominam o coração do homem, a verdadeira caridade deixa de ser compreendida o termo continua de uso corrente, mas com uma significação totalmente abastardada, pois que a caridade passou a consistir em dar esmolas e em fazer donativos mais ou menos vultosos, com maior ou menor ostentação, sempre de modo a granjear para a vaidade o prêmio que esta vive a buscar ansiosamente: os elogios, os louvores mundanos, as honras de benemerência terrena. Ninguém mais portanto, entende, nem pode entender que a caridade seja qual a definiu o Apóstolo Paulo, dizendo, no capítulo 13 da sua 1ª Epístola aos Coríntios:

            "Se eu distribuir todos os meus bens para sustento dos pobres e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada disso me aproveita.
A caridade é paciente, é benigna, não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade nunca jamais há de acabar ou deixem de ter lugar as profecias, ou cessem as línguas, ou seja abolida a ciência".

Daí, necessariamente e logicamente, o entender-se que faze-la de maneira diversa daquela isto é, dando esmolas com ostentosa retumbância; faze-la, procurando, sem alarde, aliviar os sofrimentos aos enfermos do corpo, levantando o ânimo aos que se deixaram abater, levando o conforto moral aos desalentados e desesperançados, libertando de seus perseguidores invisíveis os possessos do "demônio", orientando, por meio da prece, para a fonte da misericórdia inesgotável, o pensamento e o coração do que se revolta e blasfema, é prática indébita da arte de curar, quando não simples curandeirismo muito embora não haja nesse proceder o mais pequenino laivo de dolo, que era, ao tempo das velharias obsoletas, o que constituía a figura jurídica (cremos ser assim que se dizia) característica da contravenção ou do delito.

Dado isso, chega-se, de dedução em dedução, à conclusão lógica de que exercer a caridade, como a exercia Jesus, cuja vida foi toda ela um ato de caridade, e mandava que os seus seguidores de então e de todos os tempos a praticassem, é tão somente exercitar o curandeirismo, donde o corolário tremendo, mas irrecusável, de que o Cristo de Deus, o Messias prometido e mandado ao mundo, foi apenas o mais eminente curandeiro que a terra já conheceu, não sendo também outra coisa os seus apóstolos, os seus discípulos e todos os cristãos primitivos, cuja fé e humildade lhes permitiam fazer o que os apóstolos e discípulos faziam.

É possível e provável, quase certo mesmo, que nos lembrem, ou apresentem, como objeção ao que vimos de dizer, a divindade de Jesus, divindade que não só lhe facultava operar a série imensa dos "milagres" que produziu, como outorgar aos seus escolhidos a capacidade de igualmente os operar. Não colhe, todavia, a objeção.

Em primeiro lugar, a sua divinização foi obra de cunho meramente humano, legitimada, até certo ponto, pela impossibilidade em que se encontravam os homens, devido ao enormíssimo atraso das inteligências de apreenderem e compreenderem as causas determinantes dos efeitos que observavam. Tais efeitos, então, tiveram que ser considerados "milagres" e como só uma divindade poderia realizar coisas que pelo seu aspecto de prodígios extraordinários pareciam inteiramente fora para sempre da alçada das criaturas, a deificação daquele que as realizava em tão larga escala e só pelo poder da sua vontade foi a consequência natural. Progredindo, porém, a inteligência do homem, por virtude da lei universal da evolução, semelhante deificação perdeu a sua razão de ser e se acha hoje abolida completamente, para os que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir, pela compreensão, em espírito e verdade, graças ao advento do Consolador prometido, dos Evangelhos, onde não há uma palavra do Cristo de Deus, autorizando a divindade que lhe atribuíram; onde, ao contrário, superabundam, conforme se acha demonstrado, à saciedade, em Allan Kardec e em Roustaing, as com que Ele antecipadamente infirmou, privando-a de qualquer fundamento durável, a que a sua presciência lhe mostrava de antemão que viriam a atribuir-lhe, como efetivamente aconteceu.

Em segundo lugar, tanto não era na qualidade de Deus que Ele praticava a caridade, como costumava praticá-la, com as características que mais tarde Paulo, por Ele inspirado, lhe assinaria, que declarou aos que lhe ouviam as prédicas: fareis as obras que eu faço e outras ainda maiores, dirigindo-se, não somente aos discípulos ou aos que no momento o rodeavam, mas aos que então e de futuro guardassem a sua palavra, isto é, lhe seguissem os ensinamentos, que Ele próprio resumira num mandamento único, o do amai a Deus sobre todas as coisas, amando ao próximo como a vós mesmos.

O que acabamos de expender basta, parece-nos, para corroborar o que disse o irmão e amigo autor do artigo que nos moveu a traçar estas linhas e para lhe testificar a nossa solidariedade no doloroso espanto que o induziu a formular a interrogação com que intitulou o seu escrito. Entretanto, convém atendamos ainda a uma, pelo menos, das contestações que o espírito de seita não se furtará a contrapor-nos. Fá-lo-emos, contudo, de outra vez, para não alongarmos demasiado estas observações que, apesar de sumárias, já alcançaram excessiva longura...
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Será crime a caridade? Parte 2

Reformador (FEB) Janeiro 1943

Concluímos, no último número do "Reformador", as primeiras observações que nos sugeriu o artigo ali transcrito, que o estimado e operoso confrade Fred Figner publicara, sob o título acima, no "Correio da Manhã", dizendo que ainda nos cumpria atender a uma, pelo menos, das contestações que o espírito de seita nos anteporia. Consideremo-la.

Essa contestação é a de que o poder ou a faculdade de produzir as obras que Ele produzia, praticando a caridade-amor, o Divino Mestre somente o outorgou aos que iam ser os continuadores da sua missão e aos sucessores destes últimos, consta, antes de tudo, notar que Jesus, em nenhuma ocasião, falou sequer em sucessores especiais para os apóstolos e para os primeiros discípulos. A instituição de tais sucessores equivaleria a ter Aquele que viera fundar a Igreja Universal, cujo templo é o nosso planeta, cujos fiéis são todos os que praticam a sua moral simples e cujos sacerdotes são todos os de coração mais ou menos puro, que arrebanham os Espíritos transviados, para reconduzi-los ao divino redil, fundado uma igreja particularista e sectarista, qual a que fundaram, desprezando-lhe os ensinos, os que, ex-autoritate própria, se constituíram únicos herdeiros dos apóstolos. Absurdo dos absurdos.

Essa pretensão, ao contrário, Ele a deixou prévia e decisivamente invalidada por várias formas e em diversas circunstâncias. Fê-lo, quando declarou: Não são os que dizem: Senhor! Senhor! os que entram no reino dos céus, mas exclusivamente aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. Fê-lo, igualmente, quando, respondendo aos que lhe diziam que sua mãe e seus irmãos o chamavam, disse: "Quem são minha mãe e meus irmãos?" E acrescentou: "Minha mãe e meus irmãos são todos quantos fazem a vontade de meu Pai que está nos céus" querendo de tal modo significar que somente se lhe acham ligados pelos laços do amor fraternal únicos e inquebráveis, compondo a sua família espiritual, que somente pertencem à sua Igreja os que fazem a vontade do Pai celestial. E qual é a vontade que, cumprida, estabelece a ligação espiritual com Jesus? Ele desde logo aboliu quaisquer possíveis dúvidas a respeito, ao declarar que toda a lei e os profetas se contêm neste mandamento; amarem a Deus as criaturas de Deus, amando-se reciprocamente umas às outras.

Há, no entanto, ainda mais, que não permite se mantenha de pé por um instante a contestação que examinamos, como sendo a que provavelmente o sectarismo religioso apresentará, no pressuposto de que tão só aos que se arvoraram em herdeiros dos apóstolos é lícito possível realizar as obras que Jesus obrava e os apóstolos, depois, produziram, isto é praticar a caridade, sem limitação de espécie alguma, em observância do mandamento que acima lembramos.
                                   
Há, com efeito, no Evangelho de Marcos (cap. 9, v. 37-40), esta passagem
eloquentíssima:

"Disse-lhe em seguida João: Mestre, vimos um homem que expulsa os demônios em teu nome, mas que não te segue. Nós lho proibimos. Jesus disse: Não lho proibais, porquanto ninguém há que, tendo feito um milagre em meu nome, possa depois dizer
mal de mim, visto que quem não é contra vós é por vós; e quem quer que em meu nome vos dê de beber um copo d’água, por serdes do Cristo, não perderá, eu vo-lo digo em verdade, a sua recompensa."

Estas palavras que, pelo seu largo alcance e profunda significação, merecem estudadas detida e pormenorizadamente, conforme o faremos mais tarde, se Deus no-lo permitir, cortam cerce a contestação ou alegação que vimos apreciando, pois que firmam, como verdade insofismável, que a qualquer filho de Deus é dado fazer as obras que Jesus fazia, operando prodígios de caridade, desde que seja seu discípulo, isto é, haja tomado sua cruz para segui-lo, nele deposite fé viva, firmemente confie no seu amor e, humildemente submisso aos ensinos do seu Evangelho, obre sob o influxo desse sentimento, que teve nele a mais sublimada personificação entre os homens.

Do que deixamos expendido, forçosamente se há de concluir que exercer a caridade, curando os enfermos por todos os meios de que se possa dispor, expelindo os "demônios", reconfortando os desalentados, desentrevando as consciências, iluminando com a luz da verdade evangélica os entendimentos, restituindo fé aos que a perderam ou a tenham vacilante, dando, em suma, de beber um gole da água viva que mata toda sede d’alma, aos sequiosos de justiça, de liberdade, de paz e de ânimo para a difícil jornada da redenção, não representa privilégio de quem quer que seja, ainda que o consagrem as leis humanas e os cânones religiosos.

Nada obstante, como, aliás, fatalmente havia de acontecer e já o indicavam os próprios acontecimentos que culminaram no sacrifício do Gólgota, surgiram igrejas, declarando-se únicas depositárias da palavra do Cristo, únicas capacitadas para interpretá-la, mesmo quando de meridiana clareza, únicas cujos fiéis se achavam habilitados a reproduzir as obras do Cristo, a praticar a caridade como Ele exuberantemente a praticou, certas de que, para assim procederem, haviam conseguido realizar a transação, ou que outro nome tenha, que não logrou levar a melhor aquele personagem de que falam os Atos dos Apóstolos e que pretendeu obter destes últimos, por preço que lhe parecia bastante elevado, o dom de sarar os doentes, de dar vista aos cegos, de restituir os movimentos aos paralíticos, de limpar os leprosos.

Os fatos, porém, se encarregaram, para logo e através dos séculos, de abater tão injustificável pretensão, de mostrar que semelhante transação nenhum êxito alcançara, deixando prognosticar que aos que intentarem efetivá-la sucederá, se já não sucedeu, o que se verificou com o personagem a que vimos de aludir e que, tendo ouvido a resposta de Pedro à sua proposição, caiu fulminado. De fato, salvo algumas raras figuras eminentes, de legítimos cristãos, que afloraram, de tempos a tempos, no seio delas, para não deixarem que em completo olvido mergulhassem os ensinamentos do livro da vida, o que se há visto é que os demônios zombam dos hissopes (é, provavelmente, a manjerona, um pequeno arbusto) e da água benta e que os enfermos, na sua imensa maioria, nenhum alívio logram da ação dos que se dizem sucessores dos apóstolos.

Nem outra coisa poderia ocorrer, porquanto as obras a que se referia o Divino Mestre declarando: fareis as que eu faço e outras ainda maiores, somente sob a égide do Cristo podem fazer-se, ou, seja, com o espírito da doutrina evangélica. Ora, tendo-se divorciado sem tardança desse espírito, é claro que jamais poderiam as igrejas terrenas obrar em nome do Cristo de Deus.

Por outro lado, divorciados do espírito do vero Cristianismo, onde tudo tem que ser amor e, por conseguinte, devotamento, abnegação, renúncia, desprendimento dos bens terrestres, sacrifício, empolgou-as dominante o espírito de seita que é cego, fanático, intolerante, porque sempre voltado para os interesses materiais, e os que as constituíram se Identificaram de pronto com aqueles fariseus a cujo respeito ponderava Jesus que não entram e não consentem que os outros entrem, pelo que acrescentava, serão os últimos a entrar.

Evidenciado fica assim que, do ponto de vista religioso, o tratamento de enfermos, com desinteresse absoluto, por exclusivo amor do bem, mediante ou não a aplicação de medicamentos indicados por inspiração de benfazejos Espíritos do Senhor, é ato de pura religião, tomado este termo em sua mais ampla e lídima acepção, porque é ato de fé e humildade, praticado sob o influxo das virtudes que caracterizam o cristão em Jesus Cristo. Essas virtudes vedam ao praticante da caridade, que a todas as demais sobreleva, estabelecer distinção entre ortodoxos e heréticos, entre sábios e ignorantes, entre pobres e ricos, pois, observando-os pelo prisma dessa virtude, ele nos outros homens somente vê irmãos seus, porque filhos do mesmo Pai, que apenas os distingue pelo grau de progresso moral realizado e de cuja misericórdia, conseguintemente, pela só razão de ser infinita, nenhum se acha excluído.

Daí o poder afirmar-se que, como o proclama o Espiritismo, resumindo toda a Doutrina Cristã, sem caridade não há salvação, ou, por outras palavras, não há conquista da vida eterna, que, entretanto, todos têm de alcançar mais cedo ou mais tarde e que, segundo a definiu Jesus, é a vida do Espirito que adquire, pela perfeição moral, o conhecimento de Deus e nele se integra.

Acima de tudo, portanto, o que cumpre ao homem, para viver como o quer Deus, aqui na terra e fora daqui, é praticar de todas as formas e por todos os meios a caridade, uma vez que, enfeixando num único mandamento, o do amor a Deus e ao próximo, toda a legislação divina, o divino Mestre revelou e ensinou, exemplificando o seu ensino, que o Pai de ilimitada bondade apenas prescreve a todas as suas criaturas que o amem, demonstrando cada uma esse amor pelo proceder, para com todas as demais, como se
diante de si o tivesse a Ele, necessitado de seu valimento.

Ulteriormente encararemos a questão com que nos ocupamos sob outros aspectos, não menos importantes que ela comporta.
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Será crime a caridade? Parte 3

Reformador (FEB) Março 1943

Apreciados, como aqui o têm sido, à luz do Evangelho, entendido este, não segundo a letra, que agora mata, mas segundo o espírito, que vivifica sempre, os fatos de cura mediúnica das enfermidades físicas que atacam as criaturas humanas, por trazerem enfermas da lepra do pecado suas almas; apreciados tais fatos, de modo geral, pelo prisma sob que devem ser encarados, como simples, porém indeclinável obediência ao princípio básico do Cristianismo do Cristo, o de que sem caridade não há salvação, cremos que nem mesmo qualquer mentalidade, que porventura exista, exclusivamente moldada em cânones sectaristas, ou em postulados, científicos puramente materialistas, se julgara autorizada a responder pela afirmativa à pergunta que o nosso companheiro Fred Figner tomou para epígrafe do seu artigo e que mantivemos nestes por serem um desdobramento daquele.

Com efeito, nenhuma mentalidade bastante equilibrada, que se caracterize pela clareza e segurança do raciocínio, encontrará meios de contestar fundadamente que a prática da caridade, da caridade cristã, que implica desinteresse, renúncia, abnegação, da caridade estereotipada na parábola evangélica do Samaritano não está sujeita a nenhuma sanção humana, nem, ainda menos, pode ser considerada o que as leis humanas qualificam de contravenção.

Assim, claro é que também não pode ser equiparada, por exemplo, à do curandeirismo que sempre se assinalou pela aferição de lucros ou proventos pecuniários, a prática da caridade, conforme o Espiritismo a concebe, em perfeita concordância com o que prescreve a doutrina verdadeiramente cristã. Semelhante equiparação jamais lograria subsistir, não somente por se não justificar de forma plausível, como porque se denunciaria resultante de sentimentos e propósitos nada consentâneos com o espírito realmente religioso, nem com o espírito realmente cientifico; como derivantes de sentimentos e propósitos baldos da nobreza e elevação que dão cunho preciso aos atos e atitudes que se inspiram no bem, que se orientam para o ideal de justiça, de bondade e de paz, que as almas dignas acariciam e que só não atrai as que o orgulho e o egoísmo incompatibilizaram com a tolerância, a benevolência, a equanimidade.

Tampouco se justifica a condenação da prática de que vimos falando e da doutrina que a ordena - o Espiritismo, por constituir aquela e sanciona-la este uma invasão indébita e prejudicial do campo da ciência, ou, mais exatamente, da ciência médica, a cujo cargo exclusivo se acha, conforme o entendem muitos, a missão de combater as enfermidades, de tratar por meio de medicamentos, os doentes do corpo, livrando-os das suas doenças. A erronia dessa maneira restrita ou restritiva de entender-se o problema da cura dos males físicos que atormentam os seres terrenos, problema que se apresenta não sob uma apenas, mas sob múltiplas faces, que todas precisam consideradas, porque não há dissociar do espírito o corpo, mero instrumento seu, para só cuidar do último; a erronia desse modo de entender, dizíamos, Jesus a deixou evidenciada quando, ao mandar que seus discípulos fossem pelo mundo pregar o Evangelho do Reino, lhes pôs por dever precípuo a prática irrestrita da caridade para com todos os seus irmãos, determinando-lhes:

"Restituí a saúde aos doentes, ressuscitai os mortos, curai os leprosos, expulsai os demônios", acrescentando a seguinte cláusula insofismável: "Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido." (Mateus, 10:8).

Essa cláusula ou condição envolve, sem sombra de dúvida, a existência de alguma coisa por eles recebida. Que seria? Alguma coisa que houvessem haurido da ciência ou do saber dos homens? Não, de certo, visto que o divino Mestre e médico divino, se dirigia a criaturas completamente desconhecedoras dessa ciência.

Logo, tratava-se de alguma coisa provinda de mais alto, de fora do âmbito dessa ciência de fora mesmo da Terra. Que poderia então ser senão um dom de Deus, uma faculdade que o Pai outorgara a seus filhos, àqueles como aos demais, entre as diversas outras com que os dotara, faculdade, portanto, natural, embora de especial natureza, atento o fim, igualmente especial, a que deveria ser aplicada e especial ainda, porque destinada a somente ser utilizada com proveito pelos que a empregassem com amor e por amor? E caridade é amor.  

Daí decorre, forçosamente, que toda intervenção humana, tendente a impedir o exercício desse dom, em nome da ciência terrena, que nada é em presença da do Criador do universo, equivale a contrapor-se o homem a um desígnio da Divindade onisciente, à execução de uma lei divina e, conseguintemente, natural. Acresce que o dom ou faculdade a que nos referimos ultrapassa de muito o campo que a ciência terrestre labora, porquanto, ao passo que esta se cinge a curar umas tantas enfermidades que afetam o envoltório perecível do espírito, as que, após de porfiados trabalhos de observação e experimentação e mediante inspirações e intuições vindas do plano invisível, se tornaram, por assim dizer, familiares aos homens, o dom ou faculdade sobre que discorremos vai ao ponto de facultar a cura dos leprosos, a expulsão dos demônios (muitas vezes denominados no Evangelho "espíritos de enfermidade") e a ressuscitação dos mortos, isto é, dos que os homens consideram tais por se mostrarem com todas as aparências do estado de morte, ou os a quem a medicina terrena se reconhece de todo impotente para restituir a saúde.

É, pois, uma prescrição do médico divino, que ninguém ousará ter como curandeiro, por não empregar meios terapêuticos humanos no tratamento dos que buscavam o recurso da sua ciência extraterrena, o que se contêm na sua ordenação àqueles que iam lançar por toda parte as bases da universal Igreja Cristã, onde o culto se resume na prática ilimitada da caridade por amor de Deus e do próximo, e iam, ao mesmo tempo, proclamar c demonstrar que os que cressem na sua palavra de enviado do Pai celestial fariam as obras que Ele fazia e outras ainda maiores.

Ora, dada a sua procedência, nada poderá nunca prevalecer contra essa prescrição que, aliás, se acha implícita naquele preceito máximo do amor ao próximo, como expressão do amor a Deus, que é todo amor e bondade.

Quaisquer que sejam as restrições que se ponham, em nome seja do que for, à prática do bem sob todas as formas possíveis, e elas são infinitas, o que vale dizer ao exercício da caridade cristã segundo a exemplificação do divino Modelo e dos que Ele prepôs à disseminação imediata de seus ensinos, da doutrina que há de salvar das abominações do erro e da mentira a pobre humanidade da terra, ainda tão infeliz por escrava de toda casta de preconceitos, de toda sorte de ideias preconcebidas e de
sectarismos contrários à razão, porque apenas inspirados pelo orgulho e pelo egoísmo, que continuam a contar-se entre as mais graves e funestas enfermidades do espirito; quaisquer que sejam os cerceamentos que se criem à consciência e a fé dos que possuam o dom de Deus de que falou o Redentor à Samaritana a beira do poço de Jacó e se sintam capazes de utilizá-lo a benefício de seus irmãos, fim único para que lhes é outorgado, o conhecimento da verdade as fará desaparecer, eliminando-as como árvores que o Pai não plantou, de modo que apenas subsistam, sem que nenhuma obscuridade lhes empane a refulgência, as palavras do Messias, respeito as quais disse Ele próprio que não passariam, mesmo que passassem o Céu e a Terra.

Essa verdade é a que Ele personifica e personificará para todos os tempos; é a que constitui a essência e o fundamento das suas prédicas sublimes; é aquela a que se referia, rendendo graças ao Pai por havê-la ocultado aos doutos e aos prudentes, incapazes de a compreenderem e sentirem, e revelado aos pequeninos e humildes, aos "pobres de espírito", do espírito do século, cuja preocupação maior são os interesses mesquinhos da vida material; é a que se resume numa só palavra, conforme Ele o testificou, a palavra - amor. É a verdade que a terceira revelação, a revelação espírita, o Espiritismo, veio colocar de novo em foco, desentranhando o puro Cristianismo do amontoado imenso de interpretações grosseiramente errôneas, de falseamentos intencionais, de interesseiras deturpações e invenções flagrantemente incompatíveis quer com o espírito, quer com a letra dos ensinamentos que o estruturam.

A dor e o sofrimento farão que mesmo aos mais recalcitrantes ela se imponha, como todos os dias se vai impondo a um número sempre mais avultado dos que até à véspera a repeliam em nome dos princípios materialistas que adotavam, do espírito de seita que os dominava, ou do desprezo que, tendo-se na conta de "espíritos fortes", votavam a ideias que, segundo criam, somente em seres incultos e propensos às superstições podiam encontrar agasalho.

Não são afirmações graciosas estas, filhas da imaginação fantasista ou dos veementes anseios que arrebatam a alma idealista por ver cumpridas em toda a sua extensão as sagradas promessas que o amoroso Pastor meigamente ofereceu às suas pobres ovelhas, garantindo-as feliz resultado aos diligentes esforços que empreguem por evadir-se da misérrima condição a que se condenaram e por ascender à perene Bem aventurança reservada a todos os que se tornam "filhos de Deus", depois de se terem feito "filhos do pecado". São, ao contrário, afirmações decorrentes da observação dos fatos que, embora multiplicando-se incessantemente, ainda passam, em geral, despercebidos à maioria das criaturas, pelo viverem com os olhos quase exclusivamente voltados para as coisas mínimas e insignificantes que urdem a vida cotidiana.

Dentre eles, um se destaca, ocorrido ultimamente, que, pelo seu alcance e expressividade, nos forra ao trabalho de citar outros mais, que corroborem as nossas assertivas. Aludimos ao de que tivemos conhecimento lendo a concludente monografia que publicou, faz pouco tempo, o ilustre médico Dr. Mario E. Azambuja, um dos fundadores do Sindicato Médico Brasileiro, personalidade de grande projeção nos meios cultos do nosso país, especialmente nos círculos constituídos pelos profissionais da medicina, onde alcançou muito renome e aos quais consagra, particularmente, o seu trabalho.

Em próximo artigo (*) trataremos dessa monografia, tão importante, quão singularmente curiosa e eloquente, com a qual, ao que se nos afigura, seu eminente autor abriu aos descrentes, aos negadores, aos céticos, convidando-os vivamente a perlustrá-la, uma senda por onde muitos deles não tardarão a enveredar e que os conduzirá ao ponto que deixamos marcado acima - o do conhecimento da verdade básica do Espiritismo, como fator de eliminação de todas as prevenções e hostilidades que o Espiritismo ainda suscita e que dão lugar a que ainda se cogite de cercear, aos seus adeptos, aos neo-cristãos, a prática da caridade, qual ele a considera, encarece e preceitua.


(*) Não foi encontrada a continuação desse artigo em todo o ano de 1943. Não foi encontrado o nome do autor deste artigo nas revistas.