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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A Prece


A Prece  
por Orvile Derby A. Dutra
Reformador (FEB) Novem 1941

            Uma vez sob o influxo dos sentimentos cristãos, esforça-se o espírita por seguir todos os ensinamentos do Evangelho, jamais perdendo qualquer oportunidade para aplica-los, quer sejam parabólicos, quer não, segundo o espírito, que não segundo a letra.

            Estuda constantemente esse código divino e procura exemplificar os seus sábios preceitos, sempre com o propósito firme de seguir as pegadas do Mestre excelso. Assim fazendo, logo de início se lhe evidencia que a prece, a prece íntima, sentida e fervorosa é meio seguro de pôr-se em ligação estreita com o seu Criador e Pai.

            De pronto reconhece que, se do Evangelho nem um só til ficará apagado ou será suprimido sem aplicação, não foi certamente para encher de vãs palavras tantos textos do livro da vida, que o divino Mestre tão multiplicadamente encareceu a necessidade da oração.

            Com efeito, pondo por obras a doutrina que pregava, Ele, o Cristo, além de recomendá-la, praticou a prece, ensinando como deve orar a criatura para entrar em comunhão com o céu.

            Ensinou-a mediante o “Pai Nosso”; exemplificou-a orando quando expelia dos possessos os Espíritos malfazejos; bem como quando aconselhou a seus discípulos que pedissem a seus discípulos que pedissem ao Pai trabalhadores para a sua Seara e quando operou a multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes. Exemplificou-a, sobretudo, na hora suprema e angustiosa de Getsemani.

            Nunca, pois, deve, nem pode o espiritista esquecer-se da prece, a menos que resolva lançar fora a única chave que lhe permite encontrar solução para os problemas sérios com que à miúde se defronta e que, não raro, imensamente o angustia. Aliás, se assim fizer, já não será espírita, na verdadeira significação do termo.

            Em todas as suas reuniões, mesmo que se destinem a simples palestras ou conferências doutrinárias, ou ainda, a tratar que quaisquer assuntos sérios e elevados, a prece é de necessidade imperiosa, porque é ela que saneia o ambiente, tornando-o harmonioso e sereno, de maneira a não comportar dissídios ou dissenções graves.

            Da mesma forma, por ocasião de um nascimento ou de uma desencarnação, junto de um aflito ou desesperado, nas horas angustiosas da vida, nos momentos críticos ou difíceis, é na prece que se depara a fonte de energias de que ele necessita, ou de que precisa o seu irmão para vencer a prova, compreendendo-lhe a razão e capacitando-o para dizer, com sinceridade e humildade: cumpra-se no servo a vontade do Senhor, palavras que, ditas de coração, trazem inexprimível reconforto à alma atribulada.  

            Não é, porém, somente na prova, no sofrimento que o crente espírita deve lembrar-se do Pai Celestial, para lhe dirigir a sua prece. Também nas horas de alegria, de satisfação, de gozo interior, em que a alma lhe transborda de contentamento, deve ele orar com o mesmo fervor e a mesma humildade que revele noutras ocasiões, agradecendo a esmola de alguns momentos de alívio, para recobramento das energias que lhe são necessárias a transpor sem desfalecimentos este vale de lágrimas, que é a Terra.

            Ainda grandes oportunidades lhe oferecem, para bendizer de Deus numa prece sentida, as horas das refeições, em que lhe cumpre agradecer o “pão de cada dia”, que lhe é dado para sustento do corpo, suplicá-lo para todos os que, amigos ou inimigos, vivem mal podendo alimentar-se parcamente; e implorar, para si e para todos os seus irmãos, o pão espiritual, o pão do espírito, que alimenta a alma, dando-lhe força para, escalando a montanha da evolução, conquistar a vida eterna.

            Nesse ato, igualmente, o cristão imitará o seu glorioso Mestre, que jamais partia o pão para distribui-lo com os que o cercavam, sem primeiro elevar o pensamento aos céus, numa prece de ação de graças ao Pai de infinito amor.

            A oração, porém, cumpre não o esquecer, é sentimento, é um como perfume santificador que se evola do coração. Não necessita, portanto, de fórmulas, de ritos, nem de exterioridades, como não reclama tal ou qual atitude, desde que o Espírito, dentro da sua prisão carnal, se encontre em atitude respeitosa, consciente da sublimidade do ato de orar, e isso quer em reuniões públicas quer na intimidade da criatura consigo mesma.

            O Cristo, que de contínuo preceituava a oração e a vigilância, nunca nenhuma forma de orar prescreveu, Antes, proscrevendo toda ritualística para esse ato de comunhão com os mais elevados planos da espiritualidade e com o Criador, recomendou aos seus discípulos: “quando orardes não useis de repetições desnecessárias, como fazem os gentios, que pensam que pelo muito falarem é que serão ouvidos.” (Mateus, 6: 7)

            A prece, não o esqueçamos, para que com efeito o seja, tem que ser, acima de tudo, uma demonstração de humildade real, virtude que resume toda a grandeza espiritual. Sejamos, pois, verdadeiramente humildes, ao menos quando orarmos, para que, perdoados da falta dessa virtude em quase todas as outras circunstâncias da nossa vida, possamos, como discípulos do seu Evangelho, aproximar-nos cada vez mais do meigo Rabi da Galileia.

Nem ritos, nem dogmas



Nem ritos, nem dogmas  
por Orvile Derby A. Dutra
Reformador (FEB) Maio 1941

            0 Espiritismo, cuja base inamovível é o Evangelho do divino Mestre, explicado e entendido segundo o espírito que vivifica e não segundo a letra que mata, não tem chefe entre os homens, não havendo, portanto, entre os espiritistas, superiores e inferiores, nem qualquer espécie de hierarquia.

            Seu chefe único é o Cristo, em face de cuja doutrina todos são iguais, como filhos de um mesmo Pai - Deus, o Criador do Universo. Uma só hierarquia se pode admitir entre eles: a que decorre do grau de progresso realizado, da maior ou menor soma de virtudes adquiridas. Hierarquia, pois, toda de ordem moral.

            Definindo, aliás, com precisão essa hierarquia, lá está no Evangelho: “Não queirais vós ser chamados mestres, porquanto um único mestre tendes e todos sois irmãos; um só doutor e um só mestre tendes: o Cristo”; e “aquele que for o maior entre vós será o vosso servo, porquanto o que se exaltar será humilhado e o que se humilhar será exaltado”. (Mateus, 23: 8-12) .

            Não admite ritos, nem dogmas, pois prescreve que seus adeptos se interessem pelo aperfeiçoamento de tudo, a todos assegurando ampla liberdade de pensar, de sorte que todos podem agir como melhor lhes pareça, guiados pela sua fé, pela sua convicção, pela sua consciência, certo, porém, cada um de que lhe cabe inteira a responsabilidade dos atos que praticar e das obras que realizar.

            Não prescreve juramentos, fiel ao ensino do Evangelho, onde se leem estas palavras de Jesus: “Eu, porém, vos digo que absolutamente não jureis; que o vosso falar seja: sim, sim; não, não". (Mateus, 23: 34 e 37).      

            Não autoriza, em absoluto, que, do que entenda com a sua doutrina, alguém se utilize por interesse, ou para auferir lucros pecuniários. Ao contrário, preceitua: “Dai de graça o que de graça recebestes”. Por mais pobre que seja o espírita, ainda que viva em extrema penúria, não lhe assiste o direito de envolver a doutrina nos seus interesses de ordem material. Cumpra ele os preceitos do Evangelho e tudo mais lhe será dado “por misericórdia e de acréscimo”.

            Para o espírita, não há céu, nem inferno, como determinados lugares de gozo e de sofrimento pois ele sabe, sem sombra de dúvida, que, se tais lugares existissem, Deus careceria de perfeição, de sabedoria, de Justiça e de misericórdia, uma vez que, em tal caso, reservaria os manjares celestiais para os fatos e potentados da Terra, privando de todo alimento espiritual, por toda a eternidade, os fracos e desgraçados de toda espécie, não lhes concedendo nenhum meio de melhorar-se, para também serem felizes um dia, quando estes últimos são precisamente os que mais necessitam do amparo da sua misericórdia, porquanto, conforme diz o Evangelho, “o médico não é para os que se acham sãos, mas para os doentes, que precisam de remédio”.

            Em vez do céu e do inferno das religiões dogmáticas, o Espiritismo proclama e demonstra a realidade da lei justa e misericordiosa da reencarnação, segundo a qual cada um é filho de suas próprias obras, cada um edifica o seu futuro e constrói a sua felicidade espiritual, pelos seus próprios esforços, mediante a purificação de seus sentimentos, a depuração de sua alma, para o que volta a tomar um corpo de carne na terra, quantas vezes forem necessárias, até que pague o último ceitil das suas dívidas, que são as transgressões da lei divina. (Mateus, 5. 26).

            Não legitima hinos, cânticos, músicas, nas reuniões dos crentes, porque não admite exterioridades ritualísticas, devendo a pompa de tais reuniões consistir na vibração viva dos pensamentos, a benefício de todas as criaturas, amigos ou inimigos, em obediência à lei suprema do amor a Deus e ao próximo. A única música para ele admissível é a que as preces fazem ressoar no infinito, de harmonia com as notas altas ou baixas do coro de gemidos e ais dos que sofrem mais ou menos angustiados, música essa cujo acorde mais vibrante é o da compaixão pelos que se comprazem na treva da ignorância de Deus e do seu amor, de um e outro divorciados. Como cântico, um só devem os crentes entoar, no recesso de seus corações, o de “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”.

            Por flores, só quer as que desabrocham na alma, com o perfume da gratidão de cada uma pelo bem recebido, ou pelo mal a que foi poupada. Por ornamentos, reclama apenas o das virtudes, a se exteriorizarem no trabalho edificante, na solidariedade a todos os seres, assim nas boas como nas más horas, na tolerância para com os que, à falta de virtudes, alimentam em seus espíritos vícios e paixões más, que geram os ódios e os desejos de vindita; aos quais manda o Evangelho se retribua com o – “Perdoa-lhes, Pai, que eles não sabem o que fazem”.

            Não legitima hinos, cânticos, músicas, nas res de pedra, porque só reconhece um templo digno do Criador: o universo por Ele criado, e por altar só um se compadece com os ensinamentos do seu Cristo: o do coração das suas criaturas, quando votado ao bem e ao progresso de tudo quanto naquele universo se contém e, particularmente, do que concerne ao orbe terráqueo, sem cabimento para distinção de raça, cor, credo, ou posição social. Nesse altar é que pontifica a consciência, esclarecida pela razão, que se curva reverente ao – “a cada um segundo as suas obras”.

            Também não autoriza existência de imagens, porquanto uma só imagem deve ter a criatura sempre presente à sua visão espiritual: a de um Deus onipotente, bom, justo e misericordioso, princípio e fim de todas as coisas, ponto culminante de toda a perfeição, ao qual chegarão um dia todos os seus filhos e que promulgou como lei suprema a do amor, cuja execução se afirma pela prática da caridade em todos os sentidos, sob todas as modalidades, em todos os terrenos, de todas as formas, sem que jamais “a mão direita saiba o que faz a esquerda”, o que quer dizer: sem eiva de vaidade, sem exibição, sem objetivar os aplausos ou louvores do mundo, pois a que assim é praticada tem nesses louvores e aplausos a sua recompensa, nenhuma outra podendo, nem devendo, além dessas, esperar os que só assim são caridosos.

            Tudo quanto deixamos dito ressalta das lições de N. S. Jesus Cristo, constantes do Evangelho em espírito e verdade. Uma só coisa, portanto, nos cabe a nós que desejamos ser espíritas, espíritas-cristãos: tudo envidarmos por cumprir o Evangelho segundo o espírito que vivifica, visto que só assim poderemos reconhecer em consciência que o Espiritismo nos tem sido útil e proveitoso, por nos haver aproximado do caminho que leva à perfeição moral.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Ser ou não ser...



Ser ou não ser...
por José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Julho 1946

            Não há nada que mais descoroçoe um Espírito do que a dúvida. Aquele que duvida, experimenta todas as torturas infernais. Torna-se presa da imaginação exacerbada, transforma em montanhas míseros grãos de areia, apavora-se diante de anãos, como se estes fossem gigantes... Espanta-se com a própria sombra, que a luz bruxuleante duma vela faz adquirir proporções enormes... Mergulha na treva das conjeturas incongruentes e supõe gritar, quando apenas sua garganta emite sons abafados e ininteligíveis.

*

            A dúvida tem feito maior mal à Humanidade do que a estupidez humana. Ela destrói a tranquilidade, envenena a alma, subverte o amor, transformando-o em ódio, e faz do homem um monstro, De Tomé, que duvidava estivesse diante do Cristo ressurgido, a Hamlet, espicaçado pela incerteza do “ser ou não ser”, dista um passo. A dúvida é servida pela dor moral e pelo despeito. A inconformação arma o braço do homem que vacila, sob a influência da incerteza. Duvidar é descrer; descrer é abjurar a vida, renunciando ao que ela possui de mais belo e sagrado: a paz de espírito.

*

            Crer é confiar. A descrença vive parede e meia com o desespero. O que sustenta a ilusão de felicidade que o homem precisa para suportar as asperezas da vida é a esperança, Não há esperança no coração dos que duvidam, como não pode haver confiança no coração dos que descreem. A descrença não é apenas um estado d’alma: é um estado mórbido. O homem, partícula ínfima do cosmos, só é feliz quando se põe em conformidade com o ritmo universal, Já dizia Bassuet: "O Espírito é feito para conhecer a verdade" .
           
*

            Tudo na Natureza é harmonia. Tudo obedece a leis sábias e inflexíveis, que transcendem o entendimento humano. Essa incapacidade de compreender exaspera o homem divorciado da harmonia cósmica. Como não compreende, prefere negar a curvar humildemente a cabeça ante o Incompreensível. A sua negativa, porém, não tem força para alterar o tono das leis universais. Apesar disto, atira-se às vezes contra a Verdade, para concluir, paradoxalmente, com Lange, que há uma "psicologia sem alma...".

*

            Toda negação provém da dúvida. É ela que retarda o advento da felicidade humana, porque corroí os sentimentos mais nobres do homem. Aquele que duvida é como se fora cego, surdo e paralítico: não vê, não ouve, não caminha... Acorrenta-se a convicções absurdas e para no meio da estrada, enquanto os outros, estugando o passo, avançam, progridem, evoluem...

*

            Uma "psicologia sem alma" é como uma "filosofia sem sabedoria", um corpo sem vida. Hoje, não mais é possível perder tempo com jogos de palavras, porque os problemas psíquicos já encontraram, em muitos casos, explicação racional. O "credo quia absurdum” cedeu lugar à meditação arejada pelo raciocínio liberto de dogmas, de preconceitos, de atitudes espirituais instáveis, porque fundamentadas no artifício. Para compreender melhor, o homem deve apelar-se na lógica, pois esta nos ensina a alcançar a plenitude da razão pela justeza das conclusões a que induz o raciocínio. Onde a razão toma a pé, a dúvida deserta. Tanto assim que, segundo Cícero, "assim que a razão conhece a verdade, a alma prende-se a ela e ama-a".

*

            O mundo se contorce de dores e se agita, num desespero interminável, porque ainda duvida. E há de permanecer vacilante como Hamlet, filando a macabra caveira da incerteza, enquanto não permitir que a luz da Verdade lhe penetre o entendimento. E assim, com voz soturna, continuará dizendo, sombriamente, num solilóquio arrepiante:

            - Ser ou não ser, eis a questão...

sábado, 4 de janeiro de 2020

Alertando os Espíritas



Alertando os espíritas
por Fred Figner
Reformador (FEB) Março 1947

            Na revista "Time", de 8 de Julho, li um tópico sobre a resolução do governo dos Estados Unidos, de atacar o problema da loucura. Segundo o testemunho do cirurgião general Thomas Parran, mais da metade dos leitos de todos os hospitais dos EEUU, são ocupados por criaturas dementes.

            Aqui, infelizmente, a situação não é melhor, mesmo porque, em relação aos Estados Unidos, não temos, em proporção à população, nem metade dos hospitais que há lá e só o Rio de Janeiro lhes fornece 14 dementes diariamente.

            De todas as moléstias, a não ser a lepra e o câncer, a loucura é a mais difícil de curar, Quando produzida pela sífilis, se atacada a tempo, pode ser curada: fora disso, os psiquiatras ainda não acertaram, em definitivo, com o diagnóstico. Em muitos casos trata-se do mau funcionamento das glândulas de secreção interna, como nos tem diagnosticado o Espírito Dr. Andrade, quando consultado, Porém, pelo menos 50% dos casos de loucura é devido à ação de Espíritos que, ou por vingança ou outras razões, se ligam por laços fluídicos ao indivíduo, para o inutilizar, perturbar, anular a sua vida moral, ou por Espíritos mandados por macumbeiros, por encomenda de criaturas que ignoram que o seu dia de prestar contas também chegará. Nestes 50%, o médico, com, raríssimas exceções, não penetra e não cura, porque não encontra a causa nem acredita nela. Esta parte compete aos espíritas realizar a cura. Para isto, o Sr. Desembargador Hungria não encontrou termos para ser considerado crime no Código Penal.

            O mesmo que se dá com a loucura, dá-se com a embriaguez. Também nisso há mais ou menos 50% de influência espiritual. A outra parte é vício adquirido e não vencido em vidas passadas. Se os viciados quisessem curar-se, bastaria que eles, todas as vezes que sentissem vontade de beber, do fundo d’alma apelassem para o Alto, pedindo a Jesus que os socorresse, e eles seriam socorridos pelos seus Guias, os bons Espíritos, e ficariam curados.

            No caso dos primeiros 50%, a maioria é causada por Espíritos viciados na bebida que, morrendo, em muitos casos ignoram o seu estado espiritual, encostam-se, ligam-se fluidicamente, como sanguessugas, a uma criatura e fazem dela o seu instrumento de gozos, saciam a sua sede de bebida, dominam-na, mesmo contra sua vontade, como se deu com uma senhora de Governador Valadares, Minas, de que há tempos nos ocupamos. Mas há também casos de vingança e muitos outros. Cumpre aos espíritas, aos estudantes do Evangelho, que já compreendem a sua responsabilidade perante Jesus, que mandou expelir os demônios e curar os enfermos em seu Nome, formar pequenos grupos de crentes, 5 ou 6 pessoas, entre eles 2 ou 3 médiuns, e trabalhar para a cura desses que a medicina oficial, por enquanto, não sabe curar, porque, geralmente, não atinge a causa.

            Devemo-nos colocar em condições de podermos com autoridade moral, em nome de Jesus, doutrinar esses pobres infelizes, com amor e carinho, fazendo-os sentir o nosso desejo de os ver reencaminhados na senda do progresso espiritual, libertos dos vícios. Fazer ver aos Espíritos que exercem vingança que, se eles foram prejudicados pelas suas vítimas de hoje, em uma precedente encarnação terrena, por sua vez, também, tinham prejudicado a outros em vidas anteriores e possivelmente à sua atual vítima mesmo.

            Devemos orar e suplicar a Jesus que lhes conceda a graça de poderem ver o seu passado e ter a prova de não lhes caber o direito de vindita e, sim, vendo este passado, o dever de implorar perdão e misericórdia ao Pai. Procedendo assim, muitos Espíritos foram encaminhados para o redil de Jesus. Muitos lares, onde reinava a desarmonia, foram transformados em lares verdadeiramente cristãos.

            São esmolas que se colhem, que representam o tesouro que ninguém nos pode tirar: a satisfação de, em parte, termos cumprido nosso dever.

            Quanto não se poderá fazer nesse sentido, se todos os que têm aptidão dedicassem 2 ou 4 horas por semana a esses trabalhos!

            Médiuns não faltam e ansiosos por prestar os seus serviços em Grupos bem organizados, onde haja boa concentração e unidade de desejos: a aspiração de serem fiéis servos do Senhor.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fraternidade



Fraternidade
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Março 1952

            “Amemo-nos uns aos outros...” João.
                                                               I João, 4:7.

            Nem um só monumento do passado revela o espírito de fraternidade nas grandes civilizações que precederam o Cristianismo.

            Os restos do Templo de Karnak, em Tebas, se referem à vaidade transitória.
           
            Os resíduos do Circo Máximo, em Roma, falam de mentirosa dominação.
           
            As ruínas da Acrópole, em Atenas, se reportam ao elogio da inteligência sem amor.

            Santuários e castelos, arcos de triunfo e muralhas preciosas, hoje relegados à miséria e ao abandono, atestam a passagem da discórdia, da prepotência e da fantasia.  

            Antes do Cristo, não vemos sinais de instituições humanitárias de qualquer natureza, porque, antes d'Ele, o órfão era pasto à escravidão, as mulheres sem títulos eram objeto de escárnio, os doentes eram atirados aos despenhadeiros da imundície e os fracos e os velhos eram condenados à morte sem comiseração.

            Aparece Jesus, porém, e a paisagem social se modifica.

            O povo começa a envergonhar-se de encaminhar os enfermos ao lixo, de decepar as mãos dos prisioneiros, de vender mães escravas, de cegar os cativos utilizados nos trabalhos de rotina doméstica, de martirizar anciãos e zombar dos humildes e dos tristes.

            Um novo mundo começa ...

            Ao influxo do Divino Mestre, o homem passa a enxergar os outros homens.

            O lar, a maternidade, o berçário, a escola, o hospital, o asilo, são recintos sagrados e um novo gênio de luz ergue-se muito acima daqueles que se faziam respeitar pela espada, pelo sangue, pela sagacidade e pela força, para governar as almas na Terra.

            Sem palácio e sem trono, sem coroa e sem títulos, o gênio da Fraternidade penetrou o mundo pelas mãos do Cristo, e, sublime e humilde, continua, entre nós, em silêncio, na divina construção do Reino do Senhor.


Do Blog: Feliz 2020!

Educação



Educação
Editorial
Reformador (FEB) Março 1951

            Eduquemos nos padrões de Jesus e o futuro será presidido pela realidade cristã. Ensinar para o bem, através do pensamento, da palavra e do exemplo é salvar. Em razão desta verdade o Senhor foi chamado o Divino Mestre, e é ainda por isso que o reino de Deus na Terra é obra de educação.”

            Os conceitos supra transcritos são de André Luiz, o mensageiro celeste que tantas e tão grandes verdades tem revelado e continua revelando aos cristãos-novos através do maravilhoso hífen entre o céu e o plano terreno que é Francisco Cândido Xavier.
             
            Diante da conceituação desse luminar do Além, a propósito do valor e da importância da Educação, sentimo-nos confortado e cheio de bom ânimo. Mais uma vez; nos convencemos de que soou a hora da escola. Chegou o dia em que se faz imprescindível concentrar nossa atenção no problema educacional, a fim de que os demais problemas, àquele relacionados, tenham solução.

            Os males que vêm flagelando a Humanidade, através dos séculos, são efeitos de uma causa que jamais foi compreendida e enfrentada devidamente. Os homens voltejam em torno dela, passando, em seguida, a combater suas consequências, motivo por que os mesmos acidentes se repetem numa contumácia, desconcertante, zombando dos meios e processos empregados para debelá-los. E assim, por certo, continuará até que os homens despertem e descubram o modo eficaz de atingi-las.

            Amiserando-se de nossa incapacidade e cegueira, assistindo aos infrutíferos esforços por nós despendidos numa campanha exaustiva cujos resultados são aparentes e ilusórios, os nossos Irmãos Maiores estão tocando no assunto, não mais de forma generalizada e indireta, porém ferindo o alvo positiva e clarissimamente. Mais, não poderão fazer, visto esbarrarem com o nosso livre-arbítrio.

            Portanto, ou cuidamos da Educação ou teremos falhado lamentavelmente em face da tarefa que nos foi confiada, profitentes que somos, ou nos dizemos ser, da Terceira Revelação, cujo objetivo precípuo é reviver a escola do Mestre de Nazaré, trazendo à baila a sua palavra de redenção.

            Observando-se o programa educacional em vigor já no que respeita ao oficial, já no que concerne aos particulares que se oficializam, verificamos um erro verdadeiramente desastroso em seus efeitos. O fim almejado é criar técnicos e titulares, que, devidamente habilitados, exerçam sua atividade no sentido de ganhar dinheiro, de enriquecer, jogando com os conhecimentos adquiridos, os quais devem conferir-lhes maiores possibilidades e mais destreza em atingir o referido alvo.

            Há poucos dias nos veio às mãos um anúncio de certa “Escola Técnica de Comércio”, de onde extraímos os seguintes “sugestivos” reclamos:

            “Nossos métodos de ensino não visam somente formar excelentes contabilistas mas principalmente preparar futuros industriais, comerciantes de elevada categoria, altos funcionários públicos, banqueiros, enfim, homens e mulheres de destacada capacidade no mundo dos negócios. O curso comercial exige menos tempo, é mais econômico e oferece maiores probabilidades de enriquecimento. Além disso, já estamos percebendo que ser comerciante, industrial ou banqueiro, diplomado por curso técnico, é tão importante quanto ser médico, advogado ou engenheiro.”

            Em tal se resume a finalidade da educação consoante o ponto de vista generalizado. Os diretores da escola em apreço disseram franca e abertamente aquilo que todas as demais visam, guardando, embora, as conveniências devidas na maneira de se externarem. Fazer técnicos, adestrar na arte, perícia e habilidade de adquirir riquezas e, se possível, fama e glória, adaptando-se ao meio - eis o programa educacional do século em que vivemos.

            Ora, não é, nem pode ser, esse o propósito da Educação, que resume o - porquê - da Vida, cujo objetivo há de corresponder necessariamente ao valor e à excelsitude dessa mesma Vida.

            Educar é promover a evolução humana conscientemente, desenvolvendo, em harmonia, os poderes espirituais que herdamos de nosso Pai celestial, destacando-se dentre eles a inteligência, a vontade e o sentimento. Destas faculdades, o homem tem curado com maior desvelo da inteligência, relegando as demais a plano secundário, porque, mediante o cultivo intelectual, ele consegue dar maior expansão às volições egoístas que o dominam. Daí o grande surto de progresso verificado naquele setor, ao lado da crise moral que ameaça precipitar o mundo no abismo.

            A nossa pseudo civilização de que tanto se ufanam os dirigentes e magnatas é obra erguida sobre areia movediça. Ao sopro das paixões desaçaimadas, ela oscila em suas bases
instáveis, ameaçando desabar fragorosamente.

            A Educação pode ser comparada a um triângulo equilátero, representando cada linha uma faculdade. Desenvolvidas desproporcionalmente, temos o que, em geometria denomina-se “triângulo escaleno”, prefigurando o aleijão que caracteriza o sistema educacional da nossa época.

            Ao Espiritismo, que é o desdobramento do Cristianismo, cognominado, por isso, de Terceira Revelação, cumpre-lhe reviver em espírito e verdade a escola cristã, rememorando e incutindo na mente e no coração dos homens, e particularmente das crianças, os ensinamentos evangélicos cuja precípua finalidade é formar caracteres, criando indivíduos cônscios de sua própria dignidade, possuindo noções ínfimas de justiça e senso prático de responsabilidade.

            A execução, porém, deste programa, só é possível mediante educandários, colégios e escolas espíritas disseminadas por todos os recantos do Brasil, torrão assinalado pelo Cruzeiro luminoso, que, do céu, lhe vem indicando o roteiro a seguir.

            A obra de redenção, personificada no Cristo de Deus, repetimos ainda uma vez, é obra de educação. Se o Espiritismo não secundá-la, carece-lhe o direito de intitular-se: Terceira Revelação.

"Do País da Luz"



          “A emancipação pela morte abre-nos vastos e infinitos horizontes novos, ao mesmo tempo que limita e cerra até, pontos de vista que supúnhamos de uma vastidão sem fim e de uma grandeza absoluta. É que o nosso modo de ver na Terra é tudo quanto há de mais falso e convencional.”
(“Do País da Luz”)
Reformador (FEB) Dezembro 1954

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A vida verdadeira

Vinícius


A vida verdadeira
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Março 1952

            Se a vida começasse com os primeiros vagidos da criança e tivesse o seu desfecho no derradeiro suspiro do moribundo, não passaria de engenhoso engodo, habilmente concebido, para manter o homem, durante algum tempo, sob a sensação enganadora de uma aparente realidade.

            Suas incontestáveis belezas e encantos, como também suas estupendas realizações e conquistas, nada mais seriam, em síntese, senão mitos e quimeras conducentes aos maiores desapontamentos e à mais cruel decepção.

            Ciência, filosofias, artes e expressões religiosas em seus aspectos mais excelentes; coragem moral, renúncia e sacrifícios; dedicação, perseverança e fé; otimismo, bom ânimo, aspirações puras e elevadas; idealismos transcendentes tendendo à consumação do belo, do justo e do verdadeiro; enfim, surtos, arrancadas e porfias amoráveis buscando unir e confraternizar a Humanidade, apenas representaria, tudo isso, o bruxulear descompassado de uma chama que se extingue, lançando ao vento seus postremos lampejos.

            Se assim realmente fosse a vida, não mereceria ser vivida. Melhor fora que jamais existisse. Mas, felizmente para o homem, a realidade é bem outra: a vida, neste orbe, é a manifestação do Espírito através da matéria devidamente organizada para esse fim. A alma é imortal e, por isso, responsável. Veste-se do corpo ao nascer, e dele se despe ao morrer. Seus esforços e suas lutas, seus empreendimentos e suas aspirações são meios de aprendizagem mediante os quais ela vai, em seu eterno presente, reparando o passado e conquistando o futuro.

            Evolver é o objeto da vida. Amar é a sua função. Vencer é o seu destino, gravitando para a fonte de onde promana: Deus.

            A quimera e as ilusões procedem das falsas interpretações que têm da alma, da maneira errônea de concebê-la, confundindo-a com o corpo que ela movimenta do nascimento à morte.

            Fantasias e sonhos vãos resultam da falsa visão daqueles que concentram e delimitam as operações da vida ao âmbito estreito deste planeta, ao cenário instável e movediço da existência humana.

            Semelhantes conceitos e conclusões não procedem apenas do raciocínio, da lógica e do senso comum; nem, ainda, de doutrinas e escolas fundadas e mantidas por autoridades terrenas: são revelações e testemunhos trazidos à Terra por aqueles que já transpuseram as suas fronteiras, penetrando o limiar do Além.

            Não se trata de dogma ou de ponto de fé imposto pelos credos de menor ou maior projeção, mas das vozes autorizadas de nossos irmãos, daqueles que mourejaram conosco e nos precederam na passagem deste para outro plano, onde continuam exercendo suas atividades através dos atributos inerentes e inseparáveis do Espírito imortal.

            A miragem que engana, fascina e desnorteia está aqui, neste cenário onde os homens se acotovelam; está no fato de tomarem a transitoriedade da presente existência como expressão absoluta da vida, quando representa tão somente uma fase passageira, transcorrida no curto lapso de tempo que vai da encarnação à consequente e natural desencarnação.

            Se o nascer fosse o começar, o morrer seria, realmente, o terminar.

            Como, porém, o Espírito preexiste à sua incorporação ou nascimento, segue- se, logicamente, que após a desincorporação ou morte, ele continuará existindo. Se ele veio da esfera espiritual ao nascer, é claro e óbvio que retornará, ao morrer, àquela mesma esfera.

            A alma não é produto da concepção como o é o corpo. Este traz consigo os traços de sua origem, como também as heranças físicas, boas ou más, dos seus progenitores. A alma, porém, sede da inteligência, da vontade e do sentimento, tem a sua gênese na fonte da vida eterna - Deus - ao quem, por isso, o sábio Mestre da Galileia nos ensina a considerar como nosso Pai, estabelecendo destarte, analogia entre o genitor do corpo e o genitor do Espírito. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. A morte, portanto, na acepção de aniquilamento, é a grande ilusão dos sentidos, que, presos à forma, experimentam a sensação do vácuo quando esta forma desaparece.

            O nascimento pode, com justeza, ser comparado à personagem que entra no palco, em devido tempo, a fim de representar o papel que lhe foi distribuído, o qual será, mais ou menos importante, segundo a sua capacidade. O ator, após realizar a sua parte, desaparece atrás dos bastidores, tal como sucede ao homem que, ultimando sua tarefa no teatro terreno, oculta-se no plano espiritual, deixando de ser notada a sua presença pelos que permanecem, ainda, no cenário das formas corpóreas.

            Assim como o artista prossegue em sua carreira, incumbindo-se de novas representações, o Espírito continua reencarnando-se em outras existências, nesta ou em outras ribaltas onde a vida se ostenta em seu curso de perene evolução.

            A vida, portanto, não é uma ilusão, uma quimera, um engodo. Ao contrário, é a única realidade, a única evidência. Incontestável, porque Deus mesmo é a sua manifestação no imensurável palco universal de sua infinita criação.

            O que precisamos é estudá-la para compreendê-la e senti-la: em sua verdade, tanto em nós como em tudo que nos rodeia.

            O que precisamos é aprender a solucionar os seus problemas, vivendo-a como deve ser vivida, com dignidade, honra e nobreza, considerando sua origem divina.

            À medida que a santificamos em nós, espiritualizando-a progressivamente, lhe iremos sondando a natureza e sentindo a indestrutibilidade de sua estrutura inconcebível e inacessível à relatividade da inteligência humana.

            Não basta, pois, viver. É preciso viver bem, penetrando a profundeza da vida. Eu vim para terdes vida e vida em abundância, disse o Cristo. Viver, tudo vive. Vive o minério, vive a planta, vive o animal, vive o homem. A vida vegetal é mais complexa que a mineral. A vida animal sobrepuja a vida das árvores; e a vida do homem sobrepõe-se a das à dos animais. As expressões que a vida assume são, portanto, progressivas.

            Acima da vida humana, outras modalidades existem em escala sempre ascendente. Do homem a Deus verifica-se uma distância infinitamente maior que aquela estabelecida entre o verme e o Homem.

            Tratemos, pois, de galgar os degraus superiores da vida. Avancemos, subindo conscientemente a sua escada luminosa, espiritualizando-nos, pois em tal importa a melhor e mais eficiente de todas as formas religiosas conhecidas neste mundo, aquela ensinada e exemplificada pelo Verbo Encarnado, quando disse: Eu sou o Caminho. a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai senão por mim.

            Sigamos, então, desassombradamente, as pegadas d'Aquele que é o roteiro reluzente que nos conduz à Vida Verdadeira.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O presente de Rosinha


O presente de Rosinha (Conto de Natal)
José Brígido 
(Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Dezembro 1952

            Aquele asilo, de caridade só tinha o nome. Mas quem visse como as criancinhas órfãs eram ali recebidas, saia contente e confortado, abençoando aquela casa de infelizes. Mas, dona Tereza, certa vez, chegando ali de sopetão, não pode deixar de exclamar, ao ver uma menina, nos seus cinco anos incompletos, limpando o chão imundo com um pano ainda mais sujo e tão pesado que quase ela não o sustinha nas mãos:

            - Tão pequenina e já nesse rode serviço!

            Um sorriso inocente e triste aflorou aos lábios de Rosinha. Ela perdera os pais muito cedo e ficara ao desamparo, numa velha casa de cômodos de Botafogo. Andava suja e rasgada, sem os cuidados que teria, se a sua mamãezinha fosse viva. Condoída da sua sorte, uma mulher do cortiço tomara conta dela. No começo, tudo ia bem, mas, sofrendo também os acicates da miséria e não dispondo de uma preparação moral adequada, acabou por se desinteressar de Rosinha. Pouco se incomodava que ela estivesse bem ou mal. Olhava-a como um entre outros trastes que lhe enchiam a alcova sórdida: indiferentemente. A menina quase não se alimentava e os tenros ossinhos pareciam prestes a furar-lhe a pele emurchecida. Um dia, com a melhor das intenções, o carteiro Aniceto, que lhe conhecia o drama, propôs à mulher:

            - Dona Sebastiana, ó dona Sebastiana!

            - Que é, seu Aniceto! Que que há!

            - A Rosinha está doente?

            - Doente o que, seu Aniceto! Isso é uma pestinha ruim como que!      .

            - Está tão magrinha... Ela não come?

            - Se não come é porque não quer! Comida é pouca mas não falta. Dá prá gente enganar o estômago. Ela é luxenta, seu Aniceto... Pobre com luxo é desaforo. Dar na boca, não dou, não...



            - Mas ela ainda é muito pequena, dona Sebastiana...

            É sim, mas já tem idade prá saber o que faz.
           
            - Se eu fosse a senhora punha ela num asilo de órfãos. Se ela lhe dá tanto trabalho...

            - Se dá! E não me ajuda nada, seu Aniceto! Eu já quis fazer isso, mas é tanta exigência, tantos papéis, que desisti. E fica essa pamonha a me amolar o dia todo, como se meus filhos não chegassem!

            - Seus filhos são mais crescidos e mais fortes, dona Sebastiana ...

            Rosinha estava perto, porém, na sua candidez, não percebeu que falavam a seu respeito. Distraia-se com uma caixa de fósforos vazia, contente como se fosse belo brinquedo. O carteiro, comovido, abaixou-se, fez-lhe um agrado, interrompido logo pela Sebastiana:

            - Não faça isso, não, seu. Aniceto! O senhor está dando asa a essa menina e eu depois é que vou aguentar...

            Aniceto não protestou. Apenas fez esta pergunta:  

            - Estou vendo que a senhora anda muito cansada. Quer que eu a leve para um asilo?

            - Se quiser, até agora mesmo.

            - Já, não. Depois voltarei para lhe dizer qualquer coisa. Até outro dia, dona Sebastiana. Adeus, Rosinha, adeus!..

            E ausentou-se, pensativo.


*

            Rostinho magro, olhos fundos, cabelos ralos e empastados pela falta de trato, a menina estava chupando os dedinhos sujos quando o Aniceto a veio buscar. Sofria muito, sem dúvida. Como não conhecesse coisa melhor, chorou ao ser levada dali. Era multo cedo para distinguir o ruim do pior. Não queria sair e chamou, com a vozinha débil:

            - Tiana! Tiana! Tiana! ...

            E lá se foi, por entre lágrimas, para a casa de caridade que, na boa fé do seu coração sensível, lhe havia arranjado Aniceto.

            Uma vez fechada a porta, Rosinha sentiu e estranhou o ambiente. Fria, a preceptora chamou-a e ela, distraída, não atendeu. Foi o bastante:

            - Estou vendo que você tem sido tratada com muito mimo. Venha cá! – berrou, irritada.

            Assustando-se, Rosinha chorou.

            - Ainda chora, não é? Não quero criança manhosa aqui! Só mandam prá cá estes “molambos”! Está tão suja que até dá nojo!

            E fez um gesto de repugnância.

            Mandou que a lavassem e lhe dessem uma roupinha limpa. Fê-la sentar-se à mesa com as outras crianças, todas de semblante melancólico. Desabituada e saudosa do ambiente em que sempre vivera nos dois anos que mediavam entre o seu nascimento e a acolhida da Sebastiana, Rosinha desandou a chorar convulsivamente.

            Sem procurar compreender o estado psicológico da menina, a preceptora agarrou-a brutalmente pelo braço, sacudiu-a e gritou para que todos ouvissem:

            - Cale a boca! Não quero gritos, não quero choros aqui!


            Enfraquecida e nervosa, Rosinha chorou ainda mais. Foi, então, arrastada para o “quarto escuro”, como exemplo às demais crianças.

            - Fique aí, sua malcriada! Você hoje não janta, para aprender a ser obediente!

            Ao regressar ao refeitório, bradou, colérica:

            - Eu já estou "cheia”, ouviram?! A primeira que quebrar a disciplina irá para o “quarto escuro” sem comer!

            As meninas, aterrorizadas, baixaram humildemente a cabeça, pois já conheciam a “energia” da preceptora.

            Quase três anos passou ali. Já estava mais crescidinha, pois ia fazer cinco anos. Achava-se limpando o chão quando dona Teresa a viu. Penalizada, não se conteve e se dirigiu à preceptora:

            - O que a senhora está fazendo não é direito. Como é que põe uma menina dessa idade e tão fraquinha em serviços pesados?

            - A senhora compreende, dona Teresa, o asilo é pobre, não pode pagar a empregados. É preciso que todos os asilados ajudem um pouco...

            - Não, não está direito! Sei que algumas pessoas dão o suficiente para que o asilo tenha, pelo menos, dois empregados. No entanto, não é isto, o que estou vendo. Nunca supus que esta fosse a caridade que a senhora pratica aqui dentro!

            Antes dona Teresa não tivesse dito nada. Mal ela saiu, a preceptora foi buscar Rosinha, furiosa. Bateu-lhe com violência e mandou-a para o famoso “quarto escuro”. Cansada, faminta e pesarosa, cheia de medo e sem saber porque fora castigada, Rosinha chorou até adormecer. E só despertou quando ouviu que a chamavam docemente:

            - Rosinha! Rosinha!

            Ela abriu os olhinhos claros no quarto escuro. Teve a impressão de que estava todo iluminado. Fez carinha de choro e pôs um dedinho na boca... Receava que a preceptora ...

            - Não tenha medo, Rosinha... Venha cá, comigo, venha...


            - Quem é você, heim?

            - Sou o irmão de todas as criancinhas... Sou Jesus...

            - Mas quem é Zisus?

            - Jesus, Rosinha, é, como você, filho de Papai do Céu...

            - Você vem mi batê, vem? Eu num choro mais, não... Sim?..

            A sua vozinha cortava o coração. Ela tremia que fazia dó. Jesus, cuja irradiação luminosa espancara as trevas do improvisado ergástulo, não pode impedir que duas pérolas rolassem de seus olhos infinitamente meigos.

            Abraçou e beijou enternecidamente a pequenina, confortando-a:

            - Bater em você, porque, Rosinha?

            - A moça dexô você intrá aqui, dexô?

            Depois, receosa, fez nova pergunta:

            - Zizus, você também chorô i vai ficá preso vai?

            - Não, Rosinha.. Hoje é Dia de Natal e eu vim buscar você para uma grande festa...

            Batendo as mãozinhas, a menina sorriu como nunca havia sorrido.  

            Então, Jesus alegrou-a ainda mais:

            - Vou levar você comigo para um lugar muito bonito, onde há uma porção de meninas bonitas como você, cantando e brincando...

            Graciosamente, Rosinha beijou a face de Jesus e, nesse instante, sua cabecinha loura ficou mais dourada e em volta dela se formou uma auréola de luz. Pousou a cabecinha no ombro do Divino Mestre e, adormeceu.

*

            Quando despertou, fraquinha, por não se ter alimentado, achava-se estranhamente satisfeita e alegre. A preceptora dela se aproximou, sempre mal-humorada:

            - Como é, manhosa, ainda está muito birrenta?

            Rosinha sorriu, fez uma carinha brejeira e sacudiu a cabeça, negativamente:

            - Ande, venha cá! Vá comer o seu mingau que está esfriando. Como hoje é Dia de
Natal, você tem de limpar a mesa, as cadeiras e o chão, bem limpos, ouviu?

            Rosinha acenou a cabeça, denotando haver compreendido. E foi comer o mingau.

            De repente, viu Jesus. Sentindo grande fraqueza, ela deixou a cabecinha pousar na mesa, enquanto a colher lhe rolava da mão entreaberta para o chão. A preceptora, atenta e ríspida, ao vê-la assim, gritou, estentoricamente:

            - ROSINHA! Comporte-se! Vamos, coma depressa!

            Ela porém, não deu ouvidos à preceptora. Forças estranhas a invadiram e ela foi ao encontro do Mestre, que a esperava de braços abertos.

            - Venha, anjinho, venha cá!

            Rosinha parecia feliz, na companhia de Jesus...


*

            Cá embaixo, neste Umbral de lutas e incompreensões terríveis, que o egoísmo mais torpe acoroçoa, um médico acabava de assinar um papel em que se lia, apenas: “Colapso cardíaco”.

            Era o atestado liberatório que Rosinha obtivera como presente de Natal!..