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terça-feira, 29 de setembro de 2020

A obra da salvação e obra da perdição


 Obra de salvação e obra de perdição

A Redação Reformador (FEB) Março 1943

             Quando já se aproximava o termo da sua missão, dirigindo-se para Jerusalém, onde se entregaria em holocausto pela redenção dos homens, mandou o divino Mestre que dois de seus discípulos se adiantassem, a fim de lhe prepararem uma pousada, distantes que ainda se achavam das portas da cidade santa. Esses discípulos, segundo refere Marcos, passando por uma aldeia, procuraram aí a pousada de que iam em busca. A aldeia, porém, era de Samaritanos e estes, percebendo tratar-se de gente que demandava Jerusalém, negaram-lhes agasalho. Voltando, indignados, a ter com Jesus, perguntaram-lhe aqueles discípulos: “Senhor, queres digamos que o fogo desça do céu e os consuma?" - Repreendendo-os, respondeu-lhes o Mestre: "Não sabeis de que espírito sois? O filho do homem não veio para perder os homens e sim para salvar os homens.”

             Porque não quiseram os Samaritanos dar acolhida ao filho do homem e à sua comitiva? Tão só por motivo da divergência que existia entre eles e os Judeus, no tocante às ordenações de Moisés. No interpretarem as Escrituras, dissentiam aqueles das ideias destes últimos e não admitiam que o templo de Jerusalém tivesse o prestígio que os Judeus lhe atribuíam. Por outro lado, foram esses mesmos dissídios que inspiraram aos discípulos a lembrança de obterem que os Samaritanos da aldeia em questão fossem destruídos, aniquilados por fogo vindo do céu.

             Temos assim divergências de ordem secundária colocando em presença um do outro, em atitude de séria e grave hostilidade, fazendo-os pensar até numa reciproca destruição, dois grupos de criaturas que, entretanto, se encontravam submetidas a uma mesma corrente religiosa que derivava da legislação mosaica; que adotavam o mesmo código de moral - o Decálogo.

             Transpostos dois milênios, já depois do advento do Consolador prometido pelo Cristo, dentro das fileiras dos adeptos da doutrina que esse Consolador baixou a restaurar no seu primitivo esplendor, a dentro, pois, não mais da doutrina resultante de uma legislação dura e violenta, que consagrava o olho por olho e dente por dente, porém de uma doutrina que se resume no preceito único do “amai-vos uns aos outros”, eis que muitos dos novos Samaritanos, já desejosos de integrar-se nesse preceito para poderem imitar o Samaritano da parábola, defrontam com outros israelitas belicosos, a quererem reduzi-las a cinzas pelo fogo de palavras candentes, embora lhes não ajam os primeiros negado lugar ao sol do Evangelho, saneador de almas, purificador de corações.

             E porque de novo se passam assim os fatos, reproduzindo, de certo modo, o episódio que recordamos acima? Ainda por simples divergências de opiniões em torno de questões somenos, de discordâncias na maneira de ver e compreender pontos mais ou menos insignificantes da doutrina ou da revelação acerca de cujos princípios ou postulados essenciais todos se acham ou se dizem inteiramente concordes.

             A primeira vista, parecerá de difícil explicação semelhante estado de coisas, que aberra desses mesmos princípios e postulados e, mais que tudo, daquele preceito em que o Cristo de Deus sintetizou os seus ensinamentos, para todos quantos se dispusessem a abraça-las, a fim de o seguirem, aspirando a participar da sua glória. Todavia, assim não é. A explicação e a lição corretiva lá estão nas palavras com que Ele retrucou à sugestão que lhe apresentaram João e Tiago: “Não sabeis de que espírito sois?” Preferindo para a sua resposta imediata a forma interrogativa, fê-lo naturalmente porque a afirmativa implicaria a declaração peremptória de que eles ainda ignoravam completamente “de que espírito eram.”, apesar de lhe viveram na companhia desde longo tempo, enquanto que o emprego da outra forma dava a perceber que apenas haviam esquecido momentaneamente “de que espírito eram”.

             Com efeito, esse esquecimento passageiro se produziu neles por influxo das ideias nacionalistas de que os dois ainda se não tinham emancipado integralmente, ideias que os induziam a supor, como depois ocorreu e ainda agora ocorre com respeito às questões que apaixonam os homens, que a ruína daquela aldeia e de seus habitantes encheria de espanto a toda gente e, pelo terror que inspirasse, aumentada o prestígio do Mestre, Este, no entanto, que não cogitava de conquistar prestigio e glória segundo a maneira de entender dos homens, que cuidava exclusivamente de glorificar ao Pai que o enviara, logo retificou o pensamento errôneo e falso dos dois discípulos, dando-lhes um ensinamento que, como os demais que espalhou seria para todos os tempos, para os dias de hoje como para os do futuro, até que não reste por cumprir-se, um til sequer da lei de que Ele se fez, no seio da humanidade, o mais eminente e glorioso arauto, a do amor a Deus e ao próximo.

             Lembrou-lhes então de que espírito era preciso fossem eles inteiramente, dizendo: “O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar os homens”. Com essas palavras, claramente significou que aquele espírito era o da doutrina que Ele personificava e em que os instruía, doutrina que, de puro amor, era e será sempre exclusivamente construtiva, de edificação moral, de união, portanto, de confraternização, de alçamento de todas as virtudes que nascem da virtude excelsa, a da humildade, por Ele exemplificada ininterruptamente, a partir do momento em que apareceu na Terra, até ao que a deixou, ascendendo aos páramos celestiais de onde, em comunhão com o Pai, governa o planeta terreno e dirige a humanidade que o habita.

             Incompatível, pois, com o espírito dessa doutrina é tudo o que tenda a demolir e destruir, a separar os homens, a os inimizar ou desunir, a impedir que eles se demonstrem verdadeiros seguidores do Evangelho e revelem o sinal por que serão reconhecidos como legítimos discípulos d'Aquele que é, e somente Ele o é, caminho, verdade e vida, visto que tudo isso conduz o homem à perdição, porque o induz a pecar e a reincidir no pecado, transgredindo a lei das leis, a lei do amor.

             Dar-se-á que os neo-cristãos, ou que como tais se qualificam pelo haverem, nos modernos tempos, abraçado o Cristianismo em espírito e verdade, isto é, à luz da Terceira Revelação, possam ser de outro espírito, que não daquele de que já deviam mostrar-se possuídos os discípulos a quem Jesus repreendeu pela animosidade que manifestavam para com os Samaritanos da aldeia em que penetraram? Conquanto a resposta a esta pergunta só à consciência de cada um caiba dar com segurança, não se nos afigura ousadia opinarmos que apenas pela negativa pode ela formular-se, tanto mais que, do ponto de vista da inteligência humana, lícito talvez lhes pareça considerar-se em grau mais avançado de desenvolvimento, baseando-se porventura, em haver Jesus dito, aos que lhe pediam explicasse a parábola do semeador: “Pois que! Vós outros não entendeis esta parábola? Como podereis entender todas as parábolas?” ou, seja, todos os meus ensinos?

             Mas, neste caso, como no outro acima, como nos demais em que o divino Mestre estranhou a incompreensão dos discípulos, tratar-se-ia de pouquidade (pequenez) intelectual? Cremos que não, pois, se assim fora, não houvera Ele rendido graças ao Pai por ter ocultado aos doutos e prudentes as verdades de que era portador ao mundo, ao passo que facultava o entendimento delas aos pequeninos e humildes. Menos, portanto, se tratava de compreender através da inteligência, por fruto de raciocínio, pelo emprego da razão, do que de sentir com o coração, mediante as vibrações que neste produzissem as palavras divinas que lhe eram dirigidas, partindo da fonte de todas as vibrações dos mais puros sentimentos.

             Assim, quer quando os discípulos mostravam incompreensão daquela parábola, quer quando revelavam não saber de que espírito eram, os reparos do Senhor tinham a fundamenta-los a deficiência de sentimentos em suas almas, o não se acharem ainda penetrados da essência dos ensinos que lhes Ele tão copiosamente prodigalizava, o não as apresentarem dominadas pela quintessência doe exemplos em que lhes propiciava as múltiplas maneiras de aplicarem aqueles ensinos. Estes, com efeito, e, conseguintemente, a doutrina que Ele pregava, resumindo-se num único mandamento, o do amor, o sentimento do amor constituía, como constitui e constituirá sempre, o espírito daquela doutrina e só a posse desse sentimento, embora dentro da relatividade, maior ou menor, de tudo o que diz respeito ao homem, lhe permite afirmar em consciência que pertence ao espirito a que aludia Jesus: ao espírito do puro Cristianismo, do Cristianismo ora reflorescente na doutrina do Consolador, que outra coisa não faz senão restituir-lhe o esplendor magnífico que lhe imprimiu a palavra do Espírito excelso e sublime que, por delegação do Pai, o trouxe aos que morreram no pecado, a fim de lhes tornar possível a ressurreição para a vida eterna.

             Ora, se, por se denunciarem algo carecidos do sentimento que forma o alicerce da doutrina que o Salvador lhes pregava e exemplificava a todos os instantes, é que os discípulos mostravam não saber de que espírito eram, desde que se atenda à complexidade daquele sentimento, dado que o entramam as virtudes ou dotes morais que impulsionam para o bem a criatura, quais, por somente citar alguns, os da benignidade, da benevolência, da equanimidade, da tolerância, do perdão, da magnanimidade, da bondade, em suma, pode-se deduzir que onde não existam, predominantes, ou em escala apreciável essas características do sentimento do amor, não há o espírito do Cristianismo do Cristo, não há, pois, cristão. Iludem-se funestamente a si próprios os que tais se suponham ou se considerem, pretendendo demonstra-lo apenas por meio de palavras e atitudes que julguem glorificadoras do Filho de Deus, ou exaltadora da sua posição espiritual, olvidados de que uma só glorificação lhe é admissível e grata, segundo Ele mesmo o disse, a que se expressa pelo fazerem os Espíritos que lhe estão confiados a vontade do Pai celestial. E essa vontade é que todos reciprocamente se amem, não fazendo nenhum aos outros o que não queira que lhe façam e procedendo para com os outros como, por amor de si próprio, deseja que para consigo procedam os demais.

             Enfim, havendo rematado sua observação aos discípulos com o declarar que não viera para perder mas para salvar os homens, ou, então, que outro objetivo, diverso do da salvação dos homens, não colimava a doutrina que Ele personificava; que, sem a posse do espírito dessa doutrina, não se realiza obra de salvação e sim de perdição, não há como fugir há conclusão de que, sem esse espírito, ou, o que vem a dar no mesmo, sem o sentimento do amor a traduzir-se pela exteriorização das virtudes ou sentimentos outros que atrás enumeramos, também não há obra ou labor espirita uma vez que Espiritismo é Cristianismo e que idêntica a deste é a finalidade da obra atribuída àquele, na atualidade.

             Mas, onde não haja obra de salvação, conforme a definiu o Cristo de Deus, isto é, de aproximação, de união, de confraternização, de unificação de vontades, de identificação de objetivos elevados, de entrelaçamento de espíritos, de amor afinal, somente haverá obra de perdição, que outra não pode ser a que tenda a desunir, a separar, a inimizar as criaturas, como o é a que se assinala pela intolerância, pela injustiça, pela animadversão, pela violência de qualquer espécie; a que, em lugar do amor, exalça e preconiza o desamor. Obra anticristã esta, porque contrária ao espírito do Cristianismo, é igualmente antiespírita, não sendo lícito, portanto, aos que a empreendam ou executem, esperar que Jesus, o meigo Pastor, que de todos os modos a profligou sempre, os confesse perante o Pai, pois que não o confessam perante os homens os que a levam a efeito.

             Desde que sem caridade não há salvação, toda obra que se não ateste obra de amor, por manifesto cunho de caridade moral, é obra de perdição, porque carente daquele espírito cuja ausência o divino Mestre, que a estranhava em seus discípulos de então, certamente não relevará aos que hoje por seus discípulos se têm.

             Praza ao Senhor que, para remediarem à carência, em seus corações, do espírito de que todos devem ser, estes ultimas cada vez mais cuidadosamente atentem no que dos seus seguidores reclama o Consolador e na finalidade real e verdadeira da obra essencialmente construtiva para que ele foi vindo ao mundo, obra essa inconciliável, sob todos os aspectos, com qualquer outra que vise a destruir seja o que for, a demolir, a constranger, a violar, debaixo de qualquer pretexto, a lei de liberdade sobre que repousa toda a estrutura do Cristianismo espírita ou Espiritismo-cristão, porquanto obra de destruição, de demolição, ou de constrangimento da consciência é obra de perdição, perdição dos que a ela se entregam e dos que por ela se deixam empolgar.

João Batista


João Batista

por Amaral Ornellas         Reformador (FEB) 1º Maio 1919

             Quem foi João Baptista, o homem da solidão e do deserto, que alimentava o seu corpo com mel silvestre e à sua alma com os cânticos maravilhosos das glaucas folhagens, com as vozes misteriosas e soturnas da Floresta?

             Porque se embrenhava ele pelo fundo verde da mata, com o corpo mal coberto por uma pele de camelo, procurando o silêncio da sombra e bebendo o sol coado através da folhagem dos arbustos?

             Porque semelhava uma fera humano, de cabelos revoltos como de um leão, de olhar felino como de um tigre e mãos crispadas como uma gana ameaçadora?

             Porque fazia ecoar pelo deserto a sua voz rouquenha e tonitruante como a linguagem cavernosa dos trovões?

             Porque o João falava ainda pelos lábios espirituais de Moisés, porque o Batista sentia ainda a atração maravilhosa da floresta, em cujo seio Elias tinha meditado sobre a grandeza do Pai, chorando a miséria dos homens.

             Porque o sol pequenino e brilhante que iluminava o corpo de Moisés, o óleo sagrado que lubrificara os músculos de Elias, foi o mesmo óleo que acendeu a lâmpada corpórea de João, foi o mesmo sol encarcerado na matéria do Batista.

             Quando Moisés se despojava do invólucro material na terra de Moab, o seu espírito subia às tranquilas regiões siderais, embalado pelos soluços do povo que o chorava na planície. Subia para adquirir novas forças, beber novas luzes, sorver novos ensinos. Ascendia para descer depois mais iluminado e mais forte para viver o corpo de Elias, enquanto a sua primitiva carcaça se decompunha no vale de Moab entrando no grande laboratório da natureza para o geral aproveitamento das suas moléculas. A alma do profundo legislador hebreu, do divino pastor do rebanho de Israel, que, conhecendo o refluxo das águas do mar vermelho as passou a pé enxuto; profeta que, como nos diz a Bíblia, outro não houve semelhante em todas as coisas fortes e maravilhas grandes, veio com Elias viver a vida das feras, habitar as cavidades dos rochedos, de onde, na frese de Renan, saía como o raio para fazer e desfazer os reis.

             Despojado da vestidura carnal de Elias, ergue-se Moisés novamente às paragens serenas do Bem, e assumindo no Alto a máxima integridade do seu espírito, volta ao Planeta na ascética figura de João Batista, para ser a voz clamante do deserto de que falava Isaias.

             Aí é que a grandeza do seu espírito assume luminosidades fantásticas.

            Seu Deus não é mais o que lhe aparecia numa chama ardente no meio de uma sarça; não mais o que incitava a cólera do anacoreta (o que vive solitariamente) na aspérrima solidão do Carmelo, é o Pai todo carinho e brandura, que o mandara aparelhar o caminho da vida para a passagem luminosa do Amor.

             Ouçamos a sua voz trovejando no deserto: “Fazei penitência!”

             “O machado está posto na raiz das árvores. Toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada no fogo. Eu na verdade vos batizo em água para vos trazer à penitência; porém o que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Esse batizará no espírito santo e em fogo.”

             Que extraordinário poeta era João! Poetar é traduzir por palavras as maravilhas da natureza! O poeta no momento em que sente acender-se no cérebro a lâmpada maravilhosa da inspiração é o mortal que mais sobe a Deus, porque interpreta o mundo através do seu verbo.

             Que extraordinário poeta era João! Vê-se nas suas palavras essa estranha poesia do Oriente, forte porque rescende às virgens florestas; odorante, porque está impregnada da essência suave dos castanheiros em flor; límpida, porque reflete a pureza cristalina das águas dos córregos mansos que rasgam como uma lâmina o colo aveludado da selva.

             O verbo de João tem pela forma o estridulo (som agudo, penetrante) da floresta agitada, e o odor dos castanheiros e a limpidez das águas, se nele pudermos erguer o nosso espírito. As suas palavras têm o poder admirável da síntese. Tentemos traduzir em linguagem corrente o poder dos seus símbolos: Fazei penitência, isto é, limpai a vossa alma, tornai-a pura como o vosso Pai é puro. Fazer penitência é não reincidir nos erros, é caminhar para Deus com a alma voltada para Ele, sem olhar para o caminho percorrido pelos crimes do pecado. Feita a penitência “eu vos batizo em água, porém outro virá depois de mim que vos batizará em fogo.

             A água é o símbolo da pureza, o fogo é a simbolização da tortura. Parece-me que o Batista queria dizer que limpava a alma para o futuro, mas o Outro, investido de funções mais santas, levava essa alma a olhar para o seu passado e sofrer o que era necessário para a sua purificação.

             A dor é o cadinho por onde passam as nossas imperfeições. Eis o batismo de fogo, que só Jesus podia impor. Não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias. Forma admiravelmente poética para exprimir a inferioridade do seu espirito diante da maravilhosa espiritualização daquele que vinha dizer ao mundo que a Terra é apenas um pouso na estrada infinita da criação, porque muitos e muitos são os palácios de seu Pai.

             O machado está posto à raiz das árvores. Toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.”

             Forte imagem que num rápido traço sintetiza com máscula eloquência o que seria preciso acumular vocábulos sobre vocábulos, orações sobre orações, períodos sobre períodos para exprimir em linguagem comum o que o gênio define com um só jato do seu pensamento. O machado é a revelação de Jesus, é o verbo divino que se coloca ao lado do coração de cada homem. Aquele cujos ensinamentos não aproveitarem serão entregues a sua própria ignorância, serão fechados dentro do círculo de fogo da sua imaginação que anseia a luz mas que caminha para a treva, que aspira o Bem, mas que se chafurda no mal. O fogo é a própria tortura como a de um cego que sente o sol queimar lhe a epiderme mas não pode fita-lo entre as colchas douradas do poente ou no túmulo ensanguentado do Ocaso.

             Imaginas agora o que a semente da doutrina de Jesus poderia produzir dentro do cérebro de cada homem, que diverge deste pela maleabilidade do seu caráter como aquele diverge dos demais pelo entusiasmo das paixões que se aninham no seu íntimo, e chegareis à conclusão de que sobre esse símbolo do Batista poderiam escrever-se não períodos sobre períodos, porém livros sobre livros, tomos sobre tomos, toda a copiosa literatura de uma raça.

             O Batista, como todos os grandes sonhadores, deixem-me chamar assim àqueles que passam pela Terra sem viver na Terra, queria dar uma forma, um corpo à sua ideia. E essa corporificação da sua ideia ele a foi encontrar na fresca e límpida corrente do Jordão. O

próprio Jesus não quis despertá-lo do seu grande sonho e lá foi ainda como uma prova da mais rara humildade, receber o batismo daquele que não era digno de desatar ao correias das suas sandálias.

             Eu vos batizo em água!

             Como acharemos profundas essas palavras se nos remontarmos à época em que floresceu João Batista. A água era para os hebreus o único princípio de todas as coisas. Eu vos batizo em água! Isto é, eu vos batizo com o poder que tenho sobre a Terra. O Outro vos dará o batismo do fogo, porque tem em suas mãos o altíssimo poder dos céus.

            A palavra do Batista era como uma vergasta de luz chicoteando a impureza dos homens. E como a abundância de luz ofusca as retinas, Herodíades que se ofendera com a pública verdade do seu adultério estigmatizado por João, consegue de Antipas o seu encerramento na fortaleza de Machero.

             E uma noite em que o palácio do tetrarca se abrira luminosamente em festa, Salomé, a lúbrica filha de Herodíades, depois de provocar Antipas, meio ébrio, com a formosura extuante da sua carne em flor, entre lascivos volteios de uma dança caracteristicamente voluptuosa, estende, por insinuação materna, uma salva de prata ao tetrarca maravilhado e pede, com os lábios desabrochando em sorrisos, que sobre ela seja deposta a cabeça de João Batista.

             Antipas, bêbado de vinho e ébrio de volúpia, ordena a um guarda que cumpra o estranho desejo da irrequieta Salomé.

            E desce o guarda à fortaleza subterrânea. O Batista lá estava sereno, confiante, pensando. - quem nos dirá? - nas passagens mais íntimas do grande pastor das ovelhas de Israel, no canavial ondeante que à margem do rio escondeu o cestinho de junco que mal abafava o seu choro inocente.

            E pensando em Moisés, talvez que um jato de sangue rubro lhe tivesse manchado a brancura da sua divagação espiritual, lembrando-se do cadáver daquele Egípcio que soubera esconder na areia, como soubera esconder-se da cólera do Faraó, refugiando-se em terras de Madian.

             Range soturnamente a porta do presídio, aproxima-se o guarda, refulge no ar uma lâmina brilhante, e eis calada a voz do que clama no deserto.

             E assim terminou a missão do Batista, que foi a do precursor divino, a de preparar com o arado da sua palavra o terreno infértil onde Jesus plantou a semente do Amor. 


 

A Alegria


 A alegria

por P. Marchal

livro: ‘O Espírito Consolador’ (Ed. FEB)

             A alegria não é somente a recompensa da virtude, é-lhe também a fonte. A muitos corações, para que se tornem bons, nada mais falta do que serem dilatados e muita gente existe que só é má a força de ser azedada. Ora, o Espírito Consolador, apoderando-se de uma alma, verte-lhe tanto bálsamo, que lugar nela não fica para o azedume. Sob tal aspecto nos mostra ele Deus e o homem, a morte e a vida, o presente e o futuro, que nos força ao enternecimento. Aquele, em quem a sua luz tem penetrado bastante, sente pelos seus irmãos encarnados uma simpatia, que nada mais poderá desalentar e a caridade deixa de ser uma virtude, para se mudar num arrastamento.

            É de Maine de Biran este pensamento: “Não é bom o que nos faz tristes e o que não é bom não pode ser verdadeiro.” Assim sendo, sobejas razões temos para concluir que estamos com a verdade, porquanto a nossa crença nos dispõe à bondade, por meio da alegria.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O Purgatório


 O Purgatório

A Redação    Reformador (FEB) Dezembro 1929

              A respeito de tão momentoso assunto lemos na “A Luz”, periódico protestante que se publica em Nova Friburgo, sob a direção do pastor local rev. Armando Ferreira, ativo propagandista das letras bíblicas e talentoso escritor as seguintes informações:

                 Por muito boa vontade que se tenha não é possível aceitar-se a UNIDADE da Igreja, tão proclamada pelos padres por causa das verdades históricas. Entre outras doutrinas da Egreja que desfazem a sua tão celebrada unidade, está a do PURGATORIO.

                Essa doutrina aceita, defendida e ensinada pelo Clero hoje, era DESCONHECIDA dos padres e da igreja grega (1). O quinto Concílio ecumênico - ano 553 - CONDENOU o purgatório. Santo Agostinho foi também, contrário a ele, declarando: “DESCENHECEMOS completamente outro terceiro lugar: ainda mais, SABEMOS que a Escritura não fala de de tal lugar!” (Aug. Hyrog, 1,5 tom VIII). Outros teólogos da igreja têm declarado que o purgatório é uma invenção. Borns, católico, atesta: “A punição do purgatório é uma coisa da opinião humana que NÃO SE PODE PROVAR nem pelas Escrituras, nem pelos padres primitivos e Concílios.” Bruys, também católico, declara: “Aquilo que hoje em dia se crê do purgatório, fora DESCONHECIDO AOS APÓSTOLOS e AOS PRIMEIROS FIÉIS (Bruys v. 1 pag. 578). Não obstante Isso tudo, o Concílio de Florença, em 1439, fez do purgatório um dogma e o Concílio de Trento, em 1545, confirmou-o!

                (1) Antigamente a Igreja Grega e a Romana eram UMA SÓ comunidade. Mais tarde, a igreja grega cindiu-se por causa da doutrina.

           Como poderemos aceitar uma unidade assim? Impossível!  

          Sem tomar parte no debate que talvez esteja acima de nossa competência nem interferir num assunto que apresentamos a título ilustrativo, desejariam os, no entanto, que A Luz nos explicasse onde deveria o Concílio de Florença arrumar as almas que, por ter pecados, não devessem ir para o céu, mas que por serem os mesmos pecados, pequenas faltas ou pecadilhos, não merecessem o inferno.

             Parece-nos, que, se Santo Agostinho foi contrário ao Purgatório, e se as Escrituras não o aceitam, bem andou o Concílio que reparou uma injustiça, arrancando ao averno (inferno) aqueles que não tinham culpas capazes de os porem a arder pelos séculos em fora. 

domingo, 27 de setembro de 2020

A Videira e os Ramos

 


A Videira e os Ramos         

 15,1 “-Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o lavrador. Todo ramo que não der fruto em mim. Ele o cortará. 

15,2 E podará todo o que der fruto para que produza mais fruto. 

15,3 Vós, que estais puros pela palavra que vos tenho anunciado,    

15,4  permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim, também vós, não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em Mim. 

15,5 Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele esse dá muito fruto, porque sem Mim, nada podeis fazer. 

15,6 Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo e queimar-se-á. 

15,7  Se vós estiverdes em mim  e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. 

15,8  Nisto é glorificado Meu Pai, em que deis muito fruto e assim tornar-vos-eis meus discípulos”    

          Para Jo (15,1) -Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador... -  tomemos “Caminho, Verdade e Vida”, de Emmanuel  por Chico Xavier:

              “Deus é o Criador Eterno cujos desígnios permanecem insondáveis a nós outros.

            Pelo seu amor desvelado criam-se todos os seres, por sua sabedoria movem-se os mundos no ilimitado.

             Pequena e obscura, a Terra não pode perscrutar a grandeza divina. O Pai, entretanto, envolve-nos a todos nas vibrações de sua bondade gloriosa.

              Ele é a alma de tudo, a essência do Universo.

             Permanecemos no campo terrestre, de que Ele é dono e supremo dispensador. No entanto, para que lhe sintamos a presença em nossa compreensão limitada, concedeu-nos Jesus como sua personificação máxima. Útil seria que o homem observasse no Planeta a sua imensa escola de trabalho; e todos nós, perante a grandeza universal, devemos reconhecer a nossa condição de seres humildes, necessitados de aprimoramento e iluminação.

            Dentro de nossa pequenez, sucumbiríamos de fome espiritual, estacionados na sombra da ignorância, não fosse essa videira da verdade e do amor que o Supremo Senhor nos concedeu em Jesus Cristo. De sua seiva divina procedem todas as nossas realizações elevadas, nos serviços da Terra. Alimentados por essa fonte sublime, compete-nos reconhecer que sem o Cristo as organizações do mundo se perderiam por falta de base. Nele encontramos o pão vivo das almas e, desde o princípio, o seu amor infinito no orbe terrestre é o fundamento divino de todas as verdades da vida.”

             Para Jo (15,2) -Na casa de Meu Pai há muitas moradas...- lemos em “Jesus e Kardec”, por Roque Jacinto:

             “Estamos matriculados num hospital-escola. Aprisionados de maldades, de paixões grosseiras; visitados pela miséria e pelas enfermidades de toda natureza, encontramo-nos em fase de tratamento e recuperação, sob as vistas amorosas do Senhor Jesus.

            No entanto, por provisionados de inteligência que nos permite distinguir o justo do injusto, por dotados de sensibilidade que nos abranda os sentimentos, conferindo-nos os valores da delicadeza e da benevolência - experimentamos um processo lento e laborioso de profilaxia moral e intelectual.

            Somos compelidos a viver no panorama que criamos. O mal faz-nos sentir os benefícios do bem. A noite leva-nos a admirar a luz. A doença induz-nos a apreciar os tesouros da saúde.

            Voltemos os nossos olhos à abóbada celeste e, nas miríades de mundo a tremeluzirem. sentiremos que alguns existem, na condição do nosso, vivendo a nossa fase de transição.

            Seus habitantes, que antes se confiavam às guerras fratricidas, expurgam de seu próprio coração desencantado a ânsia do domínio, não procuram fazer-se maiores e nem mais poderosos do que seus vizinhos. Os lares se re harmonizam e os pais se reintegram na tarefa de tutelar as almas que os buscaram pelas vias da reencarnação. Os que dirigem abraçam-se aos dirigidos e todos eles se vêem como partícipes de uma mesma obra.

            Ali, o material cedeu lugar ao espiritual!

         Os semblantes descoloridos, abatidos pelos sofrimentos e sulcados pelas paixões, são recompostos pela inteligência e pela vida que cintilam com o fulgor que os pintores descobriram na auréola materna e dos anjos.

            Voltemos, porém, ao nosso cotidiano.

            Aqui, se esbarramos ainda com os que se encontram distantes do bem, identificamos, por outro lado, a nova brisa de amor e de caridade que nos visita, na legião de criaturas que reingressaram nos planos da reencarnação para exemplificar, aos tíbios e aos hesitantes, o poder incontestado da bondade.

            Sob a égide do Cristo de Deus: Um novo panorama. Homens e mulheres - em fase inicial de recuperação moral e intelectual - estendendo os seus braços aos sofredores, numa mensagem da mais cândida fraternidade, preludiando a regeneração espiritual a que nos destinamos, orientados pelo Espiritismo Cristão. Não mais só o desespero: a esperança! Não mais só o egoísmo: a caridade!           Não só mais o orgulho: a humildade!

            A nova fé, que se derrama por toda a Terra, retempera-nos o ânimo. Ela não poderia, porém, numa operação miraculosa, remover de vez os obstáculos que edificamos no curso de múltiplas reencarnações. Balsamiza-nos com seu poder consolador, permitindo-nos entrever, nas brumas do horizonte, o sol de um novo dia.

            Temos, pois, um longo roteiro a cumprir. A grande batalha do aperfeiçoamento, que antes presumíamos se deflagrasse no campo externo, onde se situam os nossos semelhantes, foi transferida para o nosso mundo íntimo. Em nosso coração é que se devem derruir, um a um, os falsos conceitos e os maus preconceitos, substituídos pelos genuínos valores do Espiritismo Cristão.

              A grande senha para a vida nova: reforma íntima.

        Abrandar o nosso olhar, disciplinar a nossa língua, quebrar os elos que nos escravizam ao egoísmo, derrubar as muralhas do orgulho de nossa mente, movimentar as nossas mãos no socorro dos que sofrem, caminhar na direção dos padecentes, sentir a predominância do espiritual sobre os bens materiais - eis algumas das renovações a empreender, na posição de quem arroteia a leira da própria alma para a sementeira do Divino Semeador.

            Neste hospital-escola, façamo-nos enfermeiros-guias.

            Ofertemos o tesouro de nosso tempo e de nossas energias para o atendimento e a orientação daqueles que se mostram carentes de afeto e órfãos de luz, a fim de apressarmos a época em que nosso plano será de regeneração.”

             Para Jo 15,7 - Se estiverdes em mim..  leiamos “Palavras de Vida Eterna” de Emmanuel por Chico Xavier:

             “Muitos companheiros perdem recurso, oportunidade, tempo e força na preocupação desmedida em torno do êxito.

            Sonhando realizações mirabolantes, acabam frustrados na mania de grandeza.

            Dizem-se interessados na lavoura do bem, mas, para cultivá-la, esperam a execução de negócios imaginários, a aquisição de poder, a posse de ouro fácil ou a chegada de prêmios fortuitos... E, complicando a própria estrada, observam-se, de chofre, em presença da morte, quando menos contavam com semelhante visita.

            Entretanto, o conquistador do maior êxito de todos os tempos não se ausentou do mundo como quem triunfara...

            Não recebeu heranças amoedadas, não governou princípios políticos, não escreveu livros, não se enfileirou entre os maiorais de sua época...

            Aprisionado como vulgar malfeitor, foi sentenciado à morte e passou como sendo vítima de pavoroso fracasso.

                Contudo, as sementes de amor puro que colocou na alma do povo transformaram o mundo.

            Repara Jesus e perceberás que o nosso problema não é ganhar para fazer, mas de fazer para ganhar.

               A colheita não precede a sementeira, tanto quanto o teto não se antepõe à base.

              Sirvamos ao bem, simplificando o caminho, de vez que a vitória real é a vitória de todos, convictos de que não precisamos gastar as possibilidades da existência em expectativa e tensão, porquanto, se estivermos em Cristo, tudo quanto de que necessitamos será feito em nosso favor, no momento oportuno.”

             Para Jo (15,8) -Que deis muitos frutos... - dispomos  bela página de “Segue-me!” de Emmanuel por Chico Xavier:

          “Em nossas aflições, o Pai é invocado. Nas alegrias é adorado. Nas noite tempestuosa, é esperado com ânsia. No dia festivo, é reverenciado solenemente.

           Louvado pelos filhos reconhecidos e olvidado pelos ingratos, o Pai dá sempre, espalhando as bênçãos de sua infinita bondade entre bons e maus, justos e injustos.

          Ensina o verme a rastejar, o arbusto a desenvolver-se e o homem a raciocinar.

         Ninguém duvide, porém, quanto à expectativa do Supremo Senhor a nosso respeito. De existência em existência, ajuda-nos a crescer e a servi-lo, para que, um dia, nos integremos, vitoriosos, em seu Divino Amor e possamos glorificá-lo.

         Nunca chegaremos, contudo, a semelhante condição, simplesmente através dos mil modos de coloração brilhante dos nossos sentimentos e raciocínios.

           Nossos ideais superiores são imprescindíveis, mas, no fundo, assemelham-se às flores mais belas e perfumosas da árvore. Nossa cultura é, sem dúvida, indispensável, todavia, em essência, constitui a robustez do tronco respeitável. Nossas aspirações elevadas são preciosas e necessárias, contudo representam as folhas vivas e promissoras.

            Todos esses requisitos são imperativos da colheita. Assim também ocorre nos domínios da alma.

          Somente é possível glorificar o pai quando nos abrimos aos seus decretos de amor universal, produzindo o bem eterno.

            Por isso mesmo, o Mestre foi claro em sua afirmação.

            Que nossa atividade, dentro da vida, produza muito fruto de paz e sabedoria, amor e esperança, fé e alegria, justiça e misericórdia, em trabalho pessoal digno e constante, porquanto somente assim o Pai será por nós glorificado e, só nessa condição, seremos discípulos do Mestre Crucificado e Redivivo.” 

 


Eflúvios Luminosos


 Eflúvios Luminosos

por Canuto Abreu

Reformador (FEB) Maio 1930


             Recebemos de Caxias, Maranhão, datada de 27 de março de 1930, a carta seguinte:

             Fraternais saudações,

                 Objetiva a presente carta, o seguinte fato para o qual solicito a vossa atenção:

                De certos dias para cá, a Exma. Sra. D. Guilhermina Verás, ou Sinhá Veres - como é mais geralmente conhecida nesta cidade, onde nasceu e reside à rua Senador Benedito Leite, em casa sem número, começou a notar que, pela madrugada, ou depois de já ter dormido um pouco, de seu corpo levemente tocado por suas próprias mãos ou pelas de outra qualquer pessoa, dimana luz numa espécie de fagulhas ou irradiações luminosas que, às vistas das inúmeras pessoas que as têm observado, se assemelham às ligeiras cintilações do relâmpago! Como vedes, trata-se de um fenômeno que me parece tão empolgante e extraordinário, quanto desconhecido pela ciência, quer médica como filosófica. E é por isso que o submeto à vossa apreciação e estudos, fazendo jus aos esclarecimentos que vos solicito sobre a sua causa ou origem, se devido à influência de qualquer substância orgânica em superabundância, ou se devido à intervenção de um poder oculto.

                Certo de que haveis de vos interessar em dar-me qualquer explicação sobre o caso, ansioso aguardo a vossa resposta e, agradecido, subscrevo-me vosso irmão em crença.                                                                                                             Eurides Augusto de Moura

             O comunicado acima põe-nos diante dum fenômeno insólito, que “parece”, ao caro missivista, “desconhecido pela ciência, quer médica, como filosófica.”

            Com muita satisfação atendemos-lhe ao pedido de “qualquer explicação sobre o caso” não só por dever epistolar, como principalmente por desejar que outros confrades ou simpatizantes, imitando o Sr. Eurides Augusto de Moura, nos deem sempre a honra de comunicar os fatos fora do comum que porventura presenciem. Será um relevante serviço prestado ao Reformador e que nos deixará particularmente penhorado ao repórter.

            Cumpre, entretanto, que as informações venham em relatório circunstanciado, no qual o registro simples da manifestação sobrepuje às expressões de surpresa ou entusiasmo e se desdobre em detalhes, até mínimos, principalmente no que se refere

à pessoa do médium ou suposto causador do fato, seus antecedentes morais, idade, profissão, residência, estado mental e físico, suas crenças e o rol das testemunhas presenciais, com individuação completa de cada uma. E tanto melhor se com o relatório vierem documentos autenticados e fotografias.

 *

             Dos termos claros, mas sucintos, com que nos vem a informação do Sr. Eurides Augusto de Moura, é impossível concluir que se trata dum fenômeno espirita. Parece antes um fenômeno bioquímico, supranormal, chamado por isso mesmo metapsíquico.

            O fenômeno é espírita, quando produzido por Espírito desencarnado, com auxílio de um médium. Para que haja fenômeno espírita, é necessário o concurso do Espírito e do fluido mediúnico. E, nos casos como o do presente estudo - em que a manifestação é física - um terceiro requisito de importância capital e “sine qua non” - se impõe: a utilidade moral do fato.

            Assim, preliminarmente, só temos como “espírita” o fenômeno físico que possui estes três elementos:

             1º) vontade ativa ou passiva do Espírito desencarnado;

            2º) vontade ativa ou passiva do médium;

            3º) utilidade, justiça ou graça imediata da manifestação.

             Faltando um desses elementos, o fenômeno poderá ser “espiritual” mas não será “espírita”.

            Como é geralmente sabido, mas deve ser sempre lembrado, “as manifestações físicas têm por fim chamar-nos a atenção para alguma coisa e convencer-nos da presença duma força superior ao homem” (1) Kardec, ‘Livro dos Médiuns’ (trad. de Guillon Ribeiro). Os Espíritos inferiores não podem, por inidôneos, conhecer da moral do fenômeno que produzem por ordem superior, mas sabem que, se o fenômeno não fosse necessário naquela hora e naquele ponto, a sua produção lhes seria defesa, Eles, por sua natureza grosseira, são os únicos que podem fazer à manifestação física, mas agem sempre em obediência. Por isso é que o primeiro requisito é a vontade ativa ou passiva do Espírito desencarnado. É ativa, quando recebem permissão, e passiva, quando recebem ordem. Os Espíritos superiores jamais agem diretamente sobre a matéria, para produção de fenômenos físicos. “Servem-se dos Espíritos inferiores, como nos servimos de criados para as tarefas grosseiras (2) Idem, Idem. Não sendo possível uma só manifestação espírita, de natureza física, sem permissão ou ordem de Espíritos superiores, compreende-se facilmente que só a utilidade moral imediata dá lugar ao fenômeno. Quanto ao segundo requisito, carece de nenhuma justificativa...

 *

             O fenômeno narrado na carta acima, parece independente, senão dos três elementos, ao menos dos dois primeiros. Ele se produz após um estado sonambúlico; mas, por ação mecânicas, pelo roçar da mão sobre o corpo de D. Sinhá Verás e, talvez, sem interferência, notável pelo menos, de um ser invisível.

            Portanto, nos estreitos limites da comunicação, é preferível considerar o fato como metafísico, deixando a hipótese espírita para quando novos detalhes, que aqui pedimos, cheguem ao nosso conhecimento.

            Enquanto esta vai e aqueles vêm, conversemos um pouco.

            O nosso caro missivista fala em “ciência médica” e “ciência filosófica”.  

            Quanto à primeira, somos absolutamente incompetente para qualquer julgamento. Queremos, com tudo, supor que ela, chamada à presença de D. Sinhá Veras, se não encontrasse um fundamento patológico para o fenômeno, haveria de lhe descobrir um nome rebarbativo, capaz de manter à distância o vulgo ignorante, como, por exemplo, fotogenia ectoplasmática cuticular... 

*

             No que concerne, porém, à “ciência filosófica”, se nossa competência é ainda mais “clamorosa”, temos algumas tinturas, a que talvez sirvam para dois dedos de prosa barata, se é que o prezado epistológrafo quis visar com tal frase o Espiritismo.

            KARDEC, fundador do vocabulário espírita, chama de médium natural a pessoa que, sem intervenção de Espíritos, produz fenômenos supranormais, como aquelas que ele, na Revue Spirite e no Livro dos Médiuns estuda como “elétricas”.

            “As pessoas qualificadas de elétricas podem ser consideradas médiuns?

            -“Essas pessoas tiram de si mesmas o fluido necessário à produção do fenômeno e podem operar sem o concurso de outros Espíritos. Não são, portanto, médiuns, no sentido que se atribui a esta palavra. Mas, também pode dar-se que um Espírito as assista e se aproveite de suas disposições naturais (1).”

            (1) Idem, idem.

             O fenômeno fotogênico observado em D. Sinhá Veras é de natureza semelhante? Pode ser. O calor, a luz, a eletricidade são meras modalidades de vibrações. 

*

             Isso não significa que devamos pôr de lado desde logo a hipótese de se tratar dum fenômeno espiritóide. É ainda Kardec que, a propósito de luzes, interroga os Espíritos:

            - Não podem eles manifestar-se sob a forma de chama?

            “- Podem produzir chamas, clarões, como quaisquer outros efeitos para atestar sua presença; mas, não são os próprios Espíritos que assim aparecem. A chama não passa muitas vezes de uma miragem, ou de uma emanação do perispírito. Em todo caso nunca é mais do que uma parcela deste. O períspirito não se mostra integralmente senão nas visões.” (Livro dos Médiuns, n. 100.)

            O que se passa em Caxias, com D. Sinhá Veras, tanto pode ser produzido por Espíritos desencarnados, como pode ser resultado de combinações biológicas, sem a interferência deles.

            É até a hipótese mais provável.

            O corpo humano, principalmente o de certos nervosos ou sensitivos, contém uma capacidade de irradiação luminosa, descoberta em época remotíssima, pois a ela se referem os mais antigos registros de ocultismo. Pelo fato de possuírem essa capacidade radioativa, não se segue que sejam tais sensitivos médiuns, no sentido espirita. “Errado fora considera-las médiuns, porquanto a verdadeira 'mediunidade supõe a intervenção direta de um Espírito. Ora, no caso de que falamos, concludentes experiências hão provado que a eletricidade é o agente único desses fenômenos (pessoas ditas elétricas). Esta estranha

faculdade, que quase se poderia considerar uma enfermidade, pode, às vezes, estar aliada à mediunidade. Porém, as mais das vezes, de todo independe de qualquer faculdade mediúnica. A única prova de intervenção dos Espíritos é o caráter inteligente das manifestações. Desde que este caráter não exista, fundamento há para serem atribuídas a causas puramente físicas. (1).

                (1) Idem. Idem.  

             E Kardec tem razão. Há mais de 80 anos que vários experimentadores do psiquismo verificaram que do corpo humano sai um eflúvio, que existe também, em menor escala, nos animais, nos vegetais, em certas pedras preciosas, em vários minerais, nas substâncias radioativas, nos imãs, etc.

            O célebre químico austríaco Barão de Reichenbach (2) deu a esse eflúvio o nome de “ods”. Ele constatou em numerosas experiências o que antes dele outros vislumbraram o escapamento de luz do corpo humano.

                (2) Cartas ódicas e magnéticas.

             Verdade é que os raios “od” não são percebidos por todos os mortais e sim por certos sensitivos; mas, se existem para uns, é evidente que, num estado de maior condensação, podem ser vistos por todos. Para isso, basta que o organismo produtor seja privilegiado, como parece que é o de D. Sinhá Veras.

            Se dos metais, como o zinco, o chumbo, o mercúrio, o níquel, o estanho, se escapa uma força capaz de ferir uma chapa fotográfica (3); se do corpo animal irradia constante calor (que é simples modalidade da energia que produz luz ou eletricidade), porque não havermos de admitir que os raios “od”, o fluido magnético animal, o nosso “aura”, enfim, a energia que dimana de nosso organismo não possa, em determinadas condições mesológicas, produzir esses relâmpagos de que fala a carta do nosso amigo Moura?

            (3) Russel, Revue Scientifique, de 24 de dezembro de 1897.

                       O Dr. Maxwell, médico e advogado antigo de Bordéus, fez observações curiosas com os fluidos emanados das mãos humanas (4).

                (4) “Phenomens Psychicos, pag. 118

             De Rochas, o ilustre engenheiro francês a quem tanto devemos em conhecimentos psíquicos, chegou mesmo a provar que “a extremidade dos dedos ou dos polos de um imã poderoso, colocados diante da fenda do espectroscópio, dão lugar a colorações muito nítidas” (5).

            (5) “Exteriorização da Motricidade” pg. 22.

             Delanne, o incansável cientista espírita, diz: “Está hoje estabelecido que os corpos radioativos emitem partículas materiais infinitamente pequenas, que são carregadas de eletricidade negativa; podemos, pois, supor que o efIúvio é um fenômeno de radioatividade, tanto mais que o corpo humano é um laboratório no qual se processa sem interrupção um formidável labor químico, ao mesmo tempo que um desprendimento continuo de eletricidade (6).”

            (6) “Aparições”, Tom.1, pg. 337;

            Baraduc (7) também se acerca de nosso ponto com experiências notáveis, rigorosamente científicas, que demonstram dum modo categórico a existência de eflúvios luminosos em nosso corpo.

             (7) “A alma humana, seus movimentos, suas luzes”.

             E a existência de tais eflúvios não pode, por nós espíritas, ser posta em dúvida, quando é afirmada por um sem número de magnetizados, sensitivos, videntes e pacientes, atestada pelos Espíritos, demonstrada pela ciência de Rochas, Maxwell, Delanne, Le Bom, Reichenbach, Curie, Lodge, Crookes, Aksakoff; pelas chapas fotográficas de inúmeras categorias, pelas efluviografias de Luys e. tantos outros experimentadores antigos e modernos.      

                Basta seguir a Revue Métapsychique e ler os relatórios dos congressos metapsíquicos espíritas.

            Aguardemos, pois, os detalhes que nosso caro informante por certo nos remeterá e, noutra ocasião, com mais vagar, voltaremos ao assunto. 

            Por hoje, nosso agradecimento sincero ao Sr. Eurides Augusto de Moura e nosso voto de paz, saúde e alegrias a D. Sinhá Veras.

sábado, 26 de setembro de 2020

A Virtude da Morte

 A Virtude 
da Morte   

por Vinícius 

(Pedro de Camargo)

Reformador (FEB) 

16 Novembro 1929

             Morreu o mendigo Lazaro e morreu também o rico que se vestia de púrpura e linho, disse Jesus numa de suas admiráveis parábolas.

            Quanta filosofia em frase tão simples e tão singela! Morrem os mendigos cobertos de andrajos e morrem também os ricos que se vestem de púrpura e linho!

            Nesse particular, a morte, pela perfeita imparcialidade com que procede, faz jus, não digo à nossa simpatia, mas ao nosso respeito.

            Sim ó! Morte, tu procedes com isenção completa de privilégios. Tu desconheces prerrogativas. Para ti não valem títulos, nem brasões. Nenhum respeito humano, nenhuma distinção logra suster teus braços no manejo do alfanje fatal que empunhas. Penetras a choupana do pobre, os cortiços onde se acoita a escumalha social, a mansarda infecta dos miseráveis e invades com o mesmo desdém os elegantes “villinos” (chalés), os solares opulentos, os palácios suntuosos! As escadarias de mármore de Carrara, os tapetes da Pérsia, as passadeiras aveludadas não conseguem embargar teus passos! Altiva e desdenhosa, pisas a enxerga úmida e pútrida, como as mais finas tapeçarias do Oriente.  

            Olhas com a mesma indiferença os candelabros artísticos, os lustres de cristal e prata cinzelada, como a fuligem que balouça em pingentes disformes dos telhados denegridos. Afastas os reposteiros (cortinas que servem como portas) e cortinas de damasco com a mesma sem cerimônia com que o fazes às teias de aranha.

            Não te impressionas com a pobreza, nem coma riqueza. Não te fazem mossa (cavidade feito em materiais como madeira, ferro etc.) este ou aquele sexo, a velhice ou a juventude, a beleza ou a fealdade. Não te perturbas com a sabedoria, nem com a ignorância; com a virtude, nem com o vício. Nenhuma posição, nenhum destaque, nenhum mister ou profissão exerce sobre ti a mínima influência, Não te importas, tão pouco, com esta ou aquela conjuntura especial ou particular. Cortas o fio da vida ao pária que, em aflições incontidas, se estorce e escabuja, só e abandonado, num desses leitos de hospital, em horas caladas da noite; procedes da mesma forma com o enfermo ilustre e conspícuo, que se vê rodeado de amigos e parentes, tendo a cabeceira, maiores sumidades médicas do século! A ti, não se te dá, ao ceifares uma existência que a vítima tombe exânime sem haver alguém que a ampare na rudeza da queda, ou que ela repouse em mil braços ternos e afetuosos.

            Não queres saber se tua ação vai dilacerar corações e provocar torrentes de lágrimas ou se vai passar despercebida quase: és invariavelmente a mesma diante de todos os homens e de todos os acontecimentos. Segundo teu consenso, a sociedade não tem altos, nem baixos, relevos nem depressões: nivelas com a máxima precisão todas as camadas humanas. Nada te impressiona, nada te abala, nada te comove: és impassível!

           Não sei, ó Morte, se te posso dizer justa, diante da crueldade com que frequentemente procedes. Chamam-te “Parca” e “Megera”. Alegorizam-te sob hedionda figura ameaçadora e bárbara, de alfange (tipo de foice) em punho, à cata de vítima. És temida em toda a parte. Só falar em ti causa horror à mente e angustia ao coração. Contudo, ó Morte, forçoso é confessar: tens um mérito muito grande, possuis uma virtude à qual rendemos homenagem - a imparcialidade... maneira imparcial com que ages, não sendo embora, a expressão da justiça, porque, como já disse, é cruel e onde há crueza não há justiça, todavia, teu modo de ação se aproxima dela, tem, inegavelmente, algo que com a justiça se parece.

             Honra, pois, ó! Morte, à tua imparcialidade.