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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Vida antes da vida



Vida antes da vida
por Hermínio Miranda
Reformador (FEB) Maio 1980

            Se fosse organizar uma antologia das frases e expressões de minha predileção na Doutrina Espírita uma delas seria aquela que nos recomenda um acoplamento entre fé e razão para ensinar que elas não se excluem mutuamente. Outra frase seria a de que o Espiritismo nada tem a temer quanto ao desenvolvimento da ciência. Kardec via nas estruturas doutrinárias espaço para acomodar os novos conhecimentos que fossem emergindo no correr do tempo. Convicto da solidez do edifício que vira crescer aos seus olhos, tanto quanto da flexibilidade que deve possuir toda doutrina evolutiva, ele admitiu mesmo a possibilidade de certas modificações eventuais que jamais poderiam afetar os conceitos fundamentais do pensamento dos Espíritos, como sobrevivência, reencarnação, comunicabilidade, existência de Deus, sem o quais se tornam incompreensíveis os mecanismos da vida.

            Vivemos um período histórico de verdadeira explosão científica. Nunca se pesquisou com tamanha intensidade e amplitude. Os meios de comunicação conseguem transmitir apenas uma pálida ideia do que se processa no laboratórios e gabinetes por toda parte. Os livros de divulgação já saem obsoletos em pontos essenciais e não são poucos os autores que precisam reescrever capítulos inteiros e corrigir conclusões, aditar notas de rodapé ou acrescentar apêndices no esforço de acompanhar o rumo acelerado das descobertas.

            Um bom sinal em tudo Isso, porém, é que, além de explorar o mundo que nos envolve desde a intimidade do átomo até ao mistério dos "buracos negros", as atenções começam a voltar-se para o panorama interior do ser humano. Muitos já perceberam que o homem e a mulher não são apenas maravilhosos sistemas biológicos, o que já seria algo de fantástico. Deseja-se saber não apenas como funciona o corpo humano, mas que ou quem o faz funcionar. Ou seja: procura-se, um tanto às cegas ainda, mas procura-se, uma fórmula racional para expressar o dualismo espírito/matéria. Nem todos estão preparados para adotar a palavra espírito, porque temem suas implicações metafísicas. Respeitemos seus temores mesmo sem os aceitar, mas saudemos com interesse as informações que estão sendo obtidas sobre a mente, o psiquismo, o corpo bioplasmático e tantas outras expressões circunloquiais. A gente vai lendo e "traduzindo" para a terminologia a que está habituada, da mesma forma que aipim, mandioca e macaxeira são a mesma coisa em diferentes pontos geográficos do Brasil

            Uma visão retrospectiva sobre o material que temos lido nos últimos dez anos em publicações e livros europeus e americanos nos proporciona estimulante perspectiva, em termos de aproximação e até mesmo de identidade com importantes postulados espíritas.

            Acho mesmo que se pode configurar com muita nitidez a ênfase em expor temas que a ciência oficial até pouco tempo considerou verdadeiros tabus intocáveis, como existência do espírito, sobrevivência, reencarnação e comunicabilidade.

            É de justiça Reconhecer neste campo o trabalho pioneiro da Dra. Elisabeth Kübler-Ross, médica suíça radicada nos Estados Unidos. Na sua lista de prioridades ela colocou em primeiro lugar o problema da morte. É claro que ela estava interessada numa definição mais precisa do fenômeno e uma determinação clínica mais exata do momento em que o ser vivo pode ser declarado morto. O que mais fundamente lhe interessava no entanto, era desmistificar a morte. Por que esse medo irracional da morte? Por que as aflições exageradas de quem parte e de quem fica? Por que esconder do doente terminal a sua condição?

            Entende a Dra. Kübler-Ross que a morte é um fenômeno natural, sequência normal do que chamamos vida, não é para ser temida e sim compreendida para poder ser aceita. Em suma, era preciso desenvolver um programa racional de educação para a morte, uma doutrina de aceitação da morte.

            Seu primeiro livro em 1969 foi sucesso imediato. Chamou-se "On Death and Dying" (“Sobre a Morte e a Agonia”). Abriu caminho para outros depoimentos e estudos, bem como para assuntos paralelos. A observação mais serena do processo revelou inesperados aspectos, como da “morte provisória", ou seja, uma incidência muito grande de casos bem documentados de retorno à vida de pessoas declaradas clinicamente mortas.

            Nessa faixa específica de observação, "estourou" de surpresa em 1975 outro livro de sucesso, o hoje famoso “Life after Life" ("Vida depois da Vida"), no qual o Dr. Raymond A. Moody Jr. expunha e comentava, numa fria linguagem de relatório, interessantes caso de morte provisória. O livro foi prefaciado pela Dra. Kübler-Ross cujo trabalho até então fora desconhecido do Dr. Moody, tanto quanto ela própria desconhecia o trabalho paralelo do seu colega. Em 1977 o Dr. Moody publicou outro livro sobre o assunto, alargando consideravelmente as vistas que se abriam diante dele. O novo livro chamou-se "Reflections on Life after Life" ("Reflexões sobre a Vida depois da Vida").

            Em 1978 a Dra. Edith Fiore, doutora em psicologia, publicou "You Have Been Here Before" ("Você esteve por aqui antes"), no qual relata suas experiências terapêuticas com o instrumento da regressão de memória às vidas anteriores.

            Embora, de certa forma, repetindo o trabalho pioneiro do Dr. Denis Kelsey, a Dra. Fiore apresenta um estudo rico, bem documentado, muito valioso, no qual, ainda um tanto perplexa, é arrastada irresistivelmente à aceitação da doutrina da reencarnação e, logicamente, à da responsabilidade pessoal de cada um de nós pelos erros e acertos passados.

            Explorando a outra ponta do trabalho do Dr. Moody, em “Life after Life”, a Dra. Helen Wambach publicou em 1979 seu notável "Life before Life", ou seja, "Vida Antes da Vida" (Edição Bantam Books, New York).

*

            Helen Wambach é doutora em psicologia e segundo nota biográfica inserida em seu livro, "está-se tornando rapidamente em a mulher sobre a qual mais se fala e escreve hoje na América". Por quê? Seu livro "Recalliing Past Lives: The Evidence From Hipnosis" (A Recordação de Vidas Passadas “A Evidência da Hipnose”} foi êxito imediato. Suas observações e conclusões começaram a ser amplamente discutidas em artigos assinados.  Mais importante, porém, foi a resposta popular, por meio de cartas e telefonemas de inúmeros pontos dos Estados Unidos, declarando sua pesquisa "absorvente e significativa.

            Tão significativa quanto a pesquisa, a meu ver, é a acolhida inequívoca manifestada pelos leitores da Dra. Wambach às suas ideias, que, evidentemente, estão encontrando encaixes e ressonâncias no espírito público. Ou, para dizer de outra maneira: estão correspondendo a uma necessidade de informação lógica e aceitável acerca dos problemas humanos que a ciência oficial ainda se recusa teimosamente a discutir. O público leitor é muito mais inteligente do que supõem inúmeros representantes da ciência acadêmica, também muito mais aberto e está sempre disposto a encaminhar ideias novas, desde que apresentadas de maneira adequada e num contexto lógico, por mais que tais ideias se choquem com antigas tradições culturais. As crenças ortodoxas combatem a reencarnação? E dai? Se a reencarnação é uma ideia racional, como é, e explica aspectos ainda inexplicados do ser humano, logicamente as crenças dogmáticas é que estão sendo questionadas na sua irracionalidade inaceitável e não a reencarnação.

            Há outro aspecto nessa atitude popular de aceitação e até de entusiasmo - ela indica uma tendência que se vai tornando irreversível. Dentre em pouco, os obstinados cientistas materialistas estarão falando sozinhos ou, no máximo, conversando uns com os outros, ilhados no território da negação de uma realidade irrecusável. É claro que uma ideia não é boa simplesmente porque as multidões a aceitam, mas é igualmente claro até este momento que a ciência oficial tem sido simplesmente caótica no seu birrento esforço de tentar explicar tudo no ser humano em termos de matéria bruta, mero conjunto de átomos, moléculas e células que aprenderam a "orquestrar” junções bioquímicas por meio de automatismos evolutivos.

*

            A Dra. Wambach declara na Introdução ao seu livro que se tornou psicóloga porque achou que essa era a forma de "chegar até as pessoas e aprender como funciona a mente humana". Lecionou a matéria durante 12 anos e acabou achando enfadonho o processo. Quanto à pesquisa era, na sua opinião, algo rotineiro que algumas pessoas de jaleco branco faziam com jovens estudantes e ratos brancos, mas nada mais tinha a ensinar-lhe. Como continuava Interessada no ser humano especificamente, começou a dedicar-se psicoterapia. Encontrara, afinal, o caminho. Em 20 anos nessa atividade jamais encontrou duas pessoas iguais nem uma explicação que servisse pelo menos para dois casos. Cada pessoa era um caso e cada caso tinha uma logística diferente.

            Seu interesse, porém, não era meramente profissional. Ela, também, é um ser humano e àquela altura “Já vivera 53 anos no tumultuado século XX”, e fazia a mesma as perguntas que tanta gente faz. Que é a vida? Que é a morte? Por que estamos aqui na Terra? "A fome pela compreensão mais profunda é muito ampla em nossa cultura", diz ela. E como as respostas são confusas e/ou contraditórias, também as pessoas e a própria sociedade vão-se tomando confusas e contraditórias. A civilização multiplicou as potencialidades do ser humano, criando praticamente um semideus, mas não conseguiu eliminar a ignorância acerca de sua essência, de suas origens e da finalidade da vida.

            Foi para responder a sl mesma que ela resolveu mergulhar nas profundezas dos seus semelhantes. Que tal começar pela hipnose?

            Pouco a pouco uma técnica foi-se desenvolvendo e consolidando e a Dra. Wambach começou a fazer aos seus pacientes as perguntas para as quais não encontrara respostas convincentes nos tratados que estudara durante longos anos. O método da regressão de memória com o qual passou a. trabalhar revelou prontamente que há uma vida antes da vida. A partir desse conhecimento-premissa ela montou um esquema de perguntas típicas. Alguém ajudou você a escolher as condições desta vida? Em caso positivo qual a sua relação com esse conselheiro? Como você se sente ante as perspectivas de viver essa próxima existir nela? Qual a razão pela qual você decidiu nascer no século XX? Você decidiu também acerca do seu sexo? Por que você optou em ser homem ou mulher desta vez? Que objetivos você traz para desenvolver nesta existência? você conheceu seus pais em alguma existência anterior? se conheceu, qual o relacionamento entre vocês? De que maneira você vê o feto que será você mais tarde? Está dentro dele? Ou fora? Ou entrando e saindo? Em que ponto você uniu-se ao feto?

            A Dra. Wambach é uma pesquisadora atenta e meticulosa. Ao escrever eu seu livro havia coletado e catalogado metodicamente toda a experiência com 750 pacientes. Organizou questionários minuciosos, classificou os assuntos, distribuiu os fatos mais significativos estatisticamente e, acima de tudo observou com inteligência e proclamou com indiscutível coragem suas conclusões.

            Seu livro é multo informativo e está repleto de surpresas até mesmo para aqueles que têm conhecimento mais avançado das questões que ela aborda. A muita gente boa - inclusive e principalmente colegas seus - ele deve ter causado verdadeiros “choques sísmicos" com as suas afirmativas.

            Para o leitor espírita é uma alegria verificar que, embora lhe faltem ainda certos conceitos doutrinários que muito o ajudariam na formulação do seu pensamento. a substância da sua pesquisa vem encaixar-se com indiscutível precisão nas estruturas espíritas.

            - Por alguma razão que não compreendo - escreve ela à pág. 21 - as experiências que antecedem ao parto e as do parto são mais perturbadoras para as pessoas do que as de recordar suas existências anteriores.

            Não sei se a generalização, ampla demais, é válida para todos os casos. O trauma. físico e psíquico do nascimento é realmente sério, mas não é nada fácil viver determinadas vidas em que o espírito resvalou pelo abismos de erros clamorosos. De qualquer maneira, porém, nascer é sempre um momento d tensão para. O espírito reencarnante. Embora, munido das melhores intenções e trazendo um programa de trabalho regenerador e, ainda, contando com o apoio de amigos encarnados e desencarnados, a probabilidade do malogro dificilmente poderá ser desconsiderada de todo.

            Após uma experiência dessas, uma senhora declarou à Dra. Wambach que nas duas vidas que conseguira recordar naquela noite a morte fora uma experiência agradável. "Nascer é que parece ser a tragédia."

            Foram muitos os que declararam sua relutância em nascer.

            - Eu não queria - disse outra mulher - porque não achava que estivesse preparada. Eu sabia que a finalidade desta vida era a de aprender a aceitar meu pai como a pessoa que ele é e, ainda, conhecer melhor minha mãe, que foi minha melhor amiga numa existência anterior. Ambos estariam vivos desta vez e essa é a razão pela qual escolhi esta época.

            Era, portanto, uma questão de oportunidade que o espírito não quis perder. Aliás, 81 por cento dos 750 casos pesquisados declararam que haviam decidido livremente nascer, nas condições em que nasceram, ainda que às vezes a decisão fosse penosa e difícil.

            - Sim, decidi nascer, mas estava em pânico - declarou a pessoa do Caso A-493. - Não foi uma decisão tranquila. Quando você perguntou se alguém me ajudou a escolher, eu tive consciência da presença dos meus guias, que pareciam amplos raios de luz influindo para que eu não nascesse agora, mas eu estava decidido. Minhas impressões acerca das perspectivas da existência seguinte eram no sentido de que eu a queria e sabia que minha mãe não estava preparada e que aquela família não era apropriada. Mas eu tinha algumas coisas a fazer e três tarefas cármicas a realizar.

            Se 81 por cento declaravam que definitivamente haviam decidido espontaneamente nascer, os restantes 19 por cento disseram não ter conhecimento da escolha ou não haverem no momento da pergunta formulado nenhuma ideia.

            Desse total, 68 por cento declararam-se inequivocamente relutantes, tensos ou resignados ante a perspectiva de uma nova existência. A surpresa maior foi a de que 90 por cento achavam que morrer era uma experiência agradável - nascer é que era algo desconfortante e assustador.

            - Havia um grupo de pessoas dizendo que eu devia nascer, mas não gostei nada daquilo. Tinha, porém, a impressão de que eu tinha que nascer. (Caso B-76.)

            - Oh! tenho que passar por isso tudo outra vez? (Caso B-81.)

            E por que razão a escolha desta época? Vejamos algumas respostas típicas.

            - ... porque muitos espíritos evoluídos estão nascendo agora e estamos mais perto de conseguir a paz mundial e um sentimento de integração da humanidade. (Caso A-384.)

            - ... multas almas estão vindo juntas agora e meu espírito estava consciente disso. (Caso A~415.)

            - Sim, escolhi esta época porque mudanças monumentais ocorrerão. (Caso A-476)

            - Porque é um período de grandes mudanças. (Caso A-21.)

            - ... para ter contato com algumas pessoas em particular que também escolheram esta época. (Caso B-12.)

            - ..., Porque algumas pessoas; com as quais eu precisava desenvolver certo relacionamento também estariam vivendo nesta época. (Caso B-70.)

            E a escolha do sexo?

            - Decidi vir como mulher porque ela é mais terna, expressiva, mais ligada consigo mesma. Sinto que o meu lado feminino é melhor para expressar isso. (Caso A-384.)

            O destaque é meu e serve para lembrar um aspecto que a Dra. Wambach encontrou em todos os 750 casos estudados e que ela resumiu assim:

            - ... nem um só dos meus 750 pacientes sentiu que o eu "verdadeiro eu Interior" fosse masculino ou feminino.

            A entidade em evolução, movendo-se através de muitas existências "está acima das diferenciações sexuais e deve incorporar ambas as experiências - yin e yang, masculino e feminino – para alcançar um patamar de entendimento mais profundo", conclui a doutora.

            - ... são os mesmos os Espíritos que animam os homens e as mulheres - ensinaram os Instrutores de Kardec, ao responder à pergunta número 201. Pouco importa a encarnação num ou noutro sexo, pois...

            - O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.

            E Kardec acrescenta:

            - Os Espíritos encamam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo.
Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens.

*

            E quanto às tarefas programadas para esta vida, o que teriam a dizer aquelas 750 pessoas?

            - Senti fortemente que meu propósito nesta vida era o de produzir um grande líder, e que um de meus filhos será esse líder que irá promover mudanças de caráter social. (Caso A-187)

            A mulher do Caso 11 disse que estava em débito com algumas pessoas pelo dano que lhes causou no passado, em outras vidas.

            - Estou bem consciente agora de que meu marido nesta vida é um alcoólatra e entendo que devo ajuda-lo porque fui cruel com ele numa vida anterior.

            Dezoito por cento dos casos examinados colocaram a questão de maneira tão bela que vale assinalar. Não vieram ajustar-se com ninguém especificamente, renasceram "para aprender a amar"...

            - Preciso aprender a não me agarrar, possessivamente aos outros - disse o paciente do Caso A-360)

            Foram todos unânimes em rejeitar qualquer objetivo de conseguirem riquezas, "status" ou poder. Creio que num grupo maior - 10 mil? 100 mil? - a amostragem indicaria alguns casos em que o Espírito veio com essas motivações mais imediatistas. Isso, porém, não invalida a conclusão da Dra. Wambach, segundo a qual na posição de Espírito, ao elaborar um  plano de vida com a assistência de seus guias, a pessoa está basicamente interessada em se recompor perante a lei divina desrespeitada no passado e não de afligir-se na conquista de posições que podem parecer brilhantes entre os encarnados, mas que trazem no bojo inúmeras decepções amargas no futuro.

*

            Quanto as ligações anteriores com os parentes, principalmente com os pais, 87 por cento dos casos examinados a confirmaram.

            Um desses pacientes (Caso A-381) surpreendeu a doutora, informando que o conhecimento com seus pais vinha, não apenas de vidas anteriores, mas também "do período entre uma vida e outra".

            Aliás, a notícia não devia surpreender a brilhante pesquisadora, pois, se o Espírito vive antes de nascer na carne e vive depois de deixá-la pela morte, é claro que vive também uma existência intermediária alhures no universo. A autora acrescenta que não apenas ela foi tomada de surpresa mas os próprios pacientes que não contavam com essa realidade.

            E aí está outra observação perfeitamente doutrinária para encerrar o capítulo quinto do livro da Dra. Wambach:

            - Todos os meus pacientes contam a mesma história. Retomamos com as mesmas almas, mas em diferentes relacionamentos. Vivemos de novo, não somente com aqueles aos quais amamos, mas com aqueles aos quais odiamos ou tememos. Somente quando sentirmos apenas compaixão e afeição estaremos livres da necessidade de viver repetidamente com os mesmos Espíritos que também são forçados a viver conosco.

            Não é notável ler coisas assim num livro de pesquisa moderna que acaba de sair do prelo?

*

            O que sente o Espírito em relação ao corpo que se forma para ele habitar?

            As informações colhidas refletem naturalmente uma grande variedade de experiências e de motivações, vem como de nível evolutivo das entidades reencarnantes.

            Alguns se sentem ligados desde o momento da reencarnação. Outros parecem ficar mais "presos" a partir de certo ponto na fecundação. Há os que se julgam ligados numa das várias fases do parto ou até meses depois. A maioria parece gozar de certa liberdade de ir e vir, embora como que "supervisionando" a formação do corpo. Em alguns, a consciência, permanece ativa e lúcida durante todo o processo da gestação e até mesmo semanas ou meses após o nascimento. Em outros, a consciência vai-se apagando lentamente em pontos diversos do processo. Todos têm, não obstante, pelo menos de início, a consciência de que são entidades distintas e separadas do feto.

            - Depois do nascimento - disse a pessoa do Caso A-510 - eu ficava com o bebê mais tempo, mas ainda podia deixar o corpo.

            São interessantes as reações dos Espíritos às circunstâncias do processo reencarnatório.  

            - Parece que entrei no feto aos seis meses e lá fiquei, mas intermitentemente. Podia ficar de fora também. Estava consciente de que minha mãe sentia-se irritada e assustada e que continuava desejando livrar-se de mim. Comuniquei-me com ela para deixar-me viver. (Caso A-493. Destaque meu.)

            A impressão geral de todas essas informações, segundo a Dra. Wambach, é a de que o nascimento é "um dever e não um prazer".

            Vejamos, agora, mais de perto o ato de nascer propriamente dito.

            A Dra. Wambach conseguiu que 84 por cento de seus pacientes recordassem com maior ou menor nitidez o traumático processo do parto.

            - A coisa mais impressionante nos relatos - escreve ela à página 122 - foi o grau de tristeza experimentado pelo ser ao emergir no mundo.

            Mesmo que para muitos de meus pacientes o processo do nascimento em si não tenha sido fisicamente traumatizante, a sensação de tristeza impregnava a experiência.

             E mais. Ela observou que...

            - Surpreendentes para mim foram os frequentes relatos de que a alma no recém-nascido sente-se desligada, diminuída, sozinha em relação ao estado em que se encontrava entre uma vida e outra.

            As reações mais comuns são de desgosto, de desconforto físico e moral, de ressentimento pela falta de amor ou de consideração da parte dos pais, dos médicos ou das enfermeiras.

            - Eu sentia que os médicos e as enfermeiras presentes eram impessoais e frios.

            Faltava-lhe compassividade pelo temor e pela dor de minha mãe. (Caso A-485.)

            - Sinto-me tão triste ao verificar minha solidão e antever uma existência tão dura. (Caso A-452.)

            Ante uma dificuldade maior, no momento, um deles perguntou a si mesmo: "De que maneira posso me comunicar com essa gente?" (Caso A-414.)

            - Tão logo nasci, tomei ciência do aumento das pessoas que me cercavam, Fiquei surpreso ao verificar que minha mãe não me queria. (Caso A-406.)

            - Minha impressão era a de que as pessoas ali na sala do hospital não sabiam de nada e que eu sabia tudo. Isto me pareceu comicamente divertido. (Caso B-59.)

            - Minha mãe parecia triste e meu pai sentia--se culpado. (Caso A-408.)

            - ...Vi que meu Espírito estava observando tudo. Juntei-me ao corpo momentos antes do nascimento. Minha impressão depois do nascimento era a de que a palmada do médico não era necessária. Fiquei indignado. Eu sabia que o médico estava numa tremenda ressaca. (Caso A-365).

            São muitos os que teriam preferido ficar "lá dentro", confortavelmente. O mundo exterior era hostil, as pessoas sem amor e sem consideração, os bebês se sentem momentaneamente desamparados, friorentos, impotentes para manifestarem seus pensamentos e terrivelmente Incomodados pela exagerada iluminação do cômodo, pois acabam de deixar o aconchego tépido, confortável, silencioso e escuro do ventre materno. Mal saídos, tudo os agride naquele ambiente novo. Um deles ouviu alguém dizer:

            - Que menino gordo! outro percebeu que sua mãe não gostou dele porque era feio. (Caso A-3M.)

            Outro percebeu a indiferença do médico que não tinha a menor noção de estar lidando com um ser consciente.

            - Tratou-me como se eu não existisse ou fosse uma coisa, um objeto. (Caso A-239.)

            Um que experimentou certas dificuldades maiores em atravessar o canal, nasceu, afinal, com dificuldade de respirar. As pessoas presentes achavam que ele não conseguiria sobreviver.

            - Eles achavam que eu não viveria e eu queria dizer-lhes que eu o conseguiria. (Caso A-361)

            Outro teve a face arranhada pela enfermeira e ficou assustado.

            - Eu tinha a inteligência de um adulto - declarou o caso A-23).

            - Sentia-me como se tivesse começando um novo curso. Tinha disposição para aprender tudo. (Caso A-185.)

            - Eu tinha a compreensão de um adulto, não a de uma criança. Limitava-me a ouvir e observar. (Caso B-105.)

            Vários expressaram sua exasperação ao serem praticamente expulsos antes da hora do útero materno.

            - No canal do nascimento, certa força insistia em me empurrar. Eu não o podia evitá-lo porque nada havia no que pudesse me segurar ou pendurar. Imediatamente após o nascimento senti um súbito impacto do frio, de luzes brilhantes e aquelas pessoas usando umas roupas engraçadas. (Caso A-20.)
-
             Senti-me esgotado e irritado. Sentia cruamente a luz, o ar, tudo. Eram tão ásperos. A atmosfera era rude. Eu havia esperado distrair-me, mas era tudo uma comoção e eu ansiava por voltar ao espaço onde tudo era leve. (Caso A-339)
           
            Um deles foi enfático ante as aflições da hora pensou:

            - Quero voltar para casa (Caso A-140)

            - Eu não gostava daquela ideia de estar espremido naquele pequeno garoto. (Caso A-234.)

            - Minha mente - disse outro (Caso A-443) era grande demais para aquele pequeno corpo.

            Muitos se queixam do desconforto físico que lhes causa a demora em lavarem seus diminutos corpos.

            - Antes de me lavarem, minha pele queimava e repuxava dolorosamente, à medida que o líquido amniótico secava e coçava. Infelizmente, fui lavado por um idiota com uma horrível esponja que me arranhava. (Caso A-348.)

            Enquanto isso ele ouvia a mãe a repetir incessantemente: "Não o quero! Não o quero!"

            - Depois de haver nascido - diz outro - me senti pesado. A densidade era muita, muito mais do que eu poderia ter imaginado. (Caso A-393.)

*

            No capítulo oitavo, a autora examina alguns casos de gêmeos, prematuros, crianças nascidas por meio de cesariana e de filhos adotivos.

            Num caso muito interessante do ponto de vista doutrinário, um ser espiritual evidentemente mais experimentado convence outro Espírito relutante a renascer e se oferece para nascer junto, como gêmeo. Ao chegar o momento do parto, no entanto, ela percebeu que o irmão gêmeo estava-se desligando do feto. Ele prometeu que não a abandonaria, pois se encontrariam durante o desprendimento do sono para ajudá-la em tudo quanto precisasse. Isto significa, portanto, que ela precisava da reencarnação naquele momento, mas não ele.

            Sem dúvida, porém, a Dra. Wambach conclui contra a expectativa de muitos de seus colegas que os gêmeos são animados por Espíritos diferentes.

            Curioso também o fato de que somente 14 por cento das crianças adotadas conseguiram lembrar-se ela experiência do nascimento, a despeito do intenso desejo de fazê-lo. São firmes e seguros os mecanismos de proteção espiritual que procuram evitar impactos maiores que iriam desarmonizar as criaturas ...

            Alguns Espíritos, embora precisando conviver com determinado casal com o qual estavam relacionados anteriormente, tiveram de fazê-lo por vias indiretas, nascendo alhures e sendo posteriormente adotados pelos "pais" escolhidos previamente.

            Um desses Espíritos declarou haver escolhido os pais por causa do "material genético de que eles dispunham", mas escolheu os pais adotivos porque eles podiam proporcionar-lhe condições mais adequadas. E assim foi. Houve, porém, um extraordinário incidente. Seria imprevisto? Este Espírito decidira nascer como menino e deixa entrever que já havia combinado tudo com os pais genéticos e os adotivos. Ocorreu, porém, que a mãe engravidou primeiro de uma menina e o Espírito, no açodamento de renascer, apoderou-se do corpo e veio como mulher, o que complicou os seus planos. Coube-lhe, então, "negociar" com os pais adotivos para que desejassem adotar uma menina em lugar de
um menino, como aparentemente estava combinado.

*

            Naturalmente que tais revelações pessoais - e não há como ignorar-Ihes a autenticidade - chocam muitos pacientes e entram em conflito aberto com as suas crenças religiosas ou descrenças da vida de vigília. Muitos se acomodam às novas ideias, após um  período maior ou menor de meditação e revisão. Alguns se sentem algo perplexos e desajustados, o que é natural, mas não parece haver casos traumáticos na experiência da Dra. Helen Wambach.

            A eminente psicóloga, no entanto, está bem consciente dos riscos envolvidos, jamais forçando irresponsavelmente a revelação indesejada, no que demonstra notável intuição, perfeitamente apoiada pelos conceitos espíritas.

            Ela está perfeitamente alertada para o fato de que há experiências traumatizantes no passado que podem emergir de maneira desastrosa na memória atual. Por isso declara: - Acho muito importante entregar o controle dessas recordações existentes na memória ao subconsciente de cada indivíduo. Eu os Instruo no sentido de que seus subconscientes bloquearão imediatamente a lembrança de qualquer material perturbador e observo que Isto funciona de fato muito bem.

            Ela costuma perguntar se o paciente está preparado para enfrentar as recordações do passado. Quando o sinal ê negativo, o assunto fica ali mesmo encerrado.

            Essa medida de prudência é altamente recomendável, indispensável mesmo, e está apoiada na melhor ética e nos mais sólidos princípios doutrinários.

            É com interessado olho clínico e empatia que ela gosta de observar seus pacientes depois que retornam ao estado consciente. Ficam com o olhar vago a meditarem em silêncio, como se estivessem perplexos ante uma realidade totalmente insuspeitada.

            Alguns expressam de maneira poética e com extraordinária sensibilidade a sua atitude, como este por exemplo:

            - Era como se eu estivesse deixando um local lindo, brilhantemente iluminado, onde muitas coisas estavam abertas para mim, para descer a um ambiente multo fechado e enigmático. Ao que parece, eu sabia de todas as dificuldades que me aguardavam, e sentia aquele enorme desperdício que nós, humanos, não entendemos.

            Não há multo o que acrescentar a esta exposição sobre o excelente trabalho da Dra. Helen Wambaeh, senão que ela é digna de todo o nosso respeito e gratidão pela força que injetou nos conceitos doutrinários da sobrevivência do Espírito e da reencarnação, para citar apenas dois dos mais Importantes aspectos da sua pesquisa. Ainda que o seu livro não traga o impacto de uma novidade para aqueles que já se convenceram desses postulados básicos, suas observações caem como semente vigorosa no solo difícil, mas ávido, da civilização americana há tanto tempo derivando na tormenta materialista que sacode as mais sofisticadas comunidades. Rogamos a Deus que a sua corajosa mensagem possa atrair o maior número possível de irmãos nossos para os quais a chama indecisa da esperança não se apagou de todo.

30 - Pensamentos de Jax



30 - Pensamentos de Jax
Reformador (FEB) Janeiro 1929

            “O coração onde não penetra a irradiação do amor é como tenebrosa cripta, onde não entra um raio de sol: não vicejará nele a melindrosa planta da virtude e da alegria.”

29 - Pensamentos de Jax



29 - Pensamentos de Jax
Reformador (FEB) Janeiro 1929

            “O médico quando é um apóstolo, deve antepor à ciência a caridade: quando
examinar o enfermo, já o deverá ter imergido primeiro nos fluidos celestes do seu amor: demais o médico é um manancial de esperança. A inspiração médica nasceu dos gemidos: antes de ser ciência foi piedade, misericórdia, compaixão, caridade, enfim. O médico que apenas vê no enfermo um agregado de órgãos é tão imbecil como aquele que, diante de uma estátua de Fídias ou Pigmaleão, apenas se detivesse a admirar a qualidade do mármore.“

28 - Pensamentos de Jax



28 - Pensamentos de Jax
Reformador (FEB) Janeiro 1929

             “Uma palavra pode fulminar ou dar vida, como uma gota d'água pode conter um veneno ou um antídoto.”


27 - Pensamentos de Jax



27 - Pensamentos de Jax
Reformador (FEB) Janeiro 1929

            “Quando o silêncio fala pelo olhar, requinta de seriedade: ou condena ou
perdoa.”


26 - Pensamentos de Jax



26 - Pensamentos de Jax
Reformador (FEB) Janeiro 1929

            “Quando os povos se desuniam pelo cérebro, apareceu Cristo e os enlaçou
pelo coração.”


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Doença e pecado



Doença e Pecado
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Fevereiro 1958

            Ofereceu-nos o ilustre médico Dr. Túlio Chaves um exemplar do seu excelente livro - “Medicina Cosmo-psico-somática”, no qual demonstra que é erro grave tratar somente o corpo do enfermo, sem levar em conta a alma do paciente e o meio em que ele vive; porque o corpo é apenas uma parte do homem e recebe poderosas influências da alma e do meio cósmico: clima, ar, Sol, Lua, etc.

            Não teríamos autoridade para analisar o belo livro nem foi ele dirigido a leigos como nós em Medicina.. Vê-se bem, pela linguagem técnica empregada, que o trabalho se dirige somente a médicos. Já havíamos lido antes, no mesmo sentido, o famoso livro de Stefan Zweig – “Heilung durch den Geist” (A cura através do espírito) no qual fica historiada a arte de curar, em diversas idades da Humanidade, começando sempre, em todos os povos primitivos e bárbaros, como dever religioso, missão do sacerdote. Só mais tarde a Medicina foi-se tomando apenas materialista e exclusivamente somática, mas perdendo, por isto mesmo, seu verdadeiro poder de curar.

            A medicina oficial materialista puramente somática, dos nossos dias, considera os processos espirituais de tratamento de doentes como simples charlatanismo; mas ao ler as duas obras acima mencionadas, e mais algumas de bons médicos modernos, que demonstram com fatos concretos o poder do pensamento e dos sentimentos em engendrar doenças ou restaurar a saúde, somos levados à tentação de pensar que um dia, num porvir que não estará muito afastado, a medicina oficial de hoje será tratada igualmente como grosseiro charlatanismo.

            No estudo do Evangelho vemos que, ao tempo de Jesus, a ideia de doença estava muito ligada à de pecado. Passando uma vista rápida pelo Evangelho, encontramos:

            Mat. 9:2 “E eis que lhe trouxeram um paralítico, deitado num leito. Jesus, pois, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Tem ânimo, filho; perdoados lhe são os teus pecados!”

            Esse fato está relatado também em Marcos 2;2 a 9 e Lucas, 5:18 a 20.  

            Em João, 9:2 e 3, encontramos o episódio do cego de nascença que foi trazido a Jesus para ser curado. Os discípulos perguntaram: “Rabi, quem pecou este ou seus pais para que nascesse cego?” Por esta pergunta vemos que a ideia de enfermidade estava ligada à de pecado.

            Encontrando, no templo um homem a quem curara de paralisia, Jesus lhe disse, segundo João, 5:14: “Olha, já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior.”

            Não ê mister citarmos aqui as curas feitas por Jesus e que enchem os relatos evangélicos, porque são conhecidíssimas de todos. Basta-nos apenas lembrar que seus métodos de curar eram puramente espirituais e não materiais. Essa faculdade de curar foi ensinada aos seus discípulos, como vemos em Atos dos Apóstolos e nas Epístolas, e  amplamente empregada pelos primeiros cristãos.

            Da missão que receberam os discípulos, constava a cura dos enfermos: “... em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que puserem diante de vós. Curai os enfermos que nela houver...” (Lucas, 10-8-9).

            Se o Médico Maior da Humanidade curava e mandava curar por meios psíquicos e confirmava a crença popular de seu tempo, de que a enfermidade é consequência do pecado, e esta é a tendência de alguns médicos modernos - como o Dr. Túlio Chaves, que proclama a Medicina Cosmo-Psico-Somática - o futuro da Medicina será o seu regresso a um sacerdócio. O médico do porvir será o confessor do doente, para lhe descobrir as causas morais que determinaram o desarranjo físico, e tratará de moralizar o doente para lhe restaurar a saúde, de moralizar o homem são, para que ele não adoeça.

            Mas não nos esqueçamos da pergunta dos discípulos já citada acima, quanto ao cego de nascença: perguntaram se ele teria pecado antes de nascer, para que nascesse cego. Sem esta chave reencarnacionista e os pecados cometidos antes do nascimento, seriam incompreensíveis as doenças e deformidades de nascença.

            O médico-sacerdote do futuro conhecerá a lei das encarnações sucessivas, as influências que os Espíritos desencarnados podem exercer sobre a saúde dos encarnados e reproduzirá os os milagres d'Aquele que conhecia todas estas coisas e possuía autoridade sobre todos os Espíritos.

            Logo, só será bom médico quem possua moral superior para de alguma sorte se aproximar do Divino Modelo.

            O materialismo médico tem que desaparecer e ser substituído pelo espiritualismo médico e, nesse tempo, teremos mais vergonha de ficar doente... Hoje temos pudor de confessar nossos pecados, mas não nos acanhamos de publicar nossas enfermidades, nossas desventuras, porque não percebemos que estas coisas são sintomas apenas de nossa condição de calcetas do pecado, de espíritos inferiores submetidos a expiações.

Religião e Psiquiatria - Partes 1 e 2



Religião e Psiquiatria – Parte 1
Zêus Wantuil
Reformador (FEB) Fevereiro 1953

            Servir-nos-emos, neste giro ao país da Psiquiatria, em suas relações com a Religião, da interessante obra. - "Modem Psychiatry" (1945), da autoria do Dr. William S. Sadler, membro da American Psychiatric Association" e da "American Psychopathologic Association", além de "Consulting Psychiatrist to Columbus Hospital" e "Consultant In Psychiatry, The W. K. Kellog Foundation".

            De início declara ele que os clínicos em geral, e todos os outros especialistas de Medicina e Cirurgia, devem ter mais interesse na higiene mental dos pacientes, acreditando - e com satisfação para todos nós - que "o médico do futuro está destinado a sobrepor-se aos ministros de Igreja, dispensando coragem, confiança e estoicismo aos seus pacientes, os quais são todos mais ou menos destrambelhados dos nervos e desencorajados na alma".

            Mas, para isso, preciso se faz clarear o modo por que essa assistência se deve processar: "não a golpes verbalísticos de psicanálise, senão socorrendo-os (os doentes) com a força da fraternidade e do amor, a fim de que logrem a imprescindível compreensão com que se modifiquem, reajustando as próprias forças... (F. C. Xavier, "No Mundo Maior").

            Enquanto muitos dos nossos distintos psiquiatras, em particular o Dr. Henrique Roxo, enchem suas obras didáticas de uma terapia quase que exclusivamente farmacológica, não se esquecendo o mencionado médico do "miraculoso" valerianato de atropina para os casos que ele classifica de "delírio espirita", medicamento esse com que pretende exterminar todos os médiuns, - o Dr. Sadler envereda-se por uma, extensa e importantíssima psicoterapêutica que abrange a socialização, a recreação, a reeducação, a filosofia, a religião, a ocupação, a leitura, etc.

            Trataremos da terapia religiosa que constitui o ponto de nosso estudo, e à qual Sadler empresta relevante alcance.

            Referindo-se à prece, ele lhe reconhece valor terapêutico, qualquer que seja o sistema religioso a que ela se associe, e afirma à página 759 de sua obra: “Considero a prece como o principal processo de cura mental e a experiência religiosa como a mais alta e verdadeira forma da psicoterapia.
           
            "Nenhuma dúvida pode haver de que a religião de Jesus, quando convenientemente compreendida e sinceramente praticada, possui, além do poder de prevenir, o de curar numerosas doenças mentais, dificuldades morais e desordens da personalidade. Deve-se tornar manifesto que o medo e a dúvida são ocasionadores de doenças, enquanto que a fé e a esperança são doadoras de saúde: e, em minha opinião – prossegue ainda o Dr. Sadler -, as mais amplas possibilidades de fé e o mais excelente vigor de esperança acham-se expressos nas crenças sublimes da experiência religiosa. Os ensinos do Cristo são os maiores exterminadores conhecidos da dúvida e do desespero."

            Mais adiante, expondo o valor profilático da religião, torna a afirmar: “A sincera aceitação dos princípios e ensinos do Cristo que conduzem à vida de paz e alegria mentais, à vida de pensamento desinteressado e viver puro, extinguiria, de uma vez, mãos da metade das dificuldades, doenças e aflições da raça humana.  

            "Em outras palavras: mais da metade da presente aflição da Humanidade poderia ser evitada pelo extraordinário poder profilático de uma vida orientada realmente conforme o espírito prático e individual dos ensinamentos positivos do Cristo.

            "Os ensinos de Jesus, aplicados à nossa civilização moderna - judiciosamente aplicados, não mera e nominalmente aceitos - de tal forma nos purificariam, elevariam e vitalizariam, que a raça imediatamente se distinguiria dentro de uma nova ordem de coisas, entrando na posse de um poder mental superior e de uma força moral engrandecida."

            Em confirmação dessas verdades, citamos as palavras constantes na obra mediúnica - "No Mundo Maior": "É indispensável penetrar a alma, devassar o cerne da personalidade, melhorar os efeitos socorrendo as causas; por conseguinte, não restauraremos corpos doentes sem os recursos do Médico Divino das almas, que é Jesus Cristo. 0s fisiologistas farão sempre muito, tentando retificar a disfunção das células; no entanto, é mister intervir nas origens das perturbações."             

            Noutra página, pontifica então o mesmo doutrinador espiritual: "E, em nosso campo de observação mais clara, podemos adir que todo desequilíbrio promana do afastamento da Lei."

            O psiquiatra americano, à pág. 761, manifestando o valor da prece verdadeira, diz que esta maneja poderosos fatores mentais, morais e espirituais, e que sendo ela sincera, como deve ser, "comunica ao suplicante coragem moral e confiança saudável".

            "Não consideramos a prece - explica o Dr. Sadler - como meio de alterar a vontade de Deus. A Mente Divina não necessita modificada.

            "E, embora isto seja verdade, a prece indubitavelmente exerce transformação na pessoa que ora, e esta transformação, na mente da alma que ora, é, às vezes, imediata, profunda - inexplicável mesmo."

            "A prece - continua o psiquiatrista. -, além de originar a coragem moral, cria também uma energia espiritual, sendo capaz de, direta e imediatamente, influenciar as funções do corpo, e, isto, muito poderosa e benignamente; ou melhor, a prece cheia de fé exerce sua influência benéfica sobre o corpo, ao passo que a prece maquinal, por assim dizer, pode ser altamente prejudicial à saúde física. Aquela é um meio de trazer o corpo sob a sujeição da mente, levando esta à obediência às sugestões espirituais da Mente Cósmica."

            Emmanuel, em "O Consolador", ratifica essas ponderações, dizendo: "Os corações que oram e vigiam, realmente, de acordo com as lições evangélicas, constroem sua própria fortaleza, para todos os movimentos de defesa espontânea.” 

            O psiquiatra Sadler passa em seguida a comentar a "perversão" da prece por aqueles que, embora tendo conhecimento de Deus, empregam-na na consecução de coisas materiais, pessoais, num verdadeiro fanatismo que intenta quebrantar as leis da Natureza.

            Encerra esse estudo, ponderadamente, o Dr. Sadler, dizendo que deveriam ser observadas na prece as palavras do Cristo no jardim de Getsêmani: "Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade mas sim a tua."

            Estudando a fé como remédio, declara o referido autor que "as terapêuticas modernas reconhecem a necessidade de ministrá-la ao homem integral - mental e moral. bem como material; ao espiritual, assim como ao psíquico."

            A fé, não constituindo para ele simples crença ou mero adjunto teológico a uma religião especulativa, é, antes, “atributo vitalizante da mente” – possui considerável possibilidades psíquicas e extraordinários poderes terapêuticos. Tolstoi certa vez chamou-lhe "a energia da vida" - lembra SadIer, que prossegue:

            A fé requer a consagração da mente total, a concentração das afeições sobre uma dada ideia ou sobre um objeto preconcebido. A fé requer e implica um controle perfeito das emoções - a cooperação das forças espirituais de um lado, com as forças materiais, do outro. A mais elevada manifestação da prece, de que se tem conhecimento, encontra-se na vida e nos ensinos de Jesus, que representam a ação mental, o exercício moral e a força espiritual dos mais positivos, poderosos e transcendentes que o homem conhece.”

            A ''fé de Jesus", continua o mesmo autor, é uma força maravilhosa - poder divino humano - e não deve ser confundida com as discussões de fé, num sentido puramente psicológico ou teológico.

            E prossegue o respeitável psiquiatra em suas lições: “A fé é tremenda força motora, e, uma vez dominando a alma, é capaz de proteger a mente e controlar o corpo, combater a doença e mitigar a dor, de subjugar a tristeza e estabelecer a paz.

            A fé religiosa seria o melhor preventivo das doenças da alma e o mais poderoso meio de curá-las, se tivesse suficiente vida para criar um verdadeiro estoicismo em seus seguidores, Neste estado da mente, que é - ai de nós! – tão rara no mundo pensante, o homem se torna invulnerável. Sentindo-se amparado por seu Deus, ele não teme nem a doença nem a morte. Poderá sucumbir sob os ataques das enfermidades físicas, mas moralmente permanece sereno no meio de seus sofrimentos e é inacessível às emoções pusilânimes do neuroticismo.”

            Em apoio dessas palavras, vem escrito na obra "No Mundo Maior", de Francisco Cândido Xavier:

            “Se o patrimônio da fé religiosa representa o indiscutível fator de equilíbrio mental do mundo, que fazeis do vosso tesouro, esquecendo-lhe a utilização, numa época em que a instabilidade e a incerteza vos ameaçam todas as instituições de ordem e de trabalho, de entendimento e de construção? Não vos assombra, porventura, acordando-vos a consciência, a borrasca renovadora que refunde princípios e nações? Supondes possível uma era de paz exterior, sem a preparação interior do homem no espírito de observância e aplicação das Leis Divinas?"

            Infelizmente, observa o Dr. Sadler, “as religiões dos tempos modernos correm o iminente perigo de se tornarem insustentáveis e debilitadas. O mundo de hoje necessita mais dos militantes sabiamente dirigidos, porém, pelo espírito do Filho do Carpinteiro", daqueles dos tempos apostólicos, os quais “guerreavam os desequilíbrios da sua época e de seus contemporâneos, não a golpes de maldição, nem a fio de espada, mas pela prática da renunciação, submetendo-se a disciplinas cruéis e revelando, nas palavras, nos pensamentos e nos atos, a mensagem sublime do Mestre que lhes renovara os corações.” (“No Mundo Maior”)

            O Dr. Sadler trata, em seguida, da nutrição espiritual, tão esquecida, diz ele, pela grande maioria dos indivíduos que alimentam bem seus corpos e suas mentes, mas deixam "padecer de fome" a alma, que se debilita, ficando incapaz de exercer sua ação benéfica e protetora contra as Influências desequilibrantes que acabam por dominar a mente, conservando-a num estado de conflito e desespero.

            Aconselha ele, mais além, que não se deve tolher a liberdade na escolha da religião, e se uns indivíduos se adaptam a uma determinada, já com outros o mesmo não sucede. Por esta razão, é que nós, os espíritas, deixamos as religiões de nossos pais ou avós, e buscamos o Espiritismo evangélico, onde o Livro da Vida, estudado à luz do coração e da razão, guarda a beleza e a pujança dos seus primeiros albores na Judeia distante.

            Adquirindo - agora, sob o Consolador, o "amai-vos uns aos outros" um fulgor nunca dantes revelado aos nossos olhos, é razoável que consideremos o Espiritismo - "prodigioso núcleo de compreensão sublime" - "uma escola mais elevada e mais rica" (“No Mundo Maior”), onde todos os desalentados, revoltados e aflitos encontram ânimo, compreensão e consolação, criando, destarte, um estado mental e espiritual intenso a psiconeuroses fatais.

            “Lado a lado com a diminuição da crença religiosa - escreve Carl G. Young, psiquiatrista suíço e antigo aluno de Freud, do qual divergiu em particularidades importantes -, as neuroses se tornam perceptivelmente mais frequentes.”

            Principalmente a começar do século passado, com as maravilhosas investigações e descobrimentos da Ciência, com o aparecimento de novas concepções filosóficas e sociais, o espírito religioso entre os homens foi vertiginosamente decrescendo, visto que a religião predominante, vivendo em politicagens com os Césares, dogmática por excelência, apegada à letra, afastada da mansidão e da simplicidade e escravizada aos interesses mundanos, não mais satisfazia às consciências.

            “O espírito humano, despido das vestes da puberdade, com o juízo amadurecido para assimilar algo da verdade, tateava entre vacilações e incertezas." (F. C. Xavier, “Emmanuel".)

            Diante desse estado de coisas realmente alarmante para a desnorteada Humanidade, de consequências desastrosas para a mente do homem, surgiu o Consolador prometido por Jesus: “o céu descerrou um fragmento do seu mistério e a voz dos Espaços se fez ouvir.” (“Emmanuel”.)

            Novas claridades envolveram a Terra e a "Religião da Verdade" - o Espiritismo -, como arauto dessas manifestações da misericórdia divina, dirigiu-se ao coração, bem como ao raciocínio, consolando a um, satisfazendo a outro.
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Religião e Psiquiatria – Parte 2
Zêus Wantuil
Reformador (FEB) Fevereiro 1953

            Prosseguindo na citação de trechos da "Modern  Psyquiatry" do Dr. Sadler, transcrevemos o que o autor escreve a pág. 765: "de todas as fases da “cura pela leitura”, que foram acompanhadas com surpreendentes resultados, devo em primeiro lugar mencionar o estudo terapêutico da Bíblia.”

            Ressalvando os casos de certos pacientes nervosos, hiper emotivos, demasiadamente religiosos, que podem ser mais prejudicados conservando suas mentes inteiramente centralizadas no estudo da Bíblia e na leitura religiosa, o Dr, Sadler declara que “muitos pacientes nervosos, que espiritualmente estão em necessidade, subnutridos mentalmente, encontram grande auxilio e estímulo na leitura cotidiana e sistemática da Bíblia”. O próprio autor recomenda mesmo alguns livros da Bíblia, da qual cita, em seguida, perto de 50 textos que ele, além de outros colegas, comumente utilizam nesse processo terapêutico.

            Apenas anotaremos às considerações do Dr. Sadler - e este certamente há de reconhecer o que afirmamos - que o valor terapêutico da Bíblia, e mais particularmente dos Evangelhos, está na razão direta da interpretação e compreensão, em espírito e verdade, que àquele Livro ligamos, e, em grau maior, COJU o sentir e aplicar os ensinos nele contidos.

            “A lição do Mestre não constitui tão somente um impositivo para os misteres da adoração. O Evangelho não se reduz a breviário para o genuflexório. Espera o Cristo venhamos todos a converter- lhe o Evangelho de Amor e Sabedoria em companheiro da prece, em livro escolar no aprendizado de cada dia , em fonte inspiradora de nossas mais humildes ações no trabalho comum e em código de boas maneiras no intercâmbio fraternal." (F. Cândido Xavier, “Caminho, Verdade e Vida”)

            O Dr. Sadler analisa o proceder do sacerdote e do médico atuais, exclusivamente dirigidos, cada um, para seus pontos de vista, ignorando ambos, totalmente, os verdadeiros princípios da medicina mental e sua verdadeira prática.

            “Os antigos teólogos - comenta ainda Sadler - dirigiam a terapêutica dentro de vias supersticiosas, e em muitas outras ocasiões sufocaram a investigação científica e o progresso da terapêutica; por outro lado, os mestres da Medicina se foram tomando mais e mais materialistas e gradualmente solaparam as fundações espirituais do auxílio religioso.

            Como consequência de tudo isso, houve o divórcio entre a Religião e a Ciência em geral. Esta, no dizer de Emmanuel, "criou a academia e a religião sectarista criou a sacristia. Uma empoleirada na negação absoluta e a outra nas afirmações arriscadas e absurdas. Uma e outra, abarrotadas de dogmas e preconceitos, repelindo-se como polos contrários, dentro dos seus conflitos tem somente realizado separação em vez de união, guerra em vez de paz, descrença em vez de fé, arruinando as almas e afastando-as da luz da verdadeira espiritualidade.”  (F. C. Xavier, “Emmanuel”.)

            Sadler crê firmemente no auxílio efetivo que a religião pode trazer à medicina, em trabalho de conjunto, harmoniosamente ligada para o mesmo fim. Segundo suas informações, há cerca de 40 anos que ele toma anotações com respeito à influência da religião sobre seus pacientes.

            De suas observações quanto aos resultados bons e maus, formula então um resumo dos benefícios e dos perigos que a religião apresenta na prática psiquiátrica. É assim que entre os fatores religiosos que têm concorrido como causa de perturbações psíquicas e emocionais, podendo, além disso, retardar ou impedir o restabelecimento de doentes, cita o psiquiatra americano uma série deles, que transcrevemos a seguir:

            “Pode haver um sentido real na frase - “o temor do Senhor é o começo da sabedoria." (Provérbios de Salomão, 1:1), mas estou inclinado a crer - declara o Dr. Sadler - que esse medo deveria ser compreendido mais como uma reverência do que um tipo biológico de medo que tão comumente observamos ser um fator etiológico, senão a base fundamental, verdadeira, de muitas manifestações psiconeuróticas.

            “Entre os primeiros doentes que foram recebidos nos hospitais de insanos, localizados em meia dúzia de Estados da Nova Inglaterra, há cerca de cem anos, contaram-se os acidentes pelo medo, que surgiram em certas personalidades instáveis, como consequência do excitamento e da ansiedade produzidos pelo chamado "movimento de Miller” , homem este que profetizou o fim do mundo para o ano de 1814."

            "Há um século que os médicos têm observado o estado neurótico ruinoso que tão frequentemente se segue aos intensivos "meetings" de revivescimento religioso, cuja nota dominante na última geração, era o comuníssimo “inferno de fogo e enxofre”. As religiões fundadas no medo operam mais como causa de distúrbios neuróticos que como cura: e isto tem sido real, através das idades, até mesmo no presente, quando os médicos começam a relacionar desordens nervosas e mentais entre os seguidores do Pai Divino, o pregador de cor de Harlem, Nova York, a quem muitos dos pretos olham como uma personalidade sagrada.

            “Se a fé religiosa é mais potente que a crença ordínária na cura de perturbações ps1quicas, deve-se reconhecer que o medo religioso é a mais poderosa de todas as formas de medo à causação dessas mesmas perturbações."

            Infelizmente, o "inferno de fogo e enxofre" continua sua ação nefasta e desequilibrante do alto dos Púlpitos da Igreja Católica. A medonha excomunhão espera sempre à porta o crente que deseje conhecer outros ares. Dogmas rígidos e inflexíveis mantém seus prosélitos presos pela angústia do medo.

            Hoje, felizmente, não mais funciona a “Casa dos Tormentos" da negra Inquisição, não mais se aplica o "crê ou morre", que trazia milhões de mentes em constante estado de terror, e, embora a punição eterna depois da morte já não impressione tanto os crentes, exerce, todavia, entre os beatos e as beatas, sua ação prejudicial, conservando-os, pelo medo, num estado de ininterrupta atalaia contra inesperadas infrações da Lei divina, o que, em pouco tempo, os leve, a triste estado de tensão nervosa.

            O Espiritismo proscreve o medo através de suas sábias e racionais elucidações da vida presente, passada e futura, colocando no ápice de seus ensinos a esperança consoladora a clarear os caminhos dos filhos de Deus.

            Por esta razão é que o Dr. Pinto de Carvalho, ilustre lente de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Bahia, judiciosamente afirmou: "Nunca haveria de subscrever o juízo do meu eminente amigo Prof. Austregésilo, quando declarou que – “para a neuro-psiquiatria o Espiritismo é um mal". Subscreveria, sim, dissesse ele: - “para a neuro-psiquiatria a religião pode ser um mal." (C. Imbassahy, “Espiritismo e Loucura”.)

            O Dr. Sadler passa, em seguida, ao estudo do "complexo de culpa", e diz: "A religião tem, infelizmente, mas em muitos casos não intencionalmente, em consequência mesmo do caráter da pregação,  tem contribuído amplamente para o aumento do complexo de culpa entre certos tipos introvertidos de seus aderentes. O esforço dos pregadores religiosos para “convencer” seus ouvintes “de pecado” tem agravado grandemente as dificuldades conscienciais e as fantasias de punição de muitos crentes religiosos.”

            Nas pregações deve, antes, existir o espírito do manso Cordeiro. “Vai e não peques mais” - simplesmente disse Ele à mulher adúltera. “Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” - exprobrou os fariseus e escribas e a multidão.

            Há casos de indivíduos - comenta o Dr. Sadler - que procuram a religião, fugindo à realidade e às responsabilidades da vida e compensam esses sentimentos de inferioridade com um “complexo de superioridade” religiosa, que pode às vezes levá-los perigosamente às proximidades dos limites da paranóia.

            A seguir, o mesmo psiquiatra mostra as desilusões e os desânimos arrasadores a que certas seitas religiosas conduzem os pacientes que as buscam, pois essas seitas prometem o impossível nos processos de cura, “cura divina” como a denomina o Dr. Sadler.

            Cremos que de forma alguma o autor se lembrou de referir-se ao Espiritismo, pois os  médiuns curadores apenas transmitem de graça o que de graça receberam, não prometendo o impossível, mas colocando a Vontade Divina sobre todas as coisas.

            “Os crentes religiosos semi-fanáticos - declara o autor em questão -, que atribuem toda a saúde a uma graça de Deus e que olham todas as formas de doença como expressão da “ira da Divindade”, quando doentes, esmorecem continuamente, progridem em seus estados depressivos, convictos de que estão enfermos porque se afastaram dos preceitos Divinos.”

            Ora, O Espiritismo, em todos os seus livros e em todas as ocasiões prega que Deus é amor. Em nós mesmos é que encontraremos o porquê das doenças que nos afetam, seja por uma condição intrínseca ao nosso organismo de carne, seja por influências psíquicas sobre o corpos somático, o que deu origem à ciência psicossomática, seja, enfim consequência da aplicação do “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, dentro das leis da reencarnação.  

            Adiante, acrescenta o Dr. Sadler: “As religiões primitivas poderiam ter alguma desculpa por sua intolerância, mas que defesa apresentam as crenças cristãs em sua intolerância e em suas perseguições cruéis? Prevenção, iliberalidade e fanatismo são fatores destrutivos da paz mental, e conduzem aos conflitos psíquicos e aos desajustamentos sociais."

            Sim, que defesa apresentarão as crenças cristãs em sua intolerância separativista, se Jesus sempre exemplificou a união, a concórdia, a compreensão e a tolerância? É Rui Barbosa quem diz que, no passado, “por parte e a benefício da ortodoxia, derramou-se mais sangue do que nas mais sanguinosas contenções dos partidos profanos, das utopias sociais e das revoluções políticas.” (“O Papa e o Concílio.”)

            Hoje, continua a grande Águia de Haia, "Já não se armam na praça os “quemaderos”; já o índice expurgatório não tem a seu soldo o verdugo; já os tribunais eclesiásticos não dispõem do potro e da poté: já não se capitula na lei penal a quebra do jejum, a inobservância do domingo, a leitura de escritos heterodoxos; já não se impõem aos apóstatas a morte civil e o confisco; já não se segregam da povoação para bairros defesos, como leprosos, os adeptos do mosaísmo ou do Corão.

            “Extinguiram-se, sob a mais geral e irrevogável reprovação, aquelas ferocidades bestiais do fanatismo.” (“O Papa e o Concilio”).

            Apesar de tudo isso, dizemos nós, a intolerância acerada ainda prossegue nos escritos e nos púlpitos, até mesmo no Além-Túmulo, contra as demais religiões, e, agora. - e com mais vigor - principalmente contra o Espiritismo. Que pensar, então, do que se vê? Concordamos com Rui, que assim explicou: “Repugnando a liberdade absoluta de cultos, dão ao mundo os católicos destes tempos um espetáculo deplorável que desonra a confissão de que são membros. Uma de duas: ou os engoda a vantagem mundana das regalias materiais, que a intolerância assegura aos privilegiados; ou desconfiam da procedência celeste da fé em que militam." (“O Papa e o Concílio”.)

            Ainda recentemente, a revista jesuítica "La Civiltà Cattolica", segundo o "Time" de 28-6-48, declarou por suas colunas, com pasmo para todos, que – “a Igreja não tem de que se envergonhar quando revela a sua falta de tolerância”!!

            O Espiritismo, bem ao contrário, abre de par em par suas portas e recebe todos os filhos de Deus, sejam eles protestantes, católicos, budistas, ateus ou materialistas, tudo envidando por minorar lhes os sofrimentos, independente de qualquer confissão ou profissão de fé religiosa. Seu lema é, e continuará a ser: - Trabalho, Solidariedade e Tolerância.

            Ensina-nos Allan Kardec que “toda crença é respeitável, quando sincera e conducente à prática do bem” (“O Livro dos Espíritos”); mas o que é necessário é - ainda na palavra de Rui Barbosa - "extinguir esse maléfico instinto das religiões privilegiadas, o odium theologicum, e criar nas almas, acima de todas as confissões, um laço de confraternidade superior, vigoroso elemento de fé e civilização. (“O Papa e o Concílio”).

            Todos os intolerantes religiosos deviam ler, reler e perler o trecho a seguir, do Espírito de Calderaro (“No Mundo Maior”): "Intoxica-vos o dogmatismo, corrompe-vos a secessão. Estreitas interpretações do plano divino vos obscurecem os horizontes mentais.

            “Abris hostilidade franca, em nome do Reino de Deus que significa amor universal e união eterna.

            “Conspurcais a fonte das bênçãos, amaldiçoando-vos uns ao outros, invocando, para isso, o Príncipe da Paz, que, para ajudar-nos, não hesitou ante a própria morte afrontosa.

            “A que delírio chegastes, estabelecendo mútua concorrência à imaginária obtenção de privilégios divinos?

            “Infrutífera seria a divina missão do Mestre, se a Boa-Nova permanecesse circunscrita às trincheiras sectárias, onde presunçosamente vos refugiais, com o objetivo de inflamar a execranda fogueira das hostilidades simuladamente cordiais.

            “Como invocar lhe o nome para justificar os desvarios da separação por motivos de fé? como apoiar-se no Amigo de Todos para deflagrar embates de opinião, acendendo fogueiras de ódio em prejuízo da solidariedade comum que Ele exemplificou até no supremo sacrifício? não será denegrir lhe a memória, difundir a discórdia em seu nome?

            Que essas interrogações façam refletir aqueles que “têm olhos de ver e ouvidos de ouvir”.

            Acompanhemos o Dr. Sadler, que agora menciona as causas religiosas conducentes à desorganização mental, escrevendo: “Muitas religiões têm cultivado a superstição tanto quanto o medo. Só recentemente a religião começa sua libertação desta enorme sobrecarga de dogmas supersticiosos. No passado, a religião obstinadamente impugnou os avanços da ciência e mesmo hoje, às vezes, previne seus adeptos contra as práticas psiquiátricas.”

            Na realidade, a religião católica não começa a realizar em si a libertação de dogmas danosos. Os crentes, sim, é que, não mais podendo aceitá-los, os expunge pouco a pouco, de si mesmos.

            O passado de que fala o autor já é de todos conhecido, e fastidioso seria relembrá-lo. Contudo, o Dr. Xavier de Oliveira, psiquiatra das bandas de cá, parece não concordar com o Dr. Sadler, e declara, combatendo aleivosamente o Espiritismo, que “o Cristianismo Católico” é para ele, “a religião de escolha" no Brasil, “aquela em que o dogma - crê em tudo e crê sem hesitação - não deixa margem para as indagações e interpretações que, nas outras, principalmente o Espiritismo, são I) caminho para a dúvida, a ideia fixa, a obsessão, a angústia e a loucura. (“Do direito de testar dos insanos”, 1946, pág. 115.) 

            Quae te dementia cepit? Que disparate! e partido de um médico que se nomeia psiquiatra!

            Então o raciocínio livre e inteligentemente dirigido não tem razão de ser? Desceremos a tal ponto, de aceitarmos asnaticamente as mais manifestas
incongruências afastados de toda crítica sã e racional?

            Quererá o Dr. Xavier, hoje, contra todos os ensinos da lídima prática psiquiátrica, reviver aquela idade de trevas em que o "crê ou morre" dominava? Acaso terá em mente proscrever de nossas leis a liberdade religiosa pela qual tantos homens cultos batalharam, inclusive Rui Barbosa? Acaso concorda ele - e assim parece ser - com o episcopado belga que assegurava ser a liberdade de cultos “incompatível com os dogmas da religião católica” (“O Papa e o Concílio”) e anseia, por isso, alijar o Espiritismo do Brasil?

            Não, não cremos, e ninguém pode crer, que o Dr. Xavier de Oliveira firme seus pontos de vista em reais bases psiquiátricas.  

            A improcedência e o caráter totalitário de suas afirmações são de pasmar a qualquer ser pensante liberto de fanatismos degradantes, seja médico ou não.

            Não vemos por onde conciliar as ideias dogmáticas e extremistas do Dr. Xavier com as lições libertadoras e evolucionistas do Espiritismo, que veio trazer ao Mundo uma nova esperança.

            É o Espírito de André Luiz, ex-médico na Terra, que em "Obreiros da Vida Eterna" nos traz os esclarecimentos sobre aquilo que dissemos e que por certo darão que pensar ao Dr. Xavier e correligionários.

            Assim escreve ele: "Como transferir imediatamente para o inferno a mísera criatura que se emaranhou no mal por simples influência da ignorância? que se dará, em nome da Sabedoria Divina, ao homem primitivo sedento de dominação e de caça? - a maldição ou o alfabeto? Por que processo conduzir ao abismo tenebroso o Espírito menos feliz, que obteve contato com a verdade, no justo momento de abandonar o corpo?

            “Como haver-se, no paraíso, o pai carinhoso cujos filhos fossem entregues a Satã? que alegria se reservará à esposa dedicada e fiel, que tem o esposo nas chamas consumidoras?

            “Como justificar um Inferno onde as almas gemessem distantes de qualquer esperança, quando, entre homens imperfeitos, ao influxo renovador do Evangelho de Jesus-Cristo, as penitenciárias são hoje grandes escolas de regeneração e cura psíquica?

            “O Espiritismo começou o inapreciável trabalho de positivar a continuação da vida além da morte, fenômeno natural do caminho da ascensão. Esferas múltiplas de atividade espiritual interpenetram-se nos diversas setores da existência. A morte não extingue a colaboração amiga, o amparo mútuo, a intercessão confortadora, o serviço evolutivo. As dimensões vibratórias do Universo são infinitas como infinitos são os mundos que povoam a Imensidade.

            “Ninguém morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda a parte.

            “A vida renova, purifica e eleva os quadros múltiplos de seus servidores, conduzindo-os, vitoriosa e bela, à União Suprema com a Divindade.”

            Em prosseguimento às observações do Dr. Sadler, veremos que este declara que “as religiões muitas vezes também favorecem, sem intenção, o fanatismo". E continua: “A religião pode libertar seus profitentes do medo, mas desde que eles estejam imbuídos de uma exaltação fanática que confina com a egomania e ilusões de superioridade espiritual, tal exaltação frequentemente resulta em sérias reações de depressão e melancolia.”

            Os jornais diários, através de fatos e mais fatos, têm registado os efeitos desastrosos do fanatismo religioso, ocasionador de distúrbios mentais e motivo de tristes lutas separatistas de homens e povos.

            O passado e ainda o presente estão cheios de fatos tais. Convenhamos, entretanto, em que nem sempre esse fanatismo nasce “inconscientemente”, por assim dizer. É ele, não poucas vezes, instilado lenta e ardilosamente entre as massas menos esclarecidas, incitando-se lhes a aversão, o ódio e até mesmo a perseguição contra aqueles que, novos pegureiros do Evangelho, lhes surjam à frente.

            Os exemplos, aqui no Brasil, e no exterior, são por demais conhecidos, dispensando-nos de a eles nos referirmos.

            Se o fanatismo religioso se traduz em maus frutos, o mesmo se dá com o fanatismo das escolas científicas. Valendo-se de suas posições mundanas, postados em pedestais ilusórios, os homens da Ciência alimentam, às vezes, tais antinomias neuróticas contra quem deles divirja no modo de entender ou interpretar as coisas, que chegam às raias dos disparates, afastando-se do âmbito do bom senso e do critério que devem presidir às enunciações do verdadeiro homem de ciência.

            Tomado de uma espécie de misoneísmo, espiritismofobia, espiritofobia, ou seja lá o que for, vem o Dr. Xavier declarar - relembrando-se ainda das fogueiras da Inquisição - "que à higiene e a profilaxia do Espiritismo está em se queimarem todos os livros espiritas".  "Espiritismo e Loucura”, 1931, pág. 192).

            Com o espírito Intolerante e absolutista deste psiquiatra, só nos resta aconselhá-lo a procurar um colega, pois certamente sofre de alguma psiconeurose violenta, que lhe passa despercebida ao auto-exame. Deve ele ouvir também o distinto psiquiatra Dr. Inácio Ferreira, que afirmou, com a convicção doa fatos, que “0 Espiritismo, libertando o homem do fanatismo, das crendices e das superstições, é um fator do equilíbrio psíquico". (Carlos Imbassahy, “Espiritismo e Loucura”).

            Mas, vamos adiante. No capítulo dos beatos, o Dr. Sadler diz que eles, por sua excessiva subjetividade, tendem para a contemplação de si mesmos (self-contemplation) e para um exame introspectivo mórbido, o que os conduz a um recolhimento doentio, aumentando-se lhes a tendência para a hiperemotividade. Muitos deles são morbidamente passivos, mas “como reação aos estados de falsa piedade e de docilidade anormal, podem ocorrer períodos de excitação que revestem a natureza de “exaltações emocionais".

            Não rebateremos nessa tecla, pois é de todos sabido os prejuízos adventes do excessivo zelo religioso, da devoção "encolhida" e infrutuosa, que quase sempre encerram, no fundo, hipocrisia doentiamente mascarada.

            Passados em revista os aspectos contrários da religião no perfeito equilíbrio da mente humana, o Dr. Sadler expõe os incontáveis benefícios prodigalizados pela religião, frisando, porém, que aquela a que ele se refere está fundada no amor, como o estão os ensinos de Jesus, Assim - declara ele -, “ela não proclama nem terríveis ameaças de punição eterna, nem um Inferno inextinguível; não proclama um Deus irado e ciumento, mas, antes, ensina “a complacência de Deus, que move ao arrependimento”.

            O mesmo autor tece, a seguir, comentários sobre o conforto e a compreensão que nascem da fé no amor a Deus e na luminosa esperança de uma eternidade, seja nas experiências catastróficas e desastrosas da Humanidade em geral, seja nos episódios penosos e chocantes da vida de cada criatura humana.

            Sempre impregnado de grande otimismo com relação ao fator - religião nas curas psíquicas, escreve o Dr. Sadler sobre o imenso auxilio que a religião pode dispensar, no levantamento de pacientes neuróticos desanimados e desiludidos, mostrando-lhes ela um motivo superior na vida, transcendente a todos os outros, transitórios.

            O psiquiatra americano cita ainda outros benefícios prodigalizados pela religião, concluindo, no final, com as palavras de Dorsey: "Por intermédio da poderosa influência da fé, da esperança e do amor, o psiquiatra pode conseguir maravilhas no tratamento das pessoas. Sem esses três poderosos elementos, sua medicação será positivamente superficial”.

            À vista de tudo isto, temos de confessar - e o fazemos despreconcebidamente e sem paixões - que o Espiritismo satisfaz in totum os anseios do Dr. Sadler. É essa uma afirmação que se impõe a todo aquele que penetra, com sinceridade e lealdade, o âmbito dessa Doutrina. E acrescentamos, com André Luiz: “As noções reencarnacionistas renovarão a paisagem da Terra, conferindo à criatura não somente as armas com que deve guerrear os estados inferiores de si própria, mas também lhe fornecendo o remédio eficiente e salutar.”

            Através dessas revelações é que o Espiritismo vem contribuindo para o levantamento do homem, por explicar lhe o porquê dos aleijões, das catástrofes, das guerras, dos ódios, das antipatias, das perseguições, da loucura, da vida e da morte enfim, infundindo-lhe compreensão, renúncia, conforto e esperança, afastando-o, por conseguinte, do abismo, das neuroses.

            Ao contrário, muito ao contrário do que por ai propalam certos psiquiatras, o Espiritismo é atualmente a bóia salvadora de milhões de mentes no oceano encapelado das tormentas e dos desequilíbrios vários que açoitam a Terra em todos o quadrantes.

            Com essas referências, porém, não queremos desmerecer o trabalho cristão dos psiquiatras em geral, que muito têm feito por seus doentes, com abnegação e carinho. Dão o que podem. muitas vezes se estafando na resolução de intrincados problemas relativos à saúde mental de seus pacientes. A eles a gratidão que devemos a todos os benfeitores da Humanidade, e em assim reconhecendo é que o Espírito de Calderaro declarou lealmente: “Cumpre-nos reconhecer que o belo esforço da psiquiatria moderna merece o maior carinho de nossas autoridades espirituais, que patrocinam os médicos diligentes e devotados, oríentando-os para o bem comum, simultaneamente em diversos centros culturais," (F. C. Xavier, "No Mundo Maior".)

            Eis-nos chegado ao fim deste despretensioso trabalho.

            O Espiritismo revela-se nos mais e mais aos olhos como o Consolador prometido por Jesus, orientando-nos a consciência para o perfeito equilíbrio com o Todo.

            Em todos os cantos do Planeta tem feito ecoar o mesmo convite que o mestre da Galileia nos dirigiu há dois mil anos atrás: “Vinde a mim todos os que andais aflitos e vos achais carregados, e eu vos aliviarei.”

            Não desprezemos este abençoado convite!