Pesquisar este blog

sexta-feira, 30 de março de 2018

A Reencarnação de Allan Kardec


Allan Kardec (Espírito)


            Não temos conhecimento de que Allan Kardec tenha se manifestado como espírito, em muitas ocasiões.

            Na realidade, dispomos de poucos registros neste sentido.Um deles, é uma referência ao assunto, feita por Humberto de Campos (Espírito) em “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, em psicografia de Francisco Cândido Xavier, edição FEB, que, no seu capítulo XXVIII, comenta dos primórdios da Federação Espírita Brasileira e, referindo-se a Ismael, diz que este Espírito “... nos primeiros dias de 1889, preparara o ambiente necessário para que todos os companheiros do Rio ouvissem  a palavra póstuma de Allan Kardec, que, através do médium Frederico Jr, forneceu as suas instruções aos espiritistas da capital brasileira, exortando-os ao estudo, à caridade e à unificação.”

            Além dessa nota encontramos também, em destaque, um esclarecimento de nossos irmãos da Casa Editora “O Clarim”, de Matão, SP, sobre a obra “A Obsessão” (5ª Ed. Jan 1993), “obra reimpressa em francês com a aprovação de Allan Kardec, em comunicação datada de 06/09/50.” Na alternativa de Kardec estar reencarnado estaríamos nós diante da hipótese de ter seu espírito apresentado-se  em desdobramento? Sigamos...

            Encontramos, no Reformador de Outubro de 1903, o texto a seguir. Pelos encarnados presentes e pela audiência espiritual não nos parece devam haver dúvidas quanto à veracidade do que passaremos a reproduzir...

            “Seção comemorativa do 99º aniversário da encarnação de Allan Kardec, em 04.10.1903. Ao seu final, um espírito, que se assinou Allan Kardec, respondeu, por psicografia de Frederico Júnior, às homenagens que tinham acabado de prestar-lhe:

            “- Senhor! Eu não sou digno de tudo o que se passa em volta de mim; no entretanto, se é essa a Vossa vontade, seja uma esmola de Vosso amor para Vossos filhos.
            Meus irmãos! Eu apanho jubiloso as flores das vossos sentimentos amorosos, e as levo para as colocar aos pés de Jesus, o verdadeiro Mestre. Eu apanho o perfume dessas flores e o levo aos pés da Virgem, de cujo seio, em jorros, desce a luz das mães amorosas, buscando a alma dos presentes, para inspirar em cada uma esses sentimentos que elevam.
            Há festas na Terra e no céu; e essas festas no céu e na Terra deviam ser somente consagradas a Jesus, porque se não fora o seu sacrifício, se não houvesse a prova do cálice, o ultraje e as afrontas, se não fora o Cordeiro Imaculado, Allan Kardec não teria a fonte sublime do Evangelho para se inspirar, para crer e para reformar o espírito.
            Irmãos! Não quero fatigar o instrumento que me serve; já ouvistes bastante para conforto de vossos corações, feridos pela dor.  Se me fosse concedido imitar Jesus, em uma só palavra, eu vos diria: Amai-vos uns aos outros e tereis festejado o meu natalício. A paz do Senhor seja convosco."    Allan Kardec
            Sigamos...

         O Reformador de 31.3.1908, em artigo intitulado “O Enviado de Jesus”, comenta sobre a reencarnação de Kardec:
            “... porque já em vida fora anunciada a Allan Kardec (vide Obras Póstumas) uma nova reencarnação, que ele próprio calculou para fins do século passado ou começo do presente, a fim de vir concluir a tarefa, que o não poderia ser naquela encarnação.
            Ter-se-á realizado já esse fato? Terá de novo aquele nobre e abnegado espírito renunciado à vida espiritual, feliz e luminosa, para voltar e sepultar-se nas trevas de um corpo humano, e estará aí ensaiando os seus primeiros movimentos, e preparando lentamente as asas para um novo surto, no seio da humanidade, dentro de alguns anos?
            Uma circunstância, que nos não tem escapado, o parece indicar: e é que, em todos os círculos espíritas bem orientados, isto é, naqueles em que se exerce uma vigilância e análise severa em todos os ditados espíritas e não se aceitam, de ingênua fé, todas as comunicações, nota-se desde alguns anos uma ausência completa do nome de Allan Kardec nas manifestações. Nem mesmo nos dias solenes consagrada à sua memória, como o 3 de outubro e o 31 de março, tem sido assinalada a sua presença...”
         Caminhamos mais alguns meses e, outra vez, o Reformador, em 3 de Outubro de 1908 retoma o assunto com breve comentário, ressaltando que alguns espíritas teriam recebido a indicação que Kardec já teria reencarnado.

            O Reformador, já em 15 de Março de 1910, no transcurso do 41º aniversário de desencarnação de Allan Kardec, dedica ao codificador as seguintes palavras:

            “... De alguns anos, contudo, para cá, essa voz amiga e experiente cerrou de se fazer ouvir, e algumas comunicações esparsas que têm aparecido, firmados com o seu nome, denunciam, tanto no estilo como nos conceitos, a suspeição da sua origem..”  ....Tudo assim parece fazer crer que Allan Kardec já voltou à carne...”
           
            Finalmente, a família espírita recebe a tão esperada confirmação!

            Referimo-nos ao Reformador de 16 de Outubro de 1919 onde aparece transcrita uma comunicação de Agostinho, bispo de Hipona, manifestado em reunião na FEB, comemorativa do aniversário de nascimento de Allan Kardec (3 de Outubro). O médium é Albino Fonseca. O texto está a seguir apresentado. Os grifos são nossos.

            “Meus filhinhos, Paz.
            Presentes se acham à nossa reunião aqueles que assistiram Allan Kardec durante o desempenho da grandiosa missão por ele levada a bom termo, quando na Terra exilado.
            Se pudésseis com os olhos do espírito presenciar o quadro que sobre vossas cabeças se desenrola, irradiando fluidos de amor e de paz, deslumbrados ficaríeis, e eis porque esse prazer vos não é dado, para que ofuscadas não sejam as vossas vistas.
            Deus em tudo é sábio e previdente.
            Dos que aqui se acham invisivelmente presentes, fui eu escolhido para, como seu delegado, algo dizer sobre a comemoração que fazeis.
            Essa comemoração é justa, é merecida, conquanto a melhor comemoração fosse aquela que pudésseis fazer quotidianamente, limpando os vossos corações da lepra dos impuros sentimentos, lavando os vossos espíritos da mácula que os nodoa, facetando-os para que, límpidos estejam por ocasião das belas alvoradas, cuja  cortina o nosso Mestre veio rasgar.
            Léon Hyppolite Denizard Rivail, ao encarnar tomou a resolução de propagar os ensinos do Senhor, e tendo o seu guia lhe perguntado se se sentia com força para enfrentar tão árduo empreendimento garantiu ele que sim. Se soube cumprir a sua promessa, vós o podeis afirmar, pois a sua obra aí está  testemunhando o seu esforço em prol da divulgação das supremas verdades.
            Assistindo ao trabalho das denominadas mesas girantes, que atraíam a atenção de inúmeros curiosos com o único intuito de distração - ele, o vosso mestre, verificando que essas mesas, por meio de pancadas conversavam com os presentes. Portanto, denotavam que uma causa inteligente devia movimentá-las, meditou sobre o que viu, estudou, investigou, chegando à conclusão de que entidades invisíveis eram os seus propulsores.
            Começou então o seu estudo aprofundado, compilando por intermédio de médiuns diversos e de fontes várias invisíveis esse monumento colossal que hoje altivo se ergue, mostrando à humanidade transviada que algo mais elevado do que as coisas materiais se desdobra sobre a sua cabeça, e que a sua verdadeira felicidade constitui.
            Vinha o homem de longos séculos debatendo-se no mar revolto das paixões e desvarios sem cogitar do seu Deus e do destino que o aguardava, qual náufrago em proceloso oceano, lutando contra as ondas enfurecidas e esperando uma tábua de salvação em que pudesse agarrar-se, e vem o emissário enviado pelo Senhor, que lhe lança essa tábua, sendo feliz aquele que a ela se segurar, porque se libertará da fúria do mar de trevas em que está prestes a sucumbir.
            Não podendo Allan Kardec vir pessoalmente agradecer a homenagem que lhe prestais, eu, delegado por aqueles que o assistiram, declaro-vos que gentil e carinhosamente acolhemos os eflúvios do preito de vossa gratidão e a seu tempo o transmitiremos ao nosso e vosso irmão, que, em obediência a nossas instruções, entre vós de novo se encontra, para dar maior amplitude à doutrina salvadora da humanidade. Lembrai-vos que nosso mestre não palmilhou um caminho de rosas, mas cheio de urzes e espinhos, pois foi insultado, achincalhado, caluniado, sem que apesar de tudo, o seu intento um só momento esmorecesse, porque sabia que trabalhava na causa santa do Senhor.
            Praze os céus que vós, seus continuadores, possais também suportar com resignação todos os apodos, todo o ridículo que sobre vós lançarem, ficando satisfeitos com a consciência de bem ter cumprido o vosso dever e dado cabal testemunho de Jesus.
            A paz do Senhor, meus filhinhos, fique convosco, e permita Ele, que dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, a nossa cogitação seja - a vossa reforma moral, para que condignamente possais receber o mestre e amigo ao iniciar sua próxima tarefa. Deus vos abençoe e vos dê paz.                 Agostinho, bispo de Hipona.
`
            De 1919 em diante, por mais que buscássemos outras referências, nada encontramos em “Reformador” que desse continuidade a tema tão sensível para nós espíritas.

            Assim sendo, este artigo fica inconcluso e à espera  - por quase 100 anos - de mais e melhores referências sobre a reencarnação do amado mestre de Lyon.
           





quinta-feira, 29 de março de 2018

As 3 pedrinhas



As Três Pedrinhas
por José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Outubro 1947

No alto do monte Kiskut, perto de Medina, na Arábia, viviam dois pastores: Mameiik, ancião de setenta invernos bem contados, e Ahmed-Nahra, no estouvamento dos seus belos dezoito anos.

Certa noite, inquieto, Ahmed-Nahra bateu nervosamente à porta do velho. Cometera uma falta e temia sofrer-lhe as consequências. Apesar de a noite ir adiantada, achava-se Mameiik acordado, lendo à luz vacilante de uma candeia, versículos do Livro Sagrado do Profeta. Interrompendo a leitura, pôs-se a ouvir Ahmed-Nahra, cujas palavras, no silêncio tumular daquela hora, estrepitavam, muito embora o rapaz as pronunciasse quase à meia voz.

Todo esse tempo Mameiik permaneceu calado, sem fazer um gesto. Voltando a manusear o vetusto livro, procurou um trecho que se adaptasse à situação do jovem amigo. Leu-o em voz alta, vagarosamente, como que pretendendo gravá-lo o no coração irrequieto do traquinas.

Cabisbaixo, Ahmed-Nabra suportou humildemente a admoestação, ouvindo as considerações de Mameiik, que conservava ainda o dedo pousado em certo ponto do sagrado eucológio (livro que contém as orações cotidianas).

E o velho começou a falar:

-  “Ahmed: Estás ficando um homem. É preciso que te habitues a sofrear os impulsos desordenados da tua natureza rebelde. A ocasião é propícia para começares vida nova, porque teu coração se encontra em sobressalto e receias a punição severa do cádi (juiz muçulmano que julga segundo a Charia). Sirva-te de escarmento (corretivo) o que hoje te aconteceu. Deixa em paz as tamareiras de Abid-Amam e volta teus olhos para o Livro Sagrado do Profeta, onde está escrito o destino de cada um de nós."

Passando a mão espalmada pela cabeça do jovem, Mameiik confortou-o com um sorriso cheio de bondade. E continuou:

- “Ahmed: Não tenho filhos; todos os membros da minha família já foram chamados por Alá. Todavia, não me encontro só, como imaginas, porque tenho a companhia das minhas melhores recordações, e a bênção do Profeta enche os meus últimos dias de vida. Sinto em volta de mim os amigos que os meus olhos não podem ver, mas que o meu coração percebe. Conheço todo o Livro Sagrado e posso dizer-te tudo quanto ele contém, do começo ao fim, de trás para diante. Entretanto, Ahmed,
isto não basta. É preferível trazer as Santas Palavras no coração - e não somente nos lábios - para que os nossos atos e dizeres não as contrariem."

Após breve interregno, rematou:

- "Em vez de invadires o pomar de Abid-Amam para roubar tâmaras, vem para cá, todas as noites. Ensinar-te-ei alguns dos mistérios do Livro Sagrado do Profeta; aprenderás a senti-lo, a interpretá-lo, a ler, através da linguagem poética dos versículos, muitas vezes alegórica, o pensamento profundo e sutil que Alá soprou a Maomé.

           E, então, se fores fiel a esses ensinos, tua vida mudará para melhor, novos horizontes se desdobrarão ante os teus olhos. Aprenderás a compreender a Vida e a dar as coisas da Terra seu justo valor. Acharás as Santas Palavras do Livro Sagrado infinitamente mais doces do que os belos frutos maduros das tamareiras de Abid-Amam ... "

Assim fez Ahmed-Nahra. Longas e longas noites, do verão ao inverno, do inverno ao verão, frequentou ele a choça de Mameiic, estudando e aprendendo que as ambições do mundo são tolas e que somente nos deixamos seduzir por elas porque não estamos preparados espiritualmente para a vida. A lição do velho místico fora-lhe proveitosa. Três anos decorreram após aquela noite agitada e Ahmed-Nahra estava completamente modificado. Guardava bem vivas na lembrança as palavras de Mameiic:

- "Ahmed, Ahmed, meu filho, toma tento. Todas as graças do mundo não valem um momento de real tranquilidade. Os homens se esfalfam, brigam e se matam pelo poder, pela riqueza, pela dominação dos outros homens. Insensatos! Vai um dia ouvir o ulemá (Teólogo muçulmano especializado em leis e religião) Abdul-ben-Abdullah e verás, Ahmed, como a vida é muito mais bela do que parece. Mas sua beleza é tão simples que a maioria dos homens não a enxerga nem compreende... Vai ouvir Abdul-
-ben-Abdullah. Ele te dirá como alcançar a Paz Interior. Começa por não pensar mal nem fazer mal a quem quer que seja. Mas faze o bem a todos, indistintamente. Ser bom, além de constituir intransferível dever, é direito que o Espírito adiantado adquire, pois a bondade é índice seguro de elevação espiritual. Trabalha por ti, ajudando os teus semelhantes. É fazendo pelos outros que nos ajudamos melhor. O primeiro passo para o bem é não fazer o mal. O segundo é fazer e pensar sempre o bem."

        Quando o ex apreciador das tâmaras de Abid-Amam decidiu visitar a cidade de Meca, para realizar o seu "abdest" (purificação legal) e ouvir o sábio Abdul-ben-Abdullah, amigo de Mameiik, este lhe ofertou um alquicé (tecido para cobrir mesas, banco e etc) e uma sacola, dizendo conter três pedras pequeninas. As lágrimas visitavam
os olhos do rapaz, na hora da despedida. Então, Mameiik lhe disse, docemente:

        - "Toma, Ahmed-Nahra, estas pedrinhas. Leva-as contigo onde quer que vás, para que te não esqueças de teus deveres."

Ahmed abriu o saquinho e segurou a pedra maior. Advertiu-lhe o velho:

- "Essa pedra significa que a ingratidão do mundo é a mais comum das recompensas que podemos esperar do bem que fizermos. Isto quer dizer que não se deve fazer o bem senão por amor ao bem, ainda que nos façam mal; nunca, porém, para recebermos qualquer paga ou agradecimento."

Ahmed enfiou de novo a mão na sacola e dela retirou outra pedra, um pouco menor que a anterior.

- "Sábio Mameiik, e esta?"

Mameiik olhou demoradamente para o jovem e tornou:

- "Esta é a segunda pedrinha. Não é grande nem pequena demais. Quer dizer que deves sempre vigiar as tuas ações e controlar os teus pensamentos, evitando excessos e deficiências. Ela representa o meio-termo. A verdadeira virtude está no equilíbrio. Foge dos elogios fáceis e abundantes, como das censuras e acusações levianas. Sê sóbrio, discreto, paciente, tolerante, Ahmed-Nahra; sê justo."

Ahmed, então, rebolcou a sacola pela última vez, procurando a derradeira pedrinha, que deveria ser a menor das três. Não a encontrando, olhou, surpreso, para Mameiik, que lhe prestou o esclarecimento final:

- "Ahmed-Nahra, filho meu: A pedrinha que não encontras representa o que fizeste de bom até agora, em favor dos teus semelhantes... Não a vês, é certo, porque ela ainda é ... imaginária. Não importa, porém. Trabalha com o pensamento em Alá; faze o bem, de preferência a quem te fizer mal; serve ao teu próximo com boa vontade e sincera alegria no coração e, um dia, quando procurares de novo a pedrinha dentro da sacola, encontra-la ás, porque ela crescerá simultaneamente com
o teu progresso moral."

               Cinquenta anos depois, Ahmed-Nahra voltou ao alto do monte Kiskut, onde vivera com Mameiik. A cabeça branca era como que uma auréola de prata fulgurante. Trazia ele ainda, com acendrado carinho, a sacola com as duas pedrinhas que o velho amigo lhe dera. A terceira ele a encontrara, depois de anos de intensa labuta. Seu nome se fizera conhecido da Arábia inteira e era pronunciado com respeito geral.
  
Dizem as crônicas daquele tempo que Ahmed--Nahra não pode trazer consigo a terceira pedra porque ela crescera tanto, tanto, que, então, já pesava algumas toneladas ...

Nota do Blog: Os trechos em negrito não existem no original. Foram destacados na estória acima pois resumem os ensinamentos nela contidos.

A Religião do Futuro



A Religião do Futuro
por Djalma Farias
Reformador (FEB) Junho 1947

Os problemas graves do espírito devem certamente interessar-nos muito mais do que os problemas da vida material, porque para os últimos encontramos soluções efêmeras e condicionadas à época, ao passo que as soluções apresentadas para os primeiros são definitivas, inalteráveis, e radicam-se nas mais elevadas concepções da
imortalidade e da vida espiritual.

Pascal pensava muito bem quando afirmava: "A imortalidade é um assunto que nos importa tanto, que nos toca tão profundamente, que é preciso ter perdido todo o sentimento, para ficar na indiferença de o conhecer".

A filosofia espírita vai aos poucos encontrando sempre solução racional para os mais complexos problemas do espirito, oferecendo-nos esplêndido campo de estudos e observações, onde poderemos colher os frutos mais necessários ao nosso espírito, sempre desejoso de atingir um plano mais elevado na evolução que se processa naturalmente no íntimo de todos aqueles que querem tornar-se discípulos de Jesus e filhos de Deus. 

Feliz da criatura que possui uma fé inteligente, alicerçada na razão, na lógica, na ciência, sobretudo na rocha viva dos santos Evangelhos de Jesus. É esta fé pura e divina, que está iluminando o espírito dos que a possuem, amenizando a vida de infortúnios e de amarguras dos que sofrem, consolando os aflitos; é esta fé indestrutível, que vem dominando almas e corações, que irá constituir a religião do futuro, quando o Espiritismo for bem compreendido e mais bem praticado. E esta fé racional, inabalável, que, operando a transformação do homem, transformará, ipso fato, a própria Humanidade, que se desvencilhará das velhas crenças para aceitar e defender novos ideais, como sucedeu no Cristianismo que destruiu completamente as superstições e os erros do paganismo. Isso ocorrerá pela força mesma do progresso e
a ciência comprovará e firmará os conceitos espirituais da vitoriosa filosofia. Lembro-me bem de uma luminosa reflexão de Gabriel Delanne sobre esse assunto. Eis o que ele escreve: "No dia em que a ciência se persuadir da veracidade do Espiritismo, uma verdadeira revolução transformará o mundo; as pesquisas que têm por único objetivo a matéria se elevarão até à alma e uma nova era abrir-se-á à Humanidade, regenerada por uma fé racional, fazendo-a avançar para a conquista de todos os progressos, que ora mal entrevê. Trabalhemos para penetrar nas profundezas do ser humano, conforme a fisiologia e sob o fulgor do Espiritismo. Tornemos palpável a influência que a alma exerce, tanto no estado consciente, como no estado inconsciente, sobre todos os fenômenos vitais. Esquadrinhemos minuciosamente as relações morais; estudemos a sede das faculdades da alma e havemos de chegar a conclusões promissoras para o destino humano".

quarta-feira, 28 de março de 2018

Ante o Grande Renovador



Ante o Grande Renovador
Irmão X por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho1947

Senhor, lembrando a Tua crucificação entre malfeitores, sacrificado em Teu ministério de amor universal, ouvimos apelos de vários setores religiosos do mundo presente, invocando-Te o nome para incentivar os movimentos tumultuários da renovação política que convulsiona o Planeta.

Asseguram-Te a posição de maior revolucionário de todos os tempos. Afirmam que abalaste os fundamentos sociais da ordem humana, que alteraste o curso da Civilização, que transformaste os povos da Terra.

Quem te negará, Senhor, a condição de Embaixador Celeste? Quem desconhecerá teu apostolado ele redenção?

Entretanto, divulgando a mensagem da Boa-Nova, jamais insultaste o governo estabelecido ... Amigo de todos os sofredores e necessitados, nunca congregaste os infelizes em sinistras aventuras de ódio ou indisciplina. Aproximavas-Te dos desamparados curando-lhes as enfermidades, ensinando-lhes o caminho do bem,
estendendo-lhes mãos benfeitoras e diligentes. Dirigindo-Te à massa anônima e desditosa, em nome do Eterno Pai, não preconizaste movimentos armados de desrespeito às autoridades legalmente constituídas. Ao invés do incitamento à revolta recomendavas que a Lei de Moisés fosse respeitada, que os sacerdotes dignos fossem honrados, asseverando que o Reino de Deus não surgiria com aparências exteriores e sim com a elevação espiritual do homem de qualquer raça ou nacionalidade, sinceramente interessado em aproveitar os dons divinos.

Expondo princípios superiores ao coração popular, não disputaste lugar saliente, junto ao romano dominador, a pretexto de patrocinar a liberdade e, sim, aconselhaste acatamento a César com a obrigação de resgatar-se o tributo que se lhe devia.

Erguendo novas colunas no templo da fé viva, conclamando mãos limpas e corações puros ao serviço do Céu, não desprezaste a legião de pecadores e criminosos que se abeiravam de Ti, sedentos de transformação para a tarefa bendita... Não falaste a eles de uma tribuna dourada, acentuando fronteiras de separação. Comungaste com todos, no caminho da vida, a pleno chão, abraçando leprosos e delinquentes, avarentos e rixosos, homens e mulheres desventurados. Não impunhas, no entanto, qualquer compromisso que envolvesse a administração dos interesses públicos, nem traçavas, com astutas palavras, qualquer insinuação ao desespero. Pedias tão somente renovassem o coração para que a Luz do Reino lhes penetrasse as profundidades do ser.

Sustentando o sublime ideal de obediência a Deus nunca ordenaste morte ou punição aos companheiros menos corajosos. Suportaste as fragilidades dos discípulos mais queridos, confiado no futuro, certo de que se podiam faltar a, Ti, nos instantes mais duros, não falhariam para com o Pai, nas grandes horas, desde que não Te desanimasses na semeadura de fraternidade e proteção, pelo esforço da palavra e do exemplo no círculo educativo.

Se confiavas num mundo vasto, onde reinaria a solidariedade nas relações humanas, jamais tentaste apressar diretrizes absolutas pelo império da força. Começaste sempre a propaganda dos propósitos divinos em Ti mesmo, revelando o próprio coração, cultivando o trabalho e a esperança, com suprema fidelidade ao Poder Mais Alto que marcou estação adequada à semente e à germinação, à flor e ao fruto. Em momento algum mobilizaste a violência, alegando necessidades do serviço superior, e, em todo o teu apostolado, jamais desdenhaste o menor ensejo de amparar o próximo, edificando-o.

Para isso, abraçaste os velhos e os doentes, os deserdados e os tristes, os aleijados e as criancinhas...

Nunca disseste, Senhor, que os discípulos deveriam dominar em Roma para serem úteis na Judeia, nem prometeste primeiros lugares nas Estradas da Glória aos companheiros diletos, ainda mesmo em se tratando de João e Tiago que Te foram carinhosos amigos. Mas garantiste a vitória sublime a todos os homens que se fizessem devotados servos dos semelhantes por amor ao Pai Celestial.

Invariavelmente, solicitaste socorro e proteção, desculpas e auxílios para os que Te perseguiam, gratuitamente, irônicos e ingratos ...

Tua ordem era de amor e paz para que todo o espírito se converta ao Infinito Bem...

Hoje, contudo, improvisam-se guerras sanguinolentas e sobram discórdias em Teu nome. Há companheiros que disputam situações de relevo, a fim de servirem à Tua causa, como se o sacrifício pessoal não constituísse a Tua senha na obra redentora. Outros Te recordam os ensinos para justificar a inconformação e a desordem ...

Sim, foste, em verdade, o Grande Renovador. Transformaste os séculos e as nações, trabalhando e perdoando, ajudando e servindo, esperando e amando sempre!..

Um dia, na praça pública, quando Te viste a sós com humilde e infortunada irmã, que se vira fustigada pelo populacho ignorante, perguntaste a ela, emocionadamente:

- Mulher, onde estão os perseguidores que te acusam?

Hoje, Mestre, lamentando embora o tempo que também perdi na Terra, iludido e envenenado quanto os outros homens, lembrando-Te ainda na cruz afrontosa, sozinho em tua exemplificação de amor e renúncia, abnegação e martírio, ouso interrogar-Te com as lágrimas de meu profundo arrependimento:

- Senhor, onde estão os renovadores que Te acompanham?

domingo, 25 de março de 2018

Saudades



S a u d a d e s
por Vinícius
Pág. 199 Ano 1934 Reformador (FEB)

               Sentimos, por vezes, necessidade de render culto aos nossos queridos que nos precederam na jornada para o Além. É o reconhecimento das qualidades que os distinguem; qualidades essas que nem sempre soubemos apreciar devidamente, quando os tivemos ao nosso lado.

             Os maus, quando partem, deixam no meio em que viveram uma impressão de alívio; os bons, uma sensação de vácuo.

              Esse vácuo é a saudade.

              A saudade tem gamas e tonalidades como o som, nuanças como a cores refletidas pela luz.

              A saudade é um sentimento agridoce, isto é, um misto de doçura e amargor. Entre essas duas propriedades, ela oscila como o fiel da balança.

              A saudade pode compor-se de amargor e doçura nas mesmas proporções. Isto se dá, quando jamais ofendemos aqueles que ora se encontram no Além.

             A saudade é mais amarga que doce, sempre que a consciência nos acusa de termos sido injustos com aqueles que hoje se acham separados de nós, no outro plano da vida.

             A saudade, finalmente, será muito mais cheia de doçura que de amargor, quando fizermos todo o bem ao nosso alcance aos seres ora ausentes; quando, em suma, realmente, lhes dermos o nosso amor, reconhecendo suas aptidões e relevando seus senões.

                                                                        ***

             Por que havemos de reservar o melhor do nosso afeto àqueles que o destino colocou ao nosso lado, para depois de sua partida?

             Membros das famílias terrenas - estes ou aqueles - amai-vos uns aos outros, desde já, aqui na terra, para que o vosso amor continue no céu.

              Assim procedendo, a saudade que vierdes a experimentar um dia, será doce e suave; será um sentimento que contribuirá para aumentar a vossa ventura quando, de novo, vos reunirdes aqueles que vos são caros e cuja ausência tanto lamentais.

              Jamais alguém se arrependeu de amar e de haver perdoado. Das injustiças e do desamor resultam as lágrimas que se choram na Terra e os lamentos que ecoam nos profundos recôncavos do espaço.

sábado, 24 de março de 2018

Justiça Social



Justiça Social
Editorial
Reformador (FEB), pág. 162 -  Junho 1991

              Desde a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra nos meados do século XVIII, a questão social passou a preocupar os espíritos sensíveis à sorte dos menos favorecidos economicamente, em face do desequilíbrio crescente entre a acumulação de capital, de um lado, e a proletarização do trabalho, de outro.

            Enquanto o liberalismo econômico firma-se como doutrina dominante, a ele se contrapõem as correntes socialistas, que buscam a justiça social por caminhos diferentes: o socialismo espiritualista tenta soluções através da cooperação do capital e do trabalho, ao passo que o socialismo marxista propugna pela destruição do capitalismo mediante a luta de classes.

            O ano de 1848 é um marco histórico. Surgem novas abordagens da questão social a partir das revoluções operárias na França e na Alemanha. O socialismo de Proudhon, em luta aberta com a filosofia individualista, propõe o mutualismo como forma ideal de organização econômica. Karl Marx e Friedrich Engels publicam, em fevereiro desse mesmo ano, o seu Manifesto Comunista. E, em 31 de março, eclodem os fenômenos mediúnicos de Hydesville (EUA), com os quais se inicia uma outra revolução: a Revolução Espiritual.

            É nesse ambiente que o Codificador do Espiritismo cumpre a sua missão perante as correntes de pensamento em conflito.

            Questões sobre trabalho, crescimento demográfico, uso e gozo dos bens terrenos, desigualdades sociais e das riquezas, direito de propriedade, justiça, amor e caridade, e tantas outras mais, de cunho eminentemente social, são abordadas pela Doutrina Espírita objetivando o homem como Espírito Imortal, regido pelo livre-arbítrio e pela lei de causa e efeito, com responsabilidades e culpas adquiridas no passado, em vidas sucessivas, através da reencarnação.

            “A Doutrina Espírita, que tem visão global dos problemas sociais, não apresenta a menor tendência extremista.”[1]

            A justiça social, que sensibilizou o Papa Leão XIII no final do século XIX, levando-o a editar a “Rerum Novarum”, em 15 de maio de 1891, como resposta e crítica da Igreja aos excessos do liberalismo econômico e ao comunismo, já estava equacionada desde 18 de abril de 1857, 34 anos antes daquela Encíclica Papal, em “O Livro dos Espíritos”, que representa o Manifesto da Espiritualidade encaminhando a solução dos problemas do homem e da sociedade, entre os quais os de ordem econômica.

                “A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que houver chegado. Avançando para o mesmo alvo e realizando seus objetivos, o Espiritismo se encontrará com ela no mesmo terreno. Aos homens progressistas se deparará nas ideias espíritas poderosa alavanca e o Espiritismo achará, nos novos homens, espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo.”[2]

[1]  Deolindo Amorim - “O Espiritismo e os Problemas Humanos”, pág. 170, edição da Gráfica Mundo Espírita S.A., Rio de Janeiro (RJ), 1948.
[2] Allan Kardec - “A Gênese, págs. 416/417 da 33ª Ed. FEB.

A FEB e a Transcomunicação






A FEB e a Transcomunicação
por Juvanir Borges de Souza
Mensagem do Presidente da FEB apresentada na
Sessão de abertura do Congresso Brasileiro de Transcomunicação,
na noite de 22-5-92, em São Paulo, Centro de Convenções do Anhembi.
Reformador (FEB), pág. 213 - Julho 1992

               
            Queremos inicialmente saudar, fraternalmente, os promotores e organizadores deste Congresso e a todos os que tomam parte dele.
            Nossa presença neste Congresso de Transcomunicação, que se deve ao convite da Dra. Marlene Severino Nobre, digna Presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo e dirigente do jornal “Folha Espírita”, é uma excelente oportunidade para que os espiritistas do Brasil e do Mundo possam tomar conhecimento da posição em que se coloca a FEB.
            É com natural alegria que constatamos, mais uma vez, que a Revelação Espírita é confirmada, em seus fundamentos, pela Ciência terrena: a comunicabilidade entre o Mundo Invisível e os homens, vale dizer, entre Espíritos encarnados e desencarnados.
            O Espiritismo nada tem a opor à Ciência, ao conhecimento progressivo em qualquer campo de suas pesquisas, desde que conduzidas com seriedade e responsabilidade. Pelo contrário, o Espiritismo, que é também Ciência, uma Ciência abrangente que não se ocupa somente da matéria, não poderia jamais colocar-se em situação contraditória consigo mesmo.
            Os Espíritos reveladores deixaram muito claro a Allan Kardec que a Revelação é progressiva; que, por isso, ela não estava oferecendo a última palavra a respeito do conhecimento da Verdade; que o futuro, na medida do próprio esforço dos homens, reservaria novas revelações complementares da base que o Consolador oferecia inicialmente à Humanidade.
            Por sua vez a lucidez do Codificador complementou que o Espiritismo marcharia com a Ciência, uma vez que a Doutrina é também progressiva e não estática. E acrescentou sabiamente que, se em algum ponto incorresse em engano, a própria Doutrina retificaria esse ponto para se colocar sempre em consonância com as realidades.
            Por isso mesmo a FEB, fiel aos princípios estabelecidos na Codificação da Doutrina, não tem por que deixar de saudar novas etapas do progresso, máxime no terreno tão importante para a Humanidade, qual seja o da intercomunicação entre seus dois planos de vida. Ora, essa comunicação entre os dois mundos já se faz comprovadamente desde tempos imemoriais. Os livro sagrados e as tradições das grandes religiões o comprovam sobejamente.
            A Codificação Espírita confirmou a comunicabilidade, estudou-a de acordo com as técnicas e as pesquisas desenvolvidas por Allan Kardec. Posteriormente ao mestre, outros pesquisadores comprovaram inclusive a materialização dos Espíritos, fenômeno também conhecido desde longínqua antiguidade.
            Agora, desde algumas décadas, as manifestações se fazem através dos diversos instrumentos que a tecnologia vai colocando à disposição do homem: o telefone, as fitas magnéticas dos gravadores e mais recentemente, os aparelhos sofisticados de som e imagem.
            Os espíritas nada têm a temer diante dos tempos novos, diante das pesquisas sérias, desde que conduzidas com isenção de ânimo, com interesse verdadeiramente científico que devem caracterizar tais pesquisas.
            Dentro desses pressupostos, isolados os elementos que têm propósitos tendenciosos em defesa de pontos de vista contrários à verdade dos fatos e às realidades transcendentes - cautelas que competem aos próprios pesquisadores - cumpre-nos saudar o novo passo da Transcomunicação Instrumental.
            Sentimos que a mediunidade é engrandecida e confirmada diante das novas técnicas, que apenas comprovariam “materialmente” o que os materialistas não aceitam por não lhes afetar os sentidos físicos: a existência do Espírito.
            Na nossa preocupação permanente de não perder de vista a Ciência e a Religião, não se opõem nem se conflitam, antes se completam e se auxiliam mutuamente - um pensamento que nos parece de suma importância nos ocorre expressar neste momento em que os interesses de espíritas e espiritualistas se voltam para nova fase da transcomunicação transcendental: referimo-nos à necessidade de os pesquisadores se munirem, ao lado do preparo intelectual, científico, isento de preconceitos, de uma moralidade que respeite à ética superior, cujo padrão máximo encontramos no Evangelho de Jesus, à luz da Doutrina  Espírita.
            E isso ousamos reafirmar diante dos perigos que o conhecimento das coisas novas tem trazido para a Humanidade, quando se abstém da Moral superior. Haja vista o que ocorreu com a fissão do átomo e ora preocupa o homem no terreno da engenharia genética.
            Assim também no campo da Transcomunicação não se pode prescindir da união entre o Conhecimento e a Moralidade superior.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Nascer de Novo



Nascer de Novo
por Martins Peralva
Reformador (FEB)  Novembro 1959

            “Necessário vos é nascer de novo.”  - (Jesus a Nicodemos.)
          
             Entre inúmeros benefícios que decorrem do estudo e da assimilação da Doutrina Espírita, podemos indicar, sem dificuldade, aquele que orienta acerca do milenário problema da Morte.

            Inegavelmente, sem qualquer partidarismo, somos levados a compreender que só o Espiritismo estuda o velho problema, com riqueza de pormenores, uma vez que, sobre o assunto muito pouco, ou quase nada disseram as demais religiões, que se limitaram, simplesmente, a admitir e anunciar a existência do Mundo Espiritual.

            Sem as consoladoras luzes da nossa amada Doutrina, marcharia o homem para o túmulo - diremos melhor: para a Pátria da Verdade - sem ideia segura do que lhe acontecerá após o choque biológico do desenlace.

            Nenhuma noção sobre a morte.

            Nenhum conhecimento das leis admiráveis que regem a vida no plano espiritual.

            Nenhuma informação sobre o que sucede à alma durante e depois a desencarnação.

            Em suma: verdadeiro cego, ante o mundo grandioso que o aguarda; um indígena, atônito, perplexo, nos pórticos de estranha, quão maravilhosa civilização.

            Essa ignorância, praticamente total, a respeito de tão importante problema, é a triste herança de velhas e novas religiões, mestras no ocultar e fantasiar a realidade da vida além das fronteiras terrenas.

            Religiões que procederam e procedem à maneira dos cronistas sociais modernos: Depois eu conto...

            O Espiritismo é profundamente, intensamente realista, tanto nesse, como em todos os assuntos de interesse da alma eterna.

            Identificando a criatura, sem subterfúgio de qualquer espécie, com os seus postulados, fazendo-a absorver a parcela de verdade que ela suporta, torna-a tranquila ante a perspectiva da desencarnação.

            Não cremos, nem anunciamos um Céu gracioso, adquirível à custa de promessas, espórtulas, louvaminhas ou petitórios, nem um inferno tenebroso, eterno, de onde jamais sairemos. O nosso conceito, a respeito da morte e de suas consequências, se alicerça no Evangelho: “A cada um será dado de acordo com a suas obras.”

            Seria, naturalmente, leviandade, afirmarmos que o Espiritismo já revelou em toda a sua extensão e plenitude, a vida no plano extra físico. Expressando, todavia, a misericórdia divina, vem erguendo, gradualmente, em doses nem sempre homeopáticas, a cortina que separa o mundo físico do espiritual, consentindo estendamos o olhar curioso, indagativo, sobre o belo panorama da vida além da carne.
            O espírita não teme a morte, nem para si nem para os outros, mas procura cumprir, da melhor maneira possível, apesar de suas imperfeições - imperfeições que não desconhece -, os deveres que lhe cabem na Terra, aguardando, assim, confiante, a qualquer tempo, hora e lugar, o momento da Grande Passagem.

            Não a considera pavorosa, lúgubre, terrificante, tão pouco a define por suave e milagrosa porta de redenção e felicidade. O Espiritismo ensina, com apoio no Cristianismo, que não há duas vidas, mas, sim, duas fases, que se prolongam, de uma só vida.

            Se a Doutrina preleciona: “nascer, viver, morrer, renascer ainda, progredir continuamente”, Jesus notifica a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo.”

            A uma daquelas fases, dá-se o nome de Etapa Corporal. Vai do berço ao túmulo. À outra, dá-se o nome de Etapa Espiritual. Vai do túmulo ao berço.

            A nossa alma é como o Sol, que se esconde no horizonte, ao pôr de um dia, para, no alvorecer de novo dia, retornar pelo mesmo caminho. A vida em si mesma, é sublime cadeia de experiências que se repetem, séculos e mais séculos, até que obtenhamos a perfeição. Maravilhosa cadeia, cujos elos se entrelaçam, se entrosam, se harmonizam, justapostos...

            Pensando e atuando dentro desta conceituação, estranha para muitos, por enquanto, porém muito lógica e racional para nós, sabe o espírita, em tese, o que a Morte, como fenômeno simplesmente transitivo, lhe reservará.
            Sabe que o sistema de vida adotado na Terra, o seu comportamento ético, terá justa e equânime correspondência no mundo espiritual, que é, indefectivelmente, um prolongamento do terráqueo...

            Boas sementes, bons frutos produzem.

            Más sementes, amargos frutos produzem.

            Seremos, aqui e em qualquer parte, o resultado de nós mesmos, de nossos atos, pensamentos e palavras, sem embargo das generosas intercessões de amigos que nos anteciparam na Grande Viagem.

            Proporcionando alegria e amparo, alimento e instrução, aqui na Terra, aos nossos semelhantes, a Lei nos assegurará, no Plano Espiritual, instrução e alimento, amparo e alegria. Tais noções, hauridas no Espiritismo, tornam o homem mais responsável e mais cuidadoso, mais esclarecido e mais consciente, compelindo-o a passos mais seguros, dentro da vida - em suas duas fases -, para que a Vida lhe sorria, agora e sempre.

            Evidentemente, sem subestimar, nem sobrestimar a morte, o espírita caminha, luta e sofre, trabalha e evolui, conscientemente, na direção do Infinito bem, valorizando, para sua própria felicidade, os renascimentos sucessivos a que se referiu Jesus no diálogo com Nicodemos.

Finados



Finados
Editorial
Reformador (FEB) Novembro 1978
          
            Desde as mais remotas civilizações, o homem se dobra reverente ante o mistério dos sepulcros, para cultuar os seus mortos. Em face dos esquifes fechados, deixa escorrer o pranto sentido das suas saudades, enquanto guarda no coração o difuso pavor dos enigmas do desconhecido. Nem sempre, porém, é o amor que inspira o preito aos que partiram. Não foi decerto, a piedade que levou Artemísia a erguer a Mausolo, rei da Cária, monumento tão faustoso que se tornou uma das maravilhas do mundo antigo. Nem foi a devoção sincera e humilde que pagou a Miguel Ângelo para projetar e construir os admiráveis túmulos dos Médicis. Mas a Grande Pirâmide de Gizé, mandada erigir por Quéops, filho de Snefru, com cento e quarenta e seis metros de altura, fala, no silêncio da sua linguagem de pedra, da solene certeza da vida eterna.

            Meio às contrastantes demonstrações de carinho e de vaidade, os cemitérios do mundo inteiro guardam desde as mais singelas covas rasas, das multidões de anônimos, até as suntuosas tumbas dos abastados e dos vencedores. Entretanto, nem os vilões nem os heróis, nem os criminosos nem os santos, habitam essas brancas cidades consagradas à morte. As sepulturas não conseguem reter o Espírito imortal que, liberto das constrições do corpo físico, ressurge, na glória das suas vestes perispiríticas para novo ciclo de existência, em dimensão maior, mais vivo do que nunca, com os seus sentimentos mais aguçados e com muito maior capacidade de pensar e de agir, de gozar e de sofrer.

            Perante o triunfo da vida, que se afirma vitoriosa para além da decomposição das vísceras abandonadas, soa sem sentido a lamentação das carpideiras e restam inúteis as cerimônias do luto exterior, convencional e vazio. Átropos, a Parca fatal, não tem, na verdade, o poder de cortar o fio da vida humana, porque o falecimento do corpo carnal é tão só o rompimento do casulo da alma, puído e imprestável, substituível por outro, novo, embora igualmente temporário. De encarnação em encarnação, e de desencarnação em desencarnação, o Espírito vai realizando as suas experiências evolucionárias, na sua longa trajetória para a angelitude, meta da perfeição e de felicidade que todos consciente ou inconscientemente buscam. Por isso, não é raro de ver-se, aqui e ali, quem cultue a si mesmo, na imagem e na lembrança de um venerado antepassado ou de outro morto ilustre.

            Abrindo janelas novas ao entendimento humano e soprando com vigor milenares cinzas de ignorância, o Espiritismo trouxe aos homens da Terra não somente a mensagem da imortalidade, mas a da comunicação permanente entre os habitantes dos diversos planos da vida planetária. Com isso, ampliaram-se e melhoram incessantemente as oportunidades e as condições para esse tipo de intercâmbio, cada vez mais franco e decisivo, em benefício de toda a Humanidade.

            Agora, são os próprios mortos redivivos que vêm dizer e repetir aos vivos da carne, aos seus irmãos ainda encarnados, que realmente ninguém morre, que a morte é simples transferência de plano, provocada pelo falecimento de um corpo físico provisório e substituível, e que, além e acima dos cadáveres e dos sepulcros, a vida palpita, radiosa e sublime, invencível e sem fim...

            Finados! - quem são eles? Não existem. Não há finados, porque tudo o que realmente existe é vida, e vida em abundância, no Espírito de Deus que, como afirmam sabiamente as Escrituras, não é Deus de mortos, mas de vivos!