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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Publicanos e excomungados

 


   Publicanos e excomungados

    A Redação     Reformador (FEB) 1º Dezembro 1923

             Nos episódios evangélicos, relativos a Mateus e a Zaqueu, publicanos, vamos encontrar, como em outros, o antagonismo patente, perpetuado até aos nossos dias, entre a doutrina de Jesus, exemplificada por seus atos, e o procedimento dos representantes da religião oficial.

            Referindo-os, outro intuito não temos senão o de proporcionar ao leitor um ensino verdadeiro, fácil e proveitoso.

            Na era messiânica, a Judeia estava sob o jugo dos Romanos, seus conquistadores. O povo conquistado, se os temia, detestava e desprezava os publicanos, arrecadadores de impostos. Tidos como “pecadores públicos e escandalosos”, o sacerdócio hebraico, orgulhoso e intolerante, vedava-lhes a entrada no templo e nas sinagogas e não recebia as suas oblatas (Oferenda feita a Deus ou aos santos).  

            Essa proibição não tinha somente um caráter religioso; estendia-se aos atos da vida civil, às relações privadas, públicas e sociais.

            Em Cafarnaum, Mateus, publicano, estava assentado no telônio, (casa ou mesa onde se recolhiam rendas públicas); mesa de rendas, exercendo as suas atribuições fiscais, quando Jesus o chamou e ele, levantando-se, o seguiu. (Mateus IX, 9). (1)

            (1) Nos outros sinóticos, este publicano figura com o nome de Levi. (Marcos, 11, 14, Lucas, v, 27, 28.)

             Depois da vocação de Mateus, Jesus assistiu a um banquete em companhia de seus discípulos, de publicanos e pecadores (2).

            (2) Segundo Lucas, ofereceu Levi, em sua casa, um grande banquete a Jesus, ao qual concorreu grande número de publicanos, (v. 29.)

             Escandalizados, os escribas e fariseus murmuravam; porque come e bebe o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?

            O Senhor então sentenciou:

            “Os sãos não têm necessidade de médico, mas, sim, os enfermos.

            “Ide, pois, e aprendei o que quer fizer: misericórdia quero e não sacrifício. Porquanto, eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores.” (Mateus, IX. 12, 13)

           De outra feita, na cidade de Jericó, Jesus foi hospedar-se em casa de Zaqueu, pertencente também à classe odiada dos publicanos.

            Surgiram as costumadas críticas e censuras farisaicas.

            Ouçamos a palavra do Cristo:

            “Hoje, entrou a salvação nesta casa, porque este também é filho de Abrahão.

            “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que tinha pecado – “quoerere et salvum facere quod perierat(buscando salvar o perdido) (Lucas, XIX, 9, 10)

            Jesus, ainda pôs em confronto, para ensinamento dos seus ouvintes e das gerações futuras, à oração do fariseu, inchado de soberba, e a do publicano humilde.

            “Este voltou justificado para sua casa e não o outro; porque todo o que se exalta será humilhado e todo que se humilha será exaltado.” (Lucas, XVIII, 10-14)

            Os fariseus não desapareceram.

            Vivem muitos, em nossos dias, dentro e fora das religiões.

 *

             O estudo de coisas novas nos leva ao estudo de coisas velhas e vice-versa.

            Sem dúvida, outros são os tempos, outras as ideias: mas, no seio da humanidade planetária, falida, atrasada e descuidosa, o erro tem vida persistente e longa, mormente em matéria religiosa.

            Apesar da condenação proferida pelo Senhor, vemos pompear o farisaísmo autoritário, pretendendo dar combate aos legionários da Nova Revelação.

            “Aprendei o que quer dizer: Misericórdia quero e não sacrifício.”

            Convertida em sacerdotal a religião do Cristo - religião de indulgência e de piedade, de tolerância e de caridade, de perdão e amor, o sacerdócio, exclusivista e dominador, não aprendeu, não quis compreender a significação do preceito divino.

            Abandonou a misericórdia. Funestos foram os resultados desse desvio. O sacrifício, que prevaleceu e predominou, à semelhança do judaísmo, é o denominado culto externo, em manifesta oposição ao ensino evangélico.

            Quero a Misericórdia: Como foi cumprido o mandamento?

            Além das perseguições religiosas, cuja história não pode ser apagada, lembraremos de relance os efeitos temporais, in humanis (em humano), da pena de excomunhão maior, expressos no verso canônico:

           Si pro delictis, anathema efficiatur,

            Os, orare, vale, communio, mensa negatur.

             Assim, pois, segundo as prescrições da igreja, é proibido falar ao excomungado, dirigir-lhe cumprimentos ou corresponder às suas saudações e, em comum, orar, trabalhar, habitar, comer, ou ter com ele quaisquer outras relações.

             O leitor poderá fazer os comentários.

........................................................................................

             “A religião é um laço de atração e de aproximação entre Deus e a criatura; atração da parte do Criador, que é a vontade absoluta e eterna; aproximação por parte da criatura racional, que é a vontade relativa, subordinada à ordem harmoniosa, estabelecida pela sabedoria suprema, que tudo dirige e estimula.”

         Cratry in “Roma e o Evangelho”(Ed. FEB)

 


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A paz de Jesus

 A paz de Jesus        

 14,27  “ -Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou.  Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize! 

14,28  Ouviste o que Eu vos disse: Vou e volto a vós! Se me amares, certamente haveis de alegrar-vos, que vou para junto do Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 

14,29  E, disse-vos agora estas coisas, antes que aconteçam, para que creiais, quando acontecerem. 

14,30  Já não falarei muito convosco, porque vêem os  deste mundo; mas eles  não tem sobre mim poder algum. 

14,31  O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai Me ordenou. Levantai-vos! Vamo-nos daqui!     

 

             Para  Jo (14,27) -A Minha paz vos dou..., tomemos “Palavras de Vida Eterna”, de Emmanuel por Chico Xavier:

             “Todos ambicionam a paz.

             Raros ajudam-na.

            Que fazes para sustentá-la?

            Recorda que a segurança dos aparelhos mais delicados depende, quase sempre, de parafusos pequeninos ou de junturas inexcedivelmente singelas.

            Não há tranqüilidade no mundo, sem que as nações pratiquem a tolerância e a fraternidade.

            E se a nação é conjunto de cidades, a cidade é um agrupamento de lares, tanto quanto o lar é um agrupamento de corações.

            A harmonia da vida começará, desse modo, no íntimo de nossas próprias almas ou toda harmonia aparente na paisagem humana será simples jogo de inércia.

            Comecemos, pois, a sublime edificação no âmago de nós mesmos. Não transmitas o alarme da crítica, nem estendas o fogo da crueldade. Inicias o teu apostolado de paz, calando a inquietação no campo do próprio ser. Onde surjam razões de queixa, sê a cooperação que restaura o equilíbrio; onde medrem espinhos de sofrimento, sê a consolação que refaz a esperança.

            Detém-se na Tolerância Divina e renova para todas as criaturas de teu círculo as oportunidades do bem.

            Reafirma o compromisso de servir, silenciando sempre onde não possas agir em socorro do próximo.

            Ao peço da própria renunciação, disse-nos o Senhor:

            “ -A minha luz vos dou!”

            E para que a paz se faça, na senda em que marchamos, é preciso que à custa de nosso próprio esforço se faça a paz em nós, a fim de que possamos irradiá-la, em tudo, no amparo vivo aos outros. ”

           

            Retornando    ao   tema   Paz  e  Jesus,- Jo (14,27) -Emmanuel prossegue, no mesmo livro citado acima:

             “A paz do mundo costuma ser preguiça rançosa. A paz do espírito é serviço renovador.

            A primeira é inutilidade. A segunda é proveito constante.

            Vejamos o exemplo disso em nosso Divino Mestre.

            Lares humanos negaram-lhe o berço. Mas o Senhor revelou-se em paz na estrebaria.

            Herodes perseguiu-lhe, desapiedado, a infância tenra, Jesus, porém, do apostolado que trazia, sofreu, tranqüilo, a imposição das circunstâncias. Negado pela fortuna de Jerusalém, refugiou-se, feliz, em barcas pobres da Galileia. Amando e servindo os necessitados e doentes recebia, a cada passo, os golpes da astúcia de letrados e casuístas de seu tempo; contudo, jamais deixou, por isso, de exercer, imperturbável, o ministério do amor.

            Abandonado pelos próprios amigos, entregou-se serenamente à prisão injusta.

            Sob o cuspo injurioso da multidão foi açoitado em praça pública e conduzido à crucificação, mas voltou da morte, aureolado de paz sublime, para fortalecer os companheiros acovardados e ajudar os próprios verdugos.

            Recorda, assim, o exemplo do Benfeitor Excelso e não procures segurança íntima fora do dever corretamente cumprido, ainda mesmo que isso te custe o sacrifício supremo.

            A paz do mundo, quase sempre, é aquela que culmina com o descanso dos cadáveres a se dissociarem na inércia, mas a paz do Cristo é o serviço do bem eterno, em permanente ascensão.”


          Para   Jo (14,31) -Levantai-vos!, tomemos “O Caminho, Verdade e Vida”, de Emmanuel por Chico Xavier: 

             “Antes de retirar-se para as orações supremas no Horto, falou Jesus aos discípulos longamente,  esclarecendo o sentido profundo de sua exemplificação.

            Relacionando seus pensamentos sublimes, fez o formoso convite inserto no Evangelho de João: “Levantai-vos, vamo-nos daqui!”

            O apelo é altamente significativo. Ao toque de erguer-se, o homem do mundo costuma procurar o movimento das vitórias fáceis, atirando-se à luta sequioso de supremacia ou trocando de domicílio, na expectativa de melhoria efêmera.

            Com Jesus, entretanto, ocorreu o contrário.

            Levantou-se para ser dilacerado, logo após, pelo gesto de Judas. Distanciou-se do local em que se achava a fim de alcançar, pouco depois, a flagelação e a morte.

            Naturalmente, partiu para o glorioso destino de reencontro com o Pai, mas precisamos destacar as escalas da viagem...

            Ergueu-se e saiu, em busca da glória suprema. As estações de marcha são eminentemente educativas: - Getsêmani, o Cárcere, o Pretório, a Via Dolorosa, o Calvário, a Cruz constituem pontos de observação muito interessantes, mormente na atualidade, que apresenta inúmeros cristãos aguardando a possibilidade da viagem sobre as almofadas de luxo do menor esforço.”

 


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Contra a religião católica - Em prol do Espiritismo

 

Contra a religião romana 

– Em prol do Espiritismo

 por Fernando de Alencar         Reformador (FEB) Agosto 1908

             Uma das mais clamorosas injustiças que me revoltam o ânimo, aliás atreito ao  perdão - incontestavelmente uma das mais sublimes manifestações da Caridade – é, por sem dúvida a guerra desenfreada que ao Espiritismo – essa ressurreição da primitiva religião cristã – move o caduco e trôpego Papismo, que, não mais podendo entenebrecer com a sinistra nuvem de suas roupetas a consciência do Mundo, faz explodir, contra os adversários, em injúrias, desacatos e calúnias, o seu furor já hoje felizmente de todo inócuo, fornecendo destarte à humanidade a prova mais inconcussa e peremptória de que o seu credo, bem longe de ser inspirado nos puros ditames que se desfolharam dos fragrantes lábios do formoso Nazareno, é a antítese perfeita do Cristianismo.  

             E nem há mister de aturado exame para chegar a tal conclusão.

             Porque todo esse ódio contra o Espiritismo, cuja moral é a mesma de Jesus?

             Porque semelhante aversão a um credo que preconiza o amor, o perdão, o auxílio mútuo entre todos os homens, sem distinção de raça e de crenças?

             Porque esse rancor, essa insaciável sede de vingança contra uma doutrina toda de paz, de concórdia, de amor e caridade?

             Pois não é certo que a caridade é a suprema lei moral? Não é verdade que ela, no conceito de Paulo, é mesmo superior às suas duas irmãs – Fé e Esperança?

             Não é intuitivo que somente fora da caridade é que não pode haver salvação?

             E o que fazeis quotidianamente, senhores ministros do romanismo, vós que, em atitude de combate contra o verdadeiro Cristianismo, vos enfileirais como lúgubre regimento, em cuja bandeira negra como as sotainas que envergais, se lê em caracteres rubros como o sangue a inscrição tão audaciosa e presumida quão inverossímil e paradoxal: Fora de meu seio não há salvação?

             Se Jesus foi o exemplo vivo e palpitante da cordura e mansidão, porque vós, que vos alardeais seus discípulos, não poupais as mais veementes censuras, as mais furiosas imprecações contra todos aqueles que procuram erguer um óbice, uma forte muralha à invasão dos vossos irracionais ensinamentos, das ameaças de suplícios fantásticos com que assolais os vergéis das almas, onde pompeiam as variegadas e fragrantes flores da esperança e do amor?

             O que colimais, ainda hodiernamente, com a difusão do extravagante e irracional ensino de um deus vingativo e terrível, da criação assombrosamente medonha de um pai sem compaixão e sem amor, condenando cruelmente os seus pobres filhos a inimagináveis castigos eternos? Pois ao invés de um verdadeiro pai, não é certamente esse vosso Deus um lídimo filicida?

             Não, absolutamente não acredito que atilados, como geralmente sois, tenhais uma tão monstruosa concepção da Infinita Misericórdia, do Infinito Amor, da Infinita Bondade que é esse Deus, para cuja revelação, dos abismos de luz em que flutua, baixou ao nosso miserável planeta o divino Missionário, cuja passagem na Terra foi como um sulco de luz em meio à noite cerrada e profunda da ignorância e miséria humanas!  

             Não, no estudo relativo do adiantamento mundial, não mais podeis crer, nem tão pouco fazer crer, na existência do Deus terrível que apareceu a Moisés entre relâmpagos e trovões aterrorizadores!

             Não: haveis de convir que o Deus de bondade e amor a quem Jesus implorou, no suplício da cruz, o perdão para seus nefandos inimigos, é que é o verdadeiro Deus, cheio de complacência e magnanimidade, de amor e equidade, suavizando o castigo com a esperança e o rigor da justiça com a doçura da misericórdia.

             Não, não podeis fazer do Pai supremo tão aviltante conceito.

             A Infinita Bondade exclui a infinita perversidade, que outro nome não cabe no ao pai vingativo e cruel, cuja criação fantástica a vossa imaginação fanática e o vosso torpe mercantilismo têm implantado no cérebro dos ingênuos e incautos.

             O vosso ódio contra nós outros, adeptos do Espiritismo, tem origem tão somente nos vossos interesses gananciosos, que fere de morte a nossa excelente doutrina, que não nos cansamos em repeti-lo, nada mais é do que a ressurreição do Cristianismo primitivo, que preconiza a caridade em todas as suas mais amplas e variadas modalidades; e vós, senhores do romanismo, sois a personificação da intolerância, do egoísmo e do orgulho!

             A doutrina de Jesus é toda amor; a vossa é toda ódio, ódio insaciável, terrível, contra todos aqueles, cujas ideias lesam os vossos sórdidos interesses !.. Ódio voraz, tigrino, que nem o túmulo reprime, ódio que se farta nos próprios cadáveres!

             Sim, ódio, que outra coisa não exprime a repulsa da inumação em vossos cemitérios dos infelizes suicidas e dos de todos aqueles que não comungaram convosco!

             Se é certo que Jesus nos ensinou com a palavra e o exemplo, a amarmos os nossos inimigos, porque dardejais do púlpito o despeito, o ódio, a fúria contra nós outros, cujo crime único se resume em não acreditar na existência do vosso deus iracundo e feroz, de um deus que se apraz em ver a combustão de corpos vivos em meio as flamas crepitantes das piras inquisitoriais, e ter eternamente diante dos olhos o pavoroso espetáculo de espíritos contorcendo-se em terríveis dores infinitas, náufragos num oceano sem margens de não sei que inimagináveis labaredas abrasando seres imateriais!

             Qual o vosso alvo, procurando arraigar no coração da humanidade tão tóxicas, terríveis e nocivas ideias que, aliás, faço justiça à notória sagacidade que vos caracteriza, não medram em vossas almas?

             A verdade é que procurais difundir o terror no coração da ignorância fanática, com o fim exclusivo de vos locupletares.  

            Nada mais sois do que a revivescência dos antigos fariseus, que, a pretexto de longas orações, extorquiam as viúvas, aos órfãos e aos cegos de inteligência o pecúlio obtido a custa de sacrifícios e trabalhos!

             Abaixo a religião papal!

             Transformem-se todos os mosteiros, onde a ociosidade e a hipocrisia, enroladas em suas negras samarras, se banqueteiam hilares com uma prodigalidade nababesca; sim, transformem-se os conventos em asilos, em hospitais, para todos os deserdados da fortuna, para todos os nossos irmãos que não possuem um teto, nem pão, nem lenitivo para seus padecimentos, nem livro para suas inteligências!

            Sejam fundidos os ídolos de ouro, com que se adornam os pagodes católicos, em moedas que saciem a pobreza faminta e velem a nudez da mendicidade decrépita e da orfandade desamparada!

              Em nome da civilização, em nome da Caridade, desapareçam da face da Terra os mosteiros essas sombrias casernas em que vegeta o negro exército do obscurantismo, e surjam, por toda a parte, em substituição a eles, estabelecimentos de beneficência e de instrução, em que os apóstolos do Bem ensinem aos pobres espíritos encarnados a vereda que os deve conduzir ao paraíso sidéreo (sideral), ao éden divino!

            Senhores do romanismo, já é tempo de dardes algum repouso aos vossos estômagos edazes (vorazes) e, e abrirdes os vossos corações, mergulhados nas trevas dos preconceitos, do erro e do egoísmo, aos fulgores da aurora do moderno Cristianismo, que surge atrás da negra penedia do Vaticano, iluminando todas as consciências e embalsamando de esperanças todos os corações crentes na bondade Infinita do Pai supremo!

             Quereis em realidade ser úteis nos vossos irmãos? Quereis ser verdadeiramente caridosos, verdadeiramente cristãos?

             Para isso é indispensável não odiardes. Jesus foi a personificação do amor.

            Amai!

            Não vocifereis do púlpito imprecações contra quem quer que seja.

             Se os nossos irmãos pecam, fazem, por isso mesmo, jus à vossa compaixão.

             Jesus foi a humildade.

             Vós sois o orgulho.

             Jesus, com as suas próprias mãos, enxugou os pés aos seus discípulos.

            O vosso pontífice, repimpado na cadeira gestatória, é, passado em triunfo sobre as espáduas de homens cônscios desse servilismo execrando, mas que a ele passivamente se submetem, impulsionados tão somente pela paixão ignóbil da cobiça desenfreada, do interesse inconfessável, do ganho cômodo e ilícito!

             Digamo-lo bem alto, e que o nosso brado repercuta por toda a parte, mormente pelos remotos sertões, em cujas serranias esvoaçam sinistramente os corvos de sotaina, farejando a podridão do fanatismo e da ignorância:

             - O catolicismo de Roma, orgulhoso e feroz, ganancioso e mau, não é, de certo, a religião do humilde e pacífico, do magnânimo e dadivoso Nazareno, que, durante sua passagem sobre a Terra, só teve uma indignação, uma revolta justíssima e sagrada: foi quando com o azorrague expeliu do templo os seus profanadores, os nefandos dos mercadores, reproduzidos hoje nos negociantes das verônicas (imagem de Cristo pintada sobre tecidos) e escapulários, de missas e litanias! (ladainhas)

             Não, senhores sectários do romanismo, vós não sois os continuadores dos bons e simples apóstolos do Cristo!

             A vossa doutrina é mais do que dissimil (dessemelhante) da de Jesus. E!a é diametralmente oposta à revelação cristã.

             Muitas inteligências cultas que haviam, imprevidentemente, posto as

suas luzes ao serviço letífero do papismo, já têm vindo, impelidas por um dever de consciência, confessar, a luz meridiana da imprensa, que renegaram para sempre os paradoxos católicos, que somente a carência do livre exame os tinha feito adotar.

             Não mais atravanqueis a estrada do porvir: ou haveis de vos dispersar, e, espavoridos à luz vivificante da ciência e aos ruídos dos céleres passos da humanidade marchando resolutamente para o éden do Amor e da Verdade, ou haveis de ser fatalmente esmagados sob os pés do Progresso em sua carreira vertiginosa para Deus !..


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Jesus promete o consolador

 


Jesus promete o Consolador /

Resumo da Doutrina Espírita     

 14,15 “-Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos. 

14,16  E, Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Consolador para que fique convosco para sempre. 

14,17  É o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis porque permanecerá convosco e estará em vós. 

14,18  Não vos deixarei órfãos! Voltarei a vós! 

14,19  Ainda um pouco de tempo e o mundo já não Me verá. Vós, porém, Me tornareis a ver, porque vós vereis que Eu vivo e que vós vivereis.

14,20 Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai e vós em Mim e Eu em Vós.  

14,21 Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama e, aquele que Me ama, será amado por meu Pai, e Eu o Amarei e manifestar-Me-ei a Ele. 

14,22 Perguntava-Lhe Judas, não o Iscariotis: - Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo? 

14,23 Respondeu-lhe Jesus: “ -Se alguém Me ama, guardará a minha palavra e Meu Pai o amará e nós viremos a Ele, e nele faremos nossa morada 

14,24 Aquele que não Me ama, não guarda as Minhas palavras. A palavra que tendes ouvido não é Minha, mas sim do Pai que Me enviou. 

14,25  Disse-vos essas coisas enquanto estou convosco, 

14,26  mas, o Consolador que o Pai enviará em Meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito.”

            Leiamos  “O Evangelho...”, de Kardec,  Cap VII:

             “Jesus  promete um outro Consolador: O Espírito de Verdade. Se, pois, o Espírito de Verdade deve vir mais tarde ensinar todas as coisas, é que o Cristo não disse tudo; se ele vem recordar aquilo que o Cristo disse, é porque isso foi esquecido ou mal compreendido.”

            Segue Kardec:

            “O Espiritismo vem, no tempo marcado, cumprir a promessa do Cristo.”

            “O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, porque fala sem figuras e sem alegorias; ele ergue o véu deixado propositadamente sobre certos mistérios, vem, enfim, trazer uma suprema consolação aos deserdados da Terra e a todos aqueles que sofrem, dando uma causa justa e um fim útil a todas as dores.”

             “O Espiritismo dá uma fé inabalável no futuro, e a dúvida pungente não mais se abate sobre sua alma; fazendo-o ver do alto, a importância das vicissitudes terrestres se perde no vasto  e esplêndido horizonte que ele descortina, e a perspectiva da felicidade que o espera lhe dá a paciência, a resignação e a coragem de ir até o fim do caminho.”

            Para  Jo (14,16) -Ele vos dará outro Consolador para que fique convosco para sempre -, tomemos “Segue-me!”, de Emmanuel por Chico Xavier:

                “Na condição daquele Consolador prometido por  Jesus à Humanidade, o Espiritismo, sem dúvida, atingirá todas as consciências. Entretanto, à frente das múltiplas interpretações que se lhe imprimem nos mais variados núcleos humanos, de que modo esperar o cumprimento da promessa do Cristo?

            Nesse sentido recordemos os primórdios da Codificação Kardequiana. Preocupado com o mesmo assunto, Allan Kardec formulou a Questão nº 789, de  “O Livro dos Espíritos”, à qual os seus instrutores Espirituais, solícitos, responderam:

            Certamente que o Espiritismo se tornará crença geral e marcará nova era na história da Humanidade, porque está na natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos. Terá, no entanto, que sustentar grandes lutas, mais contra o interesse do que contra a convicção, porquanto não há como dissimular a existência de pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor-próprio, outras por causas inteiramente materiais. Porém, como virão a ficar insulados, seus contraditores se sentirão forçados a pensar como os demais, sob pena de se tornarem ridículos.

            Certifiquemo-nos, pois, de que, na difusão dos princípios espíritas, estamos todos em luta do bem para a extinção do mal e de que ninguém alcançará a suspirada vitória sem a vontade de aprender e a disposição de trabalhar.”

                   Do livro “Espiritismo - Noções Gerais, Conceito e História”, de Flávio Dezorzi, reproduzimos este excelente - Resumo Da Doutrina Espírita-, síntese do que acreditamos e do que procuramos exercitar:

             “O conteúdo da Doutrina Espírita pode, sem se limitar, ser resumido nos seguintes tópicos:

 1. Crença em Deus - Existe um Deus único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente bom e justo, criador do Universo e de todos os seres e matérias existentes.

2. Existência de um mundo espiritual - Existe um mundo espiritual que é o mundo normal, coexistindo com o mundo corpóreo ou físico, em que vivemos.

3. Imortalidade da alma - A alma do homem é um espírito encarnado que sobrevive após a morte do corpo físico, é eterna e indestrutível.

4. Pluralidade das existências - Ao longo de vidas sucessivas o espírito faz uso de diferentes corpos através das várias reencarnações necessárias a seu progresso moral e intelectual.

5. Existência de espírito, perispírito e corpo físico - O homem é constituído por três elementos fundamentais:  a) o corpo físico ou material, do qual se utiliza para movimentar-se no mundo corpóreo; b) o espírito eterno, imortal e indestrutível, que sobrevive após a morte; c) o perispírito, liame intermediário de natureza semi-material, elemento de transição entre o espírito e o corpo físico.

6. Os espíritos foram criados iguais - Os espíritos foram criados por Deus iguais e para progredirem individualmente através das vidas sucessivas. As diferentes classes de espíritos, ou seja, puros, superiores ou inferiores, são conseqüência do progresso individual, em decorrência do uso do livre arbítrio permitido por Deus.  

7. Pluralidade de mundos habitáveis - Existem no universo infinitos mundos habitáveis, que servem de morada ao homem, conforme seu estágio evolutivo. Dentro dessa escala de mundos, a Terra se constitui em um planeta de expiação e provas, havendo mundos ainda inferiores e mundos superiores, ditos felizes e celestiais.

8. A finalidade do homem é o progresso - As diferentes existências corpóreas do espírito são para sua evolução; são sempre progressivas e nunca regressivas; porém, o progresso individual depende do esforço de cada um, conforme o uso particular de seu livre-arbítrio.

9. Livre-arbítrio - Criado por Deus, o homem foi por Ele dotado de livre-arbítrio, isto é, de consciência individual e liberdade de escolha dos procedimentos de vida.

10. Coexistência dos mundos material e espiritual - Os espíritos, quando encarnados, habitam as crostas dos diferentes globos do universo. Quando desencarnados, habitam regiões do espaço extrafísico, segundo leis de afinidade ou merecimento, coexistindo continuamente com o mundo físico.

11. Os espíritos são uma das forças da natureza -  Os espíritos desencarnados constituem uma das forças da natureza e, como tal, exercem influência sobre o mundo corpóreo em que vivemos.

12. Intercâmbio entre os mundos físico e espiritual - As comunicações mediúnicas são o meio de intercâmbio e inter-relação entre o mundo físico e o espiritual e se constituem em fenômeno natural.

13. A hierarquia espiritual é exercida pela superioridade moral - A superioridade entre os espíritos é exercida pela ascendência moral; assim, os espíritos superiores exercem superioridade moral sobre os inferiores, sendo esta a única forma de hierarquia existente.

14. Os médiuns são instrumentos de intercâmbio - Os médiuns são instrumentos de comunicação dos espíritos e, por seu intermédio, é que se torna possível a comunicação entre os dois planos.

15. As manifestações dos espíritos podem ser espontâneas ou provocadas - Os espíritos se manifestam espontaneamente ou mediante evocação e são atraídos segundo leis de afinidade ou necessidades de esclarecimento de um ou outro plano.

16. Os espíritos se identificam pela linguagem- Nas comunicações mediúnicas, a linguagem empregada pelos espíritos comunicantes, digna e nobre, ou grosseira e inferior, benévola ou malévola, erudita ou ignorante, é um meio segura de se distinguir a natureza destes e até  mesmo identificá-los.

17. Cristo é o exemplo máximo - A moral dos espíritos superiores se resume na moral do Cristo, contida em seu Evangelho.

18. Não existe Céu e Inferno - Não existem faltas irremissíveis, nem o Céu ou o Inferno preconizados pelas religiões; cada espírito resgata suas faltas, cumpre suas penas ou aufere recompensas através de suas vidas sucessivas.

19. A morte é a passagem para uma outra vida - A morte ou a desencarnação transfere o homem para outro plano, porém não lhe confere prosperidade espiritual. Apenas o livra dos entraves do corpo físico, aviva-lhe os sentimentos e o torna mais consciente de sua verdadeira personalidade e dos atos praticados. Envolve-o, na erraticidade, em estados de sofrimento ou harmonia, segundo a própria consciência.

20. O destino supremo é a perfeição - O destino final do homem é a perfeição e seu tempo de vida é eternidade.

 

 

                                


No declínio

 

No declínio

A Redação

Reformador (FEB) 15 Maio 1907

             Não tem o Espiritismo mais encarniçado adversário ostensivo que a igreja católica romana. Também, em sua acidentada história, jamais sentiu ela surgir-lhe pela frente, ameaçador em seus tranquilos ensinamentos, adversário mais terrível que a Revelação Espírita.

             É que nenhum se lhe apresentara até agora tão bem aparelhado de iguais elementos, seguros, completos, de combate e de sucesso.

             E como não ser assim se, continuador dos ensinos revelados no mundo por Jesus, o Espiritismo, Consolador prometido, vem tornar claras as verdades que o Divino Mestre propositalmente velara na obscuridade das parábolas, acrescentar aquelas outras que ele abertamente o afirmou - tinha que dizer, mas não poderiam ser ainda suportadas, e restabelecer finalmente as que, diante mão o sabia ele, seriam adulteradas pelos homens, torturadas e desligadas pelos infiéis depositários da Palavra?

             Decorridos os tempos, amadurecidas as inteligências, feito, apesar da furiosa e insensata oposição da igreja, o progresso das ciências, que tornaria possível os novos conhecimentos, o Consolador prometido se fez realidade. Ei-lo aí, arrancando a luz de sob o alqueire, derramando pelas massas populares as consoladoras verdades do Evangelho, provando, pela universalidade das manifestações espíritas, a sobrevivência da alma e sua imortalidade, assim oferecendo a todos, não já a esperança, mas a certeza de uma outra vida - a vida espiritual - eterna e indestrutível, e determinando por esse fato a mais profunda e regeneradora transformação moral das sociedades humanas, que feneciam no ceticismo e na materialidade.

             Vendo o Espiritismo assumir essa atitude superior e definida, que cada dia mais se acentua, na evolução da humanidade, nada mais natural que se alvoroçarem alarmadas as alarmadas igrejas, imobiliza-las em seu dogmatismo sectário, mas particularmente a igreja romana, que durante tantos séculos usurpara o cetro da direção religiosa dos povos do ocidente, e sente agora esvaecer-se o prestígio em face da Nova Revelação triunfadora.  

             Por isso, ela que resistira aos embates do materialismo, porque era uma doutrina desoladora e não oferecia às almas o alimento tão necessário de uma crença, compreendendo que a força e a superioridade do Espiritismo está justamente em constituir uma doutrina religiosa a mais adiantada e mais perfeita, que satisfaz às mais exigentes inteligências e basta a todos os corações, considera-o com razão o mais temeroso dos adversários, e dardejar-lhe por isso encolerizados, sistemáticos e desesperados golpes.

             E entretanto - já o dissemos aqui nestas colunas - não é do Espiritismo que a igreja deve recear a queda e a ruína. Ele não a hostiliza, como não hostiliza sistematicamente nenhuma igreja ou confissão religiosa, tão certo está de que tais igrejas viverão apenas o tempo que os seus ensinos satisfizerem a alguns fiéis. Quando já os não houver que com eles se contentem, uma a uma irão ruindo tais igrejas.

             Por isso as deixa o Espiritismo ir vegetando à sombra das almas ignorantes que as sustentam, sem embargo do direito de livre exame e crítica que legitimamente se permitem uma vez por outra os seus adeptos, em relação aos dogmas que apregoam tais igrejas, sobretudo quando em nome desses dogmas são atacados os princípios da revelação espírita.

             Fora disso o Espiritismo só é para temer porque ensina a Verdade, e a Verdade choca muitos interesses e descontenta singularmente os que, para viver, necessitam manter no erro o povo.  

             Dizíamos, porém, que não é do Espiritismo que advirá à igreja a ruína de que sente ameaçada.

             Mais que das verdades novas que não pode tolerar, deve ela com efeito arrecear-se dos seus próprios erros e das funestas consequências desses erros; e tanto como destes – corolário lógico que é - do espírito de indisciplina e de dissolução que lavra em suas fileiras.

             A esse respeito publicava recentemente uma folha de Cartagena, La Tierra, um artigo intitulado “Aires de cisma?” que estereotipa muito bem a situarão presente dessa igreja e prova que não exageramos proclamando-a no declínio.

          Vamos reproduzi-lo do nosso colega “Albores de la Verdad”, de Barcelona, que em primeiro lugar o transcreveu, e por ele verão os leitores que essa estrela de primeira grandeza, que há dezenove séculos brilhou no firmamento do planeta, iluminando-o, mas não tardou a transformar-se em decrescente e, por fim, empalidecido e minúsculo asteroide, vai tombando rapidamente para o ocaso.  

             Antes de transcrever, contudo, o aludido artigo, seja-nos lícito assinalar, como um evidente cunho de sua imparcialidade, que não foi ele escrito por um adversário; antes transparecem em mais de um lugar a mágoa e as apreensões de seu autor pela sorte dessa igreja, a que assim parece filiado.

             Isto posto, cedemos-lhe a palavra:

             “Com justa razão preocupa e alarma os espíritos sinceramente católicos um movimento de visível retraimento que, em relação ao pontificado romano, se vem observando, primeiro na América do Norte, algum tempo depois na Áustria, um pouco na Suiça, no México, em alguns lugares da Alemanha e na própria Itália, em Roma, às portas do palácio pontifício.

             “Em vão foi condenado por Leão XIII o denominado americanismo, ou o catolicismo liberal à moderna. Sob a feição de independência política e democracia cristã passou ele a manifestar-se na Itália com o presbítero Romulo Murri e na França com o abade Loisy, em forma de exegese bíblica moderna à altura dos progressos da ciência.

             “Já na França existia latente o galicanismo, um dia condenado pela Santa Sé, em virtude de suas tendências separatistas; e tão arraigado estava, posto que não ostensivamente manifesto, que em Roma sabia-se não lhe faltar a adesão de vários bispos e grande número de sacerdotes. Só nos religiosos se tinha absoluta confiança; desgraçadamente, porém, foram expulsos e um deles, o superior dos Eudutus, pode dizer a Leão XIII: “Senhor, podemos opor ao governo que nos acaba de expulsar a resistência que Sua Santidade nos indique; porque o clero não nos tornou muito simpáticos a certas camadas da sociedade, e posto que nos não combata, também não nos defende; mostra-se passivo; não podemos contar com ele; não existe na França união entre sacerdotes regulares e seculares: estamos, pois, perdidos, se Deus não faz um milagre.”

             “E nestes dias amargurados para a Igreja, quando o Papa ordena ao clero e ao povo c:atólico francês resista, inda que sem violência, à lei de separação de uma parte desse povo, outra do clero não se mostram dispostas a acatar e por em prática essa determinação. - Serão cassadas a esses sacerdotes a licença para exercer o culto, disse algum prelado. E a resposta foi: - Bem, exerceremos o ministério sem elas, enquanto houver católicos da nossa opinião que nos aceitem. - Acompanharemos esses curas disse a seu turno uma parte do povo francês.” Não é isso grave? Não é desolador?

             “Pois ao mesmo tempo, na Itália, os democratas católicos, guiados por muitos sacerdotes, acabam de afirmar que obedecem ao Papa como chefe religioso e na órbita religiosa; mas que lhe não reconhecem autoridade alguma em política, nem o direito de designar-lhes, por si ou pelos bispos, os candidatos em que hão de votar e a conduta política que hão de seguir.

             “Procede-se, por ordem de Sua Santidade, a uma investigação minuciosa entre o clero das dioceses italianas. Mas já uma parte desse clero a mesma coisa que o francês: - Se o povo nos aceita, como o governo não nos será hostil, continuaremos exercendo nosso ministério, apesar de quem se oponha, inda que seja o Papa.

             “E um bispo – o de Cremona - põe em sobressalto o Vaticano com folheto, livros e prédicas de sabor democrático: outro bispo francês havia já replicado a uma repreensão do cardeal Merry. Antes que V. Em. fosse presbítero, já eu era bispo, e sei mais do que convém a uma dIiocese que V. Em., e que outro qualquer. Tenha a bondade de me não incomodar e ater-se a seus assuntos da Secretaria.

             “Se estes não são sinais de um espírito disposto à rebeldia, quais serão?  

             “Na Boêmia sopram os mesmos ventos sob pretexto de aversão à Áustria e de nacionalismo; mas na Áustria também sopram eles, tocados por certas sociedades semi secretas de clérigos, como acontece com outras da Alemanha, que têm ramificações ocultas na Espanha. M.”

             Aí termina o artigo de La Tierra. Se fosse necessário acrescentar-lhe um comentário seria este: contaminada assim em suas fontes vitais, destruída a coesão, aniquilado o espírito de obediência e disciplina de seus membros, pelo qual unicamente conseguiu viver até agora, que esperança pode restar a essa igreja? Ela morre aos poucos, dissolve-se, repudiada por aqueles mesmos cujo interesse estaria em conservá-la.

             Mas é a justiça de Deus que se cumpre. Ela que atraiçoara o Cristo, de cuja doutrina tirou a existência, termina por ser abandonada dos próprios que ela fez viver.

             Que, pois, as nossas críticas cedam lugar' ao gérmen de destruição que circula em seu organismo combalido. Deixemo-la tombar sofregamente no declínio, e embora de sobreaviso contra suas derradeiras investidas, não lhe recusemos o preito compadecido a que tem jus o que hoje apenas representa o cadáver de uma grande ideia.


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

As moradas na casa de meu Pai

 

 

As Moradas na Casa do Pai       

 14,1 “ -Não se perturbe o vosso coração, crede em Deus; crede também em Mim; 

14,2  Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Não fora assim e Eu vos teria dito; pois vou preparar-vos lugar; 

14,3  Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei  e tomar-vos-ei comigo, para que, onde Eu estiver, também vós estejais; 

14,4  E vós conheceis o caminho para ir aonde vou.”     

14,5    Tomé: - Senhor, não sabemos para onde vais,  como conhecer o caminho? 

14,6  Jesus lhe respondeu:“ -Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao  Pai  senão por mim;

14,7  Se Me conhecêsseis, também, certamente, conheceríeis Meu Pai; Desde agora    o  conheceis,  pois  o tendes visto.”

14,8 Senhor, disse-Lhe Filipe, mostra-nos o Pai e isto nos basta! 

14,9  E Jesus: “ -Há muito tempo que estou convosco e vós não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai. Como, dizes: Mostra-nos o Pai!   

14,10 Não credes que estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza as suas próprias obras. 

14,11 Crede-me: Estou no Pai e o Pai em Mim; Crede-o, ao menos por causa destas obras.

 14,12 Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê em Mim fará também as obras que faço e, ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai 

14,13 E, tudo o que pedirdes ao Pai em Meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no filho. 

14,14 Qualquer coisa que Me pedirdes em Meu nome, vo-lo farei.”      

          Para Jo (14,1-14), tomemos “O Evangelho...”, de Allan Kardec,  em seu Cap III:

             “A casa do Pai é o Universo, as diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito, e oferecem aos espíritos encarnados, moradas apropriadas ao seu adiantamento.”

             Segue Kardec:

             “... Enquanto certos espíritos culpados erram nas trevas, os felizes gozam de uma claridade resplandecente e do sublime espetáculo do infinito; enquanto, enfim, que o mal, atormentado de remorsos e de lamentações, freqüentemente só, sem consolação, separado dos objetos da sua afeição, geme sob o constrangimento dos sofrimentos morais, o justo, reunido aqueles que ama, goza as doçuras de uma indizível felicidade. Lá também há, pois, vários moradas, embora não sejam nem circunscritas nem localizadas.”

           Para Jo (14,1) -Não se turbe o vosso coração... -  leiamos  “Palavras  de Vida  Eterna” (Ed. FEB) de Emmanuel por Chico Xavier:

             “Guarda contigo o coração nobre e puro. Não afirmou o Senhor: “ -Não se vos obscureça o ambiente” ou “não se vos ensombre o roteiro”, porque criatura alguma na experiência terrestre poderá marchar constantemente a céu sem nuvens. Cada berço é início de viagem laboriosa para a alma necessitada de experiência. Ninguém se forrará aos obstáculos.

            O pretérito ominoso para a grande maioria de nós outros, os viandantes da Terra, levantará no território de nosso próprio íntimo os fantasmas que deixamos para trás , vagantes e insepultos, a se exprimirem naqueles que ferimos e injuriamos nas existências passadas e que hoje se voltam para nós, à feição de credores inflexíveis, solicitando reconsideração e resgate, serviço e pagamento.

            Não passarás, assim, no mundo, sem tempestades e nevoeiros, sem o fel de provas ásperas ou sem o assédio de tentações. Buscando o bem, jornadearás, como é justo, entre pedras e abismos, pantanais e espinheiros.

            Todavia, recomendou-nos o Mestre:

 “-Não se turbe o vosso coração”, porque o coração puro e intimorato é garantia da consciência limpa e reta e quem dispõe da consciência limpa e reta vence toda perturbação e toda treva, por trazer em si mesmo a luz irradiante para o caminho.”

            Para  Jo  (14,2) ...vou preparar-vos lugar. - leiamos  “Fonte Viva” (Ed. FEB) de Emmanuel por Chico Xavier:

             “Sabia o Mestre que, até a construção do Reino Divino na Terra, quantos o acompanhassem viveriam na condição de desajustados, trabalhando no progresso de todas as criaturas, todavia, “sem lugar” adequado aos sublimes ideais que entesouram.

            Efetivamente, o cristão leal, em toda parte, raramente recebe o respeito que lhe é devido. Por destoar, quase sempre, da coletividade, ainda não completamente cristianizada, sofre a descaridosa opinião de muitos.

            Se exercita a humildade, é tido à conta de covarde. Se adota a vida simples, é acusado pelo delito de relaxamento. Se busca ser bondoso, é categorizado por tolo. Se administra dignamente, é julgado orgulhoso. Se obedece quanto é justo, é considerado servil.  Se usa a tolerância, é visto por incompetente. Se mobiliza a energia, é conhecido por cruel. Se trabalha, devotado, é interpretado por vaidoso. Se procura melhorar-se, assumindo responsabilidades no esforço intensivo das boas obras ou das preleções consoladoras, é indicado por fingido.

            Se tenta ajudar ao próximo, abeirando-se da multidão, com os seus gestos de bondade espontânea, muitas vezes é tachado de personalista e oportunista, atento aos interesses próprios. Apesar de semelhantes conflitos, porém, prossigamos agindo e servindo, em nome do Senhor. Reconhecendo que o domicílio de seus seguidores não se ergue sobre o chão do mundo, prometeu Jesus que lhes prepararia lugar na vida mais alta.

            Continuemos, pois, trabalhando com duplicado fervor na sementeira do bem, à maneira de servidores provisoriamente distanciados do verdadeiro lar. “Há muitas moradas na Casa do Pai.” E o Cristo segue servindo, adiante de nós. Tenhamos fé.”

             Retomemos a palavra de Emmanuel, por Chico Xavier, agora ilustrando com sua habitual singeleza de palavras e profundidade de conteúdo a  Jo (14,6) -Eu sou o caminho, a verdade e a vida... (Ed. FEB):

         “Por enquanto, ninguém se atreverá, em boa lógica, a exibir, na Terra, a verdade pura, ante a visão das forças coletivas.

            A profunda diversidade das mentes, com a heterogeneidade de caracteres e temperamentos, aspirações e propósitos, impede a exposição da realidade plena ao espírito das massas comuns. Cada escola religiosa, em razão disso, mantém no mundo cursos diferentes da revelação gradativa. A claridade imaculada não seria, no presente estágio da evolução humana, assimilável por todos, de imediato.

            Há que esperar pela passagem das horas. Nos círculos do tempo, a semente, com o esforço do homem, provê o celeiro; e o carvão, com o auxílio da natureza, se converte em diamante. Por isso, vemos verdades estagnadas nas igrejas dogmáticas, verdades provisórias nas ciências, verdades progressivas nas filosofias, verdades discutíveis em todos os ângulos da vida civilizada. Semelhante imperativo, porém, para a mentalidade cristã, apenas vigora quanto às massas.

            Diante de cada discípulo, no reino individual, Jesus é a verdade sublime e reveladora.

            Todo aquele que lhe descobre a luz bendita absorve-lhe os raios celestes, transformadores... E começa a observar a experiência sob outros prismas, elege mais altos padrões de luta, descortina metas santificantes e identifica-se com horizontes mais largos. O reino do próprio coração passa a gravitar ao redor do novo centro vital, glorioso e eterno. E à medida que se vai desvencilhando das atrações da mentira, cada discípulo do Senhor penetra mais intensivamente na órbita da Verdade, que é a Pura Luz.”

             Prossegue Emmanuel, no mesmo livro e para o mesmo versículo de João:

             “Há muita gente acreditando, ainda, na Terra, que o Cristianismo seja uma panacéia como tantas para a salvação das almas. Para essa casta de crentes, a vida humana é um processo de gozar o possível no corpo de carne, reservando-se a luz da fé para as ocasiões de sofrimento irremediável. Há decadência na carne? Procura-se o aconchego dos templos. Veio a morte de pessoas amadas? Ouve-se uma ou outra pregação que auxilie a descida de lágrimas momentâneas. Há desastres? Dobram-se os joelhos, por alguns minutos, e aguarda-se a intervenção celeste. Usa-se a oração, em momentos excepcionais, à maneira de pomada miraculosa, somente aconselhável à pele, em ocasiões de ferimento grave. A maioria dos estudantes do Evangelho parecem esquecer que o Senhor se nos revelou como sendo o caminho...

            Não se compreende estrada sem proveito. Abraçar o Cristianismo é avançar para a vida melhor. Aceitar a tutela de Jesus e marchar, em companhia Dele, é aprender sempre e servir diariamente, com renovação incessante para o bem infinito, porque o trabalho construtivo, em todos os momentos da vida, é a jornada sublime da alma, no rumo do conhecimento e da virtude, da experiência e da elevação.

            Zonas sem estradas que lhes intensifiquem o serviço e o transporte são regiões de economia paralítica. Cristãos que não aproveitam o caminho do Senhor para alcançarem a legítima prosperidade espiritual são criaturas voluntariamente condenadas à estagnação.”