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sábado, 31 de janeiro de 2015

Auxílio aos que partem


Auxílio 
aos que partem
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1956

            Não observes a criatura, cuja palavra a morte emudeceu,  como alguém que se aniquilou.

            Corpo gasto é apenas veste rota.

            Se ainda ontem oferecias devotamento aos que atravessam as barreiras da sepultura, por que motivo transformarás, agora, as flores do teu amor em espinhos de desespero?
 
            Quem parte, quase, sempre transporta consigo aflições e problemas que, não consegues imaginar...

            Muitos daqueles que de ti receberam entendimento e carinho abandonam a Terra,  conduzindo consigo as paixões que lhes devastavam o ser, os dissabores em que se cristalizaram; as angústias da separação e as chagas do remorso que adquiriram...

            Não lhes atires fogo à alma inquieta, através do pranto inconsiderado.

            Ajuda-os com a prece amiga e faze algo que lhes garanta a libertação, fortalecendo lhes a esperança ou socorrendo a viuvez e a orfandade que lhes recordam o nome,  atenuando o sofrimento e a treva que deixaram na retaguarda.

            Comentando lhes a passagem no mundo, destaca-lhes os anseios e as qualidades nobres, reportando-te aos elevados desejos que não puderam realizar.
           
            Não salientes o mal de que foram vítimas, nem te refiras aos enganos a que se acolheram, porque teu pensamento e teu verbo atingem o Mais Além com endereço infalível.

            Não provoques o pranto de quem já chorou em demasia, à frente da verdade, nem apagues a chama da fé viva que brilha em favor daqueles que se tresmalham nos labirintos do ódio.

             Auxilia-os como puderes e acende o lume da oração junto deles para que se restaurem com segurança.

            Não olvides que amanhã serás o indeciso viajante das sombras, supostamente morto para os que ficam, e, somente por teu incessante auxílio aos outros, é que dos outros receberás o auxílio de amor, luz e paz.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Mestre e Aprendiz



Mestre e Aprendiz

Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1955

            ...E respondendo ao discípulo que lhe pedira ensinasse a orar, disse o Mestre generoso.
            Quando rogares amor, não abandones o próximo ao frio da indiferença.
            Quando suplicares o dom da fé não relegues teu irmão à descrença ou à tortura mental.
            Quando pedires luz, não condenes teu companheiro à perturbação nas trevas.
            Quando solicitares a bênção da esperança não espalhes o fel da desilusão.
            Quando implorares socorro, não olvides assistência que deves aos mais necessitados.
            Quando rogares consolação, não veicules desespero à margem do caminho.
            Quando pedires perdão, desculpa os que te ofendem.
            Quando suplicares justiça, em favor da própria segurança, não te descuides da harmonia de todos que precisas assegurar ao preço de tua renunciação e de tua humildade, a benefício dos que te cercam.
            Se reclamas pela claridade da paz, não estendas a sombra da discórdia; se pedes compreensão, não critiques; se aguardas concurso do Céu, não menosprezes a colaboração que o mundo te pede à boa vontade.
            Assim como fizeres aos outros, assim será feito a ti mesmo.
            Segundo plantares, colherás.
            Não olvides, assim, que a Vontade do Senhor é também a Lei Eterna e que tudo te responderá na vida, conforme os teus próprios apelos.
            Vai, pois, e, orando, perdoa e ajuda sem sempre! ...
            Foi então que o aprendiz, reconhecendo que não basta simplesmente pedir para receber a felicidade, passou a construí-la através do serviço à felicidade dos outros, compreendendo, por fim, que somente pelo trabalho incessante no bem poderia orar em perfeita comunhão com a Bondade de Deus.
           


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Kardec Brasileiro

O Kardec
Brasileiro
por Indalício Mendes


Reformador (FEB) Agosto 1955

            A veneranda figura do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, muito justamente cognominado o “Kardec brasileiro”, tem constituído motivo para magníficos escritos e excelentes palestras, tantos os exemplos nobres de sua passagem pela Terra onde deixou traços inapagados de seu adamantino caráter e de sua obra doutrinária, eminentemente espírita. Cearense de nascimento tendo iniciado sua reencarnação em Riacho do Sangue, a 29 de Agosto de 1831, o Dr. Bezerra de Menezes proveio de família católica,  de esmerada educação e muito fiel ao rumo religioso que adotara. Veio para o Rio de Janeiro aos vinte anos, decidido a estudar Medicina, o que fez sem auxílio de nenhuma ordem, arrostando enormes sacrifícios, até se formar em 1856. Conquanto boníssimos, seus pais não lhe puderam ajudar nos estudos, circunstância que serviu para por a prova a têmpera moral desse homem eminente, que foi um patriota exemplar, na devida acepção da palavra.

            Esteve na política, exercendo o mandato de vereador por duas vezes e, mais tarde, duas vezes deputado federal. Sua atuação como político foi meritória, jamais se afastando dos deveres assumidos e sempre defendendo as causas que de perto tocavam nos mais delicados interesses do povo. Em virtude do seu espírito independente, inamoldável a transigências incompatíveis com a sua formação moral, Bezerra de Menezes encontrou forte oposição da parte do Governo, de chefes de partidos e de adversários ferrenhos. Foi em 1861 que se elegeu vereador pela primeira vez, mas sua eleição foi impugnada por Um chefe conservador, sob a alegação de ser Bezerra de Menezes médico militar. Para não sacrificar seu partido, Bezerra imediatamente se demitiu do lugar de assistente-mor, sendo, então, empossado no cargo de vereador. Que exemplo! Que magnífica demonstração de escrúpulo e de lealdade ao partido a que se encontrava ligado! Foi deputado geral em 1867, pelo distrito da Corte, mas, em 1868, com a dissolução da Câmara Federal, retornou às suas atividades particulares, seriamente comprometidas pelo devotamento que tivera com os encargos políticos. Pode dizer-se que Bezerra, de um momento para outro teve de começar vida nova. As dificuldades em que se encontrou, visto que lhe era pesada a a responsabilidade familial, não o desanimaram. Trabalhando com afinco, criou a Estrada de Ferro Macaé e Campos e se meteu em outros empreendimentos de valor. Em 1876-1880 foi novamente vereador, exercendo a presidência da Câmara, voltando mais tarde a ser deputado geral pela Corte e província do Rio de Janeiro, o que demonstra o prestígio que desfrutava no seio do povo.

            Esse aspecto da vida do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes põe em relevo sua dedicação ao bem público. Entretanto, vejamos o outro lado do homem, aquele lado em que ele haveria de se revelar também uma personalidade forte e atraente, afirmando sua elevada estatura de doutrinador, pregando a Doutrina Espírita, pela palavra e pelo exemplo, mais por este do que por aquela. Era amado dos pobres, pois, como médico competentíssimo e cristão de fino lavor, Adolfo Bezerra de Menezes espontaneamente se punha ao serviço de seus semelhantes, sem atentar sequer para as suas conveniências. Esse pormenor de seu belo caráter fixa o perfil desse homem extraordinário.

            Há pequeno e valioso livro na Livraria da Federação Espírita Brasileira – “Uma carta de Bezerra de Menezes”, que faz ressaltar a beleza moral desse grande espírita. Em 1886, recebeu ele, então já integrado no Espiritismo, uma carta de um seu irmão germano, de nome Soares, que o considerava apóstata, por haver renunciado ao Catolicismo. Bezerra de Menezes, sem perder a serenidade, antes com o estilo suave de sua linguagem cristã, deu inesquecível lição doutrinária. Essa a carta que figura no livro referido, digna de ser meditada por quantos se interessam pela verdade exposta sem acrimônia, mas com absoluta tranquilidade. A certa altura de sua explanação ao amigo Soares, Bezerra de Menezes ponderou: “Afirmo-lhe que V. fala assim porque nunca estudou o Espiritismo a fundo. Faz-se com essa doutrina o que se faz com  a Maçonaria, que, no Brasil pelo menos, é o mais estrênuo propulsor do culto de nossa religião. Pois eu lhe digo, embora V. sinta em minhas palavras cheiro de enxofre: Nunca apreciei tão perfeitamente, para admirar e adorar, o sublime ensino de Jesus-Cristo, como depois de ter estudado a Doutrina Espírita.

            Sob o pseudônimo de Max, Adolfo Bezerra de Menezes escreveu inspiradas páginas de propaganda do Espiritismo, de difusão dos princípios que todos defendemos sob a égide da Federação Espírita Brasileira, fundamentado no Evangelho. Pregou a caridade, porém, praticou-a muito mais, porque entendia que o espírita deve ser mais prático do que teórico, mais objetivo na interpretação da Doutrina do que subjetivo. Espiritismo é serviço, renúncia, dedicação, trabalho, fraternidade, tolerância e amor ao próximo.

            Sendo médico alopata, adotava a homeopatia para seu tratamento e de sua família, na Assistência aos Necessitados da Federação Espírita Brasileira. Um dia, diz um de seus biógrafos, Bezerra de Menezes confessou que não mais tinha o direito de exercer a medicina, pois que preferia a homeopatia em lugar da medicina oficial, em que era formado. Bittencourt Sampaio,
outro grande e nobre espírito, sugeriu-lhe que, então, se tornasse médico homeopata, ao que ele retrucou que não usava a dos médicos, mas a dos Espíritos. Foi quando se manifestou o Espírito Agostinho, por intermédio do famoso médium Frederico Júnior, e
                                 animou-o a seguir a sugestão de Bittencourt, afirmando que o ajudariam os Espíritos a serviço da causa de Jesus. Seguiu o conselho, estudou a ciência homeopática e cumpriu como ninguém seu apostolado.


            Se Adolfo Bezerra de Menezes foi grande por sua cultura, pela nobreza de seu caráter, pela dedicação com que defendeu o Espiritismo em diversas oportunidades sérias, por seu admirável espírito de renúncia, a que se aliava digna humildade, foi maior, bem maior por seu acendrado espírito evangélico, sempre presente nas suas obras de caridade, exercidas com verdadeiro espírito cristão: cotidianamente, sem conhecer horas de repouso, sempre que havia um enfermo a tratar, um aflito a consolar, uma dor a mitigar. A mesma energia que demonstrava na política, no exercício da função pública, evidenciava no Espiritismo, no desempenho da missão evangélica. Certa feita, apreciando os altibaixos da política municipal, exclamou, o coração de sincero patriota ferido pelos desenganos que sofrera: “Tu, meu querido Brasil, tens andado sem leme e sem bússola precisamente porque nunca tiveste, e tão cedo não terás, em sua verdadeira base, a municipalidade. Cumpri meu dever, mas era cedo ainda.” Desfraldava, assim, a bandeira do municipalismo, em que via o caminho mais seguro para a felicidade do país. Sua alma vivia embebida de amor pelo Brasil e de amor pela Humanidade. Deixando a política, Bezerra de Menezes se viu conduzido ao ambiente que mais convinha à sua alma cheia de claridades. Parecia que lhe cantavam aos ouvidos a frase impressionantemente verdadeira do anjo Ismael, em comunicação lapidar: “A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho em espírito e verdade. Os que quiserem bem cumprir o dever a que se obrigaram antes de nascer, deverão, pois, reunir-se debaixo deste pálio trinitário: “Deus, Cristo e Caridade”. Onde estiver essa bandeira, aí estarei eu, Ismael”.

*

            Desencarnando com 69 anos incompletos, Adolfo Bezerra de Menezes deixou na história do Espiritismo brasileiro uma grande história. Sim, a história de um Espírito luminoso, baixado para realizar grande e profícuo trabalho de cristianização dos homens. Pregou eloquência invulgar, mas foi inexcedível na prática da caridade. Mesmo desencarnado, até hoje Adolfo Bezerra de Menezes está pontualmente ao lado dos que dele precisam, espalhando fluidos benéficos e iluminando almas inquietas pela provação.

            Várias obras espíritas deixou esse grande expoente do Espiritismo brasileiro, entre as quais “A Loucura sob Novo Prisma”, “A Casa Assombrada”, “A Doutrina Espírita como Filosofia Teogônica” (que é a carta a que acima nos ferimos), “Estudos Filosóficos”, em 3 volumes, esta sob o pseudônimo de Max, etc.


            Esta a eminente personalidade que os espíritas brasileiros muito justamente reverenciam como o "Kardec do Brasil". Foi presidente da Federação Espírita Brasileira duas vezes: a primeira, em 1889; a segunda, de 1895 até 11 de Abril de 1900, data em que desencarnou. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A Igreja católica



        “Da simplicidade da religião do Cristo, já nada mais resta. Os andores, procissões e imagens do Paganismo, a indumentária multicolor, os templos suntuosos, o sacerdócio organizado das religiões do Oriente, e mil e uma coisas, quer materiais, quer espirituais ‘roubadas’ de inúmeras religiões espalhadas pelo Mundo, tudo isso deturpou de tal forma o Cristianismo nascente, que dele nada mais ficaria de lembrança se não fora o Protestantismo e, posteriormente, de 1857 para cá, a ação do Espiritismo, o Consolador prometido pelo Mestre da Galileia, que veio restaurar o velho edifício construído da Palestina, escoimando-o de um amontoado de roubos, de dogmas absurdos, de rituais extravagantes e de erros e impurezas sem número.”


            Trecho de artigo sob título ‘O Cristo monopolizado’ – Reformador (FEB) Maio 1955


3-3 Vigilância Evangélica




Vigilância Evangélica - 3
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1955

             Todas as vezes que nos distraímos, surpreendem-nos deficiências que supúnhamos já haver superado há muito tempo. A disciplina evangélica, adquirida através de O Evangelho segundo o Espiritismo, é a bússula de que todos precisamos. Esse livro benemérito, que tem construído a felicidade de milhares e milhares de criaturas de Deus, contém a palavra de Jesus interpretada em Espírito e verdade. Constitui, juntamente com o O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec e Os Quatro Evangelhos, de J.B. Roustaing, a base sólida do conhecimento espírita. Todavia, é o Evangelho segundo o Espiritismo o bálsamo de todos os corações, fermento admirável da Doutrina Espírita. Jesus nos deu o prometido no Evangelho: aí está o Espiritismo, o Paracleto por Ele anunciado, que os fariseus dos velhos tempos não entenderam  nem o entendem ainda os fariseus dos tempos novos!

2-3 Vigilância Evangélica

Vigilância Evangélica - 2
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1955

           
            De que precisamos? De disciplina evangélica, exercida ininterruptamente, quer nos pensamentos e nos atos, quer na palavra falada e escrita. É muito fácil aparentar sabedoria e dizer ou escrever coisas belas e edificantes. O difícil, porque é o que realmente vale, é exemplificar e só a exemplificação pode conferir-nos a condição de espírita. Muitas vezes julgamos estar firmando os passos no terreno e logo este foge sob nossos pés, porquanto
nos deixamos escorregar na invigilância. Orar e vigiar não é uma frase banal, mas uma regra de conduta, uma advertência importante, nem sempre bem interpretada. Se tivermos o mérito da tenacidade em busca do aperfeiçoamento moral e espiritual, nosso esforço não terá sido em vão. Temos de vigiar, constantemente, apoiando-nos na serenidade e na fé. Desesperar seria pior ainda que a fraqueza de propósitos que estivermos revelando no transcurso da jornada. A disciplina evangélica concede ao Espírito os recursos de que ele carece para se manter no rumo certo. A vigilância, portanto, é um aspecto dessa disciplina, tão útil ao fortalecimento moral. Muitas vezes, supomos andar com segurança e ao primeiro ensejo nos apercebemos trilhando atalhos que desejaríamos evitar! Entretanto, abençoamos os irmãos que compreendem o nosso desvio e nos advertem da mudança de rumo. Isto constitui também uma forma de caridade, de caridade muito fraterna, porque interessa intimamente ao nosso futuro espiritual. 

1-3 Vigilância Evangélica

Vigilância Evangélica - 1
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1955

            Sempre que realizamos o autoexame das nossas ações, verificamos, melancolicamente, o atraso em que ainda nos encontramos em face dos princípios evangélicos. Nossa condição humana, marcada por deficiências que ainda não puderam ser erradicadas, nos faz demorar na caminhada, embora reconheçamos a necessidade imprescindível da exemplificação cotidiana, único meio de permitir ao Espírito o almejado progresso. Nossos escritos são lições que recebemos, e que divulgamos apenas porque poderão também ser úteis a outros caminheiros, como nós retardados no avanço para o Mestre Jesus. Pela repetição frequente, acabaremos, sem dúvida, por assimilar o aprendizado diário, embora falhemos a cada instante e a cada instante tentemos penitenciar-nos da infidelidade aos elevados conceitos evangélicos. Como é difícil ser espírita! 

Amor pela Dor

Amor pela Dor
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1955

            Em nome do amor, há quem abandone o santuário doméstico, relegando os vínculos da sua redenção a temporário esquecimento...

            Em nome do amor, há quem se confie a tragédias passionais, investindo contra o objeto da própria devoção afetiva, através da delinquência e da morte...

            Em nome do amor, há quem provoque separação e desespero, portas a dentro do lar, convertendo-o em inferno de lágrimas a quatro paredes.

            Em nome do amor, há quem menospreze o próprio corpo, arrojando-se a despenhadeiros de remorso e sofrimento, pelo desvão do suicídio...

            Em nome do amor, há crianças desamparadas, velhinhos sem teto, doentes sitiados em rudes privações e almas feridas, entre pesadelos e aflições irremediáveis...

            Entretanto, semelhantes delitos, em nome da luz que equilibra o Universo, são perpetrados pela violência e pelo ciúme, pela cegueira e pela incompreensão do egoísmo - o apego desvairado a nós mesmos -, em cuja concha de trevas habitualmente nos ocultamos, fugindo à excelsitude do amor genuíno pelo temor de sofrer.

            Aceitemos a luta por instrutora de nossa existência, como quem sabe que nada existe sem preço.

            Adquiramos o tesouro do amor pelo aproveitamento da dor.


            Recebamos as lições da renúncia e o próprio sacrifício por jorros de claridade celeste, nas sombras de nosso "eu", e, aprendendo que mais vale dar que receber, o amor transformará a face de nossos destinos, porque tomará nosso coração por trono de sua glória e, ensinando-nos a entender e ajudar a todos, fará de nossa vida o santuário resplendente e sublime da Vontade Justa e Misericordiosa de Deus.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Alegria de Viver

Alegria de Viver
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Dezembro 1955

            Pairando muito acima da matéria perecível, o Espírito goza a plenitude da vida; sente-se uno com tudo que vive no Universo, e percebe que tudo vive, sob as mais variadas formas de viver, de vibrar, de sintonizar-se com a Fonte Suprema da Vida, de cumprir seus destinos traçados pela mais sábia das Mãos.

            O infusório, o inseto, o animal, o homem, o anjo, o arcanjo, o átomo, a molécula, o mar, o planeta, a estrela, a galáxia, tudo se move dentro das leis da Vida, cumprindo seu Destino, traçado de toda a eternidade e por toda a eternidade pela Sabedoria Absoluta, com a segurança da Onisciência, com a Providência do Amor Universal; e dentro deste Amor tudo canta um hino de gratidão, de louvor, de embevecimento diante da obra do Supremo Arquiteto do Universo. Desde a planta humilde rastejante na lama até o Arcanjo Divino pairando acima das celestes esferas, tudo se sente uno, unificado pela mesma Vida, partículas do Grande Todo, amando-se reciprocamente pela mesma atração que engendrou a unidade de tudo que vive e palpita, nas formas infinitamente variáveis de viver e de vibrar no oceano imenso, infinito, do Amor.

            E o Espírito anseia por evolução, por promoções a novas formas de vida, sempre mais bela, mais sintônica com o Foco Universal de onde ela emana para animar tudo que existe. Grãozinho de pó na atmosfera dum grão de areia chamado Terra, o homem se sente sublime parte de um todo divino, e sonha com seu noivado de luz que lhe há de conceder ventura sempre maior, família sempre mais vasta, amor mais intenso, vibrações mais sublimes no concerto universal.

            A primeira porta aberta em sua frente, o primeiro degrau evolutivo a galgar - real ou ilusório, não importa - é uma transformação que outrora o intimidava, mas hoje o encanta, hoje que ele já encontrou o segredo da grandiosa realidade da vida eterna, sempre crescente e cada dia mais bela. Essa transformação, a Morte, lhe descortina novos horizontes, lhe restitui os pais, os filhos, a esposa amada, a noiva pranteada, os amigos da infância, os companheiros da juventude, a saúde, a abundância, a mocidade, o vigor, tudo num mundo sem dores, sem separações, sem o tormento da saudade, sem temores nem dúvidas, sem ciúmes nem invejas, sem a febre do anseio nem as nuvens negras do desespero.              

            Tudo que a Morte lhe roubara, ela mesma lhe restitui aumentado, melhorado, embelezado, e lhe revela que não se apropriara de seus tesouros, apenas os levara à oficina do aperfeiçoamento, da lapidação, do burilamento, para aumento da sua e da alheia felicidade.

            Como é bela a morte que nos promove a uma vida maior! A alegria de viver tem a sua culminância na alegria de morrer, de transpor o limiar das trevas para a luz. A morte é a libertação do condenado à masmorra da carne e sua reintrodução nas alegrias da liberdade; é sua reintegração na família amorosa e maior do que se lembrava. Falta uma palavra no título do livro monumental de Flammarion. Deveria chamar-se: A Morte e seu mistério revelado. Faltou esta palavra "revelado" e faltou muito, porque depois de revelado o mistério da morte, ela se torna a mais bela transformação, a mais sublime metamorfose da Vida. Poderia chamar-se também e com mais propriedade "A Vida e seu Mistério", pois que realmente os fatos alinhados nos três volumes nos demonstram a existência somente da vida e o desaparecimento da morte, com a acepção que ela já teve na consciência dos homens da Terra.

            Temos que definir de novo o termo "morte". Talvez assim: "Promoção do ser a uma forma mais bela da vida"; ou "Libertação do Espírito que se achava em missão inferior num escafandro pesado, chamado corpo, no fundo escuro do mar atmosférico de um planeta, preso à crosta planetária pela lei da 'gravidade em atuação sobre o escafandro. Sinônimos: desencarnação, repatriação, regresso. Antônimos: nascimento, encarnação, descida."

            Somos um fraco lexicógrafo, e já o sabíamos na preparação de dois dicionários. Outros hão de encontrar melhor definição para o vocábulo "morte".

            Há uns trinta anos lemos o original do livro de Flammarion; depois folheamos com desânimo suas traduções para o inglês e para o português; mas só agora sentimos em suas páginas a grande alegria de viver, o ardente entusiasmo pela morte.

            Bem sabemos que na travessia do Estige o velho Caronte será exigente e teremos muita impureza a queimar antes de entrarmos numa vida maior, mas tudo isso é nada em comparação com o porvir na vida plena.


            Lendo o livro de Flammarion, que será novíssimo para a imensa maioria dos espíritas brasileiros desta nova geração, não nos detenhamos nos fatos passados, nem nas belas conclusões que encerra o terceiro tomo, procuremos nossas próprias conclusões, apliquemos o livro à nossa própria alegria de viver.

Ismael Gomes Braga

Não bastará dizer


Não bastará dizer
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador  (FEB) Dezembro1955

            Não bastará clamar Senhor! Senhor!.. para atravessarmos vitoriosamente as portas da iluminação espiritual para a vida eterna.

            Muitos clamam pela proteção do Mestre, em lágrimas de amargosa compunção, mas não lhe aceitam os desígnios salvadores. Esperam pelo Benfeitor Divino, à maneira de crianças caprichosas, tocadas de viciosas exigências.

            Muitos apelam para Jesus, reclamando-lhe socorro e assistência, declarando-se extenuados pelas pequenas lutas que lhes couberam no mundo; entretanto, são cegos para os fardos pesados que os vizinhos suportam heroicamente e incapazes de oferecer a mais leve migalha de cooperação ao próximo sofredor.

            Muitos repetem o nome do Amigo Celeste, não para materializar lhe os princípios sublimes no mundo, mas para conquistarem destacado lugar no banquete da dominação humana.

            Muitos se reportam ao Mestre da Cruz, rogando-lhe refúgio entre os anjos, todavia, conservam-se em plena fuga ao serviço que o Céu lhes conferiu, entre as criaturas, na Terra, para soerguimento da Humanidade.

            O problema da redenção não está situado em nossos lábios, mas, acima de tudo, em nosso coração e em nossos braços, que devemos mobilizar a serviço dos outros e em favor de nós mesmos.


            Apliquemo-nos, pois, à ação permanente do bem e, convictos de que "a cada um será dado segundo as próprias obras", procuremos a nossa posição de servidores, no abençoado campo do Espiritismo, que nos oferece recursos sublimes à sementeira de nossa felicidade imortal. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Intelectualismo pernicioso



Intelectualismo
pernicioso
Vinélius Di Marco / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Novembro 1955

            Tem-se notado, a pesar nosso, que elementos talentosos, que poderiam ser utilíssimos à causa do Espiritismo, se esqueçam das recomendações doutrinárias e se deixem levar pelos impulsos que a vaidade estimula dissimuladamente. Em lugar de se esforçarem pela exemplificação evangélica, fiéis à Doutrina, se deixam arrastar por intelectualismo perigoso, que abrilhanta sua ação falada e escrita, aumentando-lhes os aplausos do superficialismo, mas, desgraçadamente, fazendo-os distanciar-se da austeridade evangélica.
           
            Na defesa de pontos de vista nem sempre fraternos, tripudiam sobre as lições doutrinárias, assumindo enormes responsabilidades perante o futuro, porque terão um dia, em obediência à Lei que rege a vida do Espírito, de prestar contas de seus atos. Nada melhor para a defesa da nossa educação espiritual do que a observância da Doutrina Espírita em paralelo com o Evansegundo o Espiritismo. Jesus foi a humildade personificada. Tendo poder para ser muito, fez questão de ser humilde, fazendo realçar a necessidade da humildade, quando disse: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou branco e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo."

            O intelectualismo que invadiu certos setores do Espiritismo é obra da treva. Reflete o abandono da Doutrina e o esquecimento do Evangelho. Sua ação é mais nociva do que a esterilidade, porque deixa consequências perniciosas, cava a desunião, incentiva os inimigos do Espiritismo, enfraquece o trabalho da Seara e estabelece antagonismos que não pode nem deve haver entre irmãos de um mesmo credo. Felizmente, há sempre companheiros que procuram, a tempo, refrear as manifestações negativas da treva, através de médiuns invigilantes, mais preocupados com os lauréis do mundo do que com os encargos contraídos por seu Espírito.

            O Espiritismo é e tem de ser cultivado pela humildade laboriosa. Sem humildade não há espírito evangélico nem há solidez doutrinária. Devemos insistir em que a Doutrina de Kardec seja a pedra de toque da formação moral de todos aqueles que ingressam no Espiritismo e nele permanecem. Não podemos ter a veleidade de aspirar a posições de relevo, muito menos de adquirir supremacia nisto ou naquilo. Nosso dever, perante Jesus e perante o Espiritismo, é ser humildes de coração, absolutamente fiéis às determinações doutrinárias e ao Evangelho segundo o Espiritismo.

            Não há lugar, na Seara Espírita, para vaidades literárias, para vaidades de qualquer natureza. O espírita de maior cultura intelectual e de maior talento, não vale mais do que o espírita inculto e sem talento, mas humilde cultor da Doutrina e do Evangelho. Não é o cérebro que aproxima a criatura humana de Deus, mas o coração. Cérebro, apenas, não traduz vibração sentimental, porque somente o coração sabe sentir. O ideal é a união do cérebro com o coração, predominando este sobre aquele. Quando o cérebro possui ascendência sobre o coração, a frieza calculista põe limites aos ritmos do sentimento e pode até anulá-los.

            Enfrentemos o intelectualismo pernicioso com os recursos constantes da Doutrina e do Evangelho. Pugnemos humildemente, mas com persistência, pela humildade, porque não se pode conceber espírita que não seja humilde, quer por educação doutrinária, quer por compreensão das verdades evangélicas.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

2. É tempo de recordar Guillon Ribeiro


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1.2. Guillon Ribeiro
predicador do  Evangelho do Cristo 
           
por   Indalício Mendes
Nota do Blog: Predicador = pregador (Houaiss)

Reformador (FEB) Janeiro 1975

"Semeia de manhã a tua semente, e de tarde não deixes repousar a tua mão;
pois não sabes qual das duas prosperará,
 se esta ou aquela, ou se ambas serão Igualmente boas." (Eclesiastes, 11:6.)

            É com profunda e desmedida emoção que sempre nos dispomos a dizer algo a respeito de alguma personalidade ilustre, cuja passagem por este planeta haja deixado um rastro luminoso, proveniente do trabalho edificante realizado, visando ao bem do próximo, a disseminação das verdades divinas e, sobretudo, o esclarecimento honesto e devotado daqueles que, ignorantes dessas verdades ou mal orientados, se perdem nas trevas da confusão e do desespero.

            Escreveu o admirável Vinicius (Pedro de Camargo), em artigo intitulado "O Distintivo do Cristão"[1]:

            "Vós sois o sal da terra e a luz do mundo", disse Jesus a seus discípulos, e acrescentou: "De tal modo brilhe a vossa luz diante dos homens, que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."

            Ser, portanto, o sal da terra e a luz do mundo - eis o distintivo do cristão. Mas que singular analogia é essa, estabelecida por Jesus, entre o sal e seus discípulos'! De outra sorte, como e de que forma podem ser seus discípulos o sal da terra?

            "Meditemos um pouco sobre o espírito dessa expressiva comparação, que por si mesma define precisamente o objeto do Cristianismo. A propósito do papel que o sal representa em nosso meio, assim se exprime abalizado escritor: "O sal é um mineral precioso, difusamente espalhado em nosso globo, segundo as necessidades previstas pela Natureza. Nós o vemos em abundância, desde as camadas secas, cristalizadas, em certas regiões, até a formidável quantidade que dele se encontra diluída nessa massa enorme de água de que se compõem diversos lagos e todos os mares do nosso orbe. A influência que o sal exerce em nosso organismo, para manter o seu equilíbrio fisiológico, é de capital importância, dependendo de seu indispensável concurso a manutenção de nosso bem-estar físico. Examinado sob outro aspecto, a química nos ensina que onde quer que o encontremos, seja na terra ou no mar, ele é sempre o mesmo: inalterado, inalterável. Dotado de qualidades essencialmente conservadoras, mantém-se incorruptível, preservando ainda os corpos que com ele se acham em contato."

            "Eis aí precisamente o que quer Jesus que sejam seus discípulos: elementos preciosos, de grande utilidade na economia social, modelos de 'honestidade, incorruptíveis e preservadores da dissolução moral no meio em que se encontrarem. Ele quer, em suma, que seus discípulos se distingam, no plano moral, pelos mesmos predicados por que se distingue o sal no plano físico.”

            O excelente artigo de Vinicius, valoroso espírita hoje na Espiritualidade, é longo, porém belo e expressivo. É-nos impossível transcrevê-lo na íntegra, como gostaríamos, mas o espaço nos impõe comedimento, de modo que nos limitamos a reproduzir também, e apenas, os dois parágrafos finais, de incontestável beleza e grande propriedade:

            "O sal não se esconde; o cristão não se conserva incógnito: tão depressa se percebe o sal pelo paladar, tão de pronto se conhece o cristão pelo proceder. A essência do primeiro e a virtude do segundo caminham de mãos dadas, cada uma agindo no terreno que lhe é próprio: o sal não pode ser insípido; o cristão não pode ser inativo.

            "Ambos têm a mesma missão: purificar, mantendo-se puro, preservar da corrupção, conservando-se incorruptível. E nisso consiste a rubrica que o distingue."

            Luiz Olímpio Guillon Ribeiro, legitimo espírita cristão, foi "o sal da terra", conforme procuraremos demonstrar, embora palidamente, neste modesto artigo de reverência ao centenário da sua encarnação, em janeiro de 1875 e terminada em outubro de 1943.

            A 17 de janeiro de 1875, em São Luís do Maranhão, ingressara no mundo físico esse Espírito de escol, para, sob as bênçãos de Jesus, realizar, nas fileiras de Ismael, longo e proficiente trabalho em prol da difusão da Doutrina Espírita, que, como todos sabemos, é essencialmente fundada nos princípios do Evangelho. Filho de Luiz Antônio Gonçalves Ribeiro e de Olímpia Guillon Gonçalves Ribeiro, pobres de pecúnia, mas ricos de virtudes, pois traziam em suas almas aqueles valiosos tesouros que não perecem, o nosso amado Guillon Ribeiro começou, desde pequenino, a defrontar os obstáculos que lhe robusteceriam mais o caráter adamantino e o tornariam um homem de grande integridade moral e muita bondade.

            A luta pela sobrevivência da família exigia de seus dedicados pais o máximo de atenção e esforço, de decisão e trabalho, para que a austera família continuasse a cercar os filhos dos cuidados indispensáveis para continuarem, pelo menos, no nível existencial que até então vinha sendo mantido, sem enfraquecimento da justa dignidade que faz da pobreza limpa um escudo de defesa contra as tentações do mundo. O centenário do nascimento de Guillon Ribeiro, da sua encarnação proveitosa e abençoada, cheia de episódios edificantes e até comoventes, antes e depois da sua conversão ao Espiritismo, deve induzir-nos à meditação, ao reexame do nosso comportamento como Espíritos encarnados, tomando-o como modelo.

            Vencendo as barreiras que a vida engendrava, seus pais puderam interná-Io, gratuitamente, no Seminário de São Luís, onde aprendeu as primeiras letras e deu grandes passos iniciais na senda do progresso intelectual. Sua inteligência e aplicação aos estudos granjearam-lhe a simpatia dos mestres e condiscípulos, pormenor que viria a repetir-se posteriormente. Vivendo num lar de pureza e compreensão, isso influiu poderosamente na formação da sua personalidade. Mas logo ficara órfão do pai. Dona Olímpia resolveu, em face de tal conjuntura, transferir-se com os filhos para o Rio de Janeiro, disposta a todos os sacrifícios na cidade grande e desconhecida, que, entretanto, poderia oferecer-Ihes maiores oportunidades. De fato, foi o que aconteceu. Nada pareceu fácil. Ela, no entanto, possuía aquela fé que remove montanhas. Dentro em pouco, Guillon Ribeiro foi admitido, como aluno gratuito, na tradicional e sempre louvada antiga Escola Militar, na Praia Vermelha. É desnecessário enfatizar a soma de vicissitudes dos primeiros meses, as crescentes preocupações da mãe maravilhosa, que não media dificuldades para preparar o futuro dos filhos entregues ao seu amparo.

            Esclarecida e sensata, dotada de extraordinária força de vontade, Dona Olímpia Guillon Ribeiro desenvolvia cansativa atividade para alcançar esse objetivo, escorada na energia, no otimismo, na coragem e na confiança em Deus, Guillon Ribeiro percebeu quanto sua mãe fazia para manter e educar os filhos e estudava com afinco, impondo-se ao respeito e admiração dos companheiros, e professores, que nele viam um exemplo que correspondia às altas e nobres tradições daquele famoso educandário militar. Ótimo estudante, de temperamento afável e predisposto sempre a ajudar a quantos demonstrassem precisar de auxilio, conquistou definitivamente, ali, a estima geral.

            Mas as lutas não haviam arrefecido. Os problemas continuavam a desafiar Dona Olimpia. Ele permaneceu apenas três meses na carreira das armas, matriculando-se, em seguida, diretamente, no segundo ano da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em vista da segura base de conhecimentos adquiridos na Escola Militar. Seu roteiro de estudante continuou no mesmo acelerado ritmo e com os mesmos resultados fecundos que realçavam cada ciclo do áspero caminho discente.

            Muito cedo, pusera-se a trabalhar, empenhado em aliviar as aflições domésticas, a manutenção própria, a da família e o custeio dos estudos. Denotava forte noção de responsabilidade e sofria ao ver a desvelada genitora ainda subordinada a serviços fatigantes. Sua maneira de pensar e de proceder denotavam já o homem que se estava formando sob a pressão da adversidade e no clima severo de crescentes compromissos que a vida dia a dia suscitava. Amava extremosamente a mãe dedicada e inexcedível. Admirando-a, mais esforços despendia para libertá-Ia dos sacrifícios a que estava submetida há tantos anos. Dos numerosos trabalhos que desempenhou, destacamos o de redator do "Jornal do Comércio", importante órgão, àquele tempo, da cidade do Rio de Janeiro, exercendo sua função à noite, depois dos serviços e dos estudos do dia. Sua operosidade se desenvolveu a inteiro contento dos chefes ocasionais, que lhe louvavam a correção da linguagem escrita e a boa vontade que sempre demonstrava quando surgiam tarefas extras. Confiavam na sua probidade de jornalista, certos de que ele jamais se afastaria, como jamais se afastou, das normas éticas seguidas por aquele matutino altamente conservador. A madrugada ele a reservava para estudar, e as parcas horas de sono frequentemente diminuíam quando as lucubrações o empolgavam.

            Finalmente, concluiu com merecido brilhantismo o curso de Engenharia Civil. Valera a pena tudo quanto fizera, porque o seu cabedal de conhecimentos estava muito enriquecido e poderia exercer a sua profissão com absoluta segurança. Mas os empregos já não eram fáceis. De tentativa em tentativa, acabou por aceitar o cargo de 2º oficial da Secretaria do Senado Federal, porém com o propósito de, quando possível, passar a exercer função compatível com a sua qualidade de engenheiro civil. Ali se verificou o mesmo que anotamos em linhas precedentes: a sua competência e a bondade do seu caráter fizeram-no muito depressa querido e requestado pelas pessoas que com ele conviviam, do mais humilde serventuário ao mais graduado dos membros da Câmara Alta.

            Sua passagem pelo Senado deixou indeléveis marcas. Teve rápida ascensão, por seu apego aos deveres e pela cultura e inteligência que se expandiam em todos os seus atos; pela retidão de proceder, a capacidade funcional, a paciência, a tolerância e a inalterável boa vontade. Desincumbia-se bem de todas as tarefas, por mais difíceis que fossem. Dessa forma, passou a diretor geral da Secretaria, na qual se aposentou em 1921, deixando sentimentos de saudade e gratidão, pelos relevantes serviços prestados e pela nobreza natural de que era dotado. Prova disso, uma entre tantas, está nas seguintes palavras, que transcrevemos, pronunciadas pelo senador Ruy Barbosa, em sessão de 14 de outubro de 1903, no Senado Federal, publicadas a folhas 717, coluna esquerda, do volume "Anais do Senado Federal", vol. II (Sessões de 10 de agosto a 31 de outubro de 1903, e transcritas nesta revista, em novembro de 1943, página 266:

            "O respeito que devemos nós - todos aqueles que escrevem ao público e a nós mesmos, esse respeito nos impõe o maior cuidado até os últimos momentos. Nenhum bom escritor pode confiar absolutamente, exclusivamente, nos protos[2].
            "Devo, entretanto, Sr. Presidente, desempenhar-me de um dever de consciência - registrar, e agradecer da tribuna do Senado a colaboração preciosa de um dos auxiliares desta Casa, o Sr. Dr. Guillon Ribeiro, que me acompanhou nesse trabalho com a maior inteligência, não limitando os seus serviços à parte material do comum dos revisores, mas, muitas vezes, suprindo até a desatenções e negligências minhas."

            Nada mais seria preciso dizer-se, depois do espontâneo e eloquente testemunho do eminente Dr. Ruy Barbosa, destacando o valor desse insigne vulto que tanto dignificou as fileiras do Espiritismo cristão. A família Guillon Ribeiro deve possuir ainda valiosas cartas de grandes estadistas da época, ressaltando as qualidades invulgares de seu ilustre patriarca.

Conversão ao Espiritismo

            Filho amantíssimo, adorava a mãe terna e zelosa. Quando Olímpia Guillon Gonçalves Ribeiro desencarnou, sua dor foi imensa. Fora tudo para ele. Confortara-o nas mais duras passagens da vida, estimulara-o quando os obstáculos lhe pareciam intransponíveis, era toda carinho, toda amor, toda devotamento, a vida inteira. Inconformado com a perda de ente tão querido, foi tomado de enorme desânimo, raiando o desespero. Visitava o túmulo da morta muito amada todos os dias e parecia haver perdido o gosto de viver. Chegou-lhe às mãos, em momento azado, algo referente ao Espiritismo pelo qual outrora revelara simpatia. Despertada a inclinação adormecida, pode então ter melhor ideia da Doutrina. Segundo o Eclesiastes, "há tempo de nascer e tempo de morrer". Pôs-se a refletir. Considerou pausadamente os preceitos doutrinários coordenados por Allan Kardec e, com a acuidade de sua mente evoluída, capacitou-se depressa da grandeza dos ensinamentos espíritas. Daí por diante, o estudo e a análise da Doutrina lhe ocuparam a mente. Compreendeu a razão da vida carnal, a finalidade da existência terrena e o "porquê" do sofrimento, e que a morte física representa a libertação da alma enclausurada para redimir-se de falhas e faltas, através de necessárias e redentoras provações. Alma evangelizada, de imediato se apercebeu de que "O Livro dos Espíritos" está ungido de ensinos evangélicos, pois "a moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontra o homem uma regra universal de proceder, mesmo para as suas menores ações"[3].

            Era o de que precisava em tão angustiosa conjuntura. Suas ideias se abriram de par em par; o coração, desanuviado, livre de esmagadoras depressões, experimentou, ao influxo do Evangelho, íntima alegria. Confortava-o saber que a mãe querida não morrera, não se extinguira como ser, mas sobrevivera à decadência da roupagem carnal e como que renascera, iluminada de amor e de paz, na Espiritualidade, cooperando talvez com os Espíritos do bem, na obra imensa de assistência, amparo e recuperação das almas atormentadas por encarnações terrenas desviadas da luz do Mestre. E assim se tornou Guillon Ribeiro um dos mais expressivos servidores da Terceira Revelação e do Evangelho segundo o Espiritismo. Lia e meditava, esquadrinhando todos os pontos da Doutrina dos Espíritos, buscando ampliar os conhecimentos indispensáveis à consolidação de suas convicções, até que, em 1911, mais amadurecido, aceitou definitivamente a Doutrina, que já não tinha segredos para ele.  Revelou-se devotado e proficiente servo de Jesus, assíduo, infatigável, exemplar, o que não lhe era difícil, pois toda a sua vida fora, até converter-se, a de um espírita em potencial.

            Dedicou-se à pregação da Doutrina e do Evangelho. Levava a seus semelhantes a semente maravilhosa que, ao vingar no coração humano, opera salutar mudança da personalidade, valorizando o homem e tornando-o instrumento realmente útil ao engrandecimento da humanidade terrena. Durante largo tempo visitou os internados na Casa de Correção, levando-lhes palavras de esperança e de incentivo, pondo-lhes fé e paz nas almas. E muitos, cumprido o estágio recuperador, fizeram-se seus solícitos amigos.


[1] Leopoldo Cirne – “Doutrina e Prática do Espiritismo”, vol. II (ed. 1920), pág. 173 e 174
[2] Protos - Do gr. prõtos, primeiro. Especializou o sentido na arte tipográfica. Antenor Nascentes - "Dicionário Etimológico da Lingua Portuguesa", ed. única, 1932, pág.654.
[3] Allan Kardec - "O Livro dos Espíritos", Introdução, ed. 1950, pág. 24.




2.2. Guillon Ribeiro
predicador do  Evangelho do Cristo 
           
por   Indalício Mendes

Reformador (FEB) Janeiro 1975

 O Grande Evangelizador

            A palavra oral foi um dos mais impressionantes triunfos do homem, porque lhe abriu imensas perspectivas de comunicação e informação com os outros homens, apressando-lhe o progresso moral e intelectual, franqueando-lhe a difusão da experiência adquirida e ampliando o alcance dos ensinamentos conquistados. Foi talvez o maior e mais importante sinal da evolução humana. Só mais tarde, muito mais tarde, começaram a surgir os rudimentos da palavra escrita, que viria a ser outra estupenda arma do progresso. Guillon Ribeiro foi mestre da palavra falada e escrita. Nunca se preocupou senão com o sentido da mensagem a transmitir, para que ela, passando pela mente do ouvinte, lhe atingisse o coração. Não foi um discursador banal, não foi um orador, tal como se compreende vulgarmente alguém que prefere os descaminhos da falsa retórica à simplicidade do verbo simples, mas eficiente, sem arrebatamentos nem impulsos autólatras. Satisfazendo a índole discreta, Guillon Ribeiro foi principalmente um predicador fluente do Evangelho e da Doutrina. Por isto mesmo, sua palavra agradava e prendia, era convincente. Tal como esclarecia, levava o argumento claro e lógico como complemento de alguma frase menos acessível àqueles irmãos pouco familiarizados com determinados assuntos. Jamais se deixou arrastar por tropos oratórios. Não punha tremolos na voz, não teatralizava, não se socorria de arroubos estentóricos para enfatizar. Nem por isso se tornava monótono. Falava o estritamente necessário e frequentemente o ouvinte se regozijava, porque, orando com naturalidade, parecia conversar, como que em estilo quase coloquial, expondo a Doutrina Espírita ou discorrendo sobre o Evangelho em espírito e verdade, segundo o Espiritismo cristão.

            Era de ver-se e ouvir-se esse homem douto, mas humilde, quando, na tribuna da Federação Espírita Brasileira, o verbo diserto mais claro e mais doce, dissertava sobre a superior significação do Evangelho de Jesus como instrumento insubstituível de salvação e felicidade, e pelo papel da dor, consequência e causa dos nossos erros. Aí, sua palavra assumia relevos do mais alto e puro sentimento de amor. Paciente e tolerante, ainda quando submetido a provas rudes da intransigência e má fé, mantinha a mesma calma de espírito, pronto ao desfazimento de dúvidas e equívocos de interpretação.

            Certa feita, numa das sessões públicas da Federação Espírita Brasileira, um espírita neófito se deixou confundir, admitindo incongruência no que ele havia dito a respeito do livre arbítrio e do determinismo. Enviou-lhe atenciosa carta, pertinente ao tema referido, na qual divergia do que Guillon Ribeiro dissera da tribuna da Casa de Ismael. Na semana seguinte - pois era assíduo frequentador das reuniões públicas semanais de estudo, presididas por Guillon Ribeiro e Manuel Quintão, um, às terças, outro às sextas-feiras -, o espírita neófito lá estava, aguardando, ansioso, a palavra do mestre erudito e despretensioso.

            Imperturbável, mas firme, ressumando a dignidade inerente à sua alma evoluída, começou ele por dizer que, pela primeira vez, iria infringir tradicional norma da Casa de Ismael, respondendo, daquela tribuna, a uma carta que recebera, a propósito do assunto ali comentado, na semana anterior, carta essa sem assinatura, ou melhor, subscrita por "Um sócio novo da Federação". Em virtude do arrazoado de tal missiva (informava ele tempos depois) supôs provir ela de um sacerdote. Em linguagem ática, escorreita, com a delicadeza beirando a indulgência, demonstrou a procedência dos seus argumentos, reafirmando-os com eloquente base lógica e convincente. Foi uma lição magnífica, de elevado nível, que terminou por recomendar ao neófito a leitura do opúsculo de Luiz Gastin, intitulado "Livre Arbítrio e Determinismo", publicado em dois números sucessivos da "Revue Spirite", da qual o autor era, então, secretário, trabalho este traduzido por Guillon e publicado pela FEB.

            Noite memorável para quantos presenciaram o edificante episódio, porquanto o prelúcido predicador da Doutrina e do Evangelho ratificara, de novo, integral identificação com os preceitos verdadeiramente cristãos do Espiritismo.  Seu amor ao Evangelho tornou-o um exegeta consciencioso, além de pertinaz, das verdades sagradas, muitas vezes ocultas sob o véu da letra. O estudo levou-o a perquirições mais extensas e profundas e daí a "Os Quatro Evangelhos", obra mediúnica extraordinária, publicada por Jean-Baptiste Roustaing, na qual reconheceu estar, como realmente está, "a chave das dificuldades escriturísticas, a verdadeira exegese, a interpretação simples e fácil de textos até então tornados obscuros sem aquela revelação”.

            Amando o egrégio Codificador, que legara à humanidade a Doutrina dos Espíritos, Guillon verificou que a "Revelação da Revelação", tal, como reconhecera o próprio  Allan Kardec, na "Revue Spirite" de junho de 1867, "não se afasta dos princípios exarados no Livro dos Espíritos e no dos Médiuns", e que "as revelações são sucessivas e progressivas, o que demonstra quão errados são os que, espíritas ou não, se supõem na posse do conhecimento integral da verdade"[1]. Tanto mais quanto "os que se apegam à letra, sem examinar os textos em seu conjunto e sem pesquisar o espírito que a este preside, para lhe apreenderem a harmonia, a necessidade, o motivo e o fim, tendo em vista a sucessão e a progressividade das revelações; para apreenderem a necessidade, o motivo e o fim dessas revelações, como condição e meio da humanidade progredir, de prosseguir na sua marcha gradativa e ascendente pela estrada da luz e da verdade, esses não querem compreender que a inteligência, à proporção que, se desenvolve, mais vastos horizontes vai divisando divisando"[2]

            Certificando-se da perfeita compatibilidade da Terceira Revelação (Allan Kardec) com a "Revelação da Revelação" (J.-B. Roustaing), Guillon Ribeiro - a quem Pedro Richard, outro ilustre missionário do Evangelho, chamou, com muita propriedade, "o Roustaing brasileiro - não se escusava de exaltar a forte personalidade e a grande cultura de Allan Kardec, assim como o gigantesco e fecundo trabalho da Codificação; mas teve também hombridade de reconhecer e afirmar os méritos da obra que Roustaing, homem indiscutivelmente erudito, obediente a instruções da Espiritualidade, lançara com probidade e fé, convencido de que ela constitui de fato valioso e imprescindível complemento ao estudo do Espiritismo cristão:

            "Eis como os textos das Escrituras, dos Evangelhos, das Epístolas, portanto as palavras dos profetas, de Jesus e do apóstolo Paulo, compreendidos em espírito e verdade, o que só pode ser feito à luz da Nova Revelação, da Revelação da Revelação, segundo a denominaram os Evangelistas na obra mediúnica dada por intermédio de J.-B. Roustaing, nos apresentam e mostram tais quais são, em suas verdadeiras grandezas, nas suas posições relativas, nas suas funções próprias, as três entidades a que chamamos - Deus, Jesus e Espírito Santo.

            "Numa síntese admirável, formando um tecido de verdades profundas, que precisam ser convenientemente assimiladas, porque constituem, de um lado, o clareamento e ampliação das que foram outrora proclamadas e, de outro lado, os elementos básicos das que nos hão de ser daqui por diante gradativamente ensinadas e reveladas, às páginas que acabam de ler-se, extraídas daquela obra monumental e indestrutível, ditada pelos que já conhecem a verdade sem véu, são, como de outras não sabemos, de molde a atrair todos os crentes sinceros e de boa vontade para o estudo consciencioso dos Evangelhos, em espírito e verdade.

            "Dentro da Terceira Revelação, que estéril se conservará para quantos a dissociarem dos mesmos Evangelhos, nada encontramos, com o cunho de verdades emanadas do Além, trazidas ao mundo pelos Espíritos do Senhor, que em valor exceda, como fonte de luz, para a boa compreensão do que representa, em face da humanidade, o Espiritismo, a essas páginas, que resumem os principais dos grandes ensinamentos que encerra a Revelação da Revelação, obra que Roustaing teve por missão transmitir ao mundo."[3] (6)

            Kardec, no número já citado da "Revue Spirite", não aprovou, nem desaprovou "Os Quatro Evangelhos", porém considerou que, a par de algumas coisas que "ainda não julgara oportuno abordar", "outras contém incontestavelmente boas e verdadeiras", asseverando que a obra "será consultada com proveito pelos espíritas conscienciosos". Tratava-se de uma opinião pessoal de Kardec, respeitável, sem qualquer sombra de dúvida, que de nenhum modo invalidava a obra mediúnica apresentada por J.-B. Roustaing, ainda que se reservasse para nova opinião no futuro, dando tempo ao tempo, pois que será consultada (SERÁ e não - seria) pelos espíritas conscienciosos.  

            Dentro do espírito de acatamento à liberdade de pensar e de opinar, Kardec foi de absoluta coerência e imparcialidade, corroborando os deveres de compreensão e tolerância pregados pela Doutrina. Nem por isso Guillon Ribeiro, como tantos outros que, louvaram a sublimidade de "Os Quatro Evangelhos", escapou à crítica azeda, aos apodos, aos destemperos que tanto colidem com a linha doutrinária e com o equilíbrio exemplar do insigne Codificador, perdendo-se nos desvãos da intransigência e do desamor. Imperturbável em sua serenidade, Guillon aceitou resignadamente, sem queixas, nem revolta, o escárnio e o insulto inspirados pela treva contra as luzes imperecíveis do Evangelho explicado em espírito e verdade. Reagiu com o exemplo de Jesus, que teve amor para antepor ao ódio, paz para contrapor à ira, piedade para opor à loucura. "Per-doai-Ihes, Senhor, porque não sabem o que fazem" - disse o Mestre.

            Trazendo do passado a lembrança de amargas e rudes experiências, Guillon Ribeiro nada aceitava sem ponderação, sem exame meticuloso. Não emitia opinião alguma sobre o que fosse, sem seguro conhecimento de causa, depois de comparar razões, causas e efeitos admissíveis. Quando externava seu ponto de vista, já estava absolutamente senhor das questões. Foi sempre assim e assim foi, notadamente quando decidiu aderir ao Espiritismo. Portanto, não foi um "espírita" intermitente, um "espírita" à "sua moda", mas um espírita consciente das obrigações para com Deus e Jesus, sempre vivas e esplendentes de luz nas páginas dos Evangelhos e da Doutrina. Não foi também um simples teórico, um mero e piegas "papagueador" de postulados. Não. Provava sua condição de espírita evangelizado pelo comportamento cotidiano, em quaisquer circunstâncias. Seus testemunhos de fé eram espontâneos, porque estava convicto de que a fé sem obras é estéril e a caridade multiforme ele a exercia convictamente.

            Entretanto, colheu não poucos espinhos no movimento espírita, por ver deturpados os seus melhores sentimentos e mal considerados os esforços que desenvolvia em favor da Doutrina e da humanidade. Contudo, não externava sua tristeza, porque suas dores eram apenas suas, não as dividindo com ninguém. Preferia transformá-Ias em prece para os que não queriam compreendê-Io e para os que a ele recorriam, em busca de um conforto qualquer. Por isso, humilde e bom, não abrigava ressentimentos e recebia sorridente e fraterno aquele que, pouco antes, o invectivara imerecidamente. O perdão era uma constante na sua vida diária, pois nunca se esqueceu de que, mormente no Espiritismo, todos devemos unir e não dividir, juntar e não separar. Foi, em suma, o "espírita consciencioso", o "espírita cristão", de que nos falou Kardec.

O OBREIRO INCANSÁVEL

            Guillon Ribeiro trabalhou muito, deu tudo de si para o Espiritismo. Ser-nos-ia impossível, agora, relacionar toda a grandeza da sua intensa e ininterrupta atividade. Ainda quando enfermo, não deixava de dar valiosa contribuição ao "Reformador", redigindo, corrigindo, selecionando textos, etc., ou fazendo traduções, compilações e outros serviços.

            Vernaculista de estirpe, dominava a língua francesa com franco desembaraço e se sentia à vontade em face de alguns outros idiomas. Deixou numerosas traduções de obras espíritas e teria sido um escritor primoroso, se a sua modéstia e humildade não lhe houvessem circunscrito ao ambiente espírita a abundante e meritória atividade a que se devotou. Senão, vejamos:

TRADUÇÕES

Allan Kardec - "O Livro dos Espíritos", "O Livro dos Médiuns", "O Evangelho segundo o Espiritismo", "A Gênese", "Obras Póstumas", "O que é o Espiritismo", "O Principiante Espírita", "O Espiritismo em sua Expressão mais Simples", "Doutrina Espírita".

J.-B. Roustaing - "Os Quatro Evangelhos" ou "Revelação da Revelação" (4 volumes).

Léon Denis "Joana d'Arc, Médium", "O Além e a Sobrevivência do Ser".

Ernesto Bozzano - "A Crise da Morte", "Animismo ou Espiritismo ?", "Xenoglossia", "Psicologia e Espiritismo".

Pietro Ubaldi - "A Grande Síntese".

Gabriel Delanne - "O Espiritismo perante a Ciência", "A Alma é Imortal".

J. E. Guillet - "Os Quatro Evangelhos e o Livro dos Espíritos".

Arthur Findlay - "No Limiar do Etéreo".

Arthur Conan Doyle - "A Nova Revelação".

George Dejean - "A Nova Luz".

C. Picone Chiodo - "A Verdade Espiritualista", "Espiritismo e Criminalidade".

Luiz Gastin - "Livre Arbítrio e Determinismo".

PREFÁCIOS

Obras em que se encontram:

"Sessões Práticas de Espiritismo", de Spartaco Banal.
"A Margem do Espiritismo", de Carlos Imbassahy.
"Religião", de Carlos Imbassahy.
"A Grande Síntese", de Pietro Ubaldi.
"Os Quatro Evangelhos" ou "Revelação da Revelação", de J.-B. Roustaing.
"O Cristianismo do Cristo e o dos seus Vigários", de Padre Alta.
"A Nova Luz", de Georges Dejean.
"Animismo ou Espiritismo?", de Ernesto Bozzano.
"A Crise da Morte", de Ernesto Bozzano.
"Espiritismo e Criminalidade", de C. Picone Chiodo.
"A Verdade Espiritualista", de C. Picone Chiodo.
"Grandes e Pequenos Problemas", de Angel Aguarod.
"A Personalidade de Jesus", de Leopoldo Cirne.
"Elucidações Evangélicas", Antônio Luiz Sayão.

Do Blog: Reduzi-lo à dimensão de 'tradutor' - apesar de honrosa - é muito pouco para alguém da extensão moral e intelectual de Guillon Ribeiro. 

OBRAS PUBLICADAS

"Jesus - nem Deus, nem Homem".
"Espiritismo e Política".
"A Mulher, sua Missão - sua Felicidade".
"A Federação Espírita Brasileira".
E várias outras, já esgotadas.

OBRAS COMPILADAS

"Trabalhos do Grupo Ismael".  (integralmente disponível neste Blog!)
"Ensinamentos do Além e Advertências do Aquém".
Em "Grandes Espíritas do Brasil", o escritor espírita Zêus Wantuil iniciou a biografia de Guillon Ribeiro com estas muito expressivas palavras:

            "Vamos revelar - este é o verbo – quem foi Guillon Ribeiro, e o que foi a sua vida, cheia de bons serviços à pátria, dedicada à família, devotada ao Evangelho, transcorrida num esforço máximo de tornar melhores os nossos semelhantes, mas tudo ocultamente, como que clandestinamente, visto que a sua modéstia, levada às vezes até ao extremo, não permitia que algo dissessem dele os seus melhores amigos. Mas dessa sua existência se poderia declarar o que a respeito de Ruy Barbosa dissera Alcindo Guanabara - uma linha reta entre o dever e a justiça."

             E, adiante:
           
            "Guillon Ribeiro foi Presidente da Federação Espírita Brasileira em 1920 e 1921, bem como de 1930 a outubro de 1943, quando desencarnou. Por força do seu mandato, era igualmente o diretor da revista "Reformador". "Durante vinte e seis anos consecutivos foi diretor da FEB, tendo exercido quase todos os cargos, inclusive o de diretor da Livraria." "Em 1937, o então presidente da FEB, Doutor Guillon Ribeiro, demonstrou a necessidade inadiável da instalação de oficinas tipográficas próprias. A ideia, a princípio combatida, foi evoluindo com o tempo e firmou-se em fins de 1938. Finalmente, a 4 de novembro de 1939, a pequena oficina gráfica da FEB entrava a funcionar, justamente na sala hoje ocupada pela Biblioteca."

            Socorrendo-nos ainda do livro supracitado, consideramos também oportuna esta transcrição:

            "Para termos ideia do que foi o imenso labor intelectual do eminente Dr. Guillon Ribeiro, basta citar um exemplo, de entre muitos outros: Na tradução de "Os Quatro Evangelhos", de Roustaing, Guillon Ribeiro gastou cinco longos anos de porfiado trabalho, para dar ao movimento espírita uma tradução esmerada e brilhante sob todos os pontos de vista. E qualquer que seja a opinião que se forme sobre esse empreendimento, ao qual ele dedicou toda a sua alma, o que não podem olvidar os espíritos de boa fé e sinceros é a lealdade com que pôs mãos à tradução da obra, são os propósitos que o animavam de espalhar a boa semente, é a convicção que tinha de estar esclarecendo os seus semelhantes e servindo a Jesus." "Foi o mais sincero dos crentes, o mais convicto dos missionários."

CONCLUSÃO

            Principalmente em homenagem à memória de Guillon Ribeiro, o Abrigo dos Filhos do Calvário, de Vitória da Conquista, Bahia, publicou uma brochura de 190 páginas, a respeito do corpo de Jesus, encerrando-a desta maneira:

            "Em substância, e psicologicamente, a vida de um apóstolo só pode ser vislumbrada, em síntese e paralela a outras vidas sublimadas no fogo santo do amor evangélico, e depuradas no cadinho dos sacrifícios redentores. Eis o que, em último linde, podemos evocar, "in memoriam", como pálida homenagem prestada a Guillon Ribeiro, vigilante e obediente servo do Senhor.

            "O vencedor será assim vestido de vestes brancas, e não apagarei o seu nome do livro da vida, e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Apo. 3:5.

            "Deus acompanhe o peregrino audaz."

            Entre inúmeras manifestações procedentes do estrangeiro, exaltando a figura humana, altamente evangelizada de Guillon Ribeiro, a revista "La Idea", órgão da Confederación Espiritista Argentina, resumiu nesta frase eloquente a personalidade moral desse extraordinário espírita:

            "Un hombre de estudio y de trabajo, cuya vida fué y será ejemplo de sacrificio y amor al Espiritismo."

            São de Camilo Silva, no "Reformador" de novembro de 1943, estes trechos de um artigo intitulado "O Pioneiro":

            "Homem de grande cultura e vastos conhecimentos, ele semeou até o fim da terrenal existência as partículas maravilhosas que se desprendem da Doutrina Espírita, tanto pelo seu verbo convincente, que não se afastava do assunto em apreço, como pela imprensa, onde, quer como escritor, quer como tradutor, deixou vasta profusão de trabalhos preciosos e de grande benefício para a humanidade. Alma sensível a todas as dores alheias, coração que se compadecia de todos os sofredores, ele deixou um sulco profundo de saudade em toda a família espírita e de quantos dele se acercavam."

            Rememorando, como vimos de fazer, aspectos da vida fecunda e modelar de Luiz Olímpio Guillon Ribeiro, para fixar nestas páginas o registro do centenário do seu nascimento, tivemos em mira salientar o grandioso exemplo que ele nos deixou, como leal seguidor de Jesus e fiel à orientação de Ismael, para que o Espiritismo, que é o vero Cristianismo redivivo, possa contar sempre com vultos de tamanha grandeza moral e não menor inteireza evangélica.

            O mundo terreno não poderá sair das dificuldades e angústias que o assoberbam, enquanto não se libertar das mazelas do materialismo hedonístico, que traz consigo a lepra do egoísmo e da egolatria. Devemos aprender a linguagem da paz, da compreensão, e da fraternidade, enfim, o procedimento evangélico, que nos ensina que "a liberdade é limitada pelo amor" e só o amor - que inclui a tolerância esclarecida e a paciência iluminada pela justiça - poderá libertar a humanidade, das torturas e maldades que marcam esta época. O homem está cada vez mais escravo de si mesmo, de suas imperfeições, das suas taras, da sua cegueira, porque, sem Deus e sem o Cristo de Deus ninguém poderá encontrar o caminho da paz e da redenção, quebrando as cadeias do ódio e da violência forjados por ideologias aparentemente inofensivas.

            ‘Sirva-nos, entre tantos outros exemplos magníficos, o que nos oferece a vida pura e benemérita de Guillon Ribeiro, que, compreendendo o Evangelho, em espírito e verdade, seguiu a recomendação de Paulo:

            "Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei do Cristo. Pois, se alguém pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Mas cada um prove a sua obra, e então terá o seu motivo de glória em si mesmo somente e não em outrem; pois cada um levará o seu próprio fardo.[4]"
           
            Deus seja louvado!         

[1] Guillon Ribeiro – “Jesus – nem Deus, nem Homem”, ed. 1941, págs. 7 e 8.
[2] Idem, idem, ibidem, págs. 9 e 10.
[3] Idem, Idem, ibidem, págs. 99 e 100.
[4] Paulo, o Apóstolo – Epístola aos Gálatas – 6:2-5.

Nota: Todo os destaques em negrito são do Blog..