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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Posta restante - 23


Posta restante - 23
Sólon Rodrigues
Brasil Espírita- Reformador (FEB) Março  1974

            P. - Existe uma explicação espírita sobre os preconceitos raciais?

            R. - O preconceito racial, em si, tem por matriz o egoísmo e o orgulho que minam as virtudes das criaturas. No geral, contudo, observa-se que nasce de um condicionamento da maioria a determinados clichês mentais recolhidos desde a mais tenra idade e dos quais a alma não faz o esforço para libertar-se. Essa passividade de repetir mecanicamente um ato demonstra, contudo, a ausência do Evangelho em nossas vidas, notadamente quando se trata da sementeira de rancores.
            Temos noticia curiosa, sobre o tema.
            A Espiritualidade Superior patrocina, muitas vezes, na Lei de Ação e Reação, que a reencarnação se processe com uma inversão de raças, a fim de o Espírito corrigir-se de seus desmandos, sofrendo na própria carne o mal que semeou .
            Ocorrendo, todavia, ser o preconceito um problema de egoísmo e de orgulho, a criatura que reencarnou na raça que odiava ou que dizia malquerer, passa a sustentar a mesma posição mental em relação à de que proveio.
            Mais claramente: um homem da raça cor-de-rosa repelia um da raça azul. Quando reencarnou na raça azul, passou a repelir os da de cor-de-rosa.
            O Evangelho é o antídoto do mal, na sua raiz.
            À proporção que interiorizamos o Evangelho, dissolvem-se as divergências entre criaturas, povos e raças; religiões, preferências e escolas de fé . O mundo passa a ser o mundo íntimo do Cristo, e o amor, a maior realização da alma humana.

             
            P. - Terão direito os pais de cercear a liberdade dos filhos de escolherem a sua profissão?

            R. - Quando os pais perdem a mentalidade utilitarista, querendo em tudo extrair um resultado financeiro; quando abandonam as fúteis vaidades de posição social; quando aceitam no filho uma alma com programa pessoal, definido e intransferível, evitam de querer determinar a profissão do próprio filho.

            Ninguém, evidentemente, deixará de ponderar ou aconselhar. Mas, impor-se, porque esta ou aquela atividade profissional é menos ou mais rendosa; porque eleva ou rebaixa, como se diz na linguagem corrente moderna, o "status" 'da criatura; impor-se desta forma, violentando as experiências pelas quais o filho aspira, é uma arbitrariedade que o Espiritismo está convidando seus prosélitos a corrigir.
            Profissão é compromisso e experiência pessoal.
            Fazer-se útil para a coletividade promove maior equilíbrio espiritual que bastar-se a si mesmo.
            A escolha-egoísmo ou a escolha-vaidade é danosa, sim.






Posta restante - 21

Posta restante - 21
Sólon Rodrigues
Brasil Espírita- Reformador (FEB) Janeiro  1974



            P. -Que fazer diante daqueles que buscam o núcleo Espírita tão somente por “questões de ordem material” rejeitando as obrigações de conhecer os fundamentos da Doutrina Espírita?

            R. - Deveremos acolhê-los com carinho.
            A busca do fenômeno ou do inusitado, do chamado milagre ou de soluções miraculosas não se deve transformar em motivação para que agridamos irmãos de caminhada evolutiva com exigências intempestivas.
            Eles estarão, hoje, na mesma posição nossa de ontem.
            Não existe um segundo passo sem o primeiro.
            Allan Kardec considerava que, dada a diversidade de grau evolutivo das criaturas, teríamos na área espírita a procura de todas as manifestações fenomênicas e, inclusive, as doutrinárias.
            Vamos, pois, abraçá-los com carinho fraternal e, à medida que comportarem, esclarecê-los.

            P. -Será próprio ou impróprio exigirmos um estudo das bases do Espiritismo de
todos os que procuram os agrupamentos espíritas?

            R. - Será útil sugerir mas mão torná-lo compulsório.

            Os próprios Mentores Espirituais não chegam a informações insistentes (não raro impróprias) quando tratam com diferentes povos, de costumes diversificados. A exemplo, não se demoram a falar de reencarnação a agrupamentos humamos incapazes de absorver-lhe os princípios. Evitam discorrer sobre o suicídio a povos que fazem da autodestruição um ponto de honra.
            Às crianças - diz-nos Paulo de Tarso - dá-se alimento de crianças e, aos adultos, o de adultos.
            Nada é compulsório na Doutrina. Saber dosar a informação doutrinária é de bom senso. Poderemos tomar, por paridade, a dosagem dos conhecimentos intelectuais que são distribuídos em diferentes ciclos nas escolas.
            Não se transmitem aos do pré-primário as noções de um segundo ciclo, a não ser como princípio rudimentar.

            P. - Se a formação intelectual de quem busca os arraiais  da Doutrina comportar, não será de presumir que tenha melhores condições de apreender os princípios fundamentais do Espiritismo?

            R. - Não devemos confundir a titulação acadêmica com a maturidade espiritual.
            O diploma pode representar um degrau intelectual ou profissional mas nem sempre corresponde a maturação do senso moral que poderia abrir os horizontes da Doutrima Espírita à criatura.
            Há jovens ou iletrados que apreendem a Doutrina - diz Kardec -, enquanto outros, favorecidos pela frequência de cursos superiores, não alcançam o seu sentido profundo.
            A "transferência de conhecimentos" só se realiza por afinidade. Um médico, a exemplo, terá facilidade em apreender conhecimentos similares à medicina, mas não necessariamente aos que escapem de sua área de formação.
            Por vezes exigimos demais dos outros.

            Empenhemo-nos, nós mesmos, em viver o Espiritismo e os que ainda não podem lê-lo nas páginas da Codificação receberão a mensagem ao vivo pelos nossos exemplos. 

Posta restante - 20


Posta restante - 20
Sólon Rodrigues
Brasil Espírita- Reformador (FEB) Dezembro 1972

            Propuseram-nos, hoje, um aparente conflito: Ciência versus Religião.

            P. - Por que há um desencontro entre a evolução da Ciência e a da Religião?

            R. - O desencontro é aparente. Dentro dos processos da natureza, tudo tem sua ordem. O fruto jamais surge antes que a flor.
            Tomando uma árvore por símbolo da evolução humana, já que se enraíza no solo terrestre e cresce na direção dos céus, podemos afirmar: a Ciência é a flor, da qual a Religião é o fruto sazonado.
            Sem raciocínio iluminado, o homem será um religioso instintivo. Mas, como todo instinto tende a transformar-se em sentimento, o homem de inteligência desenvolvida passa a ser um religioso racional.
            Existe conflito entre cientistas e religiosos. Nenhum, porém, entre Ciência e Religião.
            Os que dominavam as religiões sempre sufocaram a pesquisa livre, em nome de falsas verdades que transformaram em dogma, em pontos indiscutíveis de fé, e exclusivamente visando à preservação de seu domínio tirânico de povos, a fim de resguardar sua ascendência comercial.
            Os cientistas buscaram, notadamente no século XIX, o extremo exatamente oposto: a negação desses princípios para conquistar a sua liberdade de pesquisa, já que essas pesquisas, profundamente ajustadas às leis da Natureza, contrariavam as afirmações mágicas e presunçosas dos religiosos.
            Observemos, contudo, que os tais princípios que os cientistas rejeitavam não significavam expressões religiosas. Eram meias-verdades que serviam de anteparo para camuflar os interesses de grupos que sustentavam um aviltante imperialismo religioso.
            Nasceu, desse conflito, o chamado materialismo.
            No Ocidente, estabeleçamos, contudo, a notável diferenciação entre Religião (aspiração inata em todas as criaturas] e religiões (grupos de cúpula que buscam o domínio cesariano sobre a nossa humanidade). Estabeleçamos, também, igual diferenciação entre Ciência (impulso inato do desenvolvimento intelectual e apropriação do meio às nossas necessidades físicas e econômicas) e cientistas (grupos que ensaiam substituir uma hegemonia disparatada por outra igualmente extremista).

            Na essência, Religião patrocina a interação da criatura com o Criador e Ciência soergue o raciocínio para abarcar o fenômeno da Vida e da Criação Divina. Só são departamentos estanques para nossa pobreza evolutiva. Ambas são complementos entre si, partes de um todo do qual resulta o Homem Espiritual. 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Posta Restante -19


Posta restante - 19
Sólon Rodrigues
Brasil Espírita- Reformador (FEB) Outubro 1973

            P. - De que modo falar de infortúnio às pessoas de grandes posses e que, no entanto, buscam um núcleo espírita para queixar-se de alguma perda material?

            R. - Aqui, também, o tato deve ser grande.
            Nem sempre os companheiros que se submetem à provação da riqueza terão condições de examinar - sem censura e repugnância - os quadros da miséria quase absoluta.
            É preciso ajuda-los , mencionando os menos ricos.
            A resignação dificilmente será por eles acolhida, se consagram a vitória material como a láurea mais desejável.
            Justo, pois, descobrir as virtudes mais inteligíveis para eles e ajudá-los a interessar-se por conquistá-las, sem pretender que se abracem a rasgos de altruísmo, -profunda e dignificante resignação, caridade ampla.
            A vida, para eles, poderá ser apenas a existência.
            Moral é relativa e grandes virtudes só para grandes almas.

            P. - Se o espírito for procurado para orientar a instalação do Culto do Evangelho num lar espírita, sabendo que os interessados querem apenas benefícios materiais, deverá atender?

            R. - Se querem o Culto do Evangelho, auxiliemos sim.  
            Talvez os Mentores Espirituais daquela família encontrassem, num desejo material, o único canal para que acolhessem os benefícios espirituais.
            Quem se assegurará de que eles, mais tarde, não amadureçam para a indução espiritual do Evangelho, embora se iniciem pelo interesse pragmático?
            A dor também é manifestação quase material: E por ela, quase sempre, somos conduzidos aos braços do Senhor Jesus, na busca de um bálsamo que nos reconforte e, finalmente, com ele ,encontramos o Caminho e a Vida.


            P. - O passe, se aplicado às famílias pobres não espíritas, poderá beneficiá-las?

            R. - Não existe um fluido para ricos e outro para pobres.

            Somente a nossa tola presunção de confundir um estado meramente transitório, fruto de provação ou expiação, com degrau de fé ou de maturação espiritual, nos levará a não distribuir com os menos favorecidos da fortuna ,a terapêutica virtual do passe.
            Já Tiago, na sua epístola, 2:2 a 4, diz:

             "Se, portanto, entrar no seu núcleo de fé algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e Você tratar com deferência ao que tem os trajes de luxo ,e lhe disser:
            - Sente-se aqui em lugar de honra...
            E se Você disser ao pobre:
            - Você se sente abaixo do estrado de meus pés ou fique em pé ali...
            Não terá feito Você distinção entre os mesmos e não se terá tornado Você um juiz tomado de perversos pensamentos?"

            Não há razão para dúvidas.
            Todos somos carentes de amor.
            Se o pobre ou o rico não espírita desejam os benefícios dos passes, apliquemo-los sem questionar se se beneficiarão ou não, se terão fé ou não.
            Sirva e passe...


Posta Restante - 22


Posta Restante - 22
por Sólon Rodrigues
Reformador (FEB) Fevereiro 1974

            P. -Em alguns grupos mediúnicos, noto que o orientador se faz por identificar com um padre, pastor protestante ou freira. É possível,essa súbita transformação religiosa?

            R. -Guardando imenso respeito pelos que passaram uma existência terrestre na posição de orientadores religiosos ou pastores de almas, valeria lembrar que a desencarnação não produz mudanças súbitas em nenhum de nós.
            Se eles se dedicaram ao campo religioso sinceramente, não por profissionalismo, é possível que, vencido algum tempo, venham a abandonar seus hábitos, apresentando-se como obreiros na seara do Senhor.
            Ocorre, também, e frequentemente, que estamos tão aprisionados aos convencionalismos dos títulos profissionais que, amiúde, rendemo-nos mais ao titulo que ao conteúdo das criaturas.

            P. -Todos os Espíritos desencarnados conhecem a Doutrina Espírita e, em consequência, são espíritas?

            R. - Oh! Não! Religião, antes de mero domínio das noções doutrinárias, é um estágio do senso moral da criatura: Legiões de almas prosseguem no Além, sustentando as mesmas convicções de ontem,embora ligeiramente modificadas. A libertação de dogmas, rituais e hierarquias; a tomada da rédea do destino em nossas próprias mãos; a noção de um Jesus eterno-presente, atuante, despojado da cruz e das interpretações mágicas - que o Espiritismo nos transmite nem sempre podem ser alcançadas por todos.
            A verdade que nos faz livres nem sempre é abarcada.
            Poucos são os Espíritos que são espíritas, se estatisticamente comparados com o imenso grupo de almas ligadas às atividades da Terra.

            P. -Tem os Espíritos a necessidade de apresentar-se sempre com as características da última encarnação?
            R. - Salvo nas ocasiões em que a identificação servirá para auxiliar alguém a alforriar-se de enganos, os Espíritos Superiores jamais tem tal preocupação. Se estiverem unidos ao trabalho de Jesus, sabem que a atividade é impessoal, é do Cristo e não de qualquer um de nós. Estão eles, ao mesmo tempo, libertos da nossa vaidade de querer ligar o nosso nome à nossa obra.
            Há um outro fator importante, no caso. Se tiver de guardar as características de sua última reencarnação, o Espírito se verá coagido a repetir-se nas preferências, nos hábitos, no seu estilo de vida. No entanto, ele já se libertou de tudo isso.
            Exemplos? A partir da própria Codificação: Quais eram os Espíritos que formavam esse todo impessoal a que chamamos Espírito da Verdade?
            E o público rompimento de Humberto de Campos com seu estilo literário e seus “lugares comuns" de literato, quando pode transformar-se no Irmão X?
            E quem é André Luiz, esse magnífico orientador?
            E Hilário Silva?
            Que diríamos de um Emmanuel que, embora já se tenha revelado um ex-Públio Lentulus, um ex-escravo, um ex-sacerdote, é esse nome sem origem terrena: Emmanuel?


Posta Restante - 18


Posta Restante - 18
por Sólon Rodrigues
Reformador (FEB)  Setembro 1973

            P. - A Doutrina Espírita é favorável ao ensino da conduta sexual mas escolas?

            R. - Sem que se deixe atrair pelas inovações aparentes, a Doutrina Espírita
reconhece que a conduta sexual da criatura é parte da sua educação espiritual. Cada um tem, em decorrência de seu degrau evolutivo, um conceito sobre sexo. Seria profundamente danoso para as lutas evolutivas de muitos, se se centralizasse o homem em torno da libido, na ênfase que lhe emprestou Freud. Além disso, alguém que fosse transmitir noções de sexo para alunos, deveria guardar superior elevação espiritual, a fim de que não se emaranhasse em cipoal que induz a quedas.
            O sexo, como conduta, é privativo da educação familiar.

            As energias genésicas são origem da Vida, no mais alto sentido. E estamos longe ainda de abarcá-las na sua significação, para a economia evolutiva. Assim, endossarmos informações ligeiras, não raro levianas, seria aceitarmos um desvio de consequências  imprevisíveis. 

Posta Restante - 17


Posta Restante - 17
por Sólon Rodrigues
Reformador (FEB)  Março 1973

            P. -Num curso de pré-natal para gestantes pobres será conveniente falar de Espiritismo?

            R. -Se os encontros são na área espírita, nada mais justo.
            A Lei da Reencarnação, como informação preciosa que se transmita sem o propósito de transformar as ouvintes em espíritas, é fonte sublime de consolação.
            Aplicá-la sempre, na elucidação de questões difíceis e íntimas, é maneira justa e indeclinável, fazendo-nos compreender que um renascimento é sempre um programa do Alto a beneficio nosso.

            P. - E que se poderia dizer, se fossem noções de higiene, também  para famílias
pobres?

            R. - Se versarmos sobre a higiene corporal, auxiliando alguém a sustentar a saúde física, justíssimo que falemos sobre a higiene espiritual através da prece, do passe, da conversação nobre e sadia, da desobsessão pela leitura e vivência do Evangelho.
            Ocupemo-nos da alma, sempre.
            Deficiente conhecimento da Doutrina Espírita revelamos quando não sabemos
conjugar o amparo físico com o espiritual, chegando, por vezes, a dar total e absoluto
destaque apenas aos aspectos corporais em nosso atendimento aos que sofrem.
            A caridade moral - dar de si mesmo, espiritualmente, para os outros - poderá
ser amplamente aplicada nesses momentos de orientação aludidos.

            P. -Para as famílias menos favorecidas, como faiar sobre a mendicância?

            R. - Jesus, no seu Evangelho de Amor, jamais foi visto a revolver chagas alheias,
fossem físicas, fossem espirituais. Longe de deter-se a analisar o Mal, empenhou-se em corporificar o Bem.
            É preciso muito tato, a fim de não ferir, tentando ajudar.
            Recolher palavras azedas, apodando nossas deficiências conscientes ou inconscientes, revolta o nosso interior, salvo se fôssemos Espíritos de superior elevação.
            Destaquemos, sem magoar, a beleza do trabalho, a divina presença de Deus no curso de todas as tarefas, a importância de empenharmos na movimentação das mãos e das pernas na execução de obras as mais diversas.
            Convidemos para pequenas tarefas, sem condenar.
            Examinemos se o mendigo não é um enfermo.
            Entreguemos a tais irmãos de caminhada os benefícios do passe, da prece, do Evangelho, a fim de que se dignifiquem diante dos homens e à vista de sua própria
consciência.


Posta Restante - 16

Posta Restante - 16
por Sólon Rodrigues
Reformador (FEB)  Fevereiro 1973


            Há indagações que, por sua natureza, levam a outras. E há respostas que, inevitavelmente motivam outras questões.
            Resta-nos convidá-los à leitura.

             P. - Por que entre casais, inclusive os que se acham há longos anos consorciados,  estão ocorrendo tantos desquites, conflitos, aventuras amorosas?

            R. - Grande parcela das criaturas faz do sensualismo a manifestação da própria
vida. A busca do prazer, não raro, sufoca impulsos nobres.
            Muita separação é ditada pela fome de sensações grosseiras.
            Se bem a Doutrina Espírita aceite o divórcio por remédio extremo, não nos é
lícito fazer vistas grossas ao fato de que, repetidamente, um casamento é solapado
pela insatisfação dos sentidos. A sede de paixões abrasa a criatura.

            P. - Que conviria aos casais, então?

            R. - A reeducação religiosa. Incorporar princípios elevados, regeneradores,  para que se suportem mutuamente, evitando fazer concessões aos impulsos para aventuras afetivas. Mais que se suportarem a contragosto: descobrirem, no Evangelho, a área da compreensão, tornando-se caridosos um para com o outro.
            Se  nos condicionamos à poligamia, por uma falsa interpretação de liberdade, toca-nos, agora, a correção de tais impulsos irrefletidos. A deseducação de nossos sentimentos precisa de ser dissipada.

            P. - Se ocorrer a separação, justifica-se um novo lar?

            R. - Toda relação afetiva cria liames. Em certas ocasiões, um companheiro para a viagem reencarnatória, após a separação do casal, poderá inscrever-se  como socorro. Sabe-se, contudo, que serão outros e novos compromissos, somados aos de que não se libertou pela distância física.
            Valerá ponderar muito, antes de agravar mais.

            P. - O divórcio, mais que o desquite, não criaria melhores condições sociais para esse novo lar?
            R. - O casamento não é indissolúvel. Só o é diante de algumas leis humanas. O divórcio permitiria legalizar o novo contrato matrimonial, dando-lhe a cobertura legal que muitos requerem para suas experiências de relacionamento afetivo e consolidação da família.
            As condições de um lar, porém, não se subordinam à legislação humana. Por perfeitos fossem nossos códigos, não substituiriam jamais a necessidade de conduta
equilibrada.
            Nosso problema sempre será o de educação.
            Se, diante dos homens, o divórcio traria melhores condições, diante da Espiritualidade somente a conduta evangélica nobilita a criatura, diante da própria consciência.

            P. - Se sobrevier a desencarnação dum dos cônjuges, logo após a separação,
como ele encarará o lar desfeito e o companheiro que tomou distância?

            R. - Frequentemente permanece imantado ao que ficou e tanto mais quanto
menos desejou tal separação.
            Num casamento, envolvem-se pais, irmãos, parentes e até amigos. Numa separação, todo esse quadro, que se aproximou ou se estabeleceu por  fruto da união esponsalícia, igualmente é agitado, tumultuado por vezes.
            Nada é simples, salvo para o juízo dos egoístas.
            Em função desse complexo humano, o Espírito que dali partiu materialmente permanece aprisionado aos valores que elegeu como os mais importantes.
            E não estamos falando de um sentimento de rancor.
            "Onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração."
            A máxima do Evangelho encontra ampla aplicação.
            Observemos, simultaneamente, que a lei humana não modifica o quadro espiritual da criatura. Embora possa trazer-lhe uma sensação de "honestidade convencional”, por agir dentro de princípios aceitos pela maioria, tal fato não altera a essência íntima de ninguém.
            O resgate de dívidas de amor é compulsório.
            Se ocorrer uma desencarnação prematura, oriunda do desajuste emotivo provocado pela separação, o débito espiritual aumentará e em muito. Somos responsáveis, queiramos ou não, pelas imagens mentais que a nossa conduta precipitar no companheiro de romagem.

            P. -Quando ambos estiverem na Espiritualidade, considerando-se que se acusem mutuamente pela separação, como ficariam para as próximas reencarnações, se são devedores um para com o outro? 

            R. -Sempre é hora de mudar o destino.
            Se se conservarem algemados, através do ódio e da retaliação mútua, poderão
atingir o porto reencarnatório na posição de irmãos. Serão parentes problemas, enquanto dilatarem o rancor em qualquer posição em que se encontrem.
            Poderão, no entanto, retomar como cônjuges.
            No caso terão, após vencida a fase de paixão que lhes caracterizará  namoro e noivado, dificuldades crescentes de relacionamento. Da mesma forma que um afeto pode ser inato, e inata foi a atração que os reuniu de novo, a antipatia poderá explodir entre ambos por razões aparentemente injustificáveis.
            Porém, ocorrem também desníveis espirituais.
            Um dos dois, antes do renascimento, poderá redimir-se.
            Tomemos, para exemplo, que nesse casal, cujo conflito se transferiu do cenário humano para o espiritual, a mulher venha a sublimar seus sentimentos.
            Ela poderá reencarnar e receber o o antigo desafeto por filho.
            Tudo, enfim, se subordina à vontade dos beligerantes.
            As nossas decisões firmes alteram o destino.

            P. - Diante do quadro atual de separações, conflitos, malícia ou inconsequência  de adultos e jovens, poderão ocorrer muitos processos reencarnatórios sob modalidades anormais?
            R. - Se contraímos débitos, ferindo o nosso semelhante, deveremos resgatá-los
até o último centavo.
            Não que a Providência imponha o resgate.
            A nossa própria consciência por isso clamará.
            À proporção que nos violentarmos, o inesgotável amor de nossos Superiores Espirituais se manifesta, abrindo-nos  portas de recomposição.
            Na Terra, ou noutro plano do Universo - preferentemente, porém; no panorama que perturbamos , poderemos chegar na posição de monstros teratológicos ou sendo portadores de anomalias as mais diversas.
            Quem com ferro fere... - é princípio de ação e reação.
            Sempre que destruirmos ou ferirmos a harmonia das células perispirituais, por guardar a mente nas vibrações corrosivas do rancor, do ódio, do egoísmo, do sensualismo, receberemos um programa de recomposição consequente. Isso equivale a dizer que voltaremos alienados, se nos alienamos.
            Quem semeia, colhe.
            O amor em que se move a Justiça Divina, no entanto, oferecer-nos-á o esquecimento do passado por bênção e o reencontro com quem ferimos como oportunidade de resgate.

            P. - Diante desse quadro, ocorrerá que Espíritos elevados reencarnem para
auxiliar a recomposição de nosso campo afetivo?

            R. - Com bastante frequência o doente é quem precisa de remédio.
            Se fôssemos relegados a viver somente entre os que nos são semelhantes em virtude e defeitos, jamais escaparíamos dum círculo vicioso. Os bons Espíritos são aqueles irmãos mais experientes. Podem e ajudam-nos. Alentando-nos pacientemente e suportando-nos em nome da caridade, eles nos soerguem na direção do Senhor Jesus.


Posta Restante - 15


Posta Restante - 15
por Sólon Rodrigues
Reformador (FEB)  Janeiro 1973

            P. - Poderá um Espírito desajustado reencarnar no seio de uma família cujos
componentes sejam almas equilibradas?

            R. - Essa ocorrência é, até certo ponto, uma necessidade: Um lar espiritualmente equilibrado é uma espécie de sanatório para as almas em grandes débitos. A Providência Divina, em permitindo esse tipo de vivência, oferece-nos oportunidade imensurável  para a a regeneração, já que teremos exemplos vivos do Bem à nossa frente.

            P. - Se o desajustado, porém, persistir nos seus delírios, fazendo-se surdo a todos os meios de reequilíbrio, não espalhará perturbação nesse grupo?

            R. - Caberá, aos que já adquiriram virtudes, superar todas as tentativas de subversão moral. A virtude,  é ponto pacífico em Doutrina, há de manifestar-se nos panoramas do mal, à semelhança de um sol que remova o charco  com seus raios benfazejos.
            Não há mérito de ser bom somente com os bons.
            A têmpera do aço comprova-se no teste ou no uso.  
            Impelida a exercitar suas qualidades íntimas, a criatura só se beneficia. lnterioriza  profundamente o Bem, à medida que é solicitada a conduzir-se nas pautas do Evangelho.

            P. - Se o desajustado abandonar a família, buscando seus antigos caminhos e, em decorrência, vier a desencarnar por alguma forma violenta, seja suicídio, seja num drama passional, poderá voltar a ter contatos, em Espírito, com a família que rejeitou?

            R.  - A desencarnação violenta é sempre uma surpresa ao Espírito desavisado.
Examinando-se vivo, após se desenfaixar do corpo físico, poderá buscar a família, na
posição da criança que se sente aturdida diante das consequências de seus próprios
atos.
            No seu desvario elegerá a família por refúgio.
            No ninho doméstico, buscará a orientação que rejeitara.
            A expiação de seus enganos começa, então, nessa frustração de não poder ouvir, com facilidade, o que não desejou ouvir quando se encontrava no estojo da carne.
            Entre outras, as famílias cristãs terão, aí, uma das razões para sustentar o Culto
do Evangelho no lar. Os componentes que já retornaram ao mundo espírita poderão
recolher consolo e resposta para as suas angústias, nesse contato com o Verbo Divino.

            P. - Mas, no estado em que se encontram, não poderá, ou por despeito ou por  inconsciência influenciar alguns elementos bons dessa família, desvirtuando lhes os
pensamentos?

            R.  - Influenciar até poderá, até como simples fruto de seu desespero. A semelhança de alguém que se afoga num lago, poderá enlaçar o seu eventual socorrista. É a influenciação oculta dos Espíritos. Valerá, contudo, relembrar Jesus, na sua Boa Nova, quando nos alertou: Orai e vigiai. 
            Não que busquemos uma posição de defesa ou de repulsão em relação aos companheiros confundidos pela dor e pelo desencanto. Precisamos, no entanto, nutrir-nos de bom ânimo para não ceder às nossas próprias fraquezas íntimas.  
            Um Espírito - apesar de querer determinar-nos atos ou pensamentos infelizes  -nunca irá além daquilo que realmente somos.
            O virtuoso é surdo às sugestões do mal.

            P. - E se o familiar não estiver atento?

            R. - Poderá ajustar-se à faixa do menos feliz.

            P. - Se isso acontecer e a família, por questão de visão menor ou de tradição
religiosa, não aceitar o retorno ao Evangelho, que ocorrerá? O influenciado poderá cair no desequilíbrio?

            R. - Isso ocorre com maior frequência do que supomos.

            Sempre estamos sujeitos a sofrer violências emocionais.
            Se não nos contivermos diante das desencarnações violentas de familiares queridos, poderemos ser o eco de suas angústias.
            A não aceitação do Evangelho., como eugenia espiritual no cotidiano, abre-nos
uma outra opção: o caminho da dor, para que encontremos a disciplina da emotividade.
            O sofrimento é sempre uma das respostas da Vida.

            P.  - Por quanto tempo o desajustado, na espiritualidade, permanecerá nesse estado?

            R. - Enquanto com ele se comprazer.

            P. - Se houver alguém que a ele se uniu pelos laços puros da afetividade e pedir em seu favor, através de orações, poderá beneficiar-se?

            R. - Não só ele como toda a família será favorecida. Se um Espírito desajustado pode temporariamente desequilibrar alguém, em contraposição um Espírito bondoso inevitavelmente patrocina o reajuste.
            O mal pode ou não fazer-se presente.
            O Bem, contudo, é inevitável.
            É o grande determinismo, aguardando o tempo.
            Felizes, portanto, os que puderem cultivar amizades, sem bajulação e sem falsidades, despertando afetos, a ponto de se fazerem amados. E felizes os que amam. Esse amor, na expressão evangélica de Pedro, “cobrirá a multidão dos pecados”.



Posta Restante - 14a

Posta Restante - 14a
por Sólon Rodrigues
Reformador (FEB)  Dezembro 1972

            P. - Em duas ocasiões diferentes, presenciei um companheiro da mediunidade
ser procurado para oferecer resposta a um mesmo assunto. Foram propostos dois
extremos, para a mesma questão. Um propunha a criação de uma faculdade de Direito pelo seu grupo espírita, em nome do Espiritismo. O outro, na oportunidade seguinte, falava do fechamento de uma faculdade, para que se voltassem mais intensamente às atividades doutrinárias.
            Nos dois casos, o médium concordou, sem ressalvas claras. Ora, não seria mais justo definir-se?

            R. - Criamos um hábito, até certo ponto decorrente do temor de assumir responsabilidades diretas, de buscar a opinião de médiuns (não apenas dos Espíritas
para todos as programas  que idealizamos como movimento espírita.
            É procura de endosso em dívida pessoal.
            Não é condenável que assim se faça.
            Deveremos consultar-nos  mutualmente para errar menos.
            Caberá, contudo, ouvir o companheiro na posição de quem recolhe uma opinião pessoal, não definitiva ou necessariamente doutrinária. Valerá, e sempre, cotejar essa opinião com a vasta bibliografia espírita, para distinguir as convergências, os acertos, para separar tudo o que seja sistema pessoal.
            O médium é um obreiro, não um oráculo.
            Já estudamos diretamente o tema.
            A atitude ambígua do médium - quando examinamos a questão - fundamentava-se no seguinte: As questões propostas não vinham como diálogo, como busca do  certo, mas sim como programa definitivo. Embora pudessem ser aberrações, de nada valeria reiutá-Ia«. O interessado poderia sentir-se melindrado, tomando distância, isolando-se. Criaria barreira para posteriores reajustes. Se do plano proposto passasse para a sua realização, a própria Vida se incumbiria de amadurecê-lo. Mais tarde, se se sentisse decepcionado com os resultados, aprenderia, a duras penas, que em todas as questões doutrinárias vale sempre considerar a base, a Codificação, sem se deter em vírgulas para justificar-se e sem se confiar a eventuais opiniões.
            Única ressalva: que se mantivesse aceso o núcleo espírita.
            Jesus desencorajou Judas.
            Sabia que seu impulso era irrefreável.
            Confiou, pois, em que o companheiro confundido cairia em si, despertando no
pesadelo de seus enganos somente depois de executar seus propósitos.
            Conviria argumentar que todo estabelecimento de ensino, quando se oficializa
tem de ajustar-se aos programas vigentes? Ora, isso é elementar... Valeria ponderar que tal ajustamento anula quaisquer tentativas de transmitir Doutrina Espírita a alunos não espíritas? Seria cair na redundância, que todos sabem disso... Seria oportuno destacar que o Espiritismo não é segregacionista, não é reedição dos anacoretas? Tolice, que isso se repete a cada página da Doutrina... E se se ,dissesse que não deveríamos ser tão vaidosos, aponto de querer ,desconsiderar a obra alheia invadindo áreas estranhas aos nossos objetivos? Não, não seria justo, por ferir suscetibilidades... Ou, então, seria hora de
encarecer que quando um Eurípedes Barsanulfo fundou um colégio, em Sacramento,
fê-lo para suprir uma lacuna, num recanto onde era mínimo o recurso de instrução, e que, tão logo os poderes públicos supram a deficiência, cessa a necessidade das medidas de auxílio precário nesse campo? Mas isso sempre foi considerado...

            Quem busca endosso não se conforma com um: não!

            No caso - embora aparentemente haja uma contradição -é preciso deixar o interessado na posse de sua verdade, com a impressão íntima de tarefa ou missão no
meio espírita, confiando em que as desilusões se destroem por si mesmas.
            O joio nasce na raiz do trigo,  com todas as aparências do próprio trigo - alerta o Evangelho.
            Arrancar o joio, com violência, põe a perder a parte sadia da cultura. É -preciso
deixar para a época da colheita, para que o Grande Ceifeiro, Jesus, aproveite um para a mó e o outra para o fogo.
            Repetimos: médiuns não são oráculos.