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domingo, 30 de agosto de 2015

Candeias na noite escura


             Venho dum tempo em que doces babás culturalmente despreparadas mas espiritualmente graduadas nas divinas universidades do amor fraterno, nos contavam histórias - ainda eram histórias e não estórias - singelas, nas quais o bem recebia sempre o seu prêmio e o mal o seu castigo. Em muitas dessas histórias, os heróis anônimos se perdiam pelos caminhos e a noite chegava cheia de terrores, mas tudo acabava bem quando, a distância, o viajante perdido descobria na escuridão um tímido ponto de luz em torno do qual viviam aqueles que o socorreriam. 

            Buscamos todos a luz. Mais que uma realidade energética no campo da física, a luz é o símbolo multimilenar do desenvolvimento espiritual. Dela dependemos para ver o mundo que nos cerca e o caminho que pisamos. Em espírito, buscamos as vibrações superiores do amor - esse grande gerador de luzes fascinantes. E, a medida em que a luz se realiza em nós, desaparecem as sombras que nos envolvem e se iluminam não apenas as nossas veredas, mas também os caminhos dos que seguem ao nosso lado. Ainda que o desejássemos, não poderíamos guardá-la somente para nós, egoisticamente: ela se irradia por onde andamos e alcança os outros. Tudo no universo é solidário, porque vivemos e nos movemos em Deus, como dizia Paulo.

            "Ninguém acende a luz e a coloca debaixo do alqueire" (1), ensinava o Mestre. Quanta sabedoria profunda e intemporal nos seus mais singelos pronunciamentos! Que maravilhoso poder de comunicação na sua capacidade de traduzir em imagens tão nítidas o pensamento mais transcendental..

             (1) Alqueire: antiga medida portuguesa de capacidade variável, equivalente, em Lisboa a 13,8 litros.

            Vejo ainda, com os olhos da saudade, a lamparina humilde da fazenda colocada no lugar mais alto para que todos a vissem e nunca debaixo do alqueire. Pelas paredes dançavam sombras grotescas, mas nenhuma das sombras chegava perto da luz.

            Lembro disso agora, ao verificar que, mesmo a nossa luzinha humílima de principiantes, quanta gente atrai! São os que vêm buscar consolo, principalmente. Os que "perderam" entes queridos, os que sofrem provações incompreensíveis, os que se consomem no remorso. Mas vem também os que, sem grandes dores, desejam compreender melhor a vida; que não tem remorsos, mas estão vazios de esperança. Quase todos, senão todos, atrasaram-se pelos caminhos e a noite chegou e se fechou sobre eles. De repente, encontram aqueles que, sem muito brilho, dispõem, no entanto, de uma candeia modesta. São estes os que se iniciaram nas primeiras tarefas do amor, são os que, tendo ainda tão pouco, possuem já o suficiente para dar, têm em si bastante amor para distribuir em nome do Cristo.

            É certo que neste crepúsculo dos tempos muitos continuarão extraviados por largo espaço e, infelizmente, não está em nosso poder sacudi-los de sua inconsciência, mas estamos igualmente certos de que não ficarão abandonados à própria sorte, porque Deus vela por todos nós indistintamente. Também a chuva e o sol caem sobre o justo e o pecador, sobre a boa semente e a outra. Que orem por eles os que aprenderam a conversar com Deus, mas aqueles que disponham de uma pequena chama espiritual, ainda que humilde, que cuidem de colocar a candeia sobre o alqueire e não debaixo dele. Não para exibir conhecimentos e alardear virtudes que ainda não temos, mas quem sabe se lá ao longe, na escuridão da noite que nos envolve, algum irmão extraviado não vai enxergar a luzinha e chegar-se exausto e faminto, pedindo pousada, ajuda e carinho. Isso mesmo, daremos na medida das nossas forças e limitações, porque é bom repartir o pouco que temos, "para que a felicidade se multiplique entre nós" como diz Agar na sua linda prece. A felicidade aumenta quando repartida, ao passo que dor partilhada diminui. Vamos, pois, distribuir a nossa alegria consciente de viver em Deus. Nós sabemos o que somos - espíritos imortais, temporariamente encarcerados num corpo físico. Sabemos de onde viemos - de um longo rosário de vidas que aprofundam suas raízes na escuridão de remotas idades. Sabemos para onde vamos - para os mundos cada vez mais perfeitos que luzem adiante de nós, nas muitas moradas do nosso Pai.

            A mensagem que temos a transmitir é, pois, extremamente simples e fácil de entender. Para muitos é ainda difícil aceitá-la, porque se habituaram demais à opressiva aridez da descrença; lembremo-nos, entretanto, daqueles mais desgraçados para os quais não é apenas difícil aceitar a realidade do espírito, mas ainda é impossível.

            Que brilhe, então, a nossa luz humilde, alimentada pelo combustível do conhecimento e da caridade que começa a arder em nós. A hora é de dores, muitas e grandes; de desorientação e desespero; de ódios e crueldades. Hora de ajustes aflitivos e desenganos dolorosos. Mas é também uma hora de revelações maravilhosas, de descobertas memoráveis, de conquistas deslumbrantes, de oportunidades raras se, com muito amor e humildade, procurarmos em nosso próprio território íntimo o rastro luminoso que o Mestre de todos nós deixou em nós. Há séculos que ouvimos a sua palavra, repetida insistentemente. Há séculos que muitos de nós a pregamos à nossa maneira, obscurecida pelas paixões e incompreensões que nos toldam a visão. É chegado o tempo de fazê-la florescer e frutificar. É assim, muito bela a tarefa que temos diante de nós, os que começamos a soletrar o beabá do conhecimento espiritual: incumbe-nos a responsabilidade e a alegria de transmiti-lo, proclamando aos quatro cantos da Terra que somos espíritos sobreviventes a caminho de Deus. E que, por estranho que pareça, Deus está também em nós. "Vós sois deuses!", dizia Jesus. Que brilhe a nossa candeiazinha humilde que não ilumina mais que uns poucos palmos à volta. Há irmãos tão desesperados que anseiam até mesmo por essas migalhas de luz.

            Um dia seremos um clarão de amor fraterno, tal como nos quer o Príncipe da Paz.

Candeias na Noite Escura
João Marcus (Hermínio Miranda)

Reformador (FEB) Agosto 1971    

sábado, 29 de agosto de 2015

Pureza Doutrinária

          Esforçarmo-nos por manter a pureza da Doutrina Espírita, nos dias atuais, não é empreendimento secundário, é essencial. O Espiritismo, na qualidade de Consolador
Prometido e de doutrina emanada das fontes espirituais, não pode vacilar e deixar-se macular pelas sombras do mundo - principalmente o mundo de hoje - sob pena de ter o mesmo destino do Cristianismo que, fugindo da simplicidade e da humildade do Cristo, materializou-se e decaiu.

            Aqui, neste simples roteiro de conversação fraterna, não podemos entrar em detalhes acerca dos perigos sutis que ameaçam o Espiritismo, na hora em que os homens mais necessitam dele. Nem nos desejamos tornar juízes absolutos das atividades desenvolvidas por alguns irmãos, com muita boa fé, mas que, segundo podemos entender da própria Doutrina, apresentam alguns perigos. Queremos, sim, dar a nossa participação, procurando colaborar com o trabalho que a Federação Espírita Brasileira vem intensificando e que acreditamos e entendemos seja o brado de lsmael - que sempre orientou a Casa-Máter, a fim de que não nos desviemos da nossa missão no Brasil e no mundo. Se alguém não concordar com o que aqui tratamos - e é este também o pensamento da Federação Espírita do Rio Grande do Norte, onde nos orientamos e desenvolvemos o nosso humilde labor - saiba que nada temos a opor a essa atitude. A Doutrina Espírita é uma doutrina de liberdade e livre exame e cada um é livre para opinar contrariamente. Divergir, porém, não implica dissentir, desunir, perseguir, espezinhar. Porque, se assim agirmos, estaremos demonstrando o desejo egoístico de calar o próximo para que o nosso pensamento domine os irmãos. E, se não somos capazes ainda de ouvir com tolerância e de mudar diante do erro reconhecido... pobre de nós, os meio-espíritas.

I

            "O Espiritismo não comporta símbolos". Está na Codificação. Está na própria Doutrina, simples e espiritual como os ensinos que o Mestre divulgou às margens do laço e que ela vem recordar e complementar. Acostumados, contudo, à religião humana do passado, vamos introduzindo, de mansinho e ingenuamente, os simbolismos e a idolatria.

            É a sessão para agradecer a formatura, para pedir pelos novos cônjuges. Há quem vá mais longe e admita um "batizado" despretensioso, enquanto as paredes dos nossos centros vão se enfeitando de quadros com fotos dos espíritas do passado,
devidamente ornamentados com luzes e flores; enquanto realizamos os nossos cultos devocionais a espirito A ou B, ressuscitando o "culto aos santos", até com "hinos espíritas" (hino a Kardec, a Bezerra, a Scheila)...

II

            "E até os justos serão tentados". A afirmativa de Tiago de que a "fé sem obras é morta em si mesma", vista sob a influência apenas do entusiasmo, tem levado muitos de nós a lamentáveis e perigosos enganos. O dinheiro, útil em tantas ocasiões, se transforma em inimigo que nos fascina e, subjugados a ele, subvertemos os sublimes objetivos das casas espíritas, a pretexto de assistência social.

            Tiramos a denominação espírita da instituição, a fim de que não faltem verbas vultosas; introduzimos a política em nosso meio, para que não escasseiem os favores dos que estão no poder; submetemos as normas da entidade às empresas que nos amedrontam e escravizam com os seus financiamentos; e vamos profissionalizando cada vez mais as pobres obras espíritas, até que elas se transformam em monumentos da filantropia comum, onde o espírita é quem menos participa. Tudo à guisa de assistência social, de caridade. E tudo porque materializamos tanto o conceito de obra, que passamos a raciocinar em termos de tijolos e equipamentos, esquecidos de que a autêntica obra espírita-cristã é a da reforma íntima e de que o objetivo do Espiritismo é espiritualizar, renovar o homem, enquanto casas, hospitais, abrigos são meios - não indispensáveis - para se atingir o fim. A miséria humana é problema de origem espiritual.

III

            "Se tivesse havido unicamente um intérprete, por mais favorecido que fosse, o Espiritismo mal seria conhecido;" "O Espiritismo não tem nacionalidade e não parte de nenhum culto existente; nenhuma classe o impõe; classe o impõe.” "Espiritismo é bom por ser dos Espíritos.”» No entanto, a Escolástica medieval tenta ressurgir no movimento espírita (achamos, com Roque Jacintho, que o movimento deveria ser a corporificação da Doutrina no seio da humanidade, baseado ,em Kardec e obras recebidas por Chico Xavier).

            Tenta ressurgir sob a forma de cursos, institutos, universidades, sistemas, formalizações, regrinhas e mais regrinhas. Advogam-se “Escolas de Espiritismo organizadas como verdadeiras unidades de ensino superior e com todas as suas características". Ainda professores obrigatoriamente de nível universitário e remunerados, alunos com certificados de conclusão de ensino secundário ou superior, o mais absoluto rigor nas avaliações (?!!). E acrescenta-se: as Escolas de Espiritismo formarão aos poucos os seus próprios mestres, logo que possível excelente remuneração aos professores, a fim de que desempenhem suas funções a contento. E mais: programa estruturado para um curso de quatro anos que será complementado com outros de especialização ou pós-graduação, de dois ou três anos. E além disso: cursos onde se ministra Psicologia, Didática, Lógica, Português, Administração e, por último... Doutrina Espírita.

            Em qual curso de Espiritismo você se tornou espirita? A pergunta é do jornalista Luciano dos Anjos, convicto de que contra fatos não há argumentos. Quantos espíritas humildes, analfabetos, são mais espíritas do que todos nós? Ensinam mais Espiritismo do que todos os “professores” e cursos de Espiritismo, através do seu exemplo? Que curso frequentou Chico Xavier (e há 40 anos não poderia frequentar um curso espírita de nível universitário; tinha o primário incompleto)? E Bezerra, de Menezes, Sayão, Divaldo Franco, tantos?

            Não é curso regular de Espiritismo o que aconselha o capítulo III De “O Livro dos Médiuns” (leia “Cursilhos de Espiritismo”, "Reformador", outubro de 1972). (Já Blogado aqui). O aprendizado espiritual é continuo e não há regras para ele; há troca de experiências, cias, há liberdade de pesquisar, de buscar, de descobrir, a partir das próprias necessidades espirituais e proporcionalmente ao amadurecimento espiritual de cada um. “O Espiritismo anda no ar; difunde-se pela força mesma das coisas, porque torna felizes os que o professam.” Convém façamos esta perguntinha a cada companheiro do nosso Centro: que foi que o trouxe para a Doutrina Espírita?

IV

            Mas há quem justifique os cursos alegando técnicas, as técnicas educacionais da atualidade. As técnicas utilitaristas, materialistas em sua maioria - preparando o homem somente para vencer no mundo -, que já começam a fracassar no ensino leigo mesmo. Técnicas, métodos, a doutrina é evolucionista, estamos noutro século ... 

            "Examinai tudo, retende o bom", disse o apóstolo Paulo. Há técnicas - poucas -que se adaptam ao trabalho de espiritualização do homem. Há outras que se opõem. De mansinho, mas se opõem aos objetivos do Espiritismo e, sem dúvida, o envolverão, sufocando-o, materializando-o, tornando-o mais uma doutrina, mais uma filosofia, mais uma religião para os "doutos" imporem à massa. O Espiritismo é luz do Céu. Sublimemos e espiritualizemos os nossos meios. "Os meios fazem parte dos fins".

V

            Por que essas distinções? Jornalistas espíritas, médicos espíritas, universitários espíritas... Será que um pobre -pescador terá condições de se adentrar numa dessas academias, ele que só sabe pescar (materialmente falando), mas que deseja elevar-se espiritualmente?

            São as ordens religiosas que tentam sobreviver dentro do Espiritismo. A fomentação do isolacionismo e da formação de castas, as barreiras que se erguem. Mateus lidava com impostos e Pedro era pescador, contudo, eram ambos apóstolos, como João, de 19 anos de idade. (Sobre Mocidades, leia trabalho de Armando Tomaz, em que trata de programa que está sendo iniciado pela Federação Espírita do Rio Grande do Norte, após estudo e consulta à FEB; muitos espiritas de outros Estados tem o mesmo pensamento sobre o assunto).

VI

            O Espiritismo não se preocupa em fabricar prosélitos. São seus adeptos, que já amadureceram espiritualmente, o suficiente para o compreenderem. Por isso, achamos sempre perigoso nos excedermos no campo da propaganda, optando sim pela difusão.

            A propaganda é mais um apelo aos sentidos para que algo permaneça à vista de todos e seja adquirido, mesmo inconscientemente, pelos "consumidores". Será que o Espiritismo precisa ser colocado em evidência perante o mundo? Será que assim, na base do sensacionalismo, ele chegará ao entendimento das criaturas? Precisa o Espiritismo de "um lugar ao Sol", ele que é o Sol?

            A difusão, pelo contrário, visa a disseminar, transmitir, divulgar sem estardalhaço, sem ruído, para que a Doutrina penetre nos espíritos e nos corações, seja realmente compreendida, assimilada.

            Risco semelhante corremos ao nos envolvermos, ingenuamente, com os movimentos ecumênicos, na ânsia de encontrar um lugar para o Espiritismo entre as religiões, esquecidos de que ele é a Religião (leia "Ecumenismo", editorial do "Reformador" de fevereiro de 1972 (aqui no Blog!), e "A Ecclesia Suam e o Espiritismo", "Reformador", março de 1972). Fraternidade entre os homens de todas as religiões é o que deve haver ,- o espírita sabe disso. União de religiões, porém, nos parece utopia que não deve comprometer o Espiritismo que é a Religião.

            Mas temos penetrado nesses terrenos pantanosos porque "planificamos e corporificamos programas no seio da coletividade espírita, em nome do Espiritismo, dentro de nossos padrões habituais, com soluções que classificamos de pragmáticas, objetivas, realísticas, em contraposição a aspirações que consideramos utópicas, sonhadoras, subjetivas, doutro mundo". "Nosso cunho pessoal está em tudo. Somando-se a essa atitude de querer ser mais prático do que o Cristo, temos a sobrecarga de nossa vaidade."

VII

            Uma palavra final: o Pacto Áureo (união dos espíritas brasileiros) é uma das maiores conquistas dos espíritas do Brasil, a qual devemos preservar e fortalecer.

            Não implica ele (o Pacto] uniformização, É um pacto de solidariedade e tolerância. Um dar as mãos, apesar das divergências de pensamento, dentro do movimento federativo que é, segundo o Espírito Humberto de Campos, o -programa ideal para o desenvolvimento do Espiritismo no Brasil. Com base no documento de 5 de outubro de 1949, nenhuma entidade federativa estadual pode repudiar um Centro Espírita que não pense como ela, assim como a FEB em relação às Federações. Ambas, porém, tem o direito - e o dever - de orientar, de alertar quem queira acatar as suas palavras.

            Fortaleçamos o Pacto Áureo e não descuidemos de preservar a pureza da Doutrina Espírita.

            BIBLIOGRAFIA: 1 - "O Evangelho segundo o Espiritismo". 2 - "O Livro dos Médiuns". 3  "Obras Póstumas". 4 - "A Gênese". 5 - Revista "Reformador", edições de janeiro de 1973, novembro de 72, outubro de 72, julho de 72, abril de 72, agosto de 72, junho de 72, fevereiro de 72, janeiro de 72, outubro de 71, agosto de 71, maio de 71, julho de 71, março de 71, janeiro de 71, agosto de 70, novembro de 70, março de 68 e outubro de 66. 6 - Jornal "Mundo Espirita" de dezembro de 72. 7 - "RIE" (vários números). 8 - "Pontos da Escola de Médiuns" (prefácios dos tomos I, II, III e IV).

Pureza Doutrinária
Jomar José Costa Morais

Reformador (FEB) Abril 1973

Aprendizes de feiticeiro


            Jesus, quando chegou, precisou desmanchar um cipoal de aderências  incrustadas na Revelação. Se Moisés e os profetas tiveram que lhe adicionar regras de caráter utilitário, visando a disciplinação da turba indócil, os que tomaram de assalto o Reino dos Céus esmeraram-se em lhes dar uma eficácia preponderante, que os fez trocar os bens eternos pelos efêmeros da Terra. As tradições se haviam amontoado e dominaram de tal forma que soterraram a limpidez da primeira mensagem. Em consequência, o Mestre se viu obrigado a aquietar os corações sinceros, afiançando que havia vindo não para destruir a Lei, mas para dar-lhe cumprimento. Nada obstante, vítima da incompreensão, foi levado ao martírio.

            Mas, a força de sua vontade desenterrou a mensagem divina e a fez retomar o seu caminho pelo mundo. Os homens, porém, avezados à contumácia de colaboradores intrometidos, restabeleceram em torno e em cima da segunda mensagem já não um cipoal mas, desta vez, uma verdadeira superestrutura de construções rebuscadas, fruto de sua cerebração rasteira e inchada da pretensão de corrigir os “erros” e suprir as “lacunas” do texto inspirado pelo alto. Passaram a difundir não a palavra singela e luminosa do Céu, e sim os subprodutos  de seus apetites terrenos.

            O Mestre, profundo conhecedor do farisaísmo impenitente, prevendo o desenrolar dos acontecimentos, preanunciou a chegada do Paracleto, com a tarefa de desbravar, novamente, a selva de ervas daninhas renascidas. Este chegou e teve de repetir a afirmação de que não veio destruir a Lei, antes cumpri-la. E só não aconteceu um novo Gólgota porque a Ideia não se mata.

            Pela segunda vez, a força da verdade desenterrou a mensagem divina e trouxe-a de novo à luz do dia. Mas, com isso, foi retomado, pelo velho farisaísmo, que sabe usar de mil disfarces, o sestro incoercível de predomínio, desta vez sob a justificativa de “aperfeiçoar” a obra, buscando enxerta-la com as filigranas das presunções humanas, prontas a suprirem as “insuficiências” agora supostamente atribuídas à “superação” da mensagem restauradora.

            O que se tem pretendido é desfigurar o Espiritismo, acoplando lhe uma série de inovações, modismos, superstições e formalismos que ameaçam conspurcar sua natureza primitiva. Em todos os aspectos do seu desenvolvimento atual, a mensagem do Espírito da Verdade vem sendo maleficiada pela investida consciente e inconsciente dos que só entendem movimento religioso em termos de igreja e métodos mundanos. São os novos programadores da era tecnológica, eternos “aprendizes de feiticeiro”, convencidos de que já sabem tanto quanto o mestre e, por isso, açodadamente, se metem a fazer as mágicas... Além de não saberem desfazer o encantamento, vão escondendo a própria imperícia numa cortina de fumaça que ameaça empanar o brilho da mensagem renovada. Se fosse verdadeira a afirmativa de que “a história se repete”, seria o caso de prever, desde já, o reaparecimento oportuno de um outro desbravador.

            Os olhos embaçados do mundo, não distinguindo as verdades que rutilam um pouco além, continuam a reclamar demonstrações renovadoras de cunho espetaculoso, à feição daqueles que, para crerem, cobraram do Mestre descesse ele da cruz, como passe de mágica insuperável.

Aprendizes de feiticeiro
Editorial

Reformador (FEB) Novembro 1972

A base da pureza doutrinária


           A observância dos princípios da Doutrina dos Espíritos é garantia segura para que alguém possa aferir da sua condição moral em relação ao Cristo de Deus. Quanto mais fiel, mais perto do Mestre, evidentemente. A nossa Doutrina não foi de concepção puramente humana, nem revelada a um só homem.

            "Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por mais rápido caminho e mais autêntico. Incumbiu, pois, os Espíritos de levá-la de um polo a outro, manifestando-se, por toda parte, sem conferir a ninguém o privilégio de lhes ouvir a palavra. Um homem pode ser ludibriado, pode enganar-se a si mesmo; já não será assim, quando milhões de criaturas veem e ouvem a mesma coisa. Constitui isto sim a garantia para cada um e para todos. Ao demais, pode fazer-se que desapareça um homem; mas não se pode fazer que desapareçam as coletividades; podem queimar-se os livros, mas não se podem queimar os Espíritos. Ora, queimassem a todos os livros, e a fonte da doutrina não deixaria de conservar-se  inexaurível, pela razão mesma de ela não estar na Terra, de surgir em todos os lugares e de poderem todos eles dessedentar-se nela. Faltem os homens para difundi-la: haverá sempre  os Espíritos, cuja atuação a todos atinge e aos quais ninguém pode atingir.

            “São, pois, os próprios Espíritos que fazem  a propaganda, com o auxílio dos  inúmeros médiuns que, também eles, os Espíritos, vão suscitando de todos os lados. Se tivesse havido unicamente um intérprete,  por mais favorecido que fosse, o Espiritismo mal seria conhecido. Qualquer que fosse a classe a que pertencesse, tal intérprete houvera sido objeto das prevenções de muita gente e nem todas as nações o teriam aceitado, ao passo que os Espíritos se comunicam, em todos os pontos da Terra, a todo os povos, a, todas as seitas, a todos os partidos todos os aceitam. O Espiritismo não tem nacionalidade e não parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo. Cumpre seja assim, para que ele possa conduzir todos os homens à fraternidade. Se não se mantivessem em terreno neutro, alimentaria as dissensões, em vez de apaziguá-las.

            "Nessa universalidade dos Espíritos reside a força do Espiritismo e, também, a causa de sua tão rápida propagação. Enquanto que a palavra de um só homem, mesmo com o concurso da imprensa, levaria séculos para chegar ao conhecimento de todos, milhares de vozes se fazem sentir simultaneamente em todo os recanto do planeta, proclamando os mesmos princípios e transmitindo-os aos mais ignorantes, como aos mais doutos, a fim de que não haja deserdados. É uma verdade, ,não teme o malquerer dos homens, nem as revoluções morais, nem, as subversões físicas do globo, porque nada disso pode atingir o Espírito.'"

            Aí está um trecho da Introdução a "O Evangelho segundo o Espiritismo". que permite ao leitor conhecer, se já não a conhece, a origem espiritual do Espiritismo. Era necessário que a repetíssemos aqui, para chamar a atenção dos espíritas para a conveniência de tudo fazerem a fim de resguardar de influências prejudiciais a pureza da Doutrina dos Espíritos, que Allan Kardec, por delegação dos próprios Espíritos Superiores, coordenou e, finalmente, codificou, seguindo as instruções que eles lhe davam, sempre que se tornavam precisos maiores esclarecimentos.

            Mas, será que todos nós, espíritas, respeitamos e procuramos conservar a pureza da Doutrina que nos foi transmitida do Alto? Temos progredido muito, graças a Deus, mas ainda persistem, em alguns núcleos, certas ideias que não espalham com fidelidade a Doutrina Espírita. Idôneos e experimentados correligionários nossos, que frequentemente visitam o interior do Brasil, têm observado ainda, muitas disparidades lamentáveis, relativamente à Doutrina e também quanto à maneira de transmitir aos frequentadores dos "centros” os ensinamentos doutrinários e evangélicos, mesclados com ideias e práticas que não são identificadas com aquelas preconizadas no Pacto Áureo, Isso nos faz recordar a mensagem de Bezerra de Menezes, publicada no "Reformador" de julho de 1942, páginas 145 e 146, que se apresenta bastante atual. Vamos reproduzir alguns trechos apenas.

            ... "Se um, se alguns, ( ... ) querem levar o estudo até ao âmago, descem à observação dos trabalhos dos espiritas professos, vão aos grupos, que veem? Veem: "cada qual fazendo doutrina a seu modo”, sem ordem,  sem disciplina, sem união, produzindo sem proveito, esterilizando a melhor vontade. Veem, portanto, em vez de um trabalho uniforme, sujeito a regras invariáveis, tendendo ao mesmo fim: o alto fim posto pela doutrina, um trabalho disforme, disparatado sem nexo e, às vezes, felizmente raras, em diametral oposição às regras da Doutrina. Compreende-se que isto é um mal para os que o fazem e um mal para os que veem observá-lo, para se orientarem. Compreende-se que já é tempo de se ligarem todos os esforços dos espíritas para que se cumpra nesta parte do planeta a tarefa que lhe foi distribuída. Compreende-se,  finalmente, que é pela união dos espíritas que se pode dar a ligação,  a harmonia de seus esforços, sem a qual, diz o Mestre, cada um “cavará sulco por onde hão de correr as lágrimas do seu arrependimento.”

            Ora, foi de Bezerra de Menezes que partiu, a nosso ver, a ideia da unificação que se concretizou com o Pacto Áureo. Todavia, para que se mantenha incólume a aspiração dos espíritas, direta ou indiretamente ligados à Casa de Ismael, é preciso que as entidades adesas, cuja dedicação e cujo amor ao Espiritismo Cristão são notórios, redobrem sua vigilância, multipliquem os seus já elogiáveis trabalhos de colaboração em prol da unificação, cujos frutos já se apresentam magníficos e fecundos. Bezerra de Menezes encerra a sua importante mensagem com esta recomendação, que não deixava de ser a ideia do Pacto Áureo, que tantos benefícios vem causando ao Espiritismo do "Coração do Mundo”:

            “Os espíritas brasileiros têm uma missão, disse o Mestre, e  para desempenhá-la é essencial que comecemos por nos organizar-nos, organização baseada na união, na essência e na forma.  

            Essa missão foi iniciada e continua com o mesmo entusiasmo inicial, com resultados progressivo . Entretanto, como em tudo que ocorre na vida humana, há os que se retardam e custam a alcançar o mesmo nível de outros, havendo necessidade de esclarecê-los e ajudá-los, não só para que se libertem de hábitos velhos e se unam aos que se situam na vanguarda do movimento dinamizador do Pacto Áureo. Dizemo-lo porque o Espiritismo cristão não sanciona práticas incompatíveis com os seus preceitos. Já Leopoldo Cirne, o insigne espirita que presidiu eficientemente à Federação Espírita Brasileira, se referiu a isso, quando percebeu a introdução de inovações nas sessões. Veja-se sua obra "Doutrina e Prática do Espiritismo", segundo volume, edição de 1921, sobre  “casamentos" e "batizados” espíritas. assim como a respeito do uso de símbolos. Diz ele, com a sua enorme autoridade moral de conhecedor profundo da nossa Doutrina: "O Espiritismo - insistiremos nisso - não comporta símbolos” A tolerância com o arremedos de "casamentos" e "batizados" são também práticas que adeptos não identificados com os pontos essenciais da Doutrina consideram cabíveis em nosso ambiente, pois não conseguiram ainda esquecer totalmente certos rituais de religiões a que pertenceram, achando, por isto, natural que elas se manifestem no Espiritismo.

            Socorramo-nos ainda de Leopoldo Cirne:

            ..."alguns adeptos já tem procurado instituir, promovendo, em seguida ao ato civil do matrimônio, uma sessão espírita, para obtenção da bênção dos guias espirituais, acompanhada de prédica e ditado por um médium. É, como se vê, uma cerimônia simples, por enquanto - as de que temos tido conhecimento pelo menos - circunscrita ao lar doméstico, onde cada um tem indubitavelmente a mais completa liberdade de praticar o que a sua consciência de crente lhe inspirar. Mas não deixa de ser uma cerimônia reveladora de tendências formalísticas, respeitável no ponto de vista individual, inofensiva, portanto, nesse caso, à consciência dos demais, contanto que, porém, pela generalização que possa adquirir, não venha a passar da esfera das intimidades domésticas para as  agremiações espíritas, revestindo-se aí do caráter de um sacramento e complicando-se de acessórios e formalidades  rituais. Contra esse perigo de oficialização de exterioridades é que convém premunir-se  os crentes, começando por individualmente emancipar-se de tais retrógradas preocupações e porfiando-se, em seguida, apoiados na autoridade moral que dá o exemplo, em manter nas agremiações a singeleza das práticas, de que, fora dos exercícios puramente espirituais de que temos falado, deve ser banido tudo o que possa, lisonjeando os sentidos, embaraçar os surtos interiores, silenciosos e profundos das consciências recolhidas.

            Nos "Preceitos Gerais Pró-Unificação do Espiritismo Nacional”, aceitos "como bases mínimas para a concretização do grande ideal consubstanciado na Ata de 5 de outubro de 1949", que todos conhecemos como "Pacto Áureo", os centros ou grupos espíritas não deverão ter em, sua sala de sessões públicas "retratos, imagens, símbolos ou coisa semelhante”.  Do mesmo modo, as sociedades, cujas denominações apresentem o qualificativo de "santo", deverão   suprimir dela esse qualificativo, assim como "abster-se da prática de qualquer rito, inclusive o que se compreendem sob a denominação de “batizados e casamentos espíritas” por serem todas essas práticas contrárias à índole e ao espírito da Doutrina; isto não impede, porém, que dentro dos lares se regozijem e profiram uma prece".

            Em defesa do "Pacto Áureo”, convirá  que sejam recordados, de quando em quando, os "Preceitos Gerais". Relativamente à preparação do ambiente espiritual para as sessões públicas de estudo, a norma deve ser esta: “Leitura e comentário breve, à luz da Doutrina Espírita, de uma das comunicações psicográficas recebidas na sessão anterior ou, leitura e comentário breve de uma página doutrinária extraída de uma obra mediúnica ou não, ou, ainda, dissertação feita pelo presidente sobre a finalidade de ali estarem reunidos. Preparado o ambiente, será proferida a prece inicial, preferencialmente de improviso e curta, mas de coração, tendo por escopo principal obter a assistência e o concurso dos bons Espíritos a fim de que a reunião se efetue, na realidade, em nome de Jesus” "Essas reuniões deverão durar, em regra; hora e meia, ou, no máximo uma hora e três quartos." Tal recomendação, aparentemente sem importância, é necessária, porque nós mesmos já temos comparecido a sessões fatigantes, por excessivamente longas. Acontece que certos assistentes acabam por sentir-se cansados e seu estado de ânimo se altera, podendo influir e perturbar a harmonia de vibrações Indispensáveis ao êxito das reuniões. Evidentemente, todas sessões devem ser encerradas com uma prece, igualmente curta, objetiva e feita com sentimento.

            Podemos apontar, corroborando as considerações feitas acima, relativamente aos "casamentos "e "batizados", o que já se tem visto em aniversários natalícios, formaturas de estudantes, falecimentos (desencarnações) , etc. Devemos aplicar a tais casos as palavras de Leopoldo Cirne, em perfeita consonância com os "Preceitos Gerais".

            Há dois livros muito úteis, que poderão orientar com segurança aqueles que pretendam organizar sessões espíritas: "As Sessões Práticas do Espiritismo", de Spartaco Banal e  "Sessões Práticas e Doutrinárias do Espiritismo", de Aurélio Valente. A todos, em geral, desejosos de serem fiéis às normas recomendadas pela Federação Espírita Brasileira, aconselhamos "Preceitos Gerais", acima referidos.

            O Espiritismo é assunto muito sério e somente deve ser praticado com seguro senso de responsabilidade, para que sejam alcançados os benefícios decorrentes da comunhão espiritual com Jesus e seus devotados mandatários. Nada se deseja impor, entretanto, porque a obra do Espiritismo é feita por todos  por isso devem todos estar interessados em valorizá-la.

A base da pureza doutrinária
Indalício Mendes

Reformador (FEB) Novembro 1972

Eutanásia


               Tema de frequente discussão, por uns defendida, por outros objurgada, a eutanásia ou “sistema que procura dar morte sem sofrimento a um doente incurável" retorno aos debates acadêmicos, face à sua aplicação sistemática, por eminentes autoridades médicas, em crianças incapazes físicas ou mentais desde o nascimento, internadas em Hospitais Pediátricos, sem esperanças científicas de recuperação ou sobrevivência...

            Prática nefanda, que testemunha a predominância do conceito materialista sobre a vida que apenas vê a matéria e suas implicações imediatas, em detrimento das realidades espirituais, reflete, também, a soberania do primitivismo animal na constituição emocional do homem.

            Na Grécia antiga, a hegemonia espartana, sempre  armada para a guerra e a destruição, inseriu no seu Estatuto o emprego legal da eutanásia eugênica em referência aos enfermos, mutilados, psicopatas considerados inúteis, que eram atirados ao Eurotas por pesarem negativamente na economia do Estado.

            Guiados por superlativos egoísmo e prepotência, apesar das arremetidas arbitrárias do exagerado orgulho nacional, fizeram-se vítimas da impulsividade belicosa que cultivavam...

            Outros povos, desde a mais remota antiguidade, permitiam-se praticar esse “homicídio exercido por compaixão"... Em circunstância alguma, ou sob qualquer motivo, não cabe ao homem direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte em relação ao seu próximo.

            Os criminosos mais empedernidos, homicidas ou genocidas dentre os mais hediondos não devem ter ceifadas as vidas, antes serem isolados da convivência social, em celas ou em trabalhos retificadores, nos quais se redimam sob a ação do tempo e da reflexão, que tarda mas alcança o infrator, fazendo-os expiar os delitos perpetrados. Mesmo em se tratando de precitos anatematizados por desconserto mental, não faltam nosocômios judiciários onde possam receber conveniente assistência a que tem direito, sem que sejam considerados inocentes pelos crimes perpetrados... Em recuperando a saúde, eventualidade excepcional que pode ocorrer, cerceados, pelo perigo de provável reincidência psicopática; poderão, de alguma forma, retribuir de maneira positiva à sociedade os danos que hajam causado.

            No que tange aos enfermos ditos irrecuperáveis, convém considerar que doenças ontem detestáveis, quanto incuráveis, são hoje capítulo superado pelo triunfo de homens-sacerdotes da ciência médica, que a enobrecem pelo contributo que suas vidas oferecem a benefício da Humanidade, sempre há, pois, possibilidade de amanhã conseguir-se a vitória sobre a enfermidade irreversível de hoje. Diariamente, para esse desiderato, mergulham na carne Espíritos missionários que se aprestam a apressar e impulsionar o progresso, realizando descobrimentos e conquistas superiores para a vida, fonte poderosa de esperança e conforto para os que sofrem, em nome do Supremo Pai.

            Diante das expressões teratológicas, ao invés da precipitação da falsa piedade em aliviar os padecentes dos sofrimentos, se há de pensar na terapêutica divina, que utiliza o presídio orgânico e as jaulas mentais para justiçar os infratores de vários matizes que passaram na Terra impunes, despercebidos, mas não puderam fugir às sanções da consciência em falta nem da Legislação superior, à qual rogaram ensejo de recomeço, recuperação e sublimação por que anelavam para a edificação da paz íntima.

            Suicidas - esses pobres revoltados contra a Divindade - que esfacelam o crânio, em arremetidas de ódio contra a existência, reencarnam perturbados pela idiotia, surdez-mudez, conforme a parte do cérebro afetada, ou por hidrocefalias, mongolismos; os que tentaram o enforcamento, reaparecem com os processos da paraplegia infantil; os afogados, padecem enfisema pulmonar; os que desfecharam tiros no coração, retornam sob o jugo de cardiopatias congênitas irreversíveis, dolorosas; os que se utilizaram de tóxicos e venenos, volvem sob o tormento das deformações congênitas, da asma respiratória, ou estertorados por úlceras gástricas, duodenais e cânceres devoradores; os que despedaçaram o corpo em fugas espetaculares, recomeçam vitimados por atrofias, deformações, limitações pungentes, em que aprendem a valorizar a grandeza da vida...

            Agressores, exploradores, amantes da rapinagem, das arbitrariedades, dos abusos de qualquer natureza, volvem aos cenários em que se empederniram, ou corromperam, ou infelicitaram, atingidos pelo sinete das soberanas leis da ordem e do equilíbrio, refazendo o caminho antes percorrido criminosamente e entesourando os sagrados valores da paciência, da compreensão, do respeito a si mesmos e ao próximo, da humildade, da resignação, armando-se de bênçãos para futuros cometimentos ditosos.

            Quem se poderá atribuir o direito de interromper lhes a existência preciosa, santificadora?

            As pessoas que se lhes vinculam na condição de pais, cônjuges, irmãos, amigos, também são lhes partícipes dos dramas e tragédias do passado, responsáveis diretos ou inconscientes, que ora se reabilitam, devendo distender lhes mãos generosas, auxílio fraterno, pelo menos migalhas de amor.

            Ninguém se deverá permitir a interferência destrutiva ou liberativa por meio da eutanásia ,em tais processos redentores. Pessoas que se dizem penalizadas dos sofrimentos de familiares e que desejam os tenham logo cessados, quase sempre agem por egoísmo, pressurosos de libertar-se do comprometida responsabilidade de ajudá-los, sustentá-los, amá-los mais.

            Não faltam terapêuticas médicas e cirúrgicas que podem amenizar a dor, perfeitamente compatíveis com a caridade e a piedade cristãs. A ninguém é dado precisar o tempo de vida ou sobrevida de um paciente. São tão escassos de exatidão os prognósticos humanos neste setor do conhecimento, quanto ocorre noutros! Quantos enfermos, rudemente vencidos, desesperados, recobram a saúde sem aparente razão ou lógica?! Quantos outros, em excelente forma, portadores de sanidade e robustez, são vitimados por surpresas orgânicas e sucumbem imprevisivelmente!?

            0 conhecimento da reencarnação projeta luz nos mais intricados problemas da vida, dirimindo os equívocos e as dúvidas em torno da saúde como da enfermidade, da desdita como da felicidade e contribuindo eficazmente para a perfeita assimilação dos postulados renovadores de que Jesus-Cristo se fez vexilário por excelência e o Espiritismo, o Consolador, encarregado de demonstrá-lo nos tormentosos dias da atualidade.

            Argumentam, porém, os utilitaristas que as importâncias despendidas com os pacientes irrecuperáveis poderiam ser utilizadas para pesquisas valiosas ou para impedir-se que homens sadios enfermassem, ou para assistir-se convenientemente os que, doentes, podem ser salvos.  E devaneiam, utopistas, insensatos, sem considerarem as fortunas que são atiradas fora em espetáculos ruidosos e funestos de exaltação da sensualidade, do custo exagerado, das dissipações, sem que lhes ocorram a necessidade da aplicação correta de tais patrimônios em medidas preventivas salutares ou socorro às multidões esfaimadas e nuas que enxameiam por toda parte, perecerão à míngua de uma migalha de pão, chafurdando no desespero pela ausência de uma gota de luz ou de uma insignificante contribuição de misericórdia.

            Cada minuto em qualquer vida é, portanto, precioso para o Espírito em resgate abençoado. Quantas resoluções nobres, decisões felizes ou atitudes desditosas ocorrem num relance, de momento?

            Peneirando-se o homem de responsabilidade e caridade, luarizado pela fé religiosa fundada em fatos da imortalidade, da comunicabilidade e da reencarnação, abominará em definitivo a eutanásia, tudo envidando para cooperar com o seu irmão nos justos ressarcimentos que a divina Justiça lhe outorga para a conquista da paz interior e da evolução.

Eutanásia
Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Setembro 1974

O Livro Branco da vida


            Muita gente aceita sem grande relutância a ideia da reencarnação. Ela é racional e lógica, e, como se diz hoje, ela se insere no contexto das doutrinas evolucionistas que dominam as principais tendências do pensamento. De fato, a reencarnação dos espíritos ao longo dos séculos e dos milênios, explica fenômenos que de outra forma estariam truncados e incompreensíveis, como a eclosão de fabulosas inteligências em certos seres e a terrível carga de idiotismo em outros, as simpatias e afinidades entre uns, que mal se conhecem, e antipatias gratuitas e inexplicáveis entre outros que deveriam estimar-se em razão de estreitos laços de parentesco ou de prolongada convivência. Há também sofrimentos e dores a atingirem criaturas boníssimas, há prêmios à maldade, há mágoas para quem, a nosso ver, não as merece, e alegrias para aqueles que não as conquistaram. A reencarnação explica essas aparentes incongruências e perplexidades. Somos seres em trânsito para o futuro e trazemos nos registros do espírito a memória oculta de antigas falhas, o resíduo ainda invencível de persistentes deficiências que nos condicionam o presente e nos ameaçam o futuro.

            Muitos ainda não estão preparados para enfrentar corajosamente as suas responsabilidades e fogem pelas evasivas que os exoneram da obrigação de pensar e construir no presente as bases da paz futura. Uma dessas fugas inconsequentes pode ser resumida na seguinte frase que nós espíritas sempre ouvimos:

            - Tudo isso é muito bonito e a reencarnação tem a sua lógica, mas como é que eu não me recordo das minhas possíveis existências anteriores?

            Entendem esses que seria muito mais racional que conservássemos ao renascer a memória das vidas passadas. Seria assim fácil programar a existência atual de modo a evitar a recaída em antigas faltas, a identificar com segurança velhos amigos tão caros ao nosso espírito e também adversários renitentes que nos perseguem através dos séculos com os seus ódios e sua vingança. Seria bom, por exemplo, sabermos que fomos no passado grandes médicos ou artistas eminentes e repetir com facilidade a experiência na qual fomos vitoriosos e brilhar novamente entre os homens, enobrecer a Humanidade de conquistas científicas ou artísticas.

            O raciocínio que nos leva a esses caminhos é simplista, quase simplório. O que enriquece a estrutura do espírito não é a repetição monótona de experiências nas quais já nos destacamos, mas a variedade e a universalidade do conhecimento que se vai acumulando lentamente em nossos arquivos mentais. Dessa forma, em cada nova existência as coisas se passam como se recebêssemos um livro em branco, no qual podemos escrever livremente a nossa história, vivendo-a no dia a dia das suas lutas e o do seu aprendizado. Escrever livremente, talvez seja força de expressão. Embora esquecidos do passado e livres para imprimir à nossa vida o rumo que desejarmos, trazemos no fundo da memória espiritual - esquecidos mas não ausentes - todos os condicionamentos que ali se depositaram em consequência das passadas experiências. O prêmio da vitória está em suplantar condicionamentos negativos, substituindo as paixões que nos infelicitaram, pelos impulsos de solidariedade, na conquista de novas posições espirituais.

            Para o livre exercício do arbítrio é bom que o nosso livro esteja em branco. Só assim, teremos o mérito das conquistas alcançadas, como também o ônus das concessões ao egoísmo e às paixões subalternas. Somos, assim, herdeiros de nós mesmos e construtores da nossa paz ou da nossa infelicidade. Amanhã, quando sofrermos aflição e angústias incompreensíveis, não culpemos o destino cego e cruel, nem um Deus vingativo que nos persegue - estejamos bem certos de que somente a nós mesmos devemos as nossas dores. O esquecimento do passado é, pois, uma bênção a mais que as leis de Deus nos concedem e não uma dificuldade em nosso caminho evolutivo. É bem melhor partir para a aventura maravilhosa de uma nova existência, esquecidos de antigas angústias, para que as novas aflições não se somem às que nos atormentaram no passado. É bom amar no filho difícil ou no companheiro incompreensível o antigo desafeto que estamos lentamente conquistando, em lugar de reconhecê-los na condição de inimigos da nossa paz, a quem é preciso neutralizar a todo custo. Nesses reajustes que se processam mais cedo ou mais tarde, agora ou daqui a séculos, é bom que aprendamos a identificar, na dor que nos assalta, a moeda com que resgatamos antigas faltas.

            É bom sabermos que nas futuras encarnações também não nos lembraremos das atuais aflições, nem teremos saudades das alegrias do presente. Receberemos outra vez o nosso livro em branco. Talvez então já estejamos prontos para escrever nele um longo poema de amor.
(Ext. do "Diário de Notícias", de 14/6/70.)

O Livro Branco da vida
por Hermínio C. Miranda

Reformador (FEB) Julho 1971 

Deus escreve certo por linhas certas



            Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

            Não podemos concordar com semelhante pronunciamento; e assim agimos porque as atitudes de Deus são, em primeiro lugar, perfeitas; se são perfeitas, são também absolutas; e, em segundo lugar, não nos cabe qualquer tentativa de julgamento desses procederes.

            Ora, o homem sempre sentiu o peso de suas faltas sobre o seu próprio coração, o jugo pesado de seus deslizes sobre si próprio. E esses erros, esses deslizes, foram produtos exclusivos de sua desídia, de sua revolta, de sua inconsequência. Se ele é desidioso, revoltado e inconsequente, convenhamos que quem é torto é precisamente ele. Por isso nossa discordância aqui apresentada. Deus escreve certo, por linhas certas.

            Ora, tudo isso veio em razão de algumas ilações em altas vozes que tivemos a oportunidade de ouvir e que, por certo, não passam de frutos de algum problema um pouco mais aflitivo, daqueles que fazem com que o indivíduo ache que tudo na Terra está errado e que “se houvesse acontecido assim, o resultado teria sido aquele outro”. Tenhamos cuidado antes da emissão de nossos conceitos, porque a sabedoria popular também afirma que a pressa é inimiga da perfeição. Aqui, sim, nada mais correto e lógico.

            O que ouvimos foi, simples e puramente, a afirmação categórica de que Allan Kardec deveria ter retornado à Terra bem antes de quando o fez, visando a evitar uma série de problemas que lhe entravaram a livre caminhada. Pensamento dez vezes errado. Qual espírita poderá contestar as pequenas provações a que somos diariamente submetidos, com vistas ao fortalecimento do autocontrole e da paciência? Logo, Allan Kardec - qualquer que fosse a época da sua feliz presença entre nós - encontraria óbices variados, comuns a todos os habitantes do planeta.

            No entanto, esse comentário que ouvimos levou-nos a pesquisar um pouco mais sobre a época do Codificador, as tensões, os desejos e as carências da sociedade do século XIX.

            Fomos buscar livros que bem retratassem o clima de ideias daqueles tempos e, dentre muitos, escolhemos para aqui focalizar a obra “A Propósito do Homem e o Desenvolvimento de suas Faculdades”, ou “Ensaio de Física Social”, elaborado por A. Quetelet, edição de Bachelier, Paris, 1835. O autor, assinando um prefácio aos 15 de abril do mesmo ano, ressalta a importância das pesquisas estatísticas para que bem se conheçam os anseios de uma época, bem como suas dificuldades. Diz ele: “Ouso acreditar em que encontraremos algum atrativo nessas pesquisas, bem como soluções naturais de muitos dos problemas e importantes questões que foram ventilados nesses últimos tempos.”

            De fato. Esse conhecimento é indispensável para o bom entendimento do homem em si mesmo. No século iluminado pelo Positivismo de Auguste Comte, aonde se ensaiava o férreo raciocínio de um Littré, as hipóteses absurdas eram rechaçadas. Mas não seria hipótese absurda o fato de que as ações humanas se acham submetidas a leis que as regulam. É o que o autor examina a páginas 4 da mencionada obra. Propõe, logo de início, sejam os diversos aspectos da coletividade examinados em seu conjunto, de modo que se tenha um acervo de fatos comprobatórios daquilo que se pretende demonstrar, sem que sobre o tema pairem dúvidas ridículas, de deficiente desenvolvimento do raciocínio empregado. (1) Eis o que nos diz Quetelet:

                (1) Método utilizado por Camille Flammarion: qualidade e quantidade.

            “Quais seriam nossos conhecimentos a propósito da mortalidade da espécie humana, se apenas houvéssemos observado alguns indivíduos? Ao invés de leis admiráveis, às quais essa mortalidade estaria submetida, mais não teríamos do que uma série de fatos incoerentes, que não permitiria qualquer suposição a respeito da marcha ordenada da natureza.”

            “O que dizemos da mortalidade humana também o dizemos das faculdades físicas do homem e até mesmo de suas faculdades morais. Se desejamos adquirir o conhecimento das leis gerais às quais essas últimas estão submetidas, precisaremos reunir grande número de observações.”

            Eis aí: leis morais sujeitas ao estudo da criatura humana; atitudes do indivíduo vinculadas diretamente a leis universais. Em resumo: a Lei da Evolução.

                Mais adiante, a páginas 13, o autor admite claramente o fato de que o homem se acha submetido a causas, em sua maior parte regulares e periódicas. Notem-se os programas da evolução do indivíduo e da sociedade, encarada em sua feição mais aberta e mais grandiosa. Essas causas regulares e periódicas nada mais são do que as tendências e características de cada espírito e, no plano social, o conjunto de tendências e de características dos grupos. Mais largamente seriam, ainda, as necessidades de toda a humanidade, estudadas as afinidades dos grupos humanos que a compõem.

            A preocupação com o índice de criminalidade é também clara, patente e inegável. E o que se observa e retira da exposição criteriosamente elaborada pelo autor (mapas, gráficos, estimativas) é o funcionamento da lei de conservação, em suas profundas vinculações com a lei de destruição, ambas - como as demais - estudadas com rara profundidade em “O Livro dos Espíritos”.

            Outro problema levantado com muita precisão é o da previsão de recursos humanos para o atendimento à demanda dessas mesmas leis em funcionamento, o que, de certo modo, percebe-se, atemoriza Quetelet. Como prevenir as dificuldades que o bom senso e a lógica apontavam como assaz próximas? O mundo começava, então, a viver uma época de renascimento espiritual.

            O que vemos atualmente - matanças, desastres que nos tocam o coração, fome em alto grau, neuroses diversas, fobias, desregramentos, inversão de valores - não são mais do que os últimos gemidos do inconformismo, os gritos derradeiros da rebeldia. Mas o renascimento de que falamos inicia-se precisamente com esses gritos, com essas fobias e com essa dilacerante inversão de valores. O renascimento, para que exista e seja operante, implica reforma autêntica, reforma íntima, desejo verdadeiro de viver os preceitos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo, em espírito e verdade.

            Por isso, não podemos dizer que a mudança operou-se em momento inoportuno. O que se observa, no sábio traçado do plano espiritual, é um recrudescimento das angústias e dos problemas e a subsequente vinda do Consolador prometido por Jesus: o Espiritismo, codificado pela nobre figura de Allan Kardec, um jato de luz nos anseios do mundo.

            Assim, o livro de A. Quetelet mostra, com insofismável clareza:

            1. que o século XIX foi importantíssimo ponto no desenvolvimento dos planos da Espiritualidade, sob o governo de Jesus, para o mundo;

            2. que esses planos são, de modo bem amplo, aquelas causas regulares e periódicas que influem sobre a espécie humana;

            3. que o alto grau de racionalidade do século foi condição “sine qua non” ao entendimento da Revelação do Espiritismo pelo homem;

            4. que essa Revelação, aproveitando-se do raciocínio positivista de Auguste Comte, lançou sobre ele o puro sentimento do Evangelho do Cristo, coibindo-lhe os abusos;

            5. que o estudo metódico das leis que regem a espécie humana é glorioso portão que mostra a luz de um sol de poucos ainda conhecido: o foco da Paz em Deus;

            6. que existe ordem no Universo e que essa ordem é total;

            7. que essa amplitude, refletindo na Terra, gera o desejo de conhecimento que caracteriza o homem.

            E a Revelação Espírita, que a obra reduzidamente analisada demonstra ser uma verdadeira necessidade, surge mais uma vez como resposta aos anseios e carências que, analisados pelo homem, em livros como o focalizado, respondem ao homem a realidade da vida: a própria vida.

            As preocupações do século XIX, que sempre foram as do mundo (o homem sempre almejou a paz, mas poucas vezes soube encontrá-la), encontram-se plenamente respondidas pela Doutrina Espírita, no momento exato, quando se  iniciou o renascimento espiritual da Terra. Esse renascimento prossegue; cooperemos com ele, porque o Senhor da Vida a ele preside.

            Logo, Deus escreve certo por linhas certas; os tortos somos nós; e Allan Kardec veio no momento exato, respondendo às diretrizes do Alto para o homem e pelo homem. Além disso, ele sempre estará conosco. E, além dele, e com ele, existe o Mestre dos mestres, aquele que nos espera.

            Sim... Deus escreve certo por linhas certas... Os tortos somos nós mesmos.

Deus escreve certo por linhas certas
Gilberto Campista Guarino

Reformador (FEB) Setembro 1974