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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Libertação

        O gesto de Bartimeu, o cego mendigo de Jericó, «lançando de si a sua capa», ao ir ter com Jesus, nos sugere a ideia de ação premeditada para desembaraçar-se de algo que lhe atrapalharia a liberdade de movimento.

            Para o filho de Timeu, o uso daquela peça teria grande serventia. Provavelmente, seria com ela que ele se protegeria das intempéries do tempo. Nem por isso, ao atender ao chamado do Mestre, pensou em levá-la consigo. Atirou-a para um lado, lépido e resoluto.
            Capa arremessada, por importuna e supérflua, é o que cabe considerar.

            Quem de nós não terá alguma coisa de que desvencilhar-se para sair ao encontro de Jesus? Conhecer nossas inibições, para atirá-las bem longe de nós - tal o indeclinável desiderato que nos compete concretizar em benefício próprio.

            Realizar esta ingente tarefa, é solucionar gloriosamente o nosso problema de liberação espiritual.

            Bartimeu, depois de arremessar fora a capa, levanta-se, segue em direção ao Excelso Benfeitor, dele obtém a dádiva da recuperação da vista e permanece em Sua companhia. Deixa um acessório, até então utilizado, por um bem genuíno, essencial, que seria a razão de ser de sua felicidade.

            Quantas vezes, pela nossa posição espiritual, fazemos lembrar o cego mendigo de Jericó, também, como ele, carregando alguma carga incomodativa e inconveniente!

            E como é penoso este nosso fardo e esmagador o seu peso!

            Quase sempre o que nos dificulta a marcha ascensional e gloriosa, para o Calvário de nossa redenção, está representado em pequenas coisas que se nos afiguram de somenos importância e, por assim entender, aparentemente insignificantes.

            O empecilho aparece quando queremos que ele desapareça. Muita vez, vamos surpreendê-lo, incrustado em nossos hábitos, como ostras grudadas à pedra, em situações de que mal suspeitamos.

            Em trivialidades domésticas, a que nos entregamos desapercebidamente. Numa pronunciada tendência à desconfiança de tudo e de todos. Num pendor à crítica demolidora. Numa inclinação à malquerença, congelando amizades por insignificâncias que vimos e ouvimos, exagerando lhes a importância.

            Na adesão a atitudes íntimas, veladas a olhos alheios, mas patentes à nossa consciência, de cujas algemas nos fazemos prisioneiros voluntários.

            Ao nos levantarmos em busca do Celeste Enviado, sejam quais forem as nossas cargas sobressalentes, arremessemo-las fora; deixemo-las, depois de arrebanhados para o Redil do Senhor, como trastes desprezados e desprezíveis . Serão no caso:

- a obcecação pela posse inescrupulosa das posições sociais de evidência e dos bens materiais;
- a obsessão pelos prazeres malsãos do mundo;
- o atrativo pelos assuntos, falados ou escritos, de essência venenosa;
- o fascínio por situações escabrosas, ainda que habilmente aparentadas com as melhores intenções;
- a subjugação à intemperança mental e verbal;
- a escravidão aos desequilíbrios emotivos e sentimentais.

            Seja neutralizando a resistência daqueles que se nos opõem à caminhada para Deus, seja superando impedimentos próprios, seja vencendo relutâncias íntimas ou circunstanciais, seja transpondo obstáculos buscados por nós ,ou atirados à nossa frente por outrem, seja a força de suores e lágrimas, necessariamente teremos que consumar o nosso trabalho liberativo. 

            E não há tempo a perder; e hoje ainda; e agora mesmo.

            Desvencilhemo-nos do desperdício do tempo e da saúde, do abuso do poder e da autoridade, da aplicação desajustada do talento e da cultura, da ação imposicionista dos nossos dons físicos e espirituais, de nossa desalmada exploração do próximo, que tudo isto são capas tremendas que poderão asfixiar-nos sob o seu peso.

            Amigos, desembaracemo-nos da inibições, para não virmos a terminar a existência amortalhados por elas.
Libertação
por Passos Lírio

Reformador (FEB) Setembro 1970

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