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sábado, 29 de agosto de 2015

A base da pureza doutrinária


           A observância dos princípios da Doutrina dos Espíritos é garantia segura para que alguém possa aferir da sua condição moral em relação ao Cristo de Deus. Quanto mais fiel, mais perto do Mestre, evidentemente. A nossa Doutrina não foi de concepção puramente humana, nem revelada a um só homem.

            "Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por mais rápido caminho e mais autêntico. Incumbiu, pois, os Espíritos de levá-la de um polo a outro, manifestando-se, por toda parte, sem conferir a ninguém o privilégio de lhes ouvir a palavra. Um homem pode ser ludibriado, pode enganar-se a si mesmo; já não será assim, quando milhões de criaturas veem e ouvem a mesma coisa. Constitui isto sim a garantia para cada um e para todos. Ao demais, pode fazer-se que desapareça um homem; mas não se pode fazer que desapareçam as coletividades; podem queimar-se os livros, mas não se podem queimar os Espíritos. Ora, queimassem a todos os livros, e a fonte da doutrina não deixaria de conservar-se  inexaurível, pela razão mesma de ela não estar na Terra, de surgir em todos os lugares e de poderem todos eles dessedentar-se nela. Faltem os homens para difundi-la: haverá sempre  os Espíritos, cuja atuação a todos atinge e aos quais ninguém pode atingir.

            “São, pois, os próprios Espíritos que fazem  a propaganda, com o auxílio dos  inúmeros médiuns que, também eles, os Espíritos, vão suscitando de todos os lados. Se tivesse havido unicamente um intérprete,  por mais favorecido que fosse, o Espiritismo mal seria conhecido. Qualquer que fosse a classe a que pertencesse, tal intérprete houvera sido objeto das prevenções de muita gente e nem todas as nações o teriam aceitado, ao passo que os Espíritos se comunicam, em todos os pontos da Terra, a todo os povos, a, todas as seitas, a todos os partidos todos os aceitam. O Espiritismo não tem nacionalidade e não parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo. Cumpre seja assim, para que ele possa conduzir todos os homens à fraternidade. Se não se mantivessem em terreno neutro, alimentaria as dissensões, em vez de apaziguá-las.

            "Nessa universalidade dos Espíritos reside a força do Espiritismo e, também, a causa de sua tão rápida propagação. Enquanto que a palavra de um só homem, mesmo com o concurso da imprensa, levaria séculos para chegar ao conhecimento de todos, milhares de vozes se fazem sentir simultaneamente em todo os recanto do planeta, proclamando os mesmos princípios e transmitindo-os aos mais ignorantes, como aos mais doutos, a fim de que não haja deserdados. É uma verdade, ,não teme o malquerer dos homens, nem as revoluções morais, nem, as subversões físicas do globo, porque nada disso pode atingir o Espírito.'"

            Aí está um trecho da Introdução a "O Evangelho segundo o Espiritismo". que permite ao leitor conhecer, se já não a conhece, a origem espiritual do Espiritismo. Era necessário que a repetíssemos aqui, para chamar a atenção dos espíritas para a conveniência de tudo fazerem a fim de resguardar de influências prejudiciais a pureza da Doutrina dos Espíritos, que Allan Kardec, por delegação dos próprios Espíritos Superiores, coordenou e, finalmente, codificou, seguindo as instruções que eles lhe davam, sempre que se tornavam precisos maiores esclarecimentos.

            Mas, será que todos nós, espíritas, respeitamos e procuramos conservar a pureza da Doutrina que nos foi transmitida do Alto? Temos progredido muito, graças a Deus, mas ainda persistem, em alguns núcleos, certas ideias que não espalham com fidelidade a Doutrina Espírita. Idôneos e experimentados correligionários nossos, que frequentemente visitam o interior do Brasil, têm observado ainda, muitas disparidades lamentáveis, relativamente à Doutrina e também quanto à maneira de transmitir aos frequentadores dos "centros” os ensinamentos doutrinários e evangélicos, mesclados com ideias e práticas que não são identificadas com aquelas preconizadas no Pacto Áureo, Isso nos faz recordar a mensagem de Bezerra de Menezes, publicada no "Reformador" de julho de 1942, páginas 145 e 146, que se apresenta bastante atual. Vamos reproduzir alguns trechos apenas.

            ... "Se um, se alguns, ( ... ) querem levar o estudo até ao âmago, descem à observação dos trabalhos dos espiritas professos, vão aos grupos, que veem? Veem: "cada qual fazendo doutrina a seu modo”, sem ordem,  sem disciplina, sem união, produzindo sem proveito, esterilizando a melhor vontade. Veem, portanto, em vez de um trabalho uniforme, sujeito a regras invariáveis, tendendo ao mesmo fim: o alto fim posto pela doutrina, um trabalho disforme, disparatado sem nexo e, às vezes, felizmente raras, em diametral oposição às regras da Doutrina. Compreende-se que isto é um mal para os que o fazem e um mal para os que veem observá-lo, para se orientarem. Compreende-se que já é tempo de se ligarem todos os esforços dos espíritas para que se cumpra nesta parte do planeta a tarefa que lhe foi distribuída. Compreende-se,  finalmente, que é pela união dos espíritas que se pode dar a ligação,  a harmonia de seus esforços, sem a qual, diz o Mestre, cada um “cavará sulco por onde hão de correr as lágrimas do seu arrependimento.”

            Ora, foi de Bezerra de Menezes que partiu, a nosso ver, a ideia da unificação que se concretizou com o Pacto Áureo. Todavia, para que se mantenha incólume a aspiração dos espíritas, direta ou indiretamente ligados à Casa de Ismael, é preciso que as entidades adesas, cuja dedicação e cujo amor ao Espiritismo Cristão são notórios, redobrem sua vigilância, multipliquem os seus já elogiáveis trabalhos de colaboração em prol da unificação, cujos frutos já se apresentam magníficos e fecundos. Bezerra de Menezes encerra a sua importante mensagem com esta recomendação, que não deixava de ser a ideia do Pacto Áureo, que tantos benefícios vem causando ao Espiritismo do "Coração do Mundo”:

            “Os espíritas brasileiros têm uma missão, disse o Mestre, e  para desempenhá-la é essencial que comecemos por nos organizar-nos, organização baseada na união, na essência e na forma.  

            Essa missão foi iniciada e continua com o mesmo entusiasmo inicial, com resultados progressivo . Entretanto, como em tudo que ocorre na vida humana, há os que se retardam e custam a alcançar o mesmo nível de outros, havendo necessidade de esclarecê-los e ajudá-los, não só para que se libertem de hábitos velhos e se unam aos que se situam na vanguarda do movimento dinamizador do Pacto Áureo. Dizemo-lo porque o Espiritismo cristão não sanciona práticas incompatíveis com os seus preceitos. Já Leopoldo Cirne, o insigne espirita que presidiu eficientemente à Federação Espírita Brasileira, se referiu a isso, quando percebeu a introdução de inovações nas sessões. Veja-se sua obra "Doutrina e Prática do Espiritismo", segundo volume, edição de 1921, sobre  “casamentos" e "batizados” espíritas. assim como a respeito do uso de símbolos. Diz ele, com a sua enorme autoridade moral de conhecedor profundo da nossa Doutrina: "O Espiritismo - insistiremos nisso - não comporta símbolos” A tolerância com o arremedos de "casamentos" e "batizados" são também práticas que adeptos não identificados com os pontos essenciais da Doutrina consideram cabíveis em nosso ambiente, pois não conseguiram ainda esquecer totalmente certos rituais de religiões a que pertenceram, achando, por isto, natural que elas se manifestem no Espiritismo.

            Socorramo-nos ainda de Leopoldo Cirne:

            ..."alguns adeptos já tem procurado instituir, promovendo, em seguida ao ato civil do matrimônio, uma sessão espírita, para obtenção da bênção dos guias espirituais, acompanhada de prédica e ditado por um médium. É, como se vê, uma cerimônia simples, por enquanto - as de que temos tido conhecimento pelo menos - circunscrita ao lar doméstico, onde cada um tem indubitavelmente a mais completa liberdade de praticar o que a sua consciência de crente lhe inspirar. Mas não deixa de ser uma cerimônia reveladora de tendências formalísticas, respeitável no ponto de vista individual, inofensiva, portanto, nesse caso, à consciência dos demais, contanto que, porém, pela generalização que possa adquirir, não venha a passar da esfera das intimidades domésticas para as  agremiações espíritas, revestindo-se aí do caráter de um sacramento e complicando-se de acessórios e formalidades  rituais. Contra esse perigo de oficialização de exterioridades é que convém premunir-se  os crentes, começando por individualmente emancipar-se de tais retrógradas preocupações e porfiando-se, em seguida, apoiados na autoridade moral que dá o exemplo, em manter nas agremiações a singeleza das práticas, de que, fora dos exercícios puramente espirituais de que temos falado, deve ser banido tudo o que possa, lisonjeando os sentidos, embaraçar os surtos interiores, silenciosos e profundos das consciências recolhidas.

            Nos "Preceitos Gerais Pró-Unificação do Espiritismo Nacional”, aceitos "como bases mínimas para a concretização do grande ideal consubstanciado na Ata de 5 de outubro de 1949", que todos conhecemos como "Pacto Áureo", os centros ou grupos espíritas não deverão ter em, sua sala de sessões públicas "retratos, imagens, símbolos ou coisa semelhante”.  Do mesmo modo, as sociedades, cujas denominações apresentem o qualificativo de "santo", deverão   suprimir dela esse qualificativo, assim como "abster-se da prática de qualquer rito, inclusive o que se compreendem sob a denominação de “batizados e casamentos espíritas” por serem todas essas práticas contrárias à índole e ao espírito da Doutrina; isto não impede, porém, que dentro dos lares se regozijem e profiram uma prece".

            Em defesa do "Pacto Áureo”, convirá  que sejam recordados, de quando em quando, os "Preceitos Gerais". Relativamente à preparação do ambiente espiritual para as sessões públicas de estudo, a norma deve ser esta: “Leitura e comentário breve, à luz da Doutrina Espírita, de uma das comunicações psicográficas recebidas na sessão anterior ou, leitura e comentário breve de uma página doutrinária extraída de uma obra mediúnica ou não, ou, ainda, dissertação feita pelo presidente sobre a finalidade de ali estarem reunidos. Preparado o ambiente, será proferida a prece inicial, preferencialmente de improviso e curta, mas de coração, tendo por escopo principal obter a assistência e o concurso dos bons Espíritos a fim de que a reunião se efetue, na realidade, em nome de Jesus” "Essas reuniões deverão durar, em regra; hora e meia, ou, no máximo uma hora e três quartos." Tal recomendação, aparentemente sem importância, é necessária, porque nós mesmos já temos comparecido a sessões fatigantes, por excessivamente longas. Acontece que certos assistentes acabam por sentir-se cansados e seu estado de ânimo se altera, podendo influir e perturbar a harmonia de vibrações Indispensáveis ao êxito das reuniões. Evidentemente, todas sessões devem ser encerradas com uma prece, igualmente curta, objetiva e feita com sentimento.

            Podemos apontar, corroborando as considerações feitas acima, relativamente aos "casamentos "e "batizados", o que já se tem visto em aniversários natalícios, formaturas de estudantes, falecimentos (desencarnações) , etc. Devemos aplicar a tais casos as palavras de Leopoldo Cirne, em perfeita consonância com os "Preceitos Gerais".

            Há dois livros muito úteis, que poderão orientar com segurança aqueles que pretendam organizar sessões espíritas: "As Sessões Práticas do Espiritismo", de Spartaco Banal e  "Sessões Práticas e Doutrinárias do Espiritismo", de Aurélio Valente. A todos, em geral, desejosos de serem fiéis às normas recomendadas pela Federação Espírita Brasileira, aconselhamos "Preceitos Gerais", acima referidos.

            O Espiritismo é assunto muito sério e somente deve ser praticado com seguro senso de responsabilidade, para que sejam alcançados os benefícios decorrentes da comunhão espiritual com Jesus e seus devotados mandatários. Nada se deseja impor, entretanto, porque a obra do Espiritismo é feita por todos  por isso devem todos estar interessados em valorizá-la.

A base da pureza doutrinária
Indalício Mendes

Reformador (FEB) Novembro 1972

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