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sábado, 29 de agosto de 2015

Eutanásia


               Tema de frequente discussão, por uns defendida, por outros objurgada, a eutanásia ou “sistema que procura dar morte sem sofrimento a um doente incurável" retorno aos debates acadêmicos, face à sua aplicação sistemática, por eminentes autoridades médicas, em crianças incapazes físicas ou mentais desde o nascimento, internadas em Hospitais Pediátricos, sem esperanças científicas de recuperação ou sobrevivência...

            Prática nefanda, que testemunha a predominância do conceito materialista sobre a vida que apenas vê a matéria e suas implicações imediatas, em detrimento das realidades espirituais, reflete, também, a soberania do primitivismo animal na constituição emocional do homem.

            Na Grécia antiga, a hegemonia espartana, sempre  armada para a guerra e a destruição, inseriu no seu Estatuto o emprego legal da eutanásia eugênica em referência aos enfermos, mutilados, psicopatas considerados inúteis, que eram atirados ao Eurotas por pesarem negativamente na economia do Estado.

            Guiados por superlativos egoísmo e prepotência, apesar das arremetidas arbitrárias do exagerado orgulho nacional, fizeram-se vítimas da impulsividade belicosa que cultivavam...

            Outros povos, desde a mais remota antiguidade, permitiam-se praticar esse “homicídio exercido por compaixão"... Em circunstância alguma, ou sob qualquer motivo, não cabe ao homem direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte em relação ao seu próximo.

            Os criminosos mais empedernidos, homicidas ou genocidas dentre os mais hediondos não devem ter ceifadas as vidas, antes serem isolados da convivência social, em celas ou em trabalhos retificadores, nos quais se redimam sob a ação do tempo e da reflexão, que tarda mas alcança o infrator, fazendo-os expiar os delitos perpetrados. Mesmo em se tratando de precitos anatematizados por desconserto mental, não faltam nosocômios judiciários onde possam receber conveniente assistência a que tem direito, sem que sejam considerados inocentes pelos crimes perpetrados... Em recuperando a saúde, eventualidade excepcional que pode ocorrer, cerceados, pelo perigo de provável reincidência psicopática; poderão, de alguma forma, retribuir de maneira positiva à sociedade os danos que hajam causado.

            No que tange aos enfermos ditos irrecuperáveis, convém considerar que doenças ontem detestáveis, quanto incuráveis, são hoje capítulo superado pelo triunfo de homens-sacerdotes da ciência médica, que a enobrecem pelo contributo que suas vidas oferecem a benefício da Humanidade, sempre há, pois, possibilidade de amanhã conseguir-se a vitória sobre a enfermidade irreversível de hoje. Diariamente, para esse desiderato, mergulham na carne Espíritos missionários que se aprestam a apressar e impulsionar o progresso, realizando descobrimentos e conquistas superiores para a vida, fonte poderosa de esperança e conforto para os que sofrem, em nome do Supremo Pai.

            Diante das expressões teratológicas, ao invés da precipitação da falsa piedade em aliviar os padecentes dos sofrimentos, se há de pensar na terapêutica divina, que utiliza o presídio orgânico e as jaulas mentais para justiçar os infratores de vários matizes que passaram na Terra impunes, despercebidos, mas não puderam fugir às sanções da consciência em falta nem da Legislação superior, à qual rogaram ensejo de recomeço, recuperação e sublimação por que anelavam para a edificação da paz íntima.

            Suicidas - esses pobres revoltados contra a Divindade - que esfacelam o crânio, em arremetidas de ódio contra a existência, reencarnam perturbados pela idiotia, surdez-mudez, conforme a parte do cérebro afetada, ou por hidrocefalias, mongolismos; os que tentaram o enforcamento, reaparecem com os processos da paraplegia infantil; os afogados, padecem enfisema pulmonar; os que desfecharam tiros no coração, retornam sob o jugo de cardiopatias congênitas irreversíveis, dolorosas; os que se utilizaram de tóxicos e venenos, volvem sob o tormento das deformações congênitas, da asma respiratória, ou estertorados por úlceras gástricas, duodenais e cânceres devoradores; os que despedaçaram o corpo em fugas espetaculares, recomeçam vitimados por atrofias, deformações, limitações pungentes, em que aprendem a valorizar a grandeza da vida...

            Agressores, exploradores, amantes da rapinagem, das arbitrariedades, dos abusos de qualquer natureza, volvem aos cenários em que se empederniram, ou corromperam, ou infelicitaram, atingidos pelo sinete das soberanas leis da ordem e do equilíbrio, refazendo o caminho antes percorrido criminosamente e entesourando os sagrados valores da paciência, da compreensão, do respeito a si mesmos e ao próximo, da humildade, da resignação, armando-se de bênçãos para futuros cometimentos ditosos.

            Quem se poderá atribuir o direito de interromper lhes a existência preciosa, santificadora?

            As pessoas que se lhes vinculam na condição de pais, cônjuges, irmãos, amigos, também são lhes partícipes dos dramas e tragédias do passado, responsáveis diretos ou inconscientes, que ora se reabilitam, devendo distender lhes mãos generosas, auxílio fraterno, pelo menos migalhas de amor.

            Ninguém se deverá permitir a interferência destrutiva ou liberativa por meio da eutanásia ,em tais processos redentores. Pessoas que se dizem penalizadas dos sofrimentos de familiares e que desejam os tenham logo cessados, quase sempre agem por egoísmo, pressurosos de libertar-se do comprometida responsabilidade de ajudá-los, sustentá-los, amá-los mais.

            Não faltam terapêuticas médicas e cirúrgicas que podem amenizar a dor, perfeitamente compatíveis com a caridade e a piedade cristãs. A ninguém é dado precisar o tempo de vida ou sobrevida de um paciente. São tão escassos de exatidão os prognósticos humanos neste setor do conhecimento, quanto ocorre noutros! Quantos enfermos, rudemente vencidos, desesperados, recobram a saúde sem aparente razão ou lógica?! Quantos outros, em excelente forma, portadores de sanidade e robustez, são vitimados por surpresas orgânicas e sucumbem imprevisivelmente!?

            0 conhecimento da reencarnação projeta luz nos mais intricados problemas da vida, dirimindo os equívocos e as dúvidas em torno da saúde como da enfermidade, da desdita como da felicidade e contribuindo eficazmente para a perfeita assimilação dos postulados renovadores de que Jesus-Cristo se fez vexilário por excelência e o Espiritismo, o Consolador, encarregado de demonstrá-lo nos tormentosos dias da atualidade.

            Argumentam, porém, os utilitaristas que as importâncias despendidas com os pacientes irrecuperáveis poderiam ser utilizadas para pesquisas valiosas ou para impedir-se que homens sadios enfermassem, ou para assistir-se convenientemente os que, doentes, podem ser salvos.  E devaneiam, utopistas, insensatos, sem considerarem as fortunas que são atiradas fora em espetáculos ruidosos e funestos de exaltação da sensualidade, do custo exagerado, das dissipações, sem que lhes ocorram a necessidade da aplicação correta de tais patrimônios em medidas preventivas salutares ou socorro às multidões esfaimadas e nuas que enxameiam por toda parte, perecerão à míngua de uma migalha de pão, chafurdando no desespero pela ausência de uma gota de luz ou de uma insignificante contribuição de misericórdia.

            Cada minuto em qualquer vida é, portanto, precioso para o Espírito em resgate abençoado. Quantas resoluções nobres, decisões felizes ou atitudes desditosas ocorrem num relance, de momento?

            Peneirando-se o homem de responsabilidade e caridade, luarizado pela fé religiosa fundada em fatos da imortalidade, da comunicabilidade e da reencarnação, abominará em definitivo a eutanásia, tudo envidando para cooperar com o seu irmão nos justos ressarcimentos que a divina Justiça lhe outorga para a conquista da paz interior e da evolução.

Eutanásia
Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Setembro 1974

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