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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Kardec e Roustaing


              Estudiosos há do Espiritismo que relutam em aceitar, ou não aceitam mesmo, a revelação do corpo fluídico de Jesus, sob a alegação de não haver ela merecido a aprovação de Kardec e, por isso, desprezam, sem maiores considerações, toda a obra magistral publicada por Roustaing, contendo a explicação dos Evangelhos, capítulo por capítulo, versículo por versículo.

            Embora transmitido do Alto, mercê da extraordinária mediunidade da Senhora Collignon, compreenderíamos fossem os ensinamentos rejeitados, mas por quem, após leitura atenta, e sem ideia preconcebida, de “Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação”, houvesse meditado e concluído, por si mesmo, que eram inadmissíveis as teses ali expostas.

            Pretender-se, porém, que os conceitos divulgados por J. B. Roustaing devem ser condenados porque Kardec não os sancionou é algo tão diferente que permite supor não haja sido a questão convenientemente estudada pelos que assim argumentam. De início, não esqueçamos que se o Codificador não aprovou a obra, muito menos a reprovou e já agora, pouco mais de um século decorrido, seria tempo de se por fim a mal entendidos e a uma diferença mantida, sobretudo, por quem parece se mostrar mais “kardecista” do que Kardec!

            São conhecidas as circunstâncias excepcionais, dignas de reflexão, em que Jean-Baptiste Roustaing, homem de grande projeção - bastonário que era da Corte Imperial de Bordeaux ao tempo de Napoleão III - veio a conhecer a Senhora Collignon, em dezembro de 1861, e receber, oito dias depois, a mensagem por ela psicografada, e assinada por “Mateus, Marcos, Lucas e João, assistidos pelos Apóstolos”, incitando-os a empreender a explicação dos Evangelhos “em espírito e verdade”, explicação que, dizia-o a mensagem, “preparará a unificação das crenças entre os homens”.

            E por que essas crenças, pelo menos no meio espírita, não se unificaram até hoje, como seria lícito esperar? Talvez um dos motivos provenha do fato de não haverem muitos dos que combatem Roustaing lido a obra, inteira, atenta e imparcialmente, limitando-se a folheá-Ia sem passarem, quiçá, dos capítulos iniciais do primeiro tomo!

            Kardec, todavia, sempre advertiu que nada devemos aceitar ou rejeitar senão depois de bem conhecermos e de bem havermos estudado aquilo que estivermos aceitando ou rejeitando.

            Outro motivo, em muitos casos, terá sido o desconhecimento do verdadeiro juízo do Codificador a respeito dessa extraordinária obra mediúnica. E qual foi esse juízo? Publicada em 1866, Roustaing dela ofereceu um exemplar a Allan Kardec que, em junho de 1867, na “Revue Spirite”, disse entre outras coisas:

            "Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com o auxilio de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem para os espíritas o mérito de não estar em contradição, por qualquer de suas partes, com a doutrina ensinada no Livro dos Espíritos e no dos Médiuns.” (Os grifos são nossos).

            Portanto, é Kardec quem o afirma com a sua autoridade: a obra é meritória e em nada contradiz a doutrina por ele codificada! Pouco adiante, aludindo ao fato de haver a obra tratado de questões que ele não havia ainda julgado oportuno abordar, diz Kardec:

            "O autor desta nova obra julgou dever seguir outra orientação: em lugar de proceder gradativamente, quis de um salto atingir o fim. Assim é que tratou de certas questões que ainda não julgáramos oportuno abordar e a respeito das quais, portanto, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que as comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, a essas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, confiando ao tempo o encargo de as sancionar ou contraditar. Convém, pois, considerar tais explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, que, em todo caso, precisam da sanção, da apreciação universal e, até confirmação mais ampla, não devem ser tidas como parte integrante da doutrina espírita.” (Os grifos são nossos).

            Eis aí o juízo do Codificador do Espiritismo sobre a obra publicada por Roustaing, juizo que, infelizmente, tem sido muito esquecido! Ainda uma vez, Allan Kardec, chamado por Camille Flammarion “o bom senso encarnado”, dá prova de sua prudência. A Doutrina estava incipiente e tenazmente combatida, especialmente na França, onde o Clero sempre exerceu considerável influência. Necessário era, portanto, agir com cautela, nada afirmando, nada avançando que não pudesse resistir aos ataques bem urdidos que logo surgiriam. Ele próprio o disse, ao explicar porque, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, circunscreveu-se “às máximas morais que, com raras exceções, são geralmente claras” e não poderiam, por isso, ser interpretadas de maneiras diversas:

            "Essa a razão que nos levou a começar por aí, a fim de sermos aceito sem contestação, aguardando, relativamente ao "mais, que a opinião geral se encontrasse familiarizada com a ideia espírita." (O grifo é nosso).

            Eis por que, sem dúvida, Allan Kardec, precisando agir cuidadosa e gradativamente, pensava não haver ainda chegado o momento de abordar certas questões divulgadas por Roustaing, o qual, segundo ele, “quis de um salto atingir o fim”. Pela forma por que se expressou, Kardec deixa supor que estava reservando “para o fim” o estudo de certos  princípios tratados em “Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação”, entre eles o do corpo fluídico de Jesus, e, em nota ao item 65 do Capítulo XV de “A Gênese”, último livro que publicou, reforça essa suposição.

            Ora, deve ter sido, precisamente, esse “salto” que levou Bezerra de Menezes, então Presidente da Federação Espírita Brasileira, a escrever, após haver durante 14 anos estudado a obra publicada por Roustaing:

            "Roustaing confirma o que ensina AIlan Kardec, porém adianta mais que este, pela razão que já foi exposta acima. É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing", e a fazer publicar em “Reformador”, a partir de 15 de janeiro de 1898, a sua primeira tradução para o nosso idioma, de autoria do Marechal Francisco Raimundo Ewerton Quadros, que foi também o primeiro Presidente da Federação.

            Em verdade, qual a responsabilidade de Roustaing em querer de um salto atingir o fim? Nenhuma, pois agiu sempre e em tudo de acordo com as instruções dos Espíritos que ditaram a obra! Pode-se duvidar, do caráter mediúnico dessa obra? Kardec jamais teve dúvidas a respeito, pois, nos, trechos retro transcritos, por três vezes ele sanciona esse caráter: a primeira, quando diz que ela foi escrita “com o auxílio de comunicações ditadas pelos Espíritos”; a segunda, quando deixa a responsabilidade das questões abordadas a Roustaing, “assim como aos Espíritos que as comentaram”; a terceira, e de forma irretorquível, quando considera as explicações “como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam”.

            E pode-se, de outro modo, duvidar da autenticidade desses Espíritos? Tampouco, tal a sublimidade de sua linguagem, a manifestação inequívoca de seu total conhecimento dos textos evangélicos, dos acontecimentos, dos lugares, dos personagens, de tudo, enfim, relacionado com a passagem do Mestre pelo nosso planeta e, sobretudo, a excelsitude dos ensinamentos ministrados e o incomensurável conteúdo moral das revelações.

            De duas, uma: ou a obra é mediúnica ou não o é! Acreditamos que a segunda hipótese é por todos repelida, pois ninguém, em sã consciência, poderá admitir que um homem da estatura moral de Jean-Baptiste Roustaing se houvesse prestado a farsa tão grosseira ou que a Senhora Collignon fosse capaz, anos a fio, de iludir a boa fé de um dos mais ilustres advogados da Corte Imperial de Bordeaux, escrevendo diante dele vastíssimo trabalho de sabedoria imensa, muitas vezes superior aos seus conhecimentos e de conceitos morais tão elevados que conflitam com qualquer ideia de fraude! E, certamente, por isso mesmo, Kardec nem de leve admitiu a hipótese, logo sancionando o caráter mediúnico da obra.

            Assim sendo, poder-se-á admitir que espíritos galhofeiros, a ponto de se fazerem passar pelos quatro Evangelistas, houvessem tido elevação bastante para ditar páginas e páginas das mais belas, das mais puras, de maior conteúdo moral que se possam ler? Não! Evidentemente não!

            Ora, diziam, por vezes, os Evangelistas, que agiam em nome e de acordo com as ordens de Jesus e, portanto, a ninguém melhor do que a eles poderia, realmente, ser atribuída, como a atribuiu Kardec, a responsabilidade, não só das revelações, como da oportunidade de sua divulgação.

            Kardec, o grande missionário, o sublime Codificador da Doutrina Espírita, ensinou-nos muitas vezes que os Espíritos se identificam pela linguagem de que fazem uso. No Capítulo XXIV de “O Livro dos Médiuns” estão magnificamente resumidos em 26 princípios os meios de se conhecer a qualidade dos Espíritos; basta relê-los para que se não possa duvidar da autenticidade das comunicações recebidas pela Senhora Collignon e, após a necessária coordenação, publicadas por Roustaing.

            Seja isso motivo de reflexão e reflitamos também sobre o seguinte fato, que parece, outrossim, revelar claramente os desígnios do Alto.

            Em 1861, quando ao final do ano, em dezembro, Jean-Baptiste Roustaing foi escolhido, em condições singulares, para desempenhar tão bela quão importante incumbência, Allan Kardec, que já havia publicado em 1857 “O Livro dos Espíritos” e em 1859 “O Que é o Espiritismo”, dava a público, pouco antes, “O Livro dos Médiuns”, que Roustaing tivera tempo de ler. Ora, a obra impropriamente chamada “Os Quatro Evangelhos de Roustaing” não é de Roustaing: é mediúnica! (1)

            (1) - Dizemos "impropriamente" porque do insigne advogado da Corte Imperial de Bordeaux a obra não contém, além do Prefácio, senão perguntas formuladas, de quando em vez, aos Espíritos, com o propósito evidente de ver reforçado este ou aquele conceito ou de tornar, se possível, mais claros certos ensinamentos por eles ministrados, sendo, portanto, também, uma impropriedade falar-se em "roustainistas", pois Roustaing, de si mesmo, nada ensinou, nem foi autor de qualquer doutrina.

            Atentemos para as circunstâncias: tão logo o Codificador, em livro magistral, cumpre a tarefa de revelar ao mundo os segredos da mediunidade, o Alto atribui igualmente a Roustaing o encargo de utilizar a mediunidade da Senhora Collignon para coordenar e divulgar as explicações dos textos evangélicos, ditadas pelos próprios autores.

            Quanta harmonia nas missões confiadas a um e outro! Enquanto o primeiro, em Paris, a Cidade-Luz, entregava-se, com extremada prudência e admirável lucidez, ao trabalho sublime de codificar e difundir a Doutrina Espírita, o segundo, em Bordeaux, nessa mesma França de tantas tradições espirituais, entregava-se a outro trabalho sublime também: o de propagar a verdadeira interpretação dos Evangelhos de Jesus, nos quais, em última análise, aquela Doutrina se fundamenta!

            Oxalá possa a reflexão sobre fatos tais contribuir, senão para “unificar” as crenças entre os homens, pelo menos para dirimir, entre os espíritas, controvérsias e incompreensões oriundas, queremos crer, de ideias preconcebidas ou de estudo incompleto dos diferentes aspectos da questão.

Kardec e Roustaing
Ivo de Magalhães

Reformador (FEB) Julho 1971

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