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sábado, 15 de agosto de 2015

Odioterapia



A jovem viera de um sanatório.

            Ali, na singela sala do agrupamento espírita-cristão, revelava-se inquieta, irrequieta, músculos em contrações que prenunciavam agressividade, ríctus dolorosos que, entremeados com sorrisos, lhe deformavam a juvenil fisionomia.

            Afirmava-se incurável e, ao mesmo tempo, inconformada com o seu estado.

            Queria curar-se.

            Avizinhava-se de violenta crise.

            Somente a Misericórdia Divina, em nos conhecendo as fraquezas, a favorecia com o temporário equilíbrio, permitindo-nos o diálogo em que ela relatava os seus problemas interiores, algumas das torturas de suas noites de pesadelo.

            Trincando os dentes, informou:

            - E o médico me assegurou que a minha cura estará em eu reunir todas as pessoas com quem não simpatizo, e com as quais tenho divergência, e lhes dizer, a todas juntas, tudo o que sinto e penso delas.

            À afirmativa amargosa, inda juntou:

            - Tenho tanto ódio...

            Essa odioterapia sempre nos assombra!

            Cada caso que se repete, espanta-nos.

            Refletimos bastante sobre tais recomendações.

            Diante de quadros que são efeitos justamente do desencadeamento do rancor, do ódio trabalhado em múltiplas experiências reencarnatórias, da cólera cultivada nos espetaculosos duelos mentais em que nos conflitamos com os semelhantes - onde falha o eletrochoque, onde falece a insulina, temos recolhido essas soluções verdadeiramente mágicas de odioterapia, violência-terapia, vingança-terapia, quais remanescentes das atitudes brutais dos que faziam de honra a máxima: “Não leve desaforo para casa.”

            O infeliz enfermo, confiando-se ao conselho desesperado de seu orientador, provocará uma reação em cadeia: extravasando o rancor, recolherá rancor; distribuindo ódio e acumulando ódio, raramente se desvinculará das fichas que fazem o seu calendário de frequência nos sanatórios.

            A falsa-sensação de alívio que o bilioso diz experimentar, após suas indisciplinadas manifestações de rancor, logo após “dizer tudo o que pensa e tudo o que quer”, é sempre seguida de um agravamento do mal, agravamento este que a sabedoria popular define com profunda grandeza: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer.”

            O parecer, distribuído a esmo, fatalmente induzirá o doente a sustentar, por tempo indefinido, a posição em que hiberna o seu senso moral: “a de vítima de um mundo que o não compreende”, distanciando-o daquele esforço indispensável de romper a cristalização do egoísmo em que se enclausura a sua alma.

            Haverá menos desajustados com Evangelhoterapia.

            A alma que se confia à sábia orientação do Senhor Jesus, ao sol de seu Evangelho, ter mina por abrir frestas na sua auto prisão, liberando-se do auto martírio a que se confia dolorosamente e, aí sim, criando condições ideais para seu alevantamento espiritual.

            Ninguém aniquila tiririca, semeando tiririca.

            Impossível acabar com pernilongos, promovendo o pântano.

            Drena-se o charco com água corrente e não com lama.

            Terrenos incultos serão ninhos de serpentes.

            Na certa que a recomendação espírita-cristã nem sempre é acolhida de bom ânimo por nós, doentes da alma, porque não corresponde à nossa ânsia de ódio, à nossa fome de vingança, aos nossos ensaios de rancor. Incomoda-nos, inclusive, por revelar a nossa autêntica posição, nos quadros da vida: a de algozes e não a de vítimas. Parece-nos menos eficiente, por apelar para sentimentos de fraternidade, de compreensão, de harmonia. Não tem o sabor fantasioso de soluções mágicas e nem fala por linguagem cabalística, mas nos aponta a urgência de nosso ajustamento às Leis Espirituais que nos regem a vida.

            É a recuperação de nosso deteriorado sentimento religioso, cuja pureza se diluiu, no escoar de milênios, sob a ganga de dogmas e rituais, paramentos e sacerdócio.

            Espiritismo é negação da odioterapia.
Odioterapia
J. Alexandre

Reformador (FEB) Maio 1970

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