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sábado, 15 de agosto de 2015

As escolas da fé



"Pugnar pela laicidade absoluta do ensino mantido oficialmente, esclarecendo os estudantes, sejam crianças ou jovens, sempre que necessário, quanto à conveniência de se absterem, cordialmente, quando possível, das aulas de instrução que veiculem noções religiosas contrárias à Doutrina do Espiritismo. O Lar e o Templo são as escolas da fé."
                                   ‘Conduta Espírita’, de André Luiz, por Waldo Vieira, pág. 119, edição da FEB)

            A Doutrina Espírita é o poderoso instrumento da Providência Divina para a realização da maior e mais importante edificação de toda a história do Espírito nos planos da evolução terrestre: a do "reino de Deus" na consciência de cada um, mediante o progressivo conhecimento da verdade, individual e voluntariamente conquistável, que a todos finalmente tornará livres, segundo a palavra do Mestre Nazareno (João, 8:32).

            A transformação do mundo pelo aprimoramento espiritual dos indivíduos é meta programada que só será atingida plenamente, sem dolorosas dilações, se forem observadas a diretriz e a base do plano geral ora em curso de execução na crosta e nas zonas espirituais que lhe são próximas.

            Os Espíritos Superiores, sintonizados com a Terra há mais de cem anos, têm-nos orientado, de forma intensiva e ostensiva, pela via medianímica, sobre os métodos e os recursos, "lícitos e convenientes", de que devemos servir-nos conscientemente na integração solidária ao movimento evangélico de regeneração da Humanidade. "Jesus desempenhou o mais alto apostolado da Terra sem uma cátedra de academia mas não se projetou nos séculos sem as letras sagradas do Evangelho". "Judas era um discípulo fiel a Jesus, mas,) um dia, acreditou mais no poder frágil da Terra que na administração do Céu, e traiu a si mesmo" ("Falando à Terra", mensagens de Isabel de Castro e Demétrio N. Ribeiro, por Francisco Cândido Xavier, edição da FEB.)

            Se a Terceira Revelação, universal, progressiva e permanente, é dos Espíritos, não queiramos, na condição de aprendizes ou beneficiários, antepor-lhe ao roteiro seguro as nossas preferências pessoais, interferindo no âmbito das generosas e sábias decisões do Alto. "Não alcançaremos a libertação verdadeira sem abolir o cativeiro da ignorância no reino do espírito”. "A luz do espírito não se transmite nem por imposição nem por osmose. Quem aspire a entesourar os valores da própria emancipação íntima à frente do Universo e da Vida, deve e precisa estudar" ("Estude e Viva", de Emmanuel e André Luiz, por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, edição da FEB.)

            A fim de instruir-se, educar-se, aprimorar-se espiritualmente nas disciplinas que o conduzirão ao autoconhecimento de si mesmo, o Espírito vincular-se-á aos livros, para sempre.

            André Luiz, o esclarecido Espírito que tem ditado ao mundo obras tão notáveis nos últimos decênios, é claro na sua recomendação quanto à "laicidade absoluta do ensino", pela qual devemos pugnar, e categórico quando proclama que "o Lar e o Templo são as escolas da fé." É que existe todo um plano pedagógico, pujante e vivo, arquitetado nas Esferas Superiores e em fase de implantação na Terra, orientado segundo diretriz de eternidade e universalidade, diretriz esta vinculada às necessidades e interesses cármicos de indivíduos e coletividades, e conduzido com base no Evangelho do Divino Mestre. "Um templo espírita é, na essência, um educandário em que as leis do Ser, do Destino, da Evolução e do Universo são examinadas claramente, fazendo luz e articulando orientação, mas, por isso, não deve converter-se num instituto de mera preocupação academicista. Manterá o simpósio dos seareiros experientes, sempre que necessário, mas não o situará por cima da obra de evangelização popular" (obra "Estude e Viva", citada.)

            À luz de tais princípios, não é o caso de adquirir-se conhecimento doutrinário-cristão nas escolas humanísticas, mas de dotar os espíritas de conhecimento vivo do Espiritismo e do Evangelho, a fim de que a sua presença em todos os departamentos da cultura terrena possa influir na espiritualização das tendências e conceitos de inspiração materialista. Emmanuel, no livro "O Consolador", pág. 19, 5ª edição da FEB, respondendo à pergunta nº 1 ("Tem o Espiritismo absoluta necessidade da ciência terrestre?"), assim se expressa: "Essa necessidade de modo algum pode ser absoluta. O concurso científico é sempre útil, quando oriundo da consciência esclarecida e da sinceridade do coração. Importa considerar, todavia, que a ciência do mundo, se não deseja continuar no papel de comparsa da tirania e da destruição, tem absoluta necessidade do Espiritismo, cuja finalidade divina é a iluminação dos sentimentos, na sagrada melhoria das características morais do homem.”

            O Espiritismo não está na Terra para disputar com as correntes religiosas, filosóficas e científicas um "lugar ao sol", num incabível paralelismo, e isso muito natural e simplesmente porque ele é Sol de primeira grandeza, com luz suficiente para iluminar os lugares escuros em que tais correntes ainda se comprazem. Proclamando a superioridade da Revelação dos Imortais, não admitimos, por extensão, o que seria contra senso, quaisquer virtudes aos que lhe esposam os princípios.

            "Toda escola é centro indutivo". "O invento pede uso, a teoria espera demonstração. Assim também na experiência religiosa. Imaginemos se o Cristo, a pretexto de angariar contribuições para as boas obras, houvesse disputado a nomeação de Mateus para exercer as atribuições de chefe do erário, no palácio de Antipas; se, para garantir o prestígio do Evangelho, passasse a frequentar os corredores do Pretório, com o intuito de atrair as atenções de Pilatos; e, para favorecer a causa da Boa Nova, resolvesse adular os familiares de Anás, oferecendo-lhes passes magnéticos para curar-lhes as enxaquecas; ou se, para preservar-se na grande crise, tivesse provocado um entendimento com essa ou aquela autoridade do Sinédrio, acomodando-se ao mercado das influências políticas, junto do povo..." ("Justiça Divina", de Emmanuel, por Francisco Cândido Xavier, pág. 159, edição da FEB.)

            Na história da Igreja Cristã temos exemplos dos resultados desastrosos da ingenuidade dos que duvidaram da onisciência da "administração do Céu". Individualmente, "Judas traiu a si mesmo". Coletivamente, os cristãos, após a vitória do movimento, ao preço de sacrifícios imensos, por mais de 3 séculos, nos circos da demência humana, conseguiram "um lugar ao sol" a partir de Constantino (ln Hoc Signo Vinces). A seguir, a Igreja mudou de nome, trocou o Evangelho pela teologia que engendrou, esqueceu o programa e transformou-se em máquina infernal de opressão, sangue e sombra por cerca de 15 séculos, tudo pretensamente em nome do Manso Cordeiro de Deus. Com EscoIástica.

            A presciência do Cristo previra o advento de tais aberrações, e estas constituirão sempre experiência amarga, com sabor de advertência a todos nós.

            Em 1937, o Espírito Emmanuel, no livro intitulado "Emmanuel", nas últimas páginas (7ª edição da FEB), analisando as necessidades das reformas sociais em nossos tempos de indecisão espiritual, declara que elas deverão processar-se "sobre a base do Evangelho". "O plano pedagógico que implica esse grandioso problema tem de partir ainda do simples para o complexo. Ele abrange atividades multiformes e imensas, mas não é impossível". "Urge reformar, reconstruir, aproveitar o material ainda firme, para destruir os elementos apodrecidos na reorganização do edifício social. E é por isso que a nossa palavra bate insistentemente nas antigas teclas do Evangelho cristão, porquanto não existe outra fórmula que possa dirimir o conflito da vida atormentada dos homens". "Urge, sobretudo, a criação dos núcleos verdadeiramente evangélicos, de onde possa nascer a orientação cristã a ser mantida no lar, pela dedicação de seus chefes. As escolas do lar são mais que precisas, em vossos tempos, para a formação do espírito que atravessará a noite de lutas que a vossa Terra está vivendo, em demanda da gloriosa luz do porvir. Há necessidade de iniciar-se o esforço de regeneração em cada Indivíduo, dentro do Evangelho, com a tarefa nem sempre amena da autoeducação. Evangelizado o indivíduo, evangeliza-se a família; regenerada esta, a sociedade estará a caminho de sua purificação, reabilitando-se simultaneamente a vida do mundo". "As atividades pedagógicas do presente e do futuro terão de se caracterizar pela sua feição evangélica e espiritista, se quiserem colaborar no grandioso edifício do progresso humano". "A intelectualidade acadêmica está fechada no círculo da opinião dos catedráticos, como a ideia religiosa está presa no cárcere dos dogmas absurdos. Os continuadores do Cristo, nos tempos modernos, terão de marchar contra esses gigantes, com a liberdade de seus atos e das suas ideias. Pior enquanto, todo o nosso trabalho objetiva a formação da mentalidade cristã, por excelência, mentalidade purificada, livre de preceitos e preconceitos que impedem a marcha da Humanidade. Formadas essas correntes de pensadores esclarecidos do Evangelho, entraremos, então, no ataque às obras."

            Podemos observar, decorridas apenas três décadas do pronunciamento de Emmanuel, que a mentalidade cristã encontra-se, nos arraiais espiritistas, em fase de floração, prenunciando os frutos maduros do milênio vindouro que, segundo a revelação sempre reafirmada pelos Instrutores Espirituais, marcará indelevelmente a vida humana, quando a Terra, na escala hierárquica dos mundos, superando a atual de expiação, atingirá a categoria de orbe de regeneração. Sem Escolástica.

            A tarefa imensa é desafio a todos nós que desejamos sinceramente participar da caravana dos trabalhadores não constrangidos da grande seara do Senhor. Enquanto operamos e esperamos, porém, "não olvidemos os impositivos da aplicação com o Cristo, no santuário familiar, onde nos cabe o exemplo da paciência, compreensão, fraternidade, serviço, fé e bom ânimo, sob o reinado legítimo do amor, porque, estudando a Palavra do Céu em quatro Evangelhos, que constituem o Testamento da Luz, somos, cada um de nós, o quinto Evangelho inacabado, mas vivo e atuante, que estamos escrevendo com os próprios testemunhos, a fim de que a nossa vida seja uma revelação de Jesus, aberta ao olhar e à apreciação de todos, sem necessidade de utilizarmos muitas palavras na advertência ou na pregação" (Mensagem nº I, de Emmanuel, da obra "Luz no Lar", por Diversos Espíritos,
recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, edição da FEB.)

            Confiamos hoje que, com o Espiritismo, não ocorrerá nada de semelhante ao que ocorreu com a igreja escolástica. eIe cumprirá fielmente seu destino, "com os homens, sem os homens e apesar dos homens".

As escolas da fé
por Francisco Thiesen

Reformador (FEB) Julho 1971 

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