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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Temas: 'Festividades dentro do Centro Espírita' por Ignacio Bittencourt



Espiritismo,
Evangelho... 
e  festividades
(Resposta à consulta de um amigo terreno)

  
Inácio Bittencout
Recebido pela médium Yvonne A. Pereira em 28-5-1959
publicado no Reformador (FEB)  em  Agosto 1959
           
            Muito amável e desvanecedor o teu gesto, meu amigo, lembrando-te de mim em meio das confusões desse mundo em que ainda vives, recorrendo à opinião do teu velho Inácio, da Rua Voluntários da Pátria n. 20, agora que ele já não te pode à viva voz falar.
            Vejo que, como espírita, aderiste ao movimento denominado ‘Mocidades Espíritas’, e de um grupo de jovens te tornaste mentor. Felicito-te pelo elevado encargo moral-espiritual que a ti mesmo conferiste e daqui, da minha banda deste Além cheio de realidades e surpresas, formulo sinceros votos ao Criador para que bem te desincumbas de tão espinhosa missão.
            Na Terra ainda, quando eu te conheci, tu eras muito jovem e não eras espírita... E já agora estás à frente de um pastoreado de almas!... Vem ao caso perguntar-te, meu amigo, se, do tempo que me passei daí para cá, ou seja, da Terra para o Além, já conseguiste aquisições e cabedais tão vastos para uma tarefa de tal vulto?!...
            Mentor de Mocidades!...
             Aqui também, no além-túmulo, existem coisas parecidas com esse movimento em que te observo empenhado. Acredito mesmo que esse caso de ‘Mocidades Espíritas’ tende a evoluir, melhorando-se, reajustando-se, nobilitando-se e, acima de tudo, cristianizando-se para uma finalidade augusta. Apenas depois que tua gentileza bateu à minha humilde porta de além-morte, à cata de minha modesta opinião, é que me entreguei com maiores atenções, à observação dos acontecimentos que tanto te vêm preocupando e mesmo empolgando.
            Perguntas-me, ‘santamente ingênuo’, como talvez dissesse, ainda hoje, aquele adorável mártir Giordano Bruno, se será lícito fazer-se de um Centro Espírita um misto de Templo religioso, de Santuário de Ciências Espirituais e de auditório de teatro ou sala de concertos, para cativar os teus jovens pupilos iniciantes de Espiritismo?... Oh, meu amigo! Eu poderia perguntar-te, respondendo, se o que tu tens aprendido nos livros de Doutrina Espírita, depois do meu trespasse para o lado de cá, autoriza alguém a promover forrobodós e ‘soirés’ num lugar sagrado, isto é, num Centro Espírita, que nós, os desencarnados, respeitamos no mais alto grau, como sendo um Santuário, e onde vós outros, os encarnados, costumam ser consolados das vossas dores e provações com a presença dos vossos mortos queridos e os conselhos dos grandes Espíritos instrutores da Humanidade, a serviço de Jesus! Vale aqui declarar-te que essas encenações assaz medíocres, a que, com surpresa, assistimos de há uns tempos para cá, invadindo os Centros Espíritas, são muito estranhas e ficam muito mal onde certa corrente de espiritistas as tem querido colocar. Creio, filho, que aos teus jovens subordinados, como mentor que te confessas de um grupo de moços, deves aconselhar, em primeiro lugar, a assimilação da Doutrina Espírita, essa sublime Terceira Revelação, mais cheia de encantos e atrativos do que os teus teatros e recitais; que eles a aprendam, sim! sob a direção sadia e firme das tuas orientações, para que bem cedo se tornem cidadãos respeitáveis, espíritas responsáveis para carregarem o peso das verdades que ela, a Terceira Revelação, ainda não acabou de ditar aos homens. Esta é que é a finalidade do Consolador! 
            Quanto aos teatros, aos recitais, etc., se eles quiserem e tiverem vocação para qualquer ramo das Artes, nada existe na Doutrina Espírita que os impeça a se habilitarem nele. Que aprendam a boa música, o bel-canto; que se tornem bons declamadores, bons poetas. Que se façam até atores e bailarinos e levem tão belas aquisições a moralizarem os ambientes profanos, a fim de educá-los com sua altivez e dignidade pessoais, pois prestarão à Causa Espírita e à Sociedade terrena um serviço grandioso. Serão assaz admirados se conseguirem cursar um Instituto que bem desenvolva neles tais valores, pois que, uma vez edificados na Doutrina, saberão nobilitar tudo o em que tocarem.
            O que, porém, eu, como Espírito desencarnado hoje, e ontem como espírita que dedicou toda a sua vida a serviço da Causa, não creio seja lícito, é consentires que quem quer que seja leve para o Centro que diriges a profanação das festas mundanas, dele fazendo - não mais um receptáculo das inspirações divinas, como devem ser os Centros espíritas bem orientados, mas uma platéia heterogênea onde a mediocridade da arte apresentada fará atrair os pândegos e paspalhos do Invisível, em vez dos abnegados obreiros de Jesus, os quais, assim sendo, de forma alguma poderão descer das suas sublimes tarefas a prol da salvação da Humanidade para bater palmas aos desvirtuamentos de solenidades sérias, cuja abertura tem sempre como chave máxima o nome sacratíssimo do Todo-Poderoso e de N. S. Jesus Cristo!
            O que, outrossim, não me parece ainda lícito, é tu, que te confessas orientador de ‘Mocidades’, permitires futilidades, no seio da Doutrina, a jovens inexperientes que deverão antes desejar a luz do saber e a sublimação do espírito! O que não posso aplaudir em ti, meu filho, é consentires que os teus jovens, abastardando a Doutrina com festividades de mau gosto, abastardem também as Artes, pois que (perdoa-me a aspereza da expressão) não vejo artistas entre os teus pupilos, e sim, Espíritos que, ao reencarnarem, prometeram ao Divino Mestre zelar pelo Consolador e engrandecê-lo com o devotamento inspirado no Evangelho.
            Não, meu amigo! Não faças do teu Centro Espírita um palco, uma ribalta, um ambiente confuso onde se abrem trabalhos em nome de Deus e de Jesus, para depois se permitirem festanças e teatralices que nos entristecem, a nós outros, trabalhadores do lado de cá, pois que, ainda que apresentasse Noturnos do melodioso Chopin, Sonatas do erudito Beethoven e Concertos do incomparável Mozart, ainda assim não te poderíamos aplaudir, porque a Humanidade precisa mais do amor do Cristo e da ciência de si mesma do que das peças de qualquer desses três gênios... e em seguida porque... a música, o teatro, as festas que o Invisível nos proporciona, a nós desencarnados, são de tal ordem que até mesmo Chopin, Beethoven e Mozart pareceriam insípidos diante delas... e ainda porque, meu querido amigo, não será através dos já citados forrobodós, das ‘soirés’ e noitadas ‘artísticas’ dentro dos Centros Espíritas que tu e todos os demais espíritas alcançarão um local feliz no Além-túmulo, mas com o verdadeiro Amor, o verdadeiro Trabalho e o verdadeiro Conhecimento em favor uns dos outros e pelo amor da Verdade!
            Espera, meu amigo... Lembrei-me agora de uma coisa:
            -Não tarda a volta do Esposo... Relê, estudando, a parábola das Virgens Loucas e da Virgens Prudentes... Esse ensinamento é de muita atualidade... e vejo que tu precisas dele para ensinares aos teus pupilos a obterem o azeite para que tenham a candeia bem acesa...
            Do teu velho amigo
                                               Inácio Bittencourt
           
           
Nota do Blogueiro:
            Inácio Bittencourt mereceu destacada biografia iniciada à página 384 da 2ª Edição do livro ‘Grandes Espíritas do Brasil’ (FEB) de autoria de Zêus Wantuil.
            Nascido em Portugal e desencarnado no Rio de Janeiro em 1943, legou extensa obra de caráter humanitário e doutrinário. Ativo militante do movimento espírita, foi dirigente de Centros e médium receitista sendo inclusive processado pela atividade.
            Zêus, na obra citada, assim se exprime sobre o amigo:  “Forte na fé, valoroso na humildade, impertérrito na caridade, tal se revelou este velho companheiro de lides espiritualistas e amigo muito benquisto.”


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