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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

06 'Doutrina e Prática do Espiritismo' por Leopoldo Cirne


06                   * * *

            A primeira coisa que fere a atenção, no homem, é a sua parte grosseira, exterior e visível, isto é, o corpo físico, e é para este que tem convergido as observações da ciência, explorando-o em todos os sentidos. A anatomia, examinando lhe minuciosamente a estrutura, a fisiologia, observando e classificando as funções e histologia , empreendendo o exame analítico dos tecidos, parece terem dito o suficiente para que essa maravilhosa máquina, que é o nosso corpo, (1) já não encerre segredos, no ponto de vista ao menos do seu automatismo funcional.

                (1) Grosseira embora, como a qualificamos linhas acima, em relação, porém, às faculdades morais e intelectuais e sobretudo à natureza íntima do homem.

Nota do blogueiro – Face o fracionamento do livro pelas postagens ao longo dos meses, optamos por colocar as Notas de Rodapé ao final dos parágrafos onde elas foram originalmente inseridas. Assim, refletiremos melhor o original, entendemos nós.

            E assim dizemos porque, se as pesquisas de anfiteatro e de laboratório, confirmadas pelas observações da clínica médica, tem permitido um conhecimento, de alguma sorte positivo, da vida vegetativa do organismo humano, esse conhecimento não é isento de obscuridades, quando se trata, por exemplo, de relacionar o mecanismo da inteligência e das emoções com o funcionamento, puramente fisiológico, do sistema nervoso,

            O Dr. Paul Gibier, discípulo de Pasteur e, como ele, pesquisador honesto e imparcial, vai mais longe , confessando lealmente: (2)

                (2) Ver ‘Análise das Coisas’, cáp. I, págs. 47 e 48.

            "As funções do sistema nervoso na conservação da vida orgânica são ainda muito obscuras. Se a anatomia e a histologia do aparelho ganglionar  estão bem estudadas, o mesmo não se pode dizer de sua fisiologia."

            A seu turno o Sr. Enrique Varona, um estudioso de renome, citado, páginas adiante do citado livro, pelo mesmo doutor Gibier, assim se exprimia numa de suas conferências filosóficas realizadas em Havana, tomando por tema PSICOLOGIA e ocupando-se particularmente das funções do cérebro:

            "Contemplando - diz ele - esta massa globulosa, tão cheia de anfractuosidades, sulcada por cisuras diversas, de peso de duas a três libras, cinzenta em alguns lugares, esbranquiçada noutros, experimentei sempre a maior impressão de assombro possível. Pareceu-me ver o grande enigma da psicologia surgir diante de mim, e sob a mais viva luz se me apresentou a verdade do homem em todas as soluções.

                "A fisiologia não me faz descobrir, nesse grande centro, nem outros tecidos, nem noutros elementos ou funções além das já conhecidas. Tudo quanto o mais minucioso exame faz realçar é uma diferença de estrutura, pouco  importante em si mesma."

            E acrescenta:

            "Entretanto, o mundo maravilhoso da inteligência e da imaginação, as grandezas e as misérias do sentimento, os heroísmos o os desfalecimentos da vontade – tudo o que é o homem, tudo que eleva e avilta ao mesmo tempo a humanidade, tudo está ali!"

            Não – seja-nos lícito observar por nossa parte – não está ali; teve apenas no cérebro o seu delicadíssimo aparelho de repercussão e transmissão.
           
            O ilustre literato cubano, fiel à orientação da escola positivista a que pertencia ,e, por isso, abstendo-se de uma "solução " em que se refletisse "a vaidade do homem", para se deter, expectante, nas fronteiras do que ,é unicamente accessível à percepção dos sentidos físicos, incorreu na mesma temeridade dos obstinados negadores da alma, que acreditam se estribar num argumento irrefutável, afirmando que jamais a encontraram sob as incisões do escalpelo . Pretendeu descobrir o agente onde o que restava não era mais que o instrumento abandonado.

            Esse foi, de resto, o grande erro da escola materialista, que se extingue: não ver  no homem senão o mecanismo dos órgãos e das funções e nele querer exclusivamente enquadrar a trama variadíssima de suas manifestações psíquicas, chegando ao absurdo de asseverar, ao desamparo embora das leis do  raciocínio e da própria analogia, que "o cérebro segrega o pensamento, corno o fígado segrega a bílis."

            Tão audaciosa afirmação só poderia encontrar guarida em inteligências obcecadas pelo espirito de sistema e de negativismo, que foi realmente a característica da ciência ocidental no século que findou. Porque, se, de fato, há perfeita similitude de natureza entre a secreção do fígado e esse órgão, quem haverá que de animo lúcido e isento de parcialidade seja capaz de reconhecer a mesma identidade entre a substância cerebral e o pensamento, por natureza imponderável, capaz das mais vastas e arrojadas abstrações?

            Sem dúvida, experiências modernas, tentadas mediante o que se chama fotografia transcendental, chegaram a fixar na placa as irradiações do pensamento. Essas irradiações, porém, são ainda efeitos e não propriamente a causa, tal como se dá com a eletricidade, cuja natureza íntima permanece desconhecida, só sendo apreciáveis as suas vibrações. Mais ainda, a eletricidade é uma força puramente mecânica, ou - se o preferirem - uma das modalidades da energia universal, mas de todo modo inconsciente, ao passo que o pensamento se caracteriza, não só pela imponderabilidade, mas sobretudo pela espontaneidade e pela inteligência.

            Ora, a inteligência, o sentimento, a vontade constituem os aspectos predominantes do ser humano; são qualidades ou atributos morais, podendo se exprimir com o concurso de órgãos materiais, mas não podendo ser, senão por um irrisório sofisma, assemelhados à secreção grosseira de tais órgãos.

            Uma outra falsa dedução articulada pela escola materialista, no mesmo sentido de fazer do pensamento uma espécie de resíduo orgânico do cérebro, ou mais propriamente, de reduzir a entidade física, que é principalmente o homem, a mera resultante do funcionamento cerebral, provém da correlação observada entre o desenvolvimento da substancia cortical e o grau de inteligência do indivíduo, de tal sorte que a maior inteligência corresponde sempre maior porção daquela substância .

            É sempre o mesmo engano, de confundir o agente com o instrumento e não ver que, se "a função desenvolve (mas não cria) o órgão, não é este, por sua condição de subalternidade, que pode ser a causa eficiente dos fenômenos (no caso, o pensamento ao serviço da inteligência) que determinam o seu desenvolvimento. Forçoso é, portanto, buscar fora da trama histológica e do simples mecanismo fisiológico  das funções a entidade diretora que preponderantemente as estimula.

            Qual deve ser o método para essa indagação?

            A ciência contemporânea, tendo consideravelmente aperfeiçoado os seus instrumentos de observação, não atribui valor decisivo senão ao método direto ou objetivo.

            Sem desconhecer a utilidade do seu concurso, como um critério relativo de certeza, mais não desprezando, como teremos ocasião de o fazer, no curso deste estudo, o método subjetivo, ou introspectivo, para o conhecimento da essência intima que anima o ser humano, lembraremos que a observação direta está muito longe de possuir o cunho de infalibilidade que o exclusivismo da escola materialista lhe atribui. E, para o demonstrar, não nos deteremos em recordar os enganos em que a própria ciência tem sido induzida, por confiar demasiadamente no testemunho, de resto, ilusório dos sentidos, enganos que foram muito a propósito assinalados por Flammarion num de seus magníficos escritos sobre a deficiência de tais sentidos para o conhecimento das verdades científicas . Preferimos registrar o depoimento, por mais de um título, insuspeito do notável fisiologista professor Charles Richet a propósito de um caso que, por sua expressiva singularidade, demonstra até que ponto a observação direta, multiplicada, paciente, longe de constituir um elemento de certeza, pode, conduzir a um erro, por assim dizer, inconcebível.

            Foi em sua lição inaugural, em 1887, que o eminente catedrático da Faculdade de Medicina de Paris, assim se dirigiu aos seus discípulos (1):

                (1) Ver ANNALES DES SCIENCES PSYCHIQUES, maio de 1913, artigo do Dr. J. Ochorowicz sobre a “A Tautologia experimental”, pág. 137.

                "Sabeis - disse ele - que há no cérebro, entre a parede craniana e a massa cerebral, uma membrana fibrosa resistente a dura mater.  Ora, acontece que essa dura-máter é de uma sensibilidade extrema: não se pode tocá-la, sem que o animal solte gritos de  dor. É', não direi tão sensível, senão mais sensível que um tronco nervoso. Em todo o organismo não há órgão mais sensível. Para que um cão suporte sem ganir uma picada ou uma Iaceração  na dura-máter, é precioso que esteja profundamente cloralizado.  Uma vez que nele haja o menor vestígio de sensibilidade, esta é imediatamente despertada pelo toque na dura-máter.  Parece que nada há mais fácil que verificar esse fenômeno Que haverá de mais simples, com efeito, que por a descoberto a dura-máter, punciona-la e comprovar que o cão grita e se debate?

                 "Força, entretanto, é acreditar que não é isso muito fácil, porquanto, há cem anos apenas, houve um grande fisiologista - um dos maiores, indubitavelmente - Haller, que verificou ser a dura-máter insensível. Haller estudou a sensibilidade da dura-máter mediante experiências numerosas, mas estava obcecado por Sua teoria da irritabilidade, a qual lhe fazia admitir que as partes fibrosas não são irritáveis.  

                "Pusemos a descoberto a dura-máter - diz ele - irritamos essa membrana com o escabelo e o veneno químico; o animal não sofreu dor alguma. Em um cão a dura-máter foi aspergida com óleo de vitríolo; o animal parecia contente ... – Experiência 62: com um gato. A dura-máter, descoberta, foi puncionada, irritada, queimada durante muito tempo, sem que o animal gemesse."

                "Haller refere uma dúzia de casos análogos e acrescenta: "fiz muito mais experiências que as que menciono aqui. Havia cinquenta efetuadas em 1750. Todas sortiram bom efeito com a mesma evidência e sem deixar margem a uma dúvida racional; acredito-as suficientes para demonstrar que a dura-máter é insensível. "

                "Pois bem. não, cem vezes, mil vezes não! A dura-máter é de uma sensibilidade extraordinária. É um fato categórico, fácil de ver, incontestável. Nenhuma parte do corpo é tão sensível. Como então não viu Haller esse fenômeno tão evidente? Como explicar esse erro colossal em tão fácil questão? Não o posso dizer .. Sem duvida ele tinha a vista perturbada por sua teoria: queria encontrar a dura-máter insensível e insensível a encontrava.

                Como provavelmente o fazemos hoje em dia, ele via, não o que é, mas o que queria ver. "

            E o ilustre professor adverte:

            "Não é verdade, meus senhores, que isso é inquietador para a nossa ciência?"

            Nem somente inquietador - diremos nós - mas de molde a incutir a necessária modéstia aos cientistas, tão exageradamente ufanos da experimentalidade dos seus métodos. Pois, se tudo quanto, no seu conceito, reúne as condições de indiscutível evidência, como essas experiências de laboratório, multiplicadas, repetidas, sempre com resultado idêntico, pode dar lugar a um erro de tal modo colossal, segundo o próprio qualificativo do professor Richet, que chega a parecer inacreditável, só porque o experimentador estava "obcecado" por uma ideia preconcebida (tão poderosa acaso que anestesiasse, pela ação do pensamento, as pobres vítimas da vivisseção?  será lícito aos partidários da observação direta, como exclusivo critério de certeza, continuarem a pretender para esse método o cunho de infalibilidade que lhe emprestam?
            Ao demais não basta observar, é preciso principalmente saber observar. E de que não é tão comum essa faculdade, como se presume, dá testemunho o mesmo consagrado mestre, que assim continuou o seu discurso :

            "Há, em torno de nós, fatos tão evidentes como a sensibilidade da dura-máter e que, entretanto, não vemos, porque no-los não ensinaram . Existe nisso um círculo vicioso, de que o sábio deve procurar se libertar. Não se vê senão o que se conhece. Quão mais interessante é, porém, aprender a ver o que se não conhece! É' também muito mais difícil e bem poucos homens possuem esse raro talento de observadores, para encontrar o que não procuram, o que desconhecem, o que não haviam previamente imaginado."

            Esta prudente exortação do professor Richet, em que se evidenciam aquelas tolerantes disposições de ânimo que, dezoito anos mais tarde, o levariam a observar os singulares fenômenos de materialização em Villa Carmen, na Argélia (1), não deve ser apenas meditada pelos intransigentes partidários do método experimental, cuja pretensa infalibilidade pode algumas vezes ser, como se viu, invalidada pela auto sugestão ou por outra causa semelhante. Ela será de suma utilidade sobretudo para os espíritas estudiosos, que têm tudo a lucrar, no ponto de vista do discernimento da verdade, em se precaver contra toda ideia preconcebida, que os induza a confundir com os fenômenos propriamente espíritas manifestações psíquicas de outra ordem, com soi acontecer onde a observação padece a ausência de uma sistematização criteriosa e esclarecida.

            Não antecipemos, porém, observações cuja oportunidade só se nos oferecerá mais adiante.

                (1) Ver ANNALES DES SCIENCES PSYCHIQUES, novembro de 1905.

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