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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

04 'Doutrina e Prática do Espiritismo' por Leopoldo Cirne



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             Mas não. Aos olhos do pensador, do Iniciado sobretudo, a vida humana tem muito mais bela e enobrecedora significação. Para os que vivem pelo pensamento - cultores do belo e da verdade, na literatura, nas artes, na ciência - como para os ignorados filhos do povo, curvados ao peso de suas rudes e laboriosas profissões, do mesmo modo que para a mulher, votada aos obscuros mas sagrados misteres da família, a vida é ou, pelo menos, deve para todos ser um campo de atividade propicio ao desenvolvimento das aptidões do coração e da inteligência, uma escola de disciplina e de educação da vontade, em que as próprias vicissitudes, contrariedades e revezes devem servir para exercitar a paciência e fortalecer o caráter, estimulando as sólidas virtudes, em que consiste o verdadeiro engrandecimento do individuo.

            Dir-se-á que, para firmar-se em tão elevado conceito e, sobretudo, para realizar esse ideal de incessante aperfeiçoamento interior, em meio dos conflitos e resistências do ambiente exterior, é necessária uma adiantada cultura, acessível apenas a um numero extremamente reduzido, que se poderia chamar de privilegiados.      

            Sem dúvida a educação, o preparo intelectual, o gênero de vida e o meio em que se move o indivíduo podem constituir fatores, nem sempre decisivos, como a experiência o tem mostrado – convém não o esquecer - mas em todo caso favoráveis a essa obra, mais que todas importante, de dignificação pessoal. Há, porém, uma noção fundamental que importa ao homem, antes de tudo, adquirir e que, qualquer que seja a classe a que pertença e por modesto que seja o grau de cultura que possua, bastara para exercer uma considerável influência na direção dos seus atos e na trama de seus sentimentos e mentalidade, orientando-os para o ideal que vimos apontando, É' o conhecimento de  sua natureza imortal e dos destinos que lhe estão reservados no concerto do universo.

            Quando dizemos conhecimento, não nos referimos à simples noticia de que a tal respeito, e sempre de um modo mais ou menos deficiente ou indefinido, as religiões têm sido portadoras, senão à convicção que para cada um deve resultar, quer do estudo de si mesmo quer da observação direta dos fatos da sobrevivência, quer finalmente, em relação aos destinos humanos, da aplicação do raciocínio ao mecanismo da lei de evolução, em suas mais remontadas consequências.

            Pois bem, o que o Espiritismo vem proporcionar a todos é precisamente esse conhecimento, documentado e analitico, pondo-o, pela simplicidade de suas teorias e pela evidência de suas demonstrações, ao alcance dos de menos desenvolvida e cultivada inteligência. E é por isso que, se tem conquistado a adesão de grande numero de intelectuais em todo o mundo, é sobretudo nas classes obscuras da sociedade que conta com maioria dos seus adeptos. Porque são principalmente esses, os espoliados da fortuna, ansiosos de alguma coisa mais que as rudes privações e os sofrimentos sem conforto, que mais aptos se encontram para a cogitação do magno problema e para a aquisição da suprema verdade que, acima de tudo, importa conhecer.

            Nem foi por outro motivo que o Divino Mestre exalou de seu coração, tão cheio de misericordiosa solicitude por todos os sofredores e desprezados, aquela, na aparência, enigmática exclamação :

            "Graças te dou: Pai, Senhor do céu e da terra porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos!"

            Essas coisas, relativas ao que outrora se considerava o "mistério do reino dos céus" e hoje é clara e abertamente revelado, entendem com a natureza íntima do homem, com a sua origem, o seu papel no mundo e os seus destinos na criação eterna.

            Quando forem por todos conhecidas, como o são dos iniciados no Espiritismo, é indubitável que a vida humana, encarada em seu verdadeiro ponto de vista e compreendida em sua nobilitante significação, cessará de ser esse instrumento de gozos subalternos, em que muitos a tem feito consistir, ou um motivo de revolta e desespero a que tantos tem sucumbido e continuam outros, em vertiginoso aumento, a sucumbir em nossos dias, para se transformar no incidente, que de facto é - mas incidente augusto e de incalculáveis consequências - na eternidade em que é chamado o espírito a viver, construindo pacientemente, por seus próprios e cada vez mais conscientes e disciplinados esforços, o edifício de seu aperfeiçoamento indefinito, até ser consumado na unidade divina - supremo apogeu dlo seu destino.

            Mas não antecipemos as conclusões. Comecemos, antes, por estabelecer metodicamente as premissas que lá nos hão de conduzir.

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