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domingo, 27 de março de 2011

24/50 'Crônicas Espíritas' por Frederico Figner




Meu caro padre Dubois:

            No seu discurso do Concílio do Vaticano, o bispo Strossmayer, doutor em Filosofia, doutor em Teologia, professor no seminário de Djakovo, professor de Direito Canônico na Academia de Viena e finalmente bispo de Djakovo, provou à saciedade com os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e os livros existentes no próprio Vaticano:

            1º Que Jesus não cogitou nunca de fazer de Pedro papa;
            2º Que Pedro jamais soube que era papa;
            3º Que os seus companheiros, os outros apóstolos, também o ignoravam e, 
em vez de receber ordens de Pedro, ao contrário, dava-lhas e ele as executava;
            4º Que Pedro nunca praticou ato algum como papa e que duvidosa 
é a sua estada em Roma;
            5º Que a Igreja de Jesus não foi edificada sobre Pedro e sim sobre a confissão de Pedro, que é a seguinte: “Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo”; sobre esta confissão é que o Cristo edificou a sua Igreja, isto é, sobre si mesmo, segundo a valiosa confissão de Santo Agostinho, S. Cirilo, Santo Olegário, S. Crisóstomo, Ambrósio, arcebispo de Milão, S. Basílio de Salência e dos padres do Concílio de Calcedônia, e isto parece razoável, visto que Pedro faliu negando Jesus por três vezes e Jesus não edificaria sobre tão frágeis alicerces a sua Igreja;
            6º Que o papado é devido à ambição e ao orgulho desmedido dos bispos de Roma e ao ato de vingança do imperador Focas, assassino cruel que, em 607, elevou Bonifácio III a “bispo universal”, não havendo papas antes dessa época;
            7º Que o próprio Pio IX negou a infalibilidade dos seus antecessores, visto que na bula que lançou, para os trabalhos do Concílio do Vaticano, revogou tudo que não estivesse de acordo com as determinações do Concílio por ele presidido;
            8º Que muitos papas foram hereges, idólatras, apóstatas e que as próprias cortesãs do Vaticano faziam os seus amantes serem papas;
            9º Que o papado era o reinado do deboche em certa época da tal infalibilidade papal;
            10º Que, de fato, às críticas dos adversários, a Igreja só opõe o silêncio, como o predisse o bispo Strossmayer; e, finalmente, que a Igreja preferiu a doutrina de Loiola: “Para dominar o mundo, os fins justificam os meios” à do Cristo, que ensinou: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam”.
           
            Temos de reconhecer que se não pode duvidar da sinceridade deste ilustre prelado e do valor das verdades por ele emitidas, sem temor, num meio tão adverso e apaixonado.
            O bispo Strossmayer, apesar de ter dito todas essas verdades à face do papa Pio IX, não foi excomungado e o Concílio votou a infalibilidade pela esperança que animava muitos dos bispos de um dia também serem papas infalíveis. Se não tivessem sido verdadeiras as asserções do bispo Strossmayer, certamente o papa não teria vacilado em excomungá-lo, como também a todos os bispos, que, como ele, votaram contra a infalibilidade.
            E, olhando em torno de nós, que é que se observa? A Igreja, porventura, conserva a simplicidade dos tempos apostólicos? Não, por certo!
            Viajei um dia com o arcebispo de S. Paulo, no mesmo trem; e, nas estações onde o trem parava, entravam senhoras e moças que, ajoelhando-se diante dele, beijavam-lhe a mão. Lembrei-me logo de Pedro, que mandado por um Espírito ensinar o Evangelho a Cornélio, em Cesaréia, consternado gritou-lhe, quando este se prostrara aos seus pés: “Levanta-te que eu sou um homem como tu!” Que diferença há entre o grande apóstolo e o arcebispo! – pensei eu comigo.
            E já que se tratou do papa e da sua infalibilidade, pergunto-lhe: em que consiste o seu valor se, em resposta à exortação que dirigiu às suas ovelhas para que se vestissem com mais decência, observa-se que, como diz o ilustrado cronista da “Seleta”, Sr. Lutécio Sena:
            “Aquilo que ainda há bem pouco tempo só se admitia nas “cocottes”, mas atraindo as iras e a indignação das matronas e mães de família, é hoje não só admitido, mas praticado por elas, que em muitos casos excedem as filhas no “deshabillé” dos seus vestidos, que as fazem perder toda a linha de compostura e decoro. Senhoras e senhoritas, moças e velhas, magras e gordas vestem-se de modo a não ocultar as suas formas, mas, muito pelo contrário, fazem questão de pôr em evidência o progresso do despido... em todos os bailes e festas da melhor sociedade e até nas próprias igrejas.”
            E já que condescendi em reencetar as nossas conversas, meu caro Dubois, faça-me o obséquio de ler e meditar os ensinos evangélicos de Jesus e os Atos dos Apóstolos, e analisar o que o bispo Strossmayer disse no Vaticano, dizendo-me depois, com toda sinceridade, se ainda é de opinião que a Igreja Católica Apostólica Romana é cristã.

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