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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Mistério Simples



Mistério Simples
        
            Como pode a luz sublime mesclar-se de sombras tenebrosas? ou a celeste harmonia de sons desajustados e confusos? ou a nobreza diluir-se em felonia? ou o amor se pintalgar de ódios?

            Não sei. Mas, porque será que o coração humano junta ternura com revoltas, carinhos com ciúmes, amor elevado com rudezas insensatas?

            Tal como um diamante precioso cercado de gangas Impuras e enfeantes, ele palpita e vibra, oscilando, qual pêndulo singular entre incompreensíveis paradoxos, como se a dança dos extremos mais chocantes lhe fosse o clima natural, ande se pudesse ele movimentar sem mais percalços nem cuidados.  

            Nobre vilão, tão pronto ao amor, quão dado à raiva; tão disposta a sofrer ou a torturar: tão fortemente frágil, quão, na sua fraqueza, resistente: - quem te pode penetrar nos íntimos arcanos, ó mistério que se dá e se recolhe, que se vela e que se mostra, num mentiroso caleidoscópio de verdades indefiníveis ou num irretratável suceder de loucas ilusões? 

            Coração humano! Misto imponderável de antagonismos indevassáveis e profundos: como podes, sendo anjo de trevas; seres, ao mesmo tempo, um demônio de luz?

            Tens em ti o radiar excelso dos formosos paraísos, e guardas, no absconso de teus imos, as chamas enrubescidas dos orcos de insânia e fel!...

            E, todavia, és um mistério simples, tão simples e singelo como uma verdade imperfeita ou como um sonho incompleto...

            És claro, tão claro como o leito dum córrego límpido a deslizar mansamente pela relva...

            E és cioso e inconstante como a "Rosa dos Ventos", que se volve para o Sul ou para o Norte, para o Oriente ou para a Oeste, ao sabor das virações...           '

            Do mesmo modo que as velas dum saveiro às quais a aragem marinha enfuna ou deixa murchas, também tu, coração, te fremes de entusiasmo ou te emudeces de frieza, te exalças de vibração ou te entorpeces de langor, tais sejam os sopros dos psiques que te bafejam as cordas da lira sensorial!           

            Por isso, ante as canções que te louvam e os libelos que te acusam, eu te contemplo, no silêncio do meu sorriso triste e na melancólica expressão do meu olhar, porque eu sei, coração, que não és bom nem mau, nem anjo, nem demônio: - és apenas uma harpa delicada e caprichosa, que emite sons de odes ou de elegias, de júbilo ou de dor, ao toque dos dedos que a tangem, nos transportes da emoção ...




Hernani T. Sant’Anna


in “Reformador” (FEB) Abril 1950



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