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domingo, 15 de julho de 2012

Definindo Rumos







            Afirma você, meu amigo, que desejaria colaborar nos trabalhos do Espiritismo cristão, seduzido pela beleza da doutrina consoladora, mas acrescenta que a complexidade do assunto lhe apavora o coração.

            - Encontrei - diz você, aterrado - as mais estranhas manifestações, desde o médium,que se enquadrou no Evangelho, qual sacerdote, ao profeta grosseiro, que maneja o punhal em ritos misteriosos, cabriolando no chão, como o velho capoeira carioca. Há grupos, que se dizem orientados por Espíritos de filósofos e outros que se afirmam dirigidos pelo caboclo Manassés ou por Pai Mateus, antigo escravo de recuada província do Brasil imperial. Em certas casas, ensina-se a cultivar a prece improvisada, com os valores espontâneos do coração; em outras, preconiza-se a repetição de determinado número de "padre-nossos". Em alguns lugares, a doutrinação é serena, como a palestra em residência de criaturas educadas no código de boas-maneiras; em outros, porém, verificam-se balbúrdias e gritarias. Não admite a minha perplexidade? não terei razões para o afastamento?

            E você, de fato, retirou-se e permanece à margem.

            Respondendo, todavia, com lealdade, à sua pergunta, asseguro que lhe falta razão. Como acontece a muita gente, você notou a extensão do trabalho e preferiu a poltrona cômoda de sua casa. Estima excessivamente o "seu mundo" para atirar-se ao concurso educativo. Em verdade, sua mente não mais alberga qualquer dúvida, referentemente à vida eterna. A sobrevivência do homem, após a morte do corpo físico, para você, é problema liquidado. E, quando se encontra no café da avenida, junto de amigos gastadores de tempo, ou nos salões elegantes, ao lado de senhoras chiques, você timbra em contar, com graça, suas experiências no campo vasto e acolhedor do Espiritismo fenomênico. De quando a quando, quebra a ponta do cigarro, no cinzeiro de adorno, e prossegue no anedotário brilhante. Conta as ocorrências, em fraseologia de efeito, e enquanto cavalheiros e damas inteligentes se referem a René Sudre e Charles Richet, você conclui asseverando que, de fato, lhe foi impossível continuar o exame do assunto, em virtude das contradições e exotismos existentes. É digna de nota a circunstância de jamais aludir ao ponto de partida de suas indagações. Esqueceu-se de que procurou a convivência dos companheiros humildes do grupo espiritista cristão, assediado por terríveis angústias, diante dos sofrimentos indizíveis da alma sem fé. Recebeu novo material de pensamento para o cérebro vazio e ganhou esperanças para o coração desalentado, mas, em seguida ao reconforto, você olvidou os benfeitores da véspera e multiplica referências acrimoniosas e irônicas: Pudéssemos, porém, pedir-lhe alguma coisa e não nos lembraríamos da flor da gratidão, raríssima no solo arenoso do planeta. Recordaríamos tão somente, perante o seu raciocínio de homem culto, a necessidade de compreensão e conhecimento.

            Relaciona, você, complexidades e obstáculos, dificuldades e divergências, mas estará procurando, porventura, a "doutrina do prato feito?" Onde se encontra a ciência, que haja nascida completa das mãos dos iniciadores? O Espiritismo, como oficina de sabedoria e amor, aperfeiçoamento e iluminação, é instituto mundial de trabalho incessante, onde não há palanque para espectadores ociosos.

            Refere-se aos "indianismos" e "africanismos" de inúmeras manifestações da fenomenologia, mas já pensou maduramente na expressão moral desses acontecimentos? tem lido o histórico de nossa evolução coletiva?

            Quem recebeu, na terra farta de Santa Cruz, os europeus esgotados por lutas sangrentas, abrindo-lhes caminhos novos à realização espiritual transformando-se em escravo sofredor dos conquistadores inteligentes? não foi, acaso, o índio? Você, que condenou o ataque italiano à Abissínia, no século XX, reconhecendo que os filhos de Adis-Abeba são igualmente filhos de Deus, como os romanos ilustres, também admitirá que Deus não existia no século XVI e que os povos simples da América não eram dignos do amparo celestial? Desconhece o que fez Pizarro, o tirano espanhol, diante dos americanos ingênuos que nele confiaram? E os africanos? quem os arrebatou da terra natal, arrebanhando-os, como a animais, afim de aproveitar-lhes o braço forte nas construções do Mundo Novo? quem os assassinou, devagarinho, em navios infectos, e vendeu os que resistiram à morte, aos cruéis senhores do feudalismo rural? E é justamente você, meu amigo, leitor assíduo da História, quem admira, com falsa ingenuidade, as manifestações dos nossos irmãos, ainda encarcerados no rudimentarismo da forma? Entretanto, Pai Mateus e Mãe Ambrósia, a que se refere com tanto sarcasmo, foram pajens carinhosos de seus bisavós, furtaram o leite dos próprios filhinhos para que os seus antepassados vivessem, e choraram, na senzala, em segredo, quando os seus recuados patentes lhes prostituíram as filhas, vendendo-as, logo após, com frieza e ferocidade, aos tiranos do cativeiro.

            Não considera, você, que todos nós, espíritos de inteligência requintada, mas de sentimento galvanizado no mal, somos devedores antigos dessas almas virtuosas e nobres, embora, muitas vezes, cristalizadas em velhos hábitos que lhes retardam o progresso intelectual? quem estará mais errado, perante Deus? elas, que atrasaram o cérebro, ou nós que endurecemos o coração?

             A morte não é um banho miraculoso de sabedoria, repetiremos ainda e sempre. Somos tais quais fomos, tendendo para o melhor, porque a evolução não dá saltos, como o trapezista suspenso no ar por um fio de arame.

            O Espiritismo é tão complexo, como qualquer serviço de educação. E se encontramos numerosas entidades de africanos e indígenas, em nosso ministério espiritual, é que o Senhor nos chama ao pagamento do enorme débito para com aqueles que nos serviram a todos, nestes últimos quatro séculos, na terra abençoada e farta do Brasil.

            Como vê, a nova doutrina consoladora pede colaboradores de consciência bem formada e não críticos de raciocínio brilhante.

            Se você deseja trabalhar, com sinceridade, procure o seu lugar na oficina do serviço educativo e ajude na obra coletiva do bem, convicto de que Jesus inspira a todos os cooperadores de boa vontade. Mas se você não quiser, faça o possível por calar-se; sente-se na sua poltrona e espere o futuro.

*

            EM ADITAMENTO

            Surpreendeu-se você com a minha resposta despretensiosa e sincera, sobre as complexidades do Espiritismo, diante das manifestações das inteligências menos desenvolvidas, nos serviços fenomênicos, e pergunta-me, inquieto:

            - Mas você aprova o uso da cachaça e do fumo por entidades desencarnadas? elogia o linguajar dos manifestantes a que me referi? não considera essa tolerância um perigo para o sistema doutrinário?

            Parece, contudo, meu amigo, que você não penetrou a essência de minhas palavras. Não posso aprovar o uso de drogas aviltantes nem pelos desencarnados, nem por você que não desdenha venenosos anestésicos, adquiridos como material elegante. Não posso elogiar o erro deliberado, como ninguém pode, em sã consciência, louvar os desequilíbrios voluntários. Quanto à sua terceira interrogação, consideramos que o sistema doutrinário nada tem a ver com as manifestações do indivíduo. O Estado, representando o conjunto das leis que regem um País, será responsável pelos fenômenos infantis, dentro dos quais o patriota do futuro não sabe senão balbuciar alguns rudimentos da língua? condenará, porventura, a criança que não lhe pode soletrar os códigos, ou providenciará serviços eficientes de educação?

            Desde 1583, época em que, segundo Rio Branco, foi firmado o primeiro contrato para a introdução de escravos africanos no Brasil, cercamo-nos deles, valendo-nos de sua cooperação heroica. Pensávamos, antigamente, que bastaria a morte do traficante ou do comprador para que o problema fosse liquidado com a remessa das almas para o céu ou para o inferno. Entretanto, meu amigo, não é assim. Adquirimos débitos individuais e coletivos.

            A contar de 1758, quando o corajoso sacerdote Manoel Ribeiro da Rocha ousou escrever contra a vergonha da escravidão, autorizadas vozes se levantaram, sob a luz do Cruzeiro, contra o doloroso comércio de homens livres. Em 1789, a abolição já constituía um dos itens do programa político da Conjuração Mineira. Em 1810, o príncipe D. João fez o possível por golpear o ignóbil movimento, sensibilizado com as injustiças que presenciava diariamente no Rio, efetuando providências para a extinção gradual do cativeiro, que culminaram com a ratificação do tratado concluído em Viena, entre Portugal e Inglaterra, pelo qual a Nação Portuguesa se propunha a cessar todo o tráfico na costa africana. Mais tarde, D. Pedro I, na Convenção de Novembro de 1826, assinava novo acordo com a Grã-Bretanha, pelo qual o Governo do Brasil se comprometia a proibir toda espécie de comércio de escravos na Costa da África. Entretanto, não abandonamos o movimento odioso e conta-se que muitos navios ingleses, depois da Convenção, postavam-se nas vizinhanças de Angola e Moçambique, expulsando as nossas embarcações negreiras.

            Não valeram exortações de estadistas e pensadores do Brasil ou do estrangeiro. Enviava-nos o Cristo a sua Divina Inspiração, através dos caracteres mais nobres do Governo, mas continuávamos no movimento criminoso, atendendo a caprichos cruéis. Não nos contentávamos em gastar o nosso ouro na aventura sinistra. Hoje sei que muitos franceses ilustres, inclusive alguns dos precursores intelectuais dos chamados "direitos do homem", emprestavam capitais, com excelente expressão lucrativa, aos negociantes de vidas humanas, alimentando o comércio condenável.             

            Acredita que a nossa teimosia pudesse ficar impune?       

            Nossa atitude coletiva envolve um débito moral de vasta expressão.

            Objetará, talvez, que não fomos o único País a escravizar os filhos de outras terras e responderemos que não somos o único País a pagar tributos dessa natureza. Desde muito antes do Império Romano, que perdeu a hegemonia política, em virtude do instinto de dominação, todas as nações da Terra saldam os compromissos morais, de acordo com os débitos contraídos.

            Pergunta-me, ainda, você, como interpretar as entidades reconhecidamente perversas, que comparecem, por vezes, no círculo de manifestações dos antigos escravos desencarnados em solo brasileiro. De acordo com a lógica, acreditamos que são criaturas tão detestáveis e infelizes, como as entidades dos brancos, reconhecidamente pervertidos, que se transformam, por vezes, em monstruosos demônios, perseguindo e obsidiando inteligências frágeis e mentes vacilantes.

            Ultimando as indagações, você exclama e interroga:

            - Oh! compreendo a responsabilidade, mas como extinguir o mal?  

            Sim, as nossas responsabilidades morais, nesse setor da evolução coletiva, são bem graves, e não podemos desdenhá-las.

            Voltando às primeiras afirmativas destas humildes considerações suplementares, tomamos a liberdade de personificar o "Estado" no sistema doutrinário do Espiritismo cristão, classificando as manifestações diversas do Espiritismo fenomênico à conta de "zonas educativas".

            Supõe você que a Abolição terminou em 13 de maio de 1888?' A grande resolução da Princesa Admirável atingiu os "escravos físicos", continuando-se aqui o serviço de libertação dos "cativos espirituais". José do Patrocínio e Luiz Gama, Antônio Bento, e Castro Alves, André Rebouças e Joaquim Nabuco prosseguem na jornada redentora. A Princesa Isabel não considera o movimento terminado e continua, também, servindo à grande causa, desatando os grilhões da ignorância e acendendo novas luzes na esfera a que você chegará em futuro próximo.

            Observo que em sua pergunta derradeira você mostra o desejo de receber um roteiro de serviço. A propósito, comunico-lhe que levei suas considerações e indagações ao conhecimento de um dos Espíritos mais belos, que militaram na campanha abolicionista do Brasil, e essa criatura generosa deu-me a resposta sábia, que transmito a você, sem omitir uma só palavra:

            - Diga aos nossos companheiros do Espiritismo cristão no Brasil que eles receberam de Jesus um sagrado depósito, qual o de associar o Evangelho da Redenção às conquistas científicas, filosóficas e religiosas da Humanidade. Insista para que aproveitem a gloriosa oportunidade em obras de amor, Que eles nos ajudem no benemérito serviço de educação e libertação daqueles a quem tanto devemos! Mas, ouça! Avise-os para não se aproximarem dos nossos benfeitores humildes como catedráticos orgulhosos e envaidecidos e sim como irmãos verdadeiramente interessados no bem: E, sobretudo, diga-lhes que também nós estamos empenhados na mesma luta pela iluminação espiritual, mas que ao ensinarmos a Pai Mateus e Mãe Ambrósia as lições, acerca das leis de Kepler,  dos movimentos de Brown e das ondas de Marconi, aprendemos com eles, por nossa vez, as lições de humildade, devotamento e renúncia, nas quais já se diplomaram, desde muito, negando a si mesmos, tomando a sua cruz e seguindo a Nosso Senhor Jesus-Cristo.  

Irmão X

por Chico Xavier

in “Reformador” (FEB) Julho 1945



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