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quarta-feira, 11 de julho de 2012

A esquerda e a direita



A esquerda e a direita

            Que não se vá supor, pelo título, tratar-se de uma questão política ou mesmo internacional. O de que se cogita nestas linhas é apenas de uma questão evangélica.           

            Não é que ela esteja isenta de percalços, mas se formos a fugir de todos os assuntos, mais ou menos perigosos, em breve nos transformaríamos num penedo.

            Há cidadãos para quem já não existem mais segredos nos campos da filosofia ou da religiosidade. Dir-se-ia que o Criador, na sua munificência, colocou-lhes à frente um farol, mais potente que o de Alexandria, graças ao qual eles podem ver o que nós não divisamos. 

            E isto só nos causaria contentamento, se eles permitissem que pudéssemos ter também uma ideia qualquer, embora a nossa estrada fosse apenas iluminada por uma luz de lamparina.

            Tal, por exemplo, não admite jocosidades em Espiritismo - Nada de gargalhadas, nem mesmo de sorrisos, nem sequer a mais ligeira pitada de um ligeiro bom humor. O Espiritismo tem que ser tétrico, talvez por se tratar de mortos. Não deve haver coisa nenhuma por onde transpire alegria; se aboliu ele o luto nos corpos, não o aboliu nas almas; suprima-se tudo que represente louçanias; desapareçam festinhas e festões; que as nossas falas sejam plangentes como um sermão de lágrimas; que os nossos salões se transformem em catacumbas; que os nossos ouvintes sejam hirtos como os fantasmas de Macferson. O orador espírita, austero como Timão, deve ser sempre triste e gravebundo, pejado de reflexões circunspectas, solene nos gestos e nas palavras, taciturno nas ideias, embora o auditório boceje de tédio e lamente não haver mesmo um inferno para o mandar.

            Breve, para ser espírita o cidadão deve apresentar-se como o Euzebiozinho, do Eça, que tinha o privilégio, pelo seu aspecto fúnebre, de estragar completamente todas as reuniões.

            Isto é apenas um exemplo.

            Há os que têm as suas interpretações; eles não admitem outras; não toleram que possa haver qualquer hermenêutica que não seja a que imaginaram, a que perfilharam, a que lançaram, certos de que deixaram um rastro de luz na obscuridade que envolve os outros.

            Um amigo nosso, de cultura invulgar, dizia-nos que, em certa comunidade, não podia abrir a boca para dar uma opinião discordante das demais. Os companheiros, mal comparando, caíam-lhe em cima como as aves, à chegada de uma hóspede.             

            Para não se transformar em frango, recém- vindo num galinheiro, meteu na gaveta os seus preciosos trabalhos e não apareceu mais no campo espírita.     

            Donde se vê que a, intolerância não é, propriamente, defeito de sistemas e religiões, senão um produto da inferioridade humana.

            Assim é que, com as devidas reservas, vimos apresentar ou justificar o nosso modo de ver sobre um passo dos Evangelhos.

            Nossa opinião é tão despida de importância, que mesmo errada como deve estar, não causará nenhuma celeuma. Provavelmente, morre por si, dada a insuficiência da fonte de onde promana, tal como os córregos do Nordeste quando lhes falta o alimento das chuvas. Supomos, apenas, que tem base em nossos ensinos.

            Assim, data venia, pensamos que o Criador não manda ninguém, definitivamente, para a direita ou para a esquerda.

            Esta afirmativa deve-se afigurar herética, para muitos, visto que, no passo evangélico, se diz:

            "Quando vier o Filho do homem na sua glória e todos os anjos com ele, então se assentará no trono de sua glória. Todas as nações serão reunidas diante dele, e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; porá as ovelhas à direita e os cabritos à esquerda." (Mateus, 25 :3,1-33) .

            Separados cabritos e ovelhas, o Rei dará aos da direita o reino que lhes estava destinado. Aos da esquerda, coitados, está reservado o desespero.

            Diante do texto, réprobos e eleitos seriam separados no juízo final, ficando aqueles de um lado e estes de outro, por todos os séculos dos séculos; e o Pai, aquele que queria, não a morte do ímpio, mas a sua salvação, cavaria um fosso intransponível entre as suas criaturas, extremando-as para todo o sempre, e o que é mais, deixando a uns a glória eterna e lançando a outros na eterna desgraça.

            Bem sabemos que aqueles que assim pensam, estão com a letra dos versículos. Mas não lhe pode ser este o espírito, nem nele existiria lógica diante dos demais ensinos evangélicos e, sobretudo, dos ensinos espíritas.

            Não se compreende esta separação na vida evolutiva. Trata-se, necessariamente, de um símbolo, em que os seres só serão distintos enquanto revestirem o aspecto de cabritos e ovelhas. Distinção, porém, temporária.

            Se o Pai criasse uns para cabritos e outros para ovelhas, colocando aqueles à esquerda e estes à direita, teria procedido sem equidade, ou pelo menos faria distinção entre os seus filhos.  Os da esquerda estariam condenados, e o Pai não condena.

            "Pois o Pai a ninguém julga." (João, V-22).

            O Espírito ascende continuamente. Suas faltas acarretam-lhe sofrimentos, tanto mais pesados quanto mais graves forem; mas essas próprias faltas não significam uma parada no processo evolutivo; seria, quando muito, um desvio, e daí a figura da esquerda. Quem, porém, supuser que o Criador, ao fim dos séculos, e no juízo final, separa as suas criaturas, pondo umas à direita e outras à esquerda, isto é, dando àquelas, em número muito diminuto, a felicidade infinita, e a estas, ou seja a grande massa dos seres, uma desventura perene, não compreende o Senhor nos seus atributos de bondade e de justiça.

            E muito menos compreenderá a doutrina espírita, de progresso indefinido, de evolução constante, de amor absoluto, aquele que vir no texto o que suas palavras dizem, sem deixar que sobre elas perpasse a brisa da razão, que as elucida, que lhes dá vida.

            E se ainda desculpamos o equívoco em religiosos outros, inacostumados ao exame e pouco habituados à lógica, não o compreenderíamos, pelo menos, entre os nossos confrades.


por  Carlos Imbassahy (Pai)

in Reformador (FEB) Junho 1945
                                  



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