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segunda-feira, 9 de julho de 2012

'Doutrina e Prática do Espiritismo' por Leopoldo Cirne




36   * * *


            Em seguida o coronel de Rochas desenvolve, por dezesseis alentadas páginas desse magnífico volume, a descrição, resumida embora, das experiências com o sensitivo Josephina, revestidas sempre do mesmo atraente cunho de originalidade. Obrigado contudo, por nossa parte, a condensar o mais possível a presente documentação, a fim de a não alongar em demasia, pois que abrange vários outros casos, vamos reproduzir apenas os trechos que maior interesse possam despertar.

            "Quando acabei de obter de Bourdon - prossegue ele - os esclarecimentos que acreditava uteis (1), tratei de levar a pesquisa ainda mais longe. Uma prolongada magnetização durante cerca de três quartos de hora, 'Sem me deter em fase alguma, conduziu-me a João Claudio pequenino.

            (1) Em nota, observa o Sr. de Rochas que o cura de Polliat, a quem escrevera para saber se em sua paroquia haveria algum vestígio de João Claudio Bourdon, lhe respondeu que em Polliat não se sabia de nenhum Bourdon, mas que esse nome é muito comum numa zona próxima, em Gríêge por Pont-de-Veylé.

            "Surge depois uma nova personalidade. Agora é uma velha, que fora muito má; era uma língua maldizente e se comprazia em fazer mal a todos. Sofre muito por isso; tem contrações na fisionomia e às vezes se estorce na cadeira com uma horrível expressão de dor. Acha-se em espessas trevas, cercada de maus espíritos que tomam formas apavorantes para a atormentar e, quando o podem, atormentar também os vivos, no que têm o máximo prazer. Algumas vezes foi ela a seu turno arrastada a mudar de forma e os acompanhar para fazer mal aos homens. Fala numa voz fraca voz ,fraca, mas responde sempre com precisão às perguntas que lhe faço, em vez de discutir a cada passo, como o fazia João Claudio. Chama-se Philomena Carteron.

            "Aprofundando ainda mais o sono, provoco as manifestações de Philomena viva. Já não sofre, parece muito calma e responde sempre com clareza e em tom seco. Sabe que não é estimada no lugar, mas ninguém perde com isso, e ela saberá vingar-se quando for ocasião. Nasceu em 1702; chamava-se Philomena Charpigny, quando solteira; seu avô materna se chamava Pedro Machon e morava em Ozan. Casou-se em 1732, em Chevroux, com um certo Carteron, de quem teve dois filhos, que morreram (1).

            (1) O Sr. de Rochas assinala, em nota, além da circunstância de não possuir essa personalidade  nenhum sentimento religioso, nem frequentar as igrejas, certa de tudo acabar nesta vida, que as famílias Charpigny e Carteron existiram efetivamente em Ozan e em Chevroux, mas nenhum vestígio positivo encontrou de Philomena.  

            A que se deve atribuir esse lapso, idêntico ao de Bourdon em Polliat?

            "Antes de sua encarnação, Philomena havia sido uma criança, morta, em tenra idade. Antes fora um homem que tinha matado e roubado, um verdadeiro bandido; foi por isso que muito sofreu na escuridão, mesmo depois da sua vida de criança, em que não tivera tempo de fazer mal, a fim de expiar seus crimes.

            "Não pude levar mais longe a experiência das vidas sucessivas, porque ao fim da magnetização extremamente prolongada (quase duas horas) que era necessária para o conduzir ao estado de bandido, o sensitivo parecia esgotado; fazia pena vê-lo em suas crises. Mas um dia, em que eu o havia conduzido a esse estado, comprimi-lhe um ponto situado no meio da fronte e que tem a propriedade de despertar a memória sonambúlica. ordenando-lhe que recuasse inda mais longe. Disse-me então, hesitante e voltando a cabeça, como envergonhado, que tinha sido um macaco, um grande macaco, quase semelhante ao homem.

            "Confesso que estava longe de esperar semelhante confidência e ao pensamento me veio  imediatamente um espirituoso repente atribuído a Alexandre Dumas pai. Conservei-me, entretanto,
sério e me limitei a manifestar a estranheza de que uma alma de animal se tornasse em alma humana. Respondeu--me que nos animais, como nos homens, há naturezas boas e más e que, quando se chega à condição de homem, conservam-se os instintos do que se havia sido como animal (2).

            (2) Reproduzimos textualmente, por dever de fidelidade, a narrativa do Sr. de Rochas, sem prestar contudo inteiro crédito a essa parte do depoimento de Josephina. Que o princípio inteligente, antes de se tornar propriamente espírito, se ensaie, por assim dizer, se elabore e individualize nas séries inferiores da natureza, nada tem que repugne à razão, antes está de acordo com o princípio do evolucionismo, cientificamente demonstrado, e será mesmo de nossa parte objeto de estudo em capítulo adiante. O que nos parece, pelo menos, discutível, no ponto de vista filosófico, que oportunamente abordaremos, é essa passagem direta e imediata da animalidade para a espécie humana, a título de curiosidade unicamente podendo ser registrada essa informação puramente pessoal.

            Há sobretudo uma circunstância que torna suspeita essa parte do depoimento: é a incapacidade intelectual do sensitivo, assim no estado normal como em qualquer de suas medíocres encarnações anteriores, para de si mesmo formular os argumentos com que pretendeu justificar a identificação ou, se o preferirem. a aproximação entre os instintos humanos e os dos animais. Ter-lhe-iam sido mentalmente sugeridos por algum ser desencarnado que, invisível, presenciasse as experiências e assim quisesse gerar intencionalmente uma certa confusão? - A hipótese não se nos afigura desarrazoada ou  inadmissível, tanto mais se atendermos a que, na primeira vez em que fez semelhante revelação, o sensitivo passou sem transição e retrospectivamente da existência de bandido para a de pretendido macaco. Da outra vez, a que em seguida se refere o Sr. de Rochas, é que acrescentou ter tido, entre uma e outra, diferentes encarnações.


            As experiências foram interrompidas durante alguns meses, com a viagem feita pelo Sr. de Rochas a Paris, onde teve ele ocasião de observar, num outro sensitivo com quem experimentou (a Sra. Lambert), o curiosíssimo perturbador fenômeno da precognição, isto é, do antecipado conhecimento do futuro, o que o induziu, de regresso a Voiron, a tentar com Josephina as mesmas observações.

            O resumo dessa nova série de experiências, em número de oito, é o seguinte:        

            PRIMEIRA SESSÃO. - "Adormeço Josephina mediante passes longitudinais, de modo a conduzi-la aos seus primeiros anos juvenis e logo procuro despertá-la por meio de passes transversais.  Quando volta ao estado normal e readquire a sensibilidade, continuo os mesmos passes transversais a pretexto de descarregar mais completamente.       
      
            "Ao fim de um ou dois minutos me observa ela que eu a adormeço em vez de a despertar. - Fase de letargia bastante longa, e logo readquire a lucidez numa fase de sonambulismo. Pergunto-lhe se ainda está em casa do Sr. C.  – Responde-me que não; a três anos o deixou, regressando a sua terra, em Manziat. Está em casa de seus pais e tem 25 anos (1).

            (1) Lembraremos que na época das experiências (1904) ela tinha 18 anos, o que quer dizer que descrevia o futuro a sete anos de distância, isto é, em 1911.

            "Novos passes transversais, nova fase de letargia, em que ela se mostra ao princípio muito calma: ao fim, porém, de alguns instantes apresenta sinais de um grande sofrimento e se estorce na cadeira; volta em seguida a cabeça e oculta o rosto nas mãos; chora tanto e parece tamanha a sua aflição que a Sra. C. comovida, se retira da sala.

            "Quando entra na seguinte fase de sonambulismo, parece ainda muito triste e eu lhe pergunto o que tem. Não me quer responder e volta novamente a cabeça, como se tivesse vergonha de alguma coisa. Suspeito qual seja a causa de seus sofrimentos e lhe pergunto se está casada. - "Não, ele não quer. Bem me havia, entretanto, prometido." - Diga-me o seu nome; eu tratarei de o convencer. - "O Sr. não arranjará nada; eu fiz tudo o que me era possível ."                          

            "Termino por saber que ela está sempre em Manziat, tem 32 anos e essa desventura lhe sucedeu há uns dois anos. Impossível obter o nome do sedutor.

            "Exorto-a a deixar correrem as coisas, sem se incomodar.

            "Em presença de sua dor, que a todos nos comove, tão vivamente é traduzida, procuro restitui-la a seu estado normal, mediante passes longitudinais, passando ela pelas mesmas fases de letargia e de sonambulismo, com as mesmas expressões de dor."

            SEGUNDA SESSÃO. - Idêntico processo experimental: ao começo regressão da memória, com os passes longitudinais, em seguida rumo ao futuro, mediante passes transversais. Depois do estado normal, letargia calma; lucidez aos 25 anos em sua terra; segunda letargia acompanhada de demonstrações de dor e de vergonha; segunda lucidez aos 32 anos. Recordo-lhe nossas antigas relações, em Voiron e acabo por convencê-la de confiar inteiramente em mim. Murmura, cheia de confusão, o nome de seu sedutor: é um moço agricultor, Eugenio F., de quem tivera um filho (1).

            (1) Observa, em nota, o Sr. de Rochas: "Tomei informações no lugar. Eugenio aí vive atualmente: pertence a uma família de abastados agricultores e nasceu em 1885. Ele e Josephina moravam em duas casas próximas ; tem a mesma idade e fizeram juntos a primeira comunhão."

            "Continuação dos passes transversais; 3ª letargia, 3º despertar. Tem ela então 40 anos; conserva-se sempre em Manziat e está muito triste; seu filho morrera pouco antes e Eugenio F. casou-se com outra.

            "Continuação dos passes transversais: 4ª letargia, 4ª fase de lucidez. Ela tem 45 anos e ganha a vida cosendo calças para um alfaiate. Está muito triste e não tem noticias de seus antigos patrões. Luiza, sua melhor amiga em Voiron, Ihe escrevera três cartas: depois cessou a correspondência.

            "Continuo os passes transversais e, também por minha parte fatigado, a interrogo ao fim de alguns minutos de aparente letargia, sem haver observado se não teria ela avançado várias fases. Agora está muito velha; vive com dificuldade, graças a sua costura, mas acabara por esquecer um pouco as suas desventuras. Falo-lhe então da morte e pergunto se não deseja saber o que lhe sucederá quando houver deixado esta vida. Respondeu-me que sim. - "Para isso é necessário que a faça envelhecer ainda mais." Hesita bastante, mas termina por aceitar, depois de lhe haver eu assegurado que a reconduziria ao seu estado atual.

            "Novos passes transversais; ao fim de 2 ou 3 minutos se estorce na cadeira, com uma expressão de sofrimento atroz, e em seguida resvala até o chão. É a agonia da morte. Continuo vivamente os passes, afim de abreviar o desagradável incidente, e a interrogo. Está morta; não sofre, mas não vê nenhum espirito. Pode acompanhar seu enterro e ouvir o que dela diziam: "é uma felicidade para a pobre criatura; não tinha mais de que viver." As orações do padre não lhe fizeram grande coisa, mas o giro deste em torno do esquife afastou os maus espíritos. As ideias espíritas que adquirira em casa de seu antigo patrão lhe foram muito úteis, porque lhe permitiram conhecer o seu estado.

            "Não julguei prudente levar, por essa vez, mais longe a experiência. Restitui o sensitivo ao seu estado normal por meio de passes longitudinais, que provocaram, em ordem inversa, os mesmos gestos característicos da agonia e da sedução, nas fases de letargia correspondentes."

            A terceira, quarta e quinta sessões não oferecem particularidades dignas de registro, consistindo na reprodução, com ligeiras variantes, das fases e fenômenos descritos nas precedentes. Apenas na 4ª, em que o Sr. de Rochas tratou de provocar principalmente a revelação de fatos bastante próximos para poderem ser verificados, houve a circunstância de, conduzida Josephina à encarnação em que fora João Claudio e 'procurando o Sr. de Rochas saber exatamente em que época fora aquele soldado em Besançon, "não me pode ela - observa  -  dizer a data, mas a uma pergunta que lhe fiz, respondeu que.. a grande festa dos soldados não era em 14 de julho, mas a 1º de maio. Com efeito - acrescenta ele - era em 1º de maio que se festejava S. Felipe, de 1830 a 1848, e me parece muito difícil explicar naturalmente essa recordação (1)."

            (1) O grifo é nosso.  

            SEXTA SESSÃO. - "Adormeço Josephina, segurando-lhe nas mãos, e lhe pergunto o que é preciso para que ela a se encaminhe para o passado e para o futuro. Responde-me que basta desprender o seu corpo fluídico, pois que ela irá na direção que eu quiser. Os passes transversais, entretanto, favorecem a orientação para o futuro.

            "Continuo a aprofundar o sono, tomando-lhe simplesmente as mãos, projetando fluido sob a ação da minha vontade e dizendo-lhe que veja o que se tornará.

            "Transpõe a fase do parto quando a interrogo, ela tem 40 anos; refere-me que sua mãe falecera há 15 anos.

            "Insisto na magnetização . Ela morre. A sensibilidade não lhe está então exteriorizada em torno como dantes, mas na cabeça, onde a verifico. Não sofre e se encontra numa semiobscuridade. Recorda-se vagamente de suas anteriores existências, lembrança que adquire pela pressão no meio da fronte. Tem a consciência de que a sedução de que foi vítima é a punição do que fizera na existência de João Claudio. Está convencida de que, mesmo se o Sr. de Rochas a tivesse prevenido do que devia suceder, isso em nada modificaria o curso de sua vida.

            "Reencarna-se numa criança chamada Elisa, que morre, aos 3 anos, de uma angina. Nesse momento leva as mãos à garganta e dá mostras de grande sofrimento. Morre; a sensibilidade, que se lhe restabelecera em torno do corpo, desaparece novamente.  

            "Morta, lembra-se de sua mamã e desejaria bem tornar a ve-la. Não sofre e se encontra numa atmosfera bastante luminosa.

            "'Reencarna-se ainda em uma criança, Maria, cujo pai. Edmundo Baudin, é negociante de calçado em Saint-Germain-du-Mont d'Or; Rosália ,é o nome de sua mãe. Interrogo-a aos 2 anos, aos 6 e aos 12: nesta idade lhe pergunto em que ano estamos; não me pode responder e inventa pretextos: não tem calendários, seu pai não quer, etc.  Aos 16 anos me responde que se está em 1907 e escreve seu nome. É uma sexta-feira, mas não sabe de que mês. Continuamos na República.

           "Faço-a retroceder, por sugestão, segurando-lhe nas mãos, fazendo esforços, porém, para retirar o fluido. Ela passa pelas mesmas fases, na mesma ordem, mas em sentido inverso: erraticidade, com insensibilidade periférica, morte, com os sintomas de angina, erraticidade, parto acompanhado de apropriadas contorções."

            Passemos em silêncio a 7ª sessão que, reproduzindo pequenos incidentes de outras anteriores, nenhum interesse particular oferece, para nos determos na 8ª e última, com que fecha a série e que é assim descrita:

            "Não tendo Josephina obtido o lugar que esperava nas Galerias Modernas, deliberou regressar para casa de sua mãe, em Manziat. Adormeço-a uma última vez, antes de sua partida, a fim de a premunir contra a sedução que previra.

            Oriento-a para o futuro; já me não fala de sua colocação na loja de Grenoble (1), mas o resto de suas previsões concorda exatamente com o que antes me dissera. Passa pelas mesmas dores na ocasião do parto, a mesma vergonha, as mesmas angústias quando perde o filhinho, sem ter sido reconhecido pelo pai.

            (1) Referência feita na 4ª sessão, que omitimos.

            "Quando ela despertou, lhe recordei todos esses acontecimentos, todas essas emoções, pela pressão no meio da fronte. Fiz-lhe notar que não tinha sido admitida como vendedora nas Galerias Modernas, conforme o havia predito, e portanto que tudo o que ela anunciava, adormecida, poderia não ser mais que um sonho, mas o que era de fato uma realidade seriam as consequências de sua falta, se porventura a cometesse.

            "Incuti-lhe a sugestão de se recordar de todas as torturas por que passara durante o sono, quando fosse tentada a se abandonar.

            "No dia seguinte, tendo tido ocasião de voltar a esse assunto, ela me disse a rir quer uma pessoa prevenida vale por duas. Depois da sua partida para o departamento do Ain, não tornei mais a ter noticias suas.




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