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quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Senhor e o Servo



 O Senhor e o Servo

            "Respondeu-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado." S. João, 8:34.


            A noção de "pecado", filiada ao conceito da transgressão à lei Divina, simplifica-se no quadro da exegese espírita, sendo conduzida então para um tal critério, que não resta aos espíritos mais simples qualquer dúvida a respeito de sua expressão ou de sua influência entre os homens. O pecado, antes de manifestar-se pelo ato ou pela palavra, já explodiu no pensamento e aí mesmo atou as suas raízes compressoras para o futuro. Estultice seria considerar que Deus houvesse criado leis rígidas, dominantes no plano físico, não as tendo também estabelecido para o plano espiritual, identificado este com a sua própria essência criadora.

            Realmente, o Espírito através de sua expressão mental, purificada ou poluída, constrói o seu próprio destino, de vez que forja um teor vibratório que o arrasta para circunstâncias idênticas às que sulcaram sua mente, nos longos hábitos de transgressão. Assim, o tirano conhecerá o martírio; o ingrato receberá a ingratidão; o perjuro provará a perfídia; o egoísta presenciará a necessidade; o perdulário sofrerá a carência; o avarento receberá o despojo; o orgulhoso contemplará a humilhação de si mesmo, e assim tantos outros estados mentais violadores da Lei Divina, que aprisionam os seus fautores, tornando-os calcetas dos próprios erros.

            O servo do pecado, na expressão do Cristo, é aquele que contraiu uma dívida para com a obra do Criador, cuja Lei violada lhe exige o resgate que, em hipótese alguma, poderá ser liberado de seu destino. Isso então determina, na maioria dos casos, o que vulgarmente se denomina "expiação". As "provações terrenas", que são reparações mais brandas, também podem constituir um capítulo da escravização do "pecado", lançando as almas para os movimentos de fluxo e refluxo, a que são submetidas pela constante implacável do Destino. Nem um só pensamento instantâneo se perde para o registro da evolução de cada criatura. Todos nós temos no astral um livro onde se arquivam os nossos mais escusos sentimentos.

            Para os atuais Espíritos encarnados, que integram a comunidade terrena, a palavra de advertência é a de aceitação da "expiação" ou "prova", imposta pela Justiça Divina, pois que só a Dor em sua função retificadora, pode desagrilhoar as tenazes do pecado, de que o Espírito se fez voluntariamente servo. Ao mesmo tempo, cumpre-lhe vigilância no plano da mente, para que não aceite doravante qualquer sugestão inferior, capaz de, pela sua sequência, lançar-lhe novas amarras para um ciclo talvez ainda mais doloroso.

            Na Índia, uma palavra sânscrita que se intitula "Karma" e significa - Ação - define, com  alta sabedoria, a Lei que rege os destinos espirituais do Homem. O princípio subjacente contido nela é um trinômio espiralado:

"Semeia um pensamento e colherás um hábito.
Semeia um hábito e colherás um caráter.
Semeia um caráter e colherás um destino."

            Eis, em síntese, a legislação que condiciona a submissão do servo ao pecado que o escravizou.

            Toda alma ressuscitada no Cristo, aquela que recebeu a graça da 3ª Revelação, não tem mais o direito de incidir nas mesmas fraquezas do passado por isso que, as futuras transgressões serão punidas cada vez com maior rigor, em virtude de a gravidade das faltas ser proporcional ao grau de consciência ou da iluminação interior da criatura. Ao Espírito, quanto mais esclarecido, mais rigor e maior exigência para seu esforço de evolução. Isto é da Lei e, portanto, certo e inevitável.

            A Misericórdia Divina não poderia dispor de outra forma o regulamento pelo qual se condiciona a atividade humana, no palco da vida.

            O homem terreno pode, pois, dilatar as suas esperanças, desde que saiba cumprir, na transitória passagem pela carne, com seus deveres de consciência, no campo da luta que Deus lhe outorgou. A vida no Além prossegue, com características semelhantes às da Terra. Os desencarnados se organizam também em sociedade, tanto mais alegres e felizes, quanto mais alto for, em virtude e sabedoria, o grau de evolução de seus integrantes. Essas comunidades do Além se superpõem em planos que se eterizam à medida de sua ascendência. E se os seus pináculos nos são ainda inabordáveis - embora presumidos pela intuição divina imanente em cada ser - contudo as bases calcadas sobre a crosta nos são diariamente testemunhadas pela palavra dos Espíritos que convivem conosco e nos lançam mensagens de advertência.

            E aqui, bem próximo a nós, em zonas sombrias de desequilíbrio, onde há choro e ranger de dentes, sofrem legiões de condenados. Para eles não há por enquanto nem luz nem paz. O remorso, como um caçador de feras, lhes chibata a consciência.

            Eles são os servos voluntários do senhor tirânico aclamado por eles próprios e cujo centro é o coração de cada um. Constituíram-se nos servos do pecado, de que nos fala a palavra piedosa do Nazareno.


           
Luiz de Almeida

in Reformador’  (FEB) Jul 1945



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