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terça-feira, 3 de julho de 2012

Materializações Permanentes


Materializações
Permanentes


            O infinito que nos resta aprender na Terceira Revelação, comparado com o grãozinho de areia que já adquirimos, deveria engendrar em nós aquela modéstia profunda a que se refere Pascal com a figura da Esfera da Ciência que cresce sempre e quanto mais cresce mais toca as raias do desconhecido, revelando ao cientista sua própria ignorância, tornando-o humilde e pequeno na imensidade de seu desconhecimento. O espírita deveria ser o homem mais humilde do Universo, e nunca um convencidinho ridículo como tantas vezes encontramos em nossas rodas.

            Allan Kardec tentou expressar essa verdade  ao dizer que o Espiritismo é a ciência do infinito, na qual ainda não passamos do A B C.

            Gustavo Geley, em seu famoso "De l'Inconscient au Conscient", diz-nos que é tão comum de uma planta e de outros seres vivos partir um broto que pode ser apartado do tronco e formar outro indivíduo vivo, independente e perfeito, sem prejuízo do indivíduo primitivo, que não podemos perder a esperança de um dia nos ser dado cortar o cordão que liga um Espírito materializado ao seu médium, tornando a materialização um indivíduo independente, vivo, sem prejuízo do médium que lhe forneceu o material primitivo para sua formação. Compara ele esse cordão que liga a entidade materializada ao médium com o cordão umbilical que liga a criança à genitora e que tem de ser cortado um dia, quando completa a evolução do feto, para que o novo ser comece sua existência independente.      

            É uma analogia realmente existente, lógica, mas que só o futuro nos dirá se poderá ser praticada; porque, na verdade, enquanto o material do médium se acha formando a entidade, o médium está grandemente prejudicado em sua economia: falta-lhe toda a quantidade de matéria que está emprestada. Se privado de toda essa porção de seu corpo, ele não poderia, pelo menos de pronto, achar-se num estado normal: estaria profundamente enfermo, em risco de morte. Mas esta consideração não invalida de todo a hipótese de Geley, porque há pessoas que possuem excesso de corpo e podem perder 1/3 do seu peso sem prejuízo para a saúde. Assim, permanece lógica a hipótese: um indivíduo de 80 quilos poderia, sem prejuízo apreciável, fornecer 20 quilos à formação de um novo corpo, destinado este a completar-se pelas vias normais e aquele a readquirir o material cedido. Podemos, com Geley, fantasiar a possibilidade de em 10 minutos, numa cabine mediúnica, formar-se um corpo de 20 quilos de peso, normal, como o de um menino de 10 anos de idade.

            A esta ousada hipótese de Geley, na aparência opor-se-ia a convicção de Kardec, de que a materialização é apenas uma aparência etérea, destinada a desfazer-se imediatamente, sem consistência real, como se supunha ao tempo de Kardec. Mas hoje temos que reformar completamente aquele conceito kardeciano, porque um estudo mais demorado das materializações, nestes setenta anos decorridos, já demonstrou que a matéria formada não é ilusória, é absolutamente real; objetiva, e, em certos casos, permanente.     

            Não só vemos a entidade materializada e suas vestes sob densa luz. Tocamos-lhe nas mãos, no rosto, apalpamos as vestes e por vezes recebemos fragmentos dessas vestes, madeixas de cabelos, coisas materiais que não se desfazem quando a entidade se desmaterializa. Não só temos relatos já clássicos em nossa literatura, mas possuímos também confirmação atual, repetida, dessa permanência de partes da materialização.

            Num dos nossos grupos, uma entidade materializada trazia um véu de um filó ou tule delicadíssimo, inteiramente desconhecido entre nós. Os assistentes lhe pediram, como lembrança, pedacinhos daquele lindo véu e foram logo atendidos: o Espírito materializado, tomando de um dos assistentes uma tesoura que lhe foi apresentada, cortou para cada um dos presentes um fragmento do véu. Depois recompôs o véu, como fazia igualmente Katie King, e, finalmente, se desmaterializou; mas os fragmentos permanecem até hoje com os assistentes e têm sido examinados por muita gente que conhece a indústria de tecidos. É um tule finíssimo, de substância inteiramente desconhecida. Não é seda, algodão, lã, linho, nenhuma das fibras conhecidas na fabricação de tecidos aqui da Terra.

            De outra feita o resultado foi negativo. Outra entidade se nos apresentou com o peito e os braços cobertos por uma renda de seda bordada, belíssima, macia, delicadíssima e nos permitiu a todos examiná-la, apalpá-la à vontade. Dizemos "de seda" pela semelhança que notamos com seda, mas não sabemos se era realmente seda. As senhoras presentes pediram à entidade pedacinhos daquela blusa e interrogaram quem teria uma tesoura. O autor destas linhas trazia no bolso uma pequena tesoura e a apresentou ao Espírito que a tomou decididamente, parecendo-nos que iria atender ao pedido, mas desapareceu na cabine com a tesoura e sua rica blusa bordada. Vieram à cena outras entidades materializadas, mas não trouxeram a tesoura nem os fragmentos da renda. Já quase no fim da reunião, outra entidade nos trouxe a tesoura e disse em tom pilhérico: "Você correu o risco de ficar sem a tesoura, porque o Raimundo precisava muito de uma tesourinha como esta!"

            Nenhuma explicação nos foi dada por não haver sido atendido o pedido.

            Outra assistente pediu a esta entidade que lhe escrevesse num bloco de papel o seu nome e alguma coisa como lembrança. Respondeu: "Vou tentar, Maria, mas a minha materialização está muito fraca; o Nelson anda muito cansado!"

            Todos o vimos, sob a luz vermelha, de pé, com o lápis e o bloco de papel nas mãos, escrevendo. Escreveu um pouco e restituiu o bloco e o lápis. Depois da sessão, acesas as luzes, lemos. Com letra fina, delicada, achavam-se estas palavras: "Ismael, meu coração para vocês".

            Ismael é o nome e deveria ter vindo no fim, numa linha à parte, mas havia sido formulado o pedido: "Teu nome e alguma coisa".

            Apesar de toda a nossa infinita ignorância, já sabemos hoje, sem sombra de dúvida, que a materialização não é uma simples aparência ilusória, etérea, que nos engana os sentidos, como se supunha há oitenta anos. Não; é literalmente a formação de matéria real, objetiva e até perdurável, por algum processo que ainda desconhecemos totalmente de fazer e desfazer o objeto material; talvez o processo seja de tornar sensível e depois insensível o que exista sempre em forma etérea, no mundo espiritual, fora da capacidade dos nossos sentidos.

            Estas observações da permanência de coisas materializadas que podem ser conservadas conosco têm um valor teórico imenso, porque projetam um pouco de luz sobre certos fenômenos incompreendidos ainda e muito debatidos, como o da permanência do corpo de Jesus, inanimado, na cruz. O corpo permaneceu, foi sepultado, só depois desapareceu do sepulcro e reapareceu, vivo como dantes, capaz de tomar alimentos, de ser apalpado por Tomé.

            O pouquíssimo que já sabemos sobre as materializações pode ajudar-nos a sermos um pouco mais modestos, a não nos atrevermos a lançar negações levianas sobre o que ainda não entendemos. Nossa lógica só tem possibilidades de acertar quando possui dados bem conhecidos, de ciência positiva. Quando se baseia em suposições, em hipóteses não provadas, a lógica até de um Allan Kardec pode levá-lo a lamentáveis enganos. Se o Mestre tivesse que escrever hoje "A Gênese", outra seria sua linguagem quanto à natureza do corpo de Jesus.


por   Ismael Gomes Braga
in Reformador (FEB) Fev 1950



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