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segunda-feira, 25 de junho de 2012

a/b A Moral do Espiritismo



a/b  A Moral do Espiritismo


            A moral tem para o Espiritismo uma importância tal que, sendo ele uma doutrina filosófica, se torna quase uma filosofia moral. De fato, foi para o Espiritismo uma grande ideia, uma ideia fundamental, a de trazer para o mundo uma doutrina que concorresse para provocar uma transformação mais profunda e mais rápida do caráter humano, que viesse, enfim, provocar na humanidade uma reforma moral mais intensa, mais segura.

            A moral espírita tem seu fundamento na moral crística. Deixo de empregar ropositalmente a expressão cristã, para evitar a confusão que ela pode trazer. A expressão cristianismo enxertada na dogmática das religiões, que têm por base a vida do Cristo, e divulgada geralmente pelos escritores que se ocupam desse assunto, admitida como sinônimo de religião, não pode ser confundida com a que deve ser empregada no sentido do movimento primitivo, que girou em torno da personalidade do Cristo, antes de qualquer organização religiosa,  movimento esse que foi, com o acessório das curas e outros fatos extraordinários, todo moral.

            Não é que isso importe em repúdio ao Cristianismo como religião. O papel que ele representou no mundo até o advento do Espiritismo, não obstante todos os seus erros, todos os seus desvios, não deixa de ter tido uma grande utilidade. Ele manteve, através da história, em relevo a personalidade do Cristo, embora erradamente, embora mal interpretada. O movimento somente ou puramente moral, que se fizesse em torno dela, acabada a missão oral de seus discípulos diretos, com as instruções que lhes deu Jesus, não teria talvez a mesma repercussão que teve o movimento religioso, que se fez muito depois de sua morte, mormente porque
os escritos evangélicos que ficaram não dão, nem a medida exata da grandeza da missão do Cristo, nem a medida de seu ensino.

            É a esse movimento moral provocado pelo Cristo, que o Espiritismo fica adstrito na formação de sua doutrina moral. Apresentando-a com a mesma finalidade com que se apresenta a moral crística na época de seu aparecimento, o Espiritismo vem agora confirmá-la, colocá-la em termos mais exatos, vem explicá-la, completá-la, enfim. "Vossa Bíblia, disse o eminente Espírito de Imperator, a Stainton Moses, vos dá uma ideia muito imperfeita da influência que o Cristo exercia em volta dele; ela não insiste bastante sobre o efeito moral que produziam suas palavras e atos. Ela se apoia demasiadamente sobre as falsas interpretações provindas das classes instruídas e consideradas, que, então como sempre, foram as inimigas de toda a verdade nova." - "A falta daqueles que vos deixaram a única narrativa que possuis da vida de Jesus, é que eles muito se apoiaram sobre a perseguição levada contra ele pela ignorância letrada, e não bastante sobre a dignidade moral de sua existência no meio em que ele vivia. Esses escritores não se aproximaram daqueles que tinham recebido diretamente o ensino de Jesus: eles tomaram de décimas mãos as anedotas que abundavam. Isso importa notar."

            (1) William Stainton Moses: Enseignements Spiritualistes, trad. franc. ed. comemorativa, págs. 286 e 287.

             A moral crística não é inteiramente nova. Ela está no fundo de certos sistemas filosóficos e religiosos anteriores ao Cristo. Ela é a consequência de uma lei natural, de uma lei divina. No profetismo israelita estão seus primeiros delineamentos, tendo ela sua essência na lei mosaica, no Decálogo, que exprime no Antigo Testamento uma parte de verdade, e que foi ditado a Moisés pelos seus guias espirituais, conforme afirmou Imperator. Foi, entretanto, o Cristo que a desenvolveu superiormente, que lhe deu forma característica, que a personificou, enfim. Tendo ela sua fonte principal nos escritos evangélicos, mormente no que tem o nome de Mateus e especialmente no chamado Sermão da Montanha, sofrivelmente relatado, diz um Espírito, é neles que o Espiritismo pode ir beber. Ainda que duvidosos pelas suas deformações, pelas suas contradições, ainda que deficientes, é neles, todavia, que o Espiritismo pode ir buscar os elementos básicos para o estudo e formação de sua doutrina moral, admitindo-os não como documentos sagrados, inerrantes, intangíveis, como o quer a ortodoxia cristã, (Concílio do Vaticano: Constituição dei filius, cáp. II) mas como documentos narrativos, históricos, sujeitos ao exame e à crítica. Nesse caso, o Espiritismo terá que acompanhar o movimento de crítica histórica, que se vai operando em torno desses escritos há mais de meio século, onde se discutiram certas questões, certos problemas que ele forçosamente deve atender, e que só ele, com seus métodos de estudo e investigação, pode resolver, dando-lhe resultados definitivos.

            Também não se pode dizer que a moral do Espiritismo seja religiosa. O próprio da moral religiosa é estar confundida num sistema de dogmas e cultos, é ser ela o apêndice de uma religião, é estar ela identificada com os preceitos de uma religião positiva, de tal forma que se torna, às vezes, quase impossível separá-la. Já se vê que não é essa a condição da moral espírita. Ainda que o Espiritismo, embora com restrições, tenha extremo interesse no estudo das outras matérias contidas nos escritos evangélicos, a respeito da vida de Jesus, o que ele procura ver nesses escritos não é o espírito confessional que eles têm, mas o espírito moralista, com a sua metafísica, isto é, com a crença em Deus e com a crença na alma e na vida futura. De maneira que o Espiritismo, nem por admitir a existência de Deus, tem uma moral propriamente religiosa, pois que ele a aceita de maneira mais larga e como uma crença racional, a aceita com uma fé raciocinada, compreensiva, não com uma fé cega, como a admitem as religiões. O mesmo se pode dizer, com relação ao ensino da existência da alma e da vida futura, que ele amplia e lhe dá um caráter mais ou menos experimental. "O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo, diz Allan Kardec, é o conhecimento dos princípios que ligam os mortos e os vivos, que completam as noções vagas que ele tinha dado da alma, de seu passado, de seu futuro, e que dão por sanção à sua doutrina as leis da natureza. (2)

            (2) Allan Kardec: La Genèse selon le Spiritisme, cap. I, nº 56.

            Assim, se se quiser classificar a moral espírita, ela só pode ser classificada como uma moral filosófica, embora se relacione até certo ponto com a religião natural, porque o espírito do ensino do Espiritismo é filosófico, porque ela decorre de sua doutrina que é filosófica.

            Sabe-se que a moral do Cristo foi coordenada e estudada por Allan Kardec no Evangelho Segundo o Espiritismo."

            (3) Allan Kardec: L'Evangile selon le Spiritisme, 1864.

            Com a chave que lhe deu o Espiritismo, e com o auxílio que lhe trouxeram as instruções ditadas pelos Espíritos em diferentes países e por diferentes médiuns, Allan Kardec lhe analisou os preceitos tanto quanto era possível, utilizando-se da edição da Vulgata, traduzida em francês por Le Maistre de Sacy, exibindo antes um código de deveres morais, que uma teoria da moral. Mesmo o Cristo não veio fazer moral especulativa. Também não veio fazer da moral que pregava um conjunto de regras apenas para o seu meio. Seu fim foi mais elevado. Ele alegava que os preceitos que revelava, o ensino que dava, eram uma condição de salvação para a humanidade.

            Não é mais necessário falar aqui detalhadamente desses preceitos morais, depois de Allan Kardec. O que se procura estabelecer são princípios da moral do Espiritismo e mostrar a base que lhe deu a moral do Cristo.

  por   Chrysanto de Brito
in ‘Allan Kardec e o Espiritismo’
Ed. ECO – ano ?



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