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domingo, 10 de junho de 2012

32. "Doutrina e Prática do Espiritismo" por Leopoldo Cirne





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      É reduzida ao mínimo, no homem, a função do livre arbítrio, tal como a entendemos e é, de resto, a única racionalmente admissível e praticamente verificável pela observação, porque de uma análise, por pouco demorada que seja, das ações individuais, a certeza que resulta é que o homem, a não ser em graves emergências e isso mesmo conforme os seus hábitos de ponderação, geralmente procede por impulso irrefletido, meramente examinando os motivos, para se decidir pelo melhor. E é essa mesma irreflexão habitual que à primeira vista parece dar razão aos partidários do determinismo, por assim dizer, automatista.

      Porque, na ignorância em que vive de suas magníficas energias latentes e da capacidade de as submeter a uma fecunda e rigorosa disciplina, assim abdique o homem quase sempre a sua liberdade moral, ou livre arbítrio, não é lícito, entretanto, concluir pela inexistência deste. O que se pode razoavelmente afirmar, porque é incontestável, é que, cedendo, sem os examinar, à pressão dos vários fatores que nos seus atos intervêm e aos quais fizemos alusão, renuncia voluntariamente o homem, em muito maior escala do que o devera, ao exercício daquele preciosíssimo atributo.

      Esses fatores - já o dissemos - começando pela capacidade moral, que o é preponderante, para abranger em seguida a influência do organismo e as sugestões do meio e culminar na ação dos seres invisíveis, bem mais frequente e generalizada do que se o poderia suspeitar, atuam sem dúvida por forma imperiosa nos atos individuais, restringindo a função do livre arbítrio, mas - insistiremos - não logram suprimi-la. Exemplos não faltam, com efeito, de indivíduos que, sobrepujando essas, para outros mais fracos, irresistíveis influências, dão testemunho da independência, relativa que seja - e é quanto basta para a demonstração da nossa tese - com que se afirmam capazes de realizar os atos da vontade.

      Examinemos separadamente esses fatores, para a apreciação do primeiro dos quais - a capacidade moral - nos fornece o Espiritismo, com a lei da pluralidade de existências, um valioso subsídio, de que se têm mostrado desamparados os sistemas filosóficos empenhados na defesa como na impugnação do livre arbítrio.

      Que vem a ser a capacidade moral, senão o expoente das aquisições dessa natureza realizadas pelo espirito no curso de suas peregrinações terrestres? Lecionado pelas experiências penosamente adquiridas, o indivíduo chega a um estado de consciência que o aconselha a proceder sempre de um modo que não de outro. Tomemos, para objetivar o raciocínio, uma qualidade vulgar: a honradez. O homem honrado, qualquer que seja, de um lado, o seu estado de pobreza, e, do outro, a importância dos valores confiados à sua guarda, jamais se apossará do que lhe não pertence. Poderá, tais sejam os prementes reclamos da necessidade, ser assaltado pela tentação de o fazer, mas há de sempre repelir com energia o desonroso pensamento.

      Dirão os deterministas que o sentimento de honradez é em tal caso o motivo determinante do procedimento? - Não há dúvida; mas esse sentimento não é uma força estranha imposta ao indivíduo, senão um estado da alma adquirido mediante esforços pessoais através de proveitosas existências.

      Objetarão que mesmo assim ele não é livre, uma vez que obedece a uma tendência fatal, embora nobre, da sua natureza, não gozando por conseguinte da faculdade de optar por um procedimento oposto?

      Mas essa faculdade existe, e um só exemplo, que nos ocorre, entre muitos que poderiam ser invocados, bastará para demonstrar, com a variação do proceder de um homem honrado, em sentido contrário às normas da honradez, a função do livre arbítrio, rigorosamente como o definimos, ao mesmo tempo que servirá de advertência contra os exageros a que pode conduzir o fanatismo, sempre funesto em qualquer de seus aspectos,

      Reportamo-nos a um fato do domínio público, ocorrido em Paris, nos primeiros tempos da propaganda espírita . O tesoureiro de um estabelecimento bancário daquela capital - se nos não atraiçoa a memória - convertido a nossa doutrina, a tal ponto se penetrou do sentimento de compaixão pelos necessitados e do indeclinável dever em que se acreditou de os socorrer que, não se limitando a distribuir por eles os seus recursos pessoais, como de resto lhe era unicamente lícito, de acordo com o bom senso e com os mesmos princípios da moral que acabara de adotar, foi ao extremo de lançar mão, para aquele fim, dos recursos a sua guarda confiados, vindo, em consequência, a ser processado criminalmente e assim comprometendo a
reputação de honradez que levara a vida inteira legitimamente a adquirir.

      Que se passara naquela alma? Evidentemente, em face das misérias, das necessidades dos seus semelhantes, de um lado, e do outro ponderando as suas responsabilidades de depositário de alheios bens, entendeu - é verdade que por um transviado critério - que era preferível atraiçoar estas a ser indiferente àquelas.  Escolheu assim em sua consciência os motivos que mais valiosos se lhe afiguravam, mas ninguém dirá que procedeu por coação, nitidamente definida que aí vemos a intervenção do livre arbítrio, pois que lhe seria lícito optar pelos ditames da honradez, em que, por uma tendência natural, timbrara até então.

      Menos clara, ou consideravelmente reduzida, se apresentará essa intervenção, se, prosseguindo na apreciação dos fatores que nas ações humanas intervém, nos demorarmos a considerar, não já em casos particulares, senão na generalidade, a influência do organismo, poderosa pela soma de exigências com que assedia o espírito, restringindo a expansão de suas mais nobres faculdades. Mas ainda aí cumpre observar que, se o homem é em geral escravo de seus apetites, exagerados pelo abuso, deve-o à indisciplina a que abandona a sua natureza, Porque é sempre possível a todo aquele que se propõe deliberadamente subjugar os instintos inferiores, reduzi-los ao limite extremo que comporta a estrita satisfação das necessidades naturais. E neste caso é a vontade esclarecida que se afirma, associada sempre ao livre arbítrio.

      Sem precisarmos recorrer ao testemunho que nos oferecem as crônicas religiosas do passado, relativamente aos grandes vultos de ascetas que, transfigurados aos estímulos da fé, lograram suplantar os hábitos de uma dissoluta mocidade, substituindo-os pelos rigores de uma austera disciplina, vamos encontrar na história contemporânea das conversões ao Espiritismo os mais expressivos exemplos do que pode, sobre as solicitações dos apetites e as exigências do organismo, a força da vontade ao serviço de um ideal de regeneração.

      Qual é de fato o espírita que, penetrado da magnitude dessa investidura de discípulo do Cristo, - pois que outra coisa não representa, pela adoção da nova crença, o compromisso para ele de se converter à lei cristã - qual é o espirita, dizemos, verdadeiramente digno deste nome, que desde o momento de sua iniciação não entra a reformar os hábitos da sua vida e não forceja dia a dia por se tornar sempre mais puro e mais fiel aos ensinamentos do Evangelho? E que é essa repulsa aos desregramentos dos sentidos, esse combate às imperfeições de toda ordem, num anseio de perfeição moral, pela cópia do Divino Modelo, senão a afirmação do livre arbítrio, que ora, ao menor descuido, sucumbe às reincidências nos defeitos do passado, sempre vivazes enquanto aqui permanecemos, ora pompeia vitorioso a cada vigilante esforço da vontade por subjugar os maus instintos, sobretudo se pela prece invoca o crente a proteção do Alto para resistir às tentações?

      As criaturas vulgares ignoram sem dúvida essas pelejas interiores travadas no campo silencioso da consciência, sem outras testemunhas mais que o próprio espírito e, porventura, aqueles que do invisível o observam, como desconhecem por igual o júbilo e a tristeza resultantes de tais secretas vitórias e derrotas. Familiares, entretanto, aos que seriamente se preocupam do progresso espiritual, essas mesmas alternativas, que constituem demonstrações irrecusáveis, posto que intermitentes, da intervenção do livre arbítrio, não são de todo estranhas ao comum dos homens. A única diferença consiste em que estes, para justificar os seus desacertos, coonestar os seus eclipses morais, as violências e abusos em que não raro incidem,  se desculpam com o “temperamento,” quando não buscam no que lisonjeiramente chamam o brio, o amor próprio, a legitimação dos atos condenáveis, ao passo que o crente, particularmente o espírita sabe, não somente que é sempre possível, cultivando as energias da alma, resistir às solicitações do mal em qualquer de suas formas, como lhe não é lícito sobretudo incorrer em faltas graves. Por isso, quando falamos em alternativas no proceder dos adeptos do Espiritismo, não se deve entender que possam eles atentar contra princípios de moral comuns ou contra os bons costumes, senão que, iniciados na recomendação das mais altas virtudes evangélicas, tais como a humildade, o amor ao próximo, o desprendimento interior dos bens materiais, a simplicidade, a paciência, a caridade, em suas mais sublimadas expressões, e finalmente o espirito de sacrifício e de renúncia, toda vez que abertamente infringem qualquer desses preceitos, consideram-se caídos moralmente, do mesmo modo que o menor abuso na satisfação das necessidades naturais, suscetíveis sempre de tanto maior limitação quão mais se eleva o crente na espiritualização de sua natureza, reveste aos seus olhos a significação de idêntica falência.

      No que se refere à retidão de consciência, à pureza de costumes, à abstenção de vícios são esses os primeiros, elementares predicados em que se firma todo aquele que no Espiritismo se inicia, o ponto de partida de sua completa regeneração, que melhor diríamos transfiguração espiritual. Exemplos? Mas seria preciso recordar cada um dos que, foragidos dos arrastamentos, das misérias e tentações do mundo, na iminência de perder-se ou desertar pelo alçapão do suicídio, vieram ter às regiões iluminadas da doutrina espirita, ao contato de cujos ensinamentos sentiram-se renascer para uma vida nova.

      Dentre tantos exemplos, todavia, seja-nos lícito escolher um só para documentar esta asserção, o qual, ao mesmo tempo que servirá para demonstrar a função do livre arbítrio, apoiado em nobilitantes estímulos, valerá por uma oportuna e salutar antítese do caso que: inda há pouco mencionamos.      

      Era um moço inteligente esse de quem nos recordamos oriundo de uma das mais conceituadas famílias desta capital, formado em direito, mas que, não obstante a esmerada educação que recebera, não lograva subtrair-se ao gosto das bebidas alcoólicas, ele que abusava, a tal ponto que, na própria noite de seu casamento, com grande escândalo e desgosto para todos, tanto se excedeu que terminou por ficar completamente embriagado.

      O caso se repetiu frequentes vezes durante os primeiros anos de vida conjugal, dando lugar a desatinos que eram o tormento do infortunado lar, até que um dia, ao transviado moço veio o conhecimento do Espiritismo e com ele uma tão profunda mudança de hábitos que, não somente ele se tornou o modelo dos esposos e dos pais, de uma irrepreensível solidariedade e brandura de sentimentos,  vindo a conquistar honrosa posição na carreira jurídica, como se fez um dos mais esforçados propagandistas da doutrina a que devera a salvação moral, nesse posto desencarnando serenamente há poucos anos.

      Como se vê, o que não lograram preparo científico, educação, naturalmente conselhos e exemplos, no sentido de coibir a desregrada tendência viciosa, bastou o conhecimento dos elevados ideais do Espiritismo para ajudar a suplantar. Mas esse resultado não teria sido a atingido, se para o alcançar não interviesse uma vontade esclarecida e resoluta. E não será essa precisamente a função do livre arbítrio?

      Desde que adquiriu o conhecimento da doutrina e com ele o das responsabilidades espirituais, o aludido confrade, compreendeu o horror e as consequências de sua deplorável fraqueza e deliberou regenerar-se. Ponderou de um lado o funesto prazer a cujas solicitações cedera até então, e do outro o dever, que a todos indica o Espiritismo, de construir, por seus esforços pessoais, na abstenção dos vícios e no cultivo das virtudes, o edifício de seu próprio engrandecimento moral, e optou pelo dever.

      Livremente? - Sem dúvida, pois que o livre arbítrio - mais uma vez o lembraremos - consiste em ponderar motivos diferentes e decidir pelo melhor, embora possa enganar-se muita vez a criatura e escolher o mal, que lhe agrada, em vez do bem que não conhece. Mas nesse caso o remorso - voz secreta da Providência na consciência humana - servirá de advertência. Que significa esse vago ou profundo sentimento de pesar, conforme seja ignorante ou esclarecido o indivíduo, que quer dizer o arrependimento, senão a íntima certeza de que ele era livre de proceder diversamente?

      É por essa voz interior da consciência, ora espontânea, ora estimulada pelos preceitos da Moral que lhe seja dado explicitamente conhecer, que vai sendo conduzido o espírito a fazer do livre arbítrio um emprego cada vez mais refletido, assim para sobrepujar os desregrados impulsos a que, particularmente na condição de encarnado, está sujeito, como para lutar vitoriosamente contra a pressão, quando malévola, dos outros fatores que inda nos resta analisar, a saber: a influência mesológica e as sugestões dos seres invisíveis. 


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