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sábado, 18 de outubro de 2014

Tudo depende do Espírito


Tudo depende do Espírito
Tasso Porciúncula / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Novembro 1962

            Na dolorosa época em que vivemos, há uma tendência, maior do que no passado, para desculpar certos desregramentos dos sentidos, sob a alegação de que “a carne é fraca”. A explicação real é muito diferente: qualquer vício somente domina as vontades fracas que não conseguem suportar o assédio terrível exercido sobre elas. Todos ou quase todos temos o nosso “calcanhar de Aquiles”. Seríamos rematados hipócritas se não o reconhecêssemos.

            Muita vez sofremos as consequências de uma educação moral deficiente, realizada sem método nem objetivo firme. Até hoje muitos pais ensinam às crianças que roubar e furtar são atos desonestos. Esquecem-se, no entanto, de acrescentar que todo pensamento ou ato lesivo a outrem, quer do ponto de vista moral, quer do material, é, em essência, um ato desonesto.

            Se deixamos de cumprir a nossa palavra, se faltamos ao cumprimento do dever, sem causa justificada de boa procedência, estamos sendo desonestos. Se evitamos praticar uma boa ação, se levamos a efeito uma ação má, se deixamos, podendo impedi-lo, que alguém aja em detrimento do direito moral ou material de outrem, estaremos sendo desonestos. Se, por pusilanimidade ou indiferença, permitimos que uma injustiça se consuma, estaremos sendo do mesmo modo desonestos. 

            Falhamos porque “a carne é fraca”? Não, porque o Espírito é fraco. Isto nos ensina Allan Kardec em “O Céu e o Inferno”. Será que você, leitor, já leu, estudando, essa obra magnífica de Allan Kardec? Se já a leu, voltou a rele-la para melhor assimilar-lhe os ensinamentos? Nossas interrogações não são sem base. Os livros de Kardec não devem ser lidos apenas uma vez: precisam ser relidos e estudados muitas vezes, sempre.

            Não há negar que “há casos em que o físico influi sobre o moral, tais como quando um estado, anormal é determinado por causa externa, acidental, independente do Espírito, como sejam a temperatura, uma doença passageira, etc. O moral do Espírito pode, nesses casos, ser afetado em suas manifestações pelo estado patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja modificada. Escusar-se de seus erros por fraqueza da carne não passa de um sofisma para escapar à responsabilidade. A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão, deixando àquele a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser pensante e de vontade própria”. (Da “Revue Spirite”, citada em “O Céu e o Inferno” - ed. 1949, pág. 85.)

            Devemos ter sempre em mente estas palavras de Pitágoras: “A tua justa medida será aquela que impedir que te enfraqueças.” Todos os prazeres dignos da vida devem ser fruídos com sobriedade. O mal não está no uso, mas no excesso do uso, isto é, no abuso.

            Nunca, porém, procuremos desculpar a nossa insuficiência volitiva ou a nossa deficiência moral com a expressão de que “a carne é fraca”. Ela não é fraca nem forte, porque quem a dirige é o Espírito. Quando este é fraco, os vícios crescem e a tiranizam. Devemos educar-nos para podermos dirigir e controlar os nossos instintos.

            Este é o fim da educação, que é disciplina. E disciplina necessária à felicidade humana, porque sem ela não há ordem nem desenvolvimento moral.

            Tudo depende do Espírito. Se ele é débil, a carne, isto é, os vícios, o domina; se ele é enérgico, domina todas as fraquezas da vontade, porque, nesse caso, a vontade não será fraca, uma vez que a sua fortaleza ou debilidade está na razão direta da fortaleza ou da debilidade do Espírito.


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