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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pedro Richard - peregrino do Evangelho - parte 3


Pedro Richard e sua esposa Dna. Mariana


Pedro Richard  – Peregrino do Evangelho
3
por  Indalício Mendes
Reformador (FEB) Julho 1977

Discípulo de Max

            Adolfo Bezerra de Menezes, exemplo de simplicidade e amor ao próximo, deixou na Terra extenso rastro de luz, com o seu sincero comportamento cristão. Até hoje esse rastro de luz serve de orientação para os que buscam o Cristianismo puro, sem atavios e exterioridades mundanas. O Bem é eterno, porque é fruto do amor. Um obreiro como Bezerra de Menezes, considerado, como justa homenagem à sua personalidade moral e à sua incomparável fidelidade aos deveres doutrinários - o Kardec Brasileiro, foi a bússola de Pedro Richard nos difíceis caminhos da peregrinação terrena.

            Sua admiração por Bezerra de Menezes transformou-o num fervoroso adepto dos Evangelhos, pois era neles que Pedro Richard buscava e encontrava os rumos que deveriam levá-lo à condição de discípulo humílimo, sim, mas consciente de suas responsabilidades perante Jesus. E por isso, sem a mais mínima intenção de vaidade ou orgulho, que nunca lhe entraram no coração, assinava seus escritos como "Discípulo de Max", pois Max era o pseudônimo de Bezerra de Menezes em "O Paiz", jornal austero, que desfrutava de enorme prestígio em sua época, onde colaborou intensamente, defendendo o Espiritismo e pregando a Doutrina espírita cristã. E esse "Discípulo de Max" foi, efetivamente, discípulo de Bezerra de Menezes, pois seguiu-lhe a trilha de humildade, amor ao próximo, caridade e de disseminador da paz.

            Ele, que tinha na prece o seu maior ponto de apoio, viu a mediunidade de cura desenvolver-se bastante em si mesmo, e isto a lhe permitir ser eficaz instrumento dos Espíritos que laboram incansavelmente na seara de Jesus, para aliviar os sofrimentos da humanidade.

Palavra mansa e firme

            Conhecedor, como poucos, dos Evangelhos e da Doutrina, Pedro Richard se impusera uma rigorosa disciplina de trabalho. Amigo da pontualidade, cioso dos deveres que lhe cabiam, estava sempre a postos, quer para colaborar voluntariamente na cura de um enfermo do corpo quer, pela palavra mansa e persuasiva, sempre firme, para socorrer os doentes da alma, os fracos de vontade, os tíbios e os tímidos.

            Muitas curas puderam ser alcançadas pelo Alto, através da sua mediunidade. Ao orar, sua voz assumia tonalidade comovente, principalmente quando se dirigia a Jesus e a Maria Santíssima. Quantas vezes, no curso da prece, as lágrimas lhe traíram a emoção e lhe percorreram as faces marcadas pelo tempo, mas assinaladas pela fé indestrutível. Sua força não era sua, dava a entender sempre, porque promanava da Espiritualidade. Por si só, não faria quanto fez, no apostolado mediúnico. Não era médium de se envaidecer com os resultados do seu trabalho. A humildade natural era-lhe barreira a qualquer sentimento que pudesse, ao de leve, ferir os princípios que recomendam aos médiuns a compreensão de que a mediunidade não é mais do que uma oportunidade para o trabalho de resgate que devem executar, por imposição de graves compromissos não satisfeitos no passado.

                                                                       Luz perene

            É necessário, de quando em quando, reviver os exemplos de espíritas que corresponderam à expectativa de Mais Alto. Há tantos nomes a reverenciar, não por mero culto ao personalismo, que isto não seria incumbência aceitável por quem pretende seguir a Doutrina, mas para a edificação e o escarmento das novas gerações de espíritas que devem louvar-se nos testemunhos incontestáveis desses humílimos e eficientes servidores de Jesus, a fim de não se desviarem da trilha certa que a luz dos Evangelhos aclara.

            Pedro Richard foi digno integrante da falange admirável que Jesus permitiu viesse à Terra, tendo luminares como Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, os irmãos Sayão, Fernandes Figueira, Romualdo Seixas, Geminiano Brazil, Maia de Lacerda, e tantos, tantos trabalhadores que fizeram jus ao salário divino, para assentarem os alicerces sólidos do Espiritismo Cristão. Não são as nossas palavras encomiásticas que vão valorizar a superioridade moral que esses homens eminentes construíram à custa de trabalho contínuo, sob a influência do Alto, dentro das normas dos Evangelhos e dos preceitos da Doutrina. Não. Eles estão muito acima do que possamos dizer para enaltecer-lhes o mérito. Todavia, não temos outro meio de destacar-lhes a obra, senão expandindo o sentimento de admiração e amor fraterno por tão ilustres predecessores, tão grandes perante nós, que nos confundimos com a poeira da estrada. Mas é imprescindível se diga algo do que eles fizeram, para que a conduta terrena que adotaram encoraje os que ainda não puderam experimentar o arrepio da emoção que causa a só referência a esses nomes dignos do nosso respeito e da nossa admiração, pelo que realizaram, pelo que foram e pelo que são, sem dúvida, nos iluminados caminhos do Além.

            Bittencourt Sampaio tem razão. Disse ele, numa das muitas mensagens que costuma dar no "Grupo Ismael":

            "O homem moralizado pelo Evangelho irradia de si mesmo o respeito que contém a distância a maldade humana e toda obra espírita que não tenda para essa finalidade não é obra espírita, uma vez que o Consolador não veio para ensinar somente ciência, mas ciência e moral" (sessão de 28-5-1941, médium J. Celani).

            No seu caminhar pelas sendas deste planeta, foi diuturna a semeadura que fez. Pode-se dizer que somente cessou quando a enfermidade o atingiu com a parada compulsória, determinante do retorno ao Além.

Obreiro de muitas obras

            Já dissemos que ele seguia um regime muito severo para consigo mesmo, pois porfiava no viver o Evangelho. Reconhecia as limitações humanas, sabia que a vigilância tem de ser de segundo a segundo, sem solução de continuidade, e que mesmo assim surgem hiatos traiçoeiros, perigosos como a ação do cupim, que silenciosamente realiza sua obra daninha.

            Companheiro de Bezerra, dos dois irmãos Sayão, de Maia de Lacerda, etc., primava por não ser jamais, em concerto de tamanha magnitude, nota dissonante. Substituiu o velho Sayão na direção do "Grupo Ismael". Alma mística, voltada para Deus, Jesus e Maria, transformava em ânimo e força de vontade a modéstia do seu comportamento. Não queria ser melhor do que ninguém, porém se esforçou a vida inteira para não estar entre os piores, escorado na fé e levando sempre consigo a lanterna cuja luz abençoada jamais se apaga: o Evangelho. Quando falava, parecia por nos lábios o coração. Sua palavra doutrinária tinha o poder de ficar na lembrança dos que o ouviam. Era a palavra simples do pregador que dá um recado, mas não se considera senão o transmissor da mensagem encorajadora. Nas reuniões públicas da Federação, ouvia-se lhe o verbo com a seiva da  verdade cristã. Recebera do Cristo a incumbência, dada a tantos, de ser um dos semeadores. Fazia-o sem nenhuma pretensão, mas com humildade, porque estava a serviço do Mestre, o que dava era d’Ele e os resultados que permitiriam a futura colheita também a Ele deveriam ser creditados.

            Passava horas e horas, na sede da FEB, atendendo aos que o procuravam, solicitando um auxílio, um conselho, um passe, uma prece ou uma receita. Problemas, os graves problemas de todos os dias da vida humana, eram-lhe levados diariamente, na esperança de uma solução salvadora, Pedro Richard , paciente e bondoso, vertia ternura, sempre reiterando serem devidos à misericórdia divina os benefícios que pudessem colher. Era apenas, dizia, como uma ponte, com a mediunidade que lhe fora concedida. Mas, do outro lado dessa ponte, estava Jesus, e d’Ele emanavam todas as bênçãos, todos os alívios, todos os esclarecimentos. Seu trabalho era intenso e excessivamente fatigante, mas sentia-se feliz. Mesmo em sua residência, na Rua Santa Alexandrina, 39, no Rio Comprido, dedicava todas as manhãs ao atendimento de necessitados da caridade do Mestre, dando receitas mediúnicas e até remédios, já dinamizados, tal como outrora se fazia na Federação. Auxiliava sua filha Felismina, preparando as doses medicamentosas.

            Richard tinha grande veneração por Maria Santíssima - como, aliás, Bezerra, Bittencourt Sampaio, Antônio Luiz Sayão, Guillon Ribeiro, Manuel Quintão, Wantuil de Freitas, etc. Ficava extasiado ao orar ao Espírito excelso, a quem se dirigia nas situações de maior gravidade, penetrado de contagiante e robusta fé e acendrado amor.

O testemunho de Quintão

            Em "Cinzas do meu cinzeiro", livro delicioso, escrito por Manuel Quintão, naquele seu estilo inimitável, dá ele comovente testemunho de dor, ao saber achar-se agonizante o grande amigo Pedro Richard:

            "Quando, à tarde desse 23 de outubro de 1918, regressamos exausto ao lar também improvisado em hospital familiar, disseram-me que alguém viera prevenir que o velho Richard estava agonizante, não passaria daquela noite. O conselheiro e melhor companheiro que já encontramos na vida, o maior amigo de Jesus Cristo que já se nos deparou na exemplificação evangélica - Pedro de nome e na fé - estava, efetivamente, a termo de peregrinação, longa e edificante. Não era a pandemia que o levava, era a enfermidade natural, que de há muito o vinha minando e lhe servira de pretexto a magníficas lições de humildade cristã.
            Assim o defrontamos, varonil e arquejante na sua cadeira de braços, pernas inchadas, inertes sobre almofadas e envolto num grosso xale escuro, que mais lhe destacava o semblante macilento.
            Ao avistar-me, sorriu, num sorriso luminoso de lábios contraídos... Mais que os lábios, contudo, falava-lhe o olhar translúcido. E logo nós:
            - Amigo, não viemos aqui orar por ti, mas contigo, a recordar o dia longínquo em que o fizeste pela primeira vez em nossa casa, e com lágrimas, por aquela filhinha que partia...
            E oramos, então, os dois, àquela Virgem que, dizia ele, nunca o deixara de mãos vazias e se lhe fizera, por isso, fanal único no tormentoso roteiro da vida de relação.
            Quando terminávamos a súplica, ó maravilha! - o companheiro com voz sumida e entrecortada pedia por nós, pelos que ficavam, bracejando nas trevas do mundo!
            E aquelas palavras, como que vindas de outro mundo, para vivificação deste mundo, ainda as oiço repetidamente: - obrigado... vai cumprir o teu dever...

*

            No dia seguinte, olhos enxutos e coração magoado, beijei-lhe no esquife enflorado as mãos frias e generosas... Sim, mãos que só se estendiam para suplicar, dar, abençoar..."

            Que belíssimo exemplo da alta evangelização que havia atingido Pedro Richard! As portas da passagem para o Além, ele orava, pedia, não para ele, mas pelos que ficavam na Terra, "bracejando nas trevas do mundo! Assim foi, realmente, Pedro Richard. Testemunha ocular de tantos fatos com ele relacionados, Manuel Quintão também deixou enorme bagagem de serviços ao Cristo, no campo do Espiritismo evangélico. O episódio a que Quintão se referiu acima, a respeito de sua filhinha Chicha, merece mais clara explanação. Nas páginas 372 e 373, do "Reformador" de 1.0 de dezembro de 1918, no artigo "In Memoriam", Manuel Quintão descreveu a angústia vivida ante a agonia de Maria das Dores (Chicha) , a quem amava profundamente. O estado da menina era gravíssimo, mas ele ainda alimentava a esperança de uma "ressurreição", de um "milagre". Mas nada mais seria possível, a não ser mesmo o "milagre". 

            Relembrando aquelas horas de aflição, diz ele, no artigo, ao amigo que partira:

            "O milagre, como o entendia eu no meu egoísmo cego, evaporou-se. A fé que abala montanhas não derroga leis de Soberana Justiça... Entretanto, o milagre qual o entendias se fez. Levaste ao lar aflito em alvorada de lágrimas um culto novo, e no afervoramento desse culto as nossas almas se compreenderam para sempre." Depreende-se dessas palavras do amoroso amigo Quintão que, graças a isso, o Espiritismo ficou no seu lar para sempre. Ele compreendera que as leis de Deus são inderrogáveis, razão pela qual o milagre só é possível quando não fere nem tenta ultrapassar essas leis. A quem conhece a Doutrina Espírita e já perlustrou as páginas luzentes do Evangelho, a justiça de Deus está presente em todos os instantes do viver humano. A desencarnação é um processo liberatório, porque restitui a alma ao meio de onde proviera, por imposição cármica. E Quintão, que de tudo isso já sabia, envolvera-se num imenso amor paternal. Mais tarde, em caso semelhante a que atendera, como médium, percebeu que a doente não sobreviveria à agonia cruciante, que representa o processo de desligamento moroso do Espírito: "Eu nunca vira uma agonia assim. Lembrei-me, porém, do velho Richard quando dizia: a prece é a alavanca da Fé, com que se escava a mina do céu"...

            Aí está a palavra de respeitável testemunha ocular do comportamento irrepreensível de Pedro Richard, testemunha que também deixou enorme bagagem de serviços ao Cristo, no campo do Espiritismo evangélico.

Trabalhadores da vinha...

            Foi com enorme emoção que nos dispusemos a escrever estas linhas sobre a personalidade cristã de Pedro Richard. Foi um exemplo. Justiça se faça, no entanto: ele acatava os demais trabalhadores da vinha do Senhor. Reconhecia que, fazendo cada qual sua tarefa, para um fim predeterminado; a obra progride mais depressa e com maior solidez. Todos cumpriam seu dever, porque todos sabiam que, embora na Terra, estavam empenhados numa obra de procedência divina. Companheiro de Bezerra de Menezes, que foi o seu paradigma, na marcha que encetara no Espiritismo, sempre timbrou de fazer o melhor que pudesse. Entretanto, boníssimo e tolerante, condescendente e compreensivo, era também enérgico quando necessário se tornava manifestar-se para conter um erro, sanar uma omissão ou impedir deficiências e excessos que pudessem de qualquer modo afetar a diretriz ou os créditos da Casa de Ismael. Era pronto no dizer "sim", mas era preciso e justo ao exclamar "não". Solidário e fraterno, não somente acudia aos seus compromissos, como ajudava, solicitado ou não, o companheiro que, por qualquer motivo, revelasse dificuldades. Tinha forte autoridade moral.

            Todos o queriam muito bem e nele confiavam, conhecedores da sua integridade de caráter e da sua firmeza de ação. A claridade de sua alma se refletia no brilho do seu olhar sereno.

Confraternização

            Por ocasião do Centenário do nascimento de Allan Kardec, em outubro de 1904, os espíritas não ocultavam a alegria de seus corações, pelo muito que todos deviam ao ilustre Codificador. Pedro Richard ofereceu em sua residência um jantar de confraternização, ao qual compareceram todos os representantes de entidades espíritas estaduais, além dos integrantes da Federação Espírita Brasileira. Foi um acontecimento de grande significação, de um lado porque exaltava a união dos espíritas, e, do outro, porque permitia que, em seu lar pleno de paz, pudessem os presentes expandir-se melhor em manifestações de regozijo porque, então, apesar das dificuldades, permutavam com o Alto as mais confortadoras vibrações de afeto e gratidão, não só a Deus e Jesus, como ao "primus inter pares" dos trabalhadores, que foi Allan Kardec.

A grande oficina

            Indiscutivelmente, a grande oficina de trabalho de Pedro Richard foi a Assistência aos Necessitados, sua "menina dos olhos", à qual dedicou por inteiro o seu amor. Foi ele o consolidador desse utilíssimo departamento da Casa de Ismael, quando se operou, a 25 de maio de 1902, num domingo, sua reorganização. Ali, defrontando obstáculos não pequenos, realizou ele uma das mais santificantes tarefas de sua existência.

            Embora o ano de 1904 fosse um dos mais fecundos que até então tivera a Federação, não lhe faltaram problemas criados à atividade no setor dos tratamentos mediúnicos. A repressão às práticas espíritas acossava a FEB, atendendo a dispositivos incompatíveis com o pensamento evangélico da caridade. Para se ter uma ideia ligeira do interesse popular pelos serviços gratuitos oferecidos pela FEB, basta rememorar que, em 1902, 20.549 pessoas procuraram a Assistência aos Necessitados e foram atendidas, enquanto que, em 1904, foram satisfeitas mais do dobro.

            Mesmo depois que passou a exercer outros cargos na FEB, como o de Tesoureiro, Pedro Richard não deixava de fortalecer a Assistência aos Necessitados com o seu apoio incondicional.





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