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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

2a. AntiCristo Senhor do Mundo



II. Significação emblemática da Páscoa - Primórdios do Cristianismo - Organização comunista da primeira geração cristã - Trajeto da Boa Nova, da Palestina a Roma. - Heroicidade dos mártires cristãos.

            Retrocedamos um pouco.

            Refere um dos três evangelhos sinóticos - o de Lucas - que, ao sentar-se o Senhor Jesus à mesa com os seus apóstolos, para celebrarem juntos a cerimônia da Ceia pascoal, começou por estas comovedoras expressões o seu discurso, em que se sente, como o exalar de um perfume divino, toda a ternura que transbordava de seu amantíssimo coração:

             "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa antes da minha paixão. Porque vos declaro que a não tornarei mais a comer, até que ela se cumpra no reino de Deus."

            Que alcance e que significação teriam, no pensamento do Mestre, essas palavras, que envolvem, evidentemente, uma promessa?

            A páscoa dos judeus, como é sabido, era celebrada em rememoração de sua retirada do Egito, notabilizada pela travessia do Mar Vermelho a pé enxuto, rumo à Terra da Promissão, denominada Canaã. Esse trânsito significava a libertação do cativeiro civil e, tendo como decalque o episódio humano, valia por um símbolo. Símbolo cuja significação espiritual corresponde à egressão não apenas de um povo, mas da humanidade, por ele representada emblematicamente, das esferas do mal, que a aprisiona, e sua laboriosa e acidentada ascensão às regiões da liberdade e da luz, isto é, do bem, que é seu destino. Daí a sua celebração, menos como festa cívica da nacionalidade proscrita e, enfim, dispersa e perdida para sempre em seu enquistamento fragmentário no seio de todos os outros povos, do que como cerimônia religiosa, e do máximo relevo.

            Assim também a páscoa dos cristãos, que a veio substituir e tende a cada vez mais universalizar-se. Como tantos outros episódios e parábolas referidos no Evangelho, o gesto do Senhor Jesus, a pretexto da magna solenidade anual do povo hebreu, reunindo em orno do ágape rememorativo os apóstolos, para lhes transmitir suas derradeiras, inolvidáveis instruções, envolveu, de par com o novo testemunho de amor que lhes queria dar, a intenção de erigir para a posteridade o emblema coletivo da futura raça humana, redimida pela aceitação e consequente prática de sua doutrina e assim congregada em torno de sua excelsa figura, celebrando, pelos séculos em fora, o banquete da fraternidade. Símbolo hebraico, por então, que - afirmou - nunca mais tornaria a honrar com sua presença em forma visível e humana, até que o símbolo cristão venha a exprimir-se em realidade objetiva, sob a direção de seu Espirito, presente no reino de Deus, a que se terá então, na Terra, convertido a humanidade.

            Pouco importa que a extrema lentidão com que, no sentido moral, se efetua o progresso humano, mesmo em consequência dos embaraços obstinadamente suscitados pelas forças reacionárias do invisível, autorize a previsão de que milênios hão de porventura ainda transcorrer, antes que seja atingido tal desiderato. As palavras de Jesus, hauridas nos conselhos do Altíssimo, "não passarão, ainda que passem céus e terra". Poderão aquelas forças tenebrosas, na órbita de ação que lhes é permitida pelo Criador, tolher, parcial e temporariamente, o surto da obra cristã em nosso mundo. Mas não impedirão que a sua marcha, por natureza e por necessidade, acidentada, se encaminhe à realização do plano evolutivo na Mente Divina traçado em relação à Terra e sua humanidade. Mais ainda, as próprias manobras adversas, consoante a lei do ritmo, a que obedecem os fenômenos da evolução e da vida no universo, longe de constituírem irremovíveis obstáculos, vêm, sobretudo nos períodos de transição que, por assinaladas perturbações, caracterizam o termo e a renovação dos grandes ciclos históricos, a contribuir como poderosos estimulantes para mais acentuado surto de progresso.

            Vimos que a conjuração das trevas, levando o Cristo a imolação na cruz, visou indubitavelmente aniquilar, ou pelo menos reprimir o surto da doutrina, com a violenta supressão de seu excelso Instituidor. Em lugar disso, porém, o que resultou do sacrifício do Filho de Deus, que de resto Ele mesmo previra e antecipadamente aceitara como uma fatalidade propícia à fecundação da Boa Nova, foi uma irresistível e deslumbrante eclosão de fé naqueles mesmos que, apavorados e dispersos, na hora suprema da consumação do inominável  atentado, não tardaram em reunir-se e organizar um plano de ação realizadora, tão depressa as sucessivas aparições do Crucificado redivivo lhes transfundiram no ânimo, assim retemperado, a radiosa convicção da Imortalidade, de que entraram a ser os invictos arautos pelo mundo a fora.

            A primeira delas verificou-se no próprio dia da Ressurreição, segundo o testemunho do evangelista João, unicamente a Maria Madalena, segundo Lucas, todavia, não somente às piedosas mulheres que haviam, pela madrugada acorrido ao túmulo deserto, a "buscar entre os mortos ao que vive", mas, na tarde desse mesmo dia, a dois discípulos, que se encaminhavam para a aldeia de Emaús, os quais, entretanto, só "ao partir do pão" é que o reconheceram. Dualidade de narrativa que se não exclui mutuamente, antes se completa e explica sem dificuldade pela posição dos respectivos historiógrafos em face dos sucessos.

            De todo modo, o que ressalta evidente é que, desaparecido do sepulcro o corpo de Jesus e desse fato procurou em todos os tempos a incredulidade obstinada tirar pretexto para forjar lendas de subtração pelos apóstolos, sem lograr jamais indicar o sítio em que por último teria sido, e ninguém sabe quando (1), inumado o Mestre - mostrou-se este, por quarenta dias, aos discípulos maravilhados, "falando-lhes do reino de Deus" e edificando-os com o testemunho vivo da ressurreição. E tão positivo e substancialmente necessário se impôs esse fato à consciência dos apóstolos, incorporando-se à tradição de seus contemporâneos e transmitindo-se à de seus imediatos sucessores, como pedra angular do novo credo, que Paulo, o grande convertido de Damasco e o mais ativo organizador da Igreja Cristã, numa de suas epístolas aos Coríntios resolutamente clama: "Se o Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação".


            (1) Todas as objeções, com efeito, opostas ao assombroso fato se dissipam ante a consideração de que ninguém mais que os inimigos visíveis de Jesus tinha interesse em desmascarar o embuste - se embuste houvera - do desaparecimento, seguido da ressurreição, do seu corpo, a qual, associada às repetidas aparições, tão decisiva influência deveria exercer, e realmente exerceu, na propagação da fé cristã. Apesar contudo da insistência com que os apóstolos timbravam, nas suas prédicas, em afirmar a ressurreição corporal do Mestre, nunca foram desmentidos positivamente por aqueles inimigos, que, se o pudessem, não deixariam, entre os meios de combate e as perseguições que lhes moviam, de incluir a comprovação negativa de tal fato. Não o lograram fazer. Por que? Indubitavelmente porque o corpo glorioso com que o Cristo ressuscitado se apresentou repetidamente aos discípulos e com que, por fim, "subiu ao céu", era o mesmo que desaparecera do túmulo, sem jamais ser reencontrado, o mesmo que servira aos fins do sua missão terrestre. De que natureza então era ele - ocorre agora perguntar - para poder assim, após a "ascensão", desaparecer para sempre, sem deixar vestígios, e remontar às regiões superiores, se "o que é corruptível não pode fruir a imortalidade"? 
            Os católicos e os filiados às diferentes seitas denominadas cristãs, sustentando embora a divindade de Jesus, do mesmo modo que certos crentes modernos, que a impugnam, mas aceitam o seu Evangelho, uns e outros partidários de ter Ele tido um corpo humano comum, parece não terem suficientemente meditado sobre a singularidade daquela ressurreição "em carne e osso". Como, em tal caso, teria ela ocorrido e, com ela, a "ascensão" posterior' Que espécie de corpo teria então revestido o Cristo para o exercício de seu ministério no mundo e para que, em seguida, pudesse ocorrer aquele duplo fato?
            Essa questão embaraçosa, suscitada num dos primeiros séculos cristãos e que deu lugar ao Docetismo, foi renovada em nossos dias, provocando novas controvérsias, que a seu tempo, todavia, terão que dissipar-se com o restabelecimento de todas as coisas, em seu verdadeiro sentido, relativas aos ensinamentos e à vida do Divino Mestre.

            Mas não o foi, senão que, verdadeiro aquele testemunho palpitante da Imortalidade, tornou-se ele o inamovível fundamento sobre que veio a alicerçar-se a estrutura moral do novo mundo, organizado sob o lábaro cristão, constituindo-se ao mesmo tempo o eixo em torno do qual entrou a gravitar a atividade evangelizadora dos apóstolos, o mais poderoso estímulo da intrepidez com que as sucessivas gerações cristãs afrontavam as torturas e a morte física, trocando-a jubilosamente pela vida imortal, em que tinham certeza de, por sua vez, ressuscitar.

            Recordemos alguns dos mais significativos episódios dessa incomparável epopeia.


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