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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pedro Richard - peregrino do Evangelho - parte 2


Pedro Richard  – Peregrino do Evangelho
2
por  Indalício Mendes
Reformador (FEB) Junho 1977

Lutar para sobreviver

            Numerosas atividades teve Pedro Richard de desempenhar para prover o lar amado. Foi corretor de imóveis, vendendo prédios e terrenos, lutando, cheio de coragem, a fim de que a família não sentisse as agruras que tão frequentemente ferem os lares desprovidos de fortuna. Não. Ele tinha suas convicções de que cabe ao homem entregar-se ao trabalho honesto, seja qual for, para defender o sossego daqueles que dele dependem. Não foi homem de ócios. Sua educação rígida, baseada na honradez e no trabalho, era-lhe estímulo de todas as horas. Experimentou muitos tipos de trabalho, até de horas extras, porque não o intimidavam as dificuldades. Tinha no lar a esposa que era para ele um fanal de esperança. Tinha os filhos, que lhe incutiam desmesurada energia. Um dia, improvisou-se construtor. Era mais uma tentativa que ele, espírito indômito, realizaria, dentro da mesma linha de conduta que lhe marcou a existência. Adquirira experiência a respeito e formou uma firma com o seu nome - " Pedro Richard - Construções" (parece que foi esse o dístico), com sede na antiga Rua S. Pedro (onde está hoje a Avenida Presidente Vargas), com uma oficina de carpintaria, onde eram feitas as esquadrias para consumo em suas obras. Naquele tempo, para se obter o registro de construtor era necessário apresentar declaração firmada por engenheiro civil, de que o candidato possuía real capacidade para semelhante mister. Ora, capacidade não lhe faltava, porque, curioso, ativo, empreendedor e inteligente, Pedro Richard jamais se dedicara a empreendimento pelo qual não pudesse responder.

            Faltava-lhe, porém, um título oficial para poder trabalhar nessa especialidade. Não tivera oportunidade de obtê-lo, embora fosse extremamente capaz. Veio em seu auxílio um velho e grande amigo, sócio da Federação Espírita Brasileira, de nome Abel Ferreira de Mattos, engenheiro civil de prestígio. Vencido esse obstáculo inicial, pode entregar-se de corpo e alma ao novo serviço, com o mesmo escrúpulo de sempre, pois era exigente consigo mesmo na observância dos menores requisitos. Como construtor, executou vários serviços para o Ministério da Guerra, depois de vencer árduas concorrências públicas. Fez paióis de pólvora, em Deodoro; estrada de acesso entre a praia de Charitas e o Forte do Imbuí; pavilhões para uma unidade do Exército, em São Cristóvão; reformas e adaptações de um prédio destinado ao Colégio Militar de Barbacena, e também a casa do Laboratório Químico e Farmacêutico Militar, no então Distrito Federal (Rio), afora numerosas obras para a Irmandade da Cruz dos Militares, etc.

            Não se dedicava exclusivamente a serviços contratados com o Ministério da Guerra; tinha outros trabalhos externos, também de construção. Richard era "pau para toda obra". Para toda a boa obra, é claro!

O grande sonho realizado

            Todos os grandes próceres do Espiritismo daquela época alimentavam o sonho de ver a Federação Espírita Brasileira com sede própria, pondo termo, assim, às suas "andanças", pois diversas vezes a Casa Máter sediou-se provisoriamente em diferentes lugares, quase sempre insuficientes para o seu trabalho e impróprios ao antevisto surto de progresso do Espiritismo e às necessidades novas que o movimento passaria a impor. Leopoldo Cirne, Pedro Richard , Antônio Luiz Sayão, José Luiz de Magalhães, além de outros valorosos espíritas, por certo conversaram a esse respeito muitas vezes. Mas a Federação não tinha recursos disponíveis, precisava de um local muito  bem situado, no centro da cidade, com a amplitude indispensável ao desenvolvimento, à expansão de suas atividades. Era uma ideia que ganhava corpo depressa.

            O número de correligionários do Espiritismo aumentava, a ideia passou a ocupar o pensamento de todos e não era de se esquecer o entusiasmo que ela despertava. Mas, como realizá-la? Como pô-la em prática, se a FEB não tinha disponibilidades? Como é comum acontecer com as organizações espíritas, as dificuldades são sempre vencidas, desde que haja fé a revigorar as esperanças, desde que as esperanças se nutram da convicção que somente a fé pode outorgar.

            Reuniões se fizeram para tratar do assunto. Uns poucos consideravam temerária a ideia, em tal situação; outros, porém, iluminados pela fé que remove montanhas, já sorriam ante a perspectiva de ver a Casa de Ismael em seu templo amplo, simples, mas em condições de desatar os liames que retardavam o crescimento mais ativo da Terceira Revelação em nosso país. Nada se faria precipitadamente.

            Para encurtar razões, diremos logo que o grupo mais atuante e mais decidido tomou a deliberação de lançar a ideia, esperando a colaboração dos espíritas e dos simpatizantes do Espiritismo, porém, ainda mais confiantes no amparo da Espiritualidade superior, de onde vinham estímulos progressivamente mais fortes. Necessitavam de um construtor idôneo, preferentemente espírita, que, ciente dos meios de que poderia dispor a Federação Espírita Brasileira, colaborasse com amor para a concretização do sonho admirável.

            E esse homem apareceu, estava dentro da Casa, era um dos mais devotados adeptos do Espiritismo Cristão, conhecedor profundo da Doutrina e cultor decidido dos Evangelhos:  Pedro Richard!

            Quanta luta, quanto trabalho, quantas preocupações, quanta graça provinda dos céus! Quanta colaboração valiosa dos irmãos terrenos, entre os quais os que olhavam o Espiritismo com simpatia, mas professavam outros credos! Só este fato revela uma confraternidade talvez estimulada pelos Espíritos amigos, que anonimamente empurravam para a frente a ideia grandiosa.

10 de dezembro de 1911

            Meses, meses e meses de trabalho insano, de sacrifícios sem conta, quase desanimadores, de fadigas somadas a fadigas, dias e noites acumulados. A grande obra, entretanto, prosseguia. Pedro Richard lá estava à frente dos serviços, secundando com a sua fé a fé de Leopoldo Cirne e outros companheiros. Parecia possuir o dom da ubiquidade, porque não descansava e dava atenção a todos os pormenores, compreendendo que a grandeza de uma obra depende essencialmente de determinados detalhes preciosos.

            Tudo pronto, a alegria dominando todos os corações, a imprensa registrando o fato com irrestrita simpatia, como será fácil comprovar pelos documentos existentes nos arquivos da FEB, antes e depois da grande cerimônia inaugural, eis que, a 10 de dezembro de 1911, há 65 anos (hoje 103 anos), portanto, na Avenida Passos, que constituía a artéria mais notável do Rio, depois da Avenida Rio Branco, erguia-se, imponente em sua simplicidade, impressionante na austeridade da sua "fisionomia" arquitetônica, a sede própria da Casa de Ismael!

Vozes de Festa

            O contentamento que lavrava naquele oásis de Espiritualidade encontrava consonância com o júbilo demonstrado pelos Espíritos, porque a grande obra não era só humana, mas principalmente espiritual. O acontecimento teve enorme repercussão, como não poderia deixar de acontecer. Os jornais registraram o fato com palavras de apoio à Federação Espírita: Brasileira, que se apresentava, desde então, ao mundo dos vivos, com um templo espaçoso, aberto de par em par, ostentando no alto de sua fachada todo um programa de ação superior, consubstanciado nestas três palavras eloquentes: DEUS - CRISTO - CARIDADE.

            Pedro Richard considerava que a vitória fora de todos.

            José Luiz de Magalhães (pai de Ivo de Magalhães, atual membro do Conselho Superior da FEB), espírita atuante, tanto que foi secretário de Diretoria na administração de Leopoldo Cirne, seu íntimo amigo, como o foram, do mesmo modo, Pedro Richard, Manuel Quintão, etc.; poeta inspirado, sentiu a alma estremecer de gozo divinal e produziu em versos sublimados de inspiração (ao ser inaugurado o edifício da Federação Espírita
Brasileira), os sonetos

                                                                       VOZES DE FESTA

                                                                                   I

            Deus, Cristo e Caridade! Horas secretas
            Da gênese insondável do infinito,
            Cataclismo de mundos de granito,
            Nebulosas de sóis - errantes setas;

            Almas da noite lúgubre inquietas,
            Almas cruzando pelo azul bendito,
            As cismas do filósofo precito,
            Aos encantados sonhos dos poetas;

            Sarças de fogo da soidão (1) divina,
            Caniço do deserto posto ao vento,
            Parábolas de luz da Palestina;

            Água lustral dos mártires da Terra,
            Óleo santo de vida e pensamento:
            Deus, Cristo e Caridade - tudo encerra.

                                                                       II

            Desta casa - hospital, templo e oficina,
            P'ra rotos e famintos saciar,
            E a multidão qu'evoca peregrina
            Dos sedentos da luz desalterar; (2)

            Na fachada, bem alto a s'ostentar,
            Da casa (que o trabalho, lei divina,
            Propiciatório a todos vem lembrar) :
            Fé e amor e humildade o lema ensina.

            Basta! E agora este voto dirijamos
            Aqueles cujos nomes veneramos:
            Que tu, bom Guia - ó Ismael! assim

            Em novas forças nosso empenho mudes,
            A Deus rogando na amplidão sem-fim
            Do estelífero (3) sólio das virtudes."

(1) Soldão - forma arcaica do vocáabulo "solidão".
(2) Desalterar - matar, mitigar, aplacar a sede.
(3) Estelífero - que tem estrelas. Fig. Que tem pintas como estrelas.

            Dois belos sonetos, emersos do recôndito da alma sensível do poeta espírita cristão, que retratariam, como retrataram, o esplendor da grande festa espiritual daquele dia memorável.

            A exemplo do que sempre sucedeu, em ocasiões marcantes do nosso movimento espírita e da trajetória da Casa de Ismael, não faltariam, como realmente não faltaram, às solenidades confraternativas de 10-12-1911 a presença e a palavra dos nossos companheiros do "País de Camões". Coube, por Isso, ao querido médium Fernando de Lacerda, então entre nós, encerrar a série de alocuções, congratulando-se com a Federação Espírita Brasileira, saudando-a em nome dos Espíritas Portugueses.

O descanso do trabalhador é o trabalho
                                                                                                                 
            O iluminado e bondoso Guia Ismael, preposto de Jesus em terras de Santa Cruz, tinha agora o seu templo material, não para a exaltação pomposa das vaidades humanas, mas para a irradiação contínua, ininterrupta, de bênçãos sobre a humanidade que luta e sofre, que se inquieta e desespera, para que receba o bálsamo santificado do Mestre Nazareno, que realiza na Terra o mandato do Bem outorgado por Deus.

            Pedro Richard, como seus valorosos companheiros de ação, compreendia que, depois desse grande passo, o Espiritismo exigiria o máximo do máximo, porque não se fizera a sede da Casa de Ismael para contemplações estéreis. Não. Ela constituía o marco de uma nova era, a continuação de uma obra que só tenderia a crescer, como tem crescido, como está crescendo, como crescerá hoje e sempre. Não se erguera uma casa tão grande, para a época, à custa de inenarráveis esforços e sacrifícios, para embasbacar o vulgo. Não! A Casa de Ismael não seria, como não será jamais, apenas um templo de pedra, um sarcófago de dogmas ininteligíveis, um pedestal para a ambição de ninguém. E os fatos o têm provado.

            A Federação Espírita Brasileira tem um destino traçado na Espiritualidade. Ela existe na Terra para servir aos homens, mas para servi-los na conformidade dos mandamentos do Cristo, para despertar-lhes a necessidade da paz da consciência, da alegria da alma, através do Amor e da Caridade, que são expressões sinonímicas de um mesmo sentimento alevantado. Existe como templo de paz, de fraternidade, de tolerância objetiva e de farol para os que, perdidos na vida pelas paixões malsãs ou arrastados pelo vendaval desencadeado pela Treva, possam reencontrar-se, recuperando-se, reerguendo-se, trocando um passado triste e talvez delituoso pelo presente de trabalho reconstrutivo, de recuperação fecunda para se assegurar, sem dúvida nenhuma, um futuro redentor!

            O templo de Ismael não vale pela estrutura material, mas pelo que de espiritual reveste e abriga essa estrutura. Bittencourt Sampaio, outro notável espírita, que fez dos Evangelhos o alimento díário de sua alma evoluída, ao referir-se à samaritana, à beira do poço, dá-nos este poema de ternura, encontrável em "Jesus perante a Cristandade", valiosa obra há pouco reedltada pela FEB:

            - "Dá-me de beber - disse o Divino Mestre; e a mulher, cheia de assombro, pergunta-lhe como, sendo ele judeu, pedia água a uma samaritana.
            - Se tu soubesses quem te pede de beber, tu me pedirias, e eu te daria da água viva.
            - Como, Senhor - diz a mulher -, o poço é fundo e não tens com que tirá-la! Serás tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, sua família e seu gado?
            - Aquele que beber dessa água terá sede - responde o Divino Mestre -, mas aquele que beber da água que eu dou nunca mais terá sede, e essa água virá a ser nele uma fonte que salte para a vida eterna."

            E prossegue:

            - (...) "o verdadeiro templo, a verdadeira igreja é o coração do homem, sendo os seios da alma o verdadeiro tabernáculo donde a criatura tira o incenso das orações, no aroma da flor dos belos sentimentos, para elevar-se ao seu Criador, a N. S. Jesus Cristo, o guia, o protetor, o governador deste planeta.
            Não; Jesus não compreendia, nem nós podemos compreender, que as criaturas, rendendo culto e homenagem a um Criador, odiassem a seus pares, a seus iguais, por uma simples divergência de exterioridades religiosas. Ele não compreendia que aquele que crê sinceramente em Deus, faltando aos preceitos da verdadeira fraternidade, pudesse, pelas simples fórmulas da sua crença, anatematizar e condenar a seus irmãos, em vez de se lhes procurar impor pelas virtudes, pela moral evangélica, enfim, por todos esses sentimentos que atraem para a criatura a atenção, a admiração e o respeito dos seus semelhantes."

            Aí está. A sede da Federação Espírita Brasileira é apenas uma referência, na Terra, dos desígnios do Senhor Jesus. É um como que oásis no imenso deserto materialista que Identifica o mundo de hoje. Nela, como em toda casa espírita realmente digna deste nome, o viandante aflito e cansado pode encontrar também a paz que procura e saciar a sede que o atormenta, sem que se lhe pergunte de onde veio, para onde vai, o que é, o que pensa, se é dessa ou daquela fé, se é dessa ou daquela filosofia.

            Todo ser humano é bem-vindo na casa de Ismael e em todas as casas espíritas, porque sobre elas paira, com as mais fortes vibrações de amor, o lema de Ismael: DEUS-CRISTO-CARIDADE!

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Sedes da FEB

            No corpo do artigo mas destacado em relação a esse são listados os espaços ocupados pela FEB até a inauguração de sua sede própria:

Em 1884 - Rua da Carioca, 120
Em 1884 - Rua da A1fândega, 153
Em 1886 - Rua do Hospício, 147
Em 1887 - Rua do Hospício, 102
Em 1888 - Rua Clube Ginástico, 17
Em 1888 - Rua do Regente, 19 - 29
Em 1890 - Rua da Imperatriz, 83 - 29
Em 1891 - Largo do Depósito, 54 - 19
Em 1891 - Rua da Alfândega, 342 - 29
Em 1899 - Rua do Rosário, 141- 19
Em 1903 - Rua do Rosário, 133 (antigo 97)
Em 1911- Avenida Passos, 28 e 30
Em 1924 - Avenida Passos, 28, 30 e 32.

NOTA - As Ruas do Hospício, Clube Ginástico, do Regente e da Imperatriz chamam-se,
hoje (1977) , respectivamente, Buenos Aires, Silva Jardim, Gonçalves Ledo e Camerino. O antigo Largo do Depósito é, atualmente, a Praça dos Estivadores (Onde fica hoje?).
            Em muitas das ruas acima, os números dos prédios são presentemente (1971) outros.


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